quarta-feira, 22 de abril de 2015

Como que sem querer


O amor chega de fininho

Mas, por mais que chegue em silêncio, desperta curiosidades

E acorda também os medos, que têm o sono ainda mais leve, paranóicos

terça-feira, 21 de abril de 2015

Do outro lado da lua

Visualizei você pelo retrato,

Falado.

Seu traço inevitavelmente apagado

Do outro lado da lua,

Sem contato visual ou subterfúgios

Reverbera desenhos entre as entrelinhas

Da intrincada geometria das esferas.

Nebulosas poeiras estelares,

Magnetares, pulsares, quasares,

Partículas, ondas, energias...

Seu olhar vagando sem tempo

Movimenta compassos apressados

No vazio das órbitas oculares.

domingo, 19 de abril de 2015

Quando Jota era Jotinha

Jota - para os mais íntimos ‘Jotinha’, para seus admiradores contemporâneos ‘Jotão’ - sempre foi um cara das mulheres. Desde pequeno, quando o pai saiu de casa para comprar um maço de cigarros e nunca mais voltou, o pequeno Jotinha fora criado por sua mãe e suas tias. O único tio homem de Jota era o tio Deco, que tinha um bar e lanchonete de beira de estrada, daqueles que ficam anexos a um posto de gasolina.

Claro que Jotinha desde pequeno gostava de ir até o posto do tio, que sempre dava um pastel de vento e uma Coca para Jotinha; com o passar dos anos, Jota foi ficando adolescente e começou a ajudar o tio toda vez que algum funcionário folgava, ou para fazer os serviços de banco, como um office-boy. Percebendo que seu sobrinho já tinha um fraco por suas coleguinhas de escola, tio Deco logo percebeu que o menino se interessaria por, digamos, algumas meninas de vida fácil que passeavam pela lanchonete no turno da noite.

Pensando em prepara-lo para o futuro, e vendo que o menino não tinha uma figura paterna para lhe dar um conselho sequer, tio Deco foi logo tratando de pagar uma dessas meninas para seu sobrinho, que iria completar quinze anos na semana seguinte. Pensou bem, e escolheu Pink, uma moreninha de 18, no máximo 19 anos que fazia ponto ali pertinho. Parecia ser, entre todas aquelas que vinham ‘trabalhar’ por ali, a menos rodada e certamente, a mais novinha de todas.

Na véspera de seu aniversário, Jotinha estaria substituindo um funcionário de folga do turno da noite, e ficaria até às 11 horas na lanchonete – isso era o que a mãe de Jotinha pensava, porque na verdade seu tio Deco já tinha arranjado todo o esquema: Jotinha sairia as 9 e usaria o mesmo quartinho que seu tio utilizava quando precisava, digamos que, recarregar suas energias. Quando o relógio bateu no ponteiro mostrando nove horas, tio Deco foi dar um abraço de aniversário em Jotinha, entregando-lhe a chave do quartinho e dizendo: “Seu presente estará lhe esperando lá, garoto. Não esqueça de revestir o que for mais importante, hein? Segurança em primeiro lugar!” Jotinha agradeceu o tio um pouco sem jeito, e seguiu empolgado para o quartinho, já imaginado o possível presente que o aguardava ali.

Ao abrir a porta, à meia-luz, Jotinha percebeu uma menina deitada na cama já com suas roupas íntimas. Reparou também que o quarto estava todo limpinho, e que havia meia dúzia de camisinhas no criado-mudo ao lado da cama. Assim que Jotinha trancou a porta, a garota então acendeu a luz principal do quarto, para mostrar ‘todo o material’ para o aniversariante: tratava-se da Galega, uma amiga de Pink que fazia ponto em outro lado da cidade. Jotinha já tinha visto fotos dela, e abriu um sorriso de orelha a orelha quando ela aproximou-se dele e começou a despi-lo...

No dia seguinte ao seu aniversário, que também fora comemorado com sua mãe e tias em casa, com direito a bolo, canapés e croquetes, Jotinha voltou para o seu batente no posto, e logo de cara seu tio lhe chamou de canto, para conversarem:

- E aí Jotinha, gostou do presente do tio?
- Puxa... nem sei como agradecer tio! Não consegui usar todas as camisinhas, daí deixei as três que sobraram dentro da gaveta do criado-mudo, tá?
- Já vi garoto, já vi... mas, me conta: o que achou da Pink?
- Hum? – Jotinha parecia não entender a pergunta do tio.
- A Pink, moleque, a prostituta que te paguei. O que achou dela?
- Ah, acho ela top, tio. Mas na verdade quem foi lá aquele dia foi a Galega. Aquela loirinha toda bonitinha que faz ponto lá na Zona Sul, já esteve uma ou duas vezes por aqui atrás da Pink, tá lembrado tio?
- Hummm... Sim, sim “vai ver ela não pôde vir, mandou a Galega em seu lugar” pensou tio Deco. Até que Jotinha disse:
- Realmente tio, eu não teria grana para pagar uma hora com a Galega, então foi o melhor presente que eu poderia ganhar de aniversário. Muito obrigado mesmo.
- Que é isso garoto, estamos aqui para isso. Não comenta com sua mãe, tá?
- Pode deixar, tio.
- Mais uma coisa: você disse uma hora, mas foram duas horas, certo?
- Não, tio. Só uma hora mesmo. Até fiquei esperando dar onze horas no quartinho para a mãe não desconfiar de nada.
- Filha da mãe...
- Ah, e outra coisa tio: a Pink me cobrou programa só a primeira vez que a gente transou. Da segunda vez em diante, ela não me cobrou mais nada não, foi sempre ‘na faixa’. Deve ser por isso que veio a Galega em seu lugar... mas foi muito bom, tio! Agora, vou trabalhar...
- Vai, vai lá garoto... – disse o tio de Jotinha, enquanto já passava a mão tremulante no telefone para ligar para Pink. Enquanto ouvia a mensagem de celular desligado ou fora de área, tio Deco só pensava em reaver cem dos duzentos reais que tinha dado à Pink, por duas horas de programa. Para diminuir a sensação de ‘que otário que eu fui’, tio Deco ainda pensou: “Que garoto mais ligeiro. Meu sobrinho, meu sobrinho...”

sábado, 18 de abril de 2015

Via Láctea

Viajou dentro da constelação de sardas que banhava o colo nu vialactante da amada, aterrissando no canyon de seus seios cujas  aréolas rosáceas destacavam-se à luz artificial feito Fobos e Deimos no horizonte marciano. Pós-cópula, continuaram assim, juntinhos, orgulhoso primeiro casal de astronautas a se amarem no espaço infinito.

Outra Época



Hoje vivo n'outra época.
Cansei-me de ser negado,
E ver o silêncio do desdém como resultado
De ter sempre a morte como meta.
Deitava-me na cama olhando o céu negro
E sonhava com a sua presença ao meu lado,
A morte viva em meu leito,
Enquanto eu era pela sua vagina devorado
Para no final, com rosto pálido,
Ser abandonado por um beijo.
Mas ela nunca aparecia.
Tentei de tudo:
Rezei a deuses antigos,
Juntei palavras em poesias
Mas nem assim, como mendigo,
Ela sequer uma carícia me fazia.
Hoje vivo n'outra época.
Cansei-me de ter sempre a morte como meta.
Pois então, dane-se!
O pássaro se cansa quando o horizonte não chega,
O verso desiste da mente do poeta,
E o fracassado joga fora sua coleção de perdas.
Agora para a morte não estou nem aí!
Se quiser, ela que venha atrás de mim.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Amanhã

Sabe-se  lá o que vira
amanhã a manhar
pela manhã e ao tardar
sabe-se lá o que será do amanhã

sabe-se é que o dia nascera
com o sol exponencial a permear o céu
gritando luz, ecoando vida

trazendo esperança sob toda e qualquer parte
fazendo arte como encarte essencial do mundo

quinta-feira, 16 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

TREM-BALA


Ah, se pudesses
levar à Humanidade
a Paz e a Igualdade
na mesma velocidade...

Edweine Loureiro

(Saitama – Japão)

domingo, 12 de abril de 2015

LIBERDADE APRISIONADA


Na esperança da liberdade da entrega
Entrego a ti todas as minhas amarras
Preso nos medos deformados pelo tempo
Libertas os sentimentos prisioneiros da alma

Questionando as certezas
Certamente duvidosas
Afirmando negações
Negativamente silenciosas

Clareando o breu da alma
Faltando o que antes sobejava
Sobrando o que agora mata
Auspicioso continuo na entrega

Entregando o que mais me afeta
Afetivamente preso na liberdade que recebi
Displicente ao que se passa ao redor
Mas consciente do que se passa em mim

Todavia liberto na prisão em si
Criada pela certeza que hoje vejo em ti
Mas ainda esperançoso na liberdade da entrega
Entrega que me aprisionará na liberdade enfim

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DEUSAPSYCHOLOUCA


Não foi difícil descobrir
Meu namorado me traía
Sempre soube dos seus fetiches por sadomasoquismo
Fácil imaginar quantas escravas tinha
Estava escrito na testa dele
Tantas vezes chorei, cansei!
Comprei um celular e criei um perfil falso
Adicionei-o no Facebook e daí pro whatsapp
Sexual Slave
Homens são burros, fáceis de manipular.
Quando temos um papo gostoso sobre sexo e criamos a persona perfeita, precisamos de menos de uma hora pra saber os podres.
Ele contou pra personagem submissa
O filho da puta só mentia pra mim
Vangloriando-se, assumiu.
Disse ter uma namorada linda, e que a amava.
Mas era compulsivo sexual
Contou da professora da academia e da sua amiga, que as comia juntas.
Disse ser frequentador de casas de swing
Seu maior vício
Adorava escravizar mulheres casadas na frente dos maridos
Segurei a vontade de estrangulá-lo
No final da conversa, ele estava desconfiado.
À noite fomos jantar
Ficamos naquela guerra fria
Eu fingindo não saber
Ele muito cabreiro
Voltamos pra casa dele e trepamos como sempre
Era a única coisa que fazíamos perfeitamente
Uma semana passou, não aguentei…
Na minha casa, vomitei toda sua verdade mentida.
Não teve como negar
Chorou
Ajoelhou
Humilhou-se
Confesso que senti repulsa ao vê-lo tão submisso
Implorou
Eu disse que só ficaria com uma condição
Teria que me levar numa casa de swing
Concordou
A princípio, pensei estar me testando, seguro de que eu nada faria.
Chegaram o dia e a hora
Arrumei-me lindamente
Sou loura e alta
Fiquei um escândalo
Quando me encontrou, disse-me estar linda.
Fiquei esperando seu desespero
Nada!
Pegamos um táxi
Não se deu por vencido
Entramos na casa de swing
Não fraquejou
Mas ele viu… ahhh… se viu…
Ajoelhei
Todos me olharam
Eu, a mulher mais gostosa da casa, pedindo pra chupar seu pau, na frente de todo mundo.
O filho da puta riu
Então gritei:

- Todos podem botar o pau pra fora, vou chupar geral.

Nessa hora, tive certeza, ele ia dar um show, proibir, meter-se na frente de quem se atrevesse a me tocar.
Não!
O sacana falou, rindo:

- Podem vir, ela engole até o talo.

Com muita raiva, chupei e dei pra todos, contei um a um, olhando pra ele.
Sua máscara de fodão deveria cair por terra, a qualquer momento.
Na verdade, eu estava contando o tempo pra irmos embora.
Ele iria debulhar-se em prantos
Não aconteceu!
Em casa, comentou meu desempenho descarado com uma ereção alucinada.
Fodeu-me a alma, lavada de sujeiras, me fazendo gozar sem parar.
Depois, exaustos, disse-me, agora faremos tudo na frente um do outro, eu ia pirar chupando bucetinhas.
Eu não tinha o que improvisar
Queria fazê-lo sofrer
Mulher nenhuma aceita seu homem tão pacífico e seguro
Eu precisava levar um tapa na cara, como castigo.
Ser chamada de vadia num sentido não sexual
Mas ele venceu
Não!
Depois que dormiu, sangrou.
Comi seu pau assado na lareira a nos iluminar
Morreu vendo sua pica em minha boca, pela última vez.
Num romantismo insano, pensei:

“Não o dividirei com mais ninguém, o tenho dentro de mim, pra sempre…”

Não me arrependo
Sou do tipo que corta picas
Sou uma musa-ninfa-deusa-psycho-louca
Eu sou Carol!


Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
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A VERDADE É QUE EU MINTO

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