sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sou e Sempre serei grata.


Depois de alguns anos, vou Encerrando nessa publicação de dia
23 de dezembro de 2016 a minha participação neste maravilhoso
e democrático espaço.
Não há causa que não a falta de tempo.
Sou e sempre serei:
Grata aos que aqui escrevem.
Grata aos que aqui leem.
E aos administradores.
Feliz 2017 a todos.
Catiaho Alc./dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Notável

Naquela noite que se fez outro dia, a lua estava tão cheia, de si própria, que mesmo depois de o sol ter se aprumado, ostentoso, ela ainda desviava a atenção de muitos desavisados.





quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Apenas há penas para os raros (?)


Pássaros

Passantes

Passam

Passos...

Apenas há

Penas.

Pisamos 

Por onde nos deixamos

Pegadas (?)

Apenas há

Penas

Sob os pés

Que deixaram rastros (?)


Entretanto e, contudo,

Embora aflitos em conflitos e, confusos

Gravitamos esfera que circunda astro.


Saudemos, então,

Novo verão, no pólo sul.

Com asas camufladas de azul, solar

Pra festejar novo solstício.

Que nossos voos permaneçam

Desafiadores e raros

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Marcel, do Inferno ao Céu


Marcel nasceu numa tarde cinzenta de 1990. Fruto de uma união que não durou mais do que alguns meses, Marcel foi criado então pela mãe, vendo o pai apenas de vez em quando. Apesar de alguns parentes mais próximos por perto, Marcel sempre teve bastante tempo livre em seu dia-a-dia, uma que sua mãe trabalhava em dois empregos para mantê-los em uma situação confortável (escola privada, um bom apartamento em uma boa localização da cidade, um bom carro para ela) e sua avó materna, tadinha, já não dispunha mais de condições físicas para cuidar do neto. Já os avós paternos de Marcel já tinham partido dessa pruma melhor, antes mesmo dele nascer.
E foi num ponto entre os anos de 2003 e 2004 que Marcel conheceu o caminho das drogas. Ainda adolescente, sem ter tido sequer a sua iniciação sexual, Marcel já estava fumando maconha com alguns carinhas, aqueles da turma do fundão da sala – todos ali já eram repetentes. Nem é preciso dizer que junto da maconha, o álcool também passou a ser uma novidade constante na vida de Marcel, que ia conhecendo bebidas e se entorpecendo, enquanto a sua mãe trabalhava para sustenta-los.
E sim, sua mãe percebeu a mudança no filho. Ela tentou intercepta-lo por mais de uma vez, mas o filho ficara extremamente agressivo, o que passou a ser motivo de medo por parte dela. Sabendo que a coisa não ia bem, mas querendo um pouco de paz quando podia estar em casa, a mãe de Marcel “deixou” a coisa ir adiante dessa forma, apesar de um pouco incerta de sua decisão.
E Marcel começou a tomar pau na escola, ano após ano. Com dezesseis, ele já tinha namorada firme e tudo. Mas, com um porém – a menina também era viciada. E agora o repertório no cardápio de narcóticos já havia aumentado: os dois provaram juntos benzinha, cola de sapateiro, chá de cogumelo... e cocaína. Essa última, por sinal, era quase todos os dias. Não havia mais controle. O dinheiro dado pela mãe de Marcel não dava conta dos gastos com as drogas. Enquanto sua namorada roubava dinheiro dos pais, Marcel sabia que se pegasse um centavo a mais que fosse de sua mãe, faltaria para a comida e a moradia dos dois. Ao menos reconhecendo o esforço que sua mãe fazia para conseguir dinheiro, Marcel deu um jeito de arrumar um pouco para si. Só que para isso, ele teria que largar de vez os estudos – afinal, trabalhar, estudar e usar drogas, tudo num mesmo dia, não tinha como dar certo.
E Marcel trabalhou. Foi ajudante de pintor por um tempo. Distribuiu panfletos nas ruas para lojas que eram de conhecidos seus ou de sua mãe. Começou a fazer malabares nos sinais de trânsito, a troco de migalhas. Repassou pequenas quantidades de droga para seus conhecidos da época de escola que, à esta altura, estavam melhores na vida do que Marcel, já cursando nível superior ou até em empresas. Ainda trabalhou lavando carros e por fim como “chapa”, guiando motoristas de caminhão que entravam na cidade.
Outras namoradas também vieram. Marcel mudava de parceira, mas algo parecia inerente à cada uma delas: o vício por drogas. Algumas inclusive já encontravam-se na sarjeta, sem esperanças de um futuro melhor. Enquanto isso, a outra mulher da vida de Marcel, sua mãe, apenas via o filho se perdendo, dia após dia. Magro, andando em trapos velhos... cada roupa que sua mãe lhe dava parecia desaparecer, como poeira ao vento. Os dias pareciam cada vez mais difíceis para esta mulher, que se perguntava incessantemente onde ela tinha errado para com o filho.
Com os “pilas” que conseguia fazer, Marcel passou a gastá-los comprando ecstasy e LSD, drogas essas que passaram a servir como substitutas à cocaína. Marcel até preferiu essa troca de início, só que essa onda durou apenas por alguns meses. Como ele mesmo já sabia, o vazio, a frustação e o desespero vinham da mesma forma, fosse usando droga A, B ou C. E num momento de solidão total, andando com gente em condições iguais ou piores do que a sua, Marcel acabou experimentando o crack, já no início de 2012.
Aí as coisas degringolaram. Marcel não conseguiu mais trabalhar para ninguém, pois ninguém mais queria lhe dar trabalho. Sua mãe, que já tinha buscado ajuda em psicólogos e até algumas religiões, só tentava que o filho se internasse o quanto antes numa clínica. Em vão. Marcel fugia de cada tentativa, para voltar à sarjeta, onde consumia crack com pessoas na mesma situação desoladora em que ele se encontrava. Todo esse martírio, esse sofrimento desumano que deixava filho e mãe cada vez mais afastados um do outro, seguiu-se em 2013, 14, 15...
Até que, perto de completar 26 anos, sentindo fome, frio, e tendo alucinações horripilantes pela falta da droga, Marcel finalmente bateu na casa de sua mãe para pedir ajuda. Pela primeira vez em anos, Marcel viu como sua mãe tinha envelhecido: as rugas, as olheiras profundas pelas noites de sono mal dormidas, e o olhar de medo visível por não saber a reação que o filho poderia ter, tudo isso parecia evidente agora para Marcel. Que, arrependido até o último fio de cabelo, clamou pela ajuda da mãe.
No mesmo dia, Marcel tomou um banho como a muito tempo não tomava, e pôs uma das poucas peças de roupa que haviam restado no apartamento de sua mãe. Trêmulo e cambaleante, foi levado de carona pela mãe para a melhor clínica da região, e por lá ficou por mais de 30 dias.
Hoje, quase seis meses após a sua alta da clínica, Marcel leva uma vida completamente diferente da que um dia teve. Namorando firme, desta vez uma menina trabalhadora e totalmente “do bem”, Marcel vê agora o olhar de sua mãe, outrora marejado, brilhar de alegria com a nova vida que o filho vem levando. E ele também, pela primeira vez em toda a sua vida, se sente finalmente uma pessoa livre.
Hoje, Marcel vive cada dia como se fosse o último, só que da melhor maneira possível. É por isso que na virada de ano – a primeira que Marcel passará em família em muitos anos – ele quer fazer muitos pedidos para ano de 2017. Pensando no tempo todo que perdeu entregue às drogas (praticamente metade de sua vida), Marcel agora mescla desejos de adulto com desejos de menino ao escrever numa folha de papel quais serão suas metas para o próximo ano:
- fazer atividade física todos os dias;
- pular de bungee jumping;
- fazer um cruzeiro de navio com a sua namorada;
- participar de uma procissão ao lado de sua mãe;
- ajudar uma entidade para pessoas com câncer;
- ajudar um asilo;
- comprar o seu primeiro carro;
- participar de uma corrida ou maratona;
- ter um animal de estimação
- fazer uma língua estrangeira;
- ligar para o pai no mínimo uma vez por semana;
- iniciar uma faculdade para buscar uma graduação;
- conhecer o Rio de Janeiro;
- assistir a um show internacional de rock;
- cuidar de sua alimentação;
- assistir peças teatrais com a mãe e a namorada;
-  escrever um blog;
- agradecer ao criador todas as noites antes de dormir;

 Etecetera, etecetera, etecetera...




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Das tempestades

São tempestades
em copos de água

constantes
desde antanho

das quais somente os copos
desconheço o tamanho.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

DOR NÃO SE COMPARA

Dor não se compara
Não se compara a dor da perda
A dor do coração corado de tristeza
A dor da fome na praça
Dor não se compara
A dor de perder um filho
Não se compara a dor de perder qualquer ente querido
A dor de sentir a pedra na vidraça
Dor não se compara
Não se compara a dor da religião extrema
A dor da invasão sangrenta
A dor de uma mãe perder a guarda
Dor não se compara
A dor da cara suja de lama
Não se compara a dor de nenhum drama
A dor de quem foi levado com a casa
Dor não se compara
Não se compara a dor de se ganhar um rótulo
A dor da intolerância sem modo
A dor do dedo apontado na cara
Dor não se compara
A dor do desgosto pelo trabalho
Não se compara a dor da mãe do presidiário
A dor da mãe da vítima caída na sacada
Dor não se compara
Não se compara a dor do refugiado
A dor do europeu explorado
A dor do extremismo da nossa alma
Dor não se compara