Conheço artistas do prazer e pesadelo
Cujos quadros pintados sem a luz do Sol
Parecem implorar à sombra do arrebol
Um novo horror com franco e persistente apelo.
Ao saber dessa súplica vimos do Abismo
Para então adentrar suas sinistras galerias
E descobrir porque tão belas alegrias
Sucumbem ao amargor desse tinto cinismo.
Há sangue nas paredes (molduras jamais!),
E em tudo que meu olhar estranho se detém
Um cadáver infante cavalga no além
A imagem distorcida de amores iguais.
O pálido azul de um quadro ousa me dizer
Que do pecado colhe-se frondosa messe
Pois Deus do crime cúmplice jamais se esquece
E há de punir no corpo esse carnal poder.
Odeio vossas paisagens, gélidos artistas!
A noite que nos palcos da vida encenais
Nunca vencerá aquela dos céus infernais;
Porque a treva sublime de vossas conquistas
Não passa de um esquálido e pungente raio
Tirado à matriz da melancolia morbosa
Que viceja no tédio qual funérea rosa
Na lápide nua sob as lágrimas de maio.
E o que vomita vossa aquarela incolor,
Apesar de frio e exposto ao paladar do verme,
É menos do que prova vosso sangue inerme
Dessa trêmula, imensa e sempre eterna dor.
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Rebellis [Eduardo Borges]
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quarta-feira, 27 de junho de 2007
domingo, 27 de maio de 2007
Do Desejo de Precipitar-se
Escrito por
Rebellis
Porventura será numa palavra vã
Que a Noite, do poeta a bela cortesã,
Dirá àquele que dorme um descanso sem medos
Como o Amor se revela em antigos segredos?
Envolta no negror de um estrelado véu
Virá a musa noturna, imperatriz do céu,
À cama do poeta, amante do perfeito,
Para dar-lhe um prazer satânico e suspeito.
De posse de um segredo escrito sem sinais
Ele beberá o mel que tanto suplicais;
E viajará então a uma cidade impura
Para sepultar lá a semente da ventura.
Mas todo dom exala o veneno do absinto
E até o poeta irá provar a dor que sinto:
Esse estranho licor que queima na garganta,
Como o vinho que mata, inspira e nos encanta.
Porque terás, infausto odiado e querido,
O mesmíssimo fado outorgado a Cupido:
Que toda flor que brota em meio à escuridão
É bastarda da mais infeliz decepção.
______________
Eduardo Borges [ rebellis ]
Originalmente publicado em http://revelia.blogspot.com.
Que a Noite, do poeta a bela cortesã,
Dirá àquele que dorme um descanso sem medos
Como o Amor se revela em antigos segredos?
Envolta no negror de um estrelado véu
Virá a musa noturna, imperatriz do céu,
À cama do poeta, amante do perfeito,
Para dar-lhe um prazer satânico e suspeito.
De posse de um segredo escrito sem sinais
Ele beberá o mel que tanto suplicais;
E viajará então a uma cidade impura
Para sepultar lá a semente da ventura.
Mas todo dom exala o veneno do absinto
E até o poeta irá provar a dor que sinto:
Esse estranho licor que queima na garganta,
Como o vinho que mata, inspira e nos encanta.
Porque terás, infausto odiado e querido,
O mesmíssimo fado outorgado a Cupido:
Que toda flor que brota em meio à escuridão
É bastarda da mais infeliz decepção.
______________
Eduardo Borges [ rebellis ]
Originalmente publicado em http://revelia.blogspot.com.
sexta-feira, 27 de abril de 2007
Ars Poetica *
Escrito por
Rebellis
A poem should not mean
But be.
— Achibald MacLeish
But be.
— Achibald MacLeish
Quando a tristeza beija minha pele fria
E a solidão desperta um novo pessimismo
E com prazeres de suicida sonho e cismo,
É necessário compor outra poesia.
Risco o papel com desespero, fel e tinta.
Em cada rima meu pavor é sangue e pus,
E no final o meu soneto em si traduz
Toda paisagem que no túmulo se pinta.
Contemplo exausto a tempestade do meu feito
E, na certeza que estarei vivendo em vão,
Sinto-me carne podre dentro de um caixão.
Porque meu verso é uma facada no meu peito,
É um afogado que se atira em todo mar,
É alguém que parte para nunca mais voltar...
Eduardo Borges, abril de 2007.
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(*) Ars Poetica [do latim "A Arte da Poesia"], foi um tratado escrito pelo poeta lírico Horácio por volta do ano 18 a.C. A citação foi tirada de um poema homônimo de Archibald MacLeish (1892-1982). Mais informações: http://en.wikipedia.org/wiki/Ars_Poetica.
terça-feira, 27 de março de 2007
Sonolência Grave
Escrito por
Rebellis
Hipnos assombra as alegrias menos isentas
E semelhante ao grito rouco dos devassos
Ele também arrasta seus pesados passos
Pelos jardins de flores nuas e sonolentas.
Poucos resistem ao rumor rasgado e escuro
Que afronta sonhos, corações e pesadelos
Quando ele chega no silêncio dos apelos
Para alargar nosso sorriso mais impuro,
E ao despertar banhado em sangue novamente
Homem nenhum conseguirá dormir calado
Vendo deitar esse sombrio monstro ao seu lado.
Mas sempre há aqueles que vivendo o inconseqüente
Bebem, assim como eu, soníferos mais fortes
Para dormirem por prazer milhões de mortes!
Eduardo Borges (Rebellis)
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Hipnos, segundo a mitologia grega, foi o deus do sono, filho da noite, Nix, e do caos primordial, Érebo. Seu filho mais importante foi Morfeu, o deus dos sonhos.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hipnos
E semelhante ao grito rouco dos devassos
Ele também arrasta seus pesados passos
Pelos jardins de flores nuas e sonolentas.
Poucos resistem ao rumor rasgado e escuro
Que afronta sonhos, corações e pesadelos
Quando ele chega no silêncio dos apelos
Para alargar nosso sorriso mais impuro,
E ao despertar banhado em sangue novamente
Homem nenhum conseguirá dormir calado
Vendo deitar esse sombrio monstro ao seu lado.
Mas sempre há aqueles que vivendo o inconseqüente
Bebem, assim como eu, soníferos mais fortes
Para dormirem por prazer milhões de mortes!
Eduardo Borges (Rebellis)
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Hipnos, segundo a mitologia grega, foi o deus do sono, filho da noite, Nix, e do caos primordial, Érebo. Seu filho mais importante foi Morfeu, o deus dos sonhos.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hipnos
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