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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pontualidade.

Sobre o pontual,
só guardo dúvidas.

Cumpre com o tempo
um acordo preciso
que conecta a intenção ao ato,
num instante conciso.

Mas soa falso.

No ponto, não há o final.
E no final tampouco há pontualidade.

O final apenas rima com pontual.
Rima besta.

O que determina a pontualidade?
É o encontro? Em ato?
Entre pontos em um ponto?

O pontual marca o início.
Ou marca o fim?

Audacioso fim,
nunca pontual.
Exige entretanto,
o fim,
sempre, e tanto,
ponto final.

Ponto.
Marca gráfica.
Tinta de caneta.

Fim no tempo.
Tempo em fim.
Enfim, tempo.
Tempo pontual.
Não contínuo.

Tempo de mentirinha.
Não-pontual.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sobre o tempo III

Não faz muito que descobri os campos de espaço-tempo curvos.

Em silêncio, reconheço: na verdade, ainda não os descobri.

Que tempo é esse, que me esconde o espaço em que você est(á)(ava)(eve)?
Que dimensão do espaço-tempo escondeu você?
Em que tempo da minha dimensão você se camuflou?
Na dimensão em que você esteve em mim, como me dimensiono no tempo teu?

Quando tempo-espaço seguem juntos, em que lugar-momento está você?
Quantos milésimos de espaço-tempo dura o seu lugar?
Quantos lugares, ao mesmo tempo, você pode ocupar em mim?
De quantos você, em um único tempo, eu posso me ocupar?
Quantos de você tenho em mim?
Que tamanho tenho em você quando me vejo em ti?

Me disseram que o espaço se curva com o tempo. Que isso dilata o tempo.
Que é a relatividade.
E deve ser mesmo relativo.

Por que o tempo nosso não dilatou?
Pareceu tão curto.
Seu espaço, algum dia, vai se curvar sobre o meu tempo?
Tenho medo que a curva do seu espaço sobre o meu tempo me tire do lugar.
O espaço do meu lugar não se curva no infinito com o seu tempo.
O seu tempo curvou o meu espaço no infinito.
O seu infinito tomou espaço demais no tempo meu.
Meu infinito já não cabe mais no seu.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Estômago.

    ??
    ??
   ??
  ??
 ??
??
Ué??
Cadê??
Voaram?
Fugiram?
Roubaram?
Ninguém diz.
Não me respondem.
Não sei aonde foram,
as tantas borboletinhas.
Será coisa de cientista?
Há tempos já ando notando
que quem se crê cientista
parece se sentir à vontade
para sequestrar friamente 
imprecisões tão singelas. 
Usando redes entomológicas
capturam, mecanicamente,
tudo o que o cabimento
deixava guardado em
seus devidos lugares.
Borboletinhas! 
Pequenas e
enfeitadas de
todas as cores.
Há tempos lá estavam,
de forma um pouco difusa,
armazenadas na câmara escura.
Que realmente não era grande,
mas também não era tão pequena.
Quando voavam roubavam-me o ar.
Eu suspirava com o bater de asas
dos lepidópteros que sabiam como
acusar a sua presença na paisagem.
Agora já não as tenho. como pode?
Você surgindo no horizonte é coisa
tão irrelevante, que me faz pensar
que carrego dentro de mim um vasto 
silencioso cemitério de borboletas. 
Quem se responsabilizará por esse
sumiço repentino dos seres que me
faziam reconhecer que entre alguns
encontros e tantos desencontros, 
repousam doses diárias de 
ácido clorídrico e uma 
noção de amor sofrido.
Sem o voar das tais, 
me sinto vazia. 
Será gastrite?
Ou será azia?
Quero todas,
de volta.

Me dá?