segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O encontro


Como é estranho
O que sinto no coração
Sem medo e sem culpa
Vivo cada vez o amor

Nossas almas se misturam
A cada encontro
E nos perdemos num mundo
Que é só meu e seu

O tempo não existe para nós
A distância não separa
O compromisso aumenta a saudade
Sendo cada reencontro uma alegria

Amor,eu sei que o nosso tempo não é o bastante
Mas, saiba que sempre estarei com você
E que o meu amor não tem fimIsso nunca terá fim....

sábado, 27 de setembro de 2008

Incêndio


Chamas lambem a terra

e cinzas bailam no ar.



Alheios a dança, galhos ressequidos apontam para o céu

como a suplicar a Deus a piedade dos homens.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Transubstanciação


Do homem

Sobrou a aparência

Tornou-se reflexo

Dos desejos de outrem

Estranho receptáculo

Impregnado de status

Empáfia e vaidade

Envolto pela sombra

Do medo de perder

Tudo o que restou ser

Imagem

terça-feira, 23 de setembro de 2008

INCESSANTE



Segura entre os dentes
um desejo abrasante.

Na minha língua derrete
um querer incessante

Pego no sopro do ar
Tua magnitude

Suguei desse olhar
Inquestionável virtude

Desalinhei meu caminho
Para tentar encontrar
um corpo de linho
Que tente me achar


Lena Casas Novas


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

domingo, 21 de setembro de 2008

Parte

Parte de mim é sonho,
Parte, pesadelo.
Parte de mim arde,
Parte deixou de sê-lo.
Escombro que desabou
Sobre as cores fortes da tarde.
Sobra de luz, sombra.
Desconstruindo o que restou
De um inteiro pela metade.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Sopro (o poema infinito até o meu fim)


Um índio morre queimado,
indefeso, dormindo.
Descaso.
Morreu.
Problema de exclusão!

Trinta morrem na igreja
de deus, do Quênia.
Peleja.
Morreram.
Problema de uma nação!

Os pais mortos a paulada
ganância, barbárie,
facada.
Morreram.
Problema de educação.

Um menino arrastado,
pela rua, para a morte.
Pecado.
Morreu.
Problema de alienação.

Uma bela arremessada
da janela, pelos ares
Judiada.
Morreu.
Problema de degradação.

Dois irmãos esquartejados
Deus do céu que
desgraçados!
Morreram.
Problema de legislação

Morrem homens todo dia
que somam-se aos índices.
Ironia.
Morreram.
Problema de coração.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O ANTRO DA BRUXA

Ele entrou, cerimonioso.

Nunca poderia crer que a Bruxaria lhe abrisse os olhos daquela maneira.

Afinal, vinha de uma prole fortemente influenciada pelas prevenções infundadas da Santa Inquisição. Ele mesmo fôra um beneditino ferrenho.

Vasculhou com os olhos o covil. Era estranho. Era obscuro. Era mágico. Sentiu pairar no ar, inundando o ambiente, toda aquela irradiação superior, inexplicavelmente venerável, que só conhecera entre os gauleses em seus ritos pagãos.

Havia algo ali que o intimidava. Cada recipiente, cada poção borbulhante, cada objeto disposto nas prateleiras e nas bancadas rústicas, como se talhadas com as próprias lascas do stonehenge.

Uma senhora ruiva, muito bela, olhos percucientes, estava ereta, atrás do caldeirão negro, fitando demoradamente através da janela os campos claros pelo luar.

Era uma bruxa. E ele estremeceu ao vê-la. E descobriu-se um genocida que atirara ao fogo, com seus editos infelizes, as sacerdotisas celtas, cujo único crime era a busca pela eremia, pela compreensão do mistério da fertilidade da Mãe, por serem depositárias de um tesouro infinitamente mais rico que o seu, engessado pelos dogmas e pela intolerância religiosa.

As vassouras, os gatos pretos, os corvos empoleirados nas gárgulas, os elementais como sombras luminosas vitalizando aquele reduto celta: tudo agora parecia menos ofensivo, mais nobre, mais respeitável.

E mais um homem sensato prostrou-se ao jugo irresistível da bruxaria.

Felizmente, a Verdade se difunde por fontes diversas, de diversos modos. E nem piras e Index e autos-de-fé e Concílios poderão sufocá-la. Como a Terceira Revelação, ela provém das plagas etéreas, e se dissemina entre parábolas saídas das bocas dos nossos filhos e das nossas filhas, que já estão a profetizar.

sábado, 13 de setembro de 2008

Logarritmia

Não me trago naquelas mantissas
Daquelas infaustas margaridas
Das sorumbáticas desnutridas
Ou de mais verossímeis clarissas

Desvio os padrões do consumo
Desencantando qualquer quântico
Algarismado nó semântico
Numa rima sem remo nem rumo

Minh'álgebra lírica resvala
Invariavelmente atribuída
Ao lissencéfalo da escala

Ah, e me perdoem a sintaxe
Culpa da ótica mal-resolvida
Se 'tou mais pra lá de paralaxe

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Fragmentos XVI a XX

O Ninhal
lendas, lendas e mais lendas. tudo que queria era acreditar no desgosto de Maria de palitar os dentes do jacaré na beira do pântano. justo nela que confiava o beijo azedo que vinha das sobras do charque do almoço do animal. os carrapatos tinham cara de patos selvagens. acho que essa foi a única vez que vi um pé de jibóia. o alambique tinha seus dons. e como.

A Mão no Fogo dos Outros
jurei com mão sobre fogo que se saísse vivo do 'jurassic park' me converteria para o islamismo. Muhammed é um bom nome. Juca Chaves ganhou uma nota preta às custas da ditadura. e daí? fazer poesia era uma aventura de quem queria levar no rabo. as meninas adoravam. Maria me deu a última chance pra provar que a amava. juntei os cacos de vidro no chão e queimei a mão. mas não a rosca.

A Dona do Bordéu
o vermelho da parafina queimada cheirava mal. Salete era uma típica cética. duvidava solene da existência de disco voador. ali, o que voava eram baratas e tamancos. a ordem só veio quando topou com o dedão no pé da mesa de sinuca. o taco era grande. mas quebrado não tinha serventia. chamava cada um pelo nome de batismo. seu cinismo exagerado por vezes era evidente. barateira, ela não era.

O Prego e a Cruz
o embaraço só era perceptível a quem o conhecia de nascença. evidente que sua mãe não o entregaria. não era a semi-nudez ou o penteado, tão fora de moda, que o preocupava. Jessé cobrava dívidas do relapso carpinteiro. aqueles tocos e pregos comprados a prestação nunca haviam sidos quitados. de qualquer forma ali estavam eles. diferente do seu colega de cruz, morreu devendo.

O Candidato
o cara era um pau-mandado. de tanto falar e fazer o que outro pensasse e quisesse suspeitou por aprender o ofício. pobre idiota, jamais soube por que estava ali.caricatura nova e jovem em palanque tinha suas vantagens. por trás do homem-sorriso, os búzios nas mãos do pai-de-santo. hora passada e corte na carne. o pavilhão do comando paralelo continua firme e forte, obrigado.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A Lenda de Pacarema e Sua Tribo Solitária

Habitando as franjas da baía, porta de entrada dos conquistadores, vivia o jovem Pacarema e seu povo. Selvagens na visão daqueles que vieram além mar dentro das monstruosas canoas gigantes, a tribo era composta de gente indefesa que logo se deixou dominar. E Pacarema não gostava daqueles homens brancos de vestes esquisitas, língua estranha e mando em cada gesto. Sua gente era livre, só devendo obediência aos deuses que tudo provinham a tribo: chuva e sol para o plantio, a floresta de onde tirar a caça, a baía para pescar. E Pacarema viu que desde a chegada dos brancos, tudo era diferente. Seus amigos se corrompiam com os novos hábitos trazidos pelos invasores, homens viciavam-se em suas bebidas, trabalhavam como escravos, as jovens eram violentadas. A harmonia do povo se consumia feito palha seca ao ataque do fogo.
Cansado do reinado de tirania que aportara na baía junto com a gente branca e suas armas que cuspiam fogo, Pacarema foi discutir a questão com o chefe da tribo. Karuaki, segundo a tradição, líder político e espiritual do seu povo, idade perdida nos tempos e fama de imortal estampada no corpo assustadoramente envelhecido, de pronto o recebeu em sua taba. De início, o jovem estranhou a facilidade em conseguir audiência com o líder. Mais espantado ficou ao ouvir as palavras pausadamente escapulidas da boca do ancião.
— Menino Pacarema, há tempos esperava sua visita. Nosso povo vive a opressão vinda de fora, de terras que nem imaginávamos conhecer. Mas tudo tem um porquê, nenhuma folha cai de uma árvore sem que os deuses permitam.
— E porque temos que suportar essa gente estranha?
Karuaki pitou seu cachimbo. Forte cheiro de tabaco emprenhou a taba.
— Para testar coragem do nosso futuro líder, você, menino Pacarema.
O jovem mal conteve a surpresa.
— Eu? Como eu, um insignificante membro da aldeia?
— Você foi o único a vir aqui questionar o domínio dos brancos. Os deuses já previam isso e me avisaram da sua chegada.
— E de que maneira vou ser testado?
— Vai encontra-se com Maripinã, o maior dos deuses. Ele lhe testará a coragem.
Cada vez mais atordoado, Pacarema ouviu as instruções do ancião. Deveria ele tomar uma canoa e remar até o meio da baía. Lá chegando, mergulharia em suas águas e Maripinã o aguardaria em sua morada aquática.
Como vou respirar dentro d’água, chefe Karuaki, se peixe não sou?
O velho sábio da tribo sorriu sua boca sem dentes.
— Antes você mergulhar nas águas da baía, pronuncie três vezes a palavra “xarcoanilaximazari”. Ela lhe dará os poderes de adentrar em segurança nos domínios de Maripinã.
Pairava sobre Pacarema atmosfera de medo pela aventura que se desenrolava diante de si porém, a possibilidade de conhecer o deus Maripinã e tornar-se líder do seu povo o excitava. Gargalhadas e frases na língua do invasor zumbiam do lado de fora da taba, misturadas com o pulsar da vida de sua aldeia, um burburinho melancólico, triste até. “Talvez o deus maior me ensine como enfrentar o flagelo dos conquistadores”, pensou.
Estava Pacarema absorvido nessas divagações quando Karuaki retomou a palavra:
— Lembre-se de mais um detalhe, menino Pacarema. Na próxima noite que o deus Jaribô se alimentar da lua, será chegado o momento de você ir ter com Maripinã. Aguarde o sinal de Jaribô.
Pacarema nunca havia visto Jaribô morder a lua. Tinha notícias do apetite daquele deus através de relatos do mais velhos, testemunhas pretéritas da sua voracidade. Nutria ele verdadeiro pavor da dentada de Jaribô na grande fruta brilhosa que enfeitava as noites da tribo. E seria logo este o sinal para o encontro com Maripinã.
Karuaki cerrou os olhos. Leve ressoar de sua respiração se fez notar. Pacarema entendeu que o mudismo do chefe era a senha de que a audiência findara. Levantou-se com o cuidado no intento de não atrapalhar o repouso do líder e caminhou em passos de pluma na direção da porta da taba. Na saída, pode ouvir ainda o último conselho do sábio:
— Nunca se esqueça, menino Pacarema. Somos livres para tomarmos nossas decisões, mas tomemos cuidado com o que decidimos, pois nossos atos podem influenciar para o todo sempre os que nos rodeiam. Muita atenção com o que você irá decidir.
As noites seguintes foram para Pacarema de reflexão e vigília à lua. Mal o dia se escondia e o astro se firmava no céu, ele escalava um monte próximo à baía e, enquanto aguardava o sinal na forma da fome de Jaribô, pensava nas últimas palavras de Karuaki. Sentiu que teria uma decisão importante pela frente e que ela passaria pelo enfretamento ou não aos brancos. E caso o seu o sentimento de repulsa àquela gente que as canoas gigantes haviam despejado na aldeia não fosse unanimidade dentro da tribo? Se a maioria estivesse feliz convivendo com os conquistadores? Encarou cheio de dúvidas a lua cheia, deslumbrante em seu desfilar através do tapete negro do céu noturno.
Súbito, notou uma pequena diferença no astro. A esfera já não era tão redonda como minutos atrás. Faltava um pedaço quase imperceptível no seu lado esquerdo. Com o passar do tempo, o naco foi aumentando diante dos olhos do Pacarema. “Jaribô mordendo a lua!” exclamou com excitado. Teve desejo de correr, abrigar-se na segurança de taba de seus pais, mas seu destino estava traçado desde que Karuaki anunciara que Maripinã o testaria, e um futuro chefe teria que demonstrar coragem.
Desceu o monte e correu em direção à praia onde deixara uma canoa de prontidão para quando a dentada de Jaribô anunciasse que Maripinã o aguardava. Era madrugada e poucos nativos circulavam pela orla. Alguns invasores ali se encontravam. Um deles gritou para Pacarema em sua língua cujos rudimentos o jovem entendia devido o convívio forçado: “Está fugindo de medo do eclipse, selvagem ignorante?”. Pacarema não entendeu o significado da última palavra dita por aquele branco, mas as ruidosas gargalhadas em deboche que ele soltava repercutiram em sua alma humilhada e diluíram o que ainda nele havia de receio e indecisão.
No meio da baía, exausto pelo trabalho de remar, o jovem nativo lançou derradeiro olhar em direção à lua, já recuperada da mordida de Jaribô. Era chegado o momento. De pé na canoa, pronunciou por três vezes a mágica palavra revelada por Karuaki. Em seguida, tomado por um destemor nunca sentido, mergulhou nas águas da baía.
Envolvido pelo escuro das águas que a noite maquiara, Pacarema deixou que suas braçadas o conduzissem para o fundo. Surpreso, sentiu que respirava e, pouco a pouco, sua visão tornou-se mais nítida. Cruzou por cardumes e plantas aquáticas, deslumbrado com a beleza marítima que o circundava. De súbito, notou que alguém o chamava. Não era uma voz a lhe espanar os ouvidos. Parecia que a sua mente escutava. Foi quando enorme peixe apareceu diante dos seus olhos como se do nada houvesse brotado. Era Maripinã.
O colóquio transcorreu em forma telepática. Bastava um pensar e outro respondia. Maripinã disse que escolhera o jovem para guiar seu povo em substituição a Karuaki e desejava saber se o novo líder era corajoso. Pacarema respondeu que sua coragem seria demonstrada se Maripinã o autorizasse a expulsar os conquistadores de sua tribo. O peixe pareceu esboçar um sorriso e, em seguida, abriu a boca e vomitou uma flauta composta de material sólido e prateado, o qual o nativo desconhecia. Mandou Pacarema segurar o instrumento. O jovem estudou por instantes o objeto em mãos e perguntou para que serviria. “Para livrar seu povo de todos os seus inimigos, seja de onde ele vierem. Basta tocar a flauta mágica mas, você só a tocará uma única vez. Depois me devolvera instrumento, lançando-o na baía. Caso seu coração tenha dúvidas do que fazer, não toque a flauta. Se tocá-la pela segunda vez, seu povo perecerá. Agora vai, Pacarema, segue seu destino e só venha ter comigo novamente quando Jaribô de novo sentir fome”.
Quando deu por si, Pacarema estava de volta à canoa no meio da baía. Ainda era noite. Sua única prova do encontro com Maripinã era o instrumento metálico.Grande responsabilidade tinha em mãos. Bastava que o soprasse o objeto e todos os problemas de seu povo estariam resolvidos. Custava crer que fosse tão simples. E quanto à coragem que tanto falaram o deus e Karuaki? Não fazia muito sentido tudo aquilo dentro de sua cabeça confusa pelos acontecimentos. Hesitou por alguns segundos e introduziu a flauta entre os lábios, dela tirando meia dúzia de notas. Temeroso, atirou a flauta no instrumento na baía. Estava feito.
A canoa tocou a borda da baía junto com os primeiros raios solares anunciado o novo dia. Mal deixou a embarcação, Pacarema testemunhou a histeria alegre espalhada pela aldeia. Os conquistadores haviam desaparecido por encanto. Nenhum traço do invasor se podia notar, nem mesmo as casas por eles erguidas e suas embarcações intimidadoras. Tudo se desmanchara junto com a noite. Nativos levantavam as mãos para os céus e agradeciam a Jaribô, creditando à fome daquele deus o sumiço dos inimigos. Cantoria dominava a aldeia, era a festa da vitória sem a necessidade da luta. Embriagado pela alegria de sua bem sucedida aventura, Pacarema correu para a taba do chefe Karuaki. Juntos comemorariam a façanha. Encontrou-o morto, entre uma roda de anciãos. Minutos antes, Karuaki havia revelado ao conselho da tribo que, por vontade de Maripinã, Pacarema era o novo chefe.
E Pacarema reinou por muito tempo, sendo justo e sábio, trazendo harmonia e paz para o seu povo. Apenas algo o intrigava: a estranha sensação de isolamento da tribo. Há anos não recebia notícias da nações vizinhas, muitas amistosas, outras nem tanto. Saberiam os outros chefes da aliança passada de Pacarema com Maripinã e por isso o temiam? Curioso, ele enviou uma legião de guerreiros para espionar as terras em torno da tribo. Depois de muitas luas colorindo as noites, eles voltaram com a assombrosa nova: não havia ninguém por perto. Pacarema coçou o queixo já enrugado pelo tempo. Precisava falar com o deus-peixe, saber o que se passava.
A angústia do chefe ainda durou muitos anos até que Jaribô viesse saciar seu apetite devorando quase metade da lua. Nessa noite, Pacarema embarcou sozinho numa canoa e, chegando ao centro da baía, por três vezes falou: “xarcoanilaximazari, xarcoanilaximazari, xarcoanilaximazari!”
Os fatos que se seguiram lembraram a primeira visita ao deus habitante da baía: o mergulho, a facilidade de respirar, a visão se tornando clara, o aparecimento de Maripinã.
“Sabia que voltarias”, disse mentalmente o deus. “Sei também o que o afliges. É hora de saberes a verdade da conseqüência de seus atos”.
Um clarão explodiu feito relâmpago dentro d´água e janela para o mundo surgiu. Nela, Pacarema tomou conhecimento de que seu povo agora era o único existente na Terra. Toda a humanidade sumira do planeta quando ele tocara a flauta. Tomado por desespero, viu Pacarema uma amostra de como o planeta se desenvolveria com a existência das outras civilizações ceifadas pelas notas que ele tirara do instrumento de Maripinã A maioria das coisas vistas fugiam à sua compreensão mas nele residia uma certeza: sua decisão atrasara por milhares de anos a caminhada do homem rumo ao progresso.
Perguntou ao deus-peixe, o que poderia fazer para consertar o erro que cometera. Maripinã arregalou seus olhos de peixe, sorriu maroto de lado e concluiu: “Você não errou, chefe Pacarema, apenas decidiu”.

sábado, 6 de setembro de 2008

O Halterofilista



"Babacas..." - resmungava, ao ouvir as piadinhas sem graça - sempre havia alguma nova no inesgotável anedotário dos amigos otários - pejorativamente alusivas às supostas atrofias peniana e cerebral de quem se dedicava à comprovadamente saudável atividade de levantar pesos.
Poderia resignar-se, aceitar os gracejos, acomodar-se, mas não! Não jogaria a toalha sem lutar. "Retroceder nunca, render-se jamais!" - como diria Mestre Jean-Claude Van Damme. Primeiro, ao Sex Shop. Comprou uma bomba Big Pênis movida a ar comprimido. Depois, rumo à livraria. Adquiriu nada mais nada menos que sessenta livros, mais precisamente sessenta calhamaços, todos clássicos da literatura universal; "Os Irmãos Karamazovi", de Dostoiévski, era o menos volumoso. "É possível desenvolver qualquer parte do corpo humano, basta exercitar.", dissera o treinador. "Agora, eles vão ver quem é o anjinho barroco com cérebro de formiga...", pensou, satisfeito com sua genialidade. Pegou a pesada panela de ferro fundido, no fundo da qual mandara soldar uma barra de aço maciça. Dividiu os livros em duas pilhas iguais, amarrando-os, em blocos, às extremidades da barra. Acoplou a bomba ao pênis e a panela à cabeça. Enquanto o ar pressionava dolorosamente seu pinto, flexionava os joelhos e fazia abdominais. Sua cabeça doía, mas prosseguiu, firme. Minutos depois, já sentia os efeitos dos exercícios. "Ah, então é isso!" Lembrou-se de haver lido em algum lugar algo sobre exercícios literários. Três horas mais tarde, saiu à rua para caminhar. Apesar do pau e da cabeça doloridos, estava feliz. Era um novo homem, um misto de Arnold Schwarzenegger, Long Dong Silver e Machado de Assis.

Carlos Cruz - 05/09/2008

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Roda viva que roda

Sem Paris, adoeceu Heleza,
sem Julieta, Romeu se envenena
por Isolda, matou Tristão
com Maria Bonita
foi metralhado Lampião
(indo depois à feira, mas sem os corpos),
por Hermengarda, Eurico foi morto
com Antonieta, Luís foi deposto,
sendo depois como ela
do corpo separado (de novo?)

Tal qual ao já falado Lampião,
que se por Helena tivesse lutado,
enfrentando a Tristão,
provavelmente o teria “empeixerado”
deixando Paris na mão
(e a Maria na outra);
quanto a Eurico, rezaria a missa,
com a beata Hermengarda,
que velha, feia e ranheta
acharia uma pouca vergonha
o que o Romeu fez com a Julieta

terça-feira, 2 de setembro de 2008

"O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter." Jean-Paul Sartre

autodestruição

desejei o submundo
o cais do porto
a maresia que guarda tudo
o cheiro da morte

faltou-me o nome
sobrenome, pão
memória e costela
e ainda quis o desterro

destruí minha retórica
remoí mnhas vísceras
e servi no jantar
com vinho barato

venéreo, contaminei algumas
virgens astutas
doces prostitutas
e carolas malamadas

desfolhei cadernos
anotações rasas
versos nulos
para amores vãos

e só tenho o que não quero
palavras falhas
mãos calejadas
pensamentos execráveis

a vaga lembrança
que resplandeci
talvez amei, não sei,
já faz tanto tempo

antagônicos aos desejos bobos
quereres utópicos, ouro dos tolos
almejei apenas ser sozinho
e não sou.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

meu primeiro contrato

hoje assinei meu primeiro contrato. um cara me ligou e me chamou para comparecer à secretaria de cultura para assinar a publicação do HISTÓRIAS DE MÃO BRANCA. cheguei, assinei, vi uns detalhes, sai. assim, sem glamour, sem champanha, dinheiro pro autor, então, nem pensar. hehehe. mas tá valendo.
aliás, tá valendo demais!
agora é terminar de fazer o livro, publicar, lançar, vender, ficar rico e comprar uma ilha no rio do inferno na enseada do morro de são paulo na bahia (hehehe). só alegria.