Eu te amo como os seres com mente se amam
mas também com amor de mamífero, de cabra e tamanduá.
Te amo como os pássaros mergulhando no vento,
nas reticências escuras dos tempos,
antes de um eu existir -
com o eros pré-amoroso dos répteis e a fúria fria dos dinossauros
que perdem tempo se matando sem saber que o mundo vai explodir.
Te amo em eras glaciais,
em desastres naturais
e na areia da praia antes de você nascer.
Te amo como os peixes na substância comum das águas,
como os pólipos, os corais, as algas
com o amor que a esponja tem pelo mar
e as plantas pela atmosfera.
Te amo em todas as histórias
em cada éon e era,
com o contágio inevitável dos virus
e a matéria reunida de todas as bactérias.
Te amo no microscópio, meus elétrons e seus prótons.
Te amo cosmogonia,
Eros órfico, Big Bang:
O meu amor antigo é gritado
no chuvisco das tevês.
Te amo além dos limites da ciência
e dos sonhos que não são lembrados.
Te amo na minha pressão sanguínea
e na sua pele invadindo minhas células olfativas.
No buraco vazio do peito,
no saco cheio da vida,
na voz que sai da barriga.
Te amo na realidade da gente: sua delicadeza às avessas,
que corta a floresta de espinhos para ver a primavera,
o seu peito de toureiro, o seu preto e o seu vermelho,
eu amo você inteiro.
Amo te alisar feito um gato
forjar um frio exagerado
e te puxar pra baixo do meu cobertor.
Amo e amo viver de amor.
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
sábado, 13 de novembro de 2010
Trinta e três
Escrito por
Erika
E quando relaxam-se os músculos tensos
que travam o intenso e apertam o ser?
E quando a respiração se expande em 3 D?
E quando se acorda do sonho, memórias no caleidoscópio?
O que berra o alpinista no pico do Taj Mahal?
- Não clama por uma escada, ingênua ambição vertical:
nota que o céu é o mesmo,
seja no vale ou na serra, visto da terra ou do sal,
e que o tempo é o rio nadando entre o vazio dos dedos
enquanto se apontam estrelas e se inventam constelações
(formas míticas, humanas, animais,
espelhos, paixões
e batsinais).
O que se grita de dentro é o silêncio de entranha,
definição solitária para o infinito momento:
berra-se o todo no agora - o verdadeiro, o Nirvana
o aleph de Borges,
os vinte e dois arcanos,
a pasárgada, o paraíso, shangrilah
o olimpo, terra prometida:
trinta e três anos.
que travam o intenso e apertam o ser?
E quando a respiração se expande em 3 D?
E quando se acorda do sonho, memórias no caleidoscópio?
O que berra o alpinista no pico do Taj Mahal?
- Não clama por uma escada, ingênua ambição vertical:
nota que o céu é o mesmo,
seja no vale ou na serra, visto da terra ou do sal,
e que o tempo é o rio nadando entre o vazio dos dedos
enquanto se apontam estrelas e se inventam constelações
(formas míticas, humanas, animais,
espelhos, paixões
e batsinais).
O que se grita de dentro é o silêncio de entranha,
definição solitária para o infinito momento:
berra-se o todo no agora - o verdadeiro, o Nirvana
o aleph de Borges,
os vinte e dois arcanos,
a pasárgada, o paraíso, shangrilah
o olimpo, terra prometida:
trinta e três anos.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Por uma nova fonoaudiologia
Escrito por
Erika
Lembra:
literalmente
mamaram em mesmo peito -
língua e palato,
irmãos e amantes.
Ela:
lama gaia molhada
ventre da dança
nata fêmea,
lenta,
sinuosa.
Ele:
estrelado e rugoso
ar e osso
céu da boca.
Músculo viscoso e teto duro
lava e estalactites
contém e contido
seco e úmido alquímicos
pais de palavra e sentido.
Sempre dançaram,
o sabem bem os disfluentes:
o engasgo é aqui na gruta,
a gagueira é na garganta
(o buraco é mais embaixo).
literalmente
mamaram em mesmo peito -
língua e palato,
irmãos e amantes.
Ela:
lama gaia molhada
ventre da dança
nata fêmea,
lenta,
sinuosa.
Ele:
estrelado e rugoso
ar e osso
céu da boca.
Músculo viscoso e teto duro
lava e estalactites
contém e contido
seco e úmido alquímicos
pais de palavra e sentido.
Sempre dançaram,
o sabem bem os disfluentes:
o engasgo é aqui na gruta,
a gagueira é na garganta
(o buraco é mais embaixo).
sábado, 10 de abril de 2010
Zoo, ou Sobre a Violenta Respiração Noturna
Escrito por
Erika
Estar preso ao invisível
sendo a cegueira a prisão:
o macaco sabe o vidro,
a pantera, não.
sendo a cegueira a prisão:
o macaco sabe o vidro,
a pantera, não.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Border
Escrito por
Erika
Aquele lá mora no paradoxo.
Vê como é tudo?
Pedra planta bicho homem:
o sim não exclui o resto, encontrou o infinito.
Vê como é tudo?
Pedra planta bicho homem:
o sim não exclui o resto, encontrou o infinito.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Yin
Escrito por
Erika
talvez narrativas fiem vidas.
talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
talvez não haja eu, apenas a tecelagem contínua entre dois pólos,
cujo projeto (que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias,
sentidos trans-lúcidos,
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.
por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção:
aqui se faz um mundo,
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde,
dedilhado em terças e sextas e não haja maestro.
talvez os homens das ciências sejam certos e o nosso multiverso seja órfão.
talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.
talvez seja só uma questão de abstração inútil e as coisas façam-se porque assim são feitas,
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido ou a falta dele
e houve um alberto caeiro.
talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.
talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.
talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como borges e tirésias, que alertaram para a escuridão.
talvez eu esteja errada, talvez eu creia.
teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados
e outro em que sou louca ou nada.
sirvo a uma lenda que conta a natureza em mim,
a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a poesia.
teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me antecederam.
teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois chamaram de um nome escandinavo.
talvez seja a verdade última, o naufrágio
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo
do uísque do meu pai.
talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros, me levando em pó
para o deserto quente onde o tempo nasceu como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja o deserto e o vento.
ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos como a noite pelo dia.
tolerar o calafrio do espelho na água da superfície e mergulhar no frescor não sabido,
em nem um pio das corujas que alerte os futuros.
o peso do infinito, matéria-prima do fio,
os deuses e a Certeza, outra deusa
enlouquecida em descrédito:
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.
talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
talvez não haja eu, apenas a tecelagem contínua entre dois pólos,
cujo projeto (que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias,
sentidos trans-lúcidos,
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.
por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção:
aqui se faz um mundo,
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde,
dedilhado em terças e sextas e não haja maestro.
talvez os homens das ciências sejam certos e o nosso multiverso seja órfão.
talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.
talvez seja só uma questão de abstração inútil e as coisas façam-se porque assim são feitas,
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido ou a falta dele
e houve um alberto caeiro.
talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.
talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.
talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como borges e tirésias, que alertaram para a escuridão.
talvez eu esteja errada, talvez eu creia.
teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados
e outro em que sou louca ou nada.
sirvo a uma lenda que conta a natureza em mim,
a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a poesia.
teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me antecederam.
teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois chamaram de um nome escandinavo.
talvez seja a verdade última, o naufrágio
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo
do uísque do meu pai.
talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros, me levando em pó
para o deserto quente onde o tempo nasceu como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja o deserto e o vento.
ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos como a noite pelo dia.
tolerar o calafrio do espelho na água da superfície e mergulhar no frescor não sabido,
em nem um pio das corujas que alerte os futuros.
o peso do infinito, matéria-prima do fio,
os deuses e a Certeza, outra deusa
enlouquecida em descrédito:
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.
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