terça-feira, 30 de março de 2010

Convidado Paulo José Cunha

dá-me o prazer?
 
a mim não importa a janela
nem a vida
muito menos a porta
da entrada
ou da saída
 
sou mais é participar da miragem
e bailar entre os espelhos 



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Agora

   
Preservativos sob os bancos
pelos becos, pelos cantos.

   Alegrias urgentes.

           Amor?
Não. Algo mais forte:
           na hora.

O amor quer ser eterno.
O prazer quer ser agora.

sábado, 27 de março de 2010

MANCHETES DE JORNAL (ou sobre Isabela e outros anjos)

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JOÃO HÉLIO FERNANDES








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João Hélio Fernandes
ISABELLA NARDONI









João Hélio Fernandes
Isabella Nardoni
ELOÁ PIMENTEL








Isabella Nardoni
Eloá Pimentel
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Eloá Pimentel
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Notas

João Hélio Fernandes – em fevereiro de 2007 foi arrastado por um carro em movimento por ladrões que abordaram sua mãe em uma rua no Rio de Janeiro.
Morreu um mês antes de completar sete anos.
......
Isabella Nardoni – em março de 2008 foi jogada do sexto andar do prédio onde viviam seu pai e a madrasta, em São Paulo.
Morreu um mês antes de completar seis anos.
......
Eloá Pimentel – assassinada pelo ex-namorado em outubro de 2008 no seu apartamento, em Santo André, após sofrer cárcere privado por cem horas.
Morreu aos quinze anos.



Este texto foi publicado no meu blog, o www.prosaseviagens.blogspot.com - nele, publico também contos, minicontos, relatos de viagem... espero suas visitas por lá...

Emoldurada

Viro pro lado e vejo
(filme adulto sem cortes,
revista de sacanagem),
em chiaroscuro e água-forte
à luz que vem da janela,
a obra-prima do vernissage.
Ainda sinto seu cheiro
doce e quente sobre a pele.
Ela dá uma de inocente
(nem catecismo do Zéfiro,
nem bem óleo sobre tela),
espreguiça e faz que não sente
os meus olhos sobre a dela.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Beijo especial

A língua lenta lambe o lábio
e o toque treme o corpo todo.
Na pele o pelo em pé se posta
e a boca bebe o puro gosto.

O olho fecha e vê o sonho.
A pele então que passa a ver,
enquanto a boca fala muda,
e o ar esquenta e escorre em gota...

E é então que esqueço tudo:
não há nem tempo nem espaço.
Sou cego, surdo e também mudo.
Só há um cordão de língua em laço!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Movimento geóide


Lá fora,
o mau cheiro do pólen.

Queimado pelo pavio da chaminé.
Construída pelo ego que destrói.

Que cessam as pétalas de bem-me-quer.

Arrancam o palmito
do tronco que chora.

Direitos Humanos?
Há esperança de melhora
em cinqüenta anos?

Com seu movimento geóide,
Sente uma dor pulmonar.

Pela combustão que explode,
Espera essa cratera sarar.

Ainda se ouve o tinir da esfera.
Conduzida pelo ego que destrói.

Que perturba o planeta Terra.

Lena Casas Novas - Da obra Incessante


"Hora do Planeta 2010 - DIA 27 DE MARÇO - ÀS 20h30 - Apague a luz por 60min. E acenda a consciência contra o Aquecimento Global!"


segunda-feira, 22 de março de 2010

Aviso aos desavisados


Neste sábado, dia 27 de março, ocorrerá o lançamento do
Vem cá que eu te conto no Rio de Janeiro

O evento será realizado na sede da Editora Multifoco
Av. Mem de Sá, 126 - na Lapa - das 17 às 21:00



Lembrando também que, no dia 17 de abril,
ocorrerá o lançamento do livro em São Paulo

Na cidade da garoa, o evento será na Casa das Rosas
Avenida Paulista, 37, das 17:00 às 20:00 (seguido por um sarau)



Mais informações, acesse: http://vemcaqueeuteconto.wordpress.com




Segue abaixo um conto (que não está no livro):


À parte


Voltando para casa, invariavelmente passava diante do mercado. Pensou em entrar e comprar um bom vinho para acompanhar o jantar, mas quando chegou na frente, desistiu. Não passou reto porque a multidão que começava a se aglomerar obrigou-o a desviar, mas, avesso a confusões, passou direto.

Enquanto ele passava, observou de relance que os seguranças estavam cercando uma senhora que parecia estar tentando atingir-lhes com uma sacola de tecido cheia de compras, também ouviu as pessoas comentando que ela já havia atirado outras mercadorias contra os funcionários do mercado. Permaneceu indiferente à cena e aos comentários, era também avesso às fofocas e burburinhos.

Continuou andando para casa, mas percebeu que enquanto ele andava, a notícia corria. Mal havia andado meia quadra e já via o assunto chegando na esquina, mais ou menos na mesma altura do congestionamento causado pelos motoristas que passavam devagar, tentando espiar alguma cena da confusão por entre os passantes, que no momento estavam parados, mas logo passariam. Sentiu-se incomodado ao ver que todos pelo caminho comentavam e aumentavam a situação vexatória dos envolvidos, mas o máximo que podia fazer era manter-se indiferente e não aumentar a onda - que a esse momento já estava enorme. Na esquina já comentavam que alguém estava atirando pedras e pedaços de pau para todo lado, que havia feridos.

Ao entrar no saguão do prédio, acreditou ter despistado a notícia que o cercava desde o mercado. Mas foi então que o porteiro comentou sobre a atuação violenta da polícia, há pouco tempo, em uma situação com reféns no mercado. Olhou para o porteiro e percebeu que ele falava com um morador que estava sempre por ali, sentado na poltrona - que talvez fosse até dele e não do condomínio, porque nunca havia visto nenhum outro morador usando-a. Sentiu-se aliviado porque podia poupar-se de fazer qualquer comentário em relação ao caso, até porque, caso comentasse, reduziria aos fatos o acontecimento que havia provocado tantas reações e, de fato ou ficção, agitado um bom tanto a vida um outro tanto monótona dos que deixam para viver no final de semana.

Quando entrou no apartamento, finalmente livre, sentiu-se superior aos que sucumbiram ao burburinho, às fofocas e conduziram uma simples confusão de saída de mercado a um conflito armado.

Começou a preparar o jantar e a repensar os acontecimentos do dia. Após alguns momentos de reflexão, sentiu-se angustiado porque, de fato, o que acontecera de mais interessante no dia foi o rebuliço na porta do mercado, que podia ter se tornado parte do seu dia se acaso não tivesse se esforçado tanto para ignorá-lo.

Um pouco depois que ele terminou a janta, especialmente preparada para a esposa, ela chegou. Cumprimentaram-se com um beijo - sem abraço por conta das mãos engorduradas - e, então, ele perguntou:

- Demorou um pouco mais hoje, muito trânsito?

- Essa rua ali da frente estava um pouco parada. Parece que houve alguma confusão no mercado. Você ficou sabendo algo?

Diante da pergunta a ele direcionada, o estímulo que lhe faltava, não conseguiu conter-se:

- Parece que alguém tomou um tiro no mercado.

sábado, 20 de março de 2010

Convidada Carmen Silvia Presotto

Momentos


Há momentos insones

em que viver é morrer



na escada de um bar

na garagem de um prédio

um corpo me assombra



volto para casa morto de vida

e choro...

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Carmen Silvia Presotto

sexta-feira, 19 de março de 2010

Somente... Amor!

(Imagem: Google)


Somente... Amor!



Busco um amor que venha tão de mansinho que todas as estrelas olhem para ele e sejam coniventes ao acontecer.

Não precisa ser do tamanho do infinito, mas não reclamarei se for o próprio.

Não exijo que seja daqueles que a gente lê nos livros, que nos ensinam na infância ou que projetam como imortal, mas se tiver essas características também aceito – desde que seja mais que encenação.

Durante todo o dia quero existir nele e que ele exista em cada poro do meu corpo mesmo ausente. Tipo parasita e hospedeiro, cada qual a doar ao outro o necessário para a existência.

Amor desse que não enlouquece de ciúmes, pois sabem os amantes o que representam um para o outro e respeitam os sentimentos. Mas se acontecer em dado momento de pintar um ciúme que a gente saiba espantar, juntos, qualquer dúvida que queira estragar a beleza.

Que venha suave e incendeie a cama, a casa. Que deixe impregnado nas paredes o seu cheiro, a sua imagem, os seus risos, as suas lágrimas. Que apresente suas feridas, mas que nenhuma delas seja forte o suficiente para ferir e nos lançar ao canto solidão.

Que esse amor não deixe ninguém destruir nossas certezas porque a inveja os domina e não são capazes de compreender a força e a magia que envolve tudo o que é abençoado.

E quando a gente entrar na dança das almas e sorrir inocentes crianças, que o céu nos conceda caminhos juntos caso o regresso nos habite. Que a gente nunca, nunca esteja separado em mundo algum.

Se a matéria de um tiver tempo a menos que a do outro, que o que ficar acredite no próximo encontro e continue a amar o corpo ausente no silêncio do coração, nos labirintos da mente e na alma eterna.

Busco um amor que não seja ilusório, amor que preencha a vida de flores, de paixão, de sol e chuva. Amor que não precise exigir de mim coisa alguma, pois toda eu, serei dele, a realização plena de tudo o que anseio.

Amor só amor.


Eliane Alcântara.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O primeiro voo da mariposa


http://www.nuaideia.com/imagem6/mariposa.10jpg.jpg


De tão pequenos gestos
numa timidez de afetos.
Esvoaçava fuligem num mar de cacos.

Como figuras num aquário
com secretas canções angelicais.

Quem pudesse veria
as marcas de sangue e vida,
de fogo e de partida ao longo do litoral

voo
primeiro e último
da mariposa que me habita
sobre as chamas do canavial.



(Jessiely Soares)

quinta-feira, 11 de março de 2010

A Vida é Curta Para Fugir

Diante de tua presença
Pêlos arrepiam e a boca treme,
Palavras não saem
E assumo o animal que sou.
Tomo-a de surpresa
Arrancando tuas vestes,
Dominando teu corpo 
Quero teu prazer e entrega
Chame-me de bruto e libertino,
É dessa forma que te amo.

Continue fingindo frieza
Com teu jogo de sedução
Brinquemos hoje
Só temos o agora
Agarre-se em minha pele 
Amanhã poderá ser o fim,
Pois a vida é curta para fugir.


- Mensageiro Obscuro.
Maio/2008.


Foto: "The Lady of Shallot" de John William Waterhouse.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Fênix



ressaca de certeza esfarelada
retalhos de vontades desfiadas -
nus, nós, depois do terremoto
dançando de mãos dadas
alegres, no velório das palavras.

Convidado Edson Bueno de Camargo

na origem dos pés


para Antônio Jorge Valério



na origem
os pés pisaram
este chão de basalto cristalino

planalto de pó e de origens
de plantas planares
em argila de ocre vermelho
dos ventres pungentes
que ainda gerarão a humanidade
(e de novo
e de novo)

somos todos africanos
em nossa origem humana
todos exilados do terreno
da pátria primeira

foram os pés de nossos antepassados
fincados na terra
que nos trouxeram aqui

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Edson Bueno de Camargo

terça-feira, 9 de março de 2010

AQUI PRA VOCÊS




Para os que acham - me lixo



AQUI PRA VOCÊS
esperem sentados


Há muito tempo
Decorro fechado
Mas agora resolvi peitar
Posto no bar
Muitos bocados
Eu não vou mudar
Pros que reclamam
Por meus comentários
Esperem sentados
Pra não cansar
Pois meus escritos
Os grandes críticos
Dizem odiar
Verdade é
Que nesse bar
Muitos gostam
De o meu estourar
Dizem-me ser
Um fanfarrão
Um machista
A profanar
Rotulam-me
De infantil
De inseguro
De truffinha
Lá... lá... lá...
Tentando me abalar
Que só falo do meu pau
Que meu ego é o que há
Porque são tão afiados
Não param de criticar
Criticam a mim
Não ao estilo
Acham que vão me expulsar
Os eruditos?
Cago e ando
Não vão me balançar
Esses merdas me levantam
Em evidência
Eu vou ficar
Pros que gostam
Falo então
Que machista
Não sou não
Meus escritos
Não, não, não.
Não sou eu
Quem sou mermão?
Minha humilde
Opinião
São retratos
Do mundão
De uma vida
Do leitor
De sua reflexão
Prosa
Ou
Verso
Ora
Pois
Não
Sou livre combinação
Sou humano
Vomitando
Minha indignação
Não encaixo no padrão
Sem nenhuma ambição
Isso aqui nada mais é
Que uma provocação

Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

segunda-feira, 8 de março de 2010

VÉSPER

“Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia. “








VÉSPER


não há nada sob esse céu
nenhuma estrela presente
nada me pressente
só Vésper alheia me paquera

há um teto sob meus olhos
é azul cáustico
escuro e brilhante
estranho

ah, gostaria de vê-la
velar essa luz que insinua
o brilho de estrela nua
já quase ido
esse quase nada de luz
o lusco-fusco a traduz

só tua sombra desliza
em queda livre e fria
se desvia da noite
e busca o sol
que se quebra em cacos,
como devia

e em tantos estilhaços
onde, enfim
você se vê
mesclada à teias de lembranças
em que desfia
o fio dessa trama infinda.

efêmera e brilhante
toda beleza é o instante
todo azul a anula.




quinta-feira, 4 de março de 2010

O Inimigo

Olho no espelho
e vejo um outro alguém
a me fitar com raiva
e tento demovê-lo da idéia
de sozinho me emboscar

Apenas contra mim
talvez meu maior inimigo

quarta-feira, 3 de março de 2010

Auguste por Camille

no princípio Auguste esculpiu esse amor ao som da rebarbadora nas pedras de mármore bruto. nasciam curvas sinuosas e vultos de olhos fechados. depois só queria estraçalhar-me o ventre como um animal raivoso. pensador como era, apenas devolveu-me a antiga vida. a realidade se encarregou de matar-me aos poucos.

terça-feira, 2 de março de 2010

Exercicícies

Não fosse somente Alice
o que, além do que se disse,
ela sereia?

Fosse Alice também uma sereia
ela não seria só Alice:

seria uma sereia Alice.

E o que faria Alice nesse caso,
(o de ser menina)
além de meninices?

Faria sereialices.

Sereia só é melhor
que somente Alice?

Então melhor sereia
(aquilo)
que uma Alice a litro.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre o menino que morreu na garagem do meu prédio, meu último acidente de moto e a indesejável.


Um menino morreu esmagado pela grade do portão eletrônico do meu prédio no último domingo. Desci a pedido da síndica para apoiá-la, estava abalada com a tragédia. Os dados: moleque perdido de 7 anos entrou no lugar errado.  Perambulei entre policiais e curiosos, vi o corpo, aparentava uns 8 anos, grandão, descalço com pés imundos.
- corre, vem ver, gente, tiraram o lençol. – Relinchou uma senhora com criança no colo, como se chamasse as fãs prum show da banda Calypso. Voltei para casa, detesto espetacularização de tragédia.
Contei o que vi para minha mulher: menor de rua tentou roubar a garagem e se deu mal. Simples assim. Mais tarde, já à noite, vim conhecer a amplitude do meu preconceito. Na verdade, o menino tinha 4 anos, era hiperativo e tomava remédios, morava na quadra vizinha, entrou no prédio pois era igualzinho o seu próprio e, quando percebeu que estava no lugar errado, voltou e foi pego pelo portão quando, com o susto, sofreu um surto. Uma fatal e infeliz coincidência.
Analisei por dias minhas emoções para escrever este texto. O que senti durante o desenrolar da história? Nada. Ou melhor, pensei no sofrimento se acontecesse com meus familiares, mas só isso. Tive pena do menino, e tal, mas acho que já estou acostumado com violência e morte ao meu redor.  Histórias novelescas de traição, vingança e medo acontecem com meus amigos, inclusive roubos, seqüestros e assassinatos. Por que eu me surpreenderia com uma fatalidade? E, olha, vivo num chamado bairro nobre, trabalho no serviço público e tenho nível superior, sou classe A pro IBGE. O que não acontece por esse mundão afora?
Lembrei que quatro dias antes eu mesmo havia me acidentado de moto. Um emo resolveu sair do carro do pai num semáforo enquanto eu transitava ao lado, trombei contra a porta de frente, capotei e pousei quase sentado no asfalto (ainda bem que tenho os instintos do rolamento no Judô). Foi na frente do Schlob, uma da tarde, aquela confusão, Samu, polícia, Hospital de Base. O único ferimento grave foi saber que o japonês pai do emo não quer se responsabilizar pelo prejuízo.
- meu filho ficou muito triste por você não aceitar suas desculpas. – Argumentou o pilantra.
- por que eu ira apertar a mão de quem quase me matou? Sou o Gandhi, por acaso?
Naquele dia não temi a morte, só senti uma pena antecipada por meus familiares se algo tivesse ocorrido de sério. Todos morrerão, cedo ou tarde, o que importa é como se gasta o tempo da vida, sem temer novos tombos ou fatalidades coincidentes, senão já estaremos mortos sem saber. A moto foi pro mecânico, já tô com saudade do vento e da liberdade.
E o menino continuou morto. O pior, ainda sofrendo os julgamentos espúrios de gente como eu, que espera o pior das pessoas como cartão de visita e que se distancia de tudo que desconsidera como quem se afasta de uma fossa séptica. Ele era só um coitadinho que nem teve tempo de errar, no primeiro já se deu mal. Talvez crescesse como um emo que um dia abriria a porta do carro no trânsito e mataria um motoqueiro, ou talvez descobrisse a cura para a corrupção, vai saber.
A única coisa que eu sei é que um dia todos morrerão.