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sábado, 26 de abril de 2008

É sempre assim

Quando todos os sonhos de um cara se tornam realidade e a vida dele se torna quase perfeita, mas de repente um desses sonhos se quebra. A vida desse cara passa a ser sem graça. O único desejo que ele tem agora é ir a sua casa, enfiar-se embaixo dos lençóis e chorar, chorar com medo da própria vida.

Saudade é uma palavra forte. Forte o bastante para doer quando vem e queimar até ir embora. Sem entender nada ele se desespera, porém não a ponto de fazer uma besteira. Os amigos fazem de tudo para animá-lo, mantê-lo são. Ele não desiste dos seus sonhos, no entanto está cada vez mais longe de recuperá-los.

Não importa o que ele pense, as pessoas ao seu redor o convencem de desistir, elas querem o seu bem. E ele desiste. Com o tempo percebe que fez o certo. "Curta a vida, pois a vida é curta” - diz ele Não se torna um cara melhor, como queria, mas passa os dias e as noites sonhando. Escondido.



nota do autor:
cansei de tudo!

quarta-feira, 26 de março de 2008

Quando escrever errado pode não ser tão ruim

Eu era criativo. Falava, discorria, dissertava. Era tudo caprichado. As linhas preenchiam ao mesmo tempo a folha e a mim. As palavras me davam a energia e o ânimo que eu precisava até mesmo para continuar escrevendo e preencher cada vez mais e mais minha vida. O coração pulsava num ritmo tão acelerado quanto o rabiscar da folha em branco ou o bater dos dedos nas teclas. Às vezes acordava desesperado em plena duas e quinze da madrugada para anotar uma idéia qualquer. Quando esquecia o que ia anotar, tratava logo de pensar em algo, pois nada justificava um salto da cama, a não ser escrever. Eu odiava ter que dormir sem registrar meu dia numa folha. Tive poucos diários, mas muito bem usados.

Meus textos eram extensos, pelo menos eu os considerava assim. Tinham densidade, lirismo - como disse - pelo menos eu os considerava assim.

Eu executava um ritual tão metódico: sentar (ou deitar), música clássica, lápis 6B, caderno comum e mil e uma idéias. Ás vezes terminava um texto ou um poema e no final não sabia explicar o que quis dizer. Simplesmente estava escrito e pronto. Certa vez li um texto sobre o escritor Paul Valéry, o qual afirmava que muitas vezes o escritor não explicava o quis dizer em determinado poema ou texto. Valéry apenas respondia que não quis dizer, mas sim fazer. A intenção de fazer é que dizia o que ele queria expressar.

É quase assim comigo, não em todas às vezes, só vez ou outra. Comecei a escrever essa crônica acreditando que a internet havia quebrado a minha rotina e prejudicado a qualidade dos meus textos. Fico com um pé atrás sempre que me vejo digitando “vc” ou coisas desse tipo. Com três anos de orkut já esqueci como escrever muitas palavras não tão usuais. Não quero imaginar como será daqui a dez ou vinte anos, quando começarem a surgir os primeiros livros escritos em linguagem de internet. Será o fim da gramática, da boa escrita ou será o início da preguiça mental? E quando da escrita passar para a fala? Questão de tempo ou questão de escolha? Eu não sei responder. Você sabe?



P.S.: A internet propaga muito rápido qualquer tipo de tendência. Hoje é possível encontrar quem faz humor utilizando os erros de português, criando uma nova língua, chamada Tiopês. Os adeptos criam comunidades e conversam na nova língua.
Exemplo de diálogo em Tiopês retirado da comunidade inpreza tiopes ®:
“tiop açin, __---a inpreza tiopes eh uma inpreza qriasda paar imriqecer o vokabulareio tiopes con proldtos inovadoris qeu faraun di seu kliemtis peçoaz mais kuutas vokbolariam...

Mais comunidades:
Tiopês - A Revolução
faalr tiopes como fas???

Pra quem gostou ou achou divertido e quer aprender, existe um tradutor de Tiopês. Experimente http://www.tiopestranslator.cjb.net/

Este post faz parte da Blogagem Inédita

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Salve os Nanocontos

Participei do concurso na comunidade “Concurso de Microcontos” nos meses de Maio e Setembro e ganhei com esse dois pequenos contos. Fica a dica pra quem quiser concorrer e ganhar um brinde simbólico.

O Beto Menezes, junto com o pessoal do Bar do Escritor mantém uma pequena comunidade: Nanoconto


Paranóia

Acorda e trata logo de arrumar a cama. O lençol é dobrado oito vezes no sentido da costura. A colcha da cama é esticada ao máximo. É preciso ter cuidado para manter a simetria com a cabeceira e o baú. Vai para o banheiro escovar os dentes. A escova é lavada antes, treze vezes para ser mais exato. Sim, claro, pois vai ver que sem querer ele contrai alguma doença de si mesmo?

Brincar com fogo

Queimou as mãos brincando com fogo, mas provou para a mãe: o colchão não amanheceu mijado.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Coisista ou A crônica do Eu

Eu sou um “coisista”. Passei, depois de tanta cobrança, a me considerar bom nas coisas que faço. Em geral sou mesmo um bom “coisista” – sujeitinho que tenta fazer de tudo. Muita gente está no meu pé discutindo comigo essa questão da humildade e da modéstia. Humildade é uma coisa que eu posso até ter, sabe, em uma zona morta do meu cérebro. Já modéstia não, sinto muito, não sou nada modesto, afinal nunca ganhei nada sendo assim e se perdi, foi algo que não fez diferença alguma em minha vida.

Acredito que não saberia viver em um lugar parado, um lugar rotineiro, monótono. Sou da cidade, sempre fui. Gosto de prédios, carros, motos, poluição sonora. Sou citadino ao extremo. Gosto de sair da aula por volta das nove e uns quebrados da noite apenas pra sentir o vazio das ruas depois de um dia inteiro de funcionamento das lojas, das barracas, dos frigoríficos, das bancas de revista, dos colégios. Gosto de ouvir o aglomerado de sons diferentes que se passa no meio do trânsito. Gosto de ir tomar café às pressas pra voltar à aula e, se a vontade for maior do que a força em minhas pernas, gosto de passar em um sebo de livros usados e sentir o cheiro da poeira e do ácaro daquelas folhas que estão ali há anos, mesmo que isso me custe uma semana ou duas com crise alérgica.

Eu me apaixono toda semana, mudo meu sobrenome todos os dias. Tenho um sério problema de memória. É muito comum, pelo menos no meu caso, acordar pela manhã e não saber que dia é.

Desde quando passei a observar o que acontece ao meu redor, de perceber as situações inusitadas do cotidiano, meus sentidos parecem mais aguçados. Consigo descrever o que vejo com muito mais facilidade. Posso colocar no papel acontecimentos em minha vida e transformá-los em situações universais, problemas que afetam todo e qualquer tipo de pessoa. A cidade parecer ter notado o meu avanço. Arriscando um tom poético eu diria que a cidade parece corresponder ao que sinto. Nunca consegui explicar todas às vezes que me pego com baixo-astral, com baixa auto-estima, ou até mesmo infeliz e por coincidência está chovendo. Ou quando recebo uma notícia boa, quando me alegro por um amigo que ligou pra dar um sinal de vida e lá está o tempo limpo, perfeito, o céu, as nuvens, tudo em harmonia com meu corpo e com minha mente.

Não são raras também as vezes que as estrelas sumiram à noite quando não consegui me concentrar para escrever ou compor. Ultimamente tenho me encontrado em paz de espírito (se é que isso existe), tenho aproveitado os momentos bons e os momentos certos, mesmo que durem pouco. E vocês notaram aquele dia que fez um calor danado? Só pode ser esse sol, cada vez mais forte.



06.06.06

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Algumas cartas - Série O Carteiro

Do Mendigo

E neste momento um mendigo corre descalço pelas ruas procurando abrigo contra a forte chuva. Encontra um restaurante aberto e entra. O garçom pede para que ele se retire, mas o homem não aceita e considera isso uma ofensa. Acaba sendo expulso por dois outros funcionários. Encontra um botequim aberto e lá pelo menos ele pode sentar em uma mesa quase na calçada e escrever para a família que não vê há três anos e meio. Conseguiu papel e caneta pedindo na porta de uma escola aos alunos que saíram mais cedo da aula. O Carteiro ao abrir o envelope umedecido pela chuvarada que caiu agora pouco vai ler que o mendigo mentiu para a família dizendo que está bem, que sente saudade do filho Gabriel de seis anos, que a empresa de enlatados está crescendo, que logo ele estará de volta e a família se mudará para uma casa melhor, com piscina e um grande jardim coberto para proteger as flores contra dias de chuvosos como esse.

De Regina

O envelope de Regina era perfumado:

“Não amo mais você. Cansei de esperar o seu egoísmo perceber que eu sou a mulher da sua vida. Por muito tempo eu chorei feito uma louca, sofri feito uma condenada. Agora não mais. Não quero ver você tão cedo, seu idiota. Espero que alguém faça você sofrer tanto quanto você me fez. O meu amor era verdadeiro e ainda seria se você mudasse de idéia. Adeus. Vou mudar de vida, com você eu fui a mulher mais burra do mundo. Deixei que você morasse em minha casa...Canalha.Saiu sem ao menos se despedir.”

O Carteiro não se sentiu comovido com a carta da mulher abandonada pelo namorado. Talvez se sensibilizasse caso soubesse que em algum lugar da cidade Regina estava sentada no chão de seu quarto. A televisão ligada, a luz do banheiro acesa, uma garrafa de vodka pela metade, vário comprimidos sobre a cama e uma gilete na mão. Pronta para cortar os pulsos.



mais sobre o Carteiro

A quase infância

Quando chegar o verão

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Quando chegar o verão

Sebastião percebe que o vento não está mais soprando. Ele se ajoelha:

- Quando chegar o verão, eu vou te buscar em casa. Vamos passear no parque. Compro para você um sorvete daqueles que aprecia e peço para o homem com o violão me deixar tocar a sua música. A tarde será perfeita.

O vento agora voltou e parece estar mais forte que o comum. Sebastião deixa as flores em cima do túmulo, desiste dos planos e passa os olhos rapidamente na escritura da lápide: “Aqui jaz Sandra Borges de Medeiro, esposa amada e filha querida”. Ele deixa as lembranças de lado e se põe em pé novamente. Caminha pelo cemitério buscando um sentido para a própria vida, agora que a noiva não está mais presente e nunca mais estará. Ele se vê sozinho, sem família e perdido.

Ele sai do cemitério e, mesmo sem saber o que faria naquele momento, sobe no primeiro ônibus que vê passando. Dentro do veículo ele passa a escrever a primeira carta de sua vida, nunca havia escrito uma antes durante seus vinte e três anos:

“O engraçado (ou o inexplicável) é que eu não lembro de ver a cidade assim tão triste. A chuva, que normalmente não cai, parece tentar dizer a todos que alguém dentro de um ônibus, escrevendo, sofre por uma pessoa que conhece há tão pouco tempo. Isso me faz recordar de um filme qualquer, ou então seria tão único que só se vê em filme mesmo.” - Ele tenta se equilibrar no ônibus e escrever meio sem jeito. “Parece que eu te conheço há anos, que eu te adoro desde sempre. Parece que eu te amo desde que eu nasci... Você merece o mundo e eu só tenho algumas folhas de papel em branco, uma caneta e um lápis. Nem mesmo uma borracha eu tenho.”

Sebastião olha as calçadas, as esquinas, os bares. É hora de descer do ônibus, mesmo sem poder enviar a carta para quem gostaria.





mais sobre Sebastião aqui

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

As vidas de João

João era pobre. Sentia-se mais pobre do que era. Sentia-se mais miserável e desgraçado do que realmente era. Mas João tinha sonhos, dois grandes sonhos para ser mais exato.

Aquele que é rico e almeja ser cada vez mais rico possuiu um sonho pobre. Porém João tinha sonhos nobres. O primeiro deles era terminar sua morada, que ele mesmo construía. Era servente de pedreiro desde os treze anos. Tentara outras profissões, até a catar papel se prestara. Foi na construção que se sentiu melhor.

João não tinha família. Já não tinha pai nem mãe, já não tinha paixão pela vida, aliás, viver era mais difícil do que imaginava. Já passara fome e sede. Era tão sozinho que chegava a ficar alguns dias sem pronunciar palavra nenhuma. Às vezes procurava outro abrigo para dormir, pois seu barraco sempre inundava com a chuva. Nunca estudou, mal sabia em que ônibus entrar para procurar um bico de pedreiro. Escrevia apenas o nome e talvez nem lembrasse mais como escrevê-lo. Vivia devagar e devagar passavam seus dias. Não tentava sorrir, não tentava mais chorar.

O segundo sonho de João era mais nobre e ao mesmo tempo mais impossível. Sonhava poder voar, cruzar o céu, passear entre as nuvens, ver a tudo e todos lá de cima. Envergonhava-se todas as vezes que alguém na rua o chamava de louco quando erguia a cabeça e caminhava de braços abertos. Sacudia os braços, pulava, pulava e nunca alçava o tão sonhado vôo.

Chegou um dia em que João não apareceu mais. Os poucos amigos que tinha souberam que estava no hospital. Entre a vida e a morte, como sempre vivera. Uns disseram que era dengue, outros que era doença de Chagas, outros que era pneumonia. E João não apareceu mais.

Passou-se muito tempo até que vivesse outra vida. Uma vida completamente diferente.

Agora João é feliz. Voa para onde quer, na hora que quer. Ninguém mais discrimina sua cor, seu jeito, suas roupas. Até viu um casal na praça admirando seu movimento, enquanto voava. Seus sonhos agora são reais, aconteceram sem que soubesse explicar como. Não é mais um João triste, sem vida, sem família e sem lar. É um João alegre, vivaz, tem onde morar. É enfim um João-de-barro.



*Dedicado a João Luis, não o do texto, apenas um amigo!

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

As luzes do ônibus

Martin, o motorista daquele ônibus, estava nervoso. Nunca havia feito nada parecido, não tinha noção do cuidado e da atenção que isso exigia. Apenas concordou com a idéia porque precisava muito do dinheiro. Agora que a esposa esperava gêmeos, a situação financeira necessitava de um auxílio, algo que garantisse o sustento dos filhos que já nasceriam em menos de um mês.

O plano era gastar a quantia que recebesse, somente depois de passadas dez semanas, para evitar as suspeitas sobre ele. O esquema era após o ônibus passar por baixo do segundo viaduto, o motorista ascenderia e apagaria as luzes do veículo quatro vezes. Esse seria o sinal. Logo então deveria alegar aos passageiros que havia um problema com os freios do ônibus. Com isso todos deveriam descer e trocar de veículo.

- Eu vou perder minha novela – disse a passageira mais velha.

- Calma senhora, tudo vai acabar bem – respondeu o motorista.

O mais complicado para Martin era saber que todos o conheciam. Todos sabiam um pouco da sua vida. A esposa grávida e a situação difícil que ele se encontrava. Os passageiros foram transferidos para o primeiro ônibus que passou, o segundo veículo envolvido naquele que seria o maior e melhor seqüestro já realizado por motoristas de ônibus.



*rápido, simples e sem o menor sentido

domingo, 26 de agosto de 2007

Ele & Ela

Ela caiu. Deslizou pela superfície macia e foi parar ao chão depois de uma queda de aproximadamente um metro e setenta. Ele não sabia explicar aquilo. O que teria causado isso? Que motivos levaram-na a cair? Talvez a resposta estivesse em seus pensamentos mais obscuros, os que ele mesmo negava.

Tudo acabou sedimentando a tal ponto que ela caiu: as desilusões, as mágoas, todas foram se acumulando e assim ela se deu a cair. O filme triste a que ele assistiu também fora responsável. Sem contar a solidão, a saudade, o medo, a amargura, a insegurança. Porém nunca lhe ocorrera que ela viesse a cair novamente, não agora que ele jurava de “pé junto” que estava bem. Seria possível que ele até soubesse o real motivo de tudo aquilo, mas não admitiria jamais, nem para si mesmo.

Houve um tempo em que ela caia todos os dias, em certas ocasiões mais de uma vez. Há muito cansou de vê-la. Não havia motivo para espanto - acabou percebendo - mais cedo ou mais tarde ela teria que ir ao chão de novo.

Acabou tentando lembrar os meios que a faziam cair com freqüência. Começou pelo óbvio, as sensações que lhe incomodavam. A aflição, o desconforto, o desprazer, até mesmo a dúvida. Muitas músicas também a faziam cair – recordou-se. Cenas nos jornais, nas ruas, no colégio. Foram vários os momentos que ele a viu, é impossível citar todos.

Antes de dormir pensou mais um pouco, lembrou que também ela caíra em momentos alegres. Sim. Por que só agora ele havia notado? Ela só pode ter caído por isso: alegria. Quando constatou que era verdade viu seus olhos brilhando de felicidade no espelho. Foi então que ela caiu. Deslizou pela superfície macia e foi parar ao chão depois de uma queda de aproximadamente um metro e setenta. Ele, um simples garoto. Ela, uma não mais triste e amarga lágrima.



*sei que alguns gostariam de ler mais sobre o Carteiro, mas não me encontro em minha casa
não tenho meus textos aqui
sinto muito

quinta-feira, 26 de julho de 2007

A quase infância


O Carteiro é um quarentão, homem gordo de baixa estatura sem compaixão por si próprio, utiliza a profissão para alimentar seu maior prazer: entrar na intimidade das pessoas. Abre sim todas as correspondências que lhe causam comichão de curiosidade. Ninguém sabe o que traz tanto conforto para ele saber sobre o que acontece na vida das pessoas cujas cartas ele entrega. O Carteiro não é tão diferente assim das demais pessoas que o cercam, ele apenas tem a vantagem de ter o destino de alguém nas mãos, ali em alguma daquelas cartas.

Criança ainda foi criado por Dona Marluci, empregada da casa já há muitos anos. O pai não suportava o fato de a esposa ter falecido no parto e passou a culpar o filho de ser o assassino da mãe. A empregada foi a responsável pela educação do menino. Batizou-o de Sebastião, o tabelião conhecia o pai do bebê e aconselhou Dona Marluci que acrescentasse José e assim permaneceu: José Sebastião Cavalcante Filho, o Tião, como chamava a empregada.

A primeira carta que o Carteiro violou foi por acaso, quando este tinha nove anos de idade. Dona Marluci que já contava com idade avançada pediu para Tião entregar um envelope na casa de Seu Assis, um velho que vez por outra visitava a empregada. O menino respeitava muito sua mãe de criação, por isso nunca deixou de fazer por ela alguns favores. Chegando a casa tocou a campainha e ninguém apareceu. Decidiu ir ao centro da cidade onde Seu Assis era dono de uma venda. Quando passou em frente à sorveteria encontrou Maurinho, seu melhor amigo. Tião era quase um ano mais novo que o amigo, por isso teve que aceitar quando Maurinho puxou a carta e correu. O Carteiro estava acostumado com essas brincadeiras.

- Devolve Maurinho, por favor – pediu Sebastião.

- O que é isso, cartinha de amor? – perguntou o amigo enquanto abria o envelope.

- Carta de quê?Devolve, devolve.Tia Marluci pediu para eu entregar, é para o Seu Assis.

Maurinho pôs-se a ler: “Meu amor, adorei o nosso primeiro...”.

Tião arrancou a carta das mãos do amigo e enfiou-a no bolso da calça. Os dois permaneceram em silêncio por um tempo. Sebastião não entendeu o que significava aquela carta, a própria Dona Marluci havia escrito, ele se viu no direito de ler o que nela continha.

“Meu amor, adorei o nosso primeiro encontro, em todas as visitas que me fez eu aguardei ansiosa o seu convite para sairmos. Agora sei que meu sentimento por você não vem apenas de minha parte. Adorei nosso passeio no parque, senti-me quarenta anos mais jovem. O desejo de viver mais cem anos floresceu graças a você, meu amor. É preciso que sejamos cautelosos discretos, não quero me precipitar com você. Não temos mais idade para aventuras, não posso simplesmente abandonar meu patrão e Bentinho, o menino que criei como o filho que nunca tive. Peço a você que tenha paciência e seja compreensivo, vamos nos encontrar quantas vezes mais você quiser. E se o amor exigir que eu largue tudo e vá viver ao seu lado, eu sou capaz e audaz de fazer. Um beijo da sua amada Marluci”.

Era a primeira vez que Sebastião desobedeceria a sua mãe de criação. Maurinho o acompanhou à venda de Seu Assis. Os dois passaram lentamente em frente à porta do estabelecimento. Podia-se ver o ódio nos olhos do Carteiro quando este viu o velho que seduzira a mulher que lhe criou, que lhe ensinou a andar de bicicleta, que lhe contou as histórias da Mula-sem-cabeça, do Saci Pererê, da Caipora e que lhe mostrou como fazer para a bola de meia não rasgar tão facilmente.

Chegou a casa e o pai não estava como sempre.Deu um beijo em Marluci e foi brincar com Maurinho no quintal.

- Entregou o envelope, Tião? – gritou a empregada de dentro da cozinha.

- Entreguei.

À noite o Carteiro leu mais uma vez a carta deitado em sua cama. Rasgou-a em muitos pedaços, jogou-a em uma lata de leite em pó vazia e ateou fogo nos papeizinhos.



*da série: O Carteiro

terça-feira, 26 de junho de 2007

Série “Crônica Curta Crônica”: Preconceito


As luzes, nessa época do ano, costumam variar entre azul, amarelo, verde e vermelho. Os meninos? Esses são muitos, em geral andam sempre acompanhados: mãe, pai, irmão, irmã, babá. Apenas aquele cujos olhos cruzaram os meus não parecia ter acompanhante. Um negrinho desses que se encontra em sinais de trânsito. Calça um tanto desbotada, camisa e chinelos velhos. Devia ter seus dez ou onze anos de idade. Caminhava entre as pessoas como quem não é notado, mas não totalmente. Eu o fitava.
Acredito que ele não estava ali para pedir esmolas ou até mesmo roubar; furtar um objeto qualquer de uma loja. Parecia assustado e, em outros momentos, deslumbrado, principalmente após ter encontrado o que, suponho, estava a procurar: cercado de várias crianças, lá estava o Papai Noel do shopping. O negrinho permaneceu pelo menos dez minutos imóvel.
O funcionário vestido naquela roupa vermelha até que sabia como tratar as crianças, uma vez que todas elas eram de classe média e alta. Por alguns instantes, outra pessoa notou a presença do negrinho, o próprio Papai Noel do shopping. Vi a dor nos olhos do velho que se compadeceu com o menino, fazendo-me sentir o mesmo. Porém o velho e eu éramos incapazes de uma aproximação direta do menino. Cada um impossibilitado pelo preconceito que criou.


p.s: sem tempo pra me dedicar e/ou escrever, grato!

sábado, 26 de maio de 2007

Imagine um dia de sol

Segunda-feira, vinte de maio. Recebo um e-mail da editora Andross recusando meus textos. O editor alegou que meus textos eram, por falta de palavra melhor, infantis demais para tal concurso. Manifestei minha insatisfação com outro e-mail. A resposta dada foi praticamente igual à outra. Em um primeiro momento eu não havia concordado com a opinião do editor, porém passei toda a noite pensando no que ele dissera. Acordei cedo na terça-feira. Já estava aceitando o veredicto do editor. E aceitei.

Escrevo de forma infantil? Talvez, mas qual o problema nisso? Que eu seja lido por velhos, jovens e principalmente crianças. O importante hoje para mim é ser lido. Que culpa tenho eu de escrever sobre a mente de uma criança, sobre o universo desconhecido que cada garotinho tem pela frente após se dar conta do mundo ao seu redor. Acompanhe comigo:

Imagine um dia de sol, um agradável dia de sol. Crianças vigiadas pelos pais brincam nos balanços e escorregadores do parque. Sentadas no banco de areia, duas outras crianças tentam fazer um castelo. Dois meninos. Há cavalinhos e soldados. Há também um pequeno balde servindo de molde para as torres. Conforme eu disse, é realmente um dia agradável. Poucas árvores. As mais altas têm um balanço maior; as mais baixas foram usadas para pendurar pneus.

Folhas secas, grama e crianças. Os dois meninos no banco de areia não se conhecem. Apenas os pais se falam vez ou outra no elevador do condomínio onde moram. O primeiro tem cabelos pretos e olhos castanhos, o segundo também tem cabelos pretos e olhos castanhos. Têm a mesma idade e fazem a mesma coisa: constroem um castelo de areia. As outras crianças do parque são mais agitadas. Pulam, correm; a maioria joga futebol.

Os nossos pequenos construtores ainda estão com a mão na areia. Levantando torre por torre, muro por muro. Eles são tranqüilos, talvez os mais calmos de todo aquele parque. Terminaram cada qual seu castelo. Olharam-se por alguns instantes, mas logo procuraram desviar o olhar, coincidentemente para o mesmo local: a única árvore que mostrava indícios de um outono próximo. Uma folha se desprende e cai lentamente. Os meninos acompanham o movimento suave que aquela folha faz. A mãe do primeiro menino aparece para levá-lo embora. O segundo menino continua lá, observando a folha que agora toca o chão exatamente em cima de um pequena poça d’água, formando uma ponte para algumas formigas que passavam por ali seguirem caminho. O menino sorri. Percebe que aquilo não é comum.

Com o tempo esse menino aprende a observar. Procurar a mesma sensação que teve ao ver aquela folha cair interagindo com o trajeto das formigas. Quando aprendeu a ler e escrever, começou a anotar os pequenos detalhes dos seus dias. Não só as árvores e os bichos ele observava, mas também as pessoas. Os hábitos de cada um, as manias. Ainda há muito que se falar desse menino. Mas eu adianto a você, caro leitor, que o futuro desse menino (mais que um desejo meu) é se tornar escritor.

Há um abismo entre a coincidência e o destino.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Primeiro beijo

Eu estava confusa. A mão dele nunca me pareceu tão fria, nem mesmo daquela vez que dormimos na chuva esperando o veterinário abrir o consultório. O médico chegava às seis da manhã, daí a passarmos a noite protegendo o Plock, o cachorrinho dele. Tínhamos dez anos de idade na época.

O rosto dele nunca esteve tão próximo por tanto tempo, nem mesmo daquela vez que nos escondemos do Bartolomeu, um velho que odiava crianças. Nós atiramos um ovo na varanda de sua casa e fugimos para onde estava sendo construído o futuro ginásio da escola. Ficamos em um bueiro até ter certeza que o velho desistira de nos pegar. Tínhamos doze anos na época.

Nunca havia sentido a respiração dele tão ofegante, nem mesmo daquela vez que tivemos que correr quatro quarteirões para alcançar o carro da mãe dele. Ela havia esquecido a bolsa, o relógio e os óculos. Tínhamos quinze anos na época.

O coração dele nunca bateu tão forte, nem mesmo daquela vez que fomos conferir o resultado das aprovações do vestibular. Quando deparamos com nossos nomes na lista de aprovados, eu em letras e ele em jornalismo, pensei que carregaria mais uma vez ele desmaiado para a enfermaria do colégio. Tínhamos dezoito anos na época.

Ele nunca me olhou dessa forma, nem mesmo daquela vez no campus da universidade, quando colocou os meus livros no chão e deu-me o que viria a ser o nosso primeiro beijo.

Tantas sensações, tudo ao mesmo tempo. Sem pausa, sem descanso. Agora só me resta rezar para a ambulância chegar logo, enquanto vejo o sangue dele escorrer pelas ferragens destruídas do meu carro.