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terça-feira, 4 de novembro de 2014

O VIDEOCASSETE E MEU PRIMEIRO BEIJO



– Quem quer ficar com o papel da bruxa?

– Eu, eu, eu! – Gritei, me antecipando às coleguinhas.

Para minha grande surpresa, ninguém mais se candidatou. Era a formação do elenco para uma peça do balé. A professora estava montando a historinha da Bela Adormecida.

Lá em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, a cidade era tão incipiente que não havia uma escola especializada em balé. Quando comecei os primeiros passos, as aulas eram improvisadas em alguma sala da escola primária. Até que ganhamos status e fomos transferidas para o prédio do “Artesanato” – onde o nome já dizia, funcionava uma associação de artesãos. As barras para as bailarinas se equilibrarem eram de cano PVC e não tínhamos espelho nem camarim, mas éramos cheias de entusiasmo.

Coube a mim, então, fazer o papel de bruxa. Fiquei tão orgulhosa. Minha roupa era preta, brilhante e eu tinha vários solos na apresentação. No auge dos meus 10 anos, eu estava me sentindo o máximo. A apresentação foi num clube muito chique da cidade.

E por falar em clube, como cidade do interior tem clube, né? Dia desses tive o prazer de conhecer o mais antigo do país. Fica em São Leopoldo, também lá no Rio Grande do Sul, e chama-se Orpheu – criado em 1858.

Enfim, em Arroio Grande tínhamos vários. A apresentação de balé foi no Clube do Comércio. Pena que na época não havia máquina de filmar, nem smarthpone, nem as facilidades atuais. Meu pai se virava com uma “yashika” para fotos e olhe lá.

Isso durou pouco. Muito moderno que era, meu pai comprou o primeiro videocassete da cidade. Ou o segundo. E para a alegria dele, e a nossa, logo começamos a ter em filmes todos os feitos, danças e apresentações. Ele e um amigo eram os únicos que tinham o aparelho.

Nos primórdios da tecnologia, o videocassete era uma geringonça pesada e nada prática. Para filmar era uma trabalheira. Num braço se carregava o aparelho com a fita, no outro uma máquina de filmar gigante. Mas meu pai estava lá, firme, registrando o dia a dia da família.

Não só de filmes caseiros viveu-se nessa época. Começamos a registrar festas, passeios e desfiles. Até uma peça de teatro.

Meu padrinho é metido a artista e montou uma peça teatral: “Grilhões”. Contou com a participação de vários amigos. Ainda sob o rigor da censura e da ditadura, foi corajoso em tocar em assuntos delicados como escravidão, liberdade e racismo. E não é que a peça fez sucesso em toda a região? A encenação também foi num clube que não lembro o nome. E está tudo registrado pela velha máquina do meu pai.

Esses mesmos amigos se empolgaram com a tal peça e resolveram fazer uma brincadeira, dessa vez mais suave: montaram um casamento de festa junina na AABB – outro clube!

E estava lá o elenco todo: noiva – interpretada faceiramente pelo meu padrinho; noivo, pai da noiva, padre, etc., etc. E meu pai registrando com sua parafernália toda a bagunça que foi feita.

Um ano depois estávamos mudando para Brasília. E o videocassete continuava na nossa vida. Fazíamos filmes caseiros e até registro das nossas competições de natação.

Como eu não conseguia ficar longe das ruas do interior, nas férias escolares, a primeira coisa que eu fazia era voltar a Arroio Grande.

Eu já morava em Brasília havia dois anos e o sedex naquela época não existia. Ganhei, então, a missão de levar na bagagem as fitas com nossos filmes para que os amigos de Arroio Grande pudessem ver as filmagens da capital.

Nessas férias houve por lá um festival da canção. Não recordo qual festival, porque no Rio Grande do Sul têm vários. Sei que foi em um parque – misteriosamente não foi no clube. Parque Guilhermino Dutra. Naquele tempo a gente chamava o lugar de “Prado”. Não sei hoje como é. Era um local de exposições agropecuárias, de feiras de artesanato e, naquele ano, palco de um festival de música.

Fazia uns dias que tinha um guri de Bagé me cuidando. Ou, para melhor entendimento, me paquerando.

Eu estava com meus 12 anos. Cabelo longo, aparelho nos dentes e uma inocência de doer. Mesmo morando em cidade grande ainda era garotinha do interior, com toda a beleza de assim o ser.

Durante o festival, ficamos trocando olhares e sorrisos.

Eu estava encantada. Pelo festival, pelas luzes do palco, pelo menino bonitinho que não tirava o olho de mim.

Foi então que, naquela noite, dei meu primeiro beijo. Um beijo suave, nervoso, apaixonado e marcante. Meu primeiro amor. Começamos um chamego infantil. A menina de Arroio Grande e o gurizinho de Bagé.

Desse namorico tenho boas lembranças. Algumas delas registradas em fita VHS. O tal amigo do meu pai, aquele que também tinha um videocassete, fez um filme numa tarde de sol para mandar lembranças para a família que me esperava na capital. E o namoro tá lá, registrado, com todos os sorrisos e nossas mãos dadas, em imagens que tenho medo que comecem a se apagar. Como as fitas antigas do meu pai.

FIM

* CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO BLOG "DO MEU INTERIOR" 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

TATUAGEM


Foi como se um machado cortasse o pulso. Uma dor insuportável. O braço ardia em agonia.  Dilacerado. O susto a fez tremer. Foi assim que despertou de uma soneca rápida naquela tarde: aos gritos.
A tatuagem no braço direito latejava. O desenho de um coração sangrando simplesmente pulsava. O sangue não era mais pintado. Era de verdade. Sujara a cama onde Estela adormecera minutos antes.
A garota de 20 e poucos anos morava sozinha. Mantinha, ela mesma, o corte de um moicano rosa feito na cabeça. Exibia uma maquiagem pesada que se acumulava na pele mal cuidada. Para pagar as despesas, fazia bico de atendente numa lojinha de roupas góticas de um amigo gringo.
Depois de gritar de dor, tomou fôlego e acendeu a luz fraca que tentava iluminar o quarto bagunçado.
– Que porra é esta?
Disse em voz alta.
– Que merda!
Praguejou ainda mais alto. Segurou o pulso direito, olhou mais de perto, mas não conseguia acreditar no que via.
Era a primeira tatuagem que havia feito na vida: um coração "retrô" vermelho atravessado por uma seta. E agora ele sangrava de verdade!
Correu para o banheiro, enfiou o braço na pia, abriu a torneira até o fim. A água caia forte em cima do desenho. Limpava o sangue mas não revelava cortes, nem mordidas de animal, nada. Era como se o coração sangrasse por conta da seta atravessada.
Estela passou a mão, esfregou a tatuagem com a esponja que estava caída no box. Era isso mesmo: a seta fazia o coração sangrar. O desenho todo se agitava.
A tatuagem estava viva.
Enrolou a toalha no pulso e correu para o guarda-roupa.
Vestia somente uma calcinha rasgada e uma blusa velha de propaganda política há muito descartada por alguém na igreja vizinha.
Ela era assim: passava uma vez por semana na igreja, não pra rezar, mas pra ver o que havia de donativos à disposição. Foi lá que conseguira dinheiro para fazer o tratamento dos dentes que no ano passado haviam caído.
Estela tinha levado uma surra do padrasto e perdeu dois dentes da frente. O mesmo sórdido que a estuprou quando tinha apenas 13 anos. Para conseguir visitar a mãe, a moça se arriscou encarar o homem bêbado. A mãe ficara paraplégica depois de um acidente de carro, onde tentava fugir do marido violento. Por absoluta falta de opção, voltou aos braços do agressor e vive à mercê da loucura do homem.
O padre da igreja é um senhor alegre, sorridente, o chamado “gente boa”. Sempre tem uma palavra de conforto para Estela. “Minha estrela”. É assim que o padre Mércio chama a garota punk cheia de piercings e tatuagens. E não se importa quando Estela "renova" o guarda-roupa com as doações.   
Na ansiedade que estava, Estela pegou um vestido qualquer, pelo meio da sala, mesmo antes de chegar aos cabides minguados onde pendurava as roupas velhas. Trocou de roupa e saiu correndo de casa. De pés descalços, com o pulso amarrado na toalha. Ia em direção ao padre Mércio quando novamente sentiu uma chaga se abrindo. Dessa vez no pescoço.
Estela tinha um sol tatuado no pescoço. Que agora pegava fogo. Queimava a pele da garota. Ela gritou e voltou para casa, não conseguia andar de tanta dor. Voou para dentro do chuveiro e a água que caia em seu corpo amenizava a dor.
Não demorou muito e logo sentiu uma pontada no pulmão. Uma lança atravessava suas costelas. A espada de São Jorge lhe tirava o fôlego rapidamente. Estela tinha um dragão e o santo tatuados nas costas.
Sem aguentar o golpe, Estela caiu. No chão, sentindo a lança atravessada nas costas, gritou em agonia. Ninguém ouvia.
Foi então que, de uma das pernas dela, duas cobras começaram a rastejar pela pele. Subindo em direção ao seu rosto. Ela tinha duas serpentes tatuadas na perna.
Estela gritou mais uma vez  mas já estava quase sem ar.
A noite chegou.
A porta da frente da casa estava aberta. Na pressa de chegar ao chuveiro, esquecera de trancar. E assim permaneceu até o outro dia.
 Na manhã seguinte, um vizinho curioso achou estranho a porta escancarada e se atreveu a entrar para ver se estava tudo certo.
Encontrou Estela no chão da cozinha. Sem vida, com uma faca na mão.

 FIM

sábado, 2 de agosto de 2014

O MENINO QUE NÃO FEZ FALTA


“Letraerrada” sumiu naquele dia. Nem perceberam sua ausência.
O menino era o oitavo irmão de Anacleto, Berenice, Cleusiane, Doralice, Erivaldo, Francisco e Gervásio. Ele seria a letra H. A mãe queria Hércules, por causa das fotonovelas e filmes antigos que vira em preto e branco. Seria um herói, pensava a mãe nas horas vagas. O pai levou o nome ao moço do cartório. Não era lá tão versado em letras e o registro no cartório saiu como Ércules.  Logo o menino ganhou o apelido: o “Letraerrada”.
“Letraerrada” era magrelo, mesmo no auge de seus dez anos. Era franzino, com uma pele amarronzada carcomida pelos piolhos. Era pouco desenvolvido. De corpo e de cabeça. Era burro, como dizia seu pai.
“Letraerrada” não sorria, não chorava, não pedia nem reclamava. Sempre vítima das maldades infantis dos irmãos e irmãs, tinha medo de tudo, ou quase tudo. Só não temia a solidão.
Na pobreza em que viviam “Letraerrada” não brincava, não corria, nada fazia. Vivia sujo pelos cantos observando a natureza. A casa onde morava ficava isolada no meio do sertão de meu Deus. Poeira e desalento eram os únicos vizinhos.
Naquele dia “Letraerrada” ouviu de longe uma música alegre. Seus pobres ouvidos desacostumados com as cores da vida não reconheceu o som de um caminhão de circo.
Mas lá de longe chegava o tal caminhão, carregando a trupe toda que logo montaria lona próximo à cidade. “Alô amigos, não percam o espetáculo do palhaço Seu Zé e o amigo Chulé, amanhã no novo circo que está chegando”. Assim começava o discurso do som alto que saia do caminhão.
“Letraerrada” se encantou. Saiu correndo em direção à música. Parou na beira da estrada e o caminhão passou por ele. O menino não se segurou e saiu correndo atrás do velho carro colorido. Primeiro perdeu o chinelo do pé esquerdo. Deixou pelo caminho, sem arrependimentos. Depois caiu de joelhos na estrada de areia. O sangue logo apareceu, mas ele nem ligou. Levantou e correu novamente. Correu como nunca antes tinha corrido na vida. Correu sem medo, livre, como se deixasse pra trás toda e qualquer tristeza, como se arrancasse do peito toda a angústia e o peso de uma existência sem sentido. Nos lábios algo que poderia ser um sorriso se desenhou. As lágrimas tomaram o rosto de Ércules e ele correu, correu até tropeçar e cair de novo.
Dessa vez bateu a cabeça numa pedra. O caminhão foi embora sem tomar conhecimento da perseguição. Ércules caiu sem respirar. Caiu olhando para o céu. Não sentiu nada, como não sentira nada antes na vida. O ensaio de um pequeno sorriso congelou no rosto do menino que não fez a menor falta naquele dia.
Ércules foi encontrado no dia seguinte por Berenice e Doralice, meio por acaso, quando saiam para ir à cidade.  “Letraerrada” foi enterrado ao lado da casa dos pais. Sem música e sem circo. 

FIM

*texto original no livro "Bar do Escritor -TOMO IV" . se quiser comprar, é só me avisar.

** se alguém souber os créditos da foto, me informa. peguei na internet



tá nesse livro aqui. querendo comprar é só avisar.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A MENINA E A FLOR


A menina segurava a flor. O vento batia em seu cabelo ralo. Os pés no chão sentiam o frio da madrugada. Ela não passava de uma mancha na paisagem. As mãos ensanguentadas tremiam. Mas ela segurava a flor cada vez com mais força.
Começou a chorar. Chorou tão alto que os bichos da noite se esconderam na mata próxima. Ninguém passava por ali.
Lá atrás o carro da família ainda estava de cabeça para baixo.
A menina só queria mostrar a flor ao pai que dirigia. Uma distração. E a vida mudou o rumo.
Não restava carro, nem família, nem destino. Só a flor que agora já se desfazia com a ventania.
A menina ficou ali até o sol nascer. Sem consolo, tendo a solidão por companhia.
Ninguém veio ao seu socorro. Ela começou a andar. No horizonte o sol passou a brilhar alto. As sirenes da polícia não abalaram a menina, que simplesmente andou, andou, até secarem as lágrimas.
A flor se foi, o tempo passou e a menina virou mulher. Mora nas ruas, sem rumo. Se perdeu na rodovia e na vida.

*TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA "ANTOLOGIA TOMO IV DO BAR DO ESCRITOR"

terça-feira, 3 de junho de 2014

CAUSOS DE ASSOMBRAÇÃO


– Gente, juro. Tô vendo uma luz vindo pra cá.
– Onde, Deca?
– Ali, olha. Vermelha.
– Putz, tá vindo mesmo.
– Corre então, vamos embora daqui.
Eu, Márcia e Mauro, em frente ao clube das piscinas de Arroio Grande. Já era noite escura quando, sem nada para fazer, cansamos de passear pela praça e fomos de carro até os portões do tal clube.
Chegando lá, descemos do carro e ficamos de papo furado.   
Morro de medo de fantasma. Mesmo. Me borro toda. E como em toda cidade do interior existe uma boa lenda de casas fantasmagóricas e aparições misteriosas, eu, claro, não podia deixar de contar um desses sustos para os dois coitados que me acompanhavam.
Comecei de brincadeira a contar historinhas para meter medo em todo mundo. Uma delas quem me contou foi meu pai. Diz ele que quando era criança, em Rio Grande, também lá no Rio Grande do Sul, certa noite foi para o cinema.
Combinou de encontrar com a mãe dele logo que acabasse o filme. Minha avó foi ao Clube dos Ferroviários (como tem clube em cidade do interior, meu Deus!) e ficou à espera do filho logo após o baile.
Meu pai chegou apressado, esbaforido, no clube onde minha avó ainda se recuperava da dança do baile.
– O que foi meu filho? – Perguntou ela, preocupada.
Foi aí que ele contou: para chegar ao clube, passou em frente ao cemitério. Quem conhece Rio Grande sabe que o cemitério é enorme, cheio de mausoléus, estátuas e sombras. Ao lado do cemitério passava uma linha de trem.
Para não ficar mais apavorado do que já estava pelo simples fato de passar perto do cemitério, meu pai foi andando pelo trilho dos trens. Era um caminho seguro, segundo a lógica dele. Se precisasse sair correndo de alguma alma penada, estava preparado e o trilho era melhor que a rua de areia.
Foi quando, cheio de medo do escuro, ouviu uns passos atrás dele. Olhou para trás e não viu nada. Aumentou o passo e o barulho aumentou também.
Em pânico, meu pai saiu correndo e os passos atrás dele acompanharam a corrida. Foi então que ele chegou ao clube e encontrou a mãe. Os passos pararam junto com ele.
Quase sem fôlego, contou o ocorrido e, assim que terminou a história, ela caiu na gargalhada.
– Meu filho, olha o seu sapato. O que é isso?
Era um galho seco que se prendera no cadarço do pé esquerdo e toda vez que meu pai dava um passo, o galho arrastava no trilho e fazia um barulhão.
Para disfarçar, ele riu e tentou esconder a vergonha que estava sentindo.
O tal clube, na época em que eu morava em Arroio Grande, na minha visão infantil, era composto de uma piscina descomunalmente gigantesca, outra média e uma que eu odiava que era para as crianças, e que tinha um cheiro de xixi insuportável. Havia uma floresta encantada em volta e era bem isolado.
A lanchonete de lá fazia a melhor torrada, ou misto quente, que se tem notícia na região sul.  Além de vender coca-cola, aquela da garrafinha de vidro.
Era uma festa ir para lá. Lembro de uma cena marcante em que meus pais ficaram na água até a noite chegar, e tinha umas luzes internas na piscina. Ficou tudo muito brilhante. Meu pai deixou eu e meu irmão entrarmos na área dos adultos. Me senti gente grande. E quase morri afogada porque não sabia nadar direito. Mas foi memorável. Felicidade é um pouco isso, né? Pequenos momentos que produzem boas lembranças.
Enfim, naquela noite do susto estávamos ouvindo minhas histórias de fantasmas, quando eu jurei que vi uma luz em cima da piscina grande e que vinha em nossa direção.
Naquele momento senti meu corpo todo arrepiando. As luzes da cidade não eram suficientes para deixar o lugar iluminado. Contávamos apenas com os faróis do carro. Estávamos em pé entre o automóvel e os portões. A tal luz era vermelha e vinha devagar em nossa direção.
Pelo poder da sugestão, ou sei lá o quê, os dois também viram aquilo.
Imediatamente demos meia volta e corremos para o carro. Eu fiquei tão nervosa que entrei de qualquer jeito, quase torci o tornozelo. O Mauro saiu dirigindo, levantando poeira, já que a estrada que dava acesso ao clube ainda era de chão batido.
Mal entrou na garagem e saímos batendo as portas. Eles moravam no segundo andar do prédio e eu estava hospedada na casa deles. Juro que nunca subi uma escadaria tão rapidamente.
Até hoje não sei o que aconteceu. Só sei que nunca mais fiquei em frente a portões, seja de clube, cemitério ou qualquer outro que apareça. Eu, hein? Vai que…
GOSTOU? ENTÃO ME AJUDA, VAI NA PÁGINA DO BLOG "DO MEU INTERIOR" E VOTA NO CONTO. É SÓ CLICAR NAS ESTRELINHAS. QUANTO MAIS VOTO MAIS PERTO EU FICO DE PARTICIPAR DE UMA PUBLICAÇÃO DA APPLE. OBRIGADA.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

DE QUE ADIANTA SONHAR?



– vamos dançar? perguntou ela tímida para o garoto ao lado.
– não posso. sou um sonhador.
– e sonhador não dança?
– não. sonhador sonha.
– ah. pois eu danço e sonho.
retirou-se, com pena do menino bonito que sonha, mas não dança. nem perdeu tempo explicando que o sonho é a dança colorida da alma.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

PROSTITUTA



Tira a roupa como quem sorri
Mostra o corpo como quem toca o cabelo
Simples, natural, bela
Seduz como quem diz bom -dia
Mostra a pele como quem quer aplauso
Graciosa, sensual
Mas mantém a máscara
É a difícil escolha entre ser e estar ali
Novamente sorri como quem tira a roupa
Mostra o corpo belo, gracioso
Recebe os aplausos como quem toca o cabelo
E mantém a máscara
É difícil a escolha. 

domingo, 2 de março de 2014

PRECISO ENLOUQUECER

Preciso de um estrago
Um trago
Um ex
Um desassossego qualquer
Preciso perder a linha
As horas
A lucidez
O recato de mulher
Preciso de um desalinho
Um furacão
Um redemoinho
O que der e vier
Preciso deixar de precisar.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

MIL ANOS DE PRISÃO


*Texto baseado livremente em algumas absurdas histórias verdadeiras.

Sentença anunciada: mil anos de prisão. Ele recebeu a notícia de cabeça erguida, alheio ao que se passava em volta.
Rubens, 56 anos, braços e pernas algemados, uniforme sujo, barba crescida, nem de longe lembrava aquele que já tinha sido um homem bem apessoado, que inspirava confiança.
Entre os que acompanhavam o julgamento, desconhecidos, vítimas e algozes vorazes. Rubens, inabalável, falou em sua defesa que era tudo mentira, depois apelou para Deus e, num arroubo de insanidade, disse que nem se chamava Rubens. Negou o nome, a procedência e a vida demoníaca que o levara até ali.
Tudo começou 10 anos antes. Um Rubens em pleno auge de carreira de construtor. Irmão mais novo de uma família de cinco irmãos, Rubens perdera a mãe muito cedo. Fora criado por um pai bêbado e violento. Desde menino convivia com surras constantes e tortura descompensada.
Toda vez que o pai bebia, prendia os filhos em gaiolas espalhadas pela sala até que as crianças parassem de chorar. Ou até que a bebedeira fosse embora e a ressaca tomasse conta do dia. O pai de Rubens era um desempregado pária que morreu cardíaco e não fez falta alguma. Os filhos não se deram ao trabalho de ir ao enterro. Foi sepultado como indigente e esquecido.
Os cinco irmãos se separaram pelo mundo e Rubens se virou pintando parede e construindo muros. Evoluiu e montou uma pequena loja de materiais de construção.
Aos trinta e poucos anos havia construído a própria casa, cuidava da vida com tranquilidade e sequestrou duas crianças.
A loucura de Rubens chegou numa tarde em que passou em frente à escola fundamental da rua debaixo da casa dele. Avistou as duas vítimas quando dobrava a esquina. Eram os irmãos Cristina e Fernando. Ela tinha 12 anos , ele 13.
Com a demência que se instalou em sua alma, Rubens estudou a rotina dos irmãos. Eles chegavam sempre juntos, entravam sorridentes na escola. Na saída ninguém os buscava, iam a pé até em casa , o que não era longe dali.
Rubens passou uma semana de olho nos meninos. Até que um dia os abordou com um sorriso aberto e franco pedindo informação. Enrolou na conversa e acabou jogando os dois dentro da caminhonete que dirigia.
Prendeu os sequestrados no porão.
Os irmãos apavorados foram parar em duas gaiolas pequenas demais para grandes movimentos. Amordaçados, atordoados e com medo, choravam.
Mãos e pés amarrados, tanto gritaram em vão que cansaram. Acabaram adormecendo de tanto medo e frio.
No dia seguinte começou a jornada de uma década de tortura e maus tratos.
Por vários meses Cristina e Fernando ficaram trancafiados nas gaiolas. Enquanto Rubens construía um quarto ao lado do sótão. Deixava os irmãos presos dia e noite.  Ali mesmo nas gaiolas eles faziam as necessidades, bebiam água que Rubens deixava em pequenos potes de plástico. A comida era uma pasta que não exigia mastigação.
Ficavam amordaçados para não gritarem. Por um descuido de Rubens, certo dia Tina, apelido obrigatório de Cristina,  gritou tão alto que lhe rendeu um soco na cara. Ela ficou desacordada por três horas. Longas horas que quase mataram Fernando de tanto medo e angustia. Quando Tina abriu os olhos percebeu que perdera quatro dentes. Estava banguela e ensanguentada. Não recebeu nem um remédio, nada para aliviar a dor. Assim passaram os dias.
Finalmente a sala ao lado do porão ficou pronta. Estava escondida por uma porta de ferro que ficou atrás de um grande armário cheio de ferramentas. Mesmo quem descesse desavisadamente ao porão não poderia desconfiar que logo ali havia um cativeiro.
Rubens levou os dois irmãos até a nova sala. Dois catres esperavam por eles.  Sem cobertas nem travesseiros. Rubens  jogou os dois ali.  Perceberam um buraco no chão que funcionaria como banheiro. Um chuveiro improvisado com uma mangueira saia do teto. A luz era apenas de uma lâmpada que fora instalada embaixo de uma proteção de ferro, para que não houvesse perigo de ser usada pelos irmãos contra o sequestrador. Aliás, Rubens pensou em tudo. Nada ali naquele quarto dava a chance para os irmãos se armarem. Mesmo porque, Rubens instalou grilhões neles. Pesadas correntes amarradas nas pernas.  Nando e Tina criaram feridas nas canelas. Algumas sem cicatrizar nunca, outras até apodreceram a pele.
Durante meses não viram a luz do sol. Foram levados para um banho de sol amarrados às correntes. Um muro alto protegia a casa inteira. Nem vizinhos nem pedestres viam o que acontecia por ali. Atrás do terreno apenas uma floresta e sons estranhos de animais furiosos. Ninguém ouviu quando eles tentaram gritar por socorro ao ar livre.
Rubens bateu nos dois por demonstrarem tanta audácia.
Os irmãos foram novamente trancafiados e demoraram outros tantos meses para obter o benefício do sol.
Rubens visitava a cela dos irmãos todos os dias. Às vezes, contava histórias de como era torturado pelo pai. Outras, tinha surtos de violência e chutava e espancava as crianças.
Quando finalmente as feridas nos dentes de Tina cicatrizaram, ele começou a sessão de estupros diários. Obrigava Nando a olhar tudo. Chegava quase sempre depois das refeições. Muitas vezes fazia Tina comer direto na tigela enquanto estuprava a menina. Tina estava muito machucada, completamente destroçada por conta dos abusos.
Rubens então passou a abusar de Fernando. Amarrava o menino na cama e estuprava sem piedade. Toda vez que algum deles tentava gritar ou se defender apanhava e muitas vezes Rubens os estuprou desacordados mesmo.
Além dos abusos, inventou de torturar os jovens. Deixava cobras espalhadas pelo chão. Ratos também passaram a conviver com eles. Sufocava os dois enfiando suas roupas sujas garganta abaixo.
Para evitar os gritos torturou Nando com um alicate e cortou metade da língua do garoto.
A menina já perdera a esperança de continuar vivendo. Em pleno desespero, passou a menstruar. Todo mês que sangrava era obrigada a lamber seu próprio sangue. Eram cenas apavorantes e grotescas. Até que um mês a menstruação não veio. Dois meses, três. Rubens desconfiou que Tina havia engravidado. Bateu tanto na jovem, distribuindo socos e pontapés que ela abortou. E perdeu a audição do ouvido esquerdo.
Passaram-se meses nessa rotina de aflição. O rosto de Tina estava irreconhecível. Teve praticamente o corpo todo quebrado de tantas surras.
Nando não falava mais. Também estava irreconhecível, perdeu cabelo, virou um adolescente magro, esquelético e raivoso.
Depois de vários abortos e muitas surras, uma criança sobreviveu no ventre de Tina. Acabou dando a luz em meio a toda sujeira da cela. Abraçou a filha no colo por longos dez minutos. Logo Rubens arrancou o bebê de seus braços.
Saiu de casa para vender a menina a um casal estrangeiro. Ficou satisfeito com o dinheiro. Avisou a Tina que na próxima gravidez ela não apanharia tanto o que lhe renderia uma boa recompensa.
Os estupros não pararam, as torturas ficaram cada vez mais elaboradas. Os meninos viram a juventude e a inocência morrerem naquelas paredes.
Rubens por várias vezes ficava dias sem procurá-los. Eram pequenas viagens que fazia a trabalho. Eram momentos que os irmãos aproveitavam para tentar fugir, gritavam desesperadamente, batiam em paredes, procuravam qualquer coisa que servisse de arma. E não conseguiam nada.
Cristina engravidou mais cinco vezes,  e em nenhuma delas conseguiu ter o filho. Agora Rubens batia nela por não ter lhe dado mais uma criança, já que na cabeça dele era uma boa maneira de ganhar dinheiro.
Certa manhã, contrariando todas as expectativas, Rubens  saiu e esqueceu de trancar a cela dos irmãos. Eles perceberam e correram desesperadamente em direção ao muro do quintal. Como não tinham voz, nem forças , o máximo que conseguiram foi chamar a atenção do filho da vizinha.
O menino brincava entre as árvores da floresta quando viu os irmãos tentando em vão escalar o muro alto. Então sorriu pra eles e começou a jogar pequenas pedras que carregara até o galho onde estava. Tina em um sussurro pediu:
– Ei garotinho, chame seu papai ou sua mamãe.
O menino não entendeu nada e ficou por um bom tempo jogando pedras e rindo. Até que Tina jogou uma pedra de volta e atingiu o rosto do menino. Ele começou a chorar e gritar pela mãe. Foi nessa hora que apareceu uma vizinha preocupadíssima com a criança e mal olhou em direção ao muro.
A mãe pegou o menino que contou entre lágrimas que duas pessoas haviam jogado pedras nele. Para tirar satisfação, a vizinha foi bater na porta de Rubens.
Os irmãos correram para dentro de casa e começaram a bater de volta na porta, implorando para a vizinha chamar a polícia. Foi tudo muito confuso, a mulher demorou a entender e finalmente percebeu que os jovens pediam ajuda.
A polícia chegou. Já havia estado lá antes, mas nunca percebera o horror que se passava no porão. Encontraram os irmãos desfigurados, sujos e enlouquecidos. Rubens não voltou naquela noite.
Os irmãos contaram tudo á policia que montou guarda na casa de Rubens. Na manhã seguinte o homem chegou, estacionou o carro como se nada houvesse. Entrou em casa e finalmente foi surpreendido pelos policiais.
Rubens foi levado para a cadeia.
Os irmãos encontraram a família, ficaram sabendo da procura incansável por eles. Com muita dificuldade, refizeram a vida.

***
Rubens foi julgado e condenado a mil anos de prisão.
Foi levado para a cela que ocuparia pelo resto de sua vida. Um cubículo mal cheiroso, bastante parecido com o quarto onde manteve os irmãos Cristina e Fernando.
Cada condenado daquele lugar sabia da história do sequestro, da tortura, dos maus tratos. Foi recebido com ameaças. O preso da cela ao lado cuspiu em Rubens quando ele passou.
Os guardas jogaram o homem ainda algemado no pequeno quarto imundo.
Rubens sentou no catre duro e desconfortável, o guarda tirou suas algemas e aproveitou para tirar o fôlego do prisioneiro batendo forte com o cassetete em sua barriga.
Assim como fez com os irmãos, ficou sem ver a luz do sol por muito tempo. Nos primeiros dias naquela prisão, Rubens aprendeu a não olhar os companheiros nos olhos. No refeitório nunca conseguia comer a comida em paz, já que os homens cuspiam em seu prato, isso quando não colocavam os pés na frente dele para que tropeçasse ao passar. Quando menos esperava, ia ao chão com bandeja e tudo.
Conseguiu autorização para trabalhar na lavanderia e logo no primeiro serviço foi encurralado pela turma mais pesada do presídio. Homens fortes, altos e simpatizantes do movimento skin head.
O líder foi tirar satisfação com Rubens.
– Então quer dizer que o senhor gosta de comer criancinha?
– Não senhor, respondeu Rubens.
– Ah, agora eu sou mentiroso. Olha pessoal, eu sou mentiroso, falou o fortão para a gangue que o seguia.
Rubens não respondeu mais nada. Levou um soco, logo os outros homens começaram a bater também. Revezavam-se em  pontapés, socos, até que um deles teve a ideia de tirar as calças do homem todo encolhido no canto da sala. Todos riram e assim fizeram.
Sem calças, sangrando e imobilizado, Rubens foi currado por cada um dos homens da gangue. Restaram alguns dentes quebrados e muitas lágrimas.
A violência lhe rendeu três dias na enfermaria. E uma semana na solitária.
Assim iam passando os dias na cadeia. Todos se acharam no direito de fazer justiça com as próprias mãos. Mesmo depois de alguns meses Rubens ainda era torturado, abusado e espancado.
Vendo uma única saída para aquela rotina de violência se enforcou com o próprio lençol.
Deixou uma carta falando que não era culpado pelo que houve com os irmãos Fernando e Cristina. Em sua loucura, argumentou que Deus mandou purificar aquelas crianças, que estava sendo assombrado por crimes que não cometeu.
O corpo foi encontrado pelo guarda da ronda matutina. O homem foi enterrado sem ninguém para velar o corpo, nem mesmo um coveiro.
A partir daí coisas estranhas começaram a acontecer na cadeia.
Certa noite o vizinho, aquele que cuspia sempre que Rubens passava, estava já deitado e à beira do encontro com os deuses do sono, quando ouviu bem baixinho um choro, quase um uivo. Pensou que estava ouvindo o vento ou qualquer coisa assim. Mas o lamento  continuou. Levantou do catre e foi até as barras onde apurou a atenção. O som vinha da cela de Rubens. Ele não acreditou e colou a orelha na parede. Sim, o barulho vinha de lá. Manteve o ouvido na parede até que uma pancada altíssima fez com que se afastasse assustado.
Chamou os guardas que vieram correndo e ouviram a história incrédulos. Não havia nada na cela de Rubens, e mandaram que esquecesse aquilo, caso contrário ele entraria em castigo.
Na outra noite tudo se repetiu. O vizinho foi dormir chorando, ouvindo o murmúrio da cela vazia.
As portas do presídio começaram a se abrir sozinhas. E fechar também. Certo dia a ala dos chuveiros ficou trancada por duas horas sem que ninguém conseguisse abrir.
Na lavanderia, durante a tarde de trabalho pesado, todas as portas se escancararam ao mesmo tempo. Inclusive armários, máquinas, tudo se abriu de supetão.
As câmeras de segurança registravam tudo. E mais: toda vez que os carcereiros passavam em frente a cela de Rubens, sombras estranhas acompanhavam seus passos. Estava tudo lá, filmado e registrado.
Objetos caiam sem que houvesse vento.
Com o tempo os fenômenos foram ficando mais intensos. As portas batiam com mais violência.
O técnico responsável pelas filmagens pediu demissão. Não conseguia mais dormir muito menos ter uma vida normal. Estava sempre assustado e com medo.
A cela do homem nunca mais foi ocupada. Os gemidos da noite não deixavam que encarcerados ficassem por ali muito tempo.
No refeitório passou a ser comum encontrar insetos na comida, sangue na bebida.
Prisioneiros e carcereiros estavam apavorados.
O diretor não quis dar ouvidos a tantos disparates.
– Vocês estão agora achando que a cadeia está mal assombrada?  Poupem meus ouvidos, bando de maricas. Façam o trabalho de vocês, gritava o diretor para quem quer que reclamasse dos fenômenos.
Numa tarde de verão, um calor intenso tomou conta do local. Ninguém conseguia manter as roupas no corpo sem que encharcassem de suor. No pátio os homens se esgueiravam à sombra.
Logo um cheiro de queimado surgiu no ar.
– Porra, caralho, que merda de cheiro é esse? Perguntava o líder fortão que bateu em Rubens.
– Martelo, Linguiça, corram lá para ver o que tá acontecendo, gritou para dois de seus seguidores.
Martelo e Linguiça foram correndo. Voltaram num pé só avisando que a ala das “celas dos hediondos” estava pegando fogo.
Foi um alvoroço. Presos saiam correndo para todos os lados. Os guardas tentavam apagar o incêndio. Alguns prisioneiros aproveitaram para tentar uma fuga.
Formou-se um pandemônio.
Quando o caos se instalou simplesmente o fogo parou. Não havia mais fogo, nem fumaça, nem mais nada. Apenas um silêncio tenebroso, como se algum deus, ou demônio, tivesse mandado o mundo calar a boca.
Todos pararam o que estavam fazendo. Olhavam-se um para os outros sem entender o que estava acontecendo. Foi quando uma sirene ensurdecedora começou a apitar vinda de lugar nenhum. Todos caíram no chão. Ouvidos começaram a  sangrar, a dor era lancinante.
Estavam todos vivendo seu próprio inferno. Gritos, gemidos, raiva, medo. Tudo se misturava. Homens rastejavam, se debatiam, tentavam arrancar os olhos, se batiam sem dó.
Até que novamente veio o silêncio. E mais nada aconteceu. Os guardas aos poucos foram levantando do chão, começaram a tomar providências.
Enfileiraram presos, ajudaram feridos e levaram todos de volta as devidas celas. Os corredores pareciam mais escuros, e tomados por uma presença demoníaca.
A área dos hediondos estava intacta. Como se nada tivesse acontecido.
O diretor procurou explicações, representantes políticos fizeram visitas, médicos, cientistas, físicos, nada explicou todos aqueles fenômenos.
Decidiram esvaziar o prédio. As pessoas estavam tão assustadas com o local que mais dois ou três se suicidaram em pânico.
O lugar ficou vazio.
A prisão ficou velha, ultrapassada e finalmente foi fechada. Nunca se achou uma explicação. 
Hoje toda a área está abandonada. Há quem escute os gritos assombrados e desesperados, iguais aos de Rubens, que se matou lá dentro e ainda tem quase mil anos de pena para cumprir.

FIM 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O HOMEM QUE DESVIAVA


Alexandre era um cara responsável. Pai de Rafael, marido de Julia, filho único de dona Selma. Estava sempre disposto a ajudar. Tinha habilidade em consertar carros, luminárias e amizades. Era ele quem acalmava os nervos da galera quando a discussão esquentava. Ele que trocava as lâmpadas queimadas da casa da mãe viúva. Ele que levava o sogro ao médico. Ele que nas horas vagas distribuía ração para cães abandonados.
Alex, apelido obrigatório, não tinha muitas reclamações sobre a vida. Se dedicava de corpo e alma a fazer o bem. Mais corpo que alma. Alex estava bem acima do peso, mas nem isso tirava seu sono. Bonachão e boa praça. Sabe o tipo? Então, assim era.
Trabalhava em uma imobiliária no centro da cidade. Cidade quente, sem chuva, sem sombras, tomada pelo asfalto. Ia cedo para o serviço. Perdia mais tempo caçando vaga para deixar o carro que rodando pelo caminho. Ele morava pouquíssimos quilômetros da firma, mas a gordura de seu corpo era desculpa para não encarar uma caminhada.
Chegava ao escritório arfando. Dia sim, e no outro também, o elevador estragava e Alex encarava três andares como quem vê os portais do inferno. Vermelho, suando e sem dignidade alguma, entrava na sala, se jogava em sua cadeira e dava início ao dia de multitarefas.
Funcionário exemplar, além de ser responsável por várias contas de aluguel e cobrança de condomínios, tomou para si a obrigação de descer até a lanchonete da esquina para comprar diariamente as guloseimas do escritório. Valia tudo na hora do lanche. De pastel a picolé. E Alex era criativo, nunca repetia o petisco.
Em sua simplicidade, se dizia um homem completo.
– Pra que eu quero mais? Tenho uma mulher linda, um filho cheio de saúde e inteligência, uma casa com piscina e uma sogra que já já bate as botas, ria Alex até engasgar durante o discurso no cafezinho, quando os colegas agradeciam as gentilezas do gordo simpático.
Apesar de todas as alegrias que a vida pode proporcionar a um bom pai e cidadão exemplar, Alex se incomodava com uma coisa: ele era um cara que desviava.
É exatamente isso. Mesmo com todo aquele tamanho, Alex precisava andar sempre, ou quase sempre, em zigue-zague. As pessoas simplesmente não desviavam dele . Se estava subindo a escada escorado no corrimão para se equilibrar e manter o fôlego, lá vinha uma horda descendo os degraus que simplesmente não saia da frente e o obrigava a soltar o corrimão e deixar todo mundo passar. 
Se andava pela rua, quem quer que viesse em sua direção, ia reto, não desviava. Alex se obrigava a dar um passo para o lado.
Era um problema. Pra muita gente, uma bobagem, para Alex, um problemão.
Qualquer duzentos metros de caminhada se transformavam automaticamente em dois quilômetros de tanto que ele desviava das pessoas.
Quando tentava não desviar era de praxe levar esbarrão. E com ele sempre um puxão de orelha:
– Ei, olha por onde anda...
Isso sem contar as diversas vezes que iam lanche, sucos, cafés e respeito para o chão. Tudo porque ele não desviou.
Outro dia, andando apressado pela calçada, não desviou de uma senhora distraída e a mulher bateu com toda força em seu peito. E ainda xingou muito Alex. O homem ficou sem palavras. Não pediu desculpas porque afinal não era culpa dele. Ficou parado olhando a mulher indo embora e para sua surpresa, a tal senhora seguiu caminho desviando de tudo e todos. Naquele momento Alex se perguntou quase em voz alta: por que sempre eu que tenho que sair da frente?
Aproveitou o intervalo do almoço para observar o trânsito, os pedestres, o movimento das ruas. Dividiu a humanidade em dois tipos: os que desviam e os que não desviam. Passou a admirar os que não desviam. Mostravam mais confiança, elegância, força e determinação. Enquanto os outros que saiam da frente geralmente andavam de cabeça baixa, quase cansados. Disposto a fazer parte do mundo dos fortes, bradou a si mesmo:
– A partir de hoje não vou desviar. Venha o que vier, seja quem for, eu não desvio.
Fez o sinal da cruz para garantir a seriedade do juramento.
Manteve a rotina de ir de carro ao trabalho, achou vaga perto da entrada. Ninguém passou por ele. Surpreendentemente o elevador estava funcionando. Desceu no andar do escritório, foi até sua mesa, e nada de precisar desviar.  O dia começava bem.
Hora do lanche, Alex se preparou para ir até a esquina pegar as coxinhas de galinha tradicionais da quinta-feira. Confiante, desceu pelo elevador, atravessou a porta grande do prédio e nem viu que a rua estava praticamente vazia.
Feliz em não precisar desviar de ninguém, Alex caminhou tranquilamente. Nem percebeu que o local estava cercado pela polícia. Naquele momento, bandidos estavam fugindo de um assalto a um banco ali próximo. O centro da cidade estava nervoso. Policiais do esquadrão antibomba gritavam para todos se afastarem, a rua fora interditada, polícia de um lado, ladrões de outro. Sirenes, confusão.
Quando se deu conta do que acontecia Alex saiu correndo, nessa hora começou o tiroteio.
Alex dobrou a esquina para o lado errado e acabou de cara com os bandidos. Ficou paralisado. Sem mexer um músculo, apenas ouvia os gritos dos assaltantes encurralados.  
A primeira reação foi pedir “peloamordedeus” que o deixassem ir, mas Alex lembrou que agora ele era forte, destemido, um homem que não desviava de nada. Não cederia um passo, um centímetro para o lado.
Não teve medo. Manteve o juramento: morreu com uma bala na cabeça porque não saiu da frente.

FIM 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O MENINO QUE VÊ A VERDADE


Era uma daquelas crianças quietas. Gostava de tudo muito organizado. Não se enturmava com ninguém. Brincava sozinho. Ocupava o sótão da casa com um pequeno exército feito de soldados de pedra que ele mesmo fabricou.  Menino calado, sempre acompanhado de um boneco sujo e surrado de natais passados. Natal que, aliás, era o maior medo dele.
Quando começavam os preparativos para as festas de fim de ano Calel se calava ainda mais. Esgueirava-se pelos cantos da casa e passava a dormir com a luz acesa.
Tudo começou na infância. Nos três primeiros anos de vida, quando as árvores natalinas eram instaladas em lojas e casas, o menino não parava de chorar. Para sair à rua era arrastado pela mãe. Quanto mais enfeites, mais o desespero dele aumentava. Certa vez ele teve um ataque de fúria em uma dessas visitas ao Papai Noel do shopping. Surtou. Gritou, esperneou, arranhou o Papai Noel. A mãe de Calel não conseguia acreditar na bagunça que o filho havia armado.
Desde esse escândalo nunca mais se ouviu falar em visitas ao presépio do shopping. O pânico do menino ao avistar, mesmo que de longe, qualquer figura que lembrasse Natal intrigava a todos à volta dele. Na escola a professora não sabia como reagir. Certo dia, Calel subiu a escadaria até a biblioteca do colégio. Era horário do recreio, crianças corriam pelos corredores, lá fora uma chuva impedia que se explorassem os campos de futebol. Calel ia em direção à porta da biblioteca quando deu de cara com um boneco do Papai Noel em tamanho natural. Ele simplesmente estancou. Parou de caminhar e ficou olhando fixamente para aquele boneco. Não se mexeu durante o intervalo todo. Nem piscava. Uma das professoras o encontrou depois que os outros alunos se recolheram à sala de aula. Ele ficou lá, estático, como se tivesse visto um fantasma.
– Calel, querido, a sirene tocou, disse a professora pacientemente.
Ele não respondeu, sequer olhou para ela. A professora, sutilmente, tocou os ombros dele e o empurrou em direção à diretoria. Neste momento o menino acordou do que parecia ser um coma profundo. O grito que ele deu invadiu os corredores da escola e todos foram ver do que se tratava. Ele desmaiou. Foi levado para casa nos braços do pai que foi correndo atender ao chamado da diretora.
O tempo passou e os pais desistiram de festas natalinas, presentes, enfeites, músicas.  
Na véspera de Natal do ano passado Calel se escondeu embaixo da cama e de lá não quis sair de maneira alguma. A mãe foi conversar com o filho:
– Meu filho, porque você está ai? Vamos conversar. Eu fiz leite com chocolate bem quentinho, como você gosta.
– Não mamãe. Eu não vou sair daqui. Eles agora estão até nas fotos. E ontem um apareceu no sótão. O exército não está mais conseguindo me proteger.
– Que história é essa, menino?
– Olha essa foto mamãe, a senhora consegue ver? Esticou uma foto amarelada em direção a ela.
Lurdes, a mãe de Calel, pegou a fotografia carcomida pelo tempo e ficou surpresa ao perceber que se tratava de uma antiga foto de família, no Natal de muitos anos atrás, quando ela era uma menina na idade do filho.
– Calel onde você encontrou isso? É uma foto com sua bisavó. Nesta noite ganhei a maior e melhor boneca da minha vida. Foi no ano que seu avô morreu.
– Mamãe, a senhora não vê? Ali atrás, perto da árvore?
– Não, nada. Apenas uma pilha de presentes...
Ele começou a chorar. Devagar foi saindo de baixo da cama e sentou próximo à mãe.  O braço estava todo arranhando. Havia sangue na camiseta.
– Eu vejo ele. Eles. Ali atrás, falou baixinho secando as lágrimas. E apontou para a parede onde estava a árvore com os presentes.  A mãe tomou a foto do garoto.
– Calel, pare de bobagens. Não tem nada ali. E vamos logo limpar esse braço. Como você se machucou?
– Você não entende? Antes eles não apareciam em fotos, gritou o menino.
– Antes eles não conseguiam me machucar. Deixou a xícara de leite quente cair no chão e saiu correndo em direção ao sótão.
Ficou por lá a tarde toda.  Quando o pai chegou ele desceu, deu boa noite a todos e foi para o quarto. Foi mais uma noite de pânico. Como todos as outras noites de Natal. Calel gritava e socava o ar. Os pais conseguiram pegá-lo no colo e o levaram para o quarto deles. Assim ele se aquietou. No outro dia pela manhã, envergonhado pediu desculpas aos pais.
O pai aproveitou para entregar um presente ao filho.
– Calel, esse seu ursinho ai já está velho e sujo. Veja o que eu lhe trouxe. E entregou o embrulho ao filho.
Calel entrou novamente em estado de pânico, e olhava para o presente como se mil cobras estivessem se mexendo dentro daquela caixa. Saiu correndo e se trancou no guarda-roupa. Não saiu de lá o dia todo. Foi dormir sem nada comer.
Os dias correram, Calel se acalmou e finalmente as festividades se encerraram.
O ano-novo chegou e passou sem grandes sustos naquela casa. O menino tirou todas as fotos natalinas dos porta-retratos. Também rasgou todo e qualquer presente, embrulho, cartão. Não havia sinal algum de Natal nem nas caixas velhas escondidas no sótão.
Mas o tempo passou e novamente o Natal estava para chegar. Calel já havia completado dez anos. Continuava as tardes trancado com seu pequeno exército de pedra. O urso velho estava ainda mais gasto, mas mantinha-se inseparável. O menino quase não falava e até para ir à escola era um sacrifício.
Na véspera de Natal os pais foram convidados a participar da festa na casa do prefeito. Seria muito importante eles comparecerem, concluiu o pai na hora do almoço. Afinal ele se preparava para disputar as eleições na câmara municipal.
– Nós vamos meu filho e para que você não apronte das suas vamos contratar uma babá para cuidar de você esta noite. E assim fizeram. Os dois saíram impecáveis. Levavam presentes para serem distribuídos. Calel olhava com asco e medo. A babá chegou e Calel foi para o quarto.
A babá na verdade era a filha da vizinha. Alice o nome dela. Desde sempre ajudava a cuidar do menino. Por conta do dinheiro bom que estava sendo pago desistiu de passar o Natal com a família. E ainda ia aproveitar para ver o namoradinho.
– Calel? Estou na sala vendo TV. Você não quer ficar comigo? Perguntou Alice.
– Vou ficar aqui. Estou bem, respondeu Calel espalhando o exército de pedra ao redor da cama.
Ficou sentado de olhos bem abertos e apavorado enquanto lá fora o mundo comemorava a chegada do Papai Noel. Se eles soubessem o que eu sei, pensou o garoto consigo mesmo.
De repente um barulho estranho veio da sala. Calel ficou em duvida entre se esconder embaixo das cobertas ou ir ver o que era. Lembrou-se de Alice sozinha. Abriu a porta e olhou o corredor escuro que dava acesso à escadaria que levava até a sala. Lá debaixo novamente um barulho abafado e a televisão num volume acima do normal. Alice deixou num canal que só tocava música natalina. Calel foi pé ante pé até a escada. Começou a descer com bastante cautela. As sombras que se formavam na parede pareciam querer engolir o menino.
Chegando ao pé da escada Calel pode ver o horror:
O monstro estava sufocando Alice. Sem pensar duas vezes correu em direção a eles e os derrubou no chão. Conseguiu esticar o braço e alcançou o abajour que havia caído durante o salto. De um golpe só acertou a cabeça do monstro. Alice gritava e recebeu os jatos de sangue na cara enquanto Calel destruía aquela besta. Alice saiu correndo, quase foi atropelada e se trancou na própria casa. Calel foi atrás dela. A casa de Alice estava toda enfeitada. Cada enfeite daqueles era uma bestialidade sorrindo para Calel. Desde que nasceu podia ver o verdadeiro espírito de Natal. Que não tinha nada de divertido.
Eram seres horrendos, disformes, famintos, com dentes amedrontadores. Os olhos injetados de terror e ódio.
Cada árvore enfeitada para o Natal se transformava em um esqueleto monstruoso, um ser de proporções gigantes, eram como cadáveres sem pele, apodrecidos e esfaimados.
As caixas de presente se transformavam em bichos peçonhentos de espécies nunca vistas antes. Eram cobras de três cabeças, escorpiões de duas caudas, era como se a porta do inferno se abrisse e de lá saíssem as criaturas mais grotescas do universo.
Cada Papai Noel, mesmo que um fantoche, ou um inocente boneco cantor, era um espírito maligno que se manifestava. Todos aproveitavam para matar a sede de ódio que sentiam. Cada criança abraçada servia de alimento para eles. Eram comedores de almas. Invariavelmente nas famílias mais chegadas a festas natalinas alguém morria porque os espíritos sugavam tanto a energia deles que muitos não aguentavam.   
E Calel podia vê-los. Podia senti-los. E nada conseguia impedir aqueles servos do mal. A única coisa que funcionava para Calel era o exército de pedra que ele mesmo fizera. De alguma maneira aquelas pedras afastavam os seres malignos. A cada Natal ele fabricava mais e mais. O urso velho também o protegia. Servia como uma espécie de amuleto.
Calel encontrou Alice apavorada.
– Precisamos conversar, implorou Calel.
Alice segurava uma faca afiada.
– Você matou meu namorado, Calel. Ele foi me fazer uma surpresa e você o matou, lamentava Alice, chorando e apontando a faca para o garoto.
– Alice, ele era um demônio, um ser de outro planeta, não sei, acredite em mim, eu posso ver a verdade.
– Não, gritou Alice, não pode ser. Ele estava apenas fantasiado de Papai Noel.  E a moça caiu em prantos. Largou a faca e Calel aproveitou para se aproximar. Pediu a Alice para irem embora dali já que a casa estava infestada de monstros nos enfeites que a adornavam.
Alice estava em choque e aceitou sair com o menino. Sentaram no meio fio em frente à casa de Calel. A porta estava aberta e lá dentro se via o corpo do tal namorado.
– Eu acho que eu vi também, falou Alice em uma voz embargada, quase sussurrando.
– O quê? Duvidou Calel.
– Sim, quando você estava batendo nele, eu acho que vi. Ele estava medonho, assustador, com garras, e uma pele que... Ah Calel, isso é loucura, como pode ser?
– Alice, ninguém mais vê. Para todo mundo eu matei o seu namorado. Nem ele sabia que estava sendo usado. Mas acredite, eles estão em tudo até nas bolinhas da árvore. Eu vejo todos. E sinto. E eles me machucam. Antes ficavam de longe, à espreita, mas agora já conseguem me tocar. E começaram a aparecer em fotos também. Quando as crianças estão sendo sugadas, as almas delas choram e eu ouço. É horrível. O grito de uma alma é ensurdecedor. Me desculpe, mas eu não aguentei. Ele ia matar sua alma Alice. Foi por pouco.
– Mas eu não senti nada, argumentou.
– Pois é, ninguém sente. O corpo não sente, mas eu vejo e ouço o que a alma sente. Ela grita pedindo socorro.
Alice se encolheu nos braços de Calel.
– E agora, o que vamos fazer? Perguntou Alice.
– Não sei. Vamos ter que inventar um assalto, algo assim. Você me ajuda?
Foram os dois tentar limpar a bagunça, ainda tremiam diante de tanto horror. Chamaram a polícia. Os pais de Calel chegaram preocupados. A mãe foi correndo ao encontro do filho. Abraçou o menino e perguntava sem parar se estavam bem. Alice também foi amparada pelos pais. A polícia tirou fotos, fez uma perícia preliminar e pegou o depoimento das crianças. Os dois contaram que pensaram se tratar de um ladrão e só perceberam que não era quando conseguiram que o homem ficasse quieto.
Alice não parava de chorar. Contou que conhecia o rapaz da escola e que por ele estar vestido de Papai Noel não o reconheceu. E assim deram por encerrada a história de legitima defesa.
Alice e Calel, desde então, andam sempre juntos. Constroem soldados de pedra. Se encerram em bibliotecas onde tentam achar teorias. Nada ainda explicou quem são esses seres. E o garoto mostrou à Alice a foto antiga da família. Ela pode ver realmente que no cenário atrás das crianças há uma árvore disforme, esquelética, perversa, toda coberta por enfeites que são bocas abertas com dentes afiadíssimos e cruéis. Nas caixas de presentes saem insetos e bichos nojentos que se espalham pelo chão. E um Papai Noel demoníaco e monstruoso olha diretamente para eles. 


Fim 

*TEXTO CLASSIFICADO EM CONCURSO. ESTÁ EM E-BOOK. QUEM QUISER O E-BOOK COMPLETO CLICA AQUI: http://www.alcilenecavalcante.com.br/alcilene/infinitum-libris-lanca-antologia-de-contos-de-natal


sábado, 2 de novembro de 2013

A BRIGA


* texto baseado livremente em lendas, causos e folclore do norte do país. 

Depois do terceiro copo de tarubá já se sentia embriagado.  A bebida mais vendida no bar era feita por ali mesmo e tinha esse poder sobre ele. Assim, meio zonzo, foi até a mesa mais escondida. Sentou e ficou observando o ambiente. O dono da espelunca, seu Ribamar, corria de um lado para outro pra dar conta de atender a clientela. Última noite de lua cheia, o vai e vem era grande. Pegou mais um cigarro, e com as roupas amarrotadas e inteiramente molhadas de suor, o lobisomem não passou despercebido. Quase todo o  mundo que passava lançava um olhar de curiosidade.
– Quem é? Perguntou o famoso senhor Boto Pink Dolphin, também conhecido por Botinho.
 Detetive do sul, respondeu Ribamar entre dentes.
Botinho andava mal de saúde. A idade estava chegando, com ela muitas dores nas costas e nas pernas. O olhar cansado denunciava um mal ainda pior: estava apaixonado. As noitadas de festa e conquistas, cada vez mais escassas. Ele só pensava na amada. O dia amanhecia e nem queria voltar para casa. Naquela noite tomava uma bebida quente, coçava as tatuagens e esperava o tempo passar, meio encostado no balcão.
 Seu Botinho hoje tem festa na casa de Iaiá, vai não?
 Vou não Ribamar, vou ficar aqui mais um tantinho pensando nos cabelos de Iara, aquela ingrata. E assim passava mais uma noite a lamentar o amor não correspondido.
Já o tal lobisomem, o detetive do sul, continuava registrando o movimento. O lugar estava cheio de fumaça, dos cigarros, das comidas e das assombrações que davam o ar da graça sem se preocupar com a bagunça que causavam.
Neste momento chega o Bôita. Apelido que Boitatá ganhou dos mais íntimos. Bôita já entrou furioso com os primos.
 Eu já falei pra tia Zelina que ela tem que dar um jeito no Honorato e na Maria Caninana. Estão lá os dois brincando de “sou-maior-que-você” de novo. Conclusão: está o maior reboliço na praça, tem gente correndo pra tudo quanto é lado pensando que o mundo vai acabar, que o terremoto chegou. Já avisei. Não adianta. Ela mima demais aqueles dois e é nisso que dá.
Ribamar nem respondeu aos resmungos de Bôita. Estava ele próprio com problemas suficientes para resolver depois que o Saci sumiu com o estoque de petiscos do bar. Logo os clientes estariam famintos e pra comer? Nada. O Saci tinha feito das suas. Só não desapareceu com a bebida porque metade do bar ouviu aquela risadinha infame. Acabou então se entregando, mas antes quase ateou fogo na cozinha quando saiu pulando feito doido de lá de dentro. Ainda perdeu o gorro pelo caminho.
Gritos histéricos saíram da mesa próxima ao banheiro. É que o Caipora acabara de descobrir que a montaria dele era na verdade Matinta Perera. A velha tinha pregado novamente uma peça nele. Ficou furioso. A feiticeira fingira ser o porco que levou o indiozinho até o bar. Ele quase morreu de susto quando ela se revelou. Pior foi saber que tinha perdido o transporte de volta pra casa.
 Sua velha nojenta. Ainda faço você e seu assobio se perderem para sempre na floresta.
E lançou o olhar em brasas pra cima dela, tão violento que o vestido preto e já muito sujo de Matinta chegou a dar uma chamuscada, mas nada que tirasse o bom humor da bruxa. Caipora logo pediu uma cachaça e mais cigarros. Ficou num canto amuado.
Enquanto isso, o detetive pediu outra bebida. E já olhava o relógio desconfiado quando entra ela, deslumbrante, de vestido branco quase transparente, cabelos loiros longuíssimos, andar lânguido. Uma tristeza embelezava o rosto daquela mulher. Foi andando vagarosamente em direção a ele.
 Boa noite detetive, falou numa voz de tirar o fôlego. Ah esse sotaque espanhol caliente, pensou o detetive.
 Boa noite. Achei que tivesse desistido do encontro, comentou o detetive entornando o copo , já com ar de insatisfeito.
 Imagina, é claro que eu não isso por nada, seduzia a mulher.
Maria Chorona. La Llorona, a bela da meia-noite. Vinha direto do México para dar notícias desastrosas:
 O pessoal da neve me garantiu que é verdade a vinda de Big, comentou a loira já comendo algumas frutas que Ribamar achou escondidas longe do alcance do Saci.
 E quando será? Perguntou o lobisomem.
 Em breve. Assim que a última colheita de açaí terminar, respondeu. O velho Itaki já está informado e vai adiar ao máximo o fim do trabalho.
Curupira vai ficar furioso, pensou o detetive. Vamos ter que segurar o chefe à força, quase falou em voz alta.
 Está aqui, como o prometido, disse o lobisomem. E pagou a informação com o mais lindo colar de jade já feito naquelas bandas. - Veio direto do cofre de Muiraquitã. O safado do batráquio exigiu doze donzelas ao chefe, no ano passado, confidenciou.
Deslumbrada, a mulher deixou a mesa e foi embora.
Bem ali ao lado, Jurupari Júnior falava com uma moça tímida. Gritava, na verdade.
 Dona, eu já falei mais de um milhão de vezes, eu preciso falar com Tupã. Questão de vida ou morte. E um trovão cortou a noite.
O detetive não ficou para ouvir o final da conversa. A notícia de que Big estava chegando o deixou muito preocupado, afinal o gringo não brincava em serviço. Pé-Grande em pessoa estaria por ali em poucos dias. Viria para brigar por mais terra.  Queria invadir as florestas do Curupira pelo simples prazer de ter mais e mais. Estava na cara que aquilo não ai dar certo. Vai dar confusão, pensou.
O lobisomem saiu do bar apressado para dar as notícias ao chefe. Sem nem prestar atenção à lua que saia brilhante de trás das nuvens, atravessou a mata correndo. Com receio de se perder foi marcando as árvores por onde passava. Tinha medo da ira do patrão. A sorte foi que após dar a notícia da vinda do Pé- Grande, Curupira não prestou atenção em mais nada. Ficou nervoso, endiabrado. Seus cabelos mudaram imediatamente para um tom mais intenso que seus olhos de fogo. O duende caminhava de um lado para o outro, quase tropeçou nos pés virados. Arrancava os pelos de todo o corpo. O detetive nunca antes vira o chefe tão furioso.
 O que pensa aquele sasquatch? O que quer fazer nas minhas matas? Não está satisfeito em conquistar os territórios gelados e quer invadir meu lar? Vem pra cá infestar tudo com aquele cheiro horroroso insuportável? Praguejava. - Não. Nunca, nunca, gritava com ódio o Curupira.
O detetive perguntou ao chefe se precisava de algo mais. Foi dispensado. Achou o caminho de casa e foi descansar, apesar dos sussurros e assobios que o acompanharam durante toda a noite.
Na manhã seguinte, tudo parecia normal. Parecia. A floresta tremia todinha. Logo se pensou em briga na família Cobra Grande novamente. Mas Maria, Honorato e a tia Zelina foram os primeiros a surgir sem entender o que estava acontecendo. Eis que Big chegou antes do previsto. Veio derrubando árvores, pisando em tudo, deixando marcas pelo caminho.
Curupira logo chamou o exército que havia formado. Desde Tupã até ao Uirapuru, todos juntaram forças para defender a floresta. Big estava sozinho. Finalmente quando ficaram frente a frente, a Mula Sem Cabeça chegou correndo. Com ela vieram os pirilampos, as fadas, os hobbits, os elfos, até os trolls e as crianças estrangeiras de Avalon. Sem fôlego, a Mula gritava:
 Parem tudo. A Árvore da Vida está em perigo.  Os homens brancos estão chegando.
O silêncio tomou conta da floresta. Deuses, semideuses, duendes, cobras, lobisomem, mulas, animais, todos, todos congelaram. Ninguém sequer piscava. Esqueceram imediatamente as diferenças, as muitas línguas que falavam e olharam ao mesmo tempo para Curupira. Até o sasquatch recém-chegado ficou apavorado.
Foi assim que todos se uniram. Saíram em marcha em direção à clareira que abrigava a Árvore da Vida. A briga estava apenas começando. 

FIM