segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Convidada Karla Jacobina

SEMPRE QUE SOU DESPEDIDA

Sempre que sou despedida
Chove um poema
Escrevo uma gota
Choro um delete
Clico uma lágrima

Sempre que sou despedida
Rasgo o chefe
Xingo rascunhos
Roubo memórias
Arquivo agendas

Sempre que sou despedida
Abraço amizades
Abraço fofocas
Abraço braços
com mangas de despedida

Sempre que sou despedida
Apago a porta
Fecho a luz
Assovio janelas
Abro uma música
e uma breja bem gelada

Sempre que sou despedida
Me sinto um pouco mais pra lá
De incompatível

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Karla Jacobina nasceu em Cuiabá-MT e atualmente mora em Sampa. Se formou na faculdade de Direito, onde aprendeu a escrever errado e a falar bonito. Logo, se tornou escritora, roteirista e atriz.
Foi Coordenadora de Literatura do Projeto Macabéa. No mesmo ano foi colunista, ao lado de Zé Rodrix, Ulisses Tavares e outros escritores consagrados em um blog de literatura. Administrou a antologia virtual feminina “Versos de Falópio” e atualmente integra o grupo "Poetas do Tietê". Marcou nobre presença de palco em peças de teatro, eventos de literatura, além de colaborações em jornais e revistas. Atualmente ministra uma oficina de poesia e artes integradas no Centro Cultural Tendal da Lapa. Além disso, Karla Jacobina é formada em danças ciganas.

Seu primeiro livro “EGA – o que nem Freud explica” foi publicado em ago/2009 e conta com poemas, contos e crônicas femininos que, variam em um degradê vermelho ao rosa-calcinha.
A característica mais marcante em seu trabalho é impedir que o texto morra no papel: "O papel não é uma morte, mas é uma cama, confortável demais para os meus textos". Assim, Desenvolveu um espetáculo lítero-cênico-musical com monólogos do livro, com direção teatral de Cissa Lourenço e trilha sonora de Marcelo Ferrari. Sua última novidade é a estréia do seu programa de TV EGA [no ar], em que levará o livro e o palco para a telinha.
Mais sobre a autora: www.karlajacobina.com



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Karla Jacobina

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

WHO IS IT FOR?... WHAT DOES SHE CARE?




Aquele gosto metálico na boca
Saboreando o seu sangue, o próprio sangue!
A água cai toda semana como um ritual
Como uma busca por vida
Gosta de estar sozinha, do isolamento
E do gosto de seu sangue
Sentia o peso demasiado humano
Sentia a fúria e alegria dentro do segundo
A camiseta suja, com cheiro de suor e labuta
A felicidade da conquista e a preguiça do inicio
Gosta de sentir seu corpo de forma delicada
Tem medo do temperamento
E quando ele é um convidado
Guarda a máscara numa num baú perto da cama
Não gosta de pentear os cabelos
E mesmo assim o faz corriqueiramente
Tem certa aversão a homens de meia idade
Usa roupas que a fazem feliz
Como meia calça e chinelo de vovó
Fala, fala, escreve e publica
E ninguém ouve ninguém nunca irá ouvir (às vezes lêem)
As palavras morrerão juntamente com ela
Sente uma grande felicidade quando ele esta vestindo vermelho
E sempre diz a ele e repete para si
Ele fica lindo de vermelho
Isso a faz lembrar do gosto do sangue
Gosta do cheiro e de lembrar
Veste o medo, e saboreia vagarosamente a tristeza
Lambendo com prazer e angustia
Preferia ganhar caixas de música
Mas nunca aconteceu
Provavelmente nunca acontecerá
Os amigos dela não se importam com as coisas que ela pensa
Ela é sempre muito fechada dizem
Estúpida às vezes
Mas ela sabe que quando tem vontade
Sua máscara brilha nos olhos alheios
Detesta imensamente que cobrem seu afeto
Cada um que se baste
Se estiver com tanta vontade
Sente ao lado em silencio
Espere por alguns anos se passarem
A felicidade virá, ela garante
Não tem uma legião de fãns
Não recebe ligações nos finais de semana
E sempre preferiu assim
A companhia que lhe agrada
É silenciosa e sábia
Gostaria de morar no Alaska
Sentir frio e solidão dentro das camisas de flanela
Tomar café quente e caminhar com desconhecidos
Mas às vezes pinta ele nesses quadros
É às vezes ela pinta
Como aquele desenho que fica colado na parede
E sempre que as horas são iguais ela olha pra ele
Parece que se condicionou a isso
Ela se enjoa de tudo e principalmente de todos
As duas pessoas que ela mais aprecia
Por suas inteligências bestiais
E complexidade
Nasceram no mesmo dia...
O que não quer dizes nada...
Mas é uma engraçada coincidência
Uma delas é o Bukowski
A outra é muito melhor!
E impressionantemente ela ainda não se enjoou dela
Num dia odeia azul
No outro se veste da cabeça aos pés de marinho, índigo e celeste!
Tem uma ilusão recorrente
De que um dia o mundo vai virar fantasia
E ela vai sair voando por entre as pessoas fedidas
Sem ninguém perceber porque ela será a mulher invisível
Mas mesmo evitando a realidade
Tem fé em sua morte
E no gosto maravilhoso que seu sangue deixará na terra
Ela vai viver na eternidade de seus coágulos
Mesmo que ela nunca tenha existido:
Realmente!




Audrey Carvalho.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Às vezes, só resta um cão como amigo


Confiança

Meia hora para o show. Anos atrás estaria acendendo o enésimo cigarro do dia e bebendo uísque ou vodka no gargalo. Ao contrário de tantos companheiros daquela época, nunca tinha caído na tentação das drogas mais pesadas; lhe bastavam a nicotina e o álcool. Os companheiros se foram, quase todos; ele ainda estava de pé – e às vezes se perguntava se valia a pena. Tinha largado tanto uma quanto o outro há anos e agora se contentava com um antiinflamatório e um analgésico engolidos com um gole de coca zero. Sim, porque além da hipertensão, havia o diabetes.

Quinze minutos para o show. Estaria no enésimo cigarro mais dois a essas alturas. E naquele estado entre sóbrio e bêbado que com cuidado cultivava. Observando os companheiros de banda mais para lá do que para cá, consciências alteradas, mas talento imaculado. Os companheiros se foram, quase todos, menos o que entra no camarim. Tinha sido baixista da primeira formação da banda. Mas nunca muito bom. Quando surgiu o primeiro hit, a gravadora sugeriu uma substituição e ele, humilde, aceitou. Por insistência do líder, foi contratado como assistente do manager. E encontrou-se: dois anos depois era o empresário oficial daquela já grande e ainda crescente potência da música. Ao longo das mais de duas décadas, cuidara da banda como se dela fosse parte. Como de fato era, de certa forma. Ou tinha sido. Ou algo assim. Um homem de confiança.

No camarim, a conversa de sempre: “Tudo em ordem, chefe?” Desde que passara de músico a burocrata, sempre o chamara de chefe, em tom de brincadeira. “Tudo”. “E a mão? Tá doendo?” – logo antes de todo show, a mesma pergunta, desde o primeiro diagnóstico de artrite. “Não, hoje tá boa”. Sempre a mesma resposta. E, por trás da resposta, o que os dois sabiam e nunca tinham dito: um dia a mão não ia aguentar riff após riff; solo após solo. Um dia o dinossauro ia morrer em praça pública.

Nunca tinham dito, mas uma hora iriam dizer e foi naquele dia. “Cara, preciso me aposentar. Parar antes de fazer feio”. “Que nada, chefe. Você ainda tem anos pela frente”. Sempre assim: de um lado os músicos e seus egos frágeis, seus vícios bobos. Do outro, o executivo que só fazia administrar finanças, vaidades, inseguranças. “Não sei o que seria de mim se não fosse você”. “Claro que sabe. Você ia fazer sucesso de qualquer jeito. Talento como o seu?” Condescendência e adulação. Bases estranhas para uma amizade de mais de trinta anos, desde antes de descobrirem a música. O ex-baixista ruim sentou-se ao lado do guitarrista prodígio. “Quer a bolsa de água quente?” A resposta foi só um abanar desanimado da cabeça. “Quer alguma outra coisa?” Mesma resposta. Ficaram sentados em silêncio.

Cinco minutos para o show. Levantaram-se. “Cara, preciso mesmo parar logo”. “Não se preocupa. Vai dar tudo certo.” Sorriram um para o outro e foram cada um para o seu lado: o músico para o backstage; o empresário para a cabine de som. Vai dar tudo certo, o guitarrista repetia para si mesmo, ouvindo a voz do amigo. Vai dar tudo certo. Entrou no palco ainda escuro, pegou a Gibson e esperou as luzes.

Dez minutos de show. As mãos, já aquecidas, não doíam mais. “Vai dar tudo certo.” Tinha até incluído no setlist desta turnê um medley que passava por aquela do Bob Marley que dizia isso.

Vinte minutos de show. Trinta. As mãos já cansadas. Mas sem problemas até agora. Mesmo porque, com o passar dos anos, tinham simplificado as passagens de guitarra, diminuído as extensões de dedo mínimo. Já não era um moleque de vinte anos.

Quarenta minutos. Já não conseguia dizer para si mesmo que a mão não doía. Porque doía. Mas repetia para si mesmo “tudo vai dar certo, vai dar certo, everything’s gonna be alright”, numa voz que misturava a do Tuff Gong e a do amigo que, fora a música, era a única constante em tantos anos de estrada; que tinha ajudado a lidar com divórcios, pensões, advogados, a largar o cigarro e a bebida, a enfrentar os médicos, a encarar um show depois do outro. Sentia um pouco de vergonha de ser condescendente com ele. Mas era assim a amizade: condescendência e adulação. E funcionava. A única constante, a amizade: a confiança que tinha no amigo e que o amigo tinha nele. Sabia muito bem, no fundo, que só não tinha desistido ainda, só não tinha parado por medo de fazer feio, por causa dessa confiança inabalável que o músico sem talento tinha no virtuose. Entre uma música e outra, um gole de chá gelado e mais um analgésico. Ia dar tudo certo.

Quase uma hora de show. Os shows da banda hoje em dia duravam pouco mais do que isso. A mão já não aguentava as maratonas de antigamente. Quase uma hora de show e, com uma hora exata, entrava aquela música. Aquela que tinha feito com que passasse de guitarrista de sucesso a deus do rock. Aquela que os moleques suavam para aprender. Aquela do solo heróico de seis minutos. Aquela que para ele tinha virado uma forma especialmente cruel de auto-flagelação. Aquela única que os fãs faziam questão absoluta de ouvir e que não podia sair do show. Tinham tentado uma vez. Foi a pior turnê da história da banda. Os jornais avisavam antes: não vá esperando ouvir Aquela.

O guitarrista respirava fundo e tentava esquecer a dor. Na metade da música já sabia que dessa vez ia ser difícil. Os remédios já não bastavam. Sentia cada tendão como se fosse uma corda de mizão esticada até virar um mizinho. Mas respirava fundo e ia em frente. Já nem estava mais preocupado com a platéia, nem com fazer feio. No fundo, o que queria mesmo era não decepcionar o amigo. Ou mostrar para ele que ainda era o gênio das cordas e sempre ia ser. Mas dizia para si mesmo que era para justificar aquela confiança.

No meio do solo, um pequeno erro, mas achou que ninguém tinha percebido. Dois compassos depois, outro erro. Não ia dar. Olhou na direção da cabine de som, que não via por causa das luzes. Mas olhou assim mesmo, querendo que o amigo visse em seus olhos o pedido de desculpas por ter traído sua confiança. A mão já não aguentava mais. Errou de novo. Feio

E viu que ninguém percebeu. Tinha perdido quatro notas seguidas, mas elas vieram no retorno. Parou de tocar. E a guitarra continuava. Aos poucos o público parou de bater palmas no ritmo da música. O guitarrista base parou também e, logo em seguida, o baixo. A bateria e o teclado demoraram um pouco mais. Mas a guitarra solo continuava. Daí vieram as vaias.

Na cabine de som, o ex-baixista gargalhava e brincava com a caixa do CD de playback que há anos deixava preparado para esse dia.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Amo Você

CESAR VENEZIANI

Amo você na sexta à noite,
quando beijo o rosto da amiga aniversariante,
quando vejo diante de mim
um drink delirante...

Amo você no sábado à tarde
quando o sol arde ao som do rock antigo
e aniquilo o inimigo amargor da sua ausência
com a demência do acorde dissonante...

Amo você no almoço do domingo
onde, antes do bingo, minha mãe me recebe
e concebe um banquete que me apetece
e o sabor de infância me remete ao prazer do teu corpo
e em torpor me transponho entre o aqui e o antes...

Amo você no desligar do despertador
quando por obrigação me levanto
e, no entanto, sem bem perceber
o final de semana já se foi
e eu estive consigo, ainda que distante, a todo instante...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Fogo incessante




a silhueta incendeia

os olhos,

.

e no apagar da luz,

queima por inteiro

corpos nus

.

o calor da mulher

é aguardente para imaginação,

.

faz o homem se inebriar.

.

o calor da mulher

provoca a translação

.

dentro do seu universo: amar

domingo, 23 de agosto de 2009

Presságio

É uma sede tão intensa... que os lábios ressecam mesmo que a língua passe várias vezes na tentativa de umedecê-la um pouco. Interessante que não parece com sede, parece com desejo desses que não cessam mesmo que saciados. A mente gira rápido trazendo um carrossel de cores e multi sabores... os olhos piscam e a frente já não enxerga com clareza. Deseja ardentemente que seja um sonho e que logo acorde, tome um banho e todas essas sensações desapareçam e desçam pelo ralo enquanto água fria aplaca essa coisa que não é sede, mas que resseca e incrível que não só por fora... por dentro queima tanto quanto por fora...Não sendo sonho devaneio é com, loucura e delírios incessantemente incontroláveis...pelo menos nesse momento a vida não faz sentido e o que importa de fato é o que faz o coração mais forte alem de bater acelerar...então a campainha toca...sente o fio da realidade puxar pra vida , de volta cena pega o copo com água sorve alguns goles, eleva a mão e derrama o restante sobre a cabeça , respira fundo , sacode a cabeça e vai atender a porta, quem sabe se o impossível não acontece e tudo isso apenas presságio para o que possa vir a acontecer dali em diante...


Catiaho/Reflexo d'Alma

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Manto



Sob o manto da lua negra, os astros tornavam-se archotes para o seu caminho.
Velar-se entre a densa ramagem das árvores do sombrio bosque, que eram sacudidas pelo vento, não facilitava o seu caminhar, mas, já se acostumara a transitar pela sinuosidade das madrugadas, a vida que escolhera.
A lua não era mais sombria que àqueles tempos... Nem, a rusticidade do bosque, nessas horas mortas, era mais trevosa que a intransigência humana hostilizando através da violência e sob o signo da ignorância, atos que julgassem pagãos.
Logo, a água fresca da fonte lamberia os seus cabelos, ora encobertos por pesado capuz de sua longa capa.
As nascentes d’água traziam a energia curativa da Mãe, eram bálsamos para os enfermos. Também, as ervas se tornavam mais frescas sob o orvalho. Apressou-se para encher o seu cantil de estômago de porco e coletar algumas ervas; sempre muito atento, pois as sombras eram mais perigosas que os seres.
Não muito distante dali, havia um grupo de pessoas a esperá-lo; os recursos xamanísticos faziam parte dos antigos costumes e atuais ritos.
Destinaram-lhe as incumbências de demarcar o círculo e acender a fogueira central. Não demorou, um agrupamento de pessoas o rodeou, ocultos em trajes semelhantes.
Bebeu do cálice da vida, entoou os cânticos sagrados, reverenciou a Terra. Retirou o néctar dourado de um favo e o saboreou. Repartiu o dourado fraternalmente, agradecendo pela colheita, pelos frutos do trabalho e à fertilidade do solo. Festejou com os próximos, a luz do sol, a divindade das chuvas, a temperança das estações do ano. Rompeu as noites e os dias e atravessou portais temporais. Vestiu novos trajes, participou de novas ordens cerimoniais, misturou-se às transfigurações sociais. Mas, continuou a pisar com os pés voltados para as estrelas.
Após sentir em sua nuca a água fresca da fonte, todo o seu corpo estremeceu. Despiu-se do tempo que oprime as eras e os passos e, pôs-se a nadar nu no lago.
Sua aura purificara-se e tornara-se translúcida com os primeiros raios do sol.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Convidada Penny Lane

Pra Você!

"Espere um pouco, estou quase cochilando
deixe-me contar meu último pensamento
que está à deriva na névoa profunda
perdida aonde fui esquecida

Espere um pouco
posso te sentir principalmente quando estou sozinha

Volto pra casa porque quero
passo o tempo com as vedetes
fico olhando o teto
faço um flashback dos meus sentimentos
no sentido mais doentio do meu sentimento

Te ouço transando através da parede
Te ouço transando
quando estou entediada

Envio vibrações na tua direção
elas saem da minha mente satélite.

Não sou suicida, só não consigo levantar da cama
continuo à deriva na névoa profunda, perdida aonde fui esquecida
Posso te sentir principalmente quando estou sozinha
Posso sentir teus fantasmas quando estou sozinha

E volto pra casa porque quero
passo o tempo com as vedetes
fico olhando o teto
escondendo e revelando
fazendo um flashback dos meus sentimentos
do sentido doentio de uma ligação rara

Te ouço transando através da parede
te ouço transando
quando estou entediada...

E te envio vibrações da minha mente satélite."

Penny Lane

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Necessário.


(Imagem retirada do Google).

Necessário.

Ele era um besta que eu seria capaz de amar.
Imaginá-lo cena de cinema... Não! Cena real. O rápido desabotoar do meu vestido. A mão atrevida a encher-me de carícias, mais. O pênis firme, ereto, roçando.
O olhar de deus; o meu deus – socorrei-me os céus!
Mas era pouco, eu queria bem mais. Queria o todo e este foi o erro; erro feminino.
E? E? Nada. Ele bem distante e minha vagina molhada, escancarada, cheia de desejos, enquanto ele, o besta, era figura fictícia e o dito amor escorria pelo ralo em um bom banho, hummm...
Ele valia a pena – de vez em quando.

Eliane Alcântara.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Acidente numa noite chuvosa


Antes da colisão,
gotas de chuva no para-brisa
são barras de ouro.

André Espínola

Sinestesia

http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:UPV8123YCFtIoM:http://img411.imageshack.us/img411/7752/sinestesia2tq2.jpg&t=1



Não somos parecidos
nem sequer nos desvarios e esquecimentos.

Um porto selvagem se perde além das nossas trincheiras
e o que resulta
além do arrastar uma areia espessa

é algo como um chuva
num chão devastado por
por cores de serpentes e borboletas.

Tu és esfinge
eu sou apenas
o espectro

e ainda assim, não somos parecidos
nem sequer em nossas tormentas.

Caminhamos lado a lado
eu, fazendo escarcéu com o gosto do toque da névoa
e o teu rosto brincando de incendiar os belos
e mortos
pássaros de ar

que tu mesmo inventas.



(Jessiely Soares)




*Desconheço o autor da fotografia.

domingo, 16 de agosto de 2009

Apenas vestígios


Não sei dos meus caminhos
de amanhã.
Nem de hoje daqui a pouco.

Sei que tenho pernas
e espasmos de intuição.

E prazer nos labirintos.
E tenho cestas de maçãs.

Detenho um grito rouco,
e pressa em seguir chão.

Meus rastros se perderam em
ânsias,

e certos pedaços de asfalto
são apenas ruas sem importância.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Cálice de Adversidade

(Sonia Cancine)
.

A margem da estrutura social
Eu tento digerir
O que se impõe nas caldeiras ferventes
Das relações existentes.

Cozidos os destemperos
Sobram as porções carnudas
Para o prazer da gula animal.

Desmancham-se nos caldeirões
Aos borbotões olhos tristes
No regalo de perdas infindas
Onde deveriam nascer canções.

Embriagada pelo sentimento de saudade
O amor jazido entoa palavras jogadas ao vento
Buscando a brisa suave
Na esperança de que esta enleve
E abrande as cinzas do lado sombrio d’alma
Corrompida pela dor.

Sou livre sou pássaro
Que no alto de vôos imaginários
Deste inverno triste, aguardo os raios de Sol
Pousar e aquecer os quintais humanos
Para que me tragam de volta o brilho do olhar.

Olhar que se perde ao longe
E reflete a expressão de anseios

Inebriando-me no mais absoluto Silêncio d’Alma.

Assim num ritmo cigano
Ao som de pandeiros e violinos
Representando o júbilo do Sol
Embainhada de lenços eu danço
Um lamento arcano

E aos poucos revelo tão somente
A beleza e o poder da dança
Como forma de oração
E me basto neste instante.

Tal como filha do amor
Neste cálice de adversidade
Ao que o mundo se destina

Ao dançar manifesto desejo, sentimentos e sonhos
Movidos pelo deslizar dos lenços tristes pelo ar
Num transe livre e musical como o vento

Numa tentativa de envolver e fortalecer teu coração.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Meu Habitat

Corri firme pelos campos nevados das montanhas,
O céu era branco e pouco estrelado,
Árvores, pedras, rios e lagos... congelados,
Algo diferente havia em mim,
Sentia pelo corpo, sentia-me mais instintivo,
Eu mudei e buscava minha egrégora.

Notei cavernas escuras e geleiras imponentes,
Granizos caíam como estrelas pouco vívidas,
Na serenidade mortífera tudo era inóspito,
O frio e ventos incomodavam-me menos,
Minha aventura estava mais próxima do fim,
Abismos e cavernas agora eram meu território.

Vivi a edificante misantropia naquele lugar incrível,
Lá eu era livre de fardos da humanidade,
Em meu lar distante eu podia ser eu mesmo.
No alto da montanha observei o abismo,
E senti um poder interno crescente.

Rosnei e urrei, logo senti-me maior e poderoso,
Pesado e peludo, meus trajes sumiram,
Transformei-me em um grande urso polar.
Descansei em uma carverna escura,
Dormi entre meus parentes ursídeos.

Hibernei até a próxima estação, esperando por dias melhores.


- Mensageiro Obscuro.
Dezembro/2008.

Ostras

"Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas"



Rumores e sensações, vividas em silêncio
De profanas inquietações.

Guerras deflagradas a procura
Daquilo que foi encontrado
Na pureza dos sentimentos
Vividos antes do despertar
Da lua que nos observa
Brilhante e cheia...

Visionários de sonhos
Trazidos pelos ventos esfuziantes
Da maldita estrada que nos separa

Em um longínquo futuro inexistente
Tornamos-nos pérolas.

(Ro Primo)

domingo, 9 de agosto de 2009

Fim de estiada XI


naquela altura
o sol já ia subir
e o seu amor por mim

foi-se com a chuva

deixou, porém,
de souvenir,
essa poça d'agua

aqui nos olhos.

sábado, 8 de agosto de 2009

A LÍNGUA NA INTERNET
Betty Vidigal

Até começar a circular pela net eu tinha – embora inconscientemente – a certeza tranqüila de que o modo como nós sudestinos falamos é que era o jeito “certo” de se expressar coloquialmente em português. (Nunca entendi por que razão se diz "nordestino", mas não "sudestino".) Claro, todos sabemos que não é o modo correto do ponto de vista formal, mas quem fala de qualquer outro jeito nos parece estar errado.

Na página de atendimento do iG, há a mensagem: “Estamos prontos para te atender. O iG valoriza você.” É assim que se fala, em São Paulo e no Rio. Não chamamos ninguém de “tu”, mas dizemos “te”. Dizemos “você”, mas não dizemos “lhe atender”. Para nossos ouvidos sudestinos, está certo misturar “seu” com “te”. O “lhe” é que soa muito estranho, para nós. Não pronunciamos os erres finais dos verbos no infinito, e se alguém pronunciar achamos que soa pedante, preciso demais.

A frase “vamos te dar um presente” é pronunciada por nós como “Vâmu tchi dá um presentchi”. E se alguém pronunciar todos os “e”, “o” e “s” corretamente, como se faz na fronteira dos estados do sul, achamos engraçado. Dizemos “cê vai?” em vez de “você vai?”, mas se alguém disser “ocê vai?”, isto soa a nossos ouvidos como fala inculta, caipira, embora a palavra “você” tenha sido menos corrompida e esteja mais próxima da forma correta.

Eu tinha essas certezas sudestinas tão internalizadas que nem percebia como eram preconceituosas.

Quando entrei nas salas de internet, em 1997, tomando contato com a forma de falar de todas as regiões do Brasil (porque, afinal, na net cada um escreve como fala), me espantei quando vi alguém perguntar a um gaúcho que estava conversando comigo: “Por que tu está falando como paulista?”. E eu que não tinha notado nada de diferente no modo dele falar! Ou de teclar, como se diz na net. Ele estava me imitando, brincando comigo... e eu não tinha percebido nada, parecia tão natural... Os outros gaúchos é que notaram.

Hoje, depois de tantos anos de convivência, soam-me tão naturais os “lhe” dos nortistas quanto os “tu vai” dos sulistas.

Está bem: antes que algum gaúcho reclame, reconheço que há gente no sul que diz “tu vais”. E que usa todos os imperativos direitinho, tanto os negativos como os positivos.
Mas há muita gente que diz “pegues com cuidado”, ou “olhes bem”, como tenho visto com freqüência, usando a forma do imperativo negativo como se fosse positivo. Errado pra caramba...! E tente convencer disto às pessoas que falam assim! Enquanto isso, no sudeste, dizemos “pega” e “olha”, quando o certo seria “pegue” e “olhe”, já que não nos dirigimos a ninguém como "tu".

Aí entra um ingrediente engraçado: para paulistas e cariocas, o verbo imperativo na segunda pessoa soa doce, como se embutisse um “por favor” subliminar. Não tem aquela conotação dura de ordem. Por que será? Se digo: “Não fale assim comigo”, por exemplo, soa como ordem. Se digo “Não fala assim comigo”, dá até pra ver as reticências de súplica na voz...

Então, a primeira coisa que a internet está fazendo pela língua é isto: criar um conceito democrático de que todos os coloquialismos estão igualmente corretos, ou igualmente errados, e talvez, com o passar dos anos, unificar mesmo a língua com naturalidade, sem que seja preciso forçar quem quer seja a grandes ajustes artificiais, como os que as academias dos diversos países de língua portuguesa querem promover.

Vejo professores a debater se os jovens escrevem e lêem menos hoje do que há alguns anos. Dizem que mais, por causa dos chats e dos e-mails. E há quem ache que isso os faz escrever pior, embora quantitativamente mais do que antes.

Certamente, em qualquer língua, e não só em português, criou-se uma grafia de abreviaturas e estilizações para tornar rápida a digitação. Vi num site de bate-papo francês a expressão “kes se k” em vez de “qu'est-ce que”. Claro que coisa equivalente acontece na nossa língua o tempo todo.

Confesso que configurei meu Word para substituir automaticamente as abreviaturas usuais por palavras completas. Digito como escrevo nos chats, e o Word faz o trabalho de alterar “q” por “que”, “vc” por “você”, “qdo” por “quando” e “msg” por “mensagem” – entre outras alterações. (Para conseguir deixar as abreviaturas, neste texto, tive que torturar um pouco a máquina.)

Quais os padrões para essa evolução, se é que se pode chamar de evolução?

E a língua dos e-mails? Pode ser a mesma que a das salas de bate-papo?

Nos e-mails, como não existe o recurso de substituição automática, as abreviaturas ficam como as digitei. Afinal, são “apenas” e-mails... (ah, se quero caprichar, digito em Word e depois colo o texto no e-mail. Só para assuntos importantíssimos! Se alguém recebeu de mim algo sem abreviaturas, saiba que era um assunto crucial pra mim... Não envio em doc atachado, porque eu mesma não os abro... não gosto de abrir nada atachado... E não é por ter medo de virus.)

Dia destes li numa revista algumas “dicas” de como escrever corretamente e-mails. A autora, uma professora de português, dizia: “Maiúsculas existem para ser usadas”. Isso porque ninguém escreve em maiúsculas na net e o vício de escrever em caixa baixa acaba se estendendo: a primeira letra das frases e até dos nomes próprios passa a ser escrita em minúscula. Considera-se que escrever uma frase inteira em maiúsculas não é de bom-tom, equivale a gritar... é agressivo... então por preguiça abolimos de vez as maiúsculas...

As dicas da professora continuavam: “Pontuação não é enfeite!” Verdade: não é, ou não devia ser. Mas na net há muito tempo os três pontos das reticências deixaram de ser três: há quem use dois pontos seguidos, em vez de três, e quem use miríades de pontos: quanto mais reticente for a frase, mais pontinhos. Pensando bem, as duas atitudes fazem sentido. Afinal, por que razão usamos três pontos, e não dois? Como sempre foi assim, e é assim em todas as línguas, ninguém jamais questionou isso. Mas, se a intenção é tornar a entonação da frase o mais clara possível, a gradação da quantidade de pontos é muito conveniente.

Entre internautas, usar duas, três ou mais vírgulas é comum, e é característico do estilo de teclar de algumas pessoas. O mesmo vale para ponto-e-vírgula. Uma coisa que ainda não inventaram é a vírgula de interrogação: e não dá para inventar por conta própria, porque dependemos do teclado para isso. Antes de passar a escrever só em computador eu andava usando vírgula com interrogação embaixo, em vez de ponto, em situações do tipo: “Você sabe, não sabe, que vou me atrasar?” Esse “não sabe” pede aos gritos uma interrogação que não pode ser um ponto. Claro que a grafia pode ser “Você sabe – não sabe? – que vou me atrasar.” Mas o ritmo imposto pelos travessões pode não dar a entonação que gostaríamos de dar.

Asteriscos, parênteses, aspas... abusamos deles nos chat, por diversão, para chamar a atenção, para dar ênfase, para abraçar, para sorrir... Fora as interrogações e exclamações usados em número equivalente ao tamanho da dúvida ou do entusiasmo, mas isso sempre se fez.
A autora das regras de bom-tom nos e-mails também acreditava que abreviaturas só devem ser usadas em mails informais. Mails de negócios devem conter todas as palavras na íntegra. Certamente, é mais seguro... Imagine se você escreve “recebi vossa msg” e alguém interpreta como “recebi vossa massagem”!

(obs: não sigo as dicas dessa professora...)

Li uma reportagem sobre um desses colégios bem informatizados em que o professor de português está aceitando “q” e “vc” nas provas e nos trabalhos, assim como outras abreviaturas usuais. Tenho certas dúvidas quanto ao acerto disso... Parece-me que é como autorizar o uso de calculadora eletrônica antes de as crianças aprenderem a fazer contas no papel. Mas são apenas dúvidas, não certezas.

E definitivamente incorporei à minha escrita, mais que os emoticons [essas carinhas que usamos na internet, como :-) ou :-( para indicar alegria ou tristeza], os símbolos de riso *r para risada e *g para gargalhada... Muito úteis!

Que alterações isso tudo vai gerar na comunicação escrita, no futuro? Boa pergunta, que talvez deva ser feita com um ponto de interrogação repetido enfaticamente – trúzias de vezes!!!!

Vestígios de afagos







trago esse sorriso
num envelope discreto

em que guardo
pequenos cacos

vestígios de afagos

ninguém vê o sorriso
quebrado e findo

assim eu consigo
evitar esse peso

é meu feitiço lasso
ameno e delicado

um tipo de insana
angustiante inação


sexta-feira, 7 de agosto de 2009


LÚDICO


-----------------------------------------------Eduardo Perrone--------------------------------

*Minha palavra

Tem ângulo reto.

Decerto que errei

Na medida.

Era para ter sido

Ainda mais

Aguda...



Nada muda quando a essência é a mesma,

Quando em passos de lesma

Caminha a humanidade.

Onde anda a lealdade

Que acompanha os justos?

Onde estão definidos os custos

De que se convencionou batizar de amizade...?



Na guerra lúdica

A letra é festim da adversidade,

Um tiro certo,

Hermenêutico.

Um ferido anfitêutico ,

E uma bandeira branca

Poética.

É batalha dialética,

Entre o que nunca se diz,

Em detrimento ao que sempre

Se quis.

prosa e poesia


A força da palavra está na ponta da língua.

Há de se exercitar esse músculo saboroso, p’ra que nossa prosa seja espontânea, como o soco de um moleque de rua, na cara de um executivo dentro de seu carro, parado num sinaleiro da cidade de São Paulo.

E p'ra que nossa poesia seja gostosa e livre, como moça de 20 anos, de férias com amigas em Balneário Camburiú.

Contundente.
Inesperada.
E impossível de se evitar.

Faço dessas... minhas palavras.


Robisson Sete

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Cinzeiros (da série "Úteis & Fúteis")



Execro pensamentos bestas deflagrados por comentários idiotas de pessoas e objetos imbecis que nada sabem acerca de mobilidade e calor. Minha vida inexistente permeada sempre foi e será de movimento, emoção, energia, sentimento e aventura. Pra lá e pra cá, no vai-e-vem, acompanho, sempre calado, o ritmo, por vezes frenético, por vezes "piano" dos fumacentos humanos a soprar os fumos dos fumos coados e escoados por seus pulmões azeviches. Curto os calores, dos homens, dos fumos. Tem os cubanos, fedor assaz, calor demais, fumante loquaz. Tem os mentolados, aspirados por viados de olhos amendoados e mancebos amancebados com encéfalos desvairados. Tem os baratos sem filtro, subproduto destinado ao mercado interno cognonimamente chamado populacho. Tem variegados mais além. Malgrado malgrados, com grado ou sem, vêm todos a mim, aquecer-me, inocular-me vida das e de cinzas. Tão-só peço que me não peçam que aprecie ébrios. Atabalhoados, dificulta-lhes sobremaneira manter-me preso entre os dedos. Invariavelmente, deslizo por suas frias mãos úmidas. Destroço-me com estardalhaço. Grito, mudo, ao surdo mundo imundo rotundo. Desprovido de som e de forma, encerro meus dias de glória no fétido lixão. Sina ingloriosa. Vilipêndio de cadáver. Absoluto desrespeito. Sacrilegio o destino de meus algozes: apinhados de tubos, sarapintados de manchas, amarelecidos, macilentos, estúpidos, fumarão à sorrelfa, aspirarão a desgraça através de diminutos buracos na traquéia, olhos buliçosos e néscios. Nostálgicos, súplices, buscar-me-ão. Em vão.

Carlos Cruz - 28/02/2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

cai o pano

Eu devia engolir a fala

do modo que engulo o choro

e o retenho com um nó na garganta

e outras linhas emaranhadas

Mas a palavra me desata, me destorce

faca afiada me destrincha expondo trapos

desfia o alinhavo

da figura adiquirida em banca de retalhos

mostra-me em cada laivo a artesania

os adereços de rebotalhos

A isso que sou

boneca de sonho

títere do som

não cabe reter a palavra que resvala


Iriene Borges

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Instante

Não há anúncio
nem despedida

tudo flutua num seco aroma asfíxico

e no inverno,
nem mesmo sei quem é a neblina...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

CONSTRIÇÃO


ou Medusa narcísea



Como se fosse sugada, sentiu os músculos do animal que, vagarosamente, centímetro por centímetro a devorava. Nesse momento, o reflexo no lago lhe desvendou a Medusa, a dor dos ossos das pernas e do quadril esmigalhados não mais lhe incomodava... apenas, a formosura de se ver semi-engolida por besta excomungada de tempos bíblicos lhe ameigava. Penteava os cabelos, pois lhe faltavam serpentes.

novo Blog do autor: WWW.escritorflaviomello.blogspot.com

e-mail: prof_flaviomello@hotmail.com

domingo, 2 de agosto de 2009

Zig-Zag - Flá Perez

Para quem
acredita,

a verdade
seja dita.


E se você
não aguenta,

que a mentira
seja benta.

Do tempo

Hoje eu estava olhando o álbum de fotografias. Sabe, leitor, quando há rostos inequecíveis que você já havia enterrado no passado e eles ressurgem em alguma foto? Como eu pude deixá-los para trás; mas, se não deixasse, como eu poderia ter seguido em frente.

Ah, leitor, você não conheceu Hamir, o meu protetor. Ele tinha a sabedoria simples que só a vida simbiótica com a natureza proporciona; sabia quando ia chover só pelo vento, conhecia a índole das pessoas só pelo sorriso. Hamir adorava cenouras e fazia pouco caso das maçãs; sempre me carregava até em casa quando passeávamos ao ar livre. Certa época ele foi rebelde, mas jamais perdeu o brilho ou a doçura. Ah, leitor, ele, quando o conheci, era um árabe velho, serviu-me até quando precisou partir. Hoje eu achei um retrato nosso, não há nada na foto além de um nome e minhas lembranças.

O tempo passou, afinal ele está sempre a passar, no entanto alguns não passam com ele. O tempo não pára, nem espera. Que ironia é constatar que o tempo é a única certeza eterna nesse mundo. Só havia o tempo e as pedras, depois só o tempo, as pedras se consumiram em pó.

Até as sensações se vão com o tempo. Eu tinha uma vizinha que se deliciava com o bolo de creme da minha mãe, até o cheiro enchia de água a boca dela. Então a mãe dela aprendeu a fazer o tal do bolo, dois meses depois ela passava mal sóde houvir falar dele, dizia que estava enjoada de tanto comer.

O tempo é uma espécie de deus, não concorda, leitor? Repare:o tempo tudo sabe, está em todo lugar, sempre existiu, tudo pode, é a vontade do destino. Senão do destino, de Murphy. Cheguei a conclusão que o Tempo inventou até o amor. Qual o propósito? Acho que o tempo é um Deus sádico. Nós somos fantoches fadados às travessuras desse Menino-deus. Mas, sim, só o tempo pode trazer às chuvas, ou levá-las embora. Ele é quem fez férteis algumas terras e desertas outras.

A questão em si não é o porquê temos vida, porquê a ganhamos. A ciência já mostrou o que é a vida. O que nos instiga é por que temos consciência. Por que sabemos que estamos vivos, que morremos, que procriamos porque vamos morrer, por que somos racionais, seres pensantes, críticos,personalíssimos. Hahaha, leiror, não é engraçado a ironia? Não entendeu, leitor? Só criamos consciência com o Tempo; mas não está nesse detalhe a totalidade daquela, mas que é uma criação de uma consciência social.

Pois é, leitor, essa conclusão me lembra certa vez que eu quis pegar uma varinha de bambu a mais e a professora me repreendeu porque assim não sobraria para as outras crianças. Mas não é isso que eu quis dizer, não dessa consciência, não da consciência ética, leitor. Foi da consciência de ser a qual me referi noutra hora, na verdade nem na de ser, mas na de sermos. E como ser ou sermos é cruel, não? A consciência de que esta um dia acabará, ou não, sei lá, mas essa incerteza é a mais cruel de todas, e é isso que mata a humanidade dia a dia: as guerras, os estresses, as depressões, as fomes, tudo.

Voltando ao assunto das fotos, é cruel sabê-las quando aquele rosto já se desfez em osso e nem consegue saber que sentimos saudades, revivemos as lembranças, amamos. Amor... devo ser uma das cronistas mais românticas que já se houve, afinal, nem creio numa vida sem amor. Pudera, se mesmo Schopenhauer amava, quem sou eu para desacreditar o Amor? Não acredita que Schopenhauer amava, leitor? Que descrente! Se não amava por que viveria tanto? Por que se preocuparia em propagar seu canto para a humanidade? Ele amava o próximo, a seu jeito, mas amava. E eu? É mais fácil listar o que não amo, mas de nada interessa o que eu não amo, não para mim, pelo menos. Sabe, leitor, ame de se entregar, não ame pela metade porque você apenas vive pela metade. Perca, sofra, isso também faz bem a alma.

Eu já perdi tantas vezes que nem sei mais contar, e nem posso. O que perdi não é número para virar estatística. E não é porque perdi que deixei de amar. E nem deixei de viver porque dedico meu respirar para outrem. Alguns dizem que altruísmo é não viver para si, eu acho o contrário, viver só para mim seria tão egoísta que me privaria da própria vida. Mas efim, esse é um assunto para uma próxima conversa. Desculpe-me pelas divagações, leitor, mas é assim o meu raciocínio, a coerência é subtendida.

sábado, 1 de agosto de 2009

crônica DOIS GOLS

Fazia tempo que eu não jogava, achei que iria dar vexame, furei logo na primeira bola. Nem me abalei, sempre fui ruim mesmo, posso fazer meu máximo que nunca serei nem ao menos um jogador mediano, então relaxei e... fiz dois gols.

O primeiro foi bem bonito, driblei dois zagueiros e o goleiro antes de empurrar para a rede de canhota. Foi bonito pois não sei driblar e sou destro, a jogada aconteceu meio que por mágica. O segundo gol foi de oportunismo e também de perna esquerda. Entrei em êxtase. Por momentos pensei em Ronaldo como um igual. O poder da adrenalina do futebol.

Em casa, falei pra patroa: - Fiz dois gols. “Parabéns”, ela disse, e me beijou satisfeita. Dias antes ela viu a expressão de felicidade dum reserva que fez o gol da vitória na Seleção. Percebeu que era um prazer próximo ao orgasmo, só que muito mais difícil.

Fiquei pensando nos gols, relembrei cada milésimo de segundo, todas as decisões que tomei quando a bola estava nos meus pés, os problemas em superar os zagueiros, a necessidade de transpor a barreira do goleiro. A mágica funcionou e cumpri meu objetivo de maneira sensacional (às favas com a modéstia). Eu estava relaxado, acreditava em mim e o risco de errar não me importava. Seria isso uma fórmula de sucesso?

***

Meus amigos me felicitaram pelos gols no boteco depois da pelada (o verdadeiro motivo do futebol), fiquei bem agradecido e um tanto inflado. Antes de pisar no campo mais uma vez, pensei na responsabilidade em jogar bem novamente nesta volta aos gramados. Ponderei e percebi que minha responsabilidade era nenhuma, tudo o que eu queria era relaxar e me divertir. Então fiz dois gols outra vez.

O primeiro, bem bonito, parecido com o do jogo anterior. Nosso time ganhou quatro partidas seguidas, um recorde. Fui direto para o banheiro: chuveirada e bar. Queria beber mais felicidade.

Pequenas coisas representam tudo no final das contas. Por que dois golzinhos me deixaram tão feliz? Acho que eles são pequenas vitórias nesse deserto de derrotas que é a vida, por isso me agarro tanto nessas coisas que agradam. É difícil alcançar a tal adrenalina de prazer que o gol injeta no sangue. É uma explosão de triunfo por toda a batalha imponderável. É só você e o infinito, mas você o dribla e vence. Fazer gol é tão bom que deveria ser obrigatório no ensino médio.

***

Ontem só fiz um! Mas foi de virada, lá onde dorme a coruja. Nem agüentei acabar toda a pelada para beber minha cerveja, tava cansado e louco para emendar um prazer seguido no outro. No fim, só lembramos mesmo daquilo que é marcante, pro bem ou pro mal.

– só fiz um. – Disse e a patroa ainda falou “parabéns” e me beijou. Ela, esperta, sabe que um é melhor que nada. E um, nessa imensidão de ausências que nos cerca, pode ser a diferença entre a satisfação e a miséria.

- é, tem razão, foi ótimo. – Falei, e guardei para mim o pensamento “e nem contei que foi um golaço”.

ܔܢܜܔa lenda do corpo seco


Uma produção da Editora Biblioteca24 x 7, em breve lançamento na internet.
ܔܢܜA LeNdA Do cOrPo sEcO(๏̯͡๏) > CAPA DE RENÉ OCINÉ