Diverso o mundo é tão -
Junto a um bando de normais
Um louco e a solidão.
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sábado, 14 de junho de 2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Santinha do pau oco
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Um dia perguntaram
se o desriso da menina
havia sido o molde
da santa do pau oco
Porque lhe repararam
que a luz que ele atina
é o sorriso sob tolde
que atiça o caboco
Sua pele é morena
Seu olhar, amadouro
Seu cabelo, uma fronde
Tudo na pequena
vale mais que o ouro
que a santa esconde
se o desriso da menina
havia sido o molde
da santa do pau oco
Porque lhe repararam
que a luz que ele atina
é o sorriso sob tolde
que atiça o caboco
Sua pele é morena
Seu olhar, amadouro
Seu cabelo, uma fronde
Tudo na pequena
vale mais que o ouro
que a santa esconde
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Eu mínimo
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Caros, há um tempo fiz um "estudo" de como é ser minimista na poesia. Surgiu como uma análise, ora crítica, da onda de nanos que tomaram conta do Bar em algum tempo. Selecionei desta experimentação oito peças que mostram bem o que penso, às vezes explícita, às vezes implicitamente, nem sempre análise, nem sempre crítica. Eis:
I
Encontrar
no mínimo
arte
II
Caso
Caos
Caso
Saco
Soca
Tear
Reta
Terá
Arte?
III
Conter no título parte da loucura
Dispensar no texto todos os sentidos
IV
Minimista
Escuso
O uso
Do todo
Abuso
O uso
Do nada
V
Texto sem título
Feito mínimo
Podado em pontos
Em vírgulas
Não começa
Não pára
Não pausa
VI
:
...
,
?
;
!
.
VII
Momento
Sem palavras
Ofegos constantes
Pausas eternas
Gestos intensos
Idéias vastas
VIII
A arte do mínimo
Um pitaco, ensaio
Duas rimas, poesia
Três linhas, conto
Quatro passos, crônica
Eis tudo.
I
Encontrar
no mínimo
arte
II
Caso
Caos
Caso
Saco
Soca
Tear
Reta
Terá
Arte?
III
Conter no título parte da loucura
Dispensar no texto todos os sentidos
IV
Minimista
Escuso
O uso
Do todo
Abuso
O uso
Do nada
V
Texto sem título
Feito mínimo
Podado em pontos
Em vírgulas
Não começa
Não pára
Não pausa
VI
:
...
,
?
;
!
.
VII
Momento
Sem palavras
Ofegos constantes
Pausas eternas
Gestos intensos
Idéias vastas
VIII
A arte do mínimo
Um pitaco, ensaio
Duas rimas, poesia
Três linhas, conto
Quatro passos, crônica
Eis tudo.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Tempos modernos
Escrito por
Fernando Maia Jr.
A atualidade de O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin
Da Mesopotâmia ao novo milênio, podemos dizer que a humanidade mudou muito – mas uma análise da obra de Charles Chaplin pode nos levar a afirmar justamente o contrário. Charles Spencer Chaplin, imortalizado na figura do “Tramp” (ou Vagabundo), produziu mais de setenta títulos e buscou revelar, por meio da sétima arte, a essência da natureza humana, levando-nos à comédia através da tragédia – ou à tragédia através da comédia. Talvez por causa de seu cinema mudo, Chaplin nos impõe, a cada filme, o silêncio da reflexão e ainda assim nos diverte com as mais inusitadas cenas. Quando decidiu, com O Grande Ditador (1940), realizar seu primeiro filme totalmente falado (e ele resistiu durante longo tempo a essa idéia), Chaplin sabia o que estava fazendo e – quebrando a reflexão e o silêncio – cravou na nossa história um discurso imortal pela paz.
De tempos em tempos, discursos como estes aparecem na história da humanidade e nas suas mais variadas manifestações: na filosofia, podemos citar Platão; na religião, Cristo; na questão das línguas, Zamenhof; na política, Gandhi; na ciência, Einstein; e no cinema, Chaplin. Isso nos leva a crer que, na sua essência, a humanidade pouco mudou, e a atualidade que ainda se confere ao filme de Chaplin confirma esta idéia.
O Grande Ditador traz Chaplin em papel duplo, encarnando o ditador da Tomania, Adenoid Hynkel (um referência à Alemanha e a Hitler), e um barbeiro judeu, que lutou pelo seu país na Primeira Guerra Mundial. Ao seu lado, desfila um elenco de grandes atores, como Paulette Goddard, vivendo a judia Hannah, Maurice Moscovitch, no papel do velho Sr. Jaeckel, e Reginald Gardiner, como o Comandante Schultz, de quem o barbeiro judeu salvara a vida.
O que Chaplin faz em O Grande Ditador é uma impressionante paródia daquela época, atribuindo nomes familiares a pessoas e lugares e ridicularizando sistemas contra os quais muitas vezes o mundo se sentiu impotente. Os nomes Tomania e Adenoid Hynkel dispensam associação. Mas temos ainda Henry Daniell interpretando Garbitsch, cujo nome significa “lixo” e remete ao alemão Goebbels, uma das pessoas mais próximos a Hitler; e Jack Oakie no papel de Benzino Napaloni, ditador de Bactéria (uma alusão a Mussolini e à Itália e uma brincadeira com o nome de Napoleão). Ainda na paródia, mas na forma de uma bela homenagem, Chaplin desenha um país ameaçado de invasão, Osterlich, que pode funcionar como uma lembrança à Polônia, então sendo invadida pelas tropas de Hitler. Interessante é o uso do Esperanto, pouco notado pelos espectadores. O Esperanto é uma língua associada à cultura de paz e união, criada por um judeu na Polônia, quando esta era território do Império Russo - e, por tudo isso, avidamente perseguido e negado pelo nazismo.
Apesar das referências explícitas aos acontecimentos das décadas de 30 e 40, O Grande Ditador continua atual e é um convite à reflexão acerca dos primeiros acontecimentos do século XXI. Além disso, assistir a esse filme é se permitir conhecer algumas das mais clássicas cenas do cinema, como a sonhadora dança do ditador com o globo terrestre ou a fuga de cabeça para baixo no avião de Schultz.
Nunca será lugar-comum dizer que a obra de Charles Chaplin é uma genialidade. O Garoto (1921), Luzes da Cidade (1931) e Tempos Modernos (1936) são alguns dos grandes títulos inclusos na filmografia básica deste cavalheiro inglês, e O Grande Ditador se junta a ela pelo seu conteúdo e pelo fato de ser o primeiro filme totalmente falado de Chaplin, embora, mesmo aplicando a fala à sua arte, o artista tenha valorizado cenas completamente mudas, onde os únicos envolvidos são os gestos dos artistas e os olhos da platéia que os aprecia.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
– Charles Chaplin, “O Grande Ditador”.
---
O Grande Ditador (EUA, 1940)
Elenco: Charles Chaplin, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Jack Oakie, Paulette Goddard e Maurice Moscovitch.
Direção/Roteiro: Charles Chaplin.
Cor: P&B.
Censura: Livre.
Crítica: CINCO estrelas
Da Mesopotâmia ao novo milênio, podemos dizer que a humanidade mudou muito – mas uma análise da obra de Charles Chaplin pode nos levar a afirmar justamente o contrário. Charles Spencer Chaplin, imortalizado na figura do “Tramp” (ou Vagabundo), produziu mais de setenta títulos e buscou revelar, por meio da sétima arte, a essência da natureza humana, levando-nos à comédia através da tragédia – ou à tragédia através da comédia. Talvez por causa de seu cinema mudo, Chaplin nos impõe, a cada filme, o silêncio da reflexão e ainda assim nos diverte com as mais inusitadas cenas. Quando decidiu, com O Grande Ditador (1940), realizar seu primeiro filme totalmente falado (e ele resistiu durante longo tempo a essa idéia), Chaplin sabia o que estava fazendo e – quebrando a reflexão e o silêncio – cravou na nossa história um discurso imortal pela paz.
De tempos em tempos, discursos como estes aparecem na história da humanidade e nas suas mais variadas manifestações: na filosofia, podemos citar Platão; na religião, Cristo; na questão das línguas, Zamenhof; na política, Gandhi; na ciência, Einstein; e no cinema, Chaplin. Isso nos leva a crer que, na sua essência, a humanidade pouco mudou, e a atualidade que ainda se confere ao filme de Chaplin confirma esta idéia.
O Grande Ditador traz Chaplin em papel duplo, encarnando o ditador da Tomania, Adenoid Hynkel (um referência à Alemanha e a Hitler), e um barbeiro judeu, que lutou pelo seu país na Primeira Guerra Mundial. Ao seu lado, desfila um elenco de grandes atores, como Paulette Goddard, vivendo a judia Hannah, Maurice Moscovitch, no papel do velho Sr. Jaeckel, e Reginald Gardiner, como o Comandante Schultz, de quem o barbeiro judeu salvara a vida.
O que Chaplin faz em O Grande Ditador é uma impressionante paródia daquela época, atribuindo nomes familiares a pessoas e lugares e ridicularizando sistemas contra os quais muitas vezes o mundo se sentiu impotente. Os nomes Tomania e Adenoid Hynkel dispensam associação. Mas temos ainda Henry Daniell interpretando Garbitsch, cujo nome significa “lixo” e remete ao alemão Goebbels, uma das pessoas mais próximos a Hitler; e Jack Oakie no papel de Benzino Napaloni, ditador de Bactéria (uma alusão a Mussolini e à Itália e uma brincadeira com o nome de Napoleão). Ainda na paródia, mas na forma de uma bela homenagem, Chaplin desenha um país ameaçado de invasão, Osterlich, que pode funcionar como uma lembrança à Polônia, então sendo invadida pelas tropas de Hitler. Interessante é o uso do Esperanto, pouco notado pelos espectadores. O Esperanto é uma língua associada à cultura de paz e união, criada por um judeu na Polônia, quando esta era território do Império Russo - e, por tudo isso, avidamente perseguido e negado pelo nazismo.
Apesar das referências explícitas aos acontecimentos das décadas de 30 e 40, O Grande Ditador continua atual e é um convite à reflexão acerca dos primeiros acontecimentos do século XXI. Além disso, assistir a esse filme é se permitir conhecer algumas das mais clássicas cenas do cinema, como a sonhadora dança do ditador com o globo terrestre ou a fuga de cabeça para baixo no avião de Schultz.
Nunca será lugar-comum dizer que a obra de Charles Chaplin é uma genialidade. O Garoto (1921), Luzes da Cidade (1931) e Tempos Modernos (1936) são alguns dos grandes títulos inclusos na filmografia básica deste cavalheiro inglês, e O Grande Ditador se junta a ela pelo seu conteúdo e pelo fato de ser o primeiro filme totalmente falado de Chaplin, embora, mesmo aplicando a fala à sua arte, o artista tenha valorizado cenas completamente mudas, onde os únicos envolvidos são os gestos dos artistas e os olhos da platéia que os aprecia.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
– Charles Chaplin, “O Grande Ditador”.
---
O Grande Ditador (EUA, 1940)
Elenco: Charles Chaplin, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Jack Oakie, Paulette Goddard e Maurice Moscovitch.
Direção/Roteiro: Charles Chaplin.
Cor: P&B.
Censura: Livre.
Crítica: CINCO estrelas
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Resposta
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Em bom português
perguntaram-me
- quem és tu?
Respondi: sou
nem preto, nem branco
Não sou nação bicolor
Sou muitos tons
Brasileiro
Eu sou o riso e a dor
perguntaram-me
- quem és tu?
Respondi: sou
nem preto, nem branco
Não sou nação bicolor
Sou muitos tons
Brasileiro
Eu sou o riso e a dor
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
O escritor e as línguas
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Há uma matéria prima que merece respeito religioso por parte do escritor: a língua. A língua não é apenas uma ferramenta de comunicação; ela é de um povo um símbolo por si só e um conjunto de símbolos que mostra em grande parte o modo como aquele povo define a realidade e o imaginário à sua volta – a língua é a própria cultura do seu povo.
Quantas línguas existem no mundo? Tantas quantas forem as diversas formas de a humanidade vê-lo. Se existem 7.000 línguas, então existem ainda mais de 7.000 maneiras de compreender as coisas ao nosso redor. As línguas, então, são também o símbolo da nossa diversidade e do quão ricos seríamos culturalmente.
Hoje e desde sempre há um desrespeito geral e, em muitos episódios de nossa história, silencioso em relação à questão das línguas. Muitas vezes esse desrespeito torna-se tão sutil, que muitos o praticam sem saber e tantos outros o estimulam, mesmo quando conhecem suas conseqüências ou até mesmo porque as conhecem.
Temos diversos exemplos ao longo da história humana de algumas poucas línguas que cresceram e outras muitas que sumiram. Com o crescimento das primeiras, tivemos, sim, certas vantagens, como uma comunicação mais generalizada, mas com o desaparecimento das segundas, quanto não teremos perdido?
Os escritores, amadores ou profissionais, amantes das letras, são, talvez, as pessoas que mais próximas estão das línguas como matéria palpável, possível de carinho ou violação. No entanto, nem todos sequer perguntaram a si mesmo o que pensam sobre a questão das línguas.
Devemos nos conformar com a supressão de uma língua sobre várias outras, encarando-a como processo natural? Devemos lutar contra esta supressão? Como devemos encarar a evolução das línguas? Será passível de controle uma evolução assim? Tudo isso não contém uma simples gramática! São necessárias teses e teses para que enxerguemos o todo de tal problema – e na construção dessas teses muitas ainda se contradirão. Mas é, sim, possível, e até conveniente, que os escritores, nas academias ou num bar, discutam a questão.
Atualmente, o mais discutido fato no mundo das línguas é, sem dúvida, a situação do inglês perante todas as outras mais de 6.000 línguas que a humanidade, por direito, pode falar. E no que concerne aos brasileiros, perante o nosso português do Brasil.
Da mesma forma, também podemos fazer um análogo, dentro do nosso universo, da situação entre esta língua e as línguas indígenas de nossos compatriotas (também nossas). Em todos os casos, há muitos problemas – uns mais visíveis, outros menos – envolvidos nesta relação; e poucas soluções.
Quanto ao inglês, hoje em dia os jovens brasileiros – e também os velhos – são obrigados, sem direito de escolha, a aprender a língua da Rainha Vitória nos moldes do Tio Sam. Há um consenso geral sobre a importância do inglês, e às vezes essa importância é tão elevada, que chegamos a amar a língua bárbara sem percebermos. E esse amor evolui a tal ponto, que nossa própria cultura torna-se-nos estranha. Para os escritores, esse é um grande perigo. A partir do momento em que essa tragédia ocorre, ou seja, a partir do momento em que negamos que o reflexo no espelho da língua somos nós mesmos, deixamos os escritores de representar uma cultura, passamos a ser planetas sem estrela que nos assegure uma órbita. Isso porque não nos tornamos incapazes de escrever – ainda escrevemos, mas sobre e por símbolos que não conhecemos, e nossa arte é, portanto, negada por todos.
Hoje, muitos jovens escritores no Brasil sonham em produzir nos moldes da subcultura dita americana, entenda-se exatamente como os estadunidenses e para os estadunidenses. Restarão no limbo. Pois o que produzirão será medíocre aos nossos olhos e aos olhos deles.
Nesse sentido, o escritor brasileiro esclarecido deve entender a sua cultura, evoluí-la, divulgá-la, escorrê-la. Mesmo para renovar ou inovar, é preciso que o escritor conheça o “material” com que a todo tempo lida. E se avance para além de outras culturas, também o conhecimento de sua própria cultura é fundamental, pois o que mais se espera de um escritor transnacional é o alcance de uma universalidade fundamentada na fusão da diversidade. Só assim é que nós, escravos e escravas das letras, permitiremos que nossa cultura continue senhora de si mesma, não cega às outras senhoras, mas digna de andar com elas no mesmo salão, com a mesma força e presença.
Do mesmo modo, se não somos hipócritas, devíamos também cultivar as outras línguas que, por direito, são nossas e de mais ninguém. Se não os brasileiros, quem cuidará das nossas línguas indígenas? Hoje nos perdemos nos encantos do português de Machado, mas quantos conhecessem, de fato, o brado de Lima? Se nos deslumbramos com o português a tal ponto que minguam sem serem notadas nossas outras línguas, não estaremos, então, sendo os “americanos” de nós mesmos? O Brasil possui ainda cerca de 200 línguas, das quais poucos brasileiros são capazes de sequer citar alguns nomes.
O escritor, como o portador do estandarte da cultura de um povo, deve com tal segurança conhecer suas línguas, que sua geração, por meio dessa segurança, estará protegida quando lidando com línguas estrangeiras. Os modernistas notaram já de muito um bom caminho, mostrado pelos primeiros brasileiros: a antropofagia. Pois a negação da antropofagia cultural leva a uma autofagia que, por sua vez, pouco frutifica; ou ainda a uma entrega de si mesmo a outro mundo, estrangeiro, estranho.
Passou o tempo em que as culturas estavam isoladas. Hoje elas se tocam mais do que nunca, embora poucas realmente se conheçam. Nesta relação, as culturas não deveriam se sufocar, mas ser participadas. E aquilo que antes causara empobrecimento, amanhã gerará apenas riqueza, a maior delas, pois não é para a humanidade a cultura a sua maior riqueza?
Essa mesma humanidade ainda tem muito a aprender sobre a questão das línguas. Em tantos milênios, pouco se evoluiu de fato, porque a História tem apenas repetido os mesmos quadros, assinados, porém, por nomes diferentes. E na confecção desses quadros, o escritor tem papel fundamental, dentre outras coisas, como artista. A língua até pode ser usada como uma ferramenta para representar à letra nossa mediocridade, mas arte em si já deixou há tempos o papel de simples imitadora – porque hoje a humanidade já compreende que a arte não imita, mas transforma. Pensam alguns que amanhã será maior o número dos que falarão sobre democracia lingüística. Mas nós, como escritores, falemos disso desde então, e protejamos nossa maior matéria prima, e adiantemos o tempo, porque este poder nos foi dado.
Quantas línguas existem no mundo? Tantas quantas forem as diversas formas de a humanidade vê-lo. Se existem 7.000 línguas, então existem ainda mais de 7.000 maneiras de compreender as coisas ao nosso redor. As línguas, então, são também o símbolo da nossa diversidade e do quão ricos seríamos culturalmente.
Hoje e desde sempre há um desrespeito geral e, em muitos episódios de nossa história, silencioso em relação à questão das línguas. Muitas vezes esse desrespeito torna-se tão sutil, que muitos o praticam sem saber e tantos outros o estimulam, mesmo quando conhecem suas conseqüências ou até mesmo porque as conhecem.
Temos diversos exemplos ao longo da história humana de algumas poucas línguas que cresceram e outras muitas que sumiram. Com o crescimento das primeiras, tivemos, sim, certas vantagens, como uma comunicação mais generalizada, mas com o desaparecimento das segundas, quanto não teremos perdido?
Os escritores, amadores ou profissionais, amantes das letras, são, talvez, as pessoas que mais próximas estão das línguas como matéria palpável, possível de carinho ou violação. No entanto, nem todos sequer perguntaram a si mesmo o que pensam sobre a questão das línguas.
Devemos nos conformar com a supressão de uma língua sobre várias outras, encarando-a como processo natural? Devemos lutar contra esta supressão? Como devemos encarar a evolução das línguas? Será passível de controle uma evolução assim? Tudo isso não contém uma simples gramática! São necessárias teses e teses para que enxerguemos o todo de tal problema – e na construção dessas teses muitas ainda se contradirão. Mas é, sim, possível, e até conveniente, que os escritores, nas academias ou num bar, discutam a questão.
Atualmente, o mais discutido fato no mundo das línguas é, sem dúvida, a situação do inglês perante todas as outras mais de 6.000 línguas que a humanidade, por direito, pode falar. E no que concerne aos brasileiros, perante o nosso português do Brasil.
Da mesma forma, também podemos fazer um análogo, dentro do nosso universo, da situação entre esta língua e as línguas indígenas de nossos compatriotas (também nossas). Em todos os casos, há muitos problemas – uns mais visíveis, outros menos – envolvidos nesta relação; e poucas soluções.
Quanto ao inglês, hoje em dia os jovens brasileiros – e também os velhos – são obrigados, sem direito de escolha, a aprender a língua da Rainha Vitória nos moldes do Tio Sam. Há um consenso geral sobre a importância do inglês, e às vezes essa importância é tão elevada, que chegamos a amar a língua bárbara sem percebermos. E esse amor evolui a tal ponto, que nossa própria cultura torna-se-nos estranha. Para os escritores, esse é um grande perigo. A partir do momento em que essa tragédia ocorre, ou seja, a partir do momento em que negamos que o reflexo no espelho da língua somos nós mesmos, deixamos os escritores de representar uma cultura, passamos a ser planetas sem estrela que nos assegure uma órbita. Isso porque não nos tornamos incapazes de escrever – ainda escrevemos, mas sobre e por símbolos que não conhecemos, e nossa arte é, portanto, negada por todos.
Hoje, muitos jovens escritores no Brasil sonham em produzir nos moldes da subcultura dita americana, entenda-se exatamente como os estadunidenses e para os estadunidenses. Restarão no limbo. Pois o que produzirão será medíocre aos nossos olhos e aos olhos deles.
Nesse sentido, o escritor brasileiro esclarecido deve entender a sua cultura, evoluí-la, divulgá-la, escorrê-la. Mesmo para renovar ou inovar, é preciso que o escritor conheça o “material” com que a todo tempo lida. E se avance para além de outras culturas, também o conhecimento de sua própria cultura é fundamental, pois o que mais se espera de um escritor transnacional é o alcance de uma universalidade fundamentada na fusão da diversidade. Só assim é que nós, escravos e escravas das letras, permitiremos que nossa cultura continue senhora de si mesma, não cega às outras senhoras, mas digna de andar com elas no mesmo salão, com a mesma força e presença.
Do mesmo modo, se não somos hipócritas, devíamos também cultivar as outras línguas que, por direito, são nossas e de mais ninguém. Se não os brasileiros, quem cuidará das nossas línguas indígenas? Hoje nos perdemos nos encantos do português de Machado, mas quantos conhecessem, de fato, o brado de Lima? Se nos deslumbramos com o português a tal ponto que minguam sem serem notadas nossas outras línguas, não estaremos, então, sendo os “americanos” de nós mesmos? O Brasil possui ainda cerca de 200 línguas, das quais poucos brasileiros são capazes de sequer citar alguns nomes.
O escritor, como o portador do estandarte da cultura de um povo, deve com tal segurança conhecer suas línguas, que sua geração, por meio dessa segurança, estará protegida quando lidando com línguas estrangeiras. Os modernistas notaram já de muito um bom caminho, mostrado pelos primeiros brasileiros: a antropofagia. Pois a negação da antropofagia cultural leva a uma autofagia que, por sua vez, pouco frutifica; ou ainda a uma entrega de si mesmo a outro mundo, estrangeiro, estranho.
Passou o tempo em que as culturas estavam isoladas. Hoje elas se tocam mais do que nunca, embora poucas realmente se conheçam. Nesta relação, as culturas não deveriam se sufocar, mas ser participadas. E aquilo que antes causara empobrecimento, amanhã gerará apenas riqueza, a maior delas, pois não é para a humanidade a cultura a sua maior riqueza?
Essa mesma humanidade ainda tem muito a aprender sobre a questão das línguas. Em tantos milênios, pouco se evoluiu de fato, porque a História tem apenas repetido os mesmos quadros, assinados, porém, por nomes diferentes. E na confecção desses quadros, o escritor tem papel fundamental, dentre outras coisas, como artista. A língua até pode ser usada como uma ferramenta para representar à letra nossa mediocridade, mas arte em si já deixou há tempos o papel de simples imitadora – porque hoje a humanidade já compreende que a arte não imita, mas transforma. Pensam alguns que amanhã será maior o número dos que falarão sobre democracia lingüística. Mas nós, como escritores, falemos disso desde então, e protejamos nossa maior matéria prima, e adiantemos o tempo, porque este poder nos foi dado.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Esperanto
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Kiom gravas koro
Plena de varmega sango
Se neniom da spirito
De iu vera amo?
Plena de varmega sango
Se neniom da spirito
De iu vera amo?
domingo, 14 de outubro de 2007
Campana dos desalentos
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Vejo os rebentos
Deste país e seus desalentos
Vejo a herança africana
Que se perpetua e se dana
Vejo isso pelos olhos remelentos
Pelas lágrimas de seus lamentos
Vejo a miséria humana
Desde o corte da cana
E até na semente dos seus nascimentos
Vejo tudo sem os grandes intentos
Salvadores do neto de Santana
E são dores quentes que não abana
Nem o vento da esperança
......................[dos sagrados Testamentos
Dormem sob frios firmamentos
Pálidos como xícaras de porcelana
Sem uma prece que faça soar a campana
Tímida dos seus estrondosos tormentos
Muitos vivem na ignorância dos acontecimentos
E eles, uma vida que desengana
São como os rebentos do tempo
......................[em que a Terra ainda era plana
Deste país e seus desalentos
Vejo a herança africana
Que se perpetua e se dana
Vejo isso pelos olhos remelentos
Pelas lágrimas de seus lamentos
Vejo a miséria humana
Desde o corte da cana
E até na semente dos seus nascimentos
Vejo tudo sem os grandes intentos
Salvadores do neto de Santana
E são dores quentes que não abana
Nem o vento da esperança
......................[dos sagrados Testamentos
Dormem sob frios firmamentos
Pálidos como xícaras de porcelana
Sem uma prece que faça soar a campana
Tímida dos seus estrondosos tormentos
Muitos vivem na ignorância dos acontecimentos
E eles, uma vida que desengana
São como os rebentos do tempo
......................[em que a Terra ainda era plana
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Carta aos amigos
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Romperam-se as grossas teias da rotina da minha caixa de correios. De dias em dias, somente propagandas desinteressantes e contas a pagar pousavam por ali. Ontem, porém, um pacote diferente se fez notar: não vinha naqueles envelopes padrões, sem graça, trabalhados mecanicamente, mas num envelope branco, algo amassado, comum e, ainda assim, lembrando os tempos do romantismo, quando amigos trocavam correspondências por esta moda antiga; e sobre o evelope, nada das letras frias impressas por computador, mas traços de caneta azul, pelos quais se liam: Giovani Iemini.
Era uma correspondência do Bar do Escritor! Eu, que reclamava da mesmice de propagandas e contas, poderia encontrar ali justamente isso: uma propaganda do nosso movimento e um anexo, falando da pendura e das minhas dívidas para com o bar. Mas seria totalmente diferente! Abri avidamente o pacote, e o seu conteúdo moderno contrastou com aqueles ares de outrora. Numa total marginália, impresso, estava em minhas mãos o primeiro produto físico dos escrevinhadores brasileiros que, aproveitando o que nossos tempos permitem, se reuniram numa gigante, mas virtual mesa de bar para falar do que mais lhes agradava: todo e qualquer tipo de literatura.
O "zine zero", como chamou o Gígio, me fez pensar em muitas coisas, mas estava difícil organizar todas as idéias. Juro que decidi acompanhar a leitura com uma lata de cerveja ou mesmo um copo ou de cachaça ou de vodka, para ajudar a construir o pensamento. Não me decidi rápido quanto à isso e, embora tenha dispensado a cerveja, me servi da vodka e abri a cachaça envelhecida, que havia alguns dias eu tinha comprado. E não me importava misturar as coisas, o próprio "zine zero" pedia isso.
A leitura não foi rápida nem longa; o zine era um pequeno livreto, mas suas letras pediam tempo, tal qual aquela sobremesa, que não queremos comer de uma garfada, ou aquela noite de sexo, que poderia durar horas. Comi poesias, contos e opiniões, e na embriaguez daquelas letras, tudo me caiu bem. Arrotei o bar ou acendi um cigarro (se estamos falando da sobremesa ou do sexo), pensei e dormi.
Quais são os sonhos do bar? E que roteiro louco seguirão ele e seus freqüentadores? Até onde chegará sua arte? Expandir-se-á ou será reduzida? E em quais tempos caminhará: no futuro bom que a esperança firme de alguns textos do Wilson sugere ou na distopia trazida pelas indigestas palavras do Velho China? Será gracioso como o sertanismo de Muryel de Zoppa ou luxurioso como o goticismo da Me?
Não sei como é o bar nem como será: as crônicas do Klotz nos mostram, mesmo quando tecem críticas muito convenientes, um presente bom, leve e bem-humorado, como é típico dos "happy hours" dos melhores bares de Brasília; por outro lado, os conflitos das poesias de Larissa Marques nos remetem àquelas noites sofridas, solitárias, que preenchemos com goles de conhaque, mergulhados num silêncio íntimo e rodeados pelo barulho das mesas vizinhas. O sarcasmo do Mão Branca constrói um salão de sinuca, em que um descompromisso marginal se faz ver na marola da fumaça dos cigarros e ouvir no clac!-clac! das bolas coloridas, socando-se umas as outras. E, enquanto isso, as rimas do André e do Anderson o transformam naqueles cafés simpáticos ou refinados de Recife ou de Sampa.
Acho que o bar é indefinível; é confuso. Nele, encontramos descrença e esperança; máscaras e revelação; vida pública e impulsos íntimos. O bar é brasileiro e universal. É nano e tera. É a diversidade dos nossos tempos e a liberdade de expressão; é para o dia e para a noite, para o sol e para a chuva, para Bukowski e para Oswald de Andrade. Afinal, o que esperar de um bar de escritores? Este bar é o que somos e queremos ser.
Amigos... Saúde!
Era uma correspondência do Bar do Escritor! Eu, que reclamava da mesmice de propagandas e contas, poderia encontrar ali justamente isso: uma propaganda do nosso movimento e um anexo, falando da pendura e das minhas dívidas para com o bar. Mas seria totalmente diferente! Abri avidamente o pacote, e o seu conteúdo moderno contrastou com aqueles ares de outrora. Numa total marginália, impresso, estava em minhas mãos o primeiro produto físico dos escrevinhadores brasileiros que, aproveitando o que nossos tempos permitem, se reuniram numa gigante, mas virtual mesa de bar para falar do que mais lhes agradava: todo e qualquer tipo de literatura.
O "zine zero", como chamou o Gígio, me fez pensar em muitas coisas, mas estava difícil organizar todas as idéias. Juro que decidi acompanhar a leitura com uma lata de cerveja ou mesmo um copo ou de cachaça ou de vodka, para ajudar a construir o pensamento. Não me decidi rápido quanto à isso e, embora tenha dispensado a cerveja, me servi da vodka e abri a cachaça envelhecida, que havia alguns dias eu tinha comprado. E não me importava misturar as coisas, o próprio "zine zero" pedia isso.
A leitura não foi rápida nem longa; o zine era um pequeno livreto, mas suas letras pediam tempo, tal qual aquela sobremesa, que não queremos comer de uma garfada, ou aquela noite de sexo, que poderia durar horas. Comi poesias, contos e opiniões, e na embriaguez daquelas letras, tudo me caiu bem. Arrotei o bar ou acendi um cigarro (se estamos falando da sobremesa ou do sexo), pensei e dormi.
Quais são os sonhos do bar? E que roteiro louco seguirão ele e seus freqüentadores? Até onde chegará sua arte? Expandir-se-á ou será reduzida? E em quais tempos caminhará: no futuro bom que a esperança firme de alguns textos do Wilson sugere ou na distopia trazida pelas indigestas palavras do Velho China? Será gracioso como o sertanismo de Muryel de Zoppa ou luxurioso como o goticismo da Me?
Não sei como é o bar nem como será: as crônicas do Klotz nos mostram, mesmo quando tecem críticas muito convenientes, um presente bom, leve e bem-humorado, como é típico dos "happy hours" dos melhores bares de Brasília; por outro lado, os conflitos das poesias de Larissa Marques nos remetem àquelas noites sofridas, solitárias, que preenchemos com goles de conhaque, mergulhados num silêncio íntimo e rodeados pelo barulho das mesas vizinhas. O sarcasmo do Mão Branca constrói um salão de sinuca, em que um descompromisso marginal se faz ver na marola da fumaça dos cigarros e ouvir no clac!-clac! das bolas coloridas, socando-se umas as outras. E, enquanto isso, as rimas do André e do Anderson o transformam naqueles cafés simpáticos ou refinados de Recife ou de Sampa.
Acho que o bar é indefinível; é confuso. Nele, encontramos descrença e esperança; máscaras e revelação; vida pública e impulsos íntimos. O bar é brasileiro e universal. É nano e tera. É a diversidade dos nossos tempos e a liberdade de expressão; é para o dia e para a noite, para o sol e para a chuva, para Bukowski e para Oswald de Andrade. Afinal, o que esperar de um bar de escritores? Este bar é o que somos e queremos ser.
Amigos... Saúde!
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Tempo perdido
Escrito por
Fernando Maia Jr.
De todos os casos
E tantos por acaso
Que eu tive
Não vi um que deu fruto
Durou mais que minutos
Algum em que me contive
Quando presente os faço
Se os relembro ou refaço
Não sei bem o que espero
Sinto-me condenado
Quem me rouba é o passado
E o futuro é um desespero
O pior, contudo
Não é meu juiz saber tudo
O que contra mim depõe
É que, se dá tempo, não sei
Já são dez pras seis
E o sol se põe
E tantos por acaso
Que eu tive
Não vi um que deu fruto
Durou mais que minutos
Algum em que me contive
Quando presente os faço
Se os relembro ou refaço
Não sei bem o que espero
Sinto-me condenado
Quem me rouba é o passado
E o futuro é um desespero
O pior, contudo
Não é meu juiz saber tudo
O que contra mim depõe
É que, se dá tempo, não sei
Já são dez pras seis
E o sol se põe
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Imperfeito
Escrito por
Fernando Maia Jr.
Na gana de parecer perfeito
Zelo pouco pelo conteúdo
Quanto à forma, contudo
Esmero para causar efeito
Eis o meu defeito!
Parecer o que não sou...
Zelo pouco pelo conteúdo
Quanto à forma, contudo
Esmero para causar efeito
Eis o meu defeito!
Parecer o que não sou...
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Um tiro para cima
Escrito por
Fernando Maia Jr.
É tropeçando que as coisas vão andando
Rimas férteis em solo duro e sombrio
Oram por um vento que para outro solo as levem
E vai passando o tempo, e vai passando o brio
Mas ainda assim, com elas vai o sonho
E com o sonho, a esperança de seguir
Tropeço, tropeço, sopra o vento
Sonho, se sou sultão, tu és vizir
Me grita, então, a este ouvido surdo
As ondas sonoras do bater mudo do meu coração
Se eu sou turco, tu serás o curdo
Que me trará o fogo da ira de viver
E como fogo, eu consumirei tudo
E por causa de ti, sonho, eu serei o mais glutão
Sultão morto neste sonho louco e turvo
Me consumirei até não mais ser.
Não mais sendo, serei só sonho
Sonho sonhado, gasto como amor
E não terá vento que sopre a ira deste fogo
Já me consumi, e não mais sou
Sultão
Glutão
Bufão
Fim.
Rimas férteis em solo duro e sombrio
Oram por um vento que para outro solo as levem
E vai passando o tempo, e vai passando o brio
Mas ainda assim, com elas vai o sonho
E com o sonho, a esperança de seguir
Tropeço, tropeço, sopra o vento
Sonho, se sou sultão, tu és vizir
Me grita, então, a este ouvido surdo
As ondas sonoras do bater mudo do meu coração
Se eu sou turco, tu serás o curdo
Que me trará o fogo da ira de viver
E como fogo, eu consumirei tudo
E por causa de ti, sonho, eu serei o mais glutão
Sultão morto neste sonho louco e turvo
Me consumirei até não mais ser.
Não mais sendo, serei só sonho
Sonho sonhado, gasto como amor
E não terá vento que sopre a ira deste fogo
Já me consumi, e não mais sou
Sultão
Glutão
Bufão
Fim.
sábado, 14 de abril de 2007
A Fortaleza
Escrito por
Fernando Maia Jr.
A Fortaleza
Grande confusão se desenrola
Por trás dos muros daquela fortaleza
Que, distante, sugere ao viajante
O equilíbrio das impávidas durezas
Como uma torre que se ergue sábia
Uma sombra formal lança ao baixio
E sufoca no alto da montanha fria
Seu sofrer surdo, já feito silêncio
No seu íntimo corre da revolta o sangue
Não mina; é secreto, oculto, interno
E no incoágulo dos conflitos constantes
Um transbordo aguarda inquieto
De tão longe às vezes passa indiferente
Na falsa defesa das paredes sem escoramento
E sem a provisão de um amor que a sustente
Rui no morno dos seus próprios sentimentos
A revolta incontida, já sem força, triste
Então faria dos blocos de pedra pó
E o viajante em retorno, o olhar em riste
Veria a fortaleza ruína e só.
Grande confusão se desenrola
Por trás dos muros daquela fortaleza
Que, distante, sugere ao viajante
O equilíbrio das impávidas durezas
Como uma torre que se ergue sábia
Uma sombra formal lança ao baixio
E sufoca no alto da montanha fria
Seu sofrer surdo, já feito silêncio
No seu íntimo corre da revolta o sangue
Não mina; é secreto, oculto, interno
E no incoágulo dos conflitos constantes
Um transbordo aguarda inquieto
De tão longe às vezes passa indiferente
Na falsa defesa das paredes sem escoramento
E sem a provisão de um amor que a sustente
Rui no morno dos seus próprios sentimentos
A revolta incontida, já sem força, triste
Então faria dos blocos de pedra pó
E o viajante em retorno, o olhar em riste
Veria a fortaleza ruína e só.
quarta-feira, 14 de março de 2007
(de Fernando Maia Jr.)
Escrito por
MPadilha
Ser escritor. Como definir isto? Quem pode e quem não pode dizer ser um escritor? Pode-se dizer que há escritores profissionais e escritores amadores? Se etendermos profissional como aquele que é remunerado pelo trabalho que executa e, em oposição, amador como aquele que pratica a arte por gosto e não para alcançar qualquer benefício monetário, sim, podemos dizer que há tais tipos de escritor. Mas provavelmente ambos trazem em si pelo menos uma coisa em comum: a necessidade de escrever.
Esta necessidade não é um vício, mas um pedido da própria natureza do escritor - da mesma forma como a fome é um pedido do corpo fraco e o dinheiro, do sistema. Um escritor vive escrevendo, hoje nas telas dos computadores, há pouco à máquina de escrever, ontem com a pena sobre o papel amarelado, no couro, no papiro, na pedra, na areia, no guardanapo - sempre no pensamento. Um escritor observa e escreve - ainda que o escrito se perca no amplo da sua mente e que nunca mais o próprio escritor se lembre do que escreveu. E muitas vezes sequer é preciso observar - basta que se pense e lá está o escritor; se tender a ensaísta, a dissertar; se tender a poeta, a construir ritmos, organizar rimas; se tender a prosista, a narrar, a descrever.
Porque a arte da escrita está intimamente ligada à personalidade do escritor e à maneira como ele escreve e porque ele próprio pode criar personalidades para que escrevam no lugar dele, tal arte é uma das que mais representa a diversidade não apenas humana, mas universal, pois não há átomo neste universo que um dia não venha a ser descrito nem pensamento nesta humanidade que um dia não venha a ser abordado pelas letras de um escritor ou de seus heterônimos. Tudo isso causado pela simples necessidade do escritor de escrever.
Há quem diga que a maior necessidade do escritor é a de ser lido. Entretanto, isto é apenas uma consequência, a de fazer germinar a arte produzida, porque o leitor é a terra fértil ou infértil a que o escritor arrisca lançar suas sementes, desejoso de vê-las crescer como um pai ou uma mãe carinhosos em relação a seus filhos. Daí podem surgir matas grandiosas ou pequenos jardins, um bosque bonito ou um pântano feio - mas estas metáforas não são as verdadeiramente imprescindíveis para se definir o que é ser escritor e sua fatalidade: escrever para viver!
Fernando Maia Jr.
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