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terça-feira, 16 de outubro de 2007

Insanidade


Pra ele era algo incontido. Quantas vezes se pegou acariciando o corpo daquela garotinha nos dedos da sua mente? Ele tinha noção da sua insanidade, justo ele, o pai de uma menina de 11 tal qual essa dos dedos da sua mente. Uma garotinha, Jasmim era o seu nome, mas não estava mais aqui, não pelos males que lhe fizera e sim por outras dores de que fora acometida. E assim seguia em sua obsessão compulsiva até que num fim de tarde de uma sexta ao voltar do serviço,já que aquele era o seu caminho, defrontou-se com a menina que transtornava seus pensamentos. Era linda! Olhos negros, feição suave, serena, e o jeito de quem achava que tudo de bom estava para lhe acontecer. Sorriu para ela e foi retribuído.
Prometeu-lhe um chocolate e a aceitação veio fácil.
–Ali na esquina, vamos? – e ela foi, rindo, olhos resplandecentes de quem ia ganhar sua guloseima. Comprou o chocolate e ela lhe sorriu em agradecimento. Mais uma vez olhou com paixão praquela criatura em corpo de menina-moça, mas com o olhar de uma criança. - Ah! Quantas recordações a pequena criatura lhe trazia à mente. Recordações tristes e doloridas. Sorriu novamente para ela.
-Em casa eu tenho um monte desses. Você quer? – Os olhinhos brilharam novamente e juntamente com os passos os seguiram. Ao chegarem na sua casa, laconicamente a despiu das suas roupas de garotinha.Ela, assustada, chorava. Ele, ansioso procurou no guarda-roupa a veste de anjo que sua filhinha usara num ano anterior, o da sua morte. Encontrando-a fixou-se nela e entao lhe veio na mente o sorriso e a felicidade da sua menininha vestida de branco. Recordou-se também da pequena biblia que ela portava nas mãos e entao foi impossível deter as duas lágrimas que marejaram seus olhos.Era a roupinha de 1a comunhão. Sua memória avançou mais um pouco e lembrou-se da mulher de quem nunca mais soubera - talvez perdida numa esquina desse mundo de Deus -imaginou.
Voltou à realidade e ao percebê-la assustada a carregou pelo braço e se dirigiram á cozinha. E lá, de um dos armários retirou da prateleira um enorme pote e de lá surgiu uma deliciosa barra de chocolate. Insistiu para que ela pegasse e em se negando carregou-a novamente pelo braço e voltaram para o quarto. A garotinha, agora de anjo, um anjo branco já não mais chorava. Só os seus saltitantes soluços substituiam as lágrimas que de medo não a deixavam chorar.
-Fique em pé! Olhe para cima! – A voz soou dura, autoritária. Ela, como se hipnotizada nem se mexeu. Ele se despiu e enfiou-se numa túnica branca feita de sacos de farinha. Acima da penteadeira uma coroa de folhas secas e amareladas pelo tempo ornamentavam a armação de arames feita por ele, manualmente. Colocou-a e se olhou no espelho por uns bons dois minutos. Após, caminhou até a poltrona, sentou-se e, num riso angelical,e doçura na voz, proferiu:
- Vinde a mim oh pequena criança pois tu herdará o reino dos céus! Depois, nada mais falou, nada mais agiu. Repentinamente a singeleza do olhar foi sunbstituido por um olhar severo, rude. Seus olhos se fixaram num ponto perdido enquanto sua mente mergulhava em pensamentos profundos e sombrios. Novamente a feição o modificava e entao um sorriso um tanto satânico se apoderou de si e se imaginou salvando os pecados do mundo, livrando toda humanidade dos seus infelizes pecados. A garotinha, agora mais curiosa do que assustada desviou o olhar de um ponto qualquer do teto e o foi abaixando lentamente até encontrar os olhos daquele homem estranho. Fitou-o atentamente enquanto tentava compreender o motivo daquilo tudo, mas sem conseguir.
As mãos do homem agora subiam em direção aos céu e as palavras balbuciadas lhe abandonavam a boca, sem nexo, rápidas e sem que ela entendesse qualquer um dos seus significados. Ele já não fazia mais parte desse universo. Acabava de assumir pra si a condição do Todo Poderoso.

sábado, 16 de junho de 2007

Entrevista com Deus.



Porfírio olhava pra ELE e ELE lhe pareceu medonho.
Duas cabeças saiam do seu tronco já que não havia o pescoço para sustentá-las. Nelas, seis pares de horríveis olhos alaranjados, vez ou outra saltavam fora das faces. O nariz, num dos rostos, parecia uma chaminé de onde escorria um fétido e pegajoso líquido verde. Da sua única boca nada se via a não ser um negro e interminável túnel e por onde, de forma cíclica, vomitavam labaredas azuladas.
ELE percebeu a decepção que causara a Porfírio:
-E então? - ELE perguntou
-Mas, mas, mas,...- Porfírio, entre surpreso e atemorizado tentava se expressar mas sem conseguir alcançar o seu objetivo.
ELE insistiu em dar tempo ao tempo. Era infinita a sua tranquilidade e o seu misericordioso silêncio. Também não lhe custava dispor de alguns momentos para que Porfírio pudesse gozar aqueles minutos de fama, afinal, não era com qualquer um que ele falava, conversava com Deus, o todo poderoso!
-Mas, mas, mas...- Porfírio, novamente tentou.
Impossível! A perplexidade era tanta que por mais que tentasse não conseguia expressar qualquer palavra que não fossem os seus "mas, mas, mas” ·
E então o tempo urgiu e nada aconteceu. Foram unicamente momentos de paralisia e o todo poderoso presenciava os esforços lábiais mas que, fatidicamente iniciavam e terminavam naqueles temerosos "mas, mas, mas". Como era de se esperar, a divina paciência se esgotou e os doze olhos do Senhor, antes, inexoravelmente alaranjados, arregalaram-se assustadoramente e faiscaram violentos e impetuosos raios violetas. As chamas que lhes cuspiam da boca, agora amplamente dilatada, não eram azuis e sim de um rubro encarnado e as vermelhas labaredas, expelidas em quantidades, mais lembravam o fluxo de um sangue menstrual. E, antes que Porfírio se desse por achado, sentiu no corpo lhe percorrer uma sensação estranha e estremeceu como se sacudido fosse por um daqueles terremotos avassaladores que de quando em quando fulminam as loucas ruas de Los Angeles. E o seu o corpo ainda tremia na convulsão quando o Senhor se fez nele a prova da sua fúria celestial e na voz de mil trovões, retumbou:

-Mas, mas, mas, é o caralho! Que mania é essa de achar que eu era bonitinho!

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Morto por engano


-Esse resultado é impossível, totalmente improvável!- disse-me, enquanto eu o olhava atônito. Em seguida localizou os números de telefones constantes na folha e eu ouvi o som de teclas sendo pressionadas.
-Alô, é do laboratório? Aqui é o doutor Carlos, do Serviço Municipal de Saúde.
Por favor, queria checar o resultado de hemograma de um paciente meu.
E após a conversa meramente técnica, voltou-se para mim e exclamou.
-Está tudo bem rapaz, esfrie a cabeça!- E me abriu um largo sorriso. Sinceramente? Eu não poderia imaginar que atrás daquela frieza houvesse alguém humano e, aquela impressão de descaso me abandonou completamente.

E eu saí do pequeno consultório e era muito bom me sentir assim. Era fantástica a sensação que o sufocante calor do sol de 41 graus exercia em meu corpo e, ao atravessar a rua, solto no meio do nada e ainda um tanto desconsertado escutei o assustador som de uma brusca freada e ouvi a voz de mulher, uma senhora de meia idade, que ao volante do veículo gesticulava nervosamente. E mais assustada do que raivosa ela me xingava , me chamava de louco e que eu não dava o menor valor pra vida. Ah! Como estava enganada! pensei. Ela tivera a sua chance e errara. E eu me lembro que essa história de horror havia começado três dias antes, exatamente num 23 de dezembro, por volta das 16 horas.

Havia saído do laboratório e acabara de chegar em casa. Por por mera curiosidade abri o envelope e verifiquei os resultados e, na contagem dos glóbulos brancos fiquei surpreso, já que valor encontrado superava em muitas vezes o valor de referência. E isso, no momento me assustou e a perplexidade tinha um motivo; a leucemia. Eu sempre me interessara por assuntos ligados a medicina, portando havia lidos alguns livros, principalmente os tratavam de cancer, leucemia e alguns outros. E aquilo me preocupou, já que o leucêmico apresenta uma contagem absurdamente alta de glóbulos brancos, fora o fato que os sintomas que vinha desenvolvendo eram bem parecidos aos decorrentes daquela doença. E isso me apavorava, já que a probabilidade de se encontrar medula que seja compatível com a sua, se dá numa proporção menor de uma por mil, ainda mais que o banco de doadores de medula era praticamente inexistente e isso, infelizmente, gerava mortes prematuras. Portanto, se eu fosse portador da doença, significava que minhas chances eram praticamente inexistentes. Nervoso , tentei ligar pro médico do posto de saúde que me havia solicitado o exame. Disquei algumas vezes e na insistência acabei conseguindo. Ao atender, ouvi o alarido, um misto de vozes e lamúrias daquelas pessoas fodidas que como eu nada tinham a fazer, a não ser estar ali mendigando um mínimo de cuidados com o seu ser. A atendente, friamente, disse-me que não podia transferir a ligação para o doutor e que ele estava muito ocupado com outros pacientes mas, acho que fui tão convincente ao choramingar ao telefone que ela não viu outra alternativa a não ser passar a ligação. Ainda a escutei relatando ao doutor quem eu era e o estado em que me encontrava.
-Sim, o que foi? A sua perguntada me pareceu desinteressada.
- Alô, doutor! estou apavorado pois o resultado do meu hemograma apresentou uma contagen absurda nos glóbulos brancos
E após, discorri sobre o valor constatado e ele então argumentou algo que me fez ficar mais angustiado. Me perguntou se eu tinha por hábito manter relações relações sexuais sem o uso da camisinha. Evidente que a insinuação sugeriu a Aids e, eu não usava preservativos pois aquilo me brochava. Mas, a sua dúvida surtiu em mim uma mudança devastadora e, em fração de minutos, deixei de me sentir um leucêmico e me transformei no mais mortal dos aidéticos.
Na época eu estava morando com uma dona. Rita era o nome dela e eu a conhecera na noite, numa espelunca, uma boate no Centro de São Paulo, onde ela era a crooner de um pavoroso conjunto que só tocava boleros. Um pouco mais de conversa e ele se descartou rapidamente de mim e sem que tivesse tempo para comentar os demais valores já que ele alegava que seu turno estava praticamente no fim.
- Sim doutor, está certo! O senhor só volta a consultar no dia 26 à tarde. Está certo. Estarei aí então.- E dito isto desligamos.
Após aqueles momentos angustiantes, tudo pareceu perder o sentido e eu me encontrava perplexo. Fui na cozinha, abri o armário e peguei a garrafa de vodca e enchi o copo.
-Caralho! Será que vou morrer? – eu balbuciava.
E cada vez mais puto da vida, com a minha vida, diga-se de passagem, eu ficava me questionando, andando de um lado pra outro.
-Vagabunda! Só pode ter sido essa vagabunda que me passou a doença! Foi ela sim!
E isso me tornava cabreiro, fodido, um desgraçado querendo se agarrar a qualquer coisa mas que sabia que não havia nada a se apegar. E assim foi durante o resto da tarde, emborcando bebida e estourando meus miolos com dúvidas. Ah, se ela estivesse aqui, nem que fosse pra rir da minha desgraça mas, ela não estava e nem pra isso me servia. E eu estava ansiosos, aguardando a sua volta já que ela fora visitar a sua mae que estava internada no asilo municipal e onde foi levar uns pacotes de bolachas, salgadinhos e uma meia dúzia de maças vermelhas que tanto a velha gostava.
-Cadela! Como pode fazer isso comigo? –
Já era o final tarde quando ouvi o barulho de passos no corredor e o som da chave sendo penetrada no buraco da fechadura. Nós morávamos no 1o andar de uma pensão próxima do Teatro Municipal. Era um prédio antigo, três andares e mal conservado mas o que nosso dinheiro podia pagar.E do quarto, cheirado a mofo, paredes imundas e repleto de roupas entulhadas tínhamos o acesso a outros dois pequenos cômodos; cozinha e banheiro. Tão logo a porta se abriu eu voei pra cima dela.
-Vadia! Você me passou a doença! Você me matou!! Eu gritava, tentando agarrar o seu pescoço. E ouvia o ranger de portas se abrindo no corredor e eram alguns moradores assustados com aquela gritaria toda.
-O que vocês estão xeretando, cambada de idiotas! eu e o álcool berrávamos para eles.
E a Rita, completamente assustada, não sabendo do que se tratava tentava se defender como podia e foi aí que eu senti suas unhas me penetrando o braço e a dor foi intensa.
-Do que você está falando? Está maluco homem? – E me empurrou com força e eu caí sentado no sofá, todo esburacado por brasas de cigarro. Eu já não tinha forças nem dicernimento pra pensar ou tentar qualquer coisa, já que me encontrava razoavelmente embriagado. E só apontava para a folha de papel que calmamente zombava de mim, bem ali na mesinha de centro.
-Você me matou! Você me matou! Por que fez isso comigo?
E então ela pegou o resultado e foi me perguntando o que significava aquilo. E eu, atordoado, um tanto sem coordenação, insistia que ela havia me transmitido a Aids. E a Rita, lia e relia os números da folha e não entendia absolutamente nada mas, a pressão que eu exercia era tanta que ela se desesperou.
-Então nós vamos morrer mozinho? me perguntava, com os olhos já borrados por um filete negro, molhado, que descia pela face, ultrapassava o nariz e morria no canto dos seus lábios. Provavelmente o rimel, pensei.
-Vamos sim, sua vadia! é isso que dá ficar trepando com todo mundo! E limpa essa porra de olho! - eu praguejava
Naquele fim de tarde e início de noite não tivemos vontade de fazer absolutamente nada. Não comemos, não rimos,não conversamos e, só bebemos. Bebemos tudo o que havia e pudesse ser bebido. Por volta da meia noite, tropeçando um por cima do outro, resolvemos dormir.
-Ah mozinho! Será que não existe a possibilidade de haver algum engano? Era ela tentando nos animar.
Eu nada respondi e olhei naquele rosto bonito, nas suas feições cansadas e senti o desejo de possuí-la. Então minha boca cravou na sua e eu senti o seu gosto misturado ao do álcool, enquanto suas mãos ágeis tentavam me desabotoar as calças. Me afoguei no seu abraço, no seu corpo e no resto do seu perfume e, então a penetrei. Penetrei fundo, forte, numa dança desesperada de dois demônios lamentando o perdão que nunca viria e, esse desejo infâme, insano, aliado a amargura nos fez gozar ao mesmo tempo. Tudo terminado, silenciosamente cada um virou pro seu canto e nada mais falamos. Um pouco mais, vencida pelos efeitos do álcool e do cansaço, ela adormeceu.
Eu, evidente, não conseguia dormir e entao pensei na vida. Relembrei das coisas que tive, das que deixei de ter, dos meus erros, dos meus acertos. Lembrei da única filha. Tata, uma linda princesa de 4 anos que deixara junto com a mãe, numa cidadezinha de interior. Me recordei da última vez que estivemos juntos e que nesse dia ela estava feliz, dentro daqueles olhinhos negros, tão vivos, que brilhavam como raios e que não me abandonavam por um minuto. E revivendo, eu podia sentir o amor daquela pequena princesa se esvaindo dentro de mim. E, revivia esse momento como se fosse um magnífico quadro , pincelado por mãos de um Picasso, e o que me fazia acreditar que ainda havia algo de sublime ante tanta desilusão. E ela sorria e no seu jeitinho de menina prodígio, me implorava.
-Ah papai, me leva na praia? A Tata quer ir na praia, papai!
E eu ali, agora, lamentava pelo futuro que não poderia lhe dar, do amor que não poderia compartilhar e, o mais triste, talvez, nem a praia eu tivesse tempo ou condições de leva-la. Acompanhado desses sentimentos tristes e ruins acabei adormecendo. Aqueles dias, em que pese o Natal, não nos trouxeram alegria alguma e, eu já desistira de culpar a Rita e, toda vez que nos olhavamos, só havia tristeza, e era que se nos dissessemos " Pô! você até que era um sujeito legal" e, talvez fosse eu que já estivesse doente e, nesse caso, teria sido eu a contaminá-la. Bom, isso não fazia a menor diferença agora e, só estávamos ali, juntos, compartilhando essa expectativa, calados e unidos. No início da tarde do dia 26 lá estava eu no posto de saúde e aguardei pacienciosamente a minha vez dentre aquela multidão de miseráveis.
E então me chamaram e entrei na saleta do doutor. Ele leu o exame e expressou a sua opinião e, logo depois, ligou para o laboratório e, chegaram a conclusão que o resultado do meu exame era normal e o erro se dera pelo fato do rapaz, responsável pela transcrição, haver invertido umas das linhas o que comprometera totalmente o resultado.
E foi assim que saí de lá. Então eu ouvi a freada e a mulher me xingava enquanto eu lhe dava as costas e seguia em frente e dobrava algumas ruas até chegar a ponto de ônibus e tudo me pareceu estar bem. E eu olhava as pessoas e as achava interessantes. E eu olhava cada rosto, feliz, infeliz, e imaginava quantos problemas haveriam de ter em cada alma daquelas. E o ônibus chegou e no esforço eu consegui entrar e, lá dentro, amassado como folha de papel prestes a ir pro cesto de lixo eu me lembrei da minha princesa e sorri comigo mesmo. As pessoas me olhavam curiosas e o riso, inicialmente tímido foi se tornando sonoro e indiscreto.
-Papai, vamos à praia?
-Vamos sim Tata! E vamos comprar uma bola colorida e um balde com pazinha e muitas estrelinhas para você brincar na areia.
E eu deixava a imaginação fluir e, mesmo ali, espremido, socado, era como se eu pudesse sentir a brisa do oceano me acariciar o rosto. Era como estivesse exalando os aromas do mar e vivenciando o mesmo habitat de todas aquelas exóticas e fantásticas criaturas.
E a sensação era ótima e me senti vivo,outra vez.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Solidão&Consciência, Pênis&Bundas.


O dia amanhecia sem raios de sol, sem o calor aquecendo o ar, sem risos, sem choros.
Mais uma madrugada passada entre quatro paredes e, durante boa parte dela o único clarão da existência foi a tela do meu do monitor.
O cérebro não parava de pensar e até quando mijei eu pensei, olhando pro meu pau, tentando recordar se já fora maior. Eu o olhava, olhava e por mais que tentasse eu não conseguia saber ao certo. E isso começava se tornar preocupante e a gente se pega sendo tocado pela velhice e começa ver problemas em tudo e essa questão do tamanho do pau nem é por achar qual é o tipo de impressão que posso estar causando às mulheres ,afinal, P, M ou G, ele tem cumprido a sua finalidade. E, em não sendo esssa a justificativa, só me restou a opção de achar que era uma questão de amor próprio ou de autopreservação de mim mesmo. Mais ou menos como se eu olhasse pra Dona Natureza com cara de poucos amigos e lhe perguntasse : - Mas que merda! vai encolher o meu pau por que? o que ele tem a ver com isso?- E a Dona Natureza, risinhos besta e ar de sacana me fulminaria:
- O tempo é inexorável com todos, meu bom velhinho!-
E aí a gente percebe que nada há a ser feito. Então, eu continuo olhando-o e questiono se as mulheres sofrem das mesmas preocupações. E tentando me colocar no lugar de uma delas me ocorre que sim. Acho que elas deslizam as mãos em si e apalpam os seios e inspecionam o volume e a flacidez da carne. Em seguida verificam as formas das pernas e olham pelo espelho e esperam ver no fomato das nádegas algo que ainda possa ser atraente, se ainda são altas ou arrebitas. E, qualquer que seja o resultado, a memória se fixará em alguns anos anteriores e elas se recordarão que o conjunto fora mais vigoroso, mais esbelto. Relembrarão o bumbum empinado e firme, e o quanto ele deixava um sujeito mauluco só em vê-la passar no justíssimo jeans. Então chego a conclusão que a Dona Natureza é implacável e que tentamos ludibriá-la com a tecnologia da estética. E nesse campo, há cirurgiões e esteticistas pra todos os paladares e então dá-lhe plástica, silicone, lipoaspiração, botox e outros bichos. Nas mesmo assim, quando optam por um desses caminhos, sabem que a manutenção é obrigatória e tão importante quanto ao ato da "reforma" em si. E aí?
Bom, aí só ao abastado financeiramente falando, sob pena de assim não o fizer de ver a emenda ter saído pior que o soneto. Mas como essa possibilidade e destinada a poucos privilegiados, sabemos nós, os pobres e meros mortais, que trilharemos o caminho da naturalidade e, que ela, soberana, nos fará sentir a ação do tempo.
Bem, afinal não era bem sobre isso que estava pretendendo falar e sim, tentar encontrar algum significado pra nostálgica solidão.
Sou solitário por opção e as vezes, zanzando por aí, lendo uma coisa ou outra internet afora, deparei-me com uma crônica de um escritor onde ele diz categoricamente que prefere os animais aos homens. Como ele não mais se encontra entre nós, se torna impossivel perguntar-lhe se o seu cachorro assaltasse a comida da sua geladeira, se vestisse as suas roupas, sapatos, ou o seu gato mijasse fora do vaso sanitário e defecasse em cima da louça do jantar, se ele manteria a mesma opinião. Eu acredito que não. Claro que nós amamos os animais e principalmente os nossos mas, a grande vantagem que eles levam sobre nós é o fato que geralmente só atacam quando se sentem acuados e ameçados na sua preservação da espécie. E isso os torna únicos e bem diferentes de nós que, não necessitamos sentir-nos ameaçados para poder atacar e destruir. E um fator leva a outro e então percebo no que nos tornamos e passo a admitir a nossa hipocrisia quando falamos que devemos ajudar e amar o próximo como se fora nós mesmos. Falamos, emocionamo-nos, fazemos até programas de TV e somos capazes de derrubar algumas lágrimas mas não compartilhamos o que é nosso e, mesmo que sejamos essencialmente bons, uma ou outra vez vamos nos pegar na contravenção daquilo tudo que dizemos defender. E por mais que briguemos com nossos "EU" sacamos que somos humanos, portanto,inconstantes e, mesmo na eventualidade de sermos bons, haveremos, uma hora ou outra, de ser mesquinhos e maldosos. Mas como,genéticamente, somos portadores de alguma astúcia e malandagem, sempre procuraremos usar as situações que possam nos favorecer e, mesmo não gostando de admitir, sabemos que nos justificamos em velhos ditados, tal como o “olho por olho e dente por dente” para abrandar a expressão e a sede da nossa vingança.
Com isso, concluo o seguinte; Nunca deveremos esperar muito de nós e, imaginarmo-nos lineares o tempo inteiro é mera utopia.
Somos e havemos de ser tal qual os dias. Uns serão belos e ensolarados e outros, cinzentos e chuvosos.
Hoje por exemplo, me sinto meio sujeito a trovoadas.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Fakes, verdades, mentiras e preconceitos.


- Silêncio! Silêncio!
- Queira o réu levantar e ouvir a sentença.
- A União o condena a 1 ano de reclusão ou pagar a fiança de 15 mil reais! - proferiu, dentro do seu ar severo e na pertinaz aparência do senhor absoluto.
- Eu sou inocente! Eu sou inocente! Eu vociferava inconformado para uma platéia constituída de uns 6 ou 7 gatos pingados, todos desinteressados, evidente.

Plaft,plaft,plaft...E ele batia insistentemente o martelo na bancada e, eu me perguntava se haveria algum local específico pra abrigar as batidas, afinal, a União não poderia ficar arcando com os danos que elas causavam na mobília antiga e de bom gosto. Dessa forma, ao me levantar e aproximar para ouvir a sentença eu pude ver em cima da mesa, uma peça sobressalente de madeira que funcionava como uma espécie de amortecedor e, por mais estranho que possa parecer, aquilo me confortou.
E sentença proferida, eu olhava para o advogado que me fora indicado pelo Estado já que eu não tivera a menor possibilidade de arcar com os honorários de um. Ele era um daqueles garotos legais, de fala meiga e de boa aparência, talvez uns uns 24 ou 25 anos e o jeito de quem esperava se dar bem na vida, mas, que momentos antes, sentira-se intimidado pela austeridade do juiz que em boa parte do julgamento (julgamento? uma piada,isso sim!) o intimidou ao indeferir sistematicamente suas alegações. Evidente, e eu sabia que já fora sentenciado antes mesmo julgamento,quando ao sentar-se no banco dos réus fui fulminado pelo olhar preconceituoso e odioso do senhor juiz. E certamente foi um caso recíproco de antipatia pois também não fora com a cara dele. E, em sendo assim, acredito que a prepotência aliada ao seu preconceito deve ter abalado o pouco que restara da autoconfiança do meu advogado, e isso acabou fazendo sentir-se tão ou mais culpado que eu, e aí, nada ou, quase nada ele pode fazer por nós. E eu continuava o olhando e ele não conseguia me retribuir o olhar e me parecia tão desprotegido como um gatinho arrancado das tetas da mãe, e então, passados alguns segundos, ele levantou o olhar e me fixou desajeitadamente me fazendo sentir toda sua decepção por não ter conseguido me livrar da acusação.
Como nada mais havia a ser feito só me restou rir de daquela comédia absurda. E assim, eu acabava de me conscientizar que estava condenado a 1 ano de reclusão, já que não havia os 15 mil reais que conseguisse me livrar dessa.
- Ok, doutor Erico, está tudo bem! Apareça em lá casa para tomarmos umas cervejas quando tudo isso terminar - eu lhe disse, antes que me saíssem porta afora.
- Ok, vou sim, senhor China, aparecerei por lá! - respondeu, ajeitando os papéis e os enfiando rapidamente dentro da maleta executiva.
Claro, ele nunca apareceu e foi aquela a última vez que o vi.


Mas qual foi à acusação? haverão de me perguntar.
Ah! A acusação foi simplesmente de ser um perfil FAKE e transitar livremente pelo ORKUT, barbarizando outros perfis normais e detonando pessoas de boa índole. E talvez não gostassem desse meu transito exacerbado, livre e sem compromissos por suas páginas, falando o que bem quisesse, insinuando aqui e ali casos amorosos ou mesmo, hipotéticas trepadas virtuais.
Talvez não suportassem a idéia que me mantesse no anonimato de um perfil irreal e sob o seu manto e, em alguma Comunidade por aí, insinuasse qualquer admiração ou tesão por um outro perfil, ou que dissesse que gostaria de transar com alguma madame X, fosse ela um perfil verdadeiro ou não.
E por falar em perfil FAKE, nada como considerar algumas situações vividas dentro de algumas Comunidades que se tornaram as minhas favoritas. Nessas comunidades as pessoas são inteligentes e interessantes e os papos que rolam são pra lá de malucos, e onde também se respira o pó da literatura nas suas mais variadas formas. Evidente, admito que se utilizar um perfil FAKE em alguns casos possa se revestir de um extremo mau gosto, pois nem todos tem a finalidade de se divertir e utilizar como nós, que conseguimos fazer dos nossos fakes “quase” que uma identidade real, tal é o nível de interação e contato que mantemos. Talvez me perguntem ; Por que então não se mostrar a feição real? Bem, a mim, não faz menor diferença mostrar-me ou não, mas, ao sabermos que o Veio China nada mais é que um mero personagem perdido entre os milhares que compõe esse espaço virtual e, não vendo qualquer motivo ou necessidade de fazê-lo, assim eu o deixo se permanecer.
Haverá mais algum sisudo juiz de plantão??
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Ninguém?