domingo, 30 de setembro de 2007

OLHOS FRESCOS




"Olha... pra cá! Assassino de criança... " Praguejou Capitão Cruz antes de alvejar o peito do adolescente vulgo PT (traficante, segundo a Inteligência) com três dos quatro disparos.

Horas depois receberia, eufórico, a notícia de que sua filha, Ana Clara, seria finalmente beneficiada com a córnea doada pela família de um jovem assassinado por traficantes.

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sábado, 29 de setembro de 2007

O tempo



No mundo distante
As marcas das batalhas
Ficaram em algum lugar
Ocultos nas ruínas
Os segredos das tradições
Foram guardados nos mesmos lugares
Entre rostos irreconhecíveis
De palavras não ditas
Os dias passaram
E mergulhados na mudança
Os destinos serão traçados
Em uma história sem volta
Novamente, a dança mostrará
O que você não viu
E a vida consumirá
O que você não sentiu
A caminhada será trilhada
Na procura dos mistérios
Escondidas pela magia
Que só o passado saberá encontrar

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

de medusa que costura insanidades


















Náusea
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Arrasto-me e alguma coisa sussurra:
“Hoje a noite não será pura”
Gargalho com pétalas esmigalhadas na mão
Rio porque já conheço essa frase
Mergulho porque bem sei da danação
Alucino bocas podres
Elas querem dizer algo
Mas se desfazem...
Por favor, não prenunciem o mal!
Estou cansada e suja, sempre maldita
Na boca do lixo, comendo restos de sonhos
Escrevendo cartas para meu amigo invisível e medonho
Que nem sequer ler sabe
Mas sabe gritar no meio da noite
E atear fogo nas cartas, sem sequer abri-las
Adestrou-me no pequeno delito
De roubar flores no cemitério carnal
E oferecê-las á damas mafiosas e petrificadas
Macumbeiras do dizer e do amar
Alquimistas da beleza secreta
Escondida nas coisas mínimas
E quando desmaio ao relento
Ou vomito ao pé do escatológico
Há um altar para tudo isso
Até para carcaças, cantigas de piratas e olhos esbugalhados
Voodus, nojeiras e coroa de punhais
Tudo isso faz arder
Brilha frenesi...
Ave puta, ave palavra, ave náusea!
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Rita

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

As luzes do ônibus

Martin, o motorista daquele ônibus, estava nervoso. Nunca havia feito nada parecido, não tinha noção do cuidado e da atenção que isso exigia. Apenas concordou com a idéia porque precisava muito do dinheiro. Agora que a esposa esperava gêmeos, a situação financeira necessitava de um auxílio, algo que garantisse o sustento dos filhos que já nasceriam em menos de um mês.

O plano era gastar a quantia que recebesse, somente depois de passadas dez semanas, para evitar as suspeitas sobre ele. O esquema era após o ônibus passar por baixo do segundo viaduto, o motorista ascenderia e apagaria as luzes do veículo quatro vezes. Esse seria o sinal. Logo então deveria alegar aos passageiros que havia um problema com os freios do ônibus. Com isso todos deveriam descer e trocar de veículo.

- Eu vou perder minha novela – disse a passageira mais velha.

- Calma senhora, tudo vai acabar bem – respondeu o motorista.

O mais complicado para Martin era saber que todos o conheciam. Todos sabiam um pouco da sua vida. A esposa grávida e a situação difícil que ele se encontrava. Os passageiros foram transferidos para o primeiro ônibus que passou, o segundo veículo envolvido naquele que seria o maior e melhor seqüestro já realizado por motoristas de ônibus.



*rápido, simples e sem o menor sentido

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O paciente

O Paciente

Acordou cedo, como de costume, e deixou as trinta e sete bolinhas coloridas em cima de sua mesa de trabalho doméstica; todas alinhadas metodicamente por cor e tamanho, mais parecendo um jogo infantil inocente.

Tomou seu café solitário, saboreando-o pouco a pouco, como se fosse o último. Seu pensamento vagou por entre as paisagens de sua infância na fazenda, onde o cheiro de café torrado tomava de assalto seu sistema nervoso central; anos depois, esse aroma continuaria impregnado em sua mente.

Gostava tanto daquele líquido negro, adquirido a partir de um simples pó, como uma verdadeira alquimia, que, às vezes, imaginava ser a única privação na terra capaz de fazê-lo sofrer.

Maneou a cabeça para voltar à realidade, pegou sua maleta e tomou o metrô até seu consultório no Centro do Rio de Janeiro, seguindo absorto em seus pensamentos desconexos.

Atendeu o primeiro paciente, sob os raios de sol da manhã; um esquizofrênico-mitômano em estado avançado, que durante anos enganou a própria família, dizendo-se piloto da força área. Não se sabe como, mas até o uniforme da FAB, a criatura possuía.

Enquanto o homem falava seus devaneios, o médico começou a perscrutar sua mente, iniciando um discurso interior, onde indagava-se: “Acaso, não seria eu próprio um esquizofrênico?” E respondia: “ Não, não criei para mim nenhum mundo paralelo, apesar de odiar o que vivo. Nem isso eu tive a criatividade de fazer! Talvez ele viva melhor que eu!”

Atendeu o seguinte: um bipolar em surto que alternava, em lapsos temporais curtíssimos, os intervalos de euforia e tristeza, em uma oscilação de humor insuportável.

Novamente tornou a perguntar-se a respeito desta última patologia, mas descartou a idéia, afinal seu ânimo era sempre tão retilíneo e constante. Assim, descartou as psico-patologias, enquanto despachava o sujeito à hora do almoço.

Tomou a rua e caminhou até uma Praça no Largo da Carioca, sentando-se no último degrau, ao lado da população marginalizada habitante do local. Observou, com olhar perdido, as árvores em estilo de bonzai que tanto gostava, enquanto ouvia o arrulho dos pombos sem-vergonha que teimavam em invadir sua privacidade.

Pensou em sua vida, lembrou-se da infância reprimida no interior, onde sua família teimava em invocar Deus para as bonanças e o Diabo para as desgraças. Hoje, ateu, definia o bem e o mal como estados da própria consciência, sem manifestações sobrenaturais.

Deparou-se com o sonho infantil de participar de um baile de carnaval vestido de odalisca. Riu sozinho, quando lembrou a realização do feito, em sua primeira ida ao famoso baile gay do Scala, vestido a caráter. Definitivamente, nunca fora tão feliz, como naquela época.

Naquele mesmo dia, conheceria seu grande amor, com quem dividiria trinta anos de longa estrada. Três semanas após sua morte e a vida parecia um pesadelo!

Era a primeira vez em toda a sua existência que ele alternava seu rumo, decidindo entrar em uma Igreja em meio à turbamulta. Sentou-se e chorou desconsoladamente, por trás de seus grandes óculos escuros. Culpou um Deus inexistente pela falta de seu parceiro.

Retornou ao lar mais cedo que o previsto, emparelhou as bolinhas uma a uma, relembrando mentalmente, o efeito que cada uma produziria em seu organismo e o que todas juntas representariam. Repassou mais uma vez a vida, certificou-se de que todos os seus pacientes estavam a salvo de um suicídio e levou à boca o copo com água.

Contra sua vontade, o incalculável aconteceu: o tilintar do telefone o interrompeu. Sua metodologia o impediria de deixá-lo tocar despudoradamente. Poderia ser importante, mas o que seria mais importante que ele naquele momento crucial? “Tudo”. Pensou.

Atendeu. Uma voz vibrante do outro lado, fez-se escutar: - Pai.
Respondeu:
-Filho. Tudo bem?
-Tudo, pai. Tô com saudade. Depois que meu outro pai morreu, eu só tenho você no mundo. A colônia de férias tá um saco. Posso voltar hoje? Você vem me buscar?
-Claro, filho. Claro.
-Pai, te amo muito.
-Eu também.
-Vem logo.

Enquanto falava, inadvertidamente, fora jogando os entorpecentes um a um dentro da água, formando um caldo groso e vicoso que ele derramou ao pés de seu bonzai de estimação. Nem se deu conta da besteira que fez e pensou, enquanto batia a porta: “ Ah, É mais forte que eu, há de agüentar. Além do mais, ele não tem sistema nervoso.”

25/09/07

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

BANDO DE RESPONSÁVEIS!

Está na boca do povo. Certamente, vocês já ouviram falar do fenômeno responsabilidade social. Eu penso que muitas empresas mudam da água para o vinho, quando se trata deste assunto. Não sei se é para inglês ver... mas elas estão se mostrando preocupadas com o desenvolvimento sustentável e com os aspectos sociais, estão envolvidas com marketing social. Tenho minhas dúvidas... será essa tendência uma faca de dois gumes?

Eu já li nos jornais que os consumidores buscam por produtos e serviços de empresas socialmente responsáveis. Do fundo do meu coração... espero nunca ver nas manchetes de jornais: nomes de empresas que influenciam o consumismo, através do rótulo responsabilidade social, nem tão menos, que a solidariedade se tornou um valor de mercado ou moeda de troca.

A partir deste contexto, geram-se várias opiniões contrárias ou parecidas com a minha. Ora, vive-se em um país corrompido pela estupidez humana, pelo mau uso do dinheiro público, pela violência e pela degradação do ecossistema.

Não consigo entender porquê de a população ter que doar para as campanhas do menor abandonado e contra fome realizadas por emissoras de TV. Aproveitam-se do sentimento, "solidariedade" para tirar o dinheiro suado do bolso dos brasileiros em prol de campanhas que, muitas das vezes, não têm um destino certo. Essas redes de televisão sabem manipular os pensamentos da sociedade, sempre colocam artistas, que estão na mídia, para motivar pessoas fazer doações.

Gente, os representantes políticos ganham bem para defender tais causas. Por que o Estado não o faz, se pagamos impostos? Ah! é porque somos tolerantes. Sabemos digerir bem promessas eleitoreiras.
Tem mais... luta-se contra exploração sexual, mas vendem-se relatos de momentos de prostituição de forma banal. Armas e drogas circulam livremente pelo Brasil. É triste, mas, é real, este país não é sério. Quando algum político corrupto apodrecer atrás das grades, por favor, avisem-me!

O que dizer então dos produtos como camisetas, broches, adesivos, mochilas etc. das campanhas do momento. Sim, somos persuadidos a consumir. Isso coloca o marketing em “xeque” da seguinte forma: como diferenciar um marketing de negócios, para o marketing social? Teoricamente eles são diferentes, enquanto o primeiro visa o lucro, o segundo visa serviços de interesse público bem como promover a cidadania. E na prática, quem garante que as empresas cumprem as escrituras?

Não sei, e, nem quero saber se você liga para os “0500”, “0300” e afins para fazer sua boa ação. Se depender de mim, vão morrer de fome todas as operadoras de telefonia, ou você pensa que somente as pessoas carentes se beneficiam?

"Se beber, não dirija!"

Este texto é da autora Lena Casas Novas. Faz parte da Obra: A Banda do Marketing.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ruminar


- Não posso estar aqui só pra me preocupar em ruminar, existir precisa ser mais do que isso! – mal terminou a frase e uma bala atravessou seu crânio.

- Estes baderneiros parecem não aprender nunca... – resmungou o administrador local, enquanto recolocava o revólver no coldre e previa o trabalho que daria limpar mais aquela enorme poça de sangue.


THORPO




sábado, 22 de setembro de 2007

Quem são os verdadeiros hereges?






A cruz que a beata reza
E dobra os joelhos a pedir
Tem sido a cruz de tantas guerras


Contradições do que dela se prega

Por ela fogueiras se ergueram
Vidas e vidas pereceram
Mulheres por serem deusas
Queimadas covardemente


Foram Marias, Brancas e Neuzas.

e a contradição prossegue
na cruz que o amor rege
em nome de Deus...
A paz dizimada
nas mãos da hipocrisia.

Quem são os verdadeiros hereges?

(Sirlei L Passolongo)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Viagem / Dinâmica






Sonhos do homem que voou
Para além das fronteiras do tempo,
Para além de todas as manhãs.
Pode ver estrelas, poeiras estelares,
Anéis de asteróides, quazares, cometas,
Além de poder navegar pelo espaço.
Apenas não pode ver e ouvir os pássaros
E outros animais, os vales, as montanhas,
As árvores e os riachos.
Também não pode ver e ouvir o mar,
E nem os sonhos de um planeta que deixou para traz.


Meus sonhos, meus versos, universo.
Meu mundo, meu tudo. Eu sou.
A busca com o mar, fertilizando a terra,
Me alimentando o desejo de voar.
Na busca da vida, faço parte do fraco e do forte.
Tenho sorte de estar neste lugar.
Terra, planeta da vida, solto no espaço.
Meu Ser, meu corpo, meu êxtase, meu traço.



Ilustração: foto da NASA.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Convidada: Ana Paula Maia

Teu sangue em meus sapatos engraxados


"Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama, em lama se lavasse."
Aristócrito

Eu tive um dia cujo sol foi da cor do desespero e a lua, a lua está embaçada e um tanto desgastada, e não tem outra opção senão refletir a luz do sol, e outra vez há mais desespero sobre minha cabeça. Ainda bem que não preciso matar a lua ou o sol todos os dias, mas se tivesse, eu resplandeceria a sua cor.
Sigo calado, esgotado e embaçado como a lua que esforça-se por desaparecer. Certamente, se vivesse nas alturas eu desapareceria quando as coisas atingissem essa tonalidade.
Cutuco o nariz nervoso, porque posso sentir resíduos de pó agarrado nos pelos; do punhadinho do pó branco depositado sobre a mesa do quarto, aquela pequena montanha mágica que desci esquiando por suas depressões, esquivando-me de suas falhas. Com o cabo da colher, a montanha transformou-se em trilhas paralelas e consegui construir três fileiras curtas. Trilhas breves, limitadas como a vida para algumas pessoas.
Tapo a narina direita e arrasto como um porco o focinho sobre a mesa. Absorvo o estado bruto da liberdade, da mudança e apago da mesa os três caminhos que criei, e já não há mais caminhos ou rastros, eu os absorvi e tornei-me o próprio, o dono de minhas trilhas.
Isso pode ser daninho e doce feito mel apodrecido em dias com o sol da cor do desespero. Estou com fome e devoraria qualquer substância orgânica nessa hora. Não me lembro de ter comido nada durante todo o dia. Talvez agora tivesse um almoço. Nu.
Através de uma janela pouco maior que minha televisão vinte polegadas, no centro da sala é onde vejo meu tempo escoar. Ter um horizonte com menos de vinte polegadas não deve ser o sonho de ninguém e só entendemos isso quando nos acordam. Um terrível pesadelo é ótimo para te fazer acordar. O sono da razão pode produzir monstros, mas o sono da inabilidade pode te paralisar. As imagens ali são sempre do meu próprio tempo acelerado, um desperdício. Prefiro os monstros. Sempre os preferi e comecei a me afeiçoar a eles, meus monstros entranhados no lago do meu espírito, tão sombrio que quando retorno à superfície, o ar rarefeito me deixa anestesiado.
Não falo de amor ou ódio, falo dos monstros que me deixam acordado. Que me fazem avançar, sombras que me perseguem, rastejando, tentando abocanhar meu calcanhar. E eu posso sentir a nuvem de fuligem espessa armazenada sobre minha cabeça. É a lua, entende? Esse maldito satélite sem luz própria que traz o desespero do sol, do péssimo dia que tive. Quanto mais eu ando, mais percebo que a lua corre depressa. Não dá para alcançá-la e as estrelas já estão mortas... brilham, mas não existem mais. Mortas imortais vivendo a morte de uns, morrendo a vida de outros tantos.
Olho para meus pés e vejo que esqueci de trocar os sapatos. Meus sapatos manchados de sangue que secou faz tempo, quando ainda fazia sol e quando eu ainda pensava se devia ou não matar aquele monstro. Monstros que te acusam, que te amam e te esquecem, que te fazem sofrer, mas não falo de amor, isso não cabe em minhas linhas, nem no meu coração ou no mais profundo lago do espírito. Pouca coisa cabe aqui e quando me sufocam eu afundo tudo para o lago, na parte mais sombria e esquecida, depois lavo minhas mãos, troco meus sapatos e o sangue é sempre lavado, levado pelas águas
Os monstros são daninhos e doces feito mel apodrecido, alguns o chamam de amor ou ódio, para mim mel estragado. Frias mandíbulas trituradoras no seu encalço. Não deixaria que alguém me fizesse isso de novo, te esquecem e te fazem sofrer. Eu a quero ainda, e só consigo pensar que meus sapatos carregam um pouco dela. Suas hemácias ressecadas. E por todos os lados eu a vejo como sombras se cruzando, mas a culpa é da lua que insiste em manter tudo aceso. Eu posso fazer novamente, afogar mais alguns monstros até que as nuvens decidam escondê-la, eu posso avançar mais alguns passos enquanto suspiro minha possível maldade.
Nunca me arrependo. Sempre sigo em frente, tossindo pedaços do meu pulmão doente, embalado por bebida barata. O caos da expansão do meu microcosmo, esse tipo de necessidade meramente humana. Predadores não tiram férias, resvalam na consciência de um possível ajuste, mas nunca deixam de acossar.
Seu sangue em meus sapatos engraxados ontem; estavam limpos e reluzentes como fazia o sol quando você derramou-se sobre eles. E ainda a vejo e continuo avançando sobre as sombras que me cruzam e cortam feito navalha, na carne e na alma, mas nunca falo de amor, só do mel apodrecido que ela deixou na minha boca. Já estou tão perto que já sinto o perfume dos monstros e eles ainda não sabem, mas vão lavar seu sangue dos meus sapatos.
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Ana Paula Maia publicou "O Habitante Das Falhas Subterrâneas" (ed. 7 letras _ romance/2003). E o romance “A Guerra dos Bastardos” (ed. Língua geral). Participou das antologias "25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira" (ed. Record/2004), Sex´n´Bossa (ed. Mondadori _ Itália/2005), Contos sobre Tela (ed. Pinakotheke/2005), Sexo, Drogas & Tralalá (ed. 7 letras_microcontos/2005).

Publicou no site www.folhetimpulp.blogspot.com, em 2006, o Primeiro Folhetim Pulp da Internet Brasileira, chamado "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos". E em 2007 o segundo folhetim pulp: “Barbudos Cretinos e suas histórias canalhas” no site (www.barbudoscretinos.blogspot.com) .

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Sobreviver é a opção?

Abriu a porta, olhou para fora, o tempo parecia sorridente e mesmo assim algo anunciava tristeza.
Vestiu um vestido leve, penteou os cabelos, a boca doía quando passava o batom – vida dura a de prostituta.
Os seios um pouco flácidos não estavam bem com o decote longo, trocou de roupa, tinha que estar bem apessoada para o almoço às 13 h. Tinha a leve elegância de uma gazela.
Desceu os degraus do velho prédio, sua beleza era a única coisa que alegrava aquele ambiente. Sorriu ao porteiro um sorriso daquele que confirma: não esqueci que o devo, mas agora tenho pressa.
Na rua olhares seguiam os seus passos e outros com olfato mais apurado respiravam o seu cheiro e logo sentiam o desejo de sexo arder. Ela nem percebia. Seduzia apenas como se fosse a natureza a anunciar que era estação de flores.
Parou com uma criança que queria saber como estava Carlinha:
__Querida, hoje liguei para o hospital, ela deve passar por outra cirurgia e não estarei lá novamente.
Os olhos azuis pareciam mar bravio. Seguiu pensativa olhando os carros parados nos sinais. Não compreendia como a vida podia ser tão fácil para alguns e tão amarga para outros. Parou no Bar do Zé para tomar alguma coisa, precisava alinhar as idéias. Da mesa ao lado era possível ouvir a voz bem conhecida de Felipe:
__Quem ela pensa que é? Dei a ela o que uma mulher deseja, ensinei a ela como amar, como se despir para um homem. Era apenas uma menininha frágil, dei a ela o dom do brilho e agora sai com bacanas e me deixa de lado.
O amigo rindo comentou:
__ Meu caro, as mulheres são assim, não vivem só de sexo e também não vivem sem ele. É preciso maturidade para lidar com elas.
__Maturidade para comer uma piranha? Uma filha da puta que somente nos acelera pelo prazer que consegue nos arrancar? Acha mesmo que eu seria capaz de tratar bem uma vadia que desce a calcinha para o primeiro pinto endinheirado que surge a sua frente?
__Os homens esquecem o raciocínio quando levam um pé na bunda. Esqueça ela, parta para outra.
E disse isso coçando o saco como se não tivesse nem aí para a conversa já que via que a bela ao lado os olhava fixamente. Ensaiou um olhar daqueles capazes de derrubar uma naja. Se fudeu, ela era uma pantera.
__É meu amigo, não sei o que anda acontecendo com as mulheres. Algumas demonstram querer apenas sexo, outras somente amor e ainda tem aquelas piores que querem ambos. Bom mesmo é ter grana e pagar pela foda.
Ela bem pensou em dar o troco, dar uma boa chupada no amigo do seu ex ao sair, mas saiu deixando o desprezo aos dois.
__Era ela, a miserável.
__O que? Falava da moça ao lado? Meu filho lute, corra atrás. Por uma mulher daquelas eu seria capaz de dar a vida.
__Quero mais é que ela morra embora eu a ame e saiba bem disso o meu coração.
No fundo não era isso o que ele queria, o seu orgulho ferido é que desejava coisas que ele jamais deveria sequer ter pensado.
Agarrou o salto em um paralelepípedo, praguejou um pouco, estava quase ficando atrasada para o seu ganha pão.
Ao longe um senhor gordinho, entre seus 52 anos acenava para ela. Algumas vezes era difícil ter que encarar o que a vida oferecia, mas era o seu ofício. Ela entrou no carro que tomou uma direção desconhecida, andaram um pouco e chegaram em um local deserto.
__Fui contratada para um almoço com um executivo, para onde o senhor está me levando?
O homem mantinha-se calado. A expressão no rosto parecia tensa. Ela trêmula o acompanhava. Um prédio abandonado. Entraram no elevador que emitia sons estranhos. Ele apertou o botão para subir, último andar. Quando a porta se abriu, uma surpresa: Uma mesa posta e dois lugares. A cobertura totalmente limpa e bem decorada.
Almoçaram, deitaram um pouco e ele perguntou sobre o tipo de vida que ela levava. Ela contou das dificuldades, do casamento falido, das marcas que trazia no corpo e tudo isso para sustentar a filha já que seu diploma de Filosofia de pouco ou nada lhe servia, de como era vista pela sociedade, de como era discriminada quando alguém a reconhecia, do medo que tinha de ser violentada já que estava sujeita a tudo e das facilidades que a profissão lhe garantia, apesar de ser ‘trabalho pesado’.
Ele ouviu e depois a tocou entre as pernas, era úmida e quente, afastou um pouco a calcinha e começou a chupá-la delicadamente e pouco a pouco com mais força. Ela empurrava sua cabeça, queria libertar-se, sentia asco.
Ele a amarrou na cama e começou a masturbá-la com os dedos. Ela gritava, relutava com o que estava acontecendo. Instrumentos de alvenaria, encontrados a um canto da cobertura serviram como pênis. As horas passavam e ele seguia a violentá-la sem penetrá-la com o seu sexo.
Ela implorava que ele a deixasse. Quase desfalecida ele a desamarrou e sentou-se de frente para aquele corpo com um fio de vida.
__Garota, há coisas que passam pela cabeça de um homem que uma mulher não imagina. Você luta para cuidar de sua filha, eu, impotente mantenho a aparência de um chefe de família. Tenho desejos e o caralho não funciona. Aqui está o seu pagamento.
Jogou sobre a cama algumas notas e preparou mais um drinque e se debruçou na mureta da cobertura.
Ele ria:
__Sabe? Mulheres como você que se vendem com desculpas esfarrapadas para um pouco de sacanagem não merecem mais que a sacanagem fria e grossa.
Ela tentou se levantar da cama. Sangrava, A alma doía. Tinha vergonha do ser em que havia se transformado. As ruas haviam modificado a sua personalidade, corrompido os seus sonhos. Olhou para aquele homem como se ele fosse um animal do qual ela precisava se livrar. Em um impulso, um momento de fúria se atirou contra ele e o empurrou prédio abaixo. Viu o corpo caindo. Sentiu o maior prazer que já havia tido em sua vida, com a voz fraca disse:
__ Seu ordinário, impotência não é doença!
Abaixo um corpo grande e pesado se chocava com o chão de cimento.
Pegou o celular, discou para Felipe, a única pessoa de quem lembrou no momento. Desmaiou. Algumas horas e eles chegaram; Felipe e alguns policiais. Ela, imediatamente foi levada para uma casa de saúde.
Dias depois acordou com a sensação de estar no paraíso; a filha sorriu:
__Podemos ficar juntas agora mamãe, estou curada. Uma senhora boazinha patrocinou todo o meu tratamento.
Uma mulher olhava da porta para ela e sorria. Entrou e disse: Acabou para ambas. Nova vida começa, seja feliz.
No criado mudo do quarto um jornal. Primeira capa: Prostituta põe fim à trajetória de maníaco sexual.
Fecha os olhos, lágrimas descem. Felipe segura suas mãos. Ouve suas palavras:
__Sendo a mulher da minha vida poderia ser uma criminosa que eu jamais a abandonaria, quanto mais sendo uma heroína.
Ela o abraçou. Sorriram. Tinham direito a um novo começo. A vida das ruas nunca mais. Nas mãos da filha o desenho de um casal, uma criança e um belo sol a iluminar outros caminhos.
Mais vale a felicidade tardia do que a crença perdida de que ela não se encontra em algum lugar.
Sobreviver é dar sentido ao viver.

Eliane Alcântara.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

EPOPÉIA ETERNA

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“Palas, antes de aprontar o dardo para o arremesso, ergueu uma prece a Hércules: ‘Herói poderoso, lembre-se da casa onde um dia encontrou hospitalidade e ajude-me neste combate. Talvez seja audácia demais da minha parte querer enfrentar tão famoso guerreiro. Conto, porém, com seu auxílio, para vencer esse orgulhoso latino e despojá-lo de suas armas’”.

O texto acima foi extraído de uma versão para colégios feita por Alfred J. Church, baseada na Eneida de Publius Virgilius Maro (70-19 a.C.), poema épico que narra as aventuras de Enéias desde a sua fuga de Tróia até chegar em terras italianas. O jovem Palas, filho do rei Evandro, vendo-se em evidente inferioridade diante do poderoso Turno, apela para seu deus implorando-lhe ajuda. Por que isso me soa tão familiar?

Na violenta guerra travada pela besta do norte e o chacal do oriente, as marionetes de ambos os lados certamente gritaram por seus deuses distantes e indiferentes, rogando por providências divinas quando as armas mostraram-se entidades mais poderosas que os anjos. E as armas venceram mais uma vez, pois os deuses, sejam quais forem, não se importam com os homens. Eles divertem-se com a estupidez de seus adoradores. De um lado, desnutridos famintos passam toda a sorte de privações com uma resignação irritante e não hesitam em lançar-se com aviões desgovernados contra prédios, na esperança de alcançar a eternidade ao lado de virgens e riquezas (tsc!). De outro, belos e fortes soldados de olhos azuis acreditam realmente ser a força da justiça do mundo, mas tudo o que fazem é aumentar o faturamento de grandes empresas, à custa de suas vidas e da de outros. Não consigo entender como um povo que enche-se de bombas e abraça o inimigo não pôde fazer isso contra o ditador que apenas se enriqueceu e matou milhares de pessoas sem suar. Também é difícil entender como os estadunidenses acreditam ter uma vida invejável se são escravos de um regime que tanto lhes cobra e lhes dá, em troca, câncer no pulmão, obesidade e alienação de espírito.

Muitas pessoas dizem que damos valor demais à guerra e esquecemos da “outra guerra” que é travada no Brasil, onde traficantes isso, traficantes aquilo, etc., coisa e tal. Mas devo lembrar aos defensores dessa demagogia fatalista que, no caso da guerra, bastaria um (apenas um) dos dois líderes desejarem e a morte de milhares seria evitada. E também devo lembrar que o crime, seja organizado ou não, não é exclusividade de nosso país, tampouco do terceiro mundo. Comparar índices de criminalidade com guerras é hipocrisia. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa .

Mas os homens rezam para seus deuses aguardando milagres, em vez de tomar medidas concretas. Ficam rezando e deixam tudo “nas mãos de Deus”, como gostam de pregar alguns, seja em cultos religiosos ou em publicações de auto-ajuda que cumprem sua função, claro - ajudar o pastor ou autor a ganhar uma grana dos covardes que procuram a salvação nas palavras de uma criatura igual ou pior que ela. E cultos e publicações assim pipocam aos montes.

É... assim estamos em maus lençóis.

P.S. – Para quem não leu Eneida, Palas (apesar das preces a Hércules) foi morto por Turno, que mais tarde foi morto por Enéias. Este fundou a cidade de Lavínia, que mais tarde seria conhecida como Roma. Como podem ver, não é de hoje que os deuses ignoram as preces dos homens.

Abraços.


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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Estações do Poeta

I
Lá fora, chove.

- e as águas enchem as ruelas,
derrubam barracos,
e no Derby motoristas em carros lentos
tocam sinfonias com as buzinas
e acreditam que o som de seus instrumentos
tirá-los-á do congestionamento -

E o sol seca aqui dentro.

- e no Recife do meu mundo
o calor tropical me leva à praia
de Boa Viagem onde me sento
me bronzeio e tomo cerveja
enquanto cegam-me os raios solares
refletidos nas ondulantes águas -

II
O sol queima lá fora.

- e as senhoras da menopausa
praguejam contra o calor ardente,
abrem as janelas e portas das casas
para refrescá-las o mulherengo vento
por debaixo de suas saias
fazendo-as suspirar de alívio e de tormento -

Chove, aqui dentro.

- a tempestade sorri com escárnio e alaga
todas as ruas e casas
construídas com labor orgânico
das células que em mim vivem
e morrerão ou afogadas
ou pelo efeito do tempo -

III
Morre-se lá fora.

- e as folhas secas e amareladas caem das árvores
durante as mortes do outono
e o suicida filósofo, artista e louco,
que pula do CFCH* a fim de voar, mas não voa,
cai
e beija a terra -

Vive-se aqui dentro.

- e vejo surgir minha primavera
em jardins coloridos e bem-cuidados
pelo jardineiro bêbado que se embriaga
através do aroma das rosas, dos cravos,
colhendo a mais bonita
e beijando sua flor predileta -

IV
E vivo assim pelo inverso,
Através das estações dentro e fora do poeta.


* Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco. Há casos de estudantes se jogarem do 14º Andar numa tentativa de provar a inexistência da gravidade.

André Espínola

domingo, 16 de setembro de 2007

O elevador


- Mas que merda! porra! - Todos se assustaram.

Talvez houvesse uma duzia de pessoas na cabine do elevador, quem sabe mais, ele não precisou ao certo.
Foda-se! - pensou - surpreso com os olhares dos demais.
"Oh, que sujeito horrível!" - disse uma garota gordinha, uns 23 anos, da qual não lhe via a bunda, apenas a silhueta ampla, larga e duns rechonchudos peitos 52.
Um cara, executivo ou parecendo um o olhou com desdém. Ao ser retribuido, o jovem, suspeito de ser um empresário sentiu-se desconsertado e desviou o seu olhar. Evidente que encarar um sujeito que do nada solta um "Mas que Merda! porra!" não deve ser tarefa das mais fáceis; é bom tomar cuidado com esse tipo de sujeito -deve ter imaginado ao desviar o olhar. Do lado esquerdo, de relance percebeu uma loirinha. Ela parecia atraente a bordo daquele sorriso discreto porem, sensual.
Talvez não fosse gostosa já que não lhe via as formas, encobertas por um sujeito barrigudo e com o terno em desalinho. Naturalmente, o amavável sorriso, aliado ao fato de não tê-lo censurando nem mesmo com o olhar fizeram-no achá-la interessante.
Todos ali, com exceção de uns quatro ou cinco davam mostras de sentirem-se incomodados com sua presença. Olhou para o pulso e no relógio o ponteiro dos segundos corria maluco, desenfreado, como quisesse alcançar algo que estivesse muito a sua frente. E a medida que os andares iam sendo vencidos o elevador não mais parou e nem recolheu qualquer passageiro,descendo numa única toada até o pavimento inicial. E ele, solto num mundo sem perspectiva nem se apercebeu que a porta se abriu.

-Térreo! - Exclamou a ascensorista.

Aquele pequeno mundo de gente se locomoveu, uns mais apressados que os outros. E todos, de alguma forma, partiam para os afazeres de suas vidas repletas das mesmices de sempre -imaginou.
A loirinha fora a penúltima. Foi a oportunidade que teve de perceber a classe que desprendia daquela garota. Reparou no estilo do caminhar e o mágico rebolado de nádegas encoberto pelo delicado tecido de linho de um refinado tallieur. - gostosa - concluiu. Talvez lhe faltasse melhor senso e critérios na definição do era ser "gostosa". Geralmente se fixava na rigidez e curvatura das nádegas como se esses fossem os únicos critérios possíveis e aceitáveis. Repentinamente imaginou se ele não seria acometido por alguma espécie de um desvio comportamental, e então sorriu com desdém. Afinal, sempre ouvira dizer que essa obsessão, o fanatismo por um belo rabo significava que estivesse enrustido em si o desejo de dar a bunda, já que, segundos os defensores da tese, isso nada mais representava do que as vontade reprimida de pessoas que se envergonhavam de assumir a sua própria homosexuaalidade. Bah! quanta baboseira! Afinal, se a teoria fosse válida seríamos obrigados a admitir que éramos um país de viados. E, além do mais, emitir teses dessa natureza só pode ser coisa de "boióla" -concluiu-

-Senhor! Térreo! Chegamos!

Acordou do pensamento surpreendido pela macia voz da ascensorista. Ali, parado, fixou-se atentamente naquela jovem. -Linda- definiu. Linda, mas no lugar errado.- ruminou ainda. Concentrou-se mais e atentou para os detalhes daquele ser tão feminino e tudo nela lhe pareceu tão extraordinariamente mágico e sensacional. As formas, a rigidez das ancas , os seios fartos, redondos, as pernas explendidamente torneadas, a doçura da voz e, finalmente aqueles olhos negros que o devoravam.

-Senhor! Térreo! - insistia ao o olhar fixamente e sem compreender-lhe a resistência.

Nem ele entendia o motivo de estar parado ali, o olhar fixo no alvo como se fosse sa presa dos mais famintos dos leões. Só ali, estático, vislumbrando, admirando. sentindo a irrestível atração que ela exercia, como se atingido no queixo por um demolidor direto de esquerda. E ela, sem qualquer resposta, como se estivesse hipnotizada por ele, num simples toque de um dos botões fez a porta se fechar. Repentinamente os olhares tornaram-se cúmplices. Ouviu-se o "plim" de uma campainha que certificava que o elevador estava novamente em movimento. Eles estavam excitados, inexoravelmente atraídos. Ele percebeu todo o momento e então agiu. Suas mãos de homem adentraram por sob a saia da funcionária, e os seus dedos ágeis e sutis subiram até o seu sexo e suavemente roçou os dedos por sobre o tecido da calcinha. Um longo e sensual suspiro se mulher preencheu o ar. Ele foi mais fundo e seus dedos penetraram-na e sentiu o quanto ela era quente e molhada. O elevador subia sem qualquer escala para o 43o andar.

sábado, 15 de setembro de 2007

O bêbado volta a casa.

.
Passava já da meia-noite.

Fortemente embriagado, ele não conseguia meter de jeito algum a chave na fechadura.

Deu um chute violento. A porta escancarou-se. E entrou, corcunda, olhos ébrios, vasculhando na escuridão o caminho da alcova.

A esposa fingia dormir, rosto virado para o criado-mudo, encolhida sob os lençóis. Ela sabia, no entanto, o que a esperava.

O marido sentou-se com extrema dificuldade no leito. Ficou imóvel por uns instantes, como a buscar o raciocínio que lhe fugia na mente a rodopiar.

Bebera em demasia. Percebia, nos laivos de reflexão, que a cada dia exagerava mais no vício. O inferno arrastava-se já por seis meses.

Com custo tirou os sapatos. Atirou-os longe de si, quase num gesto de revolta. Revolta de sua fraqueza, da medíocre vida que proporcionava a si e à sua família. A sua prole já temia ele - uma menina de oito anos, um menino de quatro. E ele se remoia ao lembrar-se dos olhinhos desesperados, do choro convulso, quando ele, o pai, acuava a pobre esposa pelos cantos da casa, nas surras cheias de brutalidade e covardia.

Ele afundou-se no leito. Agora o mundo parecia um célere carrossel. O ventre revolvia-se em terríveis ânsias. O crânio parecia comprimido por duas pedras gigantescas.

De fato, bebera muito.

Sentiu-se só. Tal qual uma criança que ainda entrevê a libido, puxou a esposa para si. Sentiu uma fraca mas visível resistência dela.

Mais uma vez, sentiu-se rejeitado. E desafiado. Um novo puxão, violento, Fê-la voltar-se à força, e, com custo, estirou seu corpo sobre o corpo da mulher.

Pobre esposa! O homem fedia. O álcool, a cebola, o picles, a conserva da bodega, tudo vinha em seu rosto desfigurado, na escuridão, em lufadas insuportáveis, enquanto ele retirava com custo as peças íntimas dela, buscando sua boca, seus seios, sua vulva.

Foram momentos de uma eterna tortura.

Ele não ejaculou. Exaurida a energia, desmaiou, roncando. E ela levantou-se, açodada, num pranto mudo, mão à boca, buscando o sanítário onde vomitou toda sua ojeriza.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Carta aos amigos

Romperam-se as grossas teias da rotina da minha caixa de correios. De dias em dias, somente propagandas desinteressantes e contas a pagar pousavam por ali. Ontem, porém, um pacote diferente se fez notar: não vinha naqueles envelopes padrões, sem graça, trabalhados mecanicamente, mas num envelope branco, algo amassado, comum e, ainda assim, lembrando os tempos do romantismo, quando amigos trocavam correspondências por esta moda antiga; e sobre o evelope, nada das letras frias impressas por computador, mas traços de caneta azul, pelos quais se liam: Giovani Iemini.

Era uma correspondência do Bar do Escritor! Eu, que reclamava da mesmice de propagandas e contas, poderia encontrar ali justamente isso: uma propaganda do nosso movimento e um anexo, falando da pendura e das minhas dívidas para com o bar. Mas seria totalmente diferente! Abri avidamente o pacote, e o seu conteúdo moderno contrastou com aqueles ares de outrora. Numa total marginália, impresso, estava em minhas mãos o primeiro produto físico dos escrevinhadores brasileiros que, aproveitando o que nossos tempos permitem, se reuniram numa gigante, mas virtual mesa de bar para falar do que mais lhes agradava: todo e qualquer tipo de literatura.

O "zine zero", como chamou o Gígio, me fez pensar em muitas coisas, mas estava difícil organizar todas as idéias. Juro que decidi acompanhar a leitura com uma lata de cerveja ou mesmo um copo ou de cachaça ou de vodka, para ajudar a construir o pensamento. Não me decidi rápido quanto à isso e, embora tenha dispensado a cerveja, me servi da vodka e abri a cachaça envelhecida, que havia alguns dias eu tinha comprado. E não me importava misturar as coisas, o próprio "zine zero" pedia isso.

A leitura não foi rápida nem longa; o zine era um pequeno livreto, mas suas letras pediam tempo, tal qual aquela sobremesa, que não queremos comer de uma garfada, ou aquela noite de sexo, que poderia durar horas. Comi poesias, contos e opiniões, e na embriaguez daquelas letras, tudo me caiu bem. Arrotei o bar ou acendi um cigarro (se estamos falando da sobremesa ou do sexo), pensei e dormi.

Quais são os sonhos do bar? E que roteiro louco seguirão ele e seus freqüentadores? Até onde chegará sua arte? Expandir-se-á ou será reduzida? E em quais tempos caminhará: no futuro bom que a esperança firme de alguns textos do Wilson sugere ou na distopia trazida pelas indigestas palavras do Velho China? Será gracioso como o sertanismo de Muryel de Zoppa ou luxurioso como o goticismo da Me?

Não sei como é o bar nem como será: as crônicas do Klotz nos mostram, mesmo quando tecem críticas muito convenientes, um presente bom, leve e bem-humorado, como é típico dos "happy hours" dos melhores bares de Brasília; por outro lado, os conflitos das poesias de Larissa Marques nos remetem àquelas noites sofridas, solitárias, que preenchemos com goles de conhaque, mergulhados num silêncio íntimo e rodeados pelo barulho das mesas vizinhas. O sarcasmo do Mão Branca constrói um salão de sinuca, em que um descompromisso marginal se faz ver na marola da fumaça dos cigarros e ouvir no clac!-clac! das bolas coloridas, socando-se umas as outras. E, enquanto isso, as rimas do André e do Anderson o transformam naqueles cafés simpáticos ou refinados de Recife ou de Sampa.

Acho que o bar é indefinível; é confuso. Nele, encontramos descrença e esperança; máscaras e revelação; vida pública e impulsos íntimos. O bar é brasileiro e universal. É nano e tera. É a diversidade dos nossos tempos e a liberdade de expressão; é para o dia e para a noite, para o sol e para a chuva, para Bukowski e para Oswald de Andrade. Afinal, o que esperar de um bar de escritores? Este bar é o que somos e queremos ser.

Amigos... Saúde!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

A última vez

abrem-se os poros
às frontes suadas,
aos lábios com gosto
e às carnes coladas:

- rubro
amor
carmim,

sentidos em motim
clamam a que no fim
a dor doa bem pouco...

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

A poesia e a cidade

a poesia,
como as cidades,
sofre (trans)mutação
de c(d)ores e c(v)alores
com o decorrer do tempo.

são (re)desenhadas
suas (de)formações,
(a)os mur(r)os e
fronteiras
(solavancos),
em tropeços.

criam imagens
(des)pretensiosas
que objetivam
(cor)romper
os costumes e leis
ingovernáveis.

e trazem em si
pessoas concretas
re(di)solutas,
cheias de t(h)umores,
quase sempre
(hum)ilhadas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Convidada: Valéria Nogueira Eik

Por amor

O olhar ficou perdido e triste.
Vagava pelo tempo, pelas lembranças, à procura do que dizer.
“Minha infância? Sim, eu me lembro.
Oh, meu Deus, isso já faz tantos anos”!
A risada encorpada e grossa ecoou pela saleta abafada.
“Mamãe era uma mulher muito bonita.
Dinalva.
Todos os homens gostavam dela.
Ficávamos, ela e eu, numa esquina no centro da cidade.
Logo aparecia um homem bom, que nos levava a passear.
Ele acariciava mamãe e sempre lhe dava dinheiro.
Um ou outro ficava zangado depois de um tempo e batia nela.
Nesses dias ela também batia em mim.
Coitada! A vida era dura.
De vez em quando ela me deixava ali na esquina e saía sozinha com o homem.
Eu tinha medo, mas, ficava esperando, e horas depois ela voltava.
Trazia dinheiro, trazia um dente a menos, trazia os olhos vermelhos de raiva, mas, sempre voltava.
E eu agarrava a sua mão e juntos voltávamos pra casa.
Aos seis anos, sim, acho que foi nessa idade, não pude mais acompanhar mamãe.
Ela dizia que eu atrapalhava os negócios.
E eu ficava trancado em casa, contando os minutos pelas batidas do meu coração.
Dormia, acordava, dormia novamente.
Comia o pão seco, esfregava um carrinho sem rodas no chão de terra do barraco, muito devagarinho pra não levantar poeira.
Mamãe não suportava poeira.
Quando eu pressentia seus passos se aproximando da porta, fingia dormir.
Ela não gostava de conversar depois do trabalho.
Ela nunca gostava de conversar. Mas, cada um é cada um.
E quando ela dormia, exausta, largada e nua, eu ficava velando seu sono.
Pobre mamãe!
Aos oito anos já era tempo de fazer alguma coisa por ela e fui para as ruas trabalhar.
Aprendi muito rápido.
Com os olhos apertadinhos, eu colocava as mãos em súplica e em pouco tempo derramava lágrimas verdadeiras.
As pessoas entendiam a minha dor.
Passavam a mão em minha cabeça e me davam dinheiro, roupas, alimentos e até brinquedos eu ganhei.
Passei a sustentar a casa.
Era arrimo de mamãe e ela ficava muito feliz.
Deixou de trabalhar. Precisava aproveitar a vida. Precisava mesmo.
Depois de tudo que ela fizera por mim, era mais que justo que agora eu cuidasse dela.
Por mamãe eu era capaz de tudo.
E os dias eram bons. Ela e eu. Nós dois.
Aos quinze anos, consegui outro tipo de trabalho, afinal, eu já era um homem e não ficava nada bem continuar mendigando.
Fiz meu primeiro programa e a dona ficou tão satisfeita que me pagou no ato.
Dali pra frente os negócios foram de vento em popa.
Dinheiro passou a correr nas minhas mãos feito água encanada em torneira de rico.
Tirei mamãe do barraco.
Não entendi quando ela deixou a casa toda branquinha com jardim na frente e voltou pra favela.
Não entendi.
Mas, entender não era necessário.Bastava fazer. Fazer por ela. E eu fazia.
Até que apareceu um tal de Genaro, cabra insolente, e mamãe se tomou de amores por ele.
O vagabundo meteu-se de mala e cuia em nosso barraco e passou a fazer cara de patrão.
Não tive outro jeito e dei cabo do infeliz.
Mamãe ficou muito zangada.
Coitada! Ela não compreendia que aquele homem era mau.
E nesse dia me deu uma surra de criar bicho.
Mesmo estropiado de pancada, fui obrigado a fugir pra não ser preso.
Chorei. Chorei tanto!
Não queria ficar longe dela.
E mesmo de longe, de muito longe, eu mandava dinheiro. Ah, mandava!
Ela precisava e merecia.
Se alguém nessa vida merecia ser feliz, esse alguém era a minha mãe.
Deixei a poeira baixar e quando achei que era hora, voltei.
Meu coração não cabia no peito de saudade.
Sentia medo de não chegar, de não avistar o barraco, de não olhar pra ela novamente.
Mas, lá estava Dinalva e estava tão feliz!
Pela primeira vez eu vi um sorriso naquela boca sem dentes.
Quando ela me viu, os lábios se fecharam e os olhos ficaram duros.
Coitada! Depois de tanto tempo sem me ver, o que eu podia esperar?
José apareceu na porta, coçando a barriga gorda e perguntando quem era eu.
Mamãe disse qualquer coisa e o homem riu.
Eu não ouvi muito bem, mas, meu coração ouviu tudo direitinho.
Eu era seu filho mui amado e finalmente estava de volta.
Escutei nitidamente quando mamãe pediu a José que fosse embora, porque dali pra frente eu cuidaria de tudo.
Eu escutei, mas, José não escutou e ficou zangado e bateu em mim.
Mamãe também ficou zangada. E naquele dia me deu uma surra muito pior que da última vez.
Pobre mamãe. Mas, eu não me importava. Estava ali pra cuidar dela.
E de um golpe só, bem na goela, despachei o tal José pras terras do sem fim.
Mamãe nem tinha culpa por não compreender.
Nunca ganhara o mundo, nunca ganhara nada além dos muitos quartos em que se deitara.
E outra fuga atingiu meus pés, que já estavam ficando um pouco cansados de tanto cuidar.
Mas, fiquei na vida.
Precisava cuidar de mamãe.
As donas me procuravam pedindo amor.
E eu sabia dar amor. Ah, sabia! Aprendi com mamãe.
Dei amor às mulheres jovens, às mulheres de meia idade, às mulheres velhas.
Algumas pediam pancada. E eu dava. Não podia negar. Afinal, o amor é assim mesmo.
Dei amor aos homens que gostavam de meninos. E eram tantos.
Alguns até morreram de tanto amor.
E a vida ficou em mim, até que tudo perdeu o sentido e se acabou.
Mamãe morreu e nem pude ver seu corpo bonito estendido no caixão.”
Mais uma vez seu olhar vagou pelo tempo.
Estava distante e triste, mas, parecia resignado.
“Gosto daqui. Tenho sossego.
Não preciso fazer nada além de dormir, acordar e dormir de novo.
O pão nunca está completamente seco, nem a água totalmente quente.
As baratas e os ratos nem me incomodam muito.
Do jeito que chegam, vão.
A vida é assim mesmo.
Mas, o que me dá alegria é saber que mamãe está bem.
Coitada.
Lá do céu ela cuida de mim. Depois de tudo que fiz por ela, sei que cuida.
Eu já estava tão cansado!”
---------
Valéria Nogueira Eik - Contos, poemas e crônicas publicados nos sites Espaço Acadêmico, Bestiário,
Cronópios, Storm-Magazine, No meio do caminho, PD-LITERATURA, Alice Varajão,
Jornal de Contos e Poesias, Garganta da Serpente, Literarte, Mundo Cultural,
Anjos de Prata, Paralelo 30, Clube dos Cronistas Cotovelares, Ver-o-Poema,
Revista Vagalume, Literatura sem Fronteiras.
Contos infantis publicados nos sites Cronopinhos e PD-CRIANÇA.
Colunista nos sites www.maringa.com (Idéias) e http://www.r4.com.br
(Literatura).

Editora da Revista de Literatura e Arte "Conexão Maringá":
http://www.conexaomaringa.com

E-mail: contato@valeriaeik.com

domingo, 9 de setembro de 2007

Jesus de Copacabana

Ernestina, sentimentos escravizados pela devoção ao cristianismo, com olhos marejados de lágrimas rogou a irmã.
— Pelo amor de Deus! O menino-jesus não!
— E como vamos pagar a conta de luz que vence amanhã mana? Com a sua fé no bonequinho?
Esta contenda vinha de anos. As dificuldades financeiras que as duas irmãs solteironas passavam as obrigava, vez por outra, a se desfazer das relíquias que a família acumulara durante décadas e agora dominavam os espaços do minúsculo conjugado que elas alugavam em Copacabana.
Desfizeram-se da prataria, bibelôs de louça, conjuntos de porcelana, até mesmo a cristaleira, herança da avó materna. Ernestina recebia estas perdas sem dizer um “ai”. Tal qual uma santa martirizada, aceitava o destino dado as peças que a irmã se desfazia para obter uns trocados. Mas deu para reclamar quando Raimunda decidiu vender um presépio com figuras em biscuit que todos os natais decorava um canto do conjugado e havia chegado ao Brasil no princípio do século XX, por intermédio dos seus ancestrais portugueses. “Não serve pra nada, só ocupa espaço”, costumava dizer a mais pragmática das irmãs. Ernestina abominava a idéia de vender imagens religiosas. Para ela, temente a deus até as entranhas, aquilo tinha cheiro sacrilégio, além de uma afronta a memória dos seus antepassados.
Inicialmente, Raimunda sacrificou os animais do presépio. Em seguida, os reis magos, vendidos em lote único a Agemiro Caldas, um antiquário da Rua Barata Ribeiro. Os olhos do homem reluziam em ganância após cada telefonema de Raimunda. O antiquário já possuía até um comprador para o presépio, mas o problema em ele não Ter em mãos todo o conjunto de peças. Aquelas imagens chegando em doses homeopáticas o irritavam profundamente. Podia fazer uma oferta pelo que sobrara, Maria, José, o menino e a manjedoura, porém, temia que a as irmãs julgassem baixa a sua proposta e todo o plano viesse por água abaixo. Agemiro Caldas assim, violentando sua cobiça, tentava exercer as virtudes da paciência e esperava.
Não precisou esperar muito para se apossar do casal bíblico. Uma dívida com a farmácia obrigou Raimunda a vender os pais do Cristo. Agemiro Caldas voltou saltitante para a loja. Desembrulhou os dois personagens e os colocou na prateleira onde estavam as outras peças do presépio estrategicamente arrumadas, vaquinhas, cordeirinhos, um jumento e os três reis magos. Um espaço vazio, no centro da cena, esperava pelo menino-jesus. “Agora só falta o garoto”, ruminou o comerciante, esfregando as mãos sorridente.
Meses depois, o dia tão aguardado chegou. Agemiro Caldas, após um telefonema, bateu a porta do apartamento das irmãs e encontrou nelas resquícios de que ali houvera uma discussão. Ernestina fungando, Raimunda com cara de poucos amigos. Deduziu que o clima entre as irmãs pesara em virtude da venda do menino-jesus.
— Bem... – disse sentando sem esperar convite – vamos ao que interessa. Dou 80 reais pela peça.
— De jeito nenhum. - Rosnou Raimunda. Ernestina apenas soluçava.
— Os tempos estão difíceis, tenho tido poucas vendas – desculpou-se.
— Trezentos reais ou Jesus não sai desta casa!
— Trezentos?!
— Só o menino. Sem a manjedoura.
— Caramba!
Negociaram durante meia hora e fecharam em 200 reais, manjedoura inclusa. A necessidade em pagar a conta de luz derrotara Raimunda. O antiquário deixou o apartamento com o pequeno Jesus metido dentro de um saco de supermercado, alegre como um porco na lama. No quitinete das irmãs, ficou um surdo ressentimento de Ernestina em relação a Raimunda.
Depois deste episódio, Ernestina adoeceu. Começou com uma tosse seca que não a largava. Em seguida, perdeu peso e disposição para o trabalho. Acabou na cama, voz fraca, mãos trêmulas. Raimunda gastou os 200 reais do menino-jesus e mais um pouco com remédios e médicos, mas Ernestina não melhorava. Entrevada na cama, um fiapo de voz na garganta, Ernestina se penitenciava a irmã:
— Estou sofrendo porque vendi Jesus. Sou uma Judas.
Vendo que a irmã só piorava e se convencendo de que a venda do menino-jesus fora realmente a causadora daquela doença, Raimunda telefonou para o antiquário tentando reaver a peça. Agemiro Caldas, sabedor do estado de saúde de Ernestina e desejoso em tirar vantagem da situação, jogou duro:
— Lamento Dona Raimunda. Estou cobrando 600 reais.
— Pelo Presépio? – espantou-se.
— Pelo menino.
Não adiantaram as súplicas de Raimunda nem a alegada doença de Ernestina. Agemiro Caldas argumentou que não conseguira vender o presépio, que o comprador roera a corda na hora de fechar negócio e que ele tinha que reaver de uma forma ou de outra o dinheiro empatado naquelas peças. Que este era o negócio dele: comprar barato e vender caro. Até frases de economistas famosos ele citou para justificar sua usura. Raimunda desligou o telefone sem despedir-se. Olhou para a irmã, moribunda e sendo consumida pela paixão por um ídolo de biscuit e entrementes tomou sua decisão.
O pequeno antiquário localizado na Rua Barata Ribeiro, esquina com a Paula Freitas, já estava fechando as portas quando dois pivetes invadiram o estabelecimento. Agemiro Caldas, que por avareza não possuía empregados, estava sozinho. Apesar de não reagir, levou uma estocada na perna esquerda. Aos policiais um trêmulo comerciante, perna enfaixada em gaze avermelhada pelo sangue, relatou que os pequenos assaltantes haviam roubado apenas peças miúdas, mas algumas de alto valor no mercado, entre elas, peças de aparelhos da Companhia das Índias e figuras de um presépio de biscuit.
Na Praça do Lido, às onze horas do noite, sob um calor incomum para um outono, deu-se o insólito encontro.
— Trouxeram?
— Tá aqui Dona – disse um dos meninos, abrindo o saco de estopa onde estava o produto do assalto.
Raimunda procurou afoitamente pelo Jesus de Biscuit. Um sorriso iluminou seu rosto quando achou o que procurava. Lá estava ele, liliputiano, olhar cândido e barroco, branquinho feito cera, cabelos loiros pintados em tinta dourada. Apertou a imagem no peito e perguntou.
— Deram a facada que eu mandei?
— Na perna, como a senhora mandou. O coroa ficou bolado – falou, às risadas, o menor dos dois
— Podem ficar com o resto das peças e tá aqui os 50 reais combinados. Agora se mandem. Eu nunca vi vocês na minha vida, entenderam?
— Deixa com a gente Dona.
Mal chegou ao conjugado, Raimunda foi ao encontro da irmã. Ernestina jazia na cama. tinhas feições alvas como um zumbi de filme B. Um hálito de morte empestava o local . A irmã entregou a ela o menino-jesus. Ela segurou com força a imagem em uma das mãos. Seus olhos se encheram de lágrimas. Encarou a figura tomada pela emoção. Ofegante, tirou do peito suas últimas forças e falou.
— Agora eu posso ir em paz.
O enterro foi concorrido. Não se sabia que Ernestina conhecia tanta gente. Capela lotada, parecia que todos os velhinhos de Copacabana vieram se despedir da simpática anciã. Havia muitas velas, pouco choro e uma coroa de flores. Entre os presentes, Agemiro Caldas, mancando em virtude da facada, contemplou o corpo de Ernestina no caixão. Raimunda suspirou aliviada depois que o antiquário se afastou sem perceber que a defunta segurava, fechada em uma das mãos, o menino-jesus de biscuit.

sábado, 8 de setembro de 2007

Lição de Antropologia


O fato é que, em algum momento da luta entre as duas tribos, as omas se extinguiram, desapareceram da face do planeta. Deviam ser frágeis demais, etéreas, delicadas. Com certeza é da lembrança atávica das omas que se originaram certas figuras da mitologia grega: as sílfides, as ninfas, as nereidas.

Naturalmente, esse processo de extinção fez aumentar a rivalidade entre as tribos. Sem suas fêmeas, os machos da tribo das omas se tornaram mais agressivos.
Em toda parte, os mulhos foram sendo extintos por esses machos da tribo inimiga. Simples conseqüência da seleção natural, da lei da sobrevivência do mais forte.

E, durante alguns anos, os sobreviventes de ambas as tribos se examinaram desconfiadamente. Por fim, concluíram que teriam que se ajustar uns aos outros, ou simplesmente deixar de se reproduzir.
Afinal, não existem mulas? Resultado do cruzamento entre jumento e égua, ou entre cavalo e jumenta, as mulas são estéreis. Mas não foi isso que aconteceu neste caso, como resultado do cruzamento entre as fêmeas de uma espécie e os machos de outra: foi como se, em vez de um produto híbrido, o resultado desse cruzamento simplesmente produzisse novos espécimes iguais ao pai ou à mãe, perfeitamente sexuados e capazes de reprodução ad infinitum.

Sem suas suaves omas, os homens vêm há séculos em busca da companheira perfeita.
Criadas para serem servidas e protegidas por seus dóceis mulhos, as mulheres não se conformam em se submeter aos homens, fisicamente mais fortes.
Condenados à coexistência, homens e mulheres, predadores por natureza, digladiam-se tentando inutilmente chegar ao entendimento.

Quem pode entender uma mulher?

Quem pode entender um homem?

Quem pode compreender essa coisa fascinante, o sexo oposto? Quem pode compreender essas criaturas incompreensíveis?

No princípio havia homens e omas, mulheres e mulhos.

É a única explicação possível: que homens e mulheres não sejam macho e fêmea do mesmo bicho.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A Tolice do Tolo


A Tolice do Tolo
A tolice do tolo reside em sua imagem.
Na sua falta de coragem,
Quiçá, nele mesmo.
A tolice do tolo diverte,
Menos quando subverte (ou tenta)
A ordem normal das verdades.
A tolice do tolo alimenta.
Estômagos de depósito sanitário
Como o dele.
E é tão simples aterrá-lo...
Basta lançar luz às consciências
Ou mostrar a direção do ralo.
A tolice do tolo
É tola.
E, até me diverte...
Imaginando quem acerte
Donde (e como) virá a resposta.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O Funeral

Todos estavam muito quietos, com exceção das crianças que corriam no jardim, por não entenderem a solenidade do momento. Otávio ria, aquele sorriso de canto de boca que ela conhecia bem, começou a observá-lo depois que percebeu o cinismo em seus gestos. Sabia bem que tramava algo, pois estralava os dedos, com aquela expressão que conhecia bem. Continuava um "lord inglês", estava dentro de um terno azul petróleo, usava uma gravata nada convencional, sim, se lembrava que ele tinha um estilo todo seu. Uma camisa cinza, quase prateada, os cabelos desalinhados, um "rebelde" mesmo, não deveria estar observando-o tão despudoradamente, estava acompanhado de uma bela jovem, num vestido negro esvoaçante, presa a ele por um olhar compenetrado. Os dele quase em uma prece, atentos aos vitrais do altar principal. O que o movera de Londres até ali? Pelo que sabia, ele ainda morava lá. Cecília tentava disfarçar, fixava-se no pai imóvel, como que para acreditar que aquilo tudo estava acontecendo, que era ele mesmo deitado, como quem dorme, como aquele gigante da fábula que ouvia quando menina, o que os elfos e as fadas acreditavam estar morto e na verdade estava apenas adormecido, será que finalmente estava livre dele? Colocaram Edmond em um terno antigo, os punhos da camisa ficavam pra fora das mangas do casaco e a barriga saliente ressaltava sobre os botões. Para que colocar um terno antigo nele? Tinha tantos novos, assemelhava-se a uma caricatura do que fora durante toda sua vida. Era um homem alinhado, sempre bem vestido, sapatos cintilando, perfumado, cabelos bem arrumados e barba serrada, com muita perfeição. Seus olhos eram tão grandes, que mesmo fechados por completo, ainda poderia-se ver os globos oculares, quando dormia era assim, os olhos meio abertos, não era nada agradável vê-lo dormir. Temia que a qualquer momento ele se levantasse e debulhasse sua ira sobre todas aquelas pessoas. A missa foi bonita, mas parecia que não havia ninguém ali, com exceção da moça em um vestido azul marinho, que chorava baixinho, e hora ou outra suspirava, inconformada, nem a viúva chorara daquela maneira desesperada. Às vezes olhava para Otávio, agora a moça passava um lenço sobre sua testa, fazia muito calor e não soprava nenhuma brisa, desviava o olhar, quando ele se mexia, ela não queria causar constrangimentos. Voltava os olhos para o pai, tinha apenas uma lembrança boa dele, no dia que saiu de casa para completar seus estudos em Londres, ouviu dele algumas palavras amigas e ganhou um beijo na testa, carinhos dele eram raros, talvez por isso ela se lembrava sem parar daquele beijo. Não entendia apenas a ausência de César ali, ele sabia o quanto precisaria dele, mas não apareceu, ele não dividia o mesmo espaço com Edmond, isso era fato, mas já estava morto o infeliz, queria a mão de César ali, para ampará-la.A capela do mausoléu estava cheia, estava com enxaqueca, parecia que os sons ecoavam, badalavam em sua mente, depois da missa de corpo presente os amigos e parentes resolveram se compadecer do morto e descrever pequenos acontecimentos que mostrassem sua bondade, seu espírito caridoso, sua benevolência. Ele não era bom, definitivamente não. Seu irmão fez um discurso lindo, dizendo que Edmond era um homem incapaz de ferir alguém, teria ele se esquecido que o morto quebrou-lhe o braço em uma de suas brigas mais violentas? Ana, sua prima, falou de balas e doces que ele distribuía no dia de São Cosme e São Damião, teceu comentários amorosos sobre o tio e nada mais. Caim, o irmão caçula do defunto, relembrou o empréstimo para construir a marcenaria e sobre ser seu companheiro de boemia, bem dele mesmo, o tipo de comentário tacanha, para o momento. Seu pai um homem perturbado, que não tinha noção de sua força física, se lembrara bem das inúmeras bofetadas que ganhara, por ser tão sincera. Tinha vontade de rir, de pegar aquela grande mão e dizer: _E agora, Sr. Edmond, em quem essa mão enorme ira bater agora? Mas já havia dito tudo a ele em vida, por isso parecia que todos a fulminavam com os olhos, ao se aproximarem do caixão. Mas ela se sentia bem, aliviada até, como era bom estar livre dele. O cheiro dali era insuportável, as flores estavam murchando e o defunto parecia suar, ela apertava o lenço contar o rosto, tinha ânsia seguidas. Mas ele merecia cheirar mal, nenhum perfume esconderia mais a podridão de seu ser. Enquanto pensava, ouviu a voz de Otávio, o que ele teria a dizer sobre Edmond? Todos se voltaram para ele. _Edmond não era um homem bom, e não é porque é morto que não deve-se dizer a verdade sobre ele, sei que muitos aqui se compadecem com a dor dos familiares, mas o conheci de perto, a família deve estar mais aliviada do que triste – dizia ele em tom inquisidor. Cecília suspirou, quando entendeu o tom do discurso, seus olhos brilhavam mas ele calou.Queria ter dito que sua esposa sabia o peso dessas mãos, o quanto lhe custou viver ao lado daquele homem insensível, seus filhos também conheciam essa força, que seu pai conhecia a extensão da ira dele, por ter costurado, feito curativos, enfaixado, engessado, prescrito analgésicos para curar as feridas que Edmond abriu.- dizia para si, olhando para Cecília, o quanto foi penoso conhecer aquele homem.Sentira a ira dele quando ajudou Cecília, depois de muitas brigas e agressões, acolhendo a mulher que amava secretamente, em sua casa e fora um homem mais feliz enquanto estavam juntos. Fora vítima daquele homem e por não ter forças para lutar contra ele cedi, por ser covarde, cedeu. Em silêncio quase melancólico, quase teatral, olhava para o chão. Parecia reprimir o choro, o soluço estava agarrado na garganta, mas ele não permitia que saísse. Calou-se, não estava determinado a ir até o fim. A moça que o acompanhava veio em seu auxílio, segurou-lhe a mão e falou algo em seu ouvido e ele respondeu negativamente com a cabeça. Fora fraco por não ter dito a ela sobre meu sentimento, induzido pelas palavras de Edmond, deixou que o envenenasse. E foi um veneno tão forte, que por anos pensara ter esquecido os seus sentimentos por Cecília, mas continuavam ali, todos eles. Ainda trazia aquela menina em sua cabeça e em seu peito. Aos olhos de Cecília, ele não parecia mais aquele homem forte e impetuoso, que conhecera há mais de quinze anos atrás, que a protegera tantas vezes da mão dura de seu pai, estava debilitado, quase vencido. A viúva parecia uma estátua, imóvel, calada, não derramara uma lágrima, já se vingara dele, iria ser enterrado com o terno mais antigo que tinha, provavelmente o mais desengonçado, era uma doce vingança, sorria para a segunda viúva, que estava sentada na primeira fileira e na hora do cortejo cochichou , "-Vá na frente, você é a viúva!” - Mas o defunto cheirava tão mal que nem a amante quis ficar perto do caixão. O fim dos homens ruins e bons eram o mesmo, quando fecharam o caixão muitos dos presentes se sentiram aliviados. Enfim estavam livres dele. As palavras de Otávio talvez soassem falsas pois pareciam brotar dela, era o discurso que queria ter feito, mas foi hipócrita demais para fazê-lo, já estava cansada de estar sempre errada, de ser a inconformada.O cortejo seguiu silencioso, Cecília permaneceu ali, ao lado de Otávio, restaram apenas os três. A moça mais afastada e eles sentados lado a lado. Por fim quebrou-se o silêncio de mais de uma década, entre os dois,“- Vi você logo que cheguei, mas não tive coragem de encará-lo, estava acompanhado.” _Por ela? - riu-se - Ela é uma amiga, minha enfermeira, preciso de cuidados constantes. Mas não quero falar disso agora, preciso de ar fresco, me acompanharia em um passeio longo e esqueçamos dos outros, só por hoje? Seguiram pelo mausoléu de mãos dadas, o dia os esperava.



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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O grito da independência

Pedro apesar da fama de absolutista e mandão era uma pessoa dócil e bem mandada. Sempre atendia quando chamado. Miguel, Paula, ou Joaquim. Pedro atendia da forma que o chamassem. Também pudera, batizaram-no de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.
Apesar de todas aquelas opções preferíamos chamá-lo príncipe. Era uma coisa respeitosa. Apesar de que, entre nós, às vezes a gente falava do príííncipe puchando bem o iii e colocando o queixo no ombro e piscando rapidamente os olhos. Tínhamos que ser respeitosos, afinal sempre era bom viver às custas de Sua Riqueza.
Pedro tinha mania de se vestir de príncipe. Usava calças brancas tão apertadas que permitiam saber se a moeda do bolso estava cara ou coroa. Usava também umas jaquetas com ombreiras altas e enfeitada de medalhinhas douradas. Pedro era muito avançado para a época., este figurino só virou sucesso nos bailes gays do Rio de Janeiro 250 anos depois.
Pedro era casado com Leopoldina que era tão feia que era conhecida por trem. Por isso mesmo Pedro vivia viajando fugindo de casa. Ele sempre ia a Santos para surfar. Lá as ondas são pequenas de forma que ele dificilmente caia da prancha. Sob um guarda-sol ele foi apresentado a Maria Domitília, uma paulistana que todos diziam ser de Santos. Domitília, como Pedro, era muito avançada em termos de vestimentas. Ia para praia com uma touca minúscula. Ambos tinham 23 anos e se entendiam maravilhosamente sobre os lençóis de cetim. Pedro e Domitília tinham taras sexuais incríveis: se chamavam príncipe e marquesa respectivamente.
No início de setembro, depois de dois meses de praia, Pedro já estava muito bronzeado e deveria retornar a São Paulo e cuidar dos detalhes para a sua festa de aniversário. Pedro faria 24 anos dentro de dois meses e a expectativa era muito grande para o grande baile anual de aniversário. Tudo era motivo para baile.
O mordomo, José Bonifácio, juntou todo o pessoal, mandou selar os cavalos e preparou uma charrete acolchoada para Pedro. Retornamos lentamente subindo a Serra do Mar e atravessando a Mata Atlântica. No quinto dia de viagem, em pleno feriado, chegamos ao topo da serra com esplêndida vista da baixada santista. Montamos acampamento e preparamos uma peixada real.
Os peixes já não tinham sangue azul. Estavam verdes após calorosa viagem numa época em que não havia frizer nem geladeira.
Almoçamos e seguimos viagem. José Bonifácio queria chegar em São Paulo a tempo de ver o desfile no noticiário da tevê.
O peixe verde começou a saltar dentro da barriga de Pedro. Não tardou a achar a saída. Pedro borrou-se todo. Borrou também a bela carruagem aveludada. O cheiro da condução de Pedro ficou insuportável de modo que ele teve de montar um cavalo. Foi necessário limpar-se num riacho próximo. Na falta de papel higiênico utilizou-se da Gazeta do Rio de Janeiro onde leu que foi rebaixado de regente para delegado. Neste exato momento o outro peixe verde saltou de dentro da barriga da Sua Riqueza provocando enorme dor. Pedro urrou.
– Meeeeeerda!O peixe buscou a independência e este episódio foi retratado anos depois por Pedro Américo e batizado como “O Grito do Ipiranga”.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

LITURGIA

“Dor, nossa, minha dor,
Esta dor de vagabundo...”

C.Bukowski


Hoje eu acordei com a corda toda. Acho que consigo escrever uns dez contos, ininterruptamente. Só assim para poder colocar o serviço em dia. Bolei uma estória genial de um cara que quer mas não consegue escrever por causa do teclado estragado que não solta a tecla t. um escritor sem a letra t, não é legal ? Pensei até no título: Um escritor sem “T”. Em caixa alta dá uma dualidade boa. Todos pensam que é sobre sacanagem e quando forem ver, tchan-ram! Era só o teclado. Achei do caralho.
Mal eu começo a escrever, e lá vem ela. Neuza, a faxineira. Esqueci que é hoje é Sábado, o dia em que ela vira meu apê pelo avesso. Tira tudo do lugar e deixa arrumado, totalmente fora da minha lógica bagunçada da semana inteira. Nem bem havia escrito o primeiro parágrafo e sinto uma respiração quase ofegante atrás de mim.
- O senhor escreve tanta coisa bonita. Aquelas historinhas pequenas que umas linhas sempre parecem com as outras. Queria até sabê lê direito prá puder intendê tudim...
- Obrigado. Aquilo se chama poesia, mas é somente para passar o tempo. Cada um entende do jeito que quiser. Meu lance agora são contos.
- Faz é hora que tá aí na frente do computadô...
- É que amanheci inspirado.
- O senhor amanheceu é com a gota... – Neuza é do Pará, mas tem a maneira delicada de falar dos baianos, a vontade de trabalhar dos paulistas e o bom humor dos cearenses. Deve ser pela “proximidade” dos estados.
- Neuza...
- Sim?
- Pára de me chamar de senhor. Você lavou aquela minha camisa azul?
- Não... Por falar nisso, o desinfetante acabou... Como o senhor – levanto uma das sobrancelhas, ela sorri – digo, como você gastou os dois litros que estavam semana passada? Bebeu achando que era batida de côco?
- Um Zé mané qualquer que estava aqui na festinha de Quinta, usou o banheiro e depois derramou quase tudo na privada.
- Então não foi o côco e sim um cocô. Deve ter sido uma cagada e tanto, hein?
- Realmente... Empesteou o andar inteiro.
- Ah, é por isso que a dona Maristela, aquela velha que têm cara de borracha derretendo, sempre olha para cá com cara de bosta...
- É... Ou isso ou ela tá afim de mim.
Ela sai para a cozinha e eu me volto para o teclado. Tento digitar algo mas o telefone toca. Atendo e vejo que agora tenho que terminar isto antes da uma da tarde, que é a hora que o Marcelo vai passar por aqui para irmos a um churrasco. Tudo por conta, legal. Encho a cara e economizou uma grana. Neuza termina na cozinha (havia somente alguns pratos sujos, além de uns copos com resto de cerveja, o fogão estava limpo desde a semana passada; foi a semana da pizza), e parte para arrumar meu quarto. Abre a janela e vêm correndo:
- Vixe Maria!!! Têm uma menina pelada na sua cama! Cê não têm vergonha?
- Em primeiro lugar, a Silvinha fez dezenove semana passada, tecnicamente ela não é mais uma menina. Não de todo. Em segundo quem deveria estar com vergonha era ela, por estar pelada. Além do mais, foi ela quem quis dormir assim. Como eu diria não?
- Mas ela é muito nova para você, Juliano!
- Neuza, eu só tenho 32! E não aconteceu nada. Ela é filha de uma amiga minha, brigou com a mãe e fugiu de casa. Como não tinha para onde ir, veio para cá.
- E a mãe não tá preocupada com a garota não?
- Ela ligou ainda ontem. Depois que soube que a filha estava aqui, ficou tranqüila. Disse-me que se toda fuga dela acabasse aqui em casa, ia dizer para ela fugir mais vezes.
- E agora ela vai morar aqui?
- Não. Quando a grana acabar a Beth garantiu que ela volta para casa.
- Essa Beth não é aquela que você namorou uns tempos atrás?
- É sim.
- E como ela pode estar tranqüila com vocês dois aqui junto, assim... Sabe como é... Ela dormiu na casa de um homem solteiro... Galinha... Menininha nova... – ela fazia trejeitos de quem se beijava.
- Menininha lésbica...
- Como? – Neuza ficou estática.
- Ela é homossexual, entende? Gosta é de mulher. Nem se eu tentasse (e para falar a verdade eu tentei um pouco, depois da segunda garrafa de vinho), acho que ela toparia. Infelizmente. A propósito, eu dormi no sofá, adiantando a resposta.
- Ela é tão novinha. E bonita. Como será que está a mãe agora que descobriu?
- Neuza, a Beth já sabe disso desde que a Silvia tinha dezesseis. Até a namorada da garota dorme na casa dela ás vezes. Elas brigaram por outra coisa. Nem sei.
- Coisa louca, né? Lá no Pará num tem disso não! Eu garanto!
- Acho melhor você garantir agora o meu banheiro e não ficar aí, pensando na vida sexual dos outros.
- Tá, tá, tá... Só queria conversar um pouco, arre.
Novamente de volta ao computador. Caceta. Agora eu perdi o fio da meada. Tinha um nome bem legal que tinha arranjado para o técnico que iria consertar o teclado, mas qual era? Miserinha? Mixuruca? Ah! Mixaria! Era o apelido de um mecânico não sei de onde. Preparo as mãos para cair sobre o teclado, quando sinto uma dor conhecida. Tendinite velha de guerra. Melhor ir à sacada, fazer uns exercícios e aproveitar e fumar um cigarro. Esclarece as idéias. Fui à cozinha apanhei uma long-neck (para já ir aquecendo o fígado), voltei para a sacada me atirei no puff que ficava no canto. Acendi um e Silvia apareceu. Vestia uma camisa minha. E mais nada. Ai, meu São José dos Caras na Tanga! Que corpo era aquele? Que pele era aquela? Que olhos eram aqueles! Que desperdício!!!
- Você tem mais um aí? – e apontava o cigarro. Tirei um do bolso – é o Bom Dia Brasil, entende?
- Não prefere escovar os dentes antes?
- É... Bem que eu queria. Mas têm uma gostosinha no banheiro. Aí, garanhão, tá mandando ver, hein?
- Neuza, minha faxineira.
- T.E.D.
- Hã?
- Terror das Empregadas Domésticas.
- Sai fora.
- Ela é casada?
- Separada. Mãe de dois filhos.
- Melhor ainda. Você os conhece? – deu uma tragada soprando a fumaça para o alto.
- Só o mais velho. Ela o trouxe uma vez. Fez tanta bagunça que me deu vontade de jogá-lo pela janela.
- Por isso ela não trás ele mais?
- Não. É por que ela quase o jogou pela janela.
- Mas diga aí, já andou na pequena área?
- Não dá para misturar este tipo de coisa. Ela vem, trabalha e pronto. É uma garota legal.
- Não acredito que justo você não iria encarar traçar uma bundinha daquelas.
- Traço ela e você. É só querer.
- Seu cafajeste...
- Canalha, por favor. Comer eu como, só que não rola. Se a mulher não tá afim, nem tento. Economizo o fora que posso tomar outra hora. E aí o que me diz?
- Você tava me jogando charme ontem à noite, safadão!
- Talvez. Só pouquinho. - começo a cantarolar - Não deu segurar...
- Explode coração – ela termina a frase e caímos na risada – quem sabe um dia...
Aquilo me deixou mais atacado ainda. Mas só a vi com esses olhos depois que deixei a mãe dela, antes nunca. Se têm uma coisa que eu e a Silvinha sempre tivemos foi uma amizade super legal. Ela era bem nova quando comecei a namorar a Beth, adolescente em crise, mas comigo sempre foi de boa. A gente assistia a muito filme junto, acompanhávamos os jogos na tevê, eu sempre Flamengo, ela Corínthians, a Beth detestando jogo, nós gritando gol pela casa inteira, fazendo comidas extravagantes (que nem sempre eram degustáveis) e tomando alguns porres em alguns finais de semana. Isso, nosso companheirismo, não as cachaças, abalaram minha relação com a mãe (que era quem bebia, não a garota), que achava que eu estava dando em cima da menina.
Talvez ela tivesse um pouco de razão, mas como ela poderia saber que eu não via outra mulher além dela e tinha um sentimento muito mais de irmão mais velho para com a Silvia, do qualquer conotação amorosa, no sentido tira e põe (ou como ela podia desconfiar que a filha estivesse tendo seu primeiro caso com a filha da vizinha? Isso eu sabia. A primeira pessoa que descobriu isso fui eu. Dei uns conselhos para Silvia, de que contasse tudo para a mãe e tocasse o F... de vez. Foi o que ela fez, alguns anos depois). Outro fato chato foi que a Nani, irmã da Beth, veio de Berlim só para dar para mim (e ainda rimou, pode?). Como eu poderia dizer não a uma mulher que viajou mais de cinco mil quilômetros só para dormir comigo? Foi a gota d’água. Ficamos sem nos falar um bom tempo, mas como tínhamos amigos em comum, sempre nos esbarrávamos em um lugar ou outro, daí que voltamos a ser bons amigos de uns três anos para cá. Mais ou menos na época que a Beth descobriu tudo. Silvia passou uma semana no meu apartamento e eu passei duas consolando a mãe. Sexualmente falando, claro.
Falamos um pouco do passado, até que me lembrei que o computador estava ligado, gastando energia e que já eram quinze para uma da tarde. Melhor tomar uma ducha e me aprontar para sair. Passei as últimas recomendações para a Neuza, convidei a Silvia para ir, e como ele disse não, troquei de roupa e me mandei. O Marcelo já estava me esperando na portaria. E garantiu que na festa havia duas gatas só esperando a gente. Tudo esquematizado.
- Pode confiar. Cê não vai se arrepender!
Se arrependimento matasse, eu não tinha nem nascido. Acho que meu amigo devia estar trocando de santo padroeiro. Só não conseguia era entender se ele era devoto de São Jorge, matador de dragões ou de São Judas Tadeu, o cara das causas impossíveis. Somente um dos dois poderia dar um jeito naquelas, como eu poderia dizer sem magoá-las? Aquelas Orcs. Tá, eu exagerei um pouco. Eram as duas cavaleiras perdidas do Apocalipse, a Morte e a Fome. Talvez a primeira fosse a Guerra, por que me dava uma vontade danada de encher ela de bolacha toda vez que abria a boca. A outra, além de parecer uma fugitiva do país das anoréxicas, me lembrava também a Peste. Como ela tinha a língua envenenada, meu! Falava mal de todo mundo que conhecia (acho que a partir de amanhã, vou fazer parte do seu cardápio), e o Marceleza lá... Se fartando da estriquinina que escorria dos lábios dela. Uhhh, vai morrer! Uhhh, vai morrer!
Nossas companheiras, aliadas ao terrível som de música sertaneja que entrava pelos meus ouvidos, estavam estragando completamente o ambiente. Mesmo que o clube fosse duca, toda beleza dos amplos jardins perfeitamente aparados, cercados por um bosque cheio de frondosas árvores, atrás das quais estava um amplo complexo de piscinas, todas muito azuis sob o sol da tarde e milimetricamente alinhadas, além da farta comida e bebida estupidamente gelada, tudo, mas tudo mesmo ficava em segundo plano.
Eu só conseguia pensar na Silvia vestindo minha camisa branca, sem nadica de nada por baixo, deitada na minha sala assistindo a um dos muitos dvd’s que eu possuía. Talvez se eu pegasse o filme certo, o vinho exato, dizer as coisas mais convincentes e inteligentes que pudesse, mantendo o nível certo de charme na dose correta de pilantragem disfarçada, quem sabe não dava para dar uma? Pelo menos uns selinhos, vai. Fiquei matutando aquilo a tarde inteira e no começo da noite, na primeira oportunidade de me livrar dos Canhões de Navaronne, deixando-as aos cuidados do ébrio Marcelo, peguei um táxi e me mandei. Direto para o Quinta do Macaco Molhado e se chegar em menos de meia hora, ganha gorjeta! O taxista fez milagre. Só não viu foi a multiplicação de notas do jeito que ele estava esperando. Tá pensando que meu dinheiro é capim? Eu neguei três vezes que tivesse oferecido prêmio. Ele me achou um Judas.
Entrei no elevador saltitando. Se o porteiro me ver agora, vai achar que estou possesso. Tentei abrir a porta antes mesmo de chegar ao andar correto (tinha que ser o penúltimo, tinha!) e voei para meu apertamento. A chave não queria parar de pular na minha mão até que a porta gentilmente parou de correr e consegui abri-la. Quase morri.
No meio da sala, angelicamente nua e dormindo estava Silvia. Havia uma garrafa de vinho (Valpolicella Bolla) jogada no canto, alguns dvd’s espalhados, minha camisa jogada sobre o sofá, que cena... Meu queixo encostava no sapato. Ao lado dela estava uma mulher, também nua e acordando sonolenta por causa do barulhão que fiz enquanto tentava abrir a porta:
- Seu Juliano, perdeu uma festa e tanto!!!
- Neuza??? – fiquei estático – Você não disse que no Pará ninguém fazia isso?
Ela se levantou, pegou uma toalha e passou rumo ao banheiro:
- Eu não estou no Pará, lembra? – Silvia também acordara e me olhava rindo:
- É como dizem vocês homens: Se bobear a gente pimba!

Fiquei ali parado com cara de babaca que tinha visto caxinguelê.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Inseminação artificial

Fodeu, fodeu, fodeu, fodeu. Fodeu a noite inteira a bunda da mulher, e já de manhãzinha recolheu com o dedo médio espessa gota de porra que aflorava em seu sorridente caralho, introduzindo-a fundo na buceta quente e sonolenta.

- Pra garantir o nascimento de filhotes bem babys – explicou.



Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

domingo, 2 de setembro de 2007

Silêncio! A Morte está dormindo!


(Adaptação do poema "Xará Demônio" de Mão Branca / por Me Morte)




.
Na encruzilhada
Entre o rio e a estrada
Contatei o Demônio
Que sabia meu nome
.
Me Morte!
Que tal me dar abrigo em seu sarcófago?
.
Falei: Xará,
Que tal deixar meu rabo em paz?
.
Sorriu inocente
Inebriou-me a mente
.
E o Vale nunca mais foi o mesmo...
.
Anarquista, grosseiro, irreverente...
Com sua bela balela
Esclareceu-me singelo
.
Falou: Xará,
Teu rabo já é meu há tempos
Agora o Vale! hehehe
.
.
.
Mão Branca/Me Morte
14/03/2007
(Feliz Aniversário Diogo, um fã do trabalho de Me Morte)