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terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Poder da Palavra


Esse é um pequeno texto dedicado a você, leitor ou leitora.
Houve uma época em que só havia a palavra escrita. Isso foi antes do rádio, do cinema ou da TV e muito, muito antes da internet. Quando a palavra detinha um poder avassalador sobre as pessoas. A palavra escrita era, primeiramente, possível de ser alcançada apenas a um restrito número de indivíduos - os que, normalmente, detinham ou estavam ao lado do poder. Com o tempo, a palavra foi se espalhando através da leitura, e mais e mais pessoas foram adquirindo conhecimento através dela.
Toda essa gente descobria na leitura um mundo diferente. Uma porta a um infinito de possibilidades se abria diante delas. Desde a informação, o conhecimento difundido pela palavra, às estórias mais criativas e originais que advinham das mentes sublimes de seus escritores – tudo estava na leitura, que era tudo para aquela época.
E houve muita gente boa nesse meio magistral e soberano da escrita. Não vou citar nomes, mas estilos, tamanha a riqueza da literatura mundial. Autores iluministas, barrocos, modernistas, parnasianos, romancistas e demais se multiplicavam pelas bibliotecas do novo e do velho mundo, criando, aprimorando ou reinventando estilos e tendências, chancelando a escrita como a toda poderosa forma de conhecimento da humanidade.
Pensadores, filósofos, poetas... toda uma classe de escritores diversos que ainda existe e respira a literatura agora, no século XXI. Nesse nosso século XXI. Onde a tecnologia chegou e continua chegando implacavelmente nos quatro cantos do globo, sem sequer bater à porta. Ela, a senhora tecnologia, que criou e perpetuou a classe dos blogueiros. Que seguem, ao seu modo, com seu estilo próprio, imprimindo a sua marca através da palavra na mente das pessoas.
Ao mesmo tempo que vemos a irrefreável tecnologia nos meios de comunicação, é com pesar que ainda hoje, muitas almas vivem sobre a terra sem saber ler uma linha sequer. Que vieram e vão desta para uma melhor sem escrever o próprio nome em uma linha na folha de papel. E esse fato, mesmo que chocante, serve para nos mostrar que a escrita ainda hoje denota PODER. O poder da palavra.
Essa simples constatação - ao mesmo tempo tão aterradora e tão verdadeira - faz com que o homem do século XXI, que detêm para consigo o poder da palavra (seja ela lida ou escrita), tenha mais poder que o seu semelhante que não lê, ou que não escreve.

Isto é em sua essência, senhores e senhoras, o poder da palavra.                                                                                                                                                                                                                            

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Doutor Edgar, Psicólogo


O homem olhou fixamente para o cartão de visitas que havia recebido. Nele, a inscrição:

Edgar Christian
Doutor em Psicologia e Mestre em Meditação Transcendental

Já fazia tempos que ele queria fazer aquela ligação. Agora era o momento. Procrastinar não adiantava mais, especialmente àquela altura do campeonato. O homem passou a mão no celular e ligou. Uma voz feminina atendeu. Tratava-se da secretária do doutor. Muito solícita, a jovem (pelo tom de sua voz) marcou um horário para uma conversa com o doutor. Ao final da ligação, contudo, ela salientou: “Se você recebeu o cartão do doutor, é porque foi por indicação. Portanto, saiba desde agora que só divulgamos esse trabalho para quem realmente precisa do doutor. As demandas pelos serviços dele são enormes, e o doutor não pode atender a todos. Então, peço-lhe por gentileza que não comente com ninguém a nosso respeito...”
O homem já sabia aquele papo todo. O doutor vivia corrido. Era “concorrido”. Ele só atendia figurões, gente graúda. Não tinha tempo para qualquer um, para povão. Só podia ser. O homem sabia disso, e ficou feliz que, depois de tudo o que tinha passado, feito e vivido nos últimos anos, finalmente teria a oportunidade de tirar de dentro o que lhe incomodava. “Antes tarde do que nunca” pensou, feliz por ter um horário para si já na tarde seguinte.
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O lugar parecia mais com um prédio abandonado. Uma porta com um pequeno interfone, e pronto, lá dentro estava o homem. “Ao menos, o interior é bem confortável” pensou o homem, sentando-se num sofá de couro, enquanto a secretária – uma menina nova, de fato – o pedia para aguardar um instante. Em seguida, ela perguntou:
- O senhor trouxe o pagamento em espécie?
- Sim. Está aqui. Só preciso de uma nota fiscal, pois sairá como pagamento da empresa.
- Tudo bem. Ao final da consulta estarei lhe entregando a nota, que será para o tratamento todo já.
- Ok, de acordo. – disse o homem, tirando de dentro do paletó uma carteira forrada de notas de cem.
Com a rapidez e a precisão de quem conhece dinheiro, a jovem secretária contou os cinco mil reais, e agradeceu ao homem. Em seguida levantou-se, e disse:
- Vamos? O doutor já pode atende-lo agora.
Entrando na sala, o doutor recebeu-o com um sorriso amigável em seu rosto. Sem um divã para se deitar, havia na sala do doutor apenas uma confortável poltrona de couro preto, que ficava virada de costas para a porta, bem de frente para a do doutor. Atrás do psicólogo, uma estante forrada de livros, que ia de fora a fora. O homem teve a impressão que já conhecia o doutor Edgar de algum lugar, mas não sabia ao certo de onde.
- Sou um tipo físico comum. Muita gente acha que me conhece, seu Firmino... prefere que o chame assim ou por seu primeiro nome?
- Pode ser Oscar mesmo doutor...
- Edgar, me chame só de Edgar. Aqui somos amigos. Nada do que acontece dentro desta sala sai daqui, jamais. Sabe que a minha reputação é algo que estimo muito. E se está aqui, Oscar, você pode me contar absolutamente tudo nos mínimos detalhes, que lhe prometo desde já: sua vida irá mudar drasticamente a partir do fim desta sessão. Você não está aqui por acaso. Ninguém vem aqui por acaso...
- Eu sei Edgar, eu sei. Só espero mesmo que adiante de verdade para mim...
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E a consulta transcorreu muito bem, superando as expectativas de um antes cético Oscar Firmino. Sim, o famoso empresário Oscar Firmino, dono de uma fortuna outrora estimada em 100 milhões de reais, mas que vinha passando por uma série de problemas recentes, a maioria deles, para não dizer todos, por culpa única e inteiramente sua. Após um desabafo profundo e sincero, como Oscar nunca havia feito em toda a sua vida para ninguém, é que o doutor lhe deu as considerações finais:
- Muito bem Oscar, você está de parabéns por hoje. Já tenho tudo o que preciso de você para a mudança, que começará a surtir efeito nos próximos instantes. Antes de lhe dar as instruções de como o senhor procederá para a sua mudança de vida, uma pergunta: estava bom o chá servido por Ágata?
- Hum, sim, delicioso... até por sinal, me parece que agorinha mesmo eu fiquei um pouco tonto...
- É? Nesse exato momento?
- Sim, parece uma sensação de leveza, não normal... mas fale-me doutor, digo Edgar, o que devo fazer a partir dessa semana?
- Sim, só um momentinho... – o doutor voltou-se ao seu laptop e falou: - Ágata? Sim, paciente já concluído aqui...
Voltando sua atenção para Oscar, olhando bem fundo em seus olhos – que já pareciam mais cansados, ligeiramente vermelhos – é que o doutor Edgar disse:
- Pois então, Oscar Firmino, você tem plena consciência que roubou dinheiro grosso de seus ex-sócios... correto?
- Sim Edgar, mas como lhe falei, foi porquê...
- Não, Oscar. Agora você não precisa justificar mais nada. Apenas concorde comigo, se o que eu lhe falar realmente aconteceu, independente de motivo. Tudo bem? Apenas diga “sim” a cada pergunta, para seguirmos com o tratamento, OK?
- Sim, pode ser – dizia Oscar, deixando o nó da gravata mais frouxo, evidenciando o mal-estar repentino.
- Então vamos lá, novamente: você tem plena consciência que roubou dinheiro grosso de seus ex-sócios, Oscar?
- Sim.
- Você negou e/ou abandonou dois filhos legítimos seus fora do matrimônio?
- Ah... sim.
- Você subornou pessoas públicas para conseguir benefícios fiscais ou vantagens sobre outras pessoas?
- Sim, várias vezes...
- Você pegou parte bem maior do que a reservada para você da herança de seu falecido pai, através de esquema ilícito com advogados, para ficar com mais dinheiro que seus irmãos e irmãs?
- Sim...
- Você deveu e até hoje deve dinheiro para fornecedores, alguns dos quais inclusive que tiveram de fechar suas portas, devido principalmente ao rombo financeiro causado pelo senhor?
- Sim, sim!
Nessa hora o suor na testa de Oscar já era visível a olho nu. Que perguntou:
- O ar condicionado tá desligado? Não tô legal...
Gentilmente abrindo a porta do consultório, Ágata entrou delicadamente no recinto, sem que Oscar a percebesse. O doutor prosseguiu:
- Pois então seu Oscar Firmino, a sua tontura e o seu mal-estar não são em vão...
- Como assim?
- O chá que o senhor acabou há pouco de tomar, continha uma quantidade de veneno capaz de matar um ser vivo de até 150 quilos em menos de uma hora... o senhor, como deve pesar uns... noventa, estou certo?
- O quê?!? O que você disse, seu maldito, O QUÊ?!?
Fazendo menção que iria levantar-se atabalhoadamente de sua poltrona, o doutor Edgar, apenas com um olhar assertivo para Ágata, deu o sinal. Com uma agilidade de quem sabe o que faz, antes que Oscar Firmino levantasse da poltrona, Ágata segurou-o firme pela testa com sua mão esquerda, enquanto com a mão direita firme atravessou uma reluzente navalha pela garganta de Oscar Firmino.
Um esguicho de sangue atravessou a pequena mesa de centro que separava doutor de paciente, deixando a cara do doutor Edgar toda vermelha com o sangue quente recém-saído da jugular de Oscar – que convulsionou por poucos segundos, até morrer ainda sendo seguro por Ágata.
Pacientemente, o doutor Edgar tirou um lenço de seu bolso, e começou a limpar o sangue de Oscar do rosto, que era sentido já em seus lábios.
- Ótimo trabalho, Ágata. Você é ótima no que faz. Estou orgulhoso de você!
- Ah doutor, estava com muita vontade de passar essa navalha na garganta de alguém... saudade disso, sabe? Mas... a única coisa é o sangue, sempre dá um trabalho extra pra gente, né... isso não é tão prático, não é doutor?
O doutor levantou-se para auxiliar a “sua Ágata”, que era muito mais do que uma secretária para ele; Ágata era a razão de tudo para Edgar. Que falou:
- Pode soltá-lo, Ágata. Só forra o chão ali que eu mesmo boto o corpo desse Firmino ali em cima. Você já fez demais por hoje, deixa aqui comigo – e nesse momento, enquanto segurava a cabeça do homem para que seu corpo não caísse no chão, é que o doutor beijou Ágata na boca, sentindo um prazer difícil de pôr em palavras.
Quando suas bocas se desencostaram, Ágata, agindo como uma gata de estimação, lambeu do rosto do doutor os últimos vestígios de sangue do empresário.
- Ah, assim você me acaba... vamos terminar nosso trabalho primeiro Ágata, depois a gente pode fazer amor aqui, com o cadáver nos olhando...
- Hum...perfeito!! – respondeu Ágata empolgada, ansiosa para cair nos braços de seu amado.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Marcel, do Inferno ao Céu


Marcel nasceu numa tarde cinzenta de 1990. Fruto de uma união que não durou mais do que alguns meses, Marcel foi criado então pela mãe, vendo o pai apenas de vez em quando. Apesar de alguns parentes mais próximos por perto, Marcel sempre teve bastante tempo livre em seu dia-a-dia, uma que sua mãe trabalhava em dois empregos para poder mantê-los em uma situação confortável enquanto a sua avó materna, tadinha, já não dispunha mais de condições físicas para cuidar do neto. Já os avós paternos de Marcel, àquela altura já tinham partido dessa pra uma melhor, antes mesmo dele nascer.
E foi num ponto entre os anos de 2003 e 2004 que Marcel conheceu o caminho das drogas. Ainda adolescente, sem ter tido sequer a sua iniciação sexual, Marcel já estava fumando maconha com alguns carinhas, aqueles da turma do fundão da sala – todos já repetentes. Nem é preciso dizer que além da maconha, o álcool também passou a ser uma novidade constante na vida de Marcel, que ia conhecendo bebidas e se entorpecendo, enquanto a sua mãe trabalhava para sustenta-los.
E sim, sua mãe percebeu a mudança no filho. Ela tentou intercepta-lo por mais de uma vez, mas o filho ficara extremamente agressivo, o que passou a ser motivo de medo por parte dela. Sabendo que a coisa não ia bem, mas querendo um pouco de paz quando podia estar em casa, a mãe de Marcel “deixou” a coisa ir adiante dessa forma, apesar de um pouco incerta de sua decisão.
E Marcel começou a tomar pau na escola, ano após ano. Aos dezesseis anos, ele já tinha namorada firme e tudo. Mas, com um porém – a menina também era viciada. E agora o repertório no cardápio de narcóticos já havia aumentado: os dois provaram juntos benzinha, cola de sapateiro, chá de cogumelo... e cocaína. Essa última, por sinal, era quase todos os dias. Não havia mais controle. O dinheiro dado pela mãe de Marcel não dava conta dos gastos com as drogas. Enquanto sua namorada roubava dinheiro dos pais, Marcel sabia que se pegasse um centavo a mais que fosse de sua mãe, faltaria para a comida e a moradia dos dois. Ao menos reconhecendo o esforço que sua mãe fazia para conseguir dinheiro, Marcel deu um jeito de arrumar um pouco para si. Só que para isso, ele teria que largar de vez os estudos – afinal, trabalhar, estudar e usar drogas, tudo num mesmo dia, não tinha como.
E Marcel trabalhou. Foi ajudante de pintor por um tempo. Distribuiu panfletos nas ruas para lojas que eram de conhecidos seus ou de sua mãe. Começou a fazer malabares nos sinais de trânsito, a troco de migalhas. Repassou pequenas quantidades de droga para seus conhecidos da época de escola que, à esta altura, estavam melhores na vida do que Marcel, já cursando nível superior ou até em empresas. Ainda trabalhou lavando carros e por fim como “chapa”, guiando motoristas de caminhão que entravam na cidade.
Outras namoradas também vieram. Marcel mudava de parceira, mas algo parecia inerente à cada uma delas: o vício por drogas. Algumas inclusive já encontravam-se na sarjeta, sem esperanças de um futuro melhor. Enquanto isso, a outra mulher da vida de Marcel, sua mãe, apenas via o filho se perdendo, dia após dia. Magro, andando em trapos velhos... cada roupa que sua mãe lhe dava parecia desaparecer, como poeira ao vento. Os dias pareciam cada vez mais difíceis para esta mulher, que se perguntava incessantemente onde ela tinha errado para com o filho.
Com os “pilas” que conseguia fazer, Marcel passou a gastá-los comprando ecstasy e LSD, drogas essas que passaram a servir como substitutas à cocaína. Marcel até preferiu essa troca de início, só que essa onda durou apenas por alguns meses. Como ele mesmo já sabia, o vazio, a frustação e o desespero vinham da mesma forma, fosse usando droga A, B ou C. E num momento de solidão total, andando com gente em condições iguais ou piores do que a sua, Marcel acabou experimentando o crack, já no início de 2012.
Aí as coisas degringolaram. Marcel não conseguiu mais trabalhar para ninguém, pois ninguém mais queria lhe dar trabalho. Sua mãe, que já tinha buscado ajuda em psicólogos e até em algumas religiões, só queria que o filho se internasse o quanto antes em alguma clínica para dependentes. Em vão. Marcel fugia de cada tentativa, para voltar à sarjeta, onde consumia crack com pessoas na mesma situação desoladora em que ele se encontrava. Todo esse martírio, esse sofrimento desumano que deixava filho e mãe cada vez mais afastados um do outro, seguiu-se em 2013, 14, 15...
Até que, perto de completar 26 anos, sentindo fome, frio, e tendo alucinações horripilantes pela falta da droga, Marcel finalmente bateu na casa de sua mãe para pedir ajuda. Pela primeira vez em anos, Marcel viu como sua mãe tinha envelhecido: as rugas, as olheiras profundas pelas noites de sono mal dormidas, e o olhar de medo visível por não saber a reação que o filho poderia ter, tudo isso parecia evidente agora para Marcel. Que, arrependido até o último fio de cabelo, clamou pela ajuda de sua mãe.
No mesmo dia, Marcel tomou um banho como a muito tempo não tomava, e vestiu uma das poucas peças de roupa suas que haviam restado no apartamento de sua mãe. Trêmulo e cambaleante, foi levado de carona pela mãe para a melhor clínica da região, e por lá ficou por mais de 30 dias.
Hoje, quase seis meses após a sua alta da clínica, Marcel leva uma vida completamente diferente da que um dia teve. Namorando firme, desta vez uma menina trabalhadora e totalmente “do bem”, Marcel vê agora o olhar de sua mãe, outrora marejado, brilhar de alegria com a nova vida que o filho vem levando. E ele também, pela primeira vez em toda a sua vida, se sente finalmente uma pessoa livre.
Hoje, Marcel vive cada dia como se fosse o último, só que da melhor maneira possível. É por isso que na virada de ano – a primeira que Marcel passará em família em muitos anos – ele quer fazer muitos pedidos para ano de 2017. Pensando no tempo todo que perdeu entregue às drogas (praticamente metade de sua vida), Marcel agora mescla desejos de adulto com desejos de menino ao escrever numa folha de papel quais serão suas metas para os próximos anos:
- fazer atividade física todos os dias;
- pular de bungee jumping;
- fazer um cruzeiro de navio com a sua namorada;
- participar de uma procissão ao lado de sua mãe;
- ajudar uma entidade para pessoas com câncer;
- ajudar um asilo;
- comprar o seu primeiro carro;
- participar de uma corrida ou maratona;
- ter um animal de estimação
- fazer uma língua estrangeira;
- ligar para o pai, que ainda vive, no mínimo uma vez por semana;
- iniciar uma faculdade para buscar uma graduação;
- conhecer o Rio de Janeiro;
- assistir a um show internacional de rock;
- comer alimentos saudáveis;
- assistir a peças teatrais com a mãe e a namorada;
- escrever um blog;
- agradecer ao criador todas as noites antes de dormir;
 Etecetera, etecetera, etecetera...




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Leia Agora, Serviço de Utilidade Pública!!



Hoje vou ser breve. Em poucas linhas vou transmitir a você, leitor e leitora, o que quero lhes dizer. Sei que seu tempo é curto, assim é o meu também. Então vamos ao que interessa.
Primeiro, o que te faz parar o que você está fazendo para ler algo? O título? Uma foto que vem logo abaixo ou acima dele (do título)? Ou você pára o que está fazendo para ler, pois o que você faz te cansa, e assim, essa leitura poderá te distrair por uns instantes? Se encaixa num destes perfis? Bem, vamos adiante. Não posso demorar.
Quem sabe você lê porque, ora bolas, você lê muito. Uau, sim, eu estou ligado que existem pessoas como você. Que devoram tudo o que veem pela frente. Que andam pela rua, lendo sob um sol infernal, no meio da multidão. Pessoas que, na falta do que ler, leem toda a bula do remédio, ou o manual inteiro do motorista do carro (números e siglas inclusas). Que bom – você certamente vai ler isto, por isso já lhe agradeço aqui, antes do fim mesmo. Mas falta só mais um pouquinho, vamos ao próximo parágrafo...
Bem, se não leu pelo título chamativo, ou pela foto chamativa acima ou abaixo do texto, se não leu para se distrair duma tarefa chata (ou de alguém chato!!), e se você não é o leitor devora-tudo do parágrafo acima, bem deixa-me ver... Não sobram muitas opções, acho eu...
Rá!!! Já sei!
Você é aquela pessoa que não lê nada. Eu sei, eu sei. Você é muito legal e tudo, mas você não lê, certo? Nada contra, você apenas não lê. Sim, eu sei que lá no fundo você é gente fina e tudo mais... e ora bolas, pra que ler, hum? Afinal de contas... você já sabe de tudo mesmo! Mas é lógico que sabe! Não, não estou sendo sarcástico, até porque, você já viu tudo no noticiário de ontem, inclusive isso que estou escrevendo agora. Eu sei que sim!! E sabe o que mais? Vai acabar no próximo e último capítulo, aqui ó...
Eu sei quem você é, sabia? Quando eu falo com um de vocês, é pra já que reconheço. Vocês andam como se uma aura de sabedoria cintilante estivesse sobre as suas cabeças. É fácil notar. Bem, você deve saber, afinal você sabe de tudo. Inclusive que ler não é para você. Isso, deixa pros outros, vai. Seja bonzinho. Há muitas coisas boas reservadas para a sua “qualidade” de pessoa. A política, por exemplo. Para ela existir, é fundamental que gente como você continue sem ler; viu só? Então, sem mais delongas.

Paro por aqui, conforme prometido; hasta la vista, baby!!!

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Svalbard, I Love You

Durante seis meses, tive a oportunidade única de morar na cidade mais ao norte do mundo: Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard. Graças a um convite muito especial do explorador do ártico Chicco Mattos, consegui passar esse tempo de minha vida em um lugar ímpar.

Dona de uma natureza exuberante, com um clima subpolar, Svalbard possibilita aos seus visitantes e moradores a chance de testemunhar o sol da meia-noite em seu verão, e a noite polar em seu inverno. Durante a fase escura, vi um dos maiores espetáculos da natureza: a Aurora Boreal, e suas luzes verdes a dançar no céu estrelado do Ártico.

Além do frio que senti, – com direito a um início de frostbite em meu rosto - vi uma natureza única de animais que sobrevivem ao frio intenso, e a beleza de aves que migram todo o ano para Longyearbyen. Vi a vida, através das pequenas pétalas das flores, que se multiplicam para tentar sobreviver ao verão a embelezam ainda mais este lugar, que agora faz parte de minha história, e que ficará para sempre no meu coração.


 Longyearbyen, cidade mais ao norte do mundo
 Rena típica de Svalbard no inverno
 Eskerfossen, cachoeira congelada
 O transporte mais comum de Svalbard no inverno: o snowmobile
 Aurora Boreal em Adventdalen, início de março
 Tempelfjorden
 Uma barraca estilo indígena, clareando o branco da paisagem.
 Aves migratórias - o fim do inverno chegando
 Navio Nordstjernen, final de agosto
 Natureza viva sobre o gelo
 Eu em Magdalenefjorden
 Uma foca solitária, repousando sobre uma pedra
A estátua de Roald Amundsen, o maior explorador norueguês, na localidade de Ny-ålesund

terça-feira, 19 de julho de 2016

Bush Doctor

Arnaldo saiu de casa no horário de sempre. Banho tomado, cabelo penteado e baseado enrolado. Entrou no carro, selecionou no seu pen drive a sua coletânea preferida do Bob Marley, ligou o ar condicionado no talo e seguiu o seu tradicional trajeto da semana, por entre as ruas da cidade.

Arnaldo já sabia o tempo de percurso, tanto que sabiamente fechava o seu baseado tamanho extra large para, metricamente, fumar metade no caminho de ida, e a outra metade na volta. Sempre atento aos policiais ou guardas de trânsito, Arnaldo já tinha tanto a manha da coisa que escondia por entre seus dedos o cigarro de maconha de uma forma que poucos, ou ninguém, conseguiria perceber de fora o que era. Além de quê, seu carro tinha película e, devido ao calor tropical de sua cidade, Arnaldo sempre dirigia com os vidros fechados.

Na batida do reggae, Arnaldo prensava sua cannabis e viajava ao som do rei. Nada tirava-o do sério durante o seu ritual matinal. O trânsito, o stress, as discussões, tudo ficava de lado nessa hora. Absolutamente nada fazia Arnaldo perder sua calma. Apenas ele e seus dois Bobs, um no som do carro, o outro indo direto para a sua mente. Simples assim.

Quando o seu cigarro chegava à metade, Arnaldo já se punha a apaga-lo, geralmente entre as avenidas 07 de Setembro e Pedro II. A partir dali, se nada de anormal acontecesse, eram menos de quinze minutos até o seu destino final. Tempo para mascar um chiclete, e olhar no retrovisor a vermelhidão dos olhos. Mesmo tendo mais horas de fumo do que urubu tem de voo, Arnaldo ainda achava graça em olhar a si mesmo com as pupilas dilatadas – assim como quando era adolescente, antes ainda de entrar para a faculdade, quando Arnaldo fumara seus primeiros beques. Sim, Arnaldo parecia não perder aquele seu lado infantil, mesmo já estando perto dos quarenta – afinal, para ele, aquilo sim era a mais pura alegria.

Ao estacionar seu carro na vaga de sempre, Arnaldo pegou o colírio e pingou em seus olhos. Borrifou um pouco de perfume por entre os dedos e pelo pescoço e entrou no prédio comercial. Ao chegar no consultório, foi já de cara avisado pela secretária:

- Bom dia Doutor Arnaldo! Bem, são cinco pacientes agendados para a manhã, e quatro para a tarde de hoje. Isso se o seu Azevedo não aparecer aqui lá pelas duas horas. Aí já viu né... o que digo pra ele?

- Diga que espere. Se ele quiser uma reconsulta, vai ter de pagar. Não adianta querer fazer pelo plano, viu?

- Ah, vou dizer pra ele. Nossa, já estou até vendo a cara dele... Bem, já deixei seu chá gelado no frigobar e o café expresso na sua mesa, doutor Arnaldo. A primeira paciente já deve estar chegando...

- Obrigado, Marialva. Até mais!

Arnaldo entrou em seu consultório e ficou cantarolando a última música que escutara no carro. Bebericou o café e viajou o que pôde, até que sua primeira paciente chegasse e acabasse com sua festinha particular.


domingo, 19 de junho de 2016

No Bar

Seu Reginaldo estava naquela fase em que qualquer barman já pensa duas vezes se é hora de pular do balcão e tentar remover o cidadão dali. O homem não só enrolava a língua, como também cuspia de quando em quando, ao falar. Seu terno abarrotado e a gravata com nó afrouxado faziam o seu semblante lembrar o do personagem Tavares, do falecido Chico Anysio. Mas, naquela noite de terça, o barman em questão – Aníbal - não queria confusão com ninguém. Era terça, poxa. Ninguém mais entraria no bar àquela hora. Em trinta minutos, ele fecharia o bar e educadamente conduziria Tavares, ou melhor, o seu Reginaldo, para a porta do recinto. Simples assim. Além disso, Aníbal estava lendo um livro intitulado: “Quero Vencer, Não Sei o Que Fazer”, o que o fazia ponderar suas atitudes em horas como aquela. Nada como uma boa autoajuda para se manter calmo...

- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!

Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.

- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!

Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.

- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!

Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:

- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.

“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.

- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...

Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:

- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...

Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O Quinto Trapalhão

A estória que aqui será contada é daquelas que com o tempo caem na boca do povo, ganhando, para alguns, um tom de dramaticidade; para outros, de suspense, do tipo: “escuta só, essa é meio que segredo, ninguém pode saber...”. Apesar de um tanto quanto obscura para muitos brasileiros da nova geração, entre os mais antigos a estória que irei contar aqui foi e ainda é bastante comentada (e devidamente ‘aumentada’) em alguns botecos deste Mercosul. Pois sim, caros leitores, nosso personagem, apesar de brasileiro, foi mais conhecido de fato em nosso país vizinho e rival Argentina, do que aqui. Mas afinal, de quem estamos falando? De ninguém mais, ninguém menos do que ele, o palhaço Barrigão, ou como ficou conhecido na grande Buenos Aires, Él Barrigon de la Noche.

O lado brasileiro da história é o mais obscuro. Para começar, Barrigão veio de uma família pequena, como filho de adoção. Não há praticamente nenhum parente vivo hoje para confirmar a versão oficial dos fatos, mas o que se sabe é que, além de viver como palhaço de circo, por muito pouco Barrigão não chegou ao estrelato no Brasil sendo um dos Trapalhões. Isso mesmo. O famoso quarteto que animava os domingos da criançada era para ser um quinteto, aparentemente nesta ordem: Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Barrigão. Esse foi, sem dúvida, o maior golpe que Barrigão levou ao longo da vida. Dizia ele que, muitas das piadas levadas ao ar a partir de 1977 no programa do quarteto tinham sido criação dele (nem Didi, nem Dedé quiseram se pronunciar acerca da veracidade ou não dos fatos).

Desiludido com o sucesso dos demais, Barrigão enfrentou problemas com a bebida no final dos anos 70. Apesar dos pesares, uma nova esperança surgiu quando um uruguaio, que levava o apelido de Paco, viu uma apresentação de rua de Barrigão em Balneário Camboriú, no sul do Brasil. Encantado, Paco convidou o brasileiro para se apresentar em Punta del Este na temporada de verão, pois lá o cachê e a gorjeta dos milionários, seriam sem dúvida maior do que eram ali. Ganhando um novo fôlego, Barrigão desembarcou no começo de dezembro em Punta, para uma nova fase em sua vida. Como seu humor sempre havia sido muito gráfico – com ovos quebrados na cabeça, cambalhotas e baldes d’água na cara – não seria nada difícil fazer os turistas rirem de suas travessuras.

E exatamente como o fora prometido, o dinheiro era melhor lá do que no Brasil. A única coisa é que Punta morria no inverno, e Barrigão passou a participar de modestos espetáculos circenses no interior do Uruguai. Mesmo não estando totalmente livre do vício da bebida, ele queria mais para si do que circos pobres e apenas pão e água como pagamento em muitas de suas apresentações. No verão seguinte, voltou à Punta para lucrar um dinheiro maior, e lá conheceu quem seria por muitos anos, a amor de sua vida: a argentina Cecília.

Pode-se dizer que, ao menos nos primeiros anos do relacionamento, Barrigão conseguiu alcançar um pouco do prestígio de que tanto almejava. Mudando-se com Cecília para Buenos Aires, El Barrigón passou a ser cadeira cativa nas casas de espetáculo da Avenida 9 de Julio. Por atuar na noite é que sua alcunha foi estendida para El Barrigón de la Noche; porém, as más línguas sustentam que o "de la Noche" vinha do fato de Barrigão amanhecer sempre bêbado de cair. Dizia-se que os taxistas já sabiam o endereço dele e de Cecília, no bairro da Recoleta, e apenas deixavam Barrigão, na maioria das vezes desacordado, na porta do prédio onde moravam.

O que estava bom começou a degringolar quando Cecília iniciou um affair com um ex-jogador de futebol paraguaio, Javier Chácara, que havia feito sua carreira nos clubes de Buenos Aires, e vivia confortavelmente por lá, e sem ter consigo o vício pela bebida. Quando Barrigão flagrou sua mulher saindo de um restaurante em Puerto Madero ao lado de Javier, Cecília não teve dó e confessou tudo de uma vez, além de pedir para que Barrigão deixasse o apartamento da Recoleta. Dizia ela que não havia dito nada até então, por pura pena do palhaço de meia idade. Mesmo implorando de joelhos por Cecília, Barrigão recebeu um ultimato dos advogados de sua agora ex-companheira, para que deixasse o apartamento dentro de uma semana. Não só isso, mas Barrigão, bêbado e revoltado, tentou agredir Javier Chácara uma noite, na porta do prédio, mas acabou imobilizado pelo paraguaio, que por pouco não quebrou o braço de Barrigão na hora do confronto.

Morando num edifício velho, num apartamento pequeno e quase sem móveis, Barrigão tinha no ofício de palhaço, e no pouco de confiança que ainda lhe restava, um meio de sobreviver entre todos os seus problemas. Agora seus espetáculos eram durante o dia, pelas praças de Buenos Aires, a troco de migalhas. O pouco que sobrava ia para a bebida, comprada normalmente no supermercado com os trocados ganhos ao longo do dia.

Acometido de uma depressão, no dia 24 de junho de 1990, após assistir em um bar na Avenida 9 de Julio o Brasil perder para a Argentina por 1 a 0 e ser eliminado da Copa do Mundo daquele ano, Barrigão voltou para seu minúsculo apartamento certo da sua decisão. Nada mais podia alegrar o risonho palhaço de outrora. Com uma corda, atada no lustre-ventilador de teto, Barrigão subiu na velha cadeira de madeira para pular e cometer suicídio - isso se ele não tivesse feito um nó que não era nó. O que aconteceu foi que a corda não apertou o tanto quanto deveria apertar, o que fez com que Barrigão caísse no chão do seu apartamento, num tombo feio agravado pelo seu peso, fazendo-o quebrar sua perna no ato. Apesar do barulho causado, ninguém foi ver o que tinha acontecido em seu apartamento. Barrigão sentia a dor da perna quebrada, mas seguia ali, sem conseguir sequer levantar do chão. De arrasto, foi até a cozinha onde abriu a porta da geladeira; dentro dela, só havia uma garrafa de vinho pela metade, e meia dúzia de ovos. Com muito esforço, Barrigão alcançou o vinho, e virou num gole só. Depois, com os ovos, Barrigão teve que fazer o que vinha fazendo a vida inteira, mas dessa vez para não morrer de fome: quebrar os ovos rente a sua boca, para saciar sua vontade de comer.

Após duas semanas, um cheiro foi sentido no corredor. Os vizinhos baterem na porta por várias vezes, até que o senhorio do apartamento foi chamado lá e com a chave, abriu a porta do imóvel para ver junto de algumas testemunhas, él Barrigón no chão, de barriga para cima, com algumas cascas de ovo e uma garrafa vazia de vinho ao seu lado, e a perna visivelmente deslocada do lugar. Após a autópsia, acredita-se que Barrigão já encontrava-se em óbito há cerca de cinco dias quando os vizinhos o encontraram.

Barrigão faleceu com 51 ou 52 anos, dependendo da fonte pesquisada. Deixou a vida para entrar na história, mesmo que pelas portas do fundo, e ainda hoje serve de inspiração a alguns palhaços de circo sul-americanos. Cecília já tem mais de 70 anos atualmente, e está escrevendo um livro de suas memórias, no qual promete revelar um lado que ninguém conhecia “del Barrigón”. Mais uma pitada de polêmica para a vida deste que já não faz mais parte do mundo dos vivos.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Trabalho

Almir é aquele tipo de cara que sempre prezou pelo seu trabalho. Dedicado na função, nunca deixou que outro compromisso, fosse este por lazer ou pura diversão, o atrapalhasse na execução de seu trabalho. Como Almir dedicava sua atenção máxima ao que fazia, seu foco raramente permitia que ele fizesse algo diferente quando em serviço. Normalmente mantinha o celular desligado - não naquela quarta-feira.

Almir vinha saindo com uma daquelas garotas difíceis de encontrar por aí; daquelas, como se diz, “para casar”. E foi dela a ligação que Almir recebeu, fato este que o fez no mesmo instante contrariar todos os seus princípios, mesmo que ele estivesse prestes a executar uma função importantíssima de seu trabalho.

- Alô? Oi Ritinha, tudo bem, e você? ... Sim e não. Tô a trabalho e não tem problema não, pode falar comigo sim... Não, só achei que seria importante te atender, afinal de contas, a gente tá se vendo bastante ultimamente né? ... Hum? Ah, eu gostei do suflê de batatas que você fez... Por que eu não comi muito? Ah, eu tinha comido um doce que não me caiu bem naquela tarde.... Sim, é claro que gosto de você também, você sabe que nunca ligo o celular em meu trabalho, só o deixei ligado por sua causa, Ritinha... É, prestação de serviços, entende? Ah... não, claro que posso te falar Ritinha... Sim, eu sei, eu sei que você me conta tudo. Puxa, te admiro mais ainda por isso! ... Não, nunca! Nunca casei, nem sequer namorei por muito tempo seguido, imagina que ia estar te escondendo uma relação... Não, esse não é meu perfil... E por que eu escondo o trabalho? Não, espera, eu vou te dizer quando chegar a hora certa, meu amor... Hã? ...Você gostou que te chamei assim, de “meu amor”? Ah, imagina. O quê? ... Ator pornô? De onde você tirou essa ideia maluca, Ritinha?? ...Ah, faça-me o favor... Eu tenho vergonha de pôr sunga quando vou à praia, imagina ficar pelado em frente às câmeras... não, eu prometo que vou te dar mais detalhes, não tem nada de mais mesmo... Vergonha? Não, nenhuma. É algo particular apenas, sei lá. Olha, posso te dizer isto de certeza: esse dinheiro que vou ganhar por esse trabalho vai me deixar tranquilo por, digamos, uns dois meses... Podemos sair jantar juntos, ir até Campos do Jordão pegar um fim-de-semana na serra... Ah você prefere Búzios? Ótimo, Búzios será... também gosto de praia Ritinha, adoro o mar. Já falamos sobre isso na noite do estrogonofe de frango que você preparou... Ah, era de carne, claro! O quê... Ritinha, não vamos começar uma discussão sobre isso. É claro que gosto da sua comida, eu não limpei o prato aquela noite? ... Sim, tá vendo? Ops, Ritinha, agora tenho que desligar que o batente me chama... eu também... um beijo bem gostoso para você, preciso desligar mesmo. Nos falamos à noite!

Almir desligou o telefone e deu uma última olhada na foto que seu cliente havia ele enviado pelo celular. Sim, os dados batiam. Almir discretamente saiu de seu carro, usando o seu tradicional uniforme – terno de tom escuro, gravata de cor única, e seus óculos Ray-Ban que sempre lhe davam sorte no cumprimento de suas metas. Atravessou a rua, aproximando-se do cidadão da foto:

- Com licença, o senhor é Aldo Viriato, certo?
- Sim. Quem gostaria? – respondeu o senhor de meia-idade num tom de voz um tanto autoritário, e o olhar desconfiado.
- Eu tenho uma encomenda enviada pelo Tarcísio, da factoring que o senhor tomou dinheiro emprestado alguns anos atrás, lembra?

O homem de meia-idade engoliu a seco a informação. Mudando o olhar de inquisitivo para surpreso numa fração de segundos, ainda tentou dizer:

- Eu ia mesmo ligar para ele hoje, agora na verdade eu estava prestes a fazer isso...
- Tarde demais, seu Aldo.

Com uma habilidade de quem conhece o que faz, Almir sacou a pequena pistola Beretta de dentro do seu paletó e disparou um, dois, três tiros na barriga de Aldo; que, impotente, caiu de joelhos na calçada. A passos rápidos, Almir atravessou a rua e voltou para o seu carro, antes olhando para os dois lados a certificar-se de que não havia ninguém na rua. Deu partida no motor, e foi para casa pensando que não deveria ter mentido para Ritinha.

Realmente, o suflê de batatas não estava bom. Um tanto quanto abatumado.



sábado, 19 de março de 2016

Sem Eira nem Beira

Certa vez, fiz aqui uma rima
Sem nenhuma métrica
Apenas para levantar a estima
Em meio a uma situação tétrica

Por vezes, caótica
Para muitos, despótica
Que, independentemente de ótica
Segue sendo completamente idiótica

O assunto mais uma vez
É a tal da política
Que, mês após mês
Se tornou paralítica

Difícil de entender como uma mula
No caso, o ex-presidente Lula
E depois dele, uma jumenta
Conseguiu tornar-se presidenta

É tanto, mas tanto o cinismo
Dos que estão no poder
Que vão enfiando o país num abismo
Só mandando o povo se foder

É impressionante
E enervante
Em pleno século vinte e um
Enganar a todos, um por um

O refrão “Ordem e progresso”
Virou “Desordem e retrocesso”
Não há mais um pingo de respeito
E os calhordas ainda enchem o peito

Buscando sempre uma escapatória
Para essa situação vexatória
Se apoiam na ideia da democracia
Enquanto o país vive uma hemorragia

É, é foda mas é verdade
Toda essa insanidade
Essa máscara de falsidade
Já virou simples banalidade

Apenas para eu finalizar,
Até porque isso já está a me embrulhar
Essa é para você, político de terno,
Quero que você apodreça no inferno!!!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Svalbard

Me lembro como hoje, o dia em que Chico me disse:
- Estou indo morar em Svalbard, cara. Eu e a Mia.
- Onde?
- Svalbard, cara. O lugar mais ao norte do mundo.
- Não conheço...
- Olha no mapa. Mas olha bem em cima, lá pra cima da Europa. Tu vai ver tudo branco lá...
- Tu tá é louco, meu!
Essa foi a minha primeira reação. Isso não faz muito tempo - quatro, talvez cinco anos atrás. Pensei no frio. Não no frio que temos, por exemplo, lá no sul do Brasil; mas sim, um frio pior que o dos Estados Unidos quando aparece em notícia do Jornal Nacional. Daí perguntei:
- E que língua eles falam lá?
- Norueguês. Lá pertence à Noruega, Andrezão (assim, bem como ele costuma ainda me chamar). Mas todo mundo fala inglês, sem stress. E pagam uma grana pra quem for trabalhar lá.
Mesmo após questioná-lo por mais um tempo, ainda assim achei difícil de engolir a ideia de meu amigo morar num lugar meio que, sei lá, tão isolado.
Dito isto, decidi por seguir minha vida no Brasil.
Após alguns meses, Chico estava lá empregado, ganhando bem e vivendo feliz com sua cônjuge sueca. E volta e meia me ligava, contando-me novidades. Sempre excitantes. Nunca pra baixo, nem uma vez sequer. Eu ainda resistia:
- Mas e a noite polar cara? Tudo na maior escuridão... não bate uma deprê fodida?
- Bate nada, cara. O negócio é não esquentar. Depois vem o período de sol pra compensar. Três meses de noite, três meses de dia. Louco né?
"Louco é você!" pensava cá com meus botões. E seguia eu, vivendo minha vida abaixo de sol, calor úmido e muito suor no Brasil.
Um par de anos já haviam se passado quando, numa noite qualquer, nos falamos novamente. Desta vez, Chico disse-me que já tinha uma bela casa própria por lá. Não só isso, mas ele e sua escandinava viajavam tudo o que podiam e mais um pouco. Não era à toa que ele fincava sua bandeira no chão quando falava em Svalbard:
- Aqui é minha casa, cara. O meu lugar. Moro numa baita casa aqui, com tudo. No Brasil, não teria nem uma bicicleta própria, eu acho.
Novamente, uma aura pessimista, provavelmente com uma pontinha de inveja, teimava em emanar de dentro de mim; aí lhe perguntei:
- Mas, me diga uma coisa amigo velho... compensa trabalhar um monte só pelo dinheiro...???
Aí ele me contou que estava abrindo a sua própria empresa por lá e, pasmem, fazendo o que ele mais gostava na vida: fotografando e filmando. Seus panos de fundo? Montanhas cobertas de neve, geleiras, ursos polares e (a preferida dele) a aurora boreal. Depois que soube das últimas novidades, parei de nadar contra a corrente. Deixei o negativismo de lado - e se esse ficou em algum lugar, foi lá no Brasil - e me mudei de mala e cuia para cá, há exatos 8 dias e algumas horas atrás. Ao teclar estas últimas palavras, ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Chico bateu à minha porta. Já era 1 da madrugada. Apressado, foi logo dizendo:
- Corre Andrezão, desce logo. Tá bombando uma aurora no céu. Vamos lá ver e fotografar ela, agora!!!

Botei um ponto final na história e me mandei pra rua com ele...

sábado, 19 de dezembro de 2015

Sábias Palavras

Arnaldo chegava sempre cedo à faculdade devido ao horário do ônibus. Calouro em seu curso, além de uma pessoa tímida, Arnaldo se habituara a sentar em um banco que dava de frente para um matagal, dentro do próprio campus, para dar ‘aquele tempinho’ antes de sua aula iniciar. Por mais de uma vez, Arnaldo percebera um senhor próximo a ele, fumando calmamente um cigarro, com um semblante de tranquilidade. Arnaldo reparou também que este senhor sempre tinha o maior cuidado em apagar o cigarro e em colocar sua bituca numa pequena caixinha de fósforos. Mesmo parecendo uma pessoa extremamente afável, Arnaldo era muito reservado para puxar uma conversa, além de detestar o cheiro de cigarro.
Com o passar dos dias, Arnaldo foi gostando mais e mais de sentar naquele banquinho. Havia alguns universitários andando por ali, mas ninguém de sua turma. E, volta e meia, aquele senhor estava ali, mantendo o seu ritual tabagista. Arnaldo já havia pensado “Que vício maldito. Ainda bem que não gosto desta porcaria!”. Até que um dia, ao passar por Arnaldo, o senhor disse:
- Boa tarde, meu jovem. Tudo bem com você?
Arnaldo sentiu pelo calor que suas bochechas tinham avermelhado, mas respondeu brevemente:
- Sim, sim.
- Então, não pude deixar de reparar que você faz Administração de Empresas aqui na faculdade. É um curso prestigiado aqui, garoto.
- Sim. Fui o terceiro no vestibular em minha sala.
- Meus parabéns. Qual o seu nome, a propósito?
- Arnaldo, senhor.
- Deixa disso, não me chama de senhor não. Não tem necessidade disso.
- Como posso chama-lo?
- Caio, apenas Caio.
Após o primeiro encontro, a conversa entre os dois começou a fluir. Quase como um ritual, Arnaldo chegava meia hora antes de sua aula e encontrava o seu Caio lá, no mesmo lugar de sempre. Uma das primeiras perguntas feitas por Arnaldo foi esta:
- Seu Caio, por que o senhor sempre vem fumar aqui?
- Bem Arnaldo, venho até aqui pelo espaço verde que está a nossa frente. Venho também, pois, este é o único cigarro que fumo ao longo do dia. Como não gosto de deixar cheiro de nicotina em meu apartamento – e minha senhora, que não fuma, gosta menos ainda – venho até aqui para estar perto do verde, e para ver os jovens chegando neste ambiente universitário.
- Mas... hum...
- O quê? Pode perguntar, sem problemas...
- Já que o senhor só fuma um cigarro por dia, por que não para logo?
- Ótima pergunta, Arnaldo... Bem, já fui um fumante compulsivo por muitos anos, daqueles de fumar um maço e meio por dia. Claro que passei a ter problemas de saúde devido ao vício, e tive que parar.
- E o senhor voltou, então?
- Sim. Mas veja bem. Hoje, consigo ficar sem fumar. Nos finais de semana ou em minhas viagens, por exemplo, nunca fumo. Quando estou aqui na cidade, faço isso como um ritual. Mas faço de cabeça leve, sem me preocupar. Apenas pelo “prazer” em fumar. Acho muito prazeroso, quando se está de bem com a vida, fumar um cigarro para meditar. Fui criado vendo filmes clássicos dos anos 40, com Humphrey Bogart sempre carregando um cigarro no canto de sua boca. E as atrizes, todas elas belas, fumavam também. Hoje está provado por A mais B que o cigarro é muito maléfico à saúde. Como o álcool, as drogas, o sal e o açúcar também são. Não uso droga nenhuma, mas de vez em quando bebo um pouco. Também como sal, com bastante moderação, e gosto de doces, apesar de evita-los ao máximo. Procedo mais ou menos assim com o cigarro.
- Hum... – Arnaldo se despediu de Caio, e refletiu no que seu novo amigo lhe disse. Mesmo tendo uma opinião totalmente contrária ao tabagismo, Arnaldo entendeu o ponto de vista de Caio, e passou a compreender o porquê de ele fumar.
Com o passar dos dias, os bate-papos foram ficando cada vez melhores, e Arnaldo também começou a se abrir mais para Caio e também a perguntar a opinião deste senhor, que parecia saber muito sobre a vida. Com pouca experiência prática na vida, e deparando-se com a correria cotidiana moderna, Arnaldo pensava para si um futuro um pouco melhor que o de seu pai e de sua mãe – ambos trabalhadores dedicados, honestos, mas que pouco fizeram ou conheceram da vida, pois do tanto de dinheiro que acumularam, investiram nele, Arnaldo. Seria isto mesmo que Arnaldo queria da vida?
- Seu Caio, sei lá... Às vezes penso em fazer diferente... Ir para fora do Brasil, viajar por outros países... Mas me parece um sonho distante... Muito aventureiro, sei lá. Não sei se tenho esse perfil...
- Arnaldo, você é bem novo, não? Quantos anos você tem, dezessete, dezoito?
- Fiz dezoito no mês passado.
- Sim... Vejamos. Você pode votar desde os dezesseis. Pode dirigir também; e já está na Faculdade, sinal de que escolheu o seu curso, certo?
- Sim. Tinha dúvidas entre Administração e Ciências da Computação até me decidir.
- Pois, todas estas coisas que você já pode fazer dependem de sua decisão – só o tempo dirá se estas decisões foram certas ou erradas. Para algumas coisas, temos de decidir muito jovens como, por exemplo, escolher o futuro profissional. Muitos ainda não têm certeza do que querem fazer da vida. Quanto a votar, a definição de maioridade não passa de puro oportunismo dos governantes deste país; já dirigir, esta me parece a decisão mais acertada de todas, apesar de que o jovem deve ter muita prudência ao assumir o volante, uma vez que sua vida e a de outros está em jogo. A propósito, não tenho um carro há mais de quinze anos...
Neste momento, um pensamento ligeiro passou pela cabeça de Arnaldo: seria seu Caio um senhor de limitados recursos, talvez apenas sobrevivendo com uma ninharia de aposentadoria do INSS? Mas ele andava bem trajado, tinha classe ao falar...
-... Não que eu não goste de automóveis – completou Caio - Acho-os, na verdade, cada vez mais lindos e modernos.
- O senhor não tem mais condições de dirigir?
- Aparentemente, tenho totais condições. É uma opção de vida mesmo.
- De vida? – Arnaldo parecia não entender, pois ele, agora que dependia de ônibus para ir para cima e para baixo, queria muito ter um carro.
- Sim, de vida, Arnaldo. Isso tem muito a ver com “tomada de decisões” na vida. Meu caso foi que, ao me aposentar, após trinta e poucos anos de trabalho, passei a dar valor a outras coisas da vida; como viajar, por exemplo.
- O senhor já viajou muito?
- Mês que vem estaremos, eu e minha senhora, conhecendo nosso sexagésimo país.
- Puxa... – Arnaldo ficara boquiaberto.
- Como eu ia lhe dizendo, perto da aposentadoria tive alguns problemas de saúde que me ajudaram a refletir na vida que eu levava. Não era, nunca foi uma vida ruim, mas eu apenas a levava: do trabalho para a casa, de casa para o trabalho. Sustentei e dei estudo para três filhos, melhorava a nossa casa aos poucos, a cada três ou quatro anos saía da concessionária com um carro zero... mas não aproveitava a vida. Como neste momento, agora: vendo a natureza, respirando, meditando. Fazendo novos amigos para bater um papo. Não. Eu apenas me dedicava ao trabalho e ao conforto de meus familiares, pois me considerava o provedor, aquela coisa já ultrapassada de que o homem tem de prover os recursos para sua família, etc...
- Sua esposa nunca trabalhou?
- Por minha insistência, não. Que cabeça a minha... Isto quase acabou com a nossa relação, tempos atrás.
- Me desculpe... – disse Arnaldo um tanto constrangido.
- Que é isso, não se desculpe não. Isto serviu para eu mudar de opinião, e hoje levamos uma vida maravilhosa. Ela, a propósito, dá aulas de piano em nosso apartamento todas as tardes, e é muito feliz com isso.
- E os sessenta países?
- Ah, despertei sua curiosidade então, Arnaldo... Bom, isso é bom. Para você que pensa em sair mundão afora, a único conselho que lhe dou é: ouça o seu coração, em primeiro lugar. Veja bem, estou lhe dando este conselho antes mesmo de te dizer das maravilhas que cada viagem me proporcionou, das inúmeras pessoas diferentes que conheci, que conversei, que fiz amizade. Por quê? Pois, especialmente quando se é novo, a gente dá muita importância para o que os outros nos dizem. Geralmente, crescemos condicionados pelos modelos de pensamento que nossos pais, ou que pessoas ao nosso redor nos dão. Comigo foi assim, com minha esposa também... Meus filhos tinham princípios iguaizinhos aos meus e de minha companheira... Mas você precisa, num momento como este, estando junto da natureza, podendo ouvir o som dos pássaros, escutando a água de um riacho correr por entre as pedras, neste momento em que a buzina dos carros e ônibus não desviam a sua atenção, nem as mensagens em seu smartphone te chamam o tempo todo – é nesta hora que você deve tentar ouvir a voz do seu coração. Aí você tem de ser você mesmo Arnaldo, quem você é, e pensar no que você gosta, na sua própria vida e se perguntar: que vida eu quero para mim? O que eu gosto de fazer? O que eu realmente gosto de fazer?
- Entendo...- Arnaldo ouvia Caio de olhos bem abertos.
- Foi me questionando que decidi por viajar, no mínimo, quatro vezes por ano. Sabe que só fui refletir e meditar sobre isso dentro de um quarto de hospital, quando sofri um princípio de enfarte alguns anos atrás. Ainda bem que não era a minha hora, pois se fosse, não teria tido esta chance de começar a conhecer este mundo maravilhoso em que vivemos.
- Uau... Me conte mais... Sobre os países que você foi, ou, sei lá, qual deles você mais gostou... – Arnaldo estava nitidamente impressionado.
- Antes de nossa próxima viagem, vou lhe mostrar minhas caixas de sapato.
- Como assim? – nessa Arnaldo boiou.
- Não vou lhe vender sapatos, não se preocupe não. É que costumamos guardar nossas fotos em caixas de sapatos antigas; prefiro falar e lhe mostrar as fotos de onde estive, para lhe dar ideias de onde poderá, quem sabe, ir também.
- Mas como você vai trazer estas caixas para o campus?
- Não vou. Você é meu convidado para ir até a minha casa, tomar um bom café passado por minha senhora, dona Matilde, e ver minhas fotos. Isto é, claro, se você puder e se quiser, meu jovem.
Arnaldo aceitou o convite de bate-pronto. Então eles marcaram uma data, que seria já na próxima semana, haja vista que Caio e sua esposa Matilde iriam conhecer o deserto da Namíbia, na África, em questão de duas semanas. Arnaldo se sentia motivado de uma maneira diferente, sentindo ao mesmo tempo um friozinho na barriga, mas uma sensação boa, de paz e tranquilidade que o fazia, por momentos, esquecer da pressão do dia-a-dia, do novo trabalho como estagiário, de pegar o busão lotado todo santo dia, dos trabalhos maçantes de faculdade. Repentinamente, parecia que a sua vida tinha outro valor quando ele aplicava estes pensamentos (ou seriam ensinamentos?) a ela. Até onde isto iria, Arnaldo ainda não sabia. Talvez naquelas velhas caixas de sapato, daquele velho senhor que gostava de fumar um cigarrinho ao fim da tarde, estivesse o começo de uma vida nova para Arnaldo, repleta de emoções, aventuras e descobertas por vir...

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O Primeiro

José Hilário havia constituído um pequeno império para si. Na vida política há aproximadamente trinta anos, o atual senador da república não precisava mais trabalhar para viver. Mas seguia no poder, como muitos de seu tipo. Aquela sensação de poder o fazia sentir-se másculo, maiúsculo. Poderoso. Bem quisto por onde passava. Com uma infinidade de regalias, e com advogados do mais alto calibre trabalhando a seu favor, José Hilário iria provavelmente morrer na política – isso era o que ele mesmo pensava, o mesmo para quem o conhecia de perto.
Envolvido em vários escândalos ao longo de sua vida, alguns dos quais já de domínio público – como por exemplo, o das propinas, ou o do desvio de verbas ao longo de mandatos passados - o senador ainda assim podia contar com uma generosa multidão de eleitores em cada eleição, além de seus assessores treinados, que faziam tudo como o senador queria. Já com seus filhos legítimos "feitos na vida", mantendo um casamento de trinta e poucos anos só de fachada, o senador parecia naquela semana querer levar uma vida “mais normal”, sem a tradicional importunação de sempre. Tanto que, sua secretária sabia, seu braço direito também: “o senador José Hilário só tem algum horário em sua agenda para, talvez, semana que vem...”
Logo que chegou ao seu luxuoso apartamento, José Hilário desfez o nó em sua gravata, e preparou para si uma dose generosa de uísque escocês dezoito anos. Atravessou a ampla sala, passou o corredor e foi para a sua suíte, afim de tomar um demorado banho em sua jacuzzi. Não sem antes colocar ao som do home theater de seu quarto a sua coletânea de Frank Sinatra. Agora sim: um banho para deixar o senador pronto para, quem sabe mais tarde, uma de suas amantes novinhas. Olhou em seu Rolex, que mostrava apenas cinco horas da tarde. Quando o senador acionou o botão do controle que abria a cortina automática, com a vista envidraçada de uma Brasília ensolarada se anunciando, subitamente a cortina cessou o seu movimento, deixando apenas uma pequena fresta de sol à mostra. José Hilário estranhou e, ao pegar o controle remoto para repetir o processo, uma voz disse:
- Não adianta tentar.
Na hora José Hilário por pouco não deixou cair o copo que estava na outra mão. Seguido ao susto veio a excitação, e um tremor incontrolável que emanava do corpo do senador.
- O quê?!
- Aqui. – disse a voz.
José Hilário então viu, no canto esquerdo logo ao final da grande cortina, imerso entre sombras, um homem sentado ali em sua poltrona.
- É melhor sem claridade. A que tem assim já é suficiente para eu ver você. É só o que eu preciso...
José Hilário virou a cabeça para a porta, pensou em seu celular “onde estaria?” e julgou tratar-se de um assalto.
- Senta. Aí no canto da cama mesmo. E não tenta nada... – nesta hora José viu brilhar uma pistola automática, no punho do homem sentado; que, além de estar no ponto mais escuro do quarto, trajava roupa preta e o que parecia ser uma balaclava, dificultando ainda mais a tarefa de enxergar o seu rosto. Resignado, apenas obedeceu.
- OK. Você tem o controle da situação. Eu vou te dar tudo o que eu puder de dinheiro. – José virou um gole grande de seu copo de uísque, tentando com isso diminuir a tremedeira. Pensou fingir-se de morto, fingir um enfarte, algo do gênero. Tudo muito rápido. Até seu pensamento ser interrompido pela voz do homem:
- Não estou aqui pelo dinheiro. Estou aqui por você.
- O quê? Como? Quem te mandou? Quem quer me matar? Não pode, isso é coisa do PSDB? Não... Ei, eu te pago o dobro do que te pagaram! – José tentava ganhar tempo e pensar em algo, algo que o livrasse desta situação. Sim, algum rival político havia arquitetado o seu assassinato! Só podia ser.
- Não quero seu dinheiro.
- Como não? Posso te deixar muito rico!
- EI, SILÊNCIO!!! – o homem que seguia sentado empunhando sua pistola gritara pela primeira vez.
- Desculpe, eu...
- CALA A BOCA!
Nisso, José Hilário começou a meio que choramingar, esboçando palavras ininteligíveis, olhando para o seu carpete, e ainda pensando o que ele poderia fazer para defender-se do tal assassino – que, por sua vez, acabara de ajustar um silenciador na ponta de sua arma. Quando José olhou, de canto de olho para o homem, ouviu:
- Olhe para mim agora.
- Desculpe... quem é você?
- Eu sou um representante do EEPR. O senhor conhece?
- EEPR? Hum, é um partido, meu filho? Ai, meu Deus, estou tendo um sopro no meu coração... você já tá me matando fazendo isso, por favor...
- O EEPR, seu José, é a sigla para “Esquadrão de Extermínio Pró Revolução”. Se o senhor nunca ouviu falar, é porque eu e demais membros conseguimos fazer um bom trabalho até aqui.
- O que você quer dizer? É-é um gru-grupo armado? – seu José já gaguejava. Só essa hora o político deu-se por conta que havia um pouco de uísque com a água do gelo em seu copo, o que ele virou sem titubear. “Sim, o copo!” pensou “um arremesso certeiro, em sua cabeça. Aí corro pro botão de alarme, ou me atiro ali, antes que ele comece a atirar...”
- E você, seu José, entre tantos outros, é um dos que vão pagar pelos crimes cometidos ao longo de seus mandatos. Há uma lista, bem grande, e você é o primeiro deles a ir daqui pruma melhor. No seu caso, espero que pruma pior.
- Eu sou ino-no-cente! M-meu advogado pro-provou que...
Nessa hora o homem baixou um pouco a mira da pistola, e acertou o joelho de seu José, que na hora caiu da beira da cama, perdendo sua suposta arma de defesa – o copo, que caiu pro outro lado, na cama. Seu José gritou de dor.
- Aaaiiiiiiii... aiaiaiaiai...
- Eu poderia ficar aqui vociferando contra o senhor, lhe dizendo tudo o que muito brasileiro tem preso na garganta, seu José Hilário, senador da República e tal. Mas não.
- Por favor, vamos conversar... Ai, ai... – José tinha a voz trêmula. O sangue vermelho escuro inundava uma respeitosa área do carpete, outrora claro, do quarto do senador.
- Não somos um grupo de papo. Nada do que eu falar agora vai mudar seu destino, seu José. Esse é o nosso objetivo. É isso. Usar tudo o que eu e meus companheiros aprendemos através de treinamentos, para chegar assim, de surpresa, e por um fim a tudo. E ver o que vai acontecer depois que completarmos nossos alvos. Simples assim.
Nessa hora, seu José, contorcendo-se de dor, tocou sua mão num pé do sapato que havia tirado segundos antes de tudo o que estava acontecendo. Em posição ruim, de bruços, com dois dedos trêmulos, segurou seu sapato para uma medida desesperada, buscando algo diferente, que num improvável milagre o salvasse.
- O senhor tem uma bomba nesse sapato? – perguntou o homem, que seguia sentado no sofá, ofuscado pela escuridão.
– Pois, se não tiver, devo-lhe dizer que sua hora chegou.
- Não, não... eu te-tenho diamantes! Eu... te entrego outros políticos, pe-peixes maiores que eu, eu...
- Seu José, hoje venho em nome do EEPR cumprir minha missão perante o grupo e, especialmente, dizer ao senhor... dizer a você... que eu sou o seu pesadelo. O seu inferno que chegou antes da hora. Você não tem voz nem vez comigo. Eu vou finalizar minha missão, desejando que você sinta dor, muita dor nesses últimos minutos...
- Ahhh, nãããooooo...
Nessa hora, outro tiro atingiu a barriga de José Hilário. Ao som de Frank Sinatra, com o silencioso abafando em muito o volume dos tiros da pistola, José já cuspia sangue em seu carpete. Sua visão já ia ficando turva. Aí, finalmente o homem se levantou, e deu dois passos à frente, deixando um pouco da claridade mostrar seus olhos e nariz. Era um homem grande, de porte. Mas José já não atinava direito. Na busca por alguma coisa que o salvasse, já havia perdido muito sangue, pela barriga, boca e joelho. O homem só baixou a mira, e com um tiro certeiro estourou o crânio de José Hilário.
Guardou sua pistola, e para não pisar na poça de sangue que recém se formara à sua frente, desviou dela, andando sobre a cama king size; deu ainda um chutinho no copo de uísque vazio que se encontrava lá, para deixar o quarto do agora defunto ex-senador, José Hilário.



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