sexta-feira, 30 de abril de 2010

Convidada Mariana Pinto

RELÓGIO
 
Cada segundo, um instante.
Bem perto ou muito distante.
Tanto faz. Algo vago.
Estou aqui, não existo.
Permaneço, não sinto.
Há desapego, não minto.

---

NUNCA

E você me disse nunca.

Bem adequado para a minha pergunta

Resposta curta, mensagem convincente

Olho no olho, sinceridade latente.

Palavra, no entanto, um pouco vaga.

Sentido perigoso, significado passível de interpretação.

Antítese latente, pode significar sempre, como pode também pode dizer não mais.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O mundo é delas





Foi após a 5ª Guerra Mundial. Apesar de ter recebido essa denominação, o conflito não envolvera todos os países do mundo, mas apenas aqueles com poderio militar suficiente para apagar da história toda a humanidade, em todos os cantos do planeta. Isso acabou sendo alcançado, incluindo na destruição os próprios países causadores do conflito, o que possivelmente não havia sido planejado...
Enfim, as próximas cenas se passaram após esse conflito atômico que destruiu toda a humanidade e boa parte dos animais. Os únicos sobreviventes foram as baratas, que agora tinham como companhia apenas o reino vegetal.
O mundo era um rascunho do que o homem promovera nos últimos séculos. Arranha-céus, estradas, ferrovias, maquinários, tudo isso ainda existia, mas iam aos poucos sendo absorvidos pela natureza ao redor, que dia após dia avançava a vegetação para as cidades. Em algumas só se via agora o verde, interrompido em pontos isolados por um ou outro prédio mais elevado, ainda não alcançado pelas árvores.
Aeronaves, caminhões e veículos há anos estacionados em pátios ou ruas viravam verdadeiros fósseis de aço.
Os velhos depósitos de lixo desapareciam à medida que o tempo tratava de absorver no solo o antigo esgoto da humanidade, ou seja, plástico, latas, pneus velhos, eletrodomésticos quebrados e papel, muito papel. Os restos de alimentos já há muito tempo não existia, boa parte deles consumidos pelas próprias baratas.
O lixo acumulado no fundo dos rios aos poucos desaparecia e a erosão em suas margens também sofria o processo inverso.
No céu das antigas cidades não se via mais o cinza, mas o verdadeiro e límpido azul celeste.
Foi então que duas velhas baratas, andando por aqueles verdejantes caminhos, rememoraram os anos passados que o tempo não traria mais. Passaram ao largo de um córrego de água límpida, que ao tempo delas praticamente secara por causa do excesso de lixo em seu curso; depois seguiram por uma trilha na mata, onde naquele tempo havia um beco com um filete de esgoto a céu aberto que o acompanhava. Por fim, chegaram em um antigo lixão praticamente coberto de arbustos e flores, lugar onde antes se acumulara toneladas de entulho e onde hoje abrigava apenas uma ou outra latinha de alumínio que não teria vida longa. O parque dos sonhos da infância das duas não era mais o mesmo...
O mundo já abrigava a 265ª geração de baratinhas pós-conflito mundial, geração esta que não chegara a conviver com o ser humano, visto entre muitas de maneira quase que lendária, sem comprovação científica, algo como a Atlântida ou extraterrestres. É certo que só se passara alguns meses da grande destruição, mas lembremos que o ciclo de vida desses insetos é diferente dos humanos e uma barata, ao contrário dos humanos, pode ser tataravó em algumas semanas...
Enfim, o relato de histórias protagonizadas com os homens era visto por algumas das mais jovens como caduquice das baratas mais idosas. Era o velho conflito de gerações...
Mas as duas companheiras anciãs, de fato, já conviveram com o homem e conheceram o mundo quando os humanos dele faziam parte. E uma delas, ao contemplar aquele ambiente desolador cheio de verde e sem lixo, com gravetos e brotos de plantas a atravessar-lhes o caminho (em vez das latinhas com restos de cerveja ou comida), com lágrimas nos olhos, finalmente exclamou nostálgica e comovida para a outra:
— Puxa vida, que saudade dos humanos!

sábado, 24 de abril de 2010

Beba-se

Beba-se
n’água ardente
da minha boca

sua língua louca
bebeu conivente

com meu vício
de provocar [acidente]

foi um beijo que virou sina
e até mesmo suspeito

que causou [aquele] efeito
de tirar segundos de vida


Autora:Lena Casas Novas

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sucessão

Entristeceu-se profundamente com a notícia da morte do avô. Era a primeira vez que teria que lidar com a morte de alguém - que nem era tão próximo, mas que era muito querido. Já haviam falecido outros parentes mais distantes e amigos da família, mas, apesar da insistência dos telejornais, a mãe tentava mantê-lo afastado do tema delicado - ao menos até aquela cinzenta manhã de chuva fina.

Após vestir a melhor roupa de domingo e, por cima dela, o casaco vermelho de gorrinho, entrou no carro calado e seguiu cabisbaixo durante as duas horas de estrada. Por vontade própria não falaria uma palavra, mas respondia monossilabicamente as perguntas da mãe, que tentava consolá-lo.

Ao chegarem à capela da pequena cidade, muitos dos parentes já estavam por lá. Também já estavam presentes no velório muitos dos amigos do seu Alfredo: o pessoal da bocha, a turma dos bingos e dos jantares dançantes (as pessoas eram as mesmas, só trocavam os dias, com bingo na quinta e baile no sábado) e, por fim, os que jogavam truco e dominó na praça (essas turmas eram diferentes e, inclusive, como dizia o seu Alfredo, que costumava apaziguar os ânimos, disputavam as mesinhas a unhas e dentaduras).

Quando pararam o carro e o garoto desceu, os amigos do seu Alfredo, compadecidos com a presença da criança, viraram-se para ele com os olhares bondosos de quem cuida. Observando a cena, o garoto lembrou-se do ano anterior, quando havia morrido o cãozinho que ele tinha desde quando nem se lembrava. Recordou-se que, no dia seguinte ao do atropelamento, a mãe o levou à loja de animais. Naquele momento, percebendo-se em meio a dezenas de opções, respirou fundo e sorriu, reconfortado.








Neste sábado, dia 24 de abril, ocorrerá o lançamento do
Vem cá que eu te conto em Curitiba.

O evento será realizado no Quintana Café
Av. do Batel, 1440, das 16:30 às 20:00



Mais informações, acesse: http://vemcaqueeuteconto.wordpress.com

quarta-feira, 21 de abril de 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

Amanhã, ezine BRASÍLIA por Nicolas Behr

Amanhã, 21/04/2010, no aniversário de 50 anos de Brasília, a capital do Brasil, o ezine BAR DO ESCRITOR tem a honra de receber como editor o poeta Nicolas Behr, numa publicação dedicada à literatura relacionada à cidade.
Confiram em
www.bardoescritor.net

segunda-feira, 19 de abril de 2010

As fatias e o todo.

As fatias e o todo.


Embora eu tenha medo é na solidão que reconstruo-me,

é no silêncio profundo do mar que infiltro sonhos

e de lá só volto à tona quando estou leve das falhas.


Tudo o que aprendo são motivos para inteirar-me

no mundo dos homens de dores e crescimento.

Nunca vou ou volto antes do tempo. O outono concilia-me.


As sombras no prisma luz são crianças,

escadas desejosas de serem encontradas,

pisadas, desvendadas ao gosto único.


Nada abala-me em meu lar de reais fantasias

onde danço e canto sem olhares definhadores.

Olho-me e basta a aprovação da alma.


Coleciono silêncios, retalhos e asas.

São as cores a fonte dos meus passos

e os íngremes caminhos a certeza do melhor.


Ninguém tira-me da pele o viço

ou acorrenta meus pés ao desfiladeiro,

se caio permito-me o levantar. Há outras primaveras à espera.


Entre apelo e escolha eu nado e afundo...

Dentro de mim existe a força que contagia o fora,

embora eu tenha medo, eu existo, procuro-me,


banho-me de encontro e transpiro

não a que incentivam, mas a que resiste

e faz da construção a base da que sou: uma mulher feliz.


Eliane Alcântara.

sábado, 17 de abril de 2010

Segundo voo da mariposa








Não era fabulosa,
a mariposa que pousou na perna da minha calça
na hora da aula.

Apesar de ter as asas
para habitar em tudo,
pelas quais Ícaro teria dado mais vida
se mais vida tivesse.

Asas de cera,
dissera,
para o Sol e para mais nada.

Penso às vezes
que a sua essência
era uma mariposa
- Uma mariposa-cinza-cigana de asa quebrada



(Jessiely Soares)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sobre amores e cajus


Sabia amor que um cajueiro demora até cinco anos para dar frutos?
Eu esperei. Não que tenha esperado com afinco. Eu joguei a semente na terra e reguei por muito tempo aguardando um sinal, mas eu não conseguia observar as raízes se espreguiçando na terra.
Meu cajueiro tornou-se uma lembrança cada vez mais distante. Raramente eu olhava o frágil caule quase desfolhado . Confesso que sempre confiei na chuva.
Existem outras árvores na vida, meu amor! E quando eu sentia tédio eu esparramava sementes pra me distrair.
Nem tudo vingou no meu pomar. Algumas deram poucos frutos que logo apodreciam e não era viável investir tempo e amor em cultivá-las. Outras, apesar dos bons frutos, morrem cedo. E a gente chora feito Zezé lastimando seu pé de laranja lima.
E de caju em caju eu lembrava do meu cajueiro. E foi um dia triste quando constatei que não sabia mais onde eu havia deixado as raízes dele. E por mais que eu percorresse meu quintal eu não conseguia lembrar e nem encontrar vestígios. Eu não conhecia um pé de caju.
Eu esperava os julhos com esperança em ver algum esboço de castanhas. Mas não havia.
Nem todos os cajueiros são iguais. Do meu cajueiro muitos querem saber. Eu conto apenas pra quem possa acreditar que um cajueiro pode frutificar depois de vinte anos, no outono e inexplicavelmente na minha cama.

domingo, 11 de abril de 2010

Meu Passeio Com a Milla Jovovich

Na semana passada assisti o filme Ultravioleta com a Milla Jovovich, ela estava linda como era de se esperar, daí depois ao dormir sonhei que eu saía do hospital estadual onde faço estágio na emergência com acadêmico de Enfermagem. Daí veio um Porshe prateado muito bonito que sem dúvidas valia uma nota preta, quando me aproximei do carro para contemplá-lo o vidro fumê abaixou e quem estava lá dirigindo solitária? Ela mesma: Milla Jovovich!

- Cara... isso é mentira! Essa mulher não vai me dar mole...- pensei logo.

Milla abaixou o teto do carro, pois o Porshe era conversível e me perguntou se eu estava livre do estágio do hospital, eu disse que acabei tudo e estava pronto para sair. Ela usava um óculos escuro de armação prateada, eu não acreditava, ela falava português fluente com sotaque eslavo, que charme!

- Sobe aqui lindinho que te levo para um passeio. Esqueça o ponto de ônibus hoje, temos muito a fazer juntos - disse Milla com um português com forte sotaque ucraniano, ao mesmo tempo era incomum e sensual ouvir aquela voz delicada e exótica.

Nem pensei em nada, fiquei levemente perdido, entrei logo no carro. Senti a brisa no rosto e o conforto de um carro de luxo europeu.

- Pisa fundo Milla! - eu estava animado. Milla acelereou dentro dos limites permitidos.

Rodamos por Niterói, eu no Porshe prata com aquela mulher linda ao meu lado, aproveitei para esnobar, pois não é todo dia que recebo uma carona de uma mulher desse nível.

Pensei no sonho que trepar com mulher feia agora seria coisa do passado, agora só teria a Milla na jogada. Passei em frente à minha faculdade, olhei para aqueles playboys toscos com suas patricinhas sem cérebro, foi aí que um playboy otário. Empinei a cara enquanto o vento batia em meus longos cabelos, eu me sentia o máximo.

- Aí Obscuro, tá só na carona... Ah... vai "arroz". Só acompanha! - disse um playboy escroto que detesto.

Fiquei puto, odeio babaquice comigo quando estou com mulher ao lado. Estávamos perto da pizzaria, Milla olhou para ele com nojo, e mesmo a cara de zangada dela é um espetáculo.

- Ninguém fala assim com você na minha frente! - Milla falou com tanta firmeza, fiquei impressionado.

Vi aqueles lindos olhos por detrás do óculos, que bela visão... que sensualidade, coisa de louco!

Milla estacionou o carro, saiu e deu a volta, eu saí também e íamos até a pizzaria, o playboy babaca ficou afastado a nos observar, então entramos. Milla disse que pegaria a pizza e refrigerantes para a gente. Eu fiquei ali fora encostado no carrão, já havia tirado meu jaleco. Então o playboy tentou se aproximar e jogou umas cantadas toscas nela. Milla já estava com raiva, tentei chegar junto para tirar satisfações com o babaca, mas antes ela foi mais rápida e enquanto segurava a caixa de pizza com as duas latas de refrigerante a minha musa deu um chute no saco do paspalho. Ela veio até o carro, peguei a caixa de pizza e entramos no carro maravilhoso dela.

- Não vai esnobar mais um pouquinho? - Milla sorriu maliciosamente, mordeu seus próprios lábios e entendi que ela queria um beijo. Beijei-a suavemente segurando a caixa de pizza, ela segurava os refrigerantes. O povo fútil da faculdade ficou impressionado. O Obscuro agora beijava a Milla Jovovich... isso merecia matéria no jornal acadêmico. Não é todo dia que um cara desconhecido fica com uma atriz, ex-modelo, estilista, cantora e musa dos marmanjos e nerds.

Entrei no carro, fiz “piru” para um bando de babacas, aí ela me puxou e meu deu um beijo mais intenso, seguiu com o carro e logo estávamos dando a volta para seguir rumo ao MAC (Museu de Arte Contemporânea) em Niterói, era de tarde, saímos do carro, conversamos, comemos e bebemos por lá. Um baita clima de romance, eu pensava que tinha ganho na loteria, o melhor é que ela falava português e conversava como uma mulher bem inteligente. Que tesão, então namoramos muito observando a paisagem enquanto vinha o pôr do sol, ela sorria e ficávamos abraçados, eu me senti “o cara”.

- Vem comigo... tive uma idéia louca – eu disse a ela com bastante malícia enquanto a beijei no pescoço. Ela entendeu que o clima esquentou entre nós.

Descemos até a escada do bistrô do MAC, nos beijamos e começamos a nos acariciar. Era quarta-feira e tudo estava bem deserto, ela estava com um vestido roxo bonito e elegante com um decote discreto e seus joelhos à mostra, tinha botas roxas curtas de bico redondo e salto médio. Tudo parecia tão real... meus sentidos me enganavam nesse sonho, meus instintos estavam intensos enquanto o desejo onírico me tomava firme com aquela sedução fascinante. Tivemos beijos, mordidas, toques, arranhões e amassos intensos colados a uma parede enquanto a brisa batia em nossos corpos. Sua pele clara já estava vermelha após tantos apertos, então o segurança nos viu.

- Tá certo que a mulher é bonita e gostosa, mas tem motel aqui em Niterói. Fora daqui sortudo! - o segurança ria e sacudia a cabeça, Milla botou a língua para fora em careta e sorriu. Virou-se comigo segurando sua cintura, fiz uma cara de "deixa que eu cuido disso" para o segurança e fui embora.

Voltamos na direção do carro, tiramos fotos pelo pátio do museu, nos comportamos como bons cidadãos quietos e discretos, mas nossos rostos falavam o inverso. Seguimos de mãos dadas só namorando e contando histórias engraçadas. O mais cômico é que ela me conhecia pela internet. Tá certo que já saí com mulheres da internet e não foram poucas, mas nunca dei sorte tão grande na vida real como nesse sonho.

- Tá afim de uma loucura só nossa? - Milla propoz uma safadeza, dando estalinhos na minha boca, então eu fiquei pensativo.

- Diz o que é... Eu decido se vamos ou não – eu não ia dar tanto mole assim de cara.

- Pára de se fazer de difícil! Meninos maus como você apanham mais, sabia? - Milla tirou os óculos e os colocou na bolsinha prateada com que andava. Ela apontava um dedo para minha boca e fingi que ia mordê-lo. Ela sorria de boca fechada e passava a língua pelos lábios... maliciosa e pensativa.

- O que você propõe minha querida? - eu agora estava curioso, adoraria negociar uma diversão a dois.

- Vamos logo para um motel ótimo que conheço... até telefonei para lá, eles estão com muitas vagas hoje – Milla mordeu os lábios e passou a língua entre eles, ainda mais maliciosa que antes. Pensei que aquela noite prometeria surpresas e prazeres incríveis.

Voltamos para o carro, ela fechou o conversível e começamos a nos divertir, no carro mesmo. Milla beijava meu pescoço e bem de leve começava a me morder, retribuí a carícia e comecei a alisar suas coxas. Então ela batia nas minhas mãos dizendo que eu era um menino mau e não merecia tal intimidade. Novamente minhas mãos a alisaram, nos beijávamos, um pouco lentamente e depois ficávamos mais frenéticos, eu alisei suas costas e sentia um zíper ao meio, abaixei devagarinho e senti seu sutiã e toquei sua pele aquecendo ao meu toque, era suave e macia tão lisa e gostosa ao toque que é difícil definir, o perfume dela era o Hypnotic Poison da grife Christian Dior para o qual ela fez propaganda do mesmo, como adoro esse perfume! Com classe e cuidado eu abri com uma só mão a junção de seu sutiã e com a outra mão alisava seus cabelos carinhosamente, o soutien caiu por dentro da roupa.

- Safado! Ainda não vamos fazer aqui...guarde o doce pra festa! – disse ela com a voz ofegante e com uma falsa seriedade.

- Eu garanto que o doce não vai derreter aqui no carro, aqui é só a "entrada". O "prato principal" é no motel – eu ria com a situação e ela fingia que não queria que eu visse seus seios, mas eu os vi, ela me provocava e em poucos minutos vi seus mamilos rosadinhos e aquela pele branquíssima me deixava louco de desejo. Fiquei muito louco com aqueles seios, mas me contive, eu estava eretíssimo, com muito desejo mesmo, mas me segurei e isso aumentava minha tensão e tesão.

- Agora que viu pode brincar com carinho, brinque com meus seios – disse a musa branca ao deixar as alças do vestido caírem, deixando os seios nus. Não me contive e comecei um série de carícias com as mãos e boca nos seios dela, então ela abriu minha camisa com ferocidade e chupou e mordeu meus mamilos ávida por me provocar desejo. Eu acariciava aqueles cabelos macios suavemente e aquele pescoço pequeno e delicado estava com os pêlos da nuca arrepiados enquanto ela me chupava no peito, ela estava com o corpo quente e gemia forte durante a brincadeira, até me mordia só para me ouvir gemer baixinho.

Fomos para o banco de trás e nos acariciamos muito, estávamos excitados, mas não queríamos transar no carro, ainda não era o momento. Ela estava sentada no meu colo de frente para mim rebolando sobre minha calça e arranhava minha barriga, então eu lhe dei uns tapas na bunda, ela ria com a maior cara de sem-vergonha, chegou a me lembrar as mulheres criadas por Nelson Rodrigues, grande escritor e cronista. Mandei a Milla para o banco da frente, ela foi uma boa menina e obedeceu-me fazendo um biquinho de triste, puro teatrinho dela. Adorei!

- Dessa vez eu dirijo e por favor, não faça gracinhas senão a gente bate e aí vai ser um problema sério para nosso encontro – eu a desejava demais e me continha, estávamos com as roupas amarrotadas e quase suados se não fosse o ar condicionado potente do carro dela.

Dirigi e segui até o motel, estacionamos lá dentro. Saímos do carro, passei no balcão e ela falou com o balconista sobre reservas, então pegamos um bom quarto. Paguei o balconista uma pernoite em espécie e subimos. Nos corredores não tinha ninguém, estávamos tão excitados... Milla me atirava contra a parede com tesão e fúria e me beijava frenética até rosnando, me mordeu os lábios duas vezes e quase sangrei. Fiquei mais agressivo e também passei a correr atrás dela pelo corredor com cuidado para não fazer barulho. Ela corria muito e como era bem cautelosa não incomodava os outros quartos. O corredor era enorme, mas ela sempre se fingia de lerda só para que eu a puxasse com força pelos braços ou pela cintura. Ficamos brincando assim por uns tempos, mas ela sempre dava um mole para levar uns puxões de cabelo e tapas na bunda sem exagero, que brincadeira gostosa!
Quando Milla estava perto eu a beijava no pescoço e ela ria, tentava fugir risonha e fingia não querer nada, mas era tudo um jogo e ela era boa em brincar.

Entramos no quarto finalmente, 4º andar, quarto 404. Entramos e fomos logo tirando a roupa, então entramos na banheira juntos completamente nus. No sonho ela não tinha seus 1,73 m, Milla era pequena do jeito que gosto, devia ter cerca de 1,60 m enquanto eu tinha meus 182 centímetros de altura que marcavam uma certa grandeza física que a excitava. Nos banhamos ainda excitados, mas sem transar, foi nesse momento que nos banhamos e deixamos a banheira encher para então desfrutar da mesma.

- Gosto de jogos de sedução, Ursão. Foi ótimo escolher a pernoite, pois 4 horas de estadia nesse motel não são suficientes para saciar nossos desejos – ela ria sarcasticamente e me olhava agora levemente tímida, mas era tudo brincadeira, ela sabia o que queria e não recuaria.

Nos beijamos na banheira, fizemos massagens, nos tocamos e as coisas se intensificavam, retomávamos o ritmo das brincadeiras do corredor. Mas que desagradável... aqui no meu mundo real meu celular tocou de manhã para me acordar. Levantei da cama com uma cara de raiva, então minha mãe abriu a porta e me encontrou só de bermuda com um grande volume e perguntou.

- Obscuro, como você explica essa cara de raiva e essa ereção? - minha mãe foi incisiva e perguntou o que não devia.

- Dessa vez começo pelo fim: a causa da ereção é a Milla Jovovich, que você vai dizer que nunca ouviu falar nela. Já a minha cara de zangado é idêntica a careta que você fez quando interrompi seu sonho erótico com o Richard Gere. Estamos quites! - respondi rispidamente.

Lá se foi meu sonho erótico, nem deu para completar o sonho. Tive um dia tedioso na faculdade, encontrei aquele mesmo payboy babaca da faculdade com aquelas piadas sem graça, passei naquela pizzaria e apenas olhei as pizzas na vitrine pois estava somente com a grana da passagem. Não tive nenhuma conversa interessante em nenhum local pelo qual passei durante o dia, ao chegar em casa ninguém interessante apareceu no orkut e MSN, só notei gente sem assunto que me adicionou por alguma razão. Mesmo tendo um dia ferrado tive um bom sonho interrompido, então será dificil esquecer esse meu passeio com a Milla Jovovich.


- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2008.

Foto: Milla Jojovich em campanha publicitária para o perfume "Hypnotic Poison" por Christian Dior.

sábado, 10 de abril de 2010

Convidado Ryoki Inoue

O SEBO 

Pouco maior que uma quitanda e quase tão sujo quanto uma peixaria malcuidada, este estabelecimento comercial não deixa de ter seu encantamento, sua poesia.
Todo o mobiliário se resume a uma escrivaninha em que o proprietário faz suas anotações, duas cadeiras ordinárias e montanhas de livros espalhadas pelo meio da loja, empilhadas pelos cantos, que sobem pelas paredes formando uma decoração caótica e complicada. Em todos os montes são desrespeitados os princípios mais elementares do equilíbrio e vê-se claramente que não há a menor preocupação com a estética. Aliás, não é mesmo possível adotar qualquer ordem de arrumação, pois os volumes, cada um diferente do outro em tamanho, cor e forma, não permitem tal luxo.
E há um certo aroma no ar! Sim, pois assim como uma quitanda ou uma peixaria tem seus cheiros característicos, esta loja também tem o seu: é um cheiro de mofo, de poeira misturada com nicotina e papel velho. Pode ser que seja o inferno para os asmáticos, mas conheço muitas pessoas que adoram essa mescla de estranhos perfumes... Entre elas há até as que dizem que esse é o cheiro da verdadeira intelectualidade.
Estamos num sebo, numa loja de livros usados, de segunda ou mesmo de enésima mão.
Já pela simples disposição das mercadorias, vemos que é absolutamente impraticável toda e qualquer operação de limpeza.
Faxina, então, nem pensar! Imaginem ter de levar tudo aquilo parra algum lugar para se poder passar um pano no chão! Varrer, apenas varrer, já é uma tarefa complicada e arriscada, pois seria muito fácil misturar com o lixo diversos opúsculos e livretos que jazem pelo assoalho em completa intimidade com pontas de cigarro, papéis de bala, palitos de fósforos queimados e muitas outras coisas ainda bem menos nobres e poéticas. Isso, é claro, sem falar do perigo de se esbarrar numa avultada pilha de enciclopédias, mal equilibrada sobre um dicionário, e causar um monumental desastre... Há até o risco de morte. A morte sob o peso do conhecimento!
Encontrar, especificamente, uma obra ali? Tarefa totalmente impossível. Nessa loja, compra-se aquilo que o acaso faz cair nas mãos. Lobato está ao lado de Eça que, por suas vez, está por cima de Montaigne, que, inexplicavelmente, está apoiado em Rousseau — que se encontra frente a frente com Byron. O positivismo se avizinha do tomismo e Kant se deixa montar por Sartre e por Baudelaire. James Joyce disputa um instável lugar com Hemingway, enquanto Jorge Amado e Simone de Beauviur empurram Thomas Mann para uma posição perigosa.
Sorrindo, vemos que inimigos mortais em vida se encontram agora lado a lado, deitados juntos, placidamente instalados. Talvez em seus túmulos, eles estejam remexendo, cheios de revolta...


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Ryouki Inoue é considerado pelo livro Guinness o escritor mais profílico do mundo, com mais de 999 obras publicadas.

Zoo, ou Sobre a Violenta Respiração Noturna

Imagem: http://www.thebeckoning.com/poetry/rilke/rilke1.html

Estar preso ao invisível
sendo a cegueira a prisão:
o macaco sabe o vidro,
a pantera, não.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

AGORA A CULPA É DO POVO


AGORA A CULPA É DO POVO
tragédia fluvial no Rio

Adoro a classe média
Pra não dizer ao contrário
Filhos de uma puta sem mãe
Bando de abastados reacionários
Depois da tragédia fluvial no Rio
Mortos já passam de cento e cinquenta
Sem falar em Nikiti
Por lá, muitos outros mortos.
Agora a pérola:
- A culpa é do povo que joga lixo na rua.
Só faltava essa
Tenho de escutar cada merda
Morte aos filhos do dinheiro
Eles não ligam pra morte dos fodidos
Eu cago e ando pra deles
Depois
Quando cair um avião
Vão ficar cobrando minhas lágrimas
Claro!
Quem pega avião?
Tô muito puto
Vou chorar pelos pés rapados
E digo mais
O próximo avião cheio de burgos que cair
Eu vou comemorar
Porque quando morre proletariado
Foda-se
Enquanto isso
A burguesia assiste a tudo em lençóis de seda
Não satisfeita, ainda caga regra.
Falam:
- Quem mandou o povo ser mal educado?
Eu respondo:
- Foi o governo.
Não venham me falar:
- A culpa é do pobre favelado.
Vou mandar o próximo tomar no olho do seu cu largo
Tô torcendo pra um avião cair
Logo
E de preferência, que morram todos na primeira classe.
Agora o meu leitor
Classe média clássico
Tá chocadinho
Pensando:
- Esse Treuffar é um monstro!
Monstro é caralho!
Quem vocês pensam que são?
Bando de xeetas!
Cadê o saneamento básico?
Cadê a urbanização das favelas?
Cadê a porra da lata de lixo?
Cadê?
Há séculos somos roubados por políticos corruptos e irresponsáveis
Enchendo o cu de dinheiro
E agora a culpa é do povo
Hoje eu vou matar um burguesinho
A classe média continua decepcionante

Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quinta-feira, 8 de abril de 2010

sonhei contigo ontem

                

Sonhei contigo ontem. Não mando em meus sonhos, eles são meio rebeldes e invariavelmente me levam a você. Sonhei com teu beijo inexistente que me deixou um vago sabor de morango na boca. Acordei com saudades de te ver, do teu sorriso, das longas conversas sobre nada.

                Sonhei com carícias longas, daquelas que duram horas, sonhei com tua boca que promete tantas coisas e cumpre tão poucas. Acordei assim, inquieto.

                Hoje, nesse momento, se eu pudesse... Mesmo sabendo de todas as impossibilidades eu queria te ver, ignorar tuas meias-verdades, deixar de lado as palavras eficientes e vazias, e passar uma tarde à toa, deslizando minha língua devagar pela tua pele, conversando sobre coisas importantes e sobre o nada, rir e ter você em doses alternadas. Era o que gostaria hoje, mas as impossibilidades dançam à minha volta e você está distante de muitas formas.

                Pensei em várias coisas para dizer, em maneiras de me despedir do que nem chegou a começar, e achei que, escritas, as palavras seriam mais fáceis de ser ditas, mas não são, e o pior é que elas não podem ser enviadas com um olhar anexo, um sorriso, um afago. Se eu disser algo errado elas não voltam.

                Mesmo assim vamos tentar.

                Sem te ver fica mais simples. Ainda ontem, quando te vi, minha única intenção era dizer essas coisas, aceitar o desejo como fato e depois partir, mas tua boca me deu outras idéias. Gosto dela, do teu sorriso, e terminamos do jeito de sempre.

                Você obedeceu admiravelmente ao meu pedido de que se afastasse, mas fazendo isso parece ter ficado mais forte e eu mais fraco.

                Inferno!

                Era para ser uma carta de adeus, e eu aqui divagando.

                Como pode ver, sou complicado e confuso. Escolho sua versão de sonho quando quero o real em minhas tardes, ao menos em uma delas.

                Você conhece mais de mim do que eu gostaria de admitir, embora seja burra demais para entender o que lê. Tudo bem. Não importa mais. Vou enviar antes que desista.

                Ah! Mesmo que não perceba, em anexo vai um sorriso bobo, um afago e um beijo rápido.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Coloquiais Ponderações Catártico-Genitais ou A Dialética da Vulva




Subitamente, de repente e sem aviso prévio, minha vagina desembestou a falar. O fato, por mais curioso, inusitado e estapafúrdio, deu-se. Ainda que inacreditem, questionem ou recalcitrem, deu-se. Deus, se incendiário não fosse, materializar-se-ia, cheio de pompa e circunstância, em rubra lâmpada incandescente e, prosopopeicamente, corroboraria minha história. Mas fatos são fatos e jamais deixarão de sê-los, não obstante controvérsias e contradições. Numa noite fria de sábado, no interior de um motel tradicional, sobre um leito redondo tradicional, um colchão redondo tradicional, forrado com alvo e tradicional lençol, debaixo de um espelho um tanto baço mas não por isso menos tradicional, tendo como testemunhas oculares, vaginais, anais, orais, notada e dotadamente penianas, Mandingo, Rocco Sifredi, Katja Kassin e a mulher-tigre de pele morena, imóvel e emparedada, cujo olhar felino e selvagem penetrava perscrutadoramente até a mais gélida alma dos copos baratos de vidro vagabundo e transparência perdida, ocasionando calafrios nas garrafas de cerveja transpirantes, minha semi-depilada vulva tagarelou sem pudor e sem papas, mesmo porque papas e bocetas, desde que o clero é clero, não combinam. O efeito foi devastador, uma excitação invertida. Deu-se que, falante, minha vagina não se deu nem se comeu. Explico. Artur, há dias e dias e outros tantos dias, papeava-me - no meio moderno - ou cortejava-me - no todo arcaico - arremessando, ora plácido, ora impetuoso, todo seu auto e árduo charme cafajeresco. Cavaleiro real, cavaleiro medieval, cavaleiro templário, jamais cavaleiro com agá a mais, muitas ocasiões cavaleiro sem eiro nem beiro, só ó sem acento e provido de ferraduras, duras ferraduras que machucavam, deliciosamente. Ora alazão, ora pangaré, chucro, sempre. Eu, cá em minha sagacidade feminina - pois todas as fêmeas, mesmo as auto-renegadas, possuem essa qualidade - adocicadamente recusava-lho sem recusar-lho, permitindo furtivas olhadelas, alvissareiros vislumbres de paraísos terrenos e gozos celestiais. Ele, por sua vez, qual lobo cuja voracidade não se aplaca com qualquer torresmo de porquinho-da-índia estragado, investia, arremetia e de novo investia, acrescendo ímpeto. Por fim, considerei oportuno o momento e, sem resistência - estava louca pra dar pra ele - deixei-me conduzir ao quadrado espelhado dos prazeres da carne. Estirei-me, escancaradamente nua, com as pernas descaradamente abertas, desabrochei-me perfumada e lúbrica, convite róseo e úmido, inescusável. Artur, todo suor e saliva, mal dissimulando seu atabalhoado ardor, chegou-se. Cerrou os olhos visando melhores aspirações, como o sommelier prestes a provar o vinho nobre e raro ou - cinzas, saco, silício, autofustigamento! - o devoto apostólico antes de bebericar "la sangre de Jesucristo". Lá do alto, meu cérebro pedia: "Lambe!", os mamilos túmidos de meus seios bombados imploravam: "Lambe!", meus lábios rubros e retorcidos suplicavam: "Lambe!". Artur expeliu um, dois, três palmos de uma língua muito vermelha, convulsa, frenética - soube depois, explico já - cuja afilada ponta aproximava-se vibrante de meu clitóris latejante. Foi quando minha encharcada vagina gritou: "Lambe, porra!!!" Uma voz rouca, quase gutural, que reverberou pelos seis lados do cubo, fazendo Artur dar um salto, uma pirueta desengonçada, um ornamental tosco, um mortal - gracias, Madre de Dios! - sem morte. Ele mirou de frente, de lados, detrás, olhares oblíquos, retos, diagonais, parabólicos, hiperbólicos, vasculhou cômodos com minúcias, sempre a interrogar aquele que julgava ser o emissor da ordem desobedecida: "Quem está aí? Apareça!" Eu, sem nada entender, sem nada atinar quanto à origem da voz de trovão, sentia os calores de minha recém-olvidada boceta esvaírem-se, pouco a pouco, de quente úmida, passando por tépida menos úmida, atingindo o nível fria quase seca. Quando as descargas elétricas provocadas pela nervosa tensão já se podiam divisar, eis que irrompe, mais uma vez, a tonitruante, desconcertante, brochante voz: "Tá procurando o quê, gostosão? Para com isso e vem cá continuar o que você não começou! Viemos aqui pra foder ou pra brincar de pique-esconde? Vem esconder essa pica aqui dentro de mim, vem!" Surpresa, estupefação, aturdimento, eu percebi, ele percebeu, não havia dúvidas, minha vulva falava, tagarelava com despudor, e, o que é pior, completamente desbocada e com farto uso de palavrões. Nervosa, fechei as pernas, ouvi grunhidos abafados, reabrí. Artur, olhos esgazeados e fixos em minha cona, aproximou-se, lentamente. Estacou ante nova abordagem. Era o início do colóquio.
- Tá, já sei, estraguei tudo, a foda já era... Bonitão, diz uma coisa, se eu ficar quieta, não soltar nem mais um pio, virar uma boceta-túmulo, você me fode? Ou pelo menos me lambe? Se você soubesse quantas vezes fiquei molhada por sua causa... Essa aí em cima tava louca pra dar pra você faz tempo... E aí, o que diz?
- Ma-mais... Como pode? I-isso é algum truque? - olhos na vulva, olhos nos olhos - Você é ventríloqua?
- Estou tão surpresa quanto você. - retruquei.
- Já ouviram falar em animismo, panteísmo, orfismo, pitagorismo, empedoclismo, platonismo, reencarnação, transmigração das almas, metempsicose? Outra coisa, podem, por favor, desligar a tevê? Esse papo e esse "fuck me" renitente não combinam.
Desligamos a televisão mas nada dissemos. Diante de nosso mutismo, ela assumiu um tom grave e didático. Prosseguiu:
- Segundo as teorias citadas, existe a possibilidade de a alma humana encarnar em outros animais e vegetais. É mais ou menos meu caso. Mais ou menos porque, apesar de não haver encarnado em animal irracional ou em vegetal, voltar à existência numa boceta, definitivamente, não se adequa ao conceito clássico de reencarnação, ainda que vaginas sejam feitas de carne. Concordam comigo?
Continuamos mudos. O reflexo da minha boceta no espelho, o movimento de seus grandes lábios - acho que nunca esse nome foi tão apropriado - enquanto argumentava, causavam-me uma espécie de deslumbramento. Não era uma boceta falante qualquer, era a minha boceta! E, além do mais, lúcida, razoável, inteligente, loquaz, malgrado o emprego constante de palavras obscenas. Mas, o que se poderia esperar de uma boceta falante? Polidez?
- Vocês não têm língua? Bom... pensando bem, eu não tenho e estou falando pelos cotovelos, digo, pelos grandes lábios. Ah! Deixa pra lá... Respondam-me, ao menos: querem ouvir as historias de minhas vidas?
Entreolhamos-nos, Artur e eu, mais uma vez. Meneei a cabeça, em sinal de aquiescência.
- Ótimo. Antes de começar, permitam-me que me apresente... Fui batizado Tomás de Torquemada e nasci no ano...
- O quê? - interrompi - Tomás de Torquemada, o cruel inquisidor espanhol? Não! Não pode ser!
- Não sou cruel! Não sou e não fui! Apenas cumpri meu dever, imbuído do poder que me foi conferido pelo Sumo Pontífice, o representante de Deus na Terra, que me nomeou inquisidor-geral e me dotou de autoridade para perseguir, capturar, julgar e condenar à Santa Fogueira, judeus levianos e muçulmanos dissimulados, todos hereges, feiticeiros, bígamos, sodomitas, apóstatas. À frente da Inquisitio Haereticæ Pravitatis Sanctum Officium, zelei por expurgar o mundo dessa raça maldita, extirpar os pecadores marranos da face da Terra, promover a purificação por meio do fogo, de modo que prevalecesse "la sangre limpia", os verdadeiros cristãos. Sou Tomás de Torquemada, o martelo dos hereges, a luz de Espanha, o salvador do meu país!
- Assassino! - gritei. Não podia ser verdade, era surreal demais, uma tremenda sacanagem, uma putaria do destino. Estava simplesmente apavorada, afinal, saber que minha linda, cheirosa, levemente testuda, apetitosa - palavra de quem provou - bocetinha era a reencarnação do mais atroz inquisidor que já passara pelo Santo Ofício não é uma informação fácil de assimilar. Bom, ao menos isso explicava o que anos de terapia não revelaram: meu incontrolável tesão diante de cenas de tortura com uso de fogo. Nunca vou esquecer o filme "O Nome da Rosa", não pelo elenco, roteiro, fotografia e tudo mais, que são ótimos, mas porque este filme me proporcionou um dos melhores, talvez o melhor orgasmo de minha vida, e, também, porque quase enlouqueci de vez... Mas e as outras coisas estranhas que me excit...
- Ah, você acha isso? Espere até saber quem foi minha encarnação seguinte...
- Meu Deus, ainda tem mais?... Não tenho estrutura pra novas surpresas estranhas... Nem pra revelações bombásticas... Vamos fazer o seguinte: amanhã você me conta, ok?
- Seria tarde demais. Ainda que talvez não compartilhem de minha opinião, lamento dizer que amanhã nada mais direi. Tive de usar todo meu poder de argumentação, tendo em vista a inutilidade de meu irresistível carisma, quando no Limbo estava, para convencer Aquele-Que-Tudo-Sabe-Tudo-Pode-E-Está-Em-Todo-Lugar-Ao-Mesmo-Tempo no sentido de fazer essa pequena e fugaz concessão, uma vez que meus anteriores pedidos se chocaram contra os tímpanos divinais, transmutados, naquele momento, em muralha de granito. Mas nem tudo estava perdido. Todos os céus, de alto a baixo, estremeceram com a gargalhada de Sua Excelência Toda-Poderosíssima quando ouviu minha derradeira súplica. Lembro como se fosse hoje de Suas santíssimas e rechonchudas bochechas vermelho-fogo e das palavras que disse: "Isso vai ser engraçado pra caralho!" Deus é um puta sacana, vocês sabiam?... Bom, mas voltemos ao que interessa, minha encarnação seguinte. Vocês arriscam um palpite?
- Nada é tão ruim que não possa piorar... Quem poderia ser? Ivan, O Terrível?
- Compreendo que não estou em condições de exigir nada, mas não me ofenda, por favor. Ivan foi um louco, um doido-varrido cujo único feito digno de louvor foi ter matado alguns muçulmanos quando conquistou Kazan. O homem no qual reencarnei foi, numa escala de importância, o segundo maior líder que já pisou a terra, só perde para Jesus Cristo e somente porque Ele era filho de Deus. Cá entre nós, considero as idéias desse segundo líder muito mais edificantes e interessantes que as do Filho de Maria.
- Jesus... Estou ficando preocupada... Não vá me dizer que minha boceta, além de Torquemada, também é a reencarnação de Stalin...
- Você tirou mesmo o dia pra me ofender! Não! Não fui aquele porco chauvinista!
- Tá. Então, fala. Quem você foi?
- Um homem inteligente, sensível, um artista que desde muito jovem demonstrava enorme talento com as tintas...
- Monet? Renoir? Pissarro? Degas? Van Gogh?
- Tá frio. Na juventude, para se sustentar, pintava paisagens e as vendia para mercadores...
- Sei lá quem é. Biografia de pintores não é meu forte. Seria Dalí, Picasso, Rembrandt?
- Bateu na trave de novo... Bom, vou fazer o seguinte, reproduzirei "in verbis" dois trechos de minha obra escrita que só não foi um best seller graças à interveniência de meus detratores, que eram gentinha, raça ruim... Escutem com atenção, depois me digam se descobriram quem fui... "As causas exclusivas da decadência de antigas civilizações são: a mistura de sangue e o rebaixamento do nível da raça, que aquele fenômeno acarreta. Está provado que não são guerras perdidas que exterminam os homens e sim a perda daquela resistência, que só o sangue puro oferece. Todo o que, no Mundo, não é raça boa é joio."
Suspendi a respiração, transpirei, estremeci. Ela, ele continuou. "Se os judeus fossem os habitantes exclusivos do Mundo não só morreriam sufocados em sujeira e porcaria como tentariam vencer-se e exterminar-se mutuamente, contanto que a indiscutível falta de espírito de sacrifício, expresso na sua covardia, fizesse, aqui também, da luta uma comédia. É pois uma idéia fundamentalmente errônea, querer enxergar um certo espírito idealista de sacrifício na solidariedade do judeu na luta ou, mais claramente, na exploração de seus semelhantes. Aqui igualmente o judeu não é movido por outra coisa senão pelo egoísmo individual nu e cru. Por isso mesmo, o Estado judaico - que deve ser o organismo vivo para a conservação e multiplicação da raça - não possui nenhum limite territorial. Uma formação estatal compreendida dentro de um determinado espaço, pressupõe sempre uma disposição idealista na raça, que ocupa esse Estado, antes de tudo, porém, uma compreensão exata da noção de 'trabalho'. A falta de tal convicção acarreta o desânimo, não só para construir, como até para conservar um Estado com limites marcados. Com isso desaparece o fundamento único da origem de uma civilização." - pausa. E aí, nada? Nem um palpite?
- Estou com medo de dizer o nome... Não me diga que você, além de Torquemada, foi...
- Adolf Hitler! O maior estadis...
- Não!!! Não! Não e não! - instintivamente, fechei as pernas. - Tudo menos isso! Saber que minha boceta é a reencarnação de Torquemada, mesmo a contragosto, dá pra engolir. Agora, Adolf Hitler! O maior genocida de todos os tempos memoriais e imemoriais! Aí já é demais!
Artur permanecia do mesmo jeito, calado e com cara de idiota.
- Artur! Você vai ficar aí com essa cara de imbecil? Diga alguma coisa!
- Abra as pernas.
- Puta que pariu! Porra! Caralho! Minha boceta, sem mais nem menos, resolve falar, diz que foi não um, mas os dois piores animais que já pisaram a face da Terra, eu com uma puta vontade de me atirar pela janela e você pensando em sexo!
- Você não entendeu. Abra as pernas. Deixe ela... ele falar.
Não queria reabrir as pernas, nunca mais, aqueles grunhidos roucos e abafados me oprimiam, eram uma tremenda tortura. Todavia, havia uma pontinha de curiosidade mórbida e meio masoquista somada ao desejo de que aquele pesadelo terminasse logo, além de uma vaga esperança de que minha vagina, após dizer tudo o que tinha de dizer, tornasse ao seu abençoado estado de quietude, nada de palavras, frases, períodos, orações. Sons, só aqueles desagradáveis e cacofônicos ruídos muito semelhantes a flatos que me deixavam constrangida. Cedi. Escancarei as pernas de novo. Fala, boceta!
- Cof! Cof! Porra! Não faça mais isso, por favor. Foi um custo conseguir essa concessão. Como falei antes, é só por hoje. Amanhã, volto a ser apenas uma vulva como outra qualquer. Urinarei, umedecerei, acolherei, abnegadamente, os pênis que desejem me penetrar, com vossa permissão, minha senhora, é claro.
- Tá. Deixarei você falar, ainda que isso seja um enorme suplício para mim. Mas, diga-me uma coisa: por que eu? Por que a minha vagina, dentre tantas, foi a escolhida?
- Sua preferência por negros, indígenas, ciganos, amarelos, sarracenos, judeus, mulatos, cafuzos, mamelucos, bissexuais, deficientes, et cetera e et cetera e tal. Foi o modo que o Todo-Todo-Poderoso escolheu para me punir por haver tentado, mais uma vez, limpar o sangue da decadente humanidade.
- Ei! Alto lá! Mas eu sou branco, não sou cigano, judeu, bissexual nem deficiente! - protestou Artur.
- Sim. Você é caucasiano. Não chega a ser um ariano, mas dá para o gasto. E é por sua causa que vocês estão tendo o prazer de ouvir minhas palavras... Vou explicar. Deus, conforme eu disse, é um pândego, um piadista contumaz, morre de rir com as trapalhadas humanas que ele mesmo promove. Antes de ensejar essa tremenda sacanagem que fez comigo, disse Ele, às gargalhadas: "Permito que fales, mas só por um dia. E antes que me perguntes, em verdade te digo que falarás no dia em que a mulher portadora de teu pérfido espírito se deixar conduzir à alcova por um homem de pele alva, de espírito impuro e de poucas palavras."
- Espírito impuro! Era só o que me faltava! Vou à missa todo domingo, me confesso, cumpro à risca a liturgia católica.
- E aqueles encontros com o coroinha, na sacristia, depois da missa? O que me diz? - indagou Hitler-Torquemada-Genitália-Vulva-Cona-Vagina-Boceta.
- Vou embora!
- Ah, vai não, fofo! - ele, ela de novo.
Artur bateu forte a porta do pequeno quarto. Ouvi o ronco do motor do carro, acelerou, arrancou, se foi.
- Viu o que você fez? - disse eu - Além de quase me deixar maluca com essa história de Torquemada, Hitler e o caralho a quatro, ainda me faz perder um dos homens mais gostosos que já se interessaram por mim. Além de tudo, fiquei a pé. - esqueci, por instantes, de que dialogava com minha própria boceta que era a reencarnação de Torquemada e Hitler.
- Liga não, "fräulein". A vida não é justa. Ademais, o bonitão é bissexual.
- E daí? Não deixa de ser gostoso por isso...
- Ah, esqueci que você aprecia...
- E agora, o que fazemos? - esqueci de novo que minha interlocutora não era minha amiga de faculdade. A loucura da situação estava me afetando.
- Continuemos o papo. Tô gostando de conversar com você.
- Mas... Vão rolar novas e terríveis revelações reencarnatórias?
- Não! Você, digo, sua boceta fecha o ciclo reencarnacionista, a tríade mística.
- Diga-me uma coisa... Por que nunca consigo depilar você completamente?
- Porque adoro meu bigode.
- Por que fico mais excitada quando estou menstruada?
- Porque me agrada o encarnado do sangue.
- Por que fico úmida com cenas de campos de concentração?
- Preciso responder isso?
- Você é um monstro!
- Não! Não sou e não fui! Fui uma vítima da História, assim como Judas Iscariotes, Vlad, Pol Pot, Jack O Estripador! Fizemos o trabalho sujo, que tinha de ser feito mas ninguém tinha coragem de fazer!
- Chega! Não quero ouvir mais nada! - fechei abruptamente as pernas, ergui-me da cama, vesti minhas roupas, pedi um táxi - Artur, no final das contas mostrou ser um "gentleman", tinha pago a conta.
Embarquei. O motorista me olhava pelo espelho retrovisor de uma maneira interrogativa. A julgar pela expressão de sofrimento estampada no meu rosto, indubitavelmente concluíra que eu fora abandonada. Devia estar se perguntando se meu parceiro se fora antes, durante ou depois do sexo. Imersa em meus pensamentos, distraí-me por um breve instante. Abri as pernas.
- Cof! Sua "schlamp"!
Cerrei as pernas rapidamente. O condutor olhou espantado pelo retrovisor.
- Celular... - disfarcei, dando um meio sorriso apagado.
Enfim, o táxi parou em frente ao prédio, meu prédio! Lar, doce lar! Certamente, sentir-me-ia mais segura, mais forte, no interior de meu apartamento, meu cantinho, meu refúgio do mundo. Paguei a corrida, o táxi se afastou. Acessei o "hall" e respirei fundo. Teria de subir pela escada até o quarto andar, o elevador, pra variar, estava quebrado. Pus minhas mãos entre as pernas e comprimi com força. Iniciei a subida e não parei, degrau a degrau, alheia aos aflitivos e roucos grunhidos de minha vagina. Abri a porta de meu apartamento com veemência, o impacto da maçaneta contra a parede provocou um tremendo estrondo e um grande buraco. Segui às pressas até o quarto, posicionei um pequeno espelho na cabeceira da cama - precisava acabar com o suplício - escancarei as pernas.
- Cof! Cof! Você está sendo má comigo, merecia um castigo, uma boa foda. Mas não vou te foder porque evidentemente não posso foder a mim mesmo. Além do mais, estou com uma vontade incontrolável de discursar... "Consegui meus êxitos simplesmente porque, em primeiro lugar, me esforcei por ver as coisas tais quais elas são e não como desejaríamos que fossem; segundo, porque, formada a minha opinião, nunca permiti fraquezas que me convencessem do contrário ou me levassem a abandoná-la; terceiro, porque, em todas as circunstâncias, sempre cedi à necessidade, quando como tal a tinha reconhecido. Hoje que o destino me permitiu tamanhos sucessos não serei desleal a esses meus princípios fundamentais..."
- Para! Esse sotaque, essa entonação me dão calafrios! Não quero mais ouvir sua voz!
- Você pode me calar fechando as pernas, Deus vai me calar à zero hora, mas não ficarei em silêncio para sempre! Um dia tornarei a ser homem e poderei terminar meu trabalho de purificação! A raça ariana prevalecerá sobre as inferiores e terá restabelecida sua gló... hum... hu...
Senti um aperto no coração, uma pressão no crânio, uma secura nos lábios, minhas mãos tremiam, todo meu corpo tremia. Sentia-me uma frágil boneca nas mãos de uma menina má chamada Deus, sentia-me um nada. Sentia-me mal, muito mal. A menina má arrancava minha cabeça, meus braços e pernas. Ruí. Desmoronei. Desabei. Rompi em prantos, chorei como nunca havia chorado. Entre minhas pernas, gemidos. "Cala a boca!" - gritei. Ele não se calou. Daí, veio o surto, o colapso total. Segui até a cozinha, saquei uma faca da gaveta do armário, cortei a mangueira amarela bem rente ao fogão, enfiei na boceta e abri o gás.
- Não!!! Gás não! Gás não!!!
Minha mente estava vazia. Em meu acesso de loucura, uma única, premente, desesperada necessidade: calar a voz! Peguei a caixa de fósforos, abri, retirei um - de minha boceta vinham sílabas desconexas - friccionei a extremidade contra o abrasivo... Clarão, explosão, dor, negrume...
Ouvi vozes, distantes. Abri lentamente os olhos, minha visão estava embaçada, meu corpo doía. Um vulto branco aproximou-se, voz de mulher.
- Ah, acordou finalmente.
- Onde estou?
- Hospital Central.
- O que aconteceu?
- Vazamento de gás, segundo o perito. Por sorte uma viatura do Corpo de Bombeiros passava em frente ao seu prédio no momento da explosão... Deus deve gostar muito de você.
- É. Ele me adora. Como estou?
- Você teve queimaduras de terceiro grau em sessenta por cento do corpo. Mas não se desespere, hoje em dia existem ótimos cirurgiões plásticos especializados nessa área. Agora, descanse...
- Doutora, uma última pergunta... A senhora ou alguém de sua equipe ouviu algum som estranho... proveniente... do meu corpo?
- Não, não ouvimos nada... Descanse.
Fechei os olhos. Apesar da dor, sorri. Eu vencera.
Muitos meses e muitas cirurgias depois, voltei às minhas atividades. Revigorada, refeita, quase perfeita. Dispensei o terapeuta, não precisava mais dele. Precavida, comprei um vibrador "Long Dong Extra G". Tudo ia bem, até o dia em que almocei uma apetitosa salada de repolho seguida de um saboroso doce de batata-doce, de sobremesa. Tenho certeza que meu ânus não só expeliu o flato como ainda proferiu um sonoro e efusivo "Oi!". Não foi nada fácil passar o dia com "Long Dong" enterrado no rabo, mas, como disse Bruce Lee, o filósofo: "Quem quiser vencer deve aprender a lutar, perseverar e sofrer." Sábio Bruce.

Carlos Cruz - 24/07/2009

(*) Os trechos de "Mein Kampf", os fragmentos do discurso de Adolf Hitler e a frase de Bruce Lee foram extraídos da Internet.


sábado, 3 de abril de 2010

O beijo






















As bocas opostas permitiam-se num afago gentil e forte, mordiam-se, lambiam-se, deleitavam-se, enfim. E ao abrirem os olhos se descobriram mais homens que nunca.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Só-tão



Vivo abarrotada de almas,
tanto novas quanto usadas,
pra mudar conforme o caso

(se uma suja, jogo fora,
quase nunca lavo).

Algumas são falsa-cor,
vermelhas,
cheias de prendas e laços,
penduricalhos mil costurados,
que já nem sei mais o nome.

– tenho um motivo fajuto
e sempre o sapato perfeito
pras feras que me consomem –

Há uma de esguelha, há outra rodada,
envolta em fuxicos, ismálias
e finas organzas de musas

– amélias no forro, teresas na barra –

há uma fechada, há outra que ousa,
e não tem botões, nem amarras,
rendada com puta de esquina.

(troco a cara e o vestido
quando aquela não mais me fascina).

Em noite de gala,
quando o amor desvestido me despe,
me visto com fendas
e tons de imprevisto.

Acordo no dia seguinte, num sopro,
já pano de vela que encontra
seu porto

- alma á espera, com jeito de corpo -

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A semente de Aton


Desta vez, foi diferente. Ele cumpriu sua missão e regataria a humanidade. Os problemas foram puramente técnicos: construir uma cidade, a capital, no interior, durantes apenas um ciclo de governo. Uma tarefa faraônica, disseram. Ele a achou mais fácil.
O motorista enrolou a erva no cigarro  e o acendeu. Deu uma longa carburada e depois passou para o chefe, no banco de trás. Voltou para a estrada, ainda travando a fumaça nos pulmões.
Antes, os sacerdotes acharam que ele queria construir a cidade para concentrar em torno de si os poderes políticos. Como cada deus dominava uma cidade diferente, o poder estava diluído nas mãos de vários líderes espirituais. A cidade em homenagem ao deus Aton, que ele, do alto de seus direitos e deveres como Faraó, anunciou como deus-único, seria o centro administrativo, social e, obviamente, religioso. É claro que isso modificaria a estrutura vigente; convergindo as esferas de forças para o mesmo local, ele, o chefe-supremo, absorveria todo o globo de poder. Não foi à toa que escolheu o disco solar para representar o deus, era a manifestação do simbolismo, tão importante para seu povo.
Akhetaton, a cidade, foi projetada para ser a capital do mais resplandecente trono da Terra. O clero bem que tentou impedir, queriam manter os próprios privilégios, porém Akhenaton soube contornar as adversidades. Seu objetivo, verdadeiro e sincero, o fortalecia.
A fumaça adocicada serpenteou sobre o rosto do ilustre homem confortavelmente aconchegado no banco de trás do Opala. Ele ria interiormente, sabia que se descobrissem este seu prazer secreto, seria a execração pública absoluta. Fazia tempo que não fumava, a última vez foi após cumprir a missão.
A semente de cânhamo poderia resistir durante anos, séculos, até, se permanecesse bem acondicionada na ânfora de barro. Akhenaton enterrou pessoalmente várias pequenas ânforas por toda a cidade durante sua construção. Ainda jovem, havia evocado Aton, o deus da ciência no antigo panteão egípcio. O ritual era fumar a flor de uma determinada erva. Cada pessoa tinha sensações próprias. Ele viu Aton, o próprio deus, no céu, travestido com raios de fogo, no formato do Sol.
Naquele dia, à margem do Nilo, ao lado do velho e seco pé da erva, de onde ele colheu a oferenda e a fumou enrolada numa fina lâmina de papiro, disse, o deus, que ele cumpriria uma missão sagrada. Deveria construir a cidade onde nasceria o Salvador, o próprio filho do deus. Lá, a criança aprenderia toda a filosofia para saber conduzir o homem à evolução. Em caso de insucesso, a civilização pereceria.
Lembrou quando encontrou a velha ânfora lacrada no mercado do Cairo. Adorava as viagens internacionais a serviço do governo brasileiro. Qual não foi a surpresa ao descobrir as  sementes quando abriu o lacre! Só foi menor que sua emoção quando germinaram. Era uma descoberta científica da maior importância, iria relatar o fato nas revistas médicas, sua profissão. Sabendo dos efeitos perturbadores do cânhamo que cresceu das pequenas mudas, pesquisou e descobriu que deveria fumar as flores. Resolveu, então, na decisão que mudou sua vida, aplicar em si os efeitos para ser capaz de relatar com perfeição quais as sensações geradas pela planta.
Assustado com a revelação do deus, Akhenaton traçou um plano para cumprir efetivamente sua missão. Percebeu que precisaria do apoio de todo o estado para construir a cidade que viu no sonho. Mesmo sendo o senhor do Egito, dividia os poderes religiosos com vários sacerdotes tão adorados quanto ele próprio. Ardilosamente, iniciou atacando Tebas e todos os seguidores de Amon, o deus mais poderoso do panteão. Justificou explicando sobre Aton ser o único e verdadeiro deus, era a maneira mais fácil de enfraquecer o clero e alcançar o que desejava.
Tudo correu bem, até a distribuição das ânforas, seu plano alternativo caso não cumprisse a missão. A cidade cresceu e ficou linda como Nefertiti, sua esposa. Com ela teve seis filhos. Morreu, velho, acreditando ter concretizado sua sagrada obrigação. Tut-ankh-Aton, o filho que ascendeu ao trono, viu, antes do fim da vida, o esfacelamento do reino por conta da descoberta de rotas comerciais fora do Nilo.
Tragou e prendeu a fumaça no pulmão. Lentamente sentiu os efeitos da erva. A névoa de calma e compreensão o cobriu, fazendo-o ouvir a voz de deus. Ele imaginava ser deus pois era católico, o que ele escutava eram sábios conhecimentos que pareciam vir lá do fundo de sua alma. Contavam sobre vidas passadas, missões sagradas, deuses e faraós.
Esconder as ânforas com sementes por toda a cidade foi a grande idéia de Akhenaton. Imaginava que algum descendente pudesse encontrá-las, fumar a erva e receber a mesma incumbência do deus, por serem parentes. Os deuses eram muito fieis. Conhecia a volubilidade política do seu reino, sabia que sua cidade poderia não durar o tempo necessário. Nunca imaginou, porém, que a civilização corresse tanto risco de perecer pois Akhetaton foi esquecida poucas gerações após sua fundação. O salvador, Jesus, acabaria nascendo milênios depois, em Nazaré, uma vila miserável, dominada pela simplória e fundamentalista seita judia. A criação do jovem acabou afetada pelos errôneos conceitos do seu ambiente. Se Akhetaton ainda existisse, o destino do salvador teria sido pleno.
Ele olhou pela janela. A Via Dutra estava vazia, já era tarde. Ele viajava do Rio de Janeiro para São Paulo. As quatro horas de carro seriam suficientes para fumar o baseado. Desta vez, responderia à voz do criador. Desde que descobrira sobre Akhenaton, durante a viagem ao Egito como Deputado, Juscelino Kubitschek ficara intrigado com a missão de construir uma cidade-modelo que fosse capaz de educar o filho de deus como líder da humanidade.
Quando fumou pela primeira vez, imediatamente entendeu que o plano alternativo de Akhenaton seria a última esperança da civilização. Ele próprio era um descendente do Faraó, talvez sua reencarnação, pois recebera a mesma incumbência. Significava que ainda haveria outra oportunidade para o nascimento do salvador acontecer no lugar correto, a cidade que seria o berço da nova civilização.
Olhou pelo pára-brisa e viu um carro vindo em sua direção. Não se importou, estava relaxado por conta da erva, da satisfação da missão cumprida, de saber que finalmente resgataria a humanidade. A voz de deus retumbou em sua cabeça. Respondeu, num discurso claro e fluente.
- Desta vez, foi diferente. Brasília há de durar até o nascimento do novo salvador.