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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Multipolar


Sai. 
Não aguento mais 
olhar a depressão
presente. 

Quer me ajudar de verdade? 

Mais um comprimido
que o efeito
contínuo 
é o que alivia.

... e se não quer me dopar 
(de novo)
devolve a bebida:
conhaque, uísque ou pinga 

Tanto faz.

Se nem isso é permitido,
me deixa sozinho.
Eu não quero olhar para mim,
menos ainda para você.

Sai!

***

Vem.
Estou com saudade
dos namoros, as viagens... Das nossas andanças.
Foram tantas!
Vamos sair para comemorar?
Tocar violão na praia,
fechar os bares,
dormir ao relento.
Viver dias o dia inteiro... 

***

Sai, amor.
Não há vida nesta vida.
Não há retorno.
Nem há sonho.
Me deixa em paz.

***

(de comprimidos 
ele preencheu o espírito
e na montanha subiu
para jogar-se no infinito.
Nem começo ou fim.
Ele está preso
- em coma suspenso -
sem entrar ou sair
de mundo nenhum)

domingo, 30 de setembro de 2012

Despedaçada


Do que estava inteiro, eu quebrei e despedacei. Quantas alucinações cabem num coração esfomeado? Em quantos podemos quebrar quem já está em pedaços?

Se a sua dor me atingisse, seria a minha menor?

Prefiro adoecer sozinha. Doer em prantos sensorizados com fundo musical. Mãos dilaceradas nos apertos e ruídos que não posso conter. Fogem de mim os barulhos que denunciam a loucura iminente. Não me olha assim. Olhar para mim diminui a dor do seu pranto? Fundamenta minha face reconstruída?

Sorrio hoje e todos os dias com a intrepidez de quem mente para viver, de quem mentirá a dor que sente e a felicidade que não possui. Sorrio e não me perguntarão o que me adoece.

Não há cura se a doença sequer chegou a existir. Não a reconheço, ela não está aqui. E de auto-ajuda eu me dilacero em negações eternas. Penso positivamente que todo esse pesar é brincadeira de esconde. Escondo o pranto, parto o tempo em dois e meus pesadelos travestem-se de sonhos coloridos. Cubro escombros com flores e deles finjo jardim.

Chamo de passado, mas não passou. Digo que está vivo, mas te encontro na morte. Desenho-o inteiro, no entanto, desloca seus ruídos em pedaços.

Chamo tristeza e, finalmente!, responde.

Ana Marques


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Nua

 

Deixa-me nua
todas as noites... 
no corpo. 

Mas não desnuda minha alma. 

Nela reside o meu mistério 
o nosso encanto 
a (des)razão que nos une.

Desnude-me e busque
[sem encontrar]
o mistério da alma.

O corpo nu distrai da essência.
Aquela que alimenta
nossa eterna inquietação.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Do não dito

imagem: LoveMeDont

Qual sim [nos olhos]
precisaria ser dito?

Que não [na boca]
foi ouvido?


Com quantos nãos
esse sim
foi desistido?


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Encontro

 
fonte: helix-ifrog

Eu não chamarei o teu nome
enquanto fores fogo
futuro.

Não acalmarei tua mão na minha
... se o teu toque
estiver distante.

É preciso, amor,
que arrisques a perda,
a ausência
e a tortura.

Queres o meu tempo
em tempo contigo?

Dê a mim o teu pensamento
o encontro
e o destino.
 

sábado, 30 de abril de 2011

Leoas


Teu olhar não tem força para me enlouquecer.
[que já sou louca]
Mas atiça leoas em meu interior
que te querem:
caça, alvo, presa.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Galatea

imagem: Eldarko (foto trabalhada pela autora)

Perdoa-me existir
e não ser

[apesar dos sonhos e expectativas]

o que queria pra si?

Perdoa ser eu?
Perdoa não ser
a tua imaginação?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Enchente

imagem: Evgen Bavcar


Solta.
A sua propriedade
se afogou.

Desobstrui.
Todos os seus canais
foram derramados.

Tira suas mãos
da minha vida.
O rosto nesse espelho

sou eu.