sábado, 17 de junho de 2017
Poema relativo
quando é, de fato, preciso.
Há noites em que toda a luz
vem pousar aqui comigo
em um silêncio cheio de canções.
Há noites que nem os clarões
cortam a telha de vidro.
E nada, nada, nada
faz qualquer alarido.
A noite só se enche de escuro,
de cacos cortantes no muro,
quando chorar é preciso.
quarta-feira, 17 de maio de 2017
Da plenitude
alguém, por essa serra
abre a janela.
A noite devassa
se põe devagar na sua cama.
Nada mais lá fora,
nem mesmo os gatos ronronam,
tal negrura se apresenta.
Tem noites em que tudo é tão frio
que a lua não se atreve a aparecer
então, só a névoa
é plena
segunda-feira, 17 de abril de 2017
Desesperación
essa, aqui, refletida na mesa
entre corais e bandejas
essa é a que mais me domina.
Essa, coberta de tantas esferas
essa que a tudo se assemelha
essa que reflete e verseja
essa que mais me ilumina
é a que mais me amedronta.
Essa que me acompanha
quando nada mais me encontra.
Essa que eu nunca confesso,
essa com a qual nunca sonhei
essa completa e disforme
que me prende e não some
essa estranha insone
essa, meus caros leitores,
essa que sou eu mesma
embebida em tantas tristezas
que eu já nem lhe sei mais o nome.
sexta-feira, 17 de março de 2017
Apoética
some
sobra algo que eu desconheço
um souvenir,
um endereço,
uma carta sem destinatário,
meu átrio esquerdo dilatado
e a minha boca seca
e insone.
Quando a poesia
se esconde
deixa pistas,
poeira,
sustos,
deixa ferida aberta nos pulsos
deixa a sutura
imperfeita
e ridícula
Essa poesia
fêmea
dominante da manada
irmã gêmea do nada
trôpega,
amanhecida,
poesia-menstruada,
útero à ferro e brasa
gritando uma dor felina
me jogando num manto de breu;
Essa poesia me sangra
me deixa sobre areia quente
acha que me esqueceu...
poesia meu nome é guerreira
se você se afasta,
não temo,
se faltar-me a poesia,
se sobrar-me apenas agonia,
a poesia sou eu.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Passados
Quiçá,
meu antigo mundo
tenha sido construído
em redor de um poço,
no meio do laranjal,
assistido pelos pardais e grilos.
Quiçá, veja só,
nós tenhamos tido
um balanço muito grande
onde embalávamos nossas tardes
e nossos mitos
Em que todas as noites
eram poluídas apenas
pelo medo do desconhecido.
Quiçá,
nas tardes velhas
você sorrisse - como sorri agora
enquanto lê essa inesperada poesia.
E seu sorriso ainda seja
constituído pela mesma centelha
que iluminava a estrada
da nossa antiga vida.
(Jessiely Soares)
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Partida
Antes de qualquer coisa,
ele simplesmente bateu a porta.
Sem vínculo de vida,
o vento entrou e se espalhou
cinza.
Não sobrou muito.
o rádio ia soando...
"Au printemps, je serai de retour
(Jessiely Soares)
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Cº
porque não pôde.
Porque lá fora faz 15 graus
e todas as pessoas da minha terra
se recolhem quando lá fora faz tamanho frio.
elas abrem vinhos
e pensam em coisas quentes
como lareira e sorrisos
e a casa cheira a mistérios de parafina.
Quando faz frio
- e ele, claro, não vem -
eu acendo todos os meus vendavais
e deixo que tudo sopre em mim.
Os meus silêncios e os dele.
Os meus segredos e os dele,
e nessa tênue camada de gelo
que se instalou nas nossas vidas.
(Jessiely Soares)
sábado, 17 de agosto de 2013
Soul
Eu sempre guardei meus desgostos
em uma caixa de mármore
com aspecto de túmulo.
Sem dizeres.
Hoje, um deles pediu licença
para assentar-se em meu sorriso.
Não hesitei em dar-lhe passagem;
algumas vezes é necessário
que o jazigo seja aberto
para que mine entre os escombros
um assombramento de coragem.
(Jessiely Soares)
Imagem, daqui.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Pelo horário de Brasília
00:35
e o mundo continua seu percurso.
Nesse momento meu homem adormece,
minha filha ressona,
minha mãe entoa suas preces e pede ao salvador
para que me guarde:
- e para que proteja, não só a mim,
mas a todos da terra -
como lhe foi ensinado,
A poesia é a escolha das palavras
no melhor ângulo fotográfico.
é a amplitude de seus significados,
suas melhores poses,
seus aquedutos e pontes levadiças,
seus prazeres madrugáveis.
Poesia é o final dos tempos. Névoa.
Nasce em terreno baldio,
entre cacos de vidro
e lagartixas,
frascos secos de desencanto,
mulheres amanhecidas.
Poesia é bule. E gente passando pra lida.
é a maldição atordoada
que vem secando a boca
suturando a ferida.
Essa que não se aprende
em nenhuma sala de aula.
É a entrega do desassossego.
A poesia estava comigo
antes já do meu começo.
(Jessiely Soares)
sábado, 17 de novembro de 2012
Habitualidades
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Somniu
Sendo assim, fiquei dividida. Metade pétala, metade vento.
Porta entreaberta. Algumas gotas ainda brilhavam sobre o assoalho branco-fosco da primeira sala. Seus passos, ainda mornos, mergulhavam naquela imensidão azul que cantava lá fora. Deixei meus olhos sentarem. E me re-dividi: Um quarto de tristeza, um quarto de vulcão, um quarto de andor, um quarto de descrença.
Dois dedos de café com leite e canela.
Na cabeça ecoava alguma coisa de gratidão. Alguma coisa de certeza. Alguma coisa de dor. Algumas palavras entaladas de faringe abaixo. Anulações.
Só teu sorriso ainda cantava desperto no meu travesseiro.
Fui duas, dez, mil vezes ao teu encontro, e em todas, tu me lambeste e pediste pra que eu ficasse. Eu tonta, sentava em teu colo, tu me dizias palavras bonitas: “Tudo é possível, em breve, acredite, estarei com você”.
Até que a última cortina cerrou no fim do último ato.
Não lançaram flores, recém beijadas, ao meu encontro.
Ninguém aplaudiu.
Ninguém secou aquela lágrima salgada que correu serena até os teus pés.
Nem mesmo tu.
Ingrato.
Tu a quem devotei minhas noites mais mansas e as mais quentes. Tu, que amamentei, ninei, aconcheguei e embalei como a um filho.
Foste, e nem me deixaste bilhetes. Só cacos.
Cacos imateriais que machucam mais que farpas de vidro.
Fiquei.
Partistes.
Adeus, Sonho.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Vaga Lux
Vagalumes constituem
uma serenata visual
para poetas.
Decerto que para alguns lagartos
as mesmas lamparinas voadoras
constituem, cocomitantemente
um jantar-jantar à luz de velas.
mas, o fundamental
é que à noite
quando saem para um passeio de bicicleta
os poetas costumam perder o ritmo.
e não conseguem permanecer
no
um-dois-feijão-com-arroz.
Normalmente eles vão pedalando
e olhando para o inabitável escuro
lá de trás.
É como se de repente
todos os matagais noturnos
pudessem espelhadamente
refletir estrelas cadentes
e inquietas.
No chão do mundo dos poetas.
(Jessiely Soares)
sábado, 21 de maio de 2011
Poema para Aquele que passou
... e eu que sei de poucas coisas
descubro as que são dolorosas
Já sei que é por sua causa
a educada dor da rosa
e que por seu desencanto
a lua nasceu nervosa,
que é por seu coração
- que é algo entre fibra e rocha -
que as coisas todas na terra
- entre a saudade e a quimera -
que tudo, tudo, tudo
se espraia e se desintegra
ou talvez seja porque
amei tanto você
que já não vejo saída.
Talvez seja culpa só sua
ou
quem sabe, da vida.
(Jessiely Soares)
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Soledad
É chegado o tempo das ruas desertas e das amigas distantes... É chegado o momento em que tudo mais parece um dia sem cor.
Como pode se estar agora, nesse tempo, em tempos de solidão?
É chegado o tempo de cantos secretos à noite, de pequenos segredos de parafina, de escondidos gatos sobre o telhado.
É chegada a hora de recolher o pano de chita dos sonhos e fazer com ele o encosto para assistir televisão. A hora de fazer comunhão virtual com pessoas do outro lado do mundo e de se armar para a revolução com mouse, teclado e assinatura num blog de ideias.
(Jessiely Soares)
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Brevidades
Desde a sua partida
só o cheiro de relâmpago
ainda espalha seus raios.
A brisa assobia.
E é como se o vento ainda
quisesse me dizer algo...
Eu o espero.
~
~
~
mas a noite agoniza...
e o vento passa calado.
(Jessiely Soares)
sábado, 17 de abril de 2010
Segundo voo da mariposa
Não era fabulosa,
a mariposa que pousou na perna da minha calça
na hora da aula.
Apesar de ter as asas
para habitar em tudo,
pelas quais Ícaro teria dado mais vida
se mais vida tivesse.
Asas de cera,
dissera,
para o Sol e para mais nada.
Penso às vezes
que a sua essência
era uma mariposa
- Uma mariposa-cinza-cigana de asa quebrada
(Jessiely Soares)
quarta-feira, 17 de março de 2010
O primeiro voo da mariposa
De tão pequenos gestos
numa timidez de afetos.
Esvoaçava fuligem num mar de cacos.
Como figuras num aquário
com secretas canções angelicais.
Quem pudesse veria
as marcas de sangue e vida,
de fogo e de partida ao longo do litoral
voo
primeiro e último
da mariposa que me habita
sobre as chamas do canavial.
(Jessiely Soares)
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Pintura a dedo para a distância
Porta aberta pro mar
onde só há serras.
E o Porto que lhe guarda
acaba sendo ainda mais distância que vidraça
Ainda mais maresia do que praça
Ainda mais horizonte que bom tempo.
Benditos segredos que se arrastam
dentro dos cantares oceânicos.
Nem sempre somos amantes.
Carregadores de vida é o que somos:
papel de jornal velho,
andantes por caminhos eternos,
vidas carregadas de sonhos
(Jessiely Soares)
domingo, 17 de janeiro de 2010
Dos tempos chuvosos
01:36, sábado.
O tempo conjuga
medidas de vida
em ventos polares.
Arranham minha janela
em doses
tão maiores
que meus conhecidos
ares
Se eu abrir a vidraça pro mundo
ele me arrancará tudo.
Tudo que me cabe é um quadrado
muito menor que ela.
Tempestade, tempestade
passa.
A minha vida é uma fragata atracada
já não pode mais
ir ao sabor das velas.
(Jessiely Soares)
Imagem: Priscila Pimentel
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Poeminha para um dia antigo
.
Era sexta-feira santa
e nada era mais claro
na sequência de postes
pela madrugada
que os teus olhos
de Recife antigo
- refletindo vinho barato -
na calçada.
(Jessiely Soares)
Como é de se esperar, a imagem tem dono: Olha ele aqui.







