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quinta-feira, 5 de março de 2009

Assassinato na Avenida paulisrta


Exercício proposto pelo Prof. Marco Antunes na oficina literária da Câmara dos Deputados: Conte-nos como, onde e quem matou Adelaide Santoro numa história de suspense que não pode ter mais que dez linhas.

Era tarde, por volta das oito horas da noite. Antes de sair tranquei os arquivos e levei um café para a doutora Adelaide Santoro. Ela estava pálida, estranha. Perguntei se ela estava bem. Agitada, estalava os dedos e olhou duas vezes para o enorme relógio da parede. Jamais tive liberdades com a doutora, mesmo assim ainda perguntei se ela queria desabafar comigo. Respondeu-me que não, que eu poderia ir embora e que já havia chamado um táxi para levá-la para casa. Todos nós, do escritório, sabíamos que o doutor Santoro guardava um revólver na gaveta direita da escrivaninha. Tenho certeza que não havia mais ninguém nas salas. Todos já haviam saído. Juro que não fui eu quem matou a Doutora Adelaide Santoro.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Crianças sempre embaraçam a gente

— Por que eu tenho que colocar roupa?
— Por que o papai tem de trabalhar e você não?
— Por que a sua mão treme?
— Por que suas fotos, quando criança, não são coloridas?
— Por que isso? — Por que aquilo? — Por quê?
— Por que essa menina faz tantas perguntas?
Todo sábado é a mesma coisa. Ainda bem. Filho e nora deixam a netinha aqui em casa e saem para o cinema, vão a algum casamento, se reúnem na casa do Vinícius ou recebem alguém em casa. Eles sempre têm alguma coisa para fazer e deixam a pequena aqui em casa. Fazem isso por eles e por nós, avós corujas.
Ana Beatriz é um doce, muito quietinha. Chega de pijama de flanela, pede colo e uma historinha antes de dormir. Os olhinhos fecham, a cabeça cai e a levo para a cama. Aninha é querida. Não levanta no meio da noite, não faz xixi na cama, nem pede por papai ou mamãe. Apenas dorme profundamente, abraçada ao travesseiro.
Acredito sinceramente que, à noite, um duende verde confunde a menina com um brinquedo e dá corda. De manhã, junto com o canto dos passarinhos, Aninha acorda serelepe, matraca e perguntadeira.
— Vô? — pulando na cama — Posso deitar na sua cama? — cutuca a sola do meu pé com o dedinho — Por que você não tem cócegas no pé? Cadê a vó? Ela tá fazendo pão de queijo?
— Você não ia se deitar na cama? — Pergunto, enquanto estalo um beijo na testa despenteada.
— A gente vai para o zoológico depois do café? — Correndo para o banheiro.
— Vamos ver a girafa, o elefante, o jacaré e os macacos.
Aninha já estava no banheiro espremendo a pasta de dentes.
— A pasta de listrinhas vermelhas já acabou?
— A vovó comprou essa azulzinha especialmente para você.
— É verdade que a vó usa dentadura?
— Não. A vovó não usa dentadura. Ela pode morder a sua bochecha.
— Hoje de manhã ouvi a vó rezando na hora de levantar. Você não reza?
— Algumas pessoas rezam em voz alta e outras rezam baixinho.
— Eu nunca vi você rezar. Você tem um terço?
— Não querida. Eu não tenho terço. Aquele ali é da vó.
— A bisa me ensinou a rezar em alemão. Ich bin klein. Mein Herz ist rein. Soll niemand drin wohnen als Jesus allein*.
— Que bonitinha. Fale de novo, mais devagarzinho, senão o bom Deus não compreende.
— Deus fala alemão ou português?
— Deus entende todas as línguas.
— A tia da escola disse que os índios falavam uma língua que ninguém entendia.
— Os índios falavam uma língua que os portugueses não entendiam.
— A tia disse que os índios não acreditavam em Deus.
— Muitos não acreditam em Deus.
— Por que alguns acreditam em Deus e por que outros não acreditam?
— O deus dos índios é diferente daquele em que nós acreditamos.
— A mãe do Felipe não é índia. E não acredita em Deus.
Fugindo da pressão, segurei a mão da Aninha e a levei para a cozinha.
— Bom-dia querida! Olha só quem eu trouxe! O pão de queijo já está pronto?
Ana agarrou-se ao pescoço da avó e tascou um beijo lambuzado de pasta de dentes.
— Vó, por que alguns acreditam em Deus e outros não?
— Meu anjinho, vista uma roupinha. O pão de queijo está quase pronto. Alfredo, ajude sua neta.
A menina olhou para mim e fez beicinho de quem não recebeu a resposta nem comeu o pão de queijo.
Fui com ela até o quarto onde estava a sacola com a roupa.
— Hoje nós vamos ao zoológico. Você tem medo de lobo mau?
— Eu não. Lobo mau não existe.
— Tem alguma coleguinha que tem medo do lobo mau?
— O Rodrigo tem medo.
— Então, ele acredita em lobo mau?
— A Maria Alice também acredita.
— Então, Aninha, é assim: alguns acreditam e outros não acreditam. Como em Deus.
A menina abriu um enorme sorriso, correu para a cozinha e eu fiquei aliviado.
— Vó, Deus é como um lobo bom. Não é?
Ainda bem que o pão de queijo ficou pronto.

* Versão para a oração infantil:
Sou pequenino. Meu coração é puro. Nele mora Jesus menino.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Torpedos desclassificados

No sábado recebi um torpedo no meu celular:
“mae vo viajar com uma miga dumingo volto”

Li duas vezes. E, apesar de não ser espelho, refleti que não sou mãe, que meus filhos estão reunidos comigo e que eles não cometeriam tantos crimes ao vernáculo em apenas uma linha. Conclui que aquela mensagem não era para mim. Era um engano.
Deixei por isso mesmo.
Hoje, segunda-feira, recebo outro torpedo telefônico:

“Vo almoca com uma amigas”

Pela linguagem capenga, julgo que seja a mesma pessoa.
Ameaço ignorar, entretanto a ironia coçou e se fez presente.

“Você já almoçou. Comeu um U, uma cedilha e um S.”
Enviei e, para surpresa minha, veio a resposta:

“Nao fui ainda”


Calei-me. Eu seria desagradável se respondesse que almoçou sim, e, de sobremesa comeu o til.

sábado, 5 de abril de 2008

Pão com tertúlias

No intervalo entre uma crônica e um conto de Machado de Assis, durante a oficina literária, levantei-me e servi ao grupo umas fatias de pão caseiro trazidas de casa.
Dizem que tenho que sair da minha zona de conforto, sempre escrevendo crônicas bem humoradas. Foi exatamente o que resolvi fazer. Não levei nenhuma crônica para o encontro. Saí do escritório e fui à cozinha. Deixei meu público restrito e atirei-me às massas. Massa de pão mais especificamente. Levei dois recipientes com 16 contadas fatias de pão. Destampei ambos e estendi para o grupo da esquerda e logo em seguida ofereci para o grupo da direita.
Na verdade devo informar aos leitores que era à minha direita ou à minha esquerda, ninguém ali estava preocupado com posições políticas. Machado ensinou-nos que às vezes devemos lembrar ao leitor que ele não faz parte da história, para ele não se condoer de dores por algum personagem e também que não adianta salivar, pois não vai provar nenhuma fatia do cheiroso pão que está sendo compartilhado por vorazes bocas famintas de onze horas da manhã.
Aos olhares femininos, preocupados com a redonda forma, do pão, é lógico, externei, brincalhão, que aquele alimento era light. Em vez das previstas três xícaras de óleo na receita, eu havia colocado apenas meia xícara.
Mais importante que a receita é o momento certo e modo certo de servir. O momento é bem próximo da hora do almoço e a quantidade deve ser tal que todos possam provar, mas apenas alguns possam repetir. O que deixará em todos a sensação de desejo não totalmente satisfeito. A sensação do prazer, próximo do orgasmo, porém sem o gozo.
O mestre, na posição de líder deu-se ao direito de comer uma segunda fatia para retornar energizado a leitura de outra crônica. Saboreamos Machado enquanto o odor do pão fresco ainda persistia no ambiente e nas mentes.
Ao final da aula, desta vez, não ouvi nenhuma crítica em relação aos meus textos. Nem positiva nem negativa. Várias colegas, gentilmente pediram a receita. Percebi como elogio ao meu trabalho.
Reparei que o professor correu para pegar a derradeira fatia. Ele não elogiou, mas o gesto demonstrou que gostou que eu saísse da minha zona de conforto.

Os ingredientes:

2 tabletes de fermento biológico (30g) – utilizei 3 envelopes de 11g com validade vencida e mesmo assim deu certo
1 colher (sopa) de açúcar
1½ xícara de água morna
1 embalagem de creme de cebola
3 xícaras de farinha de trigo

O modo de fazer:

Unte uma forma de pão. – É bom que a forma seja das grandes (28x11cm) porque a massa cresce um bocado e depois transborda no fogão provocando uma lambança federal além da fedentina de pão queimado. Na dúvida, use duas formas. Um pão você oferece na aula e a outro você come antes da aula
Em uma tigela grande, misture o fermento com o açúcar. Depois acrescente a água, o óleo e o creme de cebolas. Misture.
Adicione a farinha e misture até formar uma massa mole.
Preaqueça o forno em temperatura média – 180ºC
Ponha a massa na forma e deixe crescer por 30 min ou até dobrar de volume.
Leve ao forno por 25 minutos ou até dourar.


Tertúlias são o complemento ideal ao pão.

Quando for levar o pão para a aula não esqueça de deixar o recipiente semi-aberto para impregnar a sala com aroma de desejo.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Panapaná


Curioso? Também fiquei. Eu tinha um dicionário à mão. Talvez você não tenha. Se tiver, não precisa buscar, até o final do texto desvendaremos esta charada.
Panapaná não tem prefixo nem sufixo. E nem crucifixo para quem não souber o significado.
Existe um jogo com centenas de palavras, cada uma associada a cinco possibilidades, apenas uma verdadeira. Os jogadores devem tentar descobrir o significado se não souberem a resposta certa. Este não é um jogo, apenas um breve exercício mental.
Panapaná não tem origem grega nem latina. Não provém do francês, nem do inglês. É produto nacional, do bom. Ascendência tupi. Desta língua aprendemos e guardamos pouco. Ita é pedra. Pira é peixe. Boi é cobra e açu é grande. Só conhece quem se aventura por palavras cruzadas.
Com estas dicas já podemos deduzir que panapaná não é nome de palavra para invento do homem nem de coisa relacionada a modernidades. É coisa da natureza ou de sentimento.
Panapaná apesar de coletivo não se encontra nas cidades. Não é coletivo de transportar pessoas, é coletivo de transportar sonhos.Panapaná não é uma borboleta, é um conjunto delas refletindo a alegria do sol em devaneios coloridos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Homo brasiliensis


– Cobogó? Que diabos é isso?
Eu não sou de prestar atenção na conversa alheia. Entretanto, às vezes é impossível não ouvir.
Eu estava voltando para Brasília sentado na poltrona do meio. Logo atrás de mim, naquele vôo lotado, estava uma mulher vistosa dos seus trinta anos. Entendi que ela não conhecia Brasília e recebeu convite para trabalhar na capital. Ela queria saber como as pessoas moram em Brasília e encontrou na poltrona vizinha um candango falante que deve ter sido guia turístico. Ambos falavam alto, o que tirou a atenção da minha leitura.
A primeira frase que ouvi foi dele.
– Os ricos, moram no lago. Os bem ricos, numa ponta de picolé.
– Como é? – Indagou a mulher formando rima.
– As pessoas mais endinheiradas moram próximas do lago e os terrenos enormes que ficam nas margens são chamados pontas de picolé. Somente esses têm o privilégio do acesso à água. Acredito que o melhor lugar para morar é no Plano.
– As margens do lago são muito íngremes?
– Não. Por que?
– Você disse que preferia morar em lugar plano.
O vizinho, imagino, deu um sorriso, explicou que se referia ao Plano Piloto e falou das asas Sul e Norte arrematando que as melhores quadras eram as cem e as trezentos.
Naturalmente ela deve ter feito cara de dúvida, pois ele tornou a explicar que as quadras cem e trezentos ficavam a oeste do Eixão.
Continuei sentado no meu lugar, preso ao cinto de segurança, mas com uma enorme vontade de olhar para trás para ver a cara de interrogação da mulher.
– Eixão?
O avião deu uma chacoalhada de modo que perdi aquela explicação. Ouvi outra, já pela metade.
– ... os melhores apartamentos são os mais antigos, são amplos e vazados.
– E o que é um apartamento vazado?
O candango chegou a ser irritante com sua longa e apaixonada explicação.
– Os prédios, conhecidos por blocos ficam deitados. São compridos em vez de altos. O que faz com que haja maior número de apartamentos no mesmo andar e provoca menos áreas externas, logo há muitos apartamentos com apenas uma frente. Os antigos têm frente e fundo do lado oposto. São os vazados. Todos os apês antigos têm cobogó.
– Cobogó? Que diabos é isso?
Adoro essa palavra formada pela primeira sílaba de três engenheiros que criaram uma parede de tijolos decorativos que permite ventilação e entrada de luz natural. De modo que só ouvi o final da frase do vizinho falante.
– ... além do que, são impressões digitais da cidade.
Daí, ela perguntou qual era o prato típico da cidade.
E ele foi muito criativo na resposta.
– Não há nenhum prato típico por que os moradores têm origens em todas as regiões brasileiras. Na cidade encontramos todos os temperos. Não há prato nem forma comum de preparar alguma iguaria. È usual a reunião das pessoas em torno de uma churrasqueira. Cada um preparando a carne, ou peixe, por que não, a seu modo. Quase todas as casas do Lago têm churrasqueiras. Quase todos os clubes têm churrasqueiras e também há muitas espalhadas nos parques públicos. O churrasco agrega as pessoas. O brasiliense aprendeu que para sobreviver ali deve unir-se com os outros, respeitando e ultrapassando barreiras regionais.
– Uau! Falou bonito! Só ouço as pessoas falarem mal de Brasília, que é onde todos os corruptos se reúnem para roubar o resto dos brasileiros...
Nesse momento a forasteira acertou o fígado de todos os brasilienses com um poderoso golpe direto.
– Pois é, esse lamentável rótulo pertencia ao Rio, enquanto capital. Mineiros pão-duros, baianos preguiçosos, paulistas trabalhadores. Rótulos servem apenas para garrafas. A corrupção está espalhada por todos os cantos do nosso país. Não se salva nenhum enquanto permanecer a impunidade. A diferença é que em Brasília as somas são maiores e a mídia está mais atenta.
A mulher percebeu que cometeu uma gafe ao falar mal de Brasília a um brasiliense. E procurou mudar de assunto:
– Faz muito tempo que você mora em Brasília?
Aliviado, o candango respondeu:
– Agora você já está falando como uma brasiliense legítima...
– Não entendi...
– Quando duas pessoas se conhecem, a primeira pergunta é: há quanto tempo mora na cidade? e a segunda, invariavelmente, é: de onde você veio? Agora, com o passar do tempo e o nascimento de uma geração de nascidos na capital, a coisa mudou um pouco. De qualquer forma, as perguntas sempre são bem-vindas para o início de uma conversa.
– E, há quanto tempo, afinal, você mora na cidade?
– Fui para lá no início da década de 70. No tempo em que a lenda dizia que quem se mudava para Brasília passava pelo estágio dos três dês. Deslumbramento, decepção e desespero. Deslumbramento com as largas avenidas, arquitetura monumental e proximidade com o poder. Decepção ao perceber que morar próximo ao poder não os transforma em nobres. Desespero por não se adaptar à cidade e querer ir embora.
– Era tão ruim assim?
– É uma cidade de gente guerreira. Os perdedores sempre reclamam. O tempo incorporou outro dê. O dê da demência.
– Como assim? Não entendi...
– É quando as pessoas se acostumam, se entrosam e passam a amar Brasília.
– Interessante essa lenda...
– Particularmente, adotei ainda os dês da devoção e defesa da cidade que tão bem me acolheu.
Nesse momento a conversa dos dois foi interrompida pelo forte barulho do retrocesso das turbinas no pouso do avião.
O avião taxiou e estacionou.
Abri a porta do compartimento acima da cabeça, peguei minha sacola e olhei para os que me proporcionaram um vôo mais agradável.Ainda pensei em falar ao conterrâneo que as sílabas de cobogó foram formadas a partir dos nomes de Coimbra, Boekmann e Góis, mas apenas me despedi com um gesto de cabeça.


* Foto de Carlos Vieira

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A bunda de Darwin

O Brasil é um país maravilhoso por abraçar as diferenças raciais com naturalidade.
Eu estava na fila do cinema quando vi, um pouco à frente, um casal diferente. Ela de traços orientais. Olhos puxados, pele amarelada, cabelos negros escorridos, peitos semelhantes a ovos fritos e ausência de bunda. Ele de traços africanos. Pele cor de ébano, lábios grossos, nariz achatado e bundão.
Achei engraçados os dois traseiros ladeados.
Atiçou-me a curiosidade. A mesma curiosidade que teve Darwin ao desembarcar em Galápagos e observar as diferentes espécies de animais.
Lá, em Galápagos, ele desenvolveu a Teoria da Evolução em que, na luta pela vida, os organismos desenvolvem características que favorecem a sobrevivência da espécie. Assim a girafa alongou o pescoço para alcançar as folhas mais altas das árvores e o camelo dos desertos, para armazenar água, consegue beber até 120 litros de água de uma única vez. Nenhum destes animais estava em Galápagos como o filme que eu veria pouco depois também não se passava naquela ilha.
Aquelas bundas e a teoria da evolução me fizeram refletir que, lá no passado distante, a cópula humana devia ser como a dos outros quadrúpedes, naquela posição em que Napoleão perdeu a guerra.
E se o oriental, é o que dizem, tem um bilau pequeno então a fêmea oriental de geração em geração, teve sua poupança diminuída para que houvesse a fecundação.
Por outro lado, isto é, pelo mesmo lado, o traseiro, as fêmeas africanas, com o passar das gerações tiveram sua poupança aumentada para evitar as espetadas doloridas das enormes – é o que dizem – espadas africanas.
Coitada daquela japonesa namorando o negão.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sunomono

Abro meu dicionário mental e a palavra sunomono lembra o nome de iguaria japonesa, especificamente salada de pepinos. Revisando as palavras mentais, lembrei-me de outras que devem ser da mesma família oriental mono: nimono, tsukemono e quimono. As duas primeiras, vistas em cardápios nipônicos e a terceira, em tatame. Concluo que mono traduzido para português significa pepino. Se pisar em tatame sem quimono vai dar pepino. Para nós, monoglotas, é pepino falar apenas uma língua.
Divagações à parte. Tome nota da receita:

– 3 colheres de sopa de vinagre de arroz
– 2 colheres de sopa de molho de soja
– 1 colher de sopa de açúcar
– 4 colheres de sopa de água
– 2 pepinos japoneses
– um punhado de polvo cozido, kani kama e/ou camarão cozido– um punhado de sal
– gergelim torrado

Corte os pepinos ao comprido, em duas partes, tire as sementes. Corte em fatias finas. Salgue as fatias. Deixe descansar meia horinha.
Observação: Jamais peça este prato em restaurante quando o sushi man for baiano. A meia horinha sugere que ele pode dormir numa rede e esquecer o tempo passar. Ponha as fatias salgadas e descansadas em uma peneira, lave em água corrente e escorra bem.
Misture os 4 primeiros ingredientes em uma tigela, adicione as fatias escorridas e misture novamente.
Coloque em cumbuquinhas individuais, chamadas ochawan. Particularmente, continuo a chamá-las de cumbuquinhas.
Acrescente kani kama, polvo ou lula cortados em pedaços pequenos (se antes escrevi camarões, então se vire, vá rapidamente providenciá-los).
Espalhe um pouco de gergelim torrado por cima.

Quando preparei esta entrada pela primeira vez tive dificuldade na escolha do pepino.
Não sei como Freud vai analisar minha escolha.
Existe pepino verde, pepino japonês, pepino caipira e pepino em conserva.
Pepino verde, – oras, todos eles são verdes, os pepinos.
Pepino em conserva já vem no vidro, então não deve servir.
O pepino japonês, ensinou a vendedora da terra do sol nascente, não é aquele pequenininho. É o fininho.
O pepino caipira, conforme a vendedora, sempre sobra nas prateleiras. Sugiro chamá-lo pepino sertanejo, decerto vai vender mais que cedê de Zezé di Camargo e Luciano.
Será que tenho mesmo que escolher?

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Paris


Minha tarefa diária de apontar todos os lápis é das mais importantes. Apesar do moderno apontador, faço questão de mostrar a arte, esculpindo as pontas com meu canivete vermelho. Estes lápis têm a majestosa função de escrever petições, redigir ofícios, anotar depoimentos, limpar orelhas e rascunhar despachos.
Minha segunda tarefa é a distribuição do jornal sobre a escrivaninha do meu chefe.
Os jornais devem chegar donzelos. Intactos. Responsável que sou, sempre chego antes do chefe pelo menos umas duas ou três horas para dar conta dos meus árduos deveres. Nesta quarta-feira, pelo menos a manchete do jornal li. E mais um pouquinho. Lá no caderno de turismo anunciavam passagens para Paris. Mon Diê. Doze vezes, e ainda assim tá caro!
Paris é como uma virgem na flor da idade. Sonho passear por todos seus cantos. Cheirar suas flores, atravessar suas pontes, caminhar nos seus jardins, sentir as bolhas do champanhe no céu da boca.
Se existe algum lugar com classe, esse lugar tem nome: Paris. Não é necessário subir na torre Eiffel para ficar junto das nuvens e sonhar.
Mona Lisa? Tenho hora marcada com você, seu sorriso é minha alegria. Saímos juntos para um café na calçada coberta com as folhas douradas. Crepe Suzete, baguete, La Fayette, cotonete. O som, ah, o som magnífico: camembér, trotoá, voalá, peti puá. Croassã, chantili, rende vu. Mais um pouco de açúcar, Mona? Na mesa vizinha Voltaire, Sartre, um cavalo branco e Napoleão, na outra o baixinho Lautrec, La Deneuve, Manet e Robespierre. Bonsuá! Saio de braços dados. Todos me cumprimentam. Não é por mim, é por minha encantadora companhia que seduz através do seu olhar emblemático e sorriso enigmático. Ela ajeita o véu, empunha a sombrinha e entramos na charrete. Sem nenhuma palavra margeamos o Sena. O chofer muda a estação do rádio: La vie en rose. Piaf. Ne me quitte pas. Os sinos da catedral de Notre Dame badalam dez vezes.
– Bom jur! – Que droga, von Silva! Quantas vezes preciso te dizer que odeio quando mexem ou dormem no meu jornal?!
Nota: Este conto faz parte do livro "von Silva"

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O grito da independência

Pedro apesar da fama de absolutista e mandão era uma pessoa dócil e bem mandada. Sempre atendia quando chamado. Miguel, Paula, ou Joaquim. Pedro atendia da forma que o chamassem. Também pudera, batizaram-no de Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.
Apesar de todas aquelas opções preferíamos chamá-lo príncipe. Era uma coisa respeitosa. Apesar de que, entre nós, às vezes a gente falava do príííncipe puchando bem o iii e colocando o queixo no ombro e piscando rapidamente os olhos. Tínhamos que ser respeitosos, afinal sempre era bom viver às custas de Sua Riqueza.
Pedro tinha mania de se vestir de príncipe. Usava calças brancas tão apertadas que permitiam saber se a moeda do bolso estava cara ou coroa. Usava também umas jaquetas com ombreiras altas e enfeitada de medalhinhas douradas. Pedro era muito avançado para a época., este figurino só virou sucesso nos bailes gays do Rio de Janeiro 250 anos depois.
Pedro era casado com Leopoldina que era tão feia que era conhecida por trem. Por isso mesmo Pedro vivia viajando fugindo de casa. Ele sempre ia a Santos para surfar. Lá as ondas são pequenas de forma que ele dificilmente caia da prancha. Sob um guarda-sol ele foi apresentado a Maria Domitília, uma paulistana que todos diziam ser de Santos. Domitília, como Pedro, era muito avançada em termos de vestimentas. Ia para praia com uma touca minúscula. Ambos tinham 23 anos e se entendiam maravilhosamente sobre os lençóis de cetim. Pedro e Domitília tinham taras sexuais incríveis: se chamavam príncipe e marquesa respectivamente.
No início de setembro, depois de dois meses de praia, Pedro já estava muito bronzeado e deveria retornar a São Paulo e cuidar dos detalhes para a sua festa de aniversário. Pedro faria 24 anos dentro de dois meses e a expectativa era muito grande para o grande baile anual de aniversário. Tudo era motivo para baile.
O mordomo, José Bonifácio, juntou todo o pessoal, mandou selar os cavalos e preparou uma charrete acolchoada para Pedro. Retornamos lentamente subindo a Serra do Mar e atravessando a Mata Atlântica. No quinto dia de viagem, em pleno feriado, chegamos ao topo da serra com esplêndida vista da baixada santista. Montamos acampamento e preparamos uma peixada real.
Os peixes já não tinham sangue azul. Estavam verdes após calorosa viagem numa época em que não havia frizer nem geladeira.
Almoçamos e seguimos viagem. José Bonifácio queria chegar em São Paulo a tempo de ver o desfile no noticiário da tevê.
O peixe verde começou a saltar dentro da barriga de Pedro. Não tardou a achar a saída. Pedro borrou-se todo. Borrou também a bela carruagem aveludada. O cheiro da condução de Pedro ficou insuportável de modo que ele teve de montar um cavalo. Foi necessário limpar-se num riacho próximo. Na falta de papel higiênico utilizou-se da Gazeta do Rio de Janeiro onde leu que foi rebaixado de regente para delegado. Neste exato momento o outro peixe verde saltou de dentro da barriga da Sua Riqueza provocando enorme dor. Pedro urrou.
– Meeeeeerda!O peixe buscou a independência e este episódio foi retratado anos depois por Pedro Américo e batizado como “O Grito do Ipiranga”.

domingo, 5 de agosto de 2007

Compromisso com a editora

Sexta-feira é dia de entregar meu texto à editora. Até às 16:00h. Terrivelmente. I-na-di-a-vel-men-te. Im-pre-te-ri-vel-men-te.
Às vezes o sangue substitui o suor na testa .
O ponteiro dos segundos parece fazer mais barulho que o tchuco tchuco do trem. O tempo avança impiedosamente como um carro fórmula 1.
Cumpro religiosamente minhas obrigações contratuais. Toda semana um texto de uma lauda, no mínimo 1.300 caracteres com fonte Arial tamanho 14, distribuídos em no mínimo e no máximo 32 linhas de espaçamento simples.
O pior de tudo é que deve haver coerência no texto. Tem que ter começo meio e fim. Fim forte. Fim significativo. Final com chave de ouro. Fim que resuma e encerre uma idéia desenvolvida ao longo daquelas trinta linhas.
O tempo passa e nada de vir a idéia salvadora. O que vi na televisão? O que li no jornal? Será que nada me inspira a escrever?
O tempo. O tempo passa e só consigo pensar na moça do tempo. Sol! Que pernas! Que decote!
– Idiota, o tempo está passando e a hora fatal está chegando. Aquela sim é que é uma fêmea fatal!
O pior de tudo é que antes do final fantástico, tenho que primeiro encontrar um começo. Um começo arrebatador que agarre o leitor na primeira linha. Tem que ser algo que atice a curiosidade. Pode ser o velho, mas com roupagem atrativa. Tem que ter pernas de fora, tem que ter decote. Não pode mostrar tudo. É para isso que serve o recheio do texto. O meio do texto deve fazer o leitor permanecer ligado. Sem falsos recheios siliconados. Senão o leitor pode abandonar tudo. O leitor deve ficar entusiasmado, excitado, com vontade. O final será o clímax.
Se conseguir, o leitor voltará na semana seguinte procurando o mesmo quarto de página do jornal querendo mais e mais e mais.
Conto as linhas, vejo as horas. Aleluia ! Consegui!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

O regime

É genial observar como, com o passar do tempo, as regras inflexíveis são alteradas.
Há muito pouco tempo atrás, todas as farmácias traziam tabelas junto das balanças, que, num quadrinho, informavam que o peso ideal do homem seria a altura em centímetros menos cem, dependendo da a ossatura que poderia ser pequena, média ou grande. Para a mulher seria da mesma forma menos dez quilos. Hoje o peso ideal é calculado pelo IMC - Índice da Massa Corporal em que o peso, em quilos, é dividido pelo quadrado da altura, em metros. O índice varia dentro de limites máximos e mínimos de acordo com a idade. É fantástico por ser mais flexível.
Acredito sinceramente que o melhor índice é o da auto-avaliação com generosas doses de auto-estima em que o paciente se examina frente ao espelho e pergunta se faria amor com uma pessoa com aquele físico.
Tire toda a roupa, amor se faz sem roupa. Olhe bem. Belisque-se. Falta? Sobra? Acaricie-se. Faça uma pose. Valorize e admire o que há de bom. Melhore o que pode ser melhorado. Pergunte-se o quê ou como alguém faria para ficar mais interessante aos seus olhos. Copie. Não se preocupe tanto com a opinião dos outros, o principal é você se amar. A tarefa é muito grande? Parece impossível? Nada é impossível. Comece! Comece já! Use artifícios para se amar e se valorizar. Cuide das unhas, as dos pés também, mude o corte de cabelo, use um cheirinho gostoso, faça a barba ou se depile, aposente aquele velho pijama, use algo mais sensual, mesmo que esteja sozinho. Lembre-se que você está se produzindo para você. Fique ereto. A postura é fundamental. Pessoas que olham para o alto vêem o céu, o futuro, a alegria e a luz.
Olhe no espelho de novo, você deu o primeiro passo. Você se enxergou com um pequeno sorriso. Você se valorizou. Pequenos atos trazem grandes modificações, inércia não traz nada. Transforme em rotina os pequenos gestos que cuidam do seu corpo.
Não se acomode, caminhe. Coma com moderação. Isso vale para os gordos e para os magros. Tenha refeições criativas. Varie! Crie um horário para se amar, para fazer algo que seja para o seu prazer. Mude, pare de se queixar da vida e de se acomodar. Chegue em casa e ao invés de ligar a televisão, troque uma lâmpada, pregue um botão, adube o vaso, vá à cozinha e prepare alguma coisa diferente, uma farta salada ou uma panqueca. Arrume aquelas fotografias da gaveta. Organize uma pasta com as contas. Mexa-se. Deixe a panela cintilante, lustre seus sapatos. Dê um brilho no seu ânimo.
Qualquer gesto diferente vai trazer um resultado benéfico para você, você vai se amar mais.
Altere as regras inflexíveis.

※ ※ ※ ※ ※ ※

O regime - Comentário

Este texto é resultado de um desafio.
Eu estava num barzinho, já devidamente calibrado, e externando com a namorada meu desejo de crescer na escrita. Provoquei que seria capaz de escrever sobre qualquer assunto proposto. Julguei-me muito esperto, pois teria ao menos um dia para pensar e desenvolver o texto se ela apresentasse alguma sugestão naquele momento. Ela, inteligente, perguntou-me se eu seria capaz de apresentar o texto até as dez horas da manhã do dia seguinte. Raciocinei que apesar do álcool eu já poderia ir desenvolvendo o tema mentalmente. E de manhã bastaria digitar o texto. Topei. Aí ela disse: – Pegue a Veja na sua casa e leia o assunto da página 37, propaganda ou não, e desenvolva o texto.
Este foi um desfio de verdade. E, por conta do adiantado da hora e dos efeitos etílicos só li o artigo sobre regime alimentar às oito horas do dia seguinte. Às nove, enviei o e-mail com o texto acima. Orgulhosamente, senti-me vencedor.
Às vezes necessitamos de estímulos e provocações. É o que eu procurei transmitir no texto.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Retrato em preto-e-branco

A definição de raça agora é sacramentada por um tribunal de pureza racial que fotografa os candidatos a vestibular na UnB – Universidade de Brasília – e define os que podem ou não ser enquadrados nas cotas dos negros. Na escola aprendi que raça era uma coisa e cor era outra.
O que me interessa é devem ser criadas cotas também para os portadores da letra K no nome. Desde a alfabetização sofri descriminação. Tudo por causa da reforma ortográfica de 1943 que eliminou a letra K do nosso alfabeto. Os portadores das letras W ou Y que juntem sua turma para formalizar seu pleito. Vou cuidar apenas daquilo que me diz respeito. Somos poucos, pleiteamos cota de apenas 0,5 % das vagas universitárias.
Negros e mulatos: 40%; deficientes físicos: 20%; egressos de escolas públicas: 35%; pobres: 20%; indígenas: 15%; asiáticos: 4,5%; judeus: 3%; desafinados 5%; macrobióticos 2%; órfãos 1%; analfabetos: 18,37%.
O nosso caso não necessitará de nenhuma comissão especial para confirmação. Dispensaremos atestado de pobreza e exame de DNA. A identidade será o suficiente para provar nosso enquadramento na cota. Particularmente tenho K por parte de pai e de mãe. , é preto de pai e indígena de vizinho,
Feliz mesmo vai ser um amigo meu Zibgniev Chlowinsky, é pobre, estudou em escola pública do nordeste, não aprendeu a escrever, é preto de pai e indígena de vizinho, sem amídalas, careca, míope e na casa dele não tem televisão colorida.

Zib com certeza vai entrar na faculdade, pois somando todas as cotas estará com 127, 38%, o problema é que irá direto para o laboratório de antropologia.

sábado, 5 de maio de 2007

Paris

Minha tarefa diária de apontar todos os lápis é das mais importantes. Apesar do moderno apontador, faço questão de mostrar a arte, esculpindo as pontas com meu canivete vermelho. Estes lápis têm a majestosa função de escrever petições, redigir ofícios, anotar depoimentos, limpar orelhas e rascunhar despachos.
Minha segunda tarefa é a distribuição do jornal sobre a escrivaninha do meu chefe.
Os jornais devem chegar donzelos. Intactos. Responsável que sou, sempre chego antes do chefe pelo menos umas duas ou três horas para dar conta dos meus árduos deveres. Nesta quarta-feira, pelo menos a manchete do jornal li. E mais um pouquinho. Lá no caderno de turismo anunciavam passagens para Paris. Mon Diê. Doze vezes, e ainda assim tá caro!
Paris é como uma virgem na flor da idade. Sonho passear por todos seus cantos. Cheirar suas flores, atravessar suas pontes, caminhar nos seus jardins, sentir as bolhas do champanhe no céu da boca.
Se existe algum lugar com classe, esse lugar tem nome: Paris. Não é necessário subir na torre Eiffel para ficar junto das nuvens e sonhar.
Mona Lisa? Tenho hora marcada com você, seu sorriso é minha alegria. Saímos juntos para um café na calçada coberta com as folhas douradas. Crepe Suzete, baguete, La Fayette, cotonete. O som, ah, o som magnífico: camembér, trotoá, voalá, peti puá. Croassã, chantili, rende vu. Mais um pouco de açúcar, Mona? Na mesa vizinha Voltaire, Sartre, um cavalo branco e Napoleão, na outra o baixinho Lautrec, La Deneuve, Manet e Robespierre. Bonsuá! Saio de braços dados. Todos me cumprimentam. Não é por mim, é por minha encantadora companhia que seduz através do seu olhar emblemático e sorriso enigmático. Ela ajeita o véu, empunha a sombrinha e entramos na charrete. Sem nenhuma palavra margeamos o Sena. O chofer muda a estação do rádio: La vie en rose. Piaf. Ne me quitte pas. Os sinos da catedral de Notre Dame badalam dez vezes.
– Bom jur!
– Que droga, von Silva! Quantas vezes preciso te dizer que odeio quando mexem ou dormem no meu jornal?!
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Imagem da capa do livro, ainda não publicado, que contêm crônicas do von Silva.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Pipoca



Hoje é sexta-feira, começo do fim de semana. Dia de cinema. Dia de alto astral. Deveres cumpridos e descanso merecido.
Chego em casa já com duas comédias trazidas da locadora.
Banho tomado, roupa confortável, pés descalços e telefonema da namorada dizendo-se companhia para o filme e para a pipoca.
Para minha surpresa, vejo que no armário onde deveriam estar os saquinhos de pipoca para microondas, eu encontro apenas um caixa de goiabada.
– Não sou quadrado! Eu me viro!
Acho que ela não vai gostar de comer goiabada vendo filme. E se eu colocar no microondas? Acho que também não vai gostar.
Chinelo no pé, vou à padaria. Só tem milho para pipoca de panela.
– Não tem para microondas?
Me enchi de idéias, comprei um pacote de milho e ainda dois pães franceses.
Já em casa, procurando por pipoca, nada encontrei, nem no índice do velho livro da Dona Benta.
Como é que não tem nada?
Naqueles tempos nem havia microondas!
– Não sou quadrado. Eu me viro!
Cheio de autoconfiança e criatividade, pego o saquinho dos pães franceses e coloco duas xícaras cuidadosamente medidas do milho recém-comprado.
Feliz por me lembrar do óleo, coloco caprichada meia xícara por cima dos milhozinhos. Acho que xícara inteira é demais.
– Eu tenho uma boa mão. É o que dizem meus amigos da roda de pôquer.
Resolvo deixar o sal para depois.
Orgulhoso das idéias, grampeio o saco de papel por três vezes.
Apressadamente coloco no microondas, afinal a banca da pia já tem óleo demais para o meu gosto. Aproveito para secar o caminho de óleo entre a bancada e o forno.
Ansioso, nem espero a namorada chegar nem o filme começar. Aperto a tecla PIPOCA e providencio uma bebida. Vinho!
– Vinho é bom para namorar...

O ruído do forno está diferente!
Espio pela janelinha e vejo que o saco estourou. Abro a porta imediatamente a tempo de levar uma pipoca na testa.
Toca o interfone. A namorada já vai subir.
Ela chega e eu, cheio de brios, ofereço vinho e um pão com goiabada.

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Este conto faz parte do livro não publicado Aventuras Culinárias.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Estréia

Chegou o dia 5.
É minha vez. O dia cinco de março é dia da minha estréia no Bar do Escritor.
Três dias antes disseram que eu ficaria nervoso.
Eu me lembro de ter dito que eu tiraria de letra. O alfabeto inteiro. Estava tranqüilo. Tranqüilíssimo.
Isso foi três dias antes. Era começo de noite do dia dois.
Passei a noite em claro. Contei carneirinhos. Pensei no meu texto. Contei mais carneirinhos. Tomei água com açúcar. Contei carneirinhos. Bobagem, água com açúcar. Aguinha com açúcar e carneirinhos. Daqui a pouco aparece o lobo mau e bota um fim essa história infantil. Pensei num texto e virei um vidro de maracujina. Apaguei rapidinho.
Texto que é bom, nada.
Graças à maracujina, meu dia 3 começou lá pela uma da tarde. Aí tive que recuperar o tempo perdido fazer aquilo que deixei de fazer pela manhã.
Por que diabos fui escolher o dia cinco? O mês tem trinta dias e fui escolher logo um dia lá do comecinho. O calendário estava todo aberto e escolhi aquele número. Sou burro mesmo. Poderia, por exemplo, ter escolhido uma das dezenas do burro: nove a doze. Teria ganho uma semana.
Rogaram praga.
Já chegou outra noite, não preparei meu escrito e os lençóis já começaram a pesar. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia... A cabeça gira, gira e gira e gira e nada de fixar um conto ou uma crônica. Levanto da cama, pego um copo com água e digo com voz firme e alta:
– Não vou fazer a besteira de tomar outro vidro de maracujina. Eu sou um escritor responsável. Olhei para o copo de novo e de acordo com minha palavra, rapidamente engoli uma bolinha vermelha de Lexotan.
O dia 4 começou sonolento às três da tarde.
Meu tempo está acabando. Tenho de ter a idéia, escrever, revisar e postar. A contagem regressiva está próxima do dois , um fogo!
Ai! Deu dor de barriga.
Por que as estréias são assim?
Eu poderia ter ganho dois dias e escolhido o dia sete. Sete são as notas musicais. Sete são as cores do arco-íris. Sete são os motivos pelos quais não consigo escrever.
Meu tempo está se esgotando rapidamente e ainda tenho que organizar tudo para uma festa aqui em casa amanhã.
Tudo o que eu sempre quis na vida era escrever e ser lido. Minha grande oportunidade chegou. Dia cinco, por quê?
No fundo eu sei. Dia cinco de março completo 55 anos. É meu aniversário.
Este é meu melhor presente para quem escreve: escrever e ter alguém que leia até aqui.
Obrigado.