sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Reflexão nostálgica

Quando dei por mim, já estava delirando com o som futurista e com uma tecnologia não pertencente à este plano. Olhava ao meu redor, todos dançavam o ritmo alucinante. Sincronismo do tempo, com a música e as pessoas. Tudo estava belo, o sol estava belo, as pessoas eram belas, o lugar era fantástico. Sentia-me seguro, com amigos ao redor, nada de ruim por ali. Um lugar onde a maioria das pessoas possuiam uma mente ampla o suficiente para voltar a atenção às coisas que realmente importam... O mal não existia ali. Entrei neste mundo, ilusório ou não, exuberante! Nessa viagem onde parti, fiz muitas coisas, conheci muitas pessoas, em especial... a fada:

"Abrimos e expandimos os horizontes em uma viagem astral, na qual atingimos um grau em nossas mentes onde nos permitimos ser tudo e estar em tudo.. Fomos para os mais bonitos lugares e descobrimos as mais belas pessoas. Conhecemos a bondade e a ruindade, fomos a bondade e a ruindade. Entramos em um universo onde existiam balões coloridos, chicletes sortidos e o Arco Mágico Colorido. Lá, eu era o Deseínho e ela a Sininho, a fada. Ambos voávamos e tinhamos o poder de nós dois juntos, conseguir o que quisessemos. Consigo ainda me lembrar dos olhares malevolentes, como que nos invejando por sermos seres em total sintonia. Tinhamos o poder! Éramos do bem em um lugar onde dificilmente pudesse haver. Em um mundo ilusório construido pelo malígno, conseguiamos nos adaptar e tirar tudo de letra. Há quem diga, que eramos Almas Gêmea. Diz a lenda, que quando uma alma encontra sua outra, tudo torna-se mágico e belo, tudo torna-se fácil. De uma hora pra outra, o mundo torna-se nosso, abrimos a mente e conquistamos a Via-Láctea! Vivemos entre o céu e a terra..."

Essa foi a relação que tivemos.
Até hoje não sei bem o que foi aquilo, mais com certeza algo platónico!

(Primeiro post, prazer em conhecer quem quer que seja)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Desjejum da apatia


Teatro alquímico dos detalhes
Tão incendiário, que tenho provas
Palmilhas de ferro instaladas no peito
E um estranho passatempo de medir a solidão

Mordidas vasculhando lados secretos
Sapateiam meu tempo acelerado
Não é justo,não é válido
Morar do lado de fora dos pavios
Recebendo os convites das entranhas inceneradas

E esta seria uma sentença
De ter a língua amargando teus banquetes
Mas não sou livre o suficiente
Para a estricnina dos teus olhos



foto:Cartier Bresson

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Projeto Literário - Fanzine "O Observador"

Desde a adolescência pensava em um meio de expressar minhas idéias; não pensava apenas em publicar minhas histórias, mas também em uma maneira para meter o pau em um político ou comentar sobre algum fato do momento.
A "luz" chegou quase vinte anos depois, em 2007, quando finalmente resolvi criar um fanzine. Até hoje foram seis números, publicados trimestralmente e distribuídos gratuitamente por bares culturais de Brasília.
O objetivo agigantou-se: não se resume a textos do Glauber e a pitacos do próprio. Ironicamente, o que menos tem são textos de minha lavra. Escrevo contos um pouco longos que não cabem em uma publicação de duas páginas... sobrou para meus amigos poetas e minicontistas.
Já há alguns anos tenho o hábito de reunir textos que me agradam, como o devido crédito, claro. O que tenho feito é reunir esses textos, garimpados na internet, e publicá-los pouco a pouco.
Acrescentando, minha meta hoje não é apenas mostrar o que penso através desses textos, mas também incentivar a leitura: é o motivo pelo qual os fanzines não são vendidos, mas distribuídos para os participantes de cada edição, para os bares, e em eventos culturais.
A biblioteca pública da cidade missionmeira de Roque Gonzales (RS) também recebe alguns exemplares. A cidade é sede do Jornal Igaçaba, cujo dono organiza anualmente concursos literários da qual já tive a honra de fazer parte. Aliás, soube depois que uma velha conhecida nossa, a Me Morte, também participou de algumas dessas edições, usando seu nome verdadeiro.
Então é isso. Criei também uma comunidade no orkut para o fanzine, onde publico os textos que enriquecem a versão impressa. Estão todos convidados a entrarem e a opinarem sobre o material. Eis o endereço:

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=37953093

sábado, 24 de janeiro de 2009

Pra trás




nossa noite à luz vermelha
foi somente para afirmar


que para causar a centelha
é preciso ousar.


debulhei minhas pétalas
para te embebedar de mim


foram nuvens da primavera
e acabou assim:



os seus gestos da meia-noite
do meu travesseiro eliminei



assim como meus vício
s desde a nossa primeira vez


minha força vai muito além
e esta é a minha razão,


o tempo é quem sabe
da gangorra de um coração



Autora:Lena Casas Novas
Todos os direitos reservados

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Convidado Edson Rufo

Pedir e Conquistar



Existem muitas diferenças na vida.
Aquele que pede e o que conquista.

A vida é uma busca constante e não devemos deixar de respirar por um minuto.
A diferença esta em quem tem tudo na mão e que sem se conscientizar é manipulado por uma questão só de aparência.
Sim, existem aqueles que toda a dias pensa em mudar, melhorar, buscar cada vez mais.
Precisamos de parceiros, pessoas que se espelhem e tenham a mesma energia flutuante.
Não devemos nos enxergar como concorrentes mas sim com força esplendorosa.
De certo que aqueles que têm tudo na mão a primeira reação e se afoitar buscando abrigo aonde jamais terão que fazer força.
E até quando fugir?
O desafio da vida é o contrario, é essa briga constante pela felicidade num todo devemos nos unir e não pisar na cabeça, afundando assim aqueles que nos ajudaram a levantar.

A diferença talvez esteja na inferioridade que se sinta. E o pretexto é a melhor rota de fuga.
O novo não se conquista em um mês um ano, tudo começa a se ajeitar a partir desse tempo.
Temos nossa característica própria, lutador, estar sempre buscando o melhor mais de maneira limpa.
Lógico que também erramos, mas não somos concorrentes nos erros somos parceiros na felicidade.

A diferença é assim entre pedir e ter ou entre conquistar.
Certo, que também temos fraquezas de espírito aonde a força é o disfarce e tudo acontece.
Reflita sempre seja quem for seu parceiro ou parceira jamais em momento algum desista tão rapidamente, não seja fraco, nem tire conclusões, e não se tornara a decepção e sim a construção cada qual tem o seu papel aprenda conquistar-lo.
Uma frase que finaliza, seria:

“Se não pode, junte as forças e se tornem uma única potencia.”


Edson Rufo
ecritor.poeta@terra.com.br





Edson Rufo, brasileiro, Paulista, nascido em 24 de junho. Escritor, poeta, roteirista, diretor, autor teatral, colunista. Escreve para vários jornais, revistas e matérias Internacionais e é autor de Haicai. Já publicou os livros: "Fragmentos"; "Pedaços"; "Um Grito de Solidão"; "Pior que eu Gosto"; "Tinhão o rato Sonhador" (infantil) e "Livrai-nos de todo mal". É terapeuta e trabalha com o equilíbrio do corpo e da mente. Condecorado com o Título: "Comendador Colar Gran Cruz Mérito da Medicina". Medalha Colaboradora - 2007 Aurélio Miguel – Câmara dos Deputados. Atua como consultor de Feng Shui e presta serviços de harmonização de ambientes para empresas e residências. Ministra Palestras em todo Brasil visando a qualidade de vida, temas como "Detalhes que fazem diferença" e "Na verdade você pode tudo." Anualmente administra Campanha para ajudar familias carentes. Foi homenageado no livro Berço do Haicai Kiologia e Antologia - Edição Internacional da Imigração Japonesa em 1996 MEMBRO: Academia Brasileira de Poesia Casa de Raul de Leoni Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores Sua Frase: “Somente o tempo diz, que confiança é vidro, que ganância é pedra, que desprezo é arrependimento, que ilusão é tombo, que mentira é espelho." Conheça o escritor em seu Blog: http://escritorpoeta.blogspot.com/

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cacos

No caminho em desalinho
Encontro ontem em pedaços.
Batismo de vinho
Sobre a carcaça de um cisne
Num charco sombrio.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

(Des) PRETENSÃO (a) CULTURAL






















(por favor, clic na imagem para ampliá-la)




Em uma de minhas aulas, dentre tantas onde, felizes, abordamos o assunto, a questão cultural (não estou preocupado se vão ter ou não pessoas a favor ou contra esse pequeno texto/desabafo, ou crônica hemorrágica, pois, honestamente, passei da fase de me preocupar se vão gostar ou não de mim, das coisas que escrevo ou penso... cada um com sua pena e sua dor), bom, enfim, em uma de minhas aulas meus alunos e eu paramos para analisar a Cultura e o Meio de Comunicação, e pasmem – alunos de sétima série, oitavo ano, ou seja, doze anos, que acompanho desde o sexto ano, e tivemos grandes saltos e avanços, onde discutimos Poe, lemos Pessoa, falamos de filosofia, da matéria que sou pago para lecionar, e tantas coisas mais que não fazem parte da grade curricular, mas que me vejo obrigado a expor, pois como educador, e educadores, mesmo não sabendo disso, têm a obrigação de moldar, ou lapidar, o aluno para que seu amanhã seja reflexo de sua boa educação e culturação, mesmo que em casa não haja isso.

...

O fato é que nessa aula discutimos sobre algumas emissoras, desde a mais famosa, não sei por que, até a mais apelativa, emissora que adoro dar como exemplo do que é a má-educação ou a não-educação... para não dizer coisa pior... e não encher o ouvido alheio de um “VEJA...” ou “olhe quem esta de namorado novo...” ou apenas, “super pop com...” que de super só tem o nome... (não gosto de dar nomes...), e a discussão era como controlar o que aprendemos se se em casa desconstruímos todo o conhecimento defumando o cérebro diante de um aparelho, que hoje concordo ser do diabo, mesmo achando injusto atribuir a ele tal culpa, veja bem, não sou contra a televisão, pelo contrário, mas não vou dizer aqui as suas qualidades, acho que você é capaz de encontrá-las por si só.

...

E no furor dessa discussão, ou apenas debate, uma de minhas alunas, sabiamente, disse, em outras palavras que os maiores culpados são as pessoas que colaboram para que programas como esses (que difamam a mulher, desabonam o poder público, ridicularizam os simples, e dentre tantas abominações), pessoas essas que se aninham no conforto de suas casas para rir, chorar ou apreciar a morte alheia na hora do jantar.

...

E analisando bem, obvio que sim, a massa é a grande culpada, não precisaríamos de uma visão de raio-x para vermos que em uma casa, a mais simples, tendo como exemplo, tem em cada cômodo um aparelho de TV, outra falha da má instrução, o aparelho dividiu e afastou a família.

...

Na minha época de garoto meu pai lia para nós cordéis, nos contava histórias de sua época de meninice; meu avô, veterano da segunda grande guerra, nos contava algumas coisas do front, e falava palavrões nos dez idiomas que dominava, meu irmão mais velho ouvia em seu quarto, enquanto desenhava nas paredes, The Beathes, Rolling Stones, Led Zeppelin, dentre tantas bandas que cultuo até hoje, meu pai nos mostrava a beleza de um Gonzagão, de um Nelson Gonçalves, mas também tínhamos o aparelho de TV, só que nele não víamos o AQUI E AGORA, e sei lá quais programas inúteis apareciam na minha época de jovem, sentávamos todos na sala, de paredes rústicas, e por tempos sem janelas e assistíamos VHS em um vídeo-cassete de duas cabeças (e sem controle remoto), conto isso aos meus alunos, e nos divertimos muito, e muitos deles me contam que seguirão alguns dos meus exemplos no seio de suas famílias, pois cultura não se nasce com ela e não apenas se herda, mas se muni, se nutri, se faz... cultura é adquirida através de bons exemplos.

...

Termino com uma pergunta simples, você leitor, amigo, você transpira cultura aos seus (seus filhos, sobrinhos, amigos, alunos...), você se faz cultura?


Abraço.


Flávio Mello – 27/12/2008

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pó nos ossos.


Pó nos ossos.

Navego pensamentos sombrios
e mexo em guardados perfeitamente inúteis,
talvez algo valha no sentido observado.

Sou a sombra de uma esquiva paixão
no desvelo abominável
das marias que tecem saudades.

Caibo no desvão das coisas mortas,
prece sustentável
no peito dos sábios loucos.

Por hora moro esquizofrênica,
frenética impaciência.
Infelizmente descobri que também sou passado.

Eliane Alcântara.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Poeta será que sou

Um poeta tem que comer

não vive só de idéias

cantante em outros planos


Um poeta tem que vender

um milhão de idéias

uma explosão semântica

que ninguém sequer irá ler


Um poeta, que poeta?

poeta será que sou?

porque escrevo assim

assim em versos

crescentes estrofes, poeta sou?


Nem penso,

será que sou?

mentira,

pois só sou porque penso

ser

uma questão de pensar...

Convidado Assis de Mello

A Casta Judith

( Ao poeta Antonio Cisneros )

A casta Judith
beata de óbito e nascença
não foi de se cheirar

Há boatos de que sobre nada meditou na vida
e a todos execrava
prescrita por antigos sacerdotes

Bebês lhe eram gosmentos
a juventude transversa
homens ficassem longe
mulheres: vacas

Deambulou por cerca de 700 anos

Trancafiada num quintal
estercava canteiros de flores
e solfejava, pra si mesma, hinos celestiais

Pobre alma
resumida em revirar estrume
e a espiar o mundo em malogro

Como a tia-avó do poeta Cisneros
preocupou-se mesmo
em manter a boca e as pernas bem fechadas

Nunca estimou bichos de pêlo
e botava veneno pros gatos

Tão rude foi - e tão mesquinha -
que ao arrumarem seu corpo para o esquife
não careceu de algodão nas ventas

Mulher azeda que amava flores aquela Judith

Amava-as sem desconfiar da orgia
que as plantas faziam em seu quintal
e jamais cismou que semente e fruto
são denúncias de um conluio genital

Passava manhãs e tardes a glorificar abelhas
que lambiam as pequenas anteras dos falos vegetais
cobertas de pólen
e sorviam o doce dos gineceus
- aveludadas vulvas

A morte libertou-a pouco
de seu diário louco:

inumada num cascalho
onde mal cresce o mastruço
um cãozinho chamado Torresmo
irriga sua lápide





Assis de Mello é zoólogo e docente na UNESP. Escreve um pouco, pinta um pouco e fotografa um pouco. Apesar de cientista, passa 50% de seu tempo abominando Descartes e tudo aquilo que é excessivamente racional, pois está convicto de que certa irracionalidade deve trazer felicidade. Como zoólogo, especializou-se no estudo de grilos e insetos afins; ele suspeita que, se não for o maior especialista em grilos, deve ao menos ser o mais completo, uma vez que possui tanto grilos nas gavetas de seu laboratório quanto em sua cachola perturbada, porém lírica. Mantém o seguinte blog: http://coisasdochico.blogspot.com

sábado, 17 de janeiro de 2009

Revoada

.


Alguns gestos esperançosos largados pela janela e a vastidão de tudo abraça aquela pétala.

Não, não foi flor que abriu as asas e voou. Foram os olhos dela.

De partida, alguns lenços desbotados sobre a espessura rachada da mesinha. Sabe como é, pequenas relíquias partidas, algumas manchas no carpete e um bom soneto...
Para as luas indevidas.

Coube ainda um raio furta-cor, que caiu como vento de Julho sobre os cabelos. Um tom de sobremesa e dois versos de ilusão.
Não era fúnebre, era de uma melancolia profundamente despida de beleza.

E, de tanta beleza, com uns acordes que não me recordo, me corroia.

Fui abandonando em pequenas poças de lama, aqueles pedidos que ela me fez quando pela primeira vez viu os meus olhos: "casa rosa-chá, álbum de gravuras, pequenas porcelanas aplicadas nas paredes da cozinha branca"

E os sentidos, já isentos de qualquer iluminação poética, espalharam manhãs por aquela noite indecisa que se atrevia além da coluna de vidraças.

"Que se faça saudade."

Foi isso. E nunca mais brilhou a íris sobre a minha tez.

Sobraram uns gestos esperançosos largados pela janela e, dizem, que uma revoada de borboletas fincou raízes naquela noite, no jardim alterado, nas últimas luzes de um dia triste enquanto os desejos partiam, lá em casa.


 
(Jessiely Soares)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Maremoto


São ciclos desejando
oceanos e paz
quase suplicando areia
e rede

E depois, tudo tanto faz.

O mar causa angústia
por mais de cinco dias
Ser descalça, inflama
a mente

Me consolo nas águas de minha mãe
por mais um instante

Ninguém é ileso ao asfalto:

É preciso um Niemeyer ao alcance
é necessário que meu olhar se fragmente
na próxima parede

assim lembro-me pequena e
limitada.

Uma vez infectada de pressa
Apresenta-se sintoma latente de
Madalena e Mariana.

Mochila de novo nas costas
O último olhar de paulistana.
Riso, gratidão e alívio num
suspiro alto

E eu ainda
Morro de São Paulo


Barbara Leite

Lótus de Mil Pétalas

(Sonia Cancine)


Símbolo flor de pureza e perfeição
Iluminada pelo sol da manhã
Eclodem tuas pétalas e irradia perfume
Do lodo, floresce tua liberdade
Intocada pela imundície
Homem, inclina tua força interior
Apesar do teu sítio antagônico.

À espera de eclodir a tua existência
Oh! Belo lume lótus de mil pétalas
Espelho dos grandes homens do Sol
Abra tuas asas para mim...

Através do poder do fogo sagrado
e da grande força dos princípios vitais
Faz-te vida vivente, em minha carne.

O fogo arde neste sutil revelar
Uma vaga sombra da consciência
Fogo serpentino que pode criar ou destruir
Teu despertar num todo harmonioso.

Converte-te em pássaro e desvenda tuas asas
Incapaz de levantar vôo. Mas, neste afã de voar
Abaliza o belo do feio. Experimenta!
É chegada à hora que finalmente
>mil pétalas da lótus
o libertarão
e deitará sobre tua cabeça
a Coroa de flores do Amor.

Não tenhas medo, é vórtice que nos sintoniza
Neste cálice de vontades...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Muchachas de Copacabana

Quando Xavier dissera a Odete que jamais haveria outra mujer que lhe fizesse tão feliz quanto a ex-pobre garota de programa, os olhos azul-turquesa do Espanhol reluziam confissões de um amor sincero. A primeira vez que o Espanhol viera ao Rio foi paixão à primeira vista: as belas praias, a cidade imperial de Petrópolis, a Vista Chinesa, a melodia sussurrada do engraçadíssimo sotaque carioca - e as belas meninas que exibiam seus corpos torneados tal como o majestoso Pão de Açúcar. Não que fosse do tipo turista sexual, não era essa a questão, era homem de bem e de negócios, de caráter sóbrio. Além do mais que mal havia em deixar-se inebriar pelos doces lábios de cana-de-açúcar destilado das renomadas Muchachas de Copacabana? Conhecera outros gringos nos prostíbulos da Zona Sul e vez e outra ia de encontro aos novos amigos para tomar um drinque, jogar conversa fora e, claro, apreciar as meninas. Na noite em que trocara olhar com Odete não contava com a peça que o destino lhe pregaria. Tudo estava em seu perfeito lugar, como deveria estar. “ – Tem fogo?”, perguntou Odete. “ – Si, si, claro!”, respondera ele gentilmente o clichê em forma de convite de aproximação. Odete não intencionava flertar com o Espanhol – uma das meninas de fato lhe tomara o isqueiro emprestado e minutos depois desaparecera com um cavaleiro inglês. Era sua quarta semana na batalha e só não deixara ainda de exercer a profissão mais antiga do mundo por gratidão à Velha Sofia – cafetina de luxo e estrela-cadente dos tempos de ouro da rádio nacional. Sofia lhe estendera a mão solícita quando a mulata da baixada fluminense cansou-se da revenda de cosméticos: “ – quem consegue viver com quatrocentos reais por mês?”, reclamava Odete antes de dedicar-se a tal empreitada. O Xavier bem que se divertiu com o ritmo caliente de Odete. Como haveria de ser. Odete tinha um quê de bossa-nova, uma tristeza tépida quase elegante. Seus olhos negros e irresolutos descompassavam o Espanhol dos pés à cabeça. Xavier não percebera mas no primeiro encontro já se podia dizer que estava tão enovelado quanto as tranças nagô da jovem mulata. As visitas ao Brasil tornaram-se cada vez mais freqüentes até que um dia não resistira mais e entregou os pontos: “– Compramos um apartamento e dividiremos o mesmo teto de hoje em diante”, disse com ar de príncipe encantado. Tudo parecia as mil maravilhas para o casal mais feliz do ano. A Odete, que a essa altura havia se matriculado no curso de psicologia, acabara de concluir seu primeiro período na faculdade e para comemorar Xavier levou-a para Paris. Ela contava toda prosa, com o sorriso do gato de Alice, tudo que havia aprendido nas aulas de introdução a psicanálise enquanto os dois saboreavam a garrafa de Beaujolais Nouveau, vinho favorito de Xavier, no restaurante Chez René no Quartier Latin. Depois o casal de enamorados amaram-se loucamente sob as luzes difusas da Pont Neuf. Como haveria de ser. De volta ao Rio, os dois seguiram contentes até um certo mês de Agosto, um ano após a viagem. Xavier se dera conta de como seus ímpetos masculinos o haviam traído. Certa tarde em que Odete se encontrava na faculdade, o Espanhol acometeu-se de uma terrível saudade dos tempos em que não acordava todos os dias com a mesma mulher. Não que duvidasse de seu amor por Odete, só que por alguma razão inexplicável a felicidade lhe amargara o paladar. Tudo havia se tornado tediosamente previsível. Sua nova vida no Rio não lhe reservara mais surpresas. Do alto de sua cobertura em Copacabana, Xavier se vira enfadadíssimo. Foi quando resolveu discutir o caso com Odete de forma sincera: disse que preferia ser honesto com ambos. Não queria feri-la mas precisava de um tempo para refletir sobre a vida a dois. E como é sabido por todos: dar um tempo é tarefa individual. Odete não questionara a decisão do Espanhol, porém foi obrigada a chorar quando juntou seus pertences para nunca mais voltar. Era uma vez Cinderela. Ao decorrer de três meses, o suficiente para cicatrizar as feridas de amor, Xavier preferiu não abrir mão da cobertura – afinal o Rio de Janeiro não pagaria o preço por um caso de amor malogrado. Ao findar do sétimo mês lá estava ele novamente a passar noites em prostíbulos, jogando conversa fora com outros gringos, bebiricando seus drinques, cercado das mais belas damas de aluguel de Copacabana. Tudo estava em seu devido lugar, como deveria ser. Houve uma noite em que seus instintos exaltados falaram mais alto e ele resolveu levar uma menina para cobertura. Saciou seu apetite carnal com a mulata mais cobiçada da boite Help. Ao término do serviço sexual - que não incluía dormir em forma de conchinha - a menina, sem fazer cerimônia, pediu o lhe era de direito, vestiu-se e foi embora. Estirado na cama de casal, ainda nu, Xavier acendera um cigarro sorrindo e pensou: o amor é uma puta que se despede sem beijos. Como haveria de ser.


Sebastião M.

Meu Caminho

Devastando meus sonhos e esperanças...
Você reaparece!
E abruptamente consegue corromper uma vida
Onde a satisfação e o gozo se confundem
Na velocidade da tua indiferença minha angústia te acompanha
E ultrapassa todos os limites da minha sanidade
E neste descontrole me perco na única via de equilíbrio que me resta
O que tenho agora é a visão de um mundo em mão única...
Sigo o horizonte sem olhar para trás
A tristeza, fiel companheira segue -me nesta caminhada
Unilateralmente esmago a todos com voraz devassidão,
Ofereço o mais puro gozo...
e na minha indiferença...
Sigo!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Gêmeos Contextuais

Senhor Hipônimo e Senhor Hiperônimo eram gêmeos não-univitelinos. Trabalhavam juntos na mesma repartição.
Senhor Hipônimo era carrancudo. Metódico. Não abria exceções. Já o Senhor Hiperônimo era mais bonachão. Comunicativo. Guardava ainda uma rebeldia adolescente e levava a vida com condescendência.
Naquele dia, o sub-chefe do setor de pessoal da Secretaria do Conselho anunciou, com voz grave, que estavam todos dispensados de seus serviço e deveriam desocupar as gavetas.
Senhor Hiperônimo esbravejou. Lamentou todos os anos perdidos em dedicação à burocratização da Empresa. Ao fim, pôs-se a varrer os própios vestígios do recinto.Surprendeu-lhe um achado entre as pilhas de arquivos: Uma pasta amarela intitulada "Projeto de Vida Pessoal de Hiperônimo". Sorriu. Tomou a pasta contra o peito. Começou a assobiar uma canção dos anos sessenta e ganhou novamente a rua.
Senhor Hipônimo só agora começava a despertar da letargia que a notícia lhe causara.Abriu a primeira gaveta.Contemplou a simetria dada pelos objetos ali dispostos com perfeição.Abriu a segunda gaveta. Retirou o estojo com os óculos e, então, abriu a terceira.
Ouviu-se um estampido seco, metálico...como a vida do Senhor Hipônimo tinha sido por todo o sempre.

O Carrossel de Dlim Dlão






Que coisa tão
engraçada
bola pião
e risadas

Canta lá fora
a passarada

Minha irmã
pula corda
na calçada

Sorrio do tudo
que vejo

Descubro
o mundo
de meu berço

Se choro me
dão mamadeira

A noite chupo
chupeta

Adoro nadar
na banheira

Vovó me senta
no colo
dá um cheiro
em minha bochecha

Sonho meus
mundos deitado
na esteira

Toca o carrossel
seu dlim dlão
gira o mundo
gira o céu
gira lua
gira o anjo
que me sorri
lá do alto
da estrela



Autora: Angela NadjaBerg Ceschim Oiticica

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

PAIXÃO VULCÃO

Para: O amor
Ao som de Belchior




As vezes penso que o amor deixou de existe, mas toda vez que olha para os velhinhos se amando na praça, sorriu pra mim e fico bem, o amor ainda existe; nas bocas ressecadas pela idade que se tocam no banco da praça.
As vezes tomo alguma bebida alcoólica de leve querendo espanta o frio ou o medo da morte , sempre que bebo converso com pessoas conhecidas ou não o que importa e ouvir e se ouvido, atenção é uma coisa que não se vender; ontem conheci uma garota ela beirava a juventude usava preto e ouvia rock queria muda o mundo fazer algo. Eu disse pra ela que um dia pensei assim; hoje o que restava era a verdadeira realidade do ser vivo.
Ela me perguntou o que era, disse baixinho no seu ouvido:” fazer amor” ela sorri pra mim me beijou e saiu em busca de algo que não podia lhe dar.
Sandoval do bar vive dizendo pra mim que sou louco; que não presto pra nada, que não saber o porque de uma pessoa igual a mim viver naquele lugar pacato. Sempre sorriu pra ele e lhe digo: “Seu Sandoval amar e nada mais”.
Sempre que digo isso ele me deixa e vai cuida dos seus clientes normais. É verdade mesmo o que ele diz? Algumas pessoas acham que sim outras que não isso, não importa eu não sou popular no lugar onde habito, sou apenas mais uma figura urbana como tantas outras da cidades.
Fred é que é mais louco que eu imagine só!, viver pelas ruas da cidade mostrando um cartaz abraço grátis, algumas pessoas o abraçam mais isso é muito raro, o normal é ele passa semanas sem conseguir um único abraço, pobre Fred, já disse isso pra ele mais não adiantou nada, ele continua abraçando pessoas nas ruas e eu olhando os velhinhos se amarem na praça.
Tenho um amigo que deseja ser artista pobre diabo artista se é não ser deseja, ele quer sim o glamour da arte mais isso poucos tem. Quando ele me mostra seus escritos acho-os lindos e sinto uma vontade imensa de poder ajuda-lo a conseguir o estrelato. Sorriu pra ele e lhe pago uma bebida bebemos o álcool faz efeito começo a querer uma mulher pra a amar ele começa a falar sem parar sobre tudo sobre Deus, Diabo, arte, sexo e outras coisitas mais. Mandou ele cala a boca ele insistir em falar dessa vez sobre vampiros ; o deixo só, ele correr em mim direção e socar minha barriga corro dele e sigo em direção a casa de Maria puta bonita da minha cidade, ela ainda dorme a noite deve te sido longa; depois de meia hora ela abre a porta me coloca pra dentro me amar como uma donzela do século XVI, junto de mim ela não precisa de mascara, junto de mim ela não precisa de nada.
Depois conversamos sobre seus pais ela diz que seus pais ainda não aceitaram sua profissão de rapariga, digo pra ela ;que á vida é assim se preocupa é um fado sem importância.
Ela sorrir pra mim é me expulsa de sua casa fala que precisa dormir, que logo mas ira trabalha de novo. A deixou em paz.
E vou arrumar comida com os mendigos do centro, na verdade prefiro come com os cheira cola porque são crianças e ainda tem alguma esperanças na vida, os mendigos do centro na maioria são velhos decrépitos,rabugentos e ranzinzas , não gostam de conversar muito sempre que agente se encontra agente discuti principalmente quando a velha Irene esta. “Oxe o que tu veio fazer aqui ? cara nojento eu te odeio não quero você comendo da minha comida.” Me diz Irene
-Sai pra la velha rabugenta não quero conversar contigo vim conversar com os outros.
Respondo pra ela.
Consigo comer e os deixou a pedir pelo centro e volto pra meu lugar. Minha casa continua suja a dois meses desde que minha amante me deixou não limpo minha casa.
Tenho coisas mais importante pra fazer, como não fazer nada, assim é minha existência dormir como uma criança imaginando o próximo dia como o melhor para brincar com os outros menores.
Acordo cedo nem tomo café direito e coro pra praça e vou fazer o que mais gosto olha os velhinhos se amarem.

Salvatório

Em : dez de janeiro de dois mil e sete, sendo uma quarta de uma tarde quente.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Guerra e Paz


o tártaro decerto havia dito do sangue que escorria das montanhas e formava uma cascata colorida. tão bela, cheia de corações partidos e perfurados. e eu a admirava. embora supeitasse pecado por tamanho despudor de tê-la por diva. e nela via o rosto mais autêntico do ser. o medo do agora. tanta fobia por nada, um pouco de pó um pouco de dias e uma saudade imensa de minha filha.

Convaidada Allanna Menezes



 Fim de estiada

chuvarada
.
o que tanto pesa
nesses
que caiam
que tanto pinga
desses olhos
e tanto pesa
tanto chove
nessa cara
já nem sei se é
mesmo amor
ou outra peça
----------------------------------
tiro o mundo da tomada
preparo um café
e a velha cadeira,
herança de avô.
é,
com chuva
me deixam assim
fechada para balanço.
--------------------------------------
da janela espiava a chuva
afinada em si
fina, tão fininha
mais parecia
seus cabelos, vovó
num coque
conforme o vento
e o tempo
---------------------------------------
chuva
cor de nada
feito vento
ou feito deus
por isso
insiste em deixar
multicor
esse céu atrás de si
------------------------------------------
quando saí do trabalho
a danada me esperava
molhada como sempre
e eu ali, duro
.
sem dinheiro pro táxi.
me encharquei todo.
------------------------------------------
elegia da chuva
nada mais fazia senão chover
chovia por poros abafados em tule preto
e seguia o gotejo
e seguia o cortejo
.
---
Allanna Menezes

domingo, 11 de janeiro de 2009

Convidada Liege Marla




















LIBERDADE


Somos escravos do asfalto, enquanto pássaros desnudam com ar soberano e num lindo bater de asas, sua excelência como donos do céu, do ar, dos ventos e de uma liberdade sem limites!
O homem, pela incapacidade e insignificância diante a tanta beleza, empunha-se de uma arma e por simples prazer, finda este espetáculo para sempre...
E os frágeis corpos que caem, pousam sobre suas cabeças para novamente se fazerem vivos, mas em suas almas, para que jamais esqueçam o quanto irracional e cruel é o ser "humano".

---
Liege Marla


sábado, 10 de janeiro de 2009

Autópsia Psicológica





Havia um lugar em que eu queria estar agora, um ponto no fundo do quintal da casa em que eu cresci, um lugar aonde eu ia para chorar sem que me vissem (odeio que me vejam chorar) ou apenas para sentir o vento.

Lá ficava uma mangueira. Era mais nova que as outras árvores e na luta por sol havia se tornado a mais alta. Quase não tinha galhos laterais, era longilínea e sua copa se erguia acima de todas as outras. Só eu conseguia escalar aquela árvore, por isso a considerava minha. Era no alto dela que eu gostaria de estar. Escondida entre as folhas, esquecida do tempo. Infelizmente isso não seria possível já que a árvore foi cortada e no lugar da casa existe agora um prédio feio. Moro em outra cidade, outro tempo, outro corpo e não posso me esconder... Nem sempre.

Era de manhã quando ele ligou. Confesso que pensei em não atender. Sabia quem era e achava que sabia a razão do chamado. Estava errada, não sabia.

“Alô. É você? Tem alguma idéia de que horas são?”

“Cala a boca e escuta.”

Levei um susto enorme com o tom de urgência na voz. Um choque que me fez obedecer e suspender as reclamações.

“Presta atenção, meu amor. Eu decidi ir embora.”

“Como assim?”

“Fica calada e me escuta. Não é você... não tem nada errado com você OK... Não admito que pense assim depois... não esquece... EU DECIDI.”

“Você não tá falando sério.”

“Presta atenção! EU QUERO IR EMBORA E NINGUÉM TEM NADA COM ISSO!”Ele oscilava entre o sussurro e um tom próximo do grito. “Mandei um bilhete pro resto da família... mas com você eu queria falar... queria te ouvir antes...”

“Pára com isso! Onde você tá? Eu vou te buscar...”

Podia ouvir o vento em meio a um silêncio absurdo, tudo parado como se nada mais importasse além da voz dele no telefone. Depois de uma longa pausa, ele suspirou.

“Eu sei que viria, mas não dessa vez... Obrigada, anjo... eu quero ir embora.”

“Por favor, só me diz onde diabos você está e fica falando comigo, não desliga!”, eu disse pegando as chaves do carro e correndo para a garagem. O silêncio dele me assustando cada vez mais. “Fala comigo!”

“Só queria que soubesse... Não é sua culpa... um beijo, anjo.”

Fiquei algum tempo olhando para a chave inútil. A chuva começou naquela hora.

Chove enquanto eu fico aqui cercada por cartas, bilhetes, fotos e livros que explicam o que eu já sabia. Desisto de ler.

Assisto a cidade afundar numa tarde aquosa. Penso vagamente em andar na tempestade. Olho da janela minha rua transformada num rio pardacento e desisto disso, também.

Minhas idéias giram, rodopiam sem parar, os pensamentos embaraçam seus longos tentáculos e acabo por não pensar coerentemente. O céu ali, à esquerda do poente, abriu-se num magnífico azul que se expande. Sobre as árvores da praça surge um arco-íris e eu me escondo nele. Vento e chuva entram pela janela aberta. E se eu fechar os olhos posso ver a árvore morta dos meus devaneios.



* Tela: Miranda, The Tempest de John Williams

Convidado Robisson Sete















Acasos, Caos e Coincidências




Acredito em coincidências.
Acredito em acaso. Em instinto.
Meu Deus também joga dados, mas também sai às vezes pra dar um rolê.
Deixa o tabuleiro à mercê das crianças.

Acredito em premonições e no poder intuitivo.
Acredito no que dizem os arrepios na espinha. Creio em dejä vus.
Tento sempre que me lembro, decifrar meus próprios sonhos.
E os dos outros também.

Leio horóscopos.
Freqüento centros de candomblé.
Participo de reuniões de médiuns e videntes. Como biscoitinhos da sorte.
Peço a ciganas q leiam minhas mãos, as duas, pra que não restem dúvidas.

Sento sempre q posso
No centro da cidade na hora do rush
Tentando observar o acaso agindo sobre nossas vidas.
Um encontro inusitado. Uma batida de carro. Um ônibus q se perde.

Daí me permito seguir pessoas e descobrir o que o acaso lhes reservou.

Mania estranha né ?

Poizé... Melhor q roubar chocolate Bis nas Lojas Americanas, igual fazia quando estudava no Bueno.


Acredito que algumas coisas não são à toa. E outras acontecem e servem ou se utilizam, como q sendo antenas do subconsciente, pescando o pensamento coletivo.

Crash da bolsa, presidente americano negro e descendente de muçulmanos, as historinhas da Mônica agora são adolescentes, começo a ficar barrigudo, meu joelho dói, minha banda lança disco, eu lanço livro e a chuva se aproxima no horizonte.

Alguma coisa isso tudo deve ter ...

Tempo maluco esse em que vivemos.
Mas sempre foi assim, é como dizia acho que Dickens “... a mais maravilhosa época do homem, é a em que se vive”.

Meio obvio né Charlie ... mas tudo bem.

É ou seria presunção, adivinhar o futuro. Dizer isso ou aquilo.
Não me cabe ...

Do futuro pouco se sabe.
Sei q fim de semana tem ensaio, futebolzinho na sexta com os brothers, festinha no sábado.

Aliás festança né...

Do futuro pouco sei.
Sobre mim mesmo, ainda ando lendo a bula.
Mas estoy muy curioso sobre o que me guarda, esse maldito futuro.

Pra mim e pra nós

Pra vocês e pros outros

Pra eu e você

Pra ela


Pois bem ... nós vemos então qualquer dia desses

no futuro

.

Robisson Sete
www.myspace.com/juannabarbera

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Chico Mentirinha


Já passavam das quatro da tarde e eu ainda não havia forrado o estômago. Coisas de caminhoneiro que, levando a vida rasgando estradas do Brasil por dias a fio transportando na cabeça a preocupação em ser fiel a horários e deixar a carga sã e salva no seu devido destino, se esquece até do básico para a sua sobrevivência: alimentar-se.
A fome soou feito buzina de carreta, revirando as tripas. Ao sinal do estômago, decidi estacionar o caminhão no primeiro posto de gasolina que avistei. Era uma parada já conhecida, ponto de encontro de caminhoneiros oriundos dos quatro cantos do País. Queria matar a fome e bater um papo mas, pelo adiantado da hora me deu a certeza de que ali eu não teria nenhum colega de estrada para me fazer companhia durante o rancho. Detesto comer sozinho porém, os anos passados dentro das boléias se não me fizeram acostumar com as refeições solitárias ao menos me deram resignação e paciência para lidar com estes problemas miúdos.
Estava eu devorando com satisfação o prato feito que a cantina do posto tão bem servia quando Chico Mentirinha apareceu. Aparição, ao estilo dos fantasmas, foi a melhor expressão que me veio à cachola naquele momento para definir o surgimento do Chico. Nem notei o ronco do motor de sua carreta estacionando. Quando dei por mim, ele já estava se sentando ao meu lado, sem cerimônia, carregando aquela cara de mentiroso tão folclórica entre nós, irmãos caminhoneiros. Trajava chapéu de vaqueiro, camisa listrada, jeans justos seguros por um cinto cuja fivela gigantesca chamava atenção pelo brilho cintilante. Os pés estavam cobertos por um par de botas marrons um tanto empoeiradas. Lembrava um personagem de filme de faroeste. O próprio Chico costumava afirmar ter sido Cowboy nos States e tomado parte em rodeios montando cavalos chucros. Ninguém dava crédito à história.
Chico pediu um PF. Enquanto mastigava, começou a deitar prosa. Fazia jus ao apelido que os companheiros de profissão nele haviam posto, afinal, seus casos narrados, recheados das mais absurdas cascatas, faziam sua fama. Chico era motivo de chacota por onde botasse os pés e, como eu estava solitário e afim de um bom passatempo, festejei o encontro. Seria um pouco de diversão trocar uns dedos de conversa com aquele mentiroso pouco antes de dar prosseguimento a minha viagem.
Naquele final de tarde, Chico Mentirinha estava possesso. Contou-me uma história disparatada.
— Léo, tu me imagina o que aconteceu com o seu amigo aqui! Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo.
Chico acabara de soltar dos lábios sua frase predileta: “Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo”. Preparei-me para o tamanho da lorota acendendo um cigarro.
— Lembra daquela greve de fiscais de pesagem semana passada no Rio Grande? Pois é, eu estava lá com um carregamento de sementes de girassol. Chovia Léo, parecia que Deus havia mandado um segundo dilúvio. Fiquei mais de uma semana parado naquela fila maior que a muralha lá das chinas, esperando pesarem o caminhão para liberarem a carga. Quando finalmente me autorizaram a seguir caminho, eu já tava mais atrasado que noivinha no dia do casamento. Então eu nem pensei duas vezes: sentei bota no acelerador sem dar atenção para a carga que transportava. Foram quase dois dias guiando direto, quase sem dormir. Até que uma hora, veio um desassossego com o estado da carga. Fazia mais de uma semana que eu não dava uma espiada nas condições do frete que estava carregando. Parei o caminhão no acostamento e levantei a lona para conferir. Qual foi a minha surpresa? No meio das sacas haviam brotado uma dúzia de girassóis enormes, iguais aqueles do quadro daquele cara que arrancou a orelha, Van sei lá o que! E como cheiravam os danados! Lindos, com os caules taludos, parecendo um braço de tão grossos! Passei tanto tempo parado na fila da pesagem que deu tempo das sementes germinarem!
A incredulidade em forma de ironia deve ter fincado estaca em meu rosto, pois Chico Mentirinha encarou-me com aqueles olhos de "tá duvidando?".
— Tá pensando que é mentira, não?
— Que é isso, Chico!
— Pensa que eu não sei? Todo mundo por estas estradas vive dizendo que eu sou cascateiro.
— Não penso assim - menti.
— Pois eu vou te provar
Pediu nossa conta na cantina e fez questão de pagar. Seu semblante estava acabrunhado. Segui o "cowboy" até o seu caminhão me espremendo em desculpas, dizendo que nossa amizade não poderia acabar por causa de bobagens que os outros espalhavam.
Mas Chico não me dava ouvidos. Decidido, subiu na carroceria do caminhão começando a desatar alguns nós que prendiam a lona. Descobriu então a carga e exigiu que eu também subisse e olhasse.
Confesso haver sido assaltado pelo medo do que poderia encontrar dentro da carroceria, mas tomei coragem e olhei. Não contei o número de girassóis nascidos entre aquelas sacas de semente que cobriam todo o compartimento traseiro do caminhão, mas eles lá estavam, estupendos espécimes atestando a história do Chico. Ele sorriu vitorioso.
Segui meu destino desbravando quilômetros de asfalto com a história dos girassóis em mente. Deixei meu frete no Porto de Santos e rumei para casa com a imagem do Chico me atormentando. Pensava em como a gente costuma generalizar conceitos. O cabra mente uma vez e pronto. Não se passa recibo em mais nada do que ele diz.
Finalmente o lar. Abracei a esposa, beijei minhas crianças, estava de volta. Como é bom retornar para a família. Só que é caminhoneiro compreende o quanto aqueles que amamos fazem falta na solidão das estradas.
Durante o jantar, contei tintim por tintim o caso dos girassóis para a minha esposa. Ela olhou desconfiada e, para a minha surpresa, decretou:
— Deixe de ser bobo, homem. O Chico é tão mentiroso que é bem capaz dele de véspera ter comprado uns girassóis e enfiado entre as sacas só para dar fiança a mentira que ia ele contar para o primeiro que cruzasse com ele. E o trouxa foi você. Acorda Léo!
Sorri diante da bóia fumegante servida pela esposa concluindo que nunca saberei a verdade sobre o episódio. Que Chico Mentirinha continue por este mundão animando a vida de nós caminhoneiros com suas invencionices.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Homem bonito


Sempre achei que uma das maiores tragédias que podem acontecer a uma mulher é amar um homem bonito.

Claro que o pobre homem que teve o azar de nascer bonito não tem escolha, tem que conviver com isso, mesmo. Um dia ele se ligará a uma mulher, e vai condená-la, por amor, a uma vida de tragédia.

Certamente há tragédias maiores, grandes e súbitos desastres, perdas terríveis. E, dentre as tragédias cotidianas, há também muitas mais facilmente identificáveis como tal, pequenos cotidianos doloridos. Comparadas a essas, que todos concordam serem desgraças, a tragédia de que falo parecerá talvez insignificante.

Falo da dor de se viver a cada dia o pequeno problema de ter que estar ao lado desse homem. A tragédia de ter que ver a cobiça se acender no olho de cada mulher que olhar para ele.

Mulheres não são naturalmente traiçoeiras e falsas, não: isso é mito; como é mito a amizade incondicionalmente leal entre homens. Do que tenho visto do mundo, as amizades entre mulheres são tão incondicionais e tão cheias de lealdade quanto as masculinas. Mais, até. Mais capazes de abnegação e altruísmo. Mas a coisa a que me refiro aqui é cobiça em estado absolutamente bruto, uma coisa involuntária e indomável, independente das boas intenções, da boa formação ou do bom caráter de uma mulher.

Claro que isso de beleza é questão de gosto. Além disso, quase todo o mundo que conheço descreve um tipo físico ideal e acaba se casando com outro quase oposto (estou falando de casamentos como se ainda fossem eternos, mas é assim que gosto de pensar neles.).

Eu, por exemplo, casei com um homem que acho bonito, mas não é disto que falo. Não falo do simplesmente “achar”: falo do tipo de beleza que não é “questão de gosto”; que é indiscutível, que é consenso absoluto.

Tive sorte, cresci dizendo que queria um homem muito alto e muito magro, de cabelos escuros, olhos verdes e que usasse óculos. Alguém com cara de sábio, mãos longas, voz grave, essas coisas. Encontrei um homem exatamente como descrevi, mas não posso deixar de perceber que ele é o que 'me' interessa, e que deve haver muita mulher que não concorda comigo. E lembro de pelo menos dois casos de moças que me descreveram seus maridos como sendo lindos – não era 'modo de dizer', elas realmente acreditavam que isso era um fato indiscutível – e quando vi os moços em questão (aliás, muito parecidos um com o outro, embora não se conheçam), tinham uma aparência que não me faria olhar duas vezes, a não ser para torcer o nariz. Mas aprendi que é um tipo que agrada a muita gente...

Não é disso que falo: não estou falando de pessoas de beleza 'normal', a quem algumas mulheres achem bonito e outras achem feio.

Falo de um arquétipo.

Falo de beleza arquetípica, a imagem que os príncipes encantados têm nas ilustrações dos contos de fadas e está gravada no inconsciente de cada menina. Existe homem assim? Existe.

E, voltando ao início da conversa, uma das grandes desgraças que se pode enfrentar no cotidiano é ter de viver ao lado de um desses homens. Não é de hoje que digo isso, não. É coisa que sempre achei. Se tiver que dar um conselho a uma filha, será: fuja de homem bonito! Cuidado! Mais ainda se tiver um olhar cristalino, através do qual se vê a alma pura. É príncipe encantado pra ninguém botar defeito. Quanto mais ele for 'bom', mais difícil será a vida da mulher que ele escolher.

Talvez isto não seja assunto para uma crônica. Talvez eu devesse falar sobre mulher bonita, e aí me entenderiam melhor. Vou falar disso então: a coisa de que falo é muito diferente de um homem viver com uma mulher que faça todos se voltarem quando ela passa. Deixando de lado o fato de que ter mulher linda é, entre outras coisas, um atestado de status.

Vejo que existe entre os homens um certo respeito pelo fato de que uma mulher 'tem dono', está acompanhada, é casada, comprometida. Claro que isso não isenta essa mulher de paquera, mas é quase que uma paquera perfunctória, um atestado de masculinidade que o paquerador dá a si mesmo quando olha para ela de alto a baixo, quando lhe diz algo lisonjeiro ou quando troca com outros homens um comentário cúmplice. Uma mulher a quem você é apresentado como "a esposa de fulano", por mais atraente que seja, tem de certa forma um X invisível sobre seu corpo, algo que a identifica como 'artigo proibido'. Pode até ser que a própria condição de coisa proibida venha a torná-la cobiçada, eventualmente, mas não é nada disso o que acontece com mulheres quando deparam com a encarnação do Príncipe Encantado. Desgraçadamente, devido às ilustrações dos contos de fadas, ele tem o mesmo rosto, na imaginação de cada uma.

Mulheres crescem com a convicção de estar destinadas ao Amor. E se o Amor – o Príncipe Encantado – cruza seu caminho, uma mulher vai fazer qualquer coisa para obtê-lo, quer ele tenha outra ao seu lado, quer não. A enorme diferença está no fato de que, para ela, não há nada de errado nisso: está apenas lutando pelo que acredita ser seu, de pleno direito!

Enquanto um homem vai pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa para conquistar a musa que tem dono, uma mulher não hesitará em derrubar tudo, em destruir a própria vida e a dos outros em troca da possibilidade de um Felizes Para Sempre ao lado da encarnação do Príncipe dos contos de fadas. A pobre companheira a quem ele escolher terá de viver para sempre sendo desafiada em seu posto de Amada e tendo de comprovar a cada segundo seu poder de sedução, o que quer que tenha sido a coisa nela que atraiu a esse homem bonito. Quer tenha sido o bom-humor, a sensualidade, a meiguice, a inteligência ou mesmo a beleza dela (que nunca chegará aos pés da beleza dele), e ainda que tenha sido alguma coisa indefinível que o tempo não pode alterar, ela enfrentará a cada dia de sua vida o olhar pasmo de desconhecidas que terão, ao olhar para o homem dela, a Visão de alguém com quem sonharam e que por fim encontram. E a perceberão não como alguém a quem se pretende sacanear, mas como a Usurpadora que está levando aquilo que por direito lhes estava destinado (“O que ele viu nela?!”). Essas mulheres, caros amigos e amigas, lutarão pelo Amor. Com razão, talvez?

Por mais bem intencionado que esse belo homem seja, não há relacionamento que resista a isso. Ao teste diário e repetido, à constante necessidade de reafirmação da escolha. É estresse pra ninguém botar defeito.

E aí? Isto é tragédia ou não?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


VAGINA


------------------------------------------Eduardo Perrone..........................


Quase sempre

Essa gente imagina

Saber onde nasce

A vagina.


Mas não o sabem.


Nasce na descoberta

Da menina,

De que a fenda aberta

É quase uma certa sina,

É quase um atestado de gênero,

Genericamente

Falando.



E se é de orgão sexual

Que pensem que estou falando,

Eles erram novamente.

E novamente não o sabem.



Quantos mundos

Numa vagina cabem...?

Ouço falar de penetrações múltiplas,

E de céleres desculpas

Que afirmam o que não foi.

E fica, então,

A vagina como ilustre desconhecida.


Que gosto tem?

É de onde sai o neném?

Porque os pelos?

Precisava ser vazia...?



A vagina

Arrepia

Quem dela nasceu.

Quem a cheirou,

Degustou

Sentiu

Percebeu...


A vagina nasceu

Quando morreu

A última mulher

Que não a percebia.

Quando essa mesma mulher

Agonizava na primazia

De ser, tão somente, mulher

E nada mais.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Raimunda



Raimunda era uma mulher infeliz, muito infeliz. Obrigada a passar os dias reclusa, trancafiada em seu pequeno quarto sem janelas, longe dos olhares curiosos dos vizinhos e parentes. A única pessoa com quem tinha contato era sua mãe. Diariamente, Dona Jurema levava-lhe as refeições e passava alguns minutos na companhia dela, em silêncio. Não havia espelhos no quarto. Raimunda sabia o porquê. Nascera com um defeito congênito, um defeito que fazia dela um ser bizarro, diferente, uma anomalia ambulante: tinha cara de bunda e bunda de cara. Isso mesmo, por alguma razão que só Deus - ou o Diabo - sabiam, seu corpo havia se formado com essa estranha inversão. Só essa. O resto estava todo em seu devido, anatômico e fisiológico lugar. Ou quase. Em seu rosto ou, melhor dizendo, em sua bunda que ficava no lugar onde deveria estar o rosto, havia aquilo de que toda bunda é dotada: um ânus. É. Raimunda não tinha só cara de bunda, tinha cara de cu.
O parto de Raimunda deu um tremendo trabalho à Dona Sebastiana, a parteira. Trabalho e um baita susto. Por pouco, ela não caiu desacordada sobre o ventre da paciente quando viu brotar de suas entranhas aquela coisinha miúda, sem cabelos e provida de um rechonchudo par de glúteos no lugar onde deveriam estar olhos, boca e nariz. Saiu desabalada porta afora quando, ao procurar a origem daquele choro agudo, deu de cara com aquele rostinho angelical, de bochechas coradas e olhinhos azuis. Dir-se-ia um lindo rosto se acaso não estivesse situado em local tão impróprio. A carreira da parteira terminou em tragédia sob as rodas da carreta carregada de cuecas e calcinhas, contudo, tão desventuroso destino mostrou-se oportuno àquele pequenino ser humano recém-vindo ao mundo dos humanos humanos e desumanos: preservar-se-ia o segredo. Sabe-se lá por quantas mãos de especialistas-cientistas-curiosos Raimunda não teria de passar caso seu caso fosse dado ao conhecimento geral. Mas isso não aconteceu, Dona Jurema guardou muito bem guardada, trancou muito bem trancada a razão de seu infortúnio: Raimunda, a bela menina com cara de bunda.
Raimunda cresceu. Aos dez anos, quando começou a fazer suas necessidades defecatório-fisiológicas sozinha, tinha enorme dificuldade em acertar o vaso sanitário. Acabava sempre cagando no chão do banheiro e na tampa do vaso. Se estivesse com diarréia, então... era merda para todo lado. Com o tempo e a prática, foi-se adaptando ao mundo que não havia sido projetado para ela.
O tempo passou, Raimunda chegou à maioridade, imersa na solidão melancólica de seu quarto, cujo mobiliário era modesto como sua vida: uma cama de solteiro, um criado-mudo, uma estante com alguns livros e um aparelho de televisão com imagem em preto e branco, sua única janela para o mundo. Gostava de novelas e filmes românticos. Apaixonou-se um sem número de vezes por um sem número de atores. Numa fria noite de inverno, descobriu seu especial interesse por homens narigudos, enquanto assistia ao filme Cyrano de Bergerac, protagonizado por Gérard Depardieu. Era romântica, sonhadora, amava a vida com ardor, ainda que não soubesse o que era a vida além daquelas quatro paredes.
Certo dia, Raimunda sentiu um forte cheiro de perfume e ouviu uma voz masculina advinda de outro cômodo da casa. Pelo teor da conversa e os risos abafados, parecia que mamãe tinha arranjado um namorado. Sairiam para jantar. Raimunda esperou. Quando ouviu a batida surda da porta principal da casa e o subseqüente silêncio, tratou de movimentar a maçaneta. A porta abriu! Sua mãe, provavelmente sob o efeito do frenesi causado pela expectativa de estar novamente com um homem, havia esquecido de trancar a porta do quarto. Finalmente, após longos dezoito anos, Raimunda saberia como eram as coisas do lado de fora de sua prisão. Foi andando de costas, de modo a ver por onde andava. Conheceu o quarto de sua mãe, a pequena cozinha, o banheiro, a sala. Voltou à cozinha, vira algo que lhe chamara a atenção. A porta! Havia uma chave no interior da fechadura. Girou a chave, a maçaneta e... ar puro, finalmente! O frescor da atmosfera noturna atingiu em cheio seu rosto. Quedou-se vários minutos respirando aquele bendito ar. Por que sua mãe a havia privado disso por tanto tempo? Ensaiou um primeiro passo porta à fora e recuou, o medo do desconhecido a atingiu em cheio. Como um animal que permanece muito tempo enjaulado, foi tomada do receio de abandonar a segurança de sua cela. Sabia que era arriscado sair porquanto sabia que era uma mulher diferente, suas mãos, seus olhos e o monitor do televisor desligado lhe mostraram o que sua mãe tanto esforçou-se por lhe ocultar. Mas o desejo de liberdade, a curiosidade, a vontade de ver ao vivo e a cores tudo aquilo que assistira em cores neutras na tela do pequeno eletrodoméstico falaram mais alto. Hesitantemente, deu alguns passos no quintal de sua casa. Chegou ao portão que dava para a via pública. Estacou. Era o passo mais difícil. Respirou fundo. Puxou o trinco. Escancarou o portão. Estava na rua. Estava livre.
Caminhou devagar, deslumbrando-se com cada casa, cada prédio, cada árvore, cada poste, cada letreiro luminoso que encontrava ao longo da calçada. Na primeira esquina, descobriu o mal que habita a alma humana. Uma gangue de skinheads, ao redor de um latão em chamas, planejava seu próximo ataque em prol da supremacia branca. Raimunda tentou retroceder, mas era tarde: haviam-na avistado. Pensou em correr, mas o medo e a convicção de que não desenvolveria suficiente velocidade paralisou suas pernas. Limitou-se a virar-se de costas e fechar a abertura do manto com zíper, tapando seu rosto. Usava um manto negro, uma espécie de burka, que cobria seu corpo da cabeça aos pés. Sentia uma forte pressão, um turbilhão no estômago, como se lá houvera uma cambada de gatos em conflito. A gangue aproximou-se, rodearam-na. O mais alto, que parecia ser o chefe, disse:
- Ora, vejam só. Uma muçulmana perambulando sozinha nas ruas a uma hora dessas. Mamãe não te avisou que isso é perigoso, moça?
Raimunda não respondeu, todos os pêlos de seu corpo eriçaram-se, o estômago dava voltas e voltas, a pressão recrudescia perigosamente.
- As ruas estão cheias de indivíduos malvados que adorariam encontrar uma muçulmanazinha indefesa para distraí-los.
- Deixa a gente foder ela, chefe! - pediu um careca baixinho.
- Calma aí! Primeiro vamos ver a cara dessa puta.
No mesmo instante em que o chefe dos carecas arrancava, de supetão, o manto de Raimunda, ela perdia a batalha contra seu estômago. O jorro diarréico atingiu em cheio o rosto do líder do grupo, cobrindo-o de merda de cima a baixo. Ao ver Raimunda do jeito que viera ao mundo, os espavoridos carecas debandaram, atropelando-se uns aos outros, aos gritos de "alienígena! alienígena!"
Raimunda usou as páginas de um livro - Mein Kampf - que um dos skins havia deixado cair na fuga, para limpar-se. Vestiu-se. Recompôs-se. Pensou em voltar para casa mas ouviu música. Decidiu verificar a origem do som, a vitória sobre os carecas incutira-lhe confiança no espírito. Era um circo. Ela vibrou! Sempre quisera assistir a um espetáculo circense. Mas, com aqueles trajes, andando de costas e sem dinheiro para o ingresso, como entraria? Teve uma idéia. Esgueirando-se furtivamente em torno da tenda, encontrou um pequeno rasgo, por onde, ainda que com apenas um olho, podia ver o que se passava lá dentro. E o que viu fez seu coração palpitar: um homem baixinho, com pernas onde deveriam haver braços e braços onde deveriam haver pernas, fazia malabarismos com bolas e pinos, enquanto um palhaço de duas cabeças discutia e dava tapas em si mesmo, arrancando gargalhadas da platéia. Então, havia outros como ela! Não era a única diferente, a única anomalia ambulante na face da Terra! Continuou a assistir ao espetáculo. Viu trapezistas com quatro braços e quatro pernas, com pés no lugar de mãos e mãos no lugar de pés; um homem que não tinha olhos nem nariz, só uma enorme boca com a qual engolia quarenta e cinco espadas ninja; uma mulher gorda que peidava fogo, parecia um lança-chamas humano; outra que possuía vinte e dois seios ao longo do corpo, dava de mamar a vinte e duas crianças; o homem-galinha, que tinha penas, bico, cacarejava e comia milho. Por fim, o apresentador anunciou a atração principal da noite:
- Que rufem os tambores!... Respeitável público, El Gran Circo De Los Horrores tem o prazer de lhes apresentar o astro maior de nossa companhia, ele já foi político, juiz, empresário, escritor, ator de filmes eróticos, servidor público, policial, jornalista, michê, rufião, modelo vivo, operário em fábrica de preservativos, ele não precisa matar a cobra para mostrar o pau, ele ajoelha para rezar e também para mijar, ele não é metafórico, não usa Jimo Cupim, ele é dotadão, ele é... Ni-co-lau, o Ca-ra-de-pauuuuu!!!
A explosão de aplausos acompanhou, sincronicamente, os batimentos cardíacos de Raimunda. A taquicardia somada ao calor que lhe assomou ao corpo não deixava dúvidas: fora atingida pela seta inflamada do Cupido. Com o coração aos pulos, sem piscar os olhos, assistiu ao número do homem moreno, alto e musculoso que exibia, despudoradamente, um avantajado e portentoso pênis ereto no exato lugar onde deveria estar o nariz. O homem ergueu toalhas encharcadas, bolas de ferro, alteres, anões obesos e outras pesadas coisas mais com o pênis. Foi suspenso por uma corda amarrada ao bilau e voou sobre as cabeças dos boquiabertos espectadores. O gran finale consistia numa espécie de arremesso de porra à distância: o homem tinha de acertar um pequeno balde posto a uns cinco metros de onde estava. Silêncio total na platéia, momento de expectativa, tambores em pianíssimo. Alguns fotografavam, outros filmavam. O homem masturbou-se, masturbou-se, masturbou-se e... veio a primeira golfada de sêmen. Subiu, subiu, subiu - ninguém respirava - depois, em curva descendente, desceu, desceu, desceu e voilá! Acertou o centro do balde, sem respingar sequer uma gota no picadeiro. O público foi ao delírio, palmas, assovios, uivos, gritaria, algazarra total. Mas, decerto, ninguém vibrou mais que Raimunda, seu coração, sua alma, seu corpo, seu sexo clamavam por aquele homem.
Raimunda escondeu-se atrás de uma das rodas de um dos caminhões que compunham a frota circense. Aguardou, com ansiedade, a saída do público, o recolhimento dos artistas, assistentes e funcionários, o apagar das luzes. Pé ante pé, deslocou-se até o trailler onde se lia, em letras roxas: "Nicolau, o Cara de Pau". Hesitou, à porta, por alguns minutos. "Ele vai me atender ou me enxotar? Serei bem recebida? Ele vai gostar de mim?" Entretanto, essas dúvidas, esses temores naturais não vingaram ante a chama avassaladora que devorava Raimunda. Bateu. Três batidas secas. "Quem é?" - indagou, de dentro, uma voz grave. "Meu nome é Raimunda. Preciso falar com você." - parecia que seu coração pulsava na garganta e seria cuspido a qualquer momento. A porta abriu-se devagar. Nicolau, com seu nariz-pau descomunal, agora murcho, ficou olhando para os cabelos de Raimunda. "Aqui embaixo." Nicolau baixou os olhos, a glande roçou seu umbigo. Seus olhos se encontraram, tudo dependia daquele encontro de olhares, da mensagem muda que seria mutuamente transmitida. Gostaram do que viram. Nicolau sorriu, Raimunda sorriu. "Posso ajudá-la?" "Desculpe incomodá-lo a essa hora. É que assisti ao espetáculo e gostei muito da sua apresentação." "O que é isso? Incômodo nenhum. Entre, por favor." Raimunda não conseguia parar de sorrir. "Sente-se, fique à vontade. Aceita um uísque, uma cerveja, um refrigerante?" "Uma cerveja, por favor. E prefiro ficar em pé, se sentar, não conseguiremos conversar, você compreende?" "Oh, claro. Desculpe-me. Vou pegar as cervejas." Conversaram e beberam durante horas, cada qual contou sua história. Nicolau, que tinha o dobro da idade de Raimunda, disse-lhe haver descoberto a inexistência da normalidade humana, todos, absolutamente todos os homens tinham algum defeito, fosse no corpo, na mente, na alma ou no coração. "Há homens que, embora possuidores de um físico perfeito, apresentam toda sorte de defeitos morais, são homicidas, sociopatas, egoístas, avarentos, corruptos, degradados, dissolutos, ladrões, invejosos, estelionatários, escroques, a lista é gigantesca. Perto desses homens, somos as pessoas mais lindas e sãs de todo o mundo." - argumentou Nicolau. "Por falar nisso... Como você é bonita." Raimunda corou, mas não se esquivou do beijo. Percebeu que algo se mexia no rosto de Nicolau, era, obviamente, o pau, que crescia e endurecia assustadoramente. Mas Raimunda não se assustou, pelo contrário, entregou-se por inteiro àquele homem diferente, lindo e perfeito que a fez descobrir a beleza e a perfeição de sua própria diferença. Raimunda, nessa noite mágica, tornou-se uma mulher feliz, muito feliz, a mulher mais feliz do mundo.
Raimunda foi contratada pelo dono do circo e ganhou um papel de coadjuvante no número de seu companheiro. Enquanto ele faz seus malabarismos e acrobacias penianos, ela toca Brasileirinho numa flauta especialmente projetada para seu ânus. Devido ao aumento do consumo de refrigerantes e outras beberagens gasosas fundamentais ao bom desempenho de seu mister, ganhou alguns quilos. Perdoou Dona Jurema, que sempre vem visitá-los e trás cuscuz, o doce predileto de Raimunda. Para que a felicidade se tornasse completa, só faltava um rebento, um Nicolauzinho ou uma Raimundinha. Mas, nem um nem outra, há pouco mais de uma semana, nascia en El Gran Circo De Los Horrores uma linda menina, alegria da família, xodó da vovó, futura atração circense, a pequena, fofa, vermelha, testuda e peluda Julieta.

Carlos Cruz - 25/12/2008

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Convidada Sandra Santos






Perdidos
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Os homens jogavam sinuca, na tarde morrida... Era um puxado num casarão de esquina, perdido num rincão, perdido no tempo e no mundo...

O vento eriçava os pelos e adentrava a saia, maroto como correntino. O dono do bar percorria com o olhar o caminho do vento enquanto secava os copos de bebida. A mulher não era das redondezas, ruminava. As mulheres dali eram possantes! Tiravam sustância da terra. Tinham formas arredondadas e marido. Aquela era magrela, como ovelha bichada... Prestando atenção em sua face descarnada e nos olhos úmidos e amendoados, não deixava mesmo de ter semelhanças... Mas as pernas eram bem torneadas, os seios em pera, apesar de pequenos...
A mulher sentiu o olhar devassador, virou-se e caminhou para um banco de tábua, lá embaixo dum cinamomo, ao relento... Mas, que fazia a criatura? Por certo queria morrer de frio, com aquele vento e aquela garoa quase neve num vão criado por Deus-Nosso-Senhor entre a tarde e a noite...

Um dos homens, que pintava de giz o taco da jogatina, enfiou a cara pela janelinha de tramela e chamou! Perguntou se não queria uma gajeta com mortadela. Ela fez que não, com um meneio de cabeça e ele retrucou que era de graça. Ela voltou. Comeu, ali mesmo, no balcão do bolicho, à luz do lampião de gás que já agora iluminava a sua pele murcha, não dos anos, mas da magreza... Não tinha aonde ir. Já viajava há dias na boleia de um caminhão, sem destino, mas o caminhoneiro havia chegado ao destino dele e a largara ali. Não sabia para onde nem de onde... O homem que lhe pagara o fiambre lhe indicava uma tapera perdida numa ponta de mato, a poucas horas dali, deixando a estrada. Agradeceu a bondade e seguiu o rumo indicado, na noite fria e sem lua.
sandra santos
Era uma picada comprida, cheia de juás... Muitos galhos secos a lhe riscar as pernas. Pensando em se aquecer num pequeno fogo, foi recolhendo gravetos pelo caminho. Ao chegar à casa abandonada, trazia uma braçada de lenha.
Não havia porta. Nem fogão havia. Umas poucas paredes protegiam do vento, junto com o arvoredo... O chão era batido... O teto de capim santa fé, já desmachando, deixava clarabóias, por onde se podia ver o céu e as estrelas, nas noites quentes, supunha-se, era uma noite escura..noite de desgraçados...Ela suspirou, um canto só seu... Ajoelhou-se a principiar o fogo. Uma preteleira, no quarto contíguo, ainda guardava latas com banha e farinha de milho. No dia seguinte haveria de ver o que dava para fazer... Agora, era se aquecer e descansar da vida... Pelo menos, por um dia...E adormeceu com os uivos do graxaim, ao longe, que ela não conhecia.

O que se sucedeu a seguir, embaralhou-se na sua mente. Reconheceu um deles, o que lhe tinha sido gentil. Os outros tinham todos o mesmo focinho, o mesmo cheiro de cachaça, as mesmas mãos imundas, o mesmo sofrenegar dos animais no cio. Não havia o que fazer! O grito se perdeu na garganta... As pernas paralisaram... Perdeu a noção do tempo, desviou o próprio pensamento para um cadinho de infância feliz e depois, mais tarde, o primeiro namorado e cerrou os olhos, assim...




Sandra Santos

Minha biografia não tem nenhum fato relevante. Não coleciono prêmios nem escândalos. Tenho escrito a vida por linhas tortas, maslonge dos holofotes. Sou uma gaúcha de temperamento mate. O frio do sul causa em mim um coração desconfiado. Leio Bucowski, mas também leio Hawkins e meu único medo é me perder de São Luiz Gonzaga ou das minhas reticências. Entre meus alter egos, este de escrevinhador é o que mais me identifica, mas são os outros que me sustentam. Tenho um cachorro azul, na estante. Fui abandonada recentemente por dois periquitos, depois de dar-lhes casa, carinho e uma janela aberta. Afogo as mágoas e mato as madrugadas no Bar do Escritor.









domingo, 4 de janeiro de 2009

Lembranças tardias de meu último duelo



Como posso começar explicando o fim? Mesmo sendo algo que todo ser vivo saiba, cógnito ou intuitivamente, o fim não é algo com o que nos preocupamos com a devida atenção. Evitamos pensar que somos suscetíveis à falha, ao passar do tempo, ao fim de nossos dias naturais. Mas um dia, pode ser agora ou daqui a cinqüenta anos, tudo acaba. Como deveria mesmo acabar.
Sinto já que não tenho tanto sangue quanto gostaria. Os vários e repetidos golpes foram minando não somente minha resistência, como também diminuíram essa rubra reserva de vida. Isso tornou-me lento e vulnerável à ainda mais golpes. A coisa piora a cada segundo que passa, sem que possa ver uma solução, uma saída para a situação em que me encontro. Não que já não tenha me visto em uma posição inferior em outras ocasiões, mas naqueles tempos tinha não só a fé na vitória, como também uma habilidade muito maior que meu oponente, o que me dava a calma necessária para aplicar-lhe um maior número de revides, o que salvou-me infinitas vezes da derrota.
Eu não conheço a derrota. Ainda não.
Talvez seja por isso que ela me amedronte tanto, mesmo eu não admitindo, apesar de vê-la gargalhando no fundo castanho do olhar de meu adversário, implacável e incapaz de demonstrar uma clemência que eu não suplicaria, ainda que continue posando de invulnerável, ao vê-la desfilar na conhecida voz daquele a quem combato:
- Vou vencer, até que enfim eu vou vencer!
Se ele soubesse o quão certa esta sentença está, acabaria comigo de uma só vez. Mas ainda me resta senão a força, ao menos o respeito que granjeei com meus anos de prática. Mesmo que tenha perdido meu escudo e tenha despedaçado minha espada, ainda assim já venci outras batalhas com minhas mãos nuas. Minha força e experiência, extraordinárias no passado, aos olhos de meu adversário ficam menores à cada dia que passa. E sempre soubemos disso.
Recuo. Ganho um tempo para respirar, mas este mesmo tempo se esgota rapidamente. Tenho que retomar a carga, retornar à luta ou estarei vencido de qualquer forma. Melhor cair em combate, que ser vencido pelo tempo. Preparo meu melhor golpe, forte o bastante para virar a maré da batalha. O único senão é que ele é muito lento e me deixa praticamente indefeso por alguns segundos. Enquanto giro minhas ensangüentadas mãos pelo ar, ele se atira para frente em uma velocidade espantosa, fruto de um golpe novo que eu desconhecia. Incrível como a mocidade aprende rápido.
Sou golpeado várias e repetidas vezes em meu flanco exposto e em uma semi-explosão do choque de corpos sou lançado ao ar em câmera lenta, enquanto minha contagem de vida rapidamente despenca para o nada. Impiedoso frente à minha sorte, indiferente ao meu destino e feliz com sua conquista, meu adversário põem-se a pular imediatamente, lançando ao ar sua comemoração pela vitória, a primeira em sua vida, minha primeira derrota... Continuo estático, olhando para meu corpo sem vida, quando ele coloca sua mão infantil em meu ombro:
- E aí Tio, vamos jogar mais uma?
Dou uma risada para meu sobrinho Daniel, nove anos, meu mais novo arqui-inimigo no vídeo-game:
- Bora, Zé-ruela. Mas agora não vou te dar mais canja não...
Reenergizado pelo poder curador do reset, tenho novamente meu poder e força para encarar o combate. Aquela primeira derrota me ensinou muita coisa. Uma delas é que não posso mais dar mole para o moleque...