Mostrando postagens com marcador André Foltran. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador André Foltran. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Borboletário


[abril de 2009/fev. de 2015]

Desde os 13
o meu quarto
está repleto
de borboletas,

borboletas
na janela,
borboletas
nas gavetas,

borboletas
amarelas,
borboletas
pretas,

borboletas,
borbotetas,
borbocetas,
borboletras.

***
mais poemas do autor aqui

***
*Imagem: Young Andy (1995)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O foxtrote dos desiludidos


Como o salão é todo espelhado
uma hora você acaba se enxergando
severo, severo demais.
Você sabe que perdeu no jogo
qualquer coisa que te fará muita falta
mas a banda continua, inflexível
porque o show é bem maior que a vida.

É a primeira vez que você dança
o foxtrote dos desiludidos
mas a dama não vai perdoar
o seu menor deslize.
Você dança, algo entorpecido
e pensa em quanto ainda falta
para a hora do embargo total.
Mas a banda continua, inflexível...
zomba de tua desjuventude.

A dama quer tentar aquele giro
que você se esqueceu de ensaiar.
— Hoje você tem dezenove, ela diz,
amanhã terá trinta. A temporada
de ensaios it's over. E rindo:
Todas as formas de suicídio, darling,
resultaram/resultarão inúteis.

Você ri também (em todos os espelhos
suas mãos espalmadas contra o tempo).
Mas a banda continua, inflexível
enquanto a dama desliza (e com que
facilidade, e com que doçura) para
os braços de um cara mais jovem.

***
mais poemas do autor aqui

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Super-heróis


Imagem: Morbid,
William Wray

***

Se eu fosse um super-herói
daqueles que salvam gente
(mas nunca se salvam, nunca
de seus próprios acidentes)
acho que eu cortava os pulsos
a c i d e n t a l m e n t e .

Se eu fosse um super-herói
daqueles de aço & tédio
(que só dormem quando à base
de overdoses de remédios)
acho que eu me atirava
do alto daquele prédio.

Se eu fosse um super-herói
daqueles que não tem medo
(mas em seus quartos escuros
choram, baixinho, em segredo)
acho que eu abria o gás
e ia dormir mais cedo...

***

mais poemas do autor aqui

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Tango para a nossa morte


Auréolos corpos
tangam na noite:
esses segundos,
quem os fabrica?

Por trás das peles
estranhos fogos
— deus & o diabo
num beijo eterno!

Esses segundos
são mais que séculos,
entanto escoam

por entre os sexos.
Depois do tango
não há mais tempo.

***
mais poemas do autor aqui

sábado, 12 de abril de 2014

Poesia

Tuas pernas
hão de perder-se
entre outras pernas
— tantas pernas.

É preciso
mapear teu corpo
enquanto o tenho
entre meus dedos,

fazer cópias
de tua escultura,

mimeografá-la
com minha própria
língua.

***
mais poemas do autor aqui

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Nos seios fartos do meu travesseiros


Mais uma vez acordo
no auge dos meus 17 anos.
Ainda estou em casa e os sonhos
ainda são aqueles.

A poesia sexual
dança debaixo
do edredom
 são as mãos febris lutando
no escuro.

Flutuam no ar imagens
de um pornô qualquer
que fogem, feito salamandras,
pra debaixo da cama onde
dormem natimortos.

É meu trabalho decifrar esses códigos
diariamente. Trabalho duro
que me arranca o gozo.


***
poema publicado originalmente no blog do autor

domingo, 12 de janeiro de 2014

Onde cantam as cotovias

1.

Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...
Não há drogas, não há vida:
nunca houve um suicida...

Pus os meus barcos no mar
mas não querem navegar...
Tenho moinhos de vento
mas eles giram tão lento...

Nas ruas, todas tão planas,
passam manhãs cotidianas.
Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...

2.

Onde cantam as cotovias
cantam outros passarinhos
canções de todos os dias...

Quando acordo no meu ninho
já cansado de morrer
não há sangue, nem vizinho

a quem possa recorrer.
— E esse silêncio lá fora
que não me deixa escrever!

Como eu queria ir embora,
voltar pras minhas orgias,
e me esquecer da aurora
onde cantam as cotovias...

***
poema publicado no blog do autor

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O blues que anoitece os homens


Mas você vem

sorrateira
pela porta...

          Você sempre vem...

          revirar a mesa, espalhar
          os discos, tocar fogo
          nos tediosos dias

— aqueles mesmos dias

a que nós loucos chamávamos
                                         úteis...

***

~ poema publicado no blog do autor

sábado, 12 de outubro de 2013

Manhã, tarde e noite

Desenho de Eduardo Flores

***

Os homens estão sentados,
a alma fugiu dos homens.
Calados estão, calados...
(Por dentro sussurram nomes.)

Os homens estão cansados,
o corpo venceu os homens.
Parados estão, parados
enquanto urubus os comem...

Os homens estão deitados,
a noite cobriu os homens.
(Os olhos se tornam fado
fadado aos lobisomens...)

***

~ poema publicado no blog do autor

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Quando as portas fecham


Quando as portas fecham
e não há aurora
fico como tonto

ando feito louco
pelo bar dos dias
vai-se o copo, as
horas...

e não há aurora.

- Aurora,
como te quero agora! Aurora
da minha vida... Carne
em minha labareda...

Mas aurora não quer nem saber
e me deixa na porta e me deixa na mão
feito cão sem casa
a desovar auroras
pelo mar das pias...

~ poema publicado no blog do autor

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Anunciação (e outros)













* Anunciação, Leonardo da Vinci
1475-80, Galeria Uffizi, Florença



De dentro de mim
brotam crianças
natimortas

Já é primavera
na maioria
das casas

__________________________________


Não sei se o que falo é o eco
ou se é o eco
que fala em mim

__________________________________


Levo debaixo 
de cada olho
um discurso
ao vento

- se digo amém
aos domingos

é porque faltam
palavras

~ poemas também publicados no blog do autor