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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O rapaz do guarda-chuva cinza


Eu podia dizer apenas isto: o rapaz estava no ponto do ônibus. Usava um terno cinza e um guarda-chuva cinza. O mendigo parou de passar para nos dizer como um profeta manso: que não choveria aquele dia, que nunca mais choveria, porque naquele momento não chovia e o tempo, o tempo, meus senhores, estava irremediavelmente parado (aliás, acho que ele disse: encrencado).

Estes foram os fatos visíveis. Os outros fatos é que me incomodam. Vou completar a estória: o mendigo puxava um cachorro com o pensamento. O cachorro era muito mais bonito, o cachorro era como um nobre russo que viajasse incógnito, o cachorro estava sujo e provavelmente doente. E o mendigo puxava o cachorro com amor. Por que, meu Deus, tenho que falar nisso? Um cachorro é tão irrelevante.

Esse não era. Ou eu é que vi com os olhos do mendigo. Que não devia ter parado de passar naquele instante. Porque então o cachorro viu o rapaz do guarda-chuva.

É importante lembrar que o guarda-chuva era cinza, já que isso prova que o rapaz não existia.

Eu acho que o rapaz não existia; olhava o mundo com tanta confiança que não podia ser.

O cachorro viu o rapaz e pensou: eis um amado. Era. Tão amado que não se importava. No ponto do ônibus as pessoas com calor e vontade de ir para casa esperavam que o mendigo dissesse outras coisas sobre o tempo. Uma criança estendeu a mão para o cachorro. E foi então que o tempo realmente parou, tudo se interrompeu no meio. No meio de eu piscar e respirar, a criança e a mão estendida receando tocar, o cachorro tenso com a descoberta de um amado, o mendigo à espera de que o cachorro andasse outra vez, o rapaz não percebia nada.

Vem, pensou o mendigo com amor. O cachorro não se moveu. Vamos, pensou o mendigo. O cachorro fascinado. Ele não quer você, vi o mendigo pensar.

Então o cachorro disse: ninguém escolhe um cachorro. Se eu andar atrás dele, ele é meu dono. Ainda que não perceba será meu dono. Ainda que me queira enxotar com seu guarda-chuva cinza, eu insistirei e ele será meu dono.

Mas você, meu amor, você tem dono, pensou o mendigo com lágrimas na voz.

Num sobressalto o cachorro olhou para o mendigo, surpreso por descobrir com que intensidade era também um amado. Decidiu-se. (Eu assistia, meu Deus, uma intrusa, que fazia eu em meio a tanto amor, em meio a uma piscadela e uma expiração?) O mendigo deu um passo, blefando, fingindo que ia. Mas o cachorro tinha se decidido e foi também, um olhar de vaga saudade para o que não existia.

O tempo se moveu de novo, eu exausta de sentir o amor alheio.

Foi bom que o cachorro não ficasse, porque logo o ônibus chegou, e num ônibus nenhum cachorro pode seguir o dono.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Estar sozinho também é Globalização

Estar só é igual em qualquer lugar do mundo.

Estar sozinho em Tóquio é exatamente igual a estar sozinho em Nova Iorque ou em São Paulo: tem as luzes, a música, você olha para a pessoa que está dançando com você, você sorri, dizem alguma coisa que você não entende, você pergunta o quê, repetem, você finge que entendeu, sorri de novo, acena com a cabeça. Você fecha os olhos e mesmo assim, através das pálpebras, percebe as luzes piscando.

Você pode ter chegado lá com a galera, você esperava uma noite alegre, mas – espera! – quem você conhece, de fato? Quem conhece você? Todas as noite são iguais, você quer se divertir, você poderia morrer de puro tédio.

É diferente de estar sozinho no alto de uma montanha, sentado no chão, abraçando os joelhos, olhando a paisagem, mas estar sozinho abraçando os joelhos no alto da montanha também é uma experiência idêntica no Morro do Elefante, no Monte Fuji ou em Aspen.

Isso é globalização.

Não há mais experiências únicas, nada transcende. Você não vai ter a Grande Revelação ao entrar num templo budista, nem ao ouvir o canto gregoriano no Mosteiro de São Bento, nem quando o coral do gospel vier lhe trazer a Palavra.

Você vai entrar na mesquita, na sinagoga, na catedral, vai olhar em torno, vai ver rostos humanos, rostos. Todos solitários. Você não vai se surpreender com nenhum ritual, nada pode emocionar você, tudo já foi visto antes, você conhece isso, você sabe como é, já viu no cinema, no Discovery Channel.

Você vai saber que não há salvação.

sábado, 8 de agosto de 2009

A LÍNGUA NA INTERNET
Betty Vidigal

Até começar a circular pela net eu tinha – embora inconscientemente – a certeza tranqüila de que o modo como nós sudestinos falamos é que era o jeito “certo” de se expressar coloquialmente em português. (Nunca entendi por que razão se diz "nordestino", mas não "sudestino".) Claro, todos sabemos que não é o modo correto do ponto de vista formal, mas quem fala de qualquer outro jeito nos parece estar errado.

Na página de atendimento do iG, há a mensagem: “Estamos prontos para te atender. O iG valoriza você.” É assim que se fala, em São Paulo e no Rio. Não chamamos ninguém de “tu”, mas dizemos “te”. Dizemos “você”, mas não dizemos “lhe atender”. Para nossos ouvidos sudestinos, está certo misturar “seu” com “te”. O “lhe” é que soa muito estranho, para nós. Não pronunciamos os erres finais dos verbos no infinito, e se alguém pronunciar achamos que soa pedante, preciso demais.

A frase “vamos te dar um presente” é pronunciada por nós como “Vâmu tchi dá um presentchi”. E se alguém pronunciar todos os “e”, “o” e “s” corretamente, como se faz na fronteira dos estados do sul, achamos engraçado. Dizemos “cê vai?” em vez de “você vai?”, mas se alguém disser “ocê vai?”, isto soa a nossos ouvidos como fala inculta, caipira, embora a palavra “você” tenha sido menos corrompida e esteja mais próxima da forma correta.

Eu tinha essas certezas sudestinas tão internalizadas que nem percebia como eram preconceituosas.

Quando entrei nas salas de internet, em 1997, tomando contato com a forma de falar de todas as regiões do Brasil (porque, afinal, na net cada um escreve como fala), me espantei quando vi alguém perguntar a um gaúcho que estava conversando comigo: “Por que tu está falando como paulista?”. E eu que não tinha notado nada de diferente no modo dele falar! Ou de teclar, como se diz na net. Ele estava me imitando, brincando comigo... e eu não tinha percebido nada, parecia tão natural... Os outros gaúchos é que notaram.

Hoje, depois de tantos anos de convivência, soam-me tão naturais os “lhe” dos nortistas quanto os “tu vai” dos sulistas.

Está bem: antes que algum gaúcho reclame, reconheço que há gente no sul que diz “tu vais”. E que usa todos os imperativos direitinho, tanto os negativos como os positivos.
Mas há muita gente que diz “pegues com cuidado”, ou “olhes bem”, como tenho visto com freqüência, usando a forma do imperativo negativo como se fosse positivo. Errado pra caramba...! E tente convencer disto às pessoas que falam assim! Enquanto isso, no sudeste, dizemos “pega” e “olha”, quando o certo seria “pegue” e “olhe”, já que não nos dirigimos a ninguém como "tu".

Aí entra um ingrediente engraçado: para paulistas e cariocas, o verbo imperativo na segunda pessoa soa doce, como se embutisse um “por favor” subliminar. Não tem aquela conotação dura de ordem. Por que será? Se digo: “Não fale assim comigo”, por exemplo, soa como ordem. Se digo “Não fala assim comigo”, dá até pra ver as reticências de súplica na voz...

Então, a primeira coisa que a internet está fazendo pela língua é isto: criar um conceito democrático de que todos os coloquialismos estão igualmente corretos, ou igualmente errados, e talvez, com o passar dos anos, unificar mesmo a língua com naturalidade, sem que seja preciso forçar quem quer seja a grandes ajustes artificiais, como os que as academias dos diversos países de língua portuguesa querem promover.

Vejo professores a debater se os jovens escrevem e lêem menos hoje do que há alguns anos. Dizem que mais, por causa dos chats e dos e-mails. E há quem ache que isso os faz escrever pior, embora quantitativamente mais do que antes.

Certamente, em qualquer língua, e não só em português, criou-se uma grafia de abreviaturas e estilizações para tornar rápida a digitação. Vi num site de bate-papo francês a expressão “kes se k” em vez de “qu'est-ce que”. Claro que coisa equivalente acontece na nossa língua o tempo todo.

Confesso que configurei meu Word para substituir automaticamente as abreviaturas usuais por palavras completas. Digito como escrevo nos chats, e o Word faz o trabalho de alterar “q” por “que”, “vc” por “você”, “qdo” por “quando” e “msg” por “mensagem” – entre outras alterações. (Para conseguir deixar as abreviaturas, neste texto, tive que torturar um pouco a máquina.)

Quais os padrões para essa evolução, se é que se pode chamar de evolução?

E a língua dos e-mails? Pode ser a mesma que a das salas de bate-papo?

Nos e-mails, como não existe o recurso de substituição automática, as abreviaturas ficam como as digitei. Afinal, são “apenas” e-mails... (ah, se quero caprichar, digito em Word e depois colo o texto no e-mail. Só para assuntos importantíssimos! Se alguém recebeu de mim algo sem abreviaturas, saiba que era um assunto crucial pra mim... Não envio em doc atachado, porque eu mesma não os abro... não gosto de abrir nada atachado... E não é por ter medo de virus.)

Dia destes li numa revista algumas “dicas” de como escrever corretamente e-mails. A autora, uma professora de português, dizia: “Maiúsculas existem para ser usadas”. Isso porque ninguém escreve em maiúsculas na net e o vício de escrever em caixa baixa acaba se estendendo: a primeira letra das frases e até dos nomes próprios passa a ser escrita em minúscula. Considera-se que escrever uma frase inteira em maiúsculas não é de bom-tom, equivale a gritar... é agressivo... então por preguiça abolimos de vez as maiúsculas...

As dicas da professora continuavam: “Pontuação não é enfeite!” Verdade: não é, ou não devia ser. Mas na net há muito tempo os três pontos das reticências deixaram de ser três: há quem use dois pontos seguidos, em vez de três, e quem use miríades de pontos: quanto mais reticente for a frase, mais pontinhos. Pensando bem, as duas atitudes fazem sentido. Afinal, por que razão usamos três pontos, e não dois? Como sempre foi assim, e é assim em todas as línguas, ninguém jamais questionou isso. Mas, se a intenção é tornar a entonação da frase o mais clara possível, a gradação da quantidade de pontos é muito conveniente.

Entre internautas, usar duas, três ou mais vírgulas é comum, e é característico do estilo de teclar de algumas pessoas. O mesmo vale para ponto-e-vírgula. Uma coisa que ainda não inventaram é a vírgula de interrogação: e não dá para inventar por conta própria, porque dependemos do teclado para isso. Antes de passar a escrever só em computador eu andava usando vírgula com interrogação embaixo, em vez de ponto, em situações do tipo: “Você sabe, não sabe, que vou me atrasar?” Esse “não sabe” pede aos gritos uma interrogação que não pode ser um ponto. Claro que a grafia pode ser “Você sabe – não sabe? – que vou me atrasar.” Mas o ritmo imposto pelos travessões pode não dar a entonação que gostaríamos de dar.

Asteriscos, parênteses, aspas... abusamos deles nos chat, por diversão, para chamar a atenção, para dar ênfase, para abraçar, para sorrir... Fora as interrogações e exclamações usados em número equivalente ao tamanho da dúvida ou do entusiasmo, mas isso sempre se fez.
A autora das regras de bom-tom nos e-mails também acreditava que abreviaturas só devem ser usadas em mails informais. Mails de negócios devem conter todas as palavras na íntegra. Certamente, é mais seguro... Imagine se você escreve “recebi vossa msg” e alguém interpreta como “recebi vossa massagem”!

(obs: não sigo as dicas dessa professora...)

Li uma reportagem sobre um desses colégios bem informatizados em que o professor de português está aceitando “q” e “vc” nas provas e nos trabalhos, assim como outras abreviaturas usuais. Tenho certas dúvidas quanto ao acerto disso... Parece-me que é como autorizar o uso de calculadora eletrônica antes de as crianças aprenderem a fazer contas no papel. Mas são apenas dúvidas, não certezas.

E definitivamente incorporei à minha escrita, mais que os emoticons [essas carinhas que usamos na internet, como :-) ou :-( para indicar alegria ou tristeza], os símbolos de riso *r para risada e *g para gargalhada... Muito úteis!

Que alterações isso tudo vai gerar na comunicação escrita, no futuro? Boa pergunta, que talvez deva ser feita com um ponto de interrogação repetido enfaticamente – trúzias de vezes!!!!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

"Empadinha de Palmito"

Passei em frente ao Sampa Café e Restaurante, na rua 3 de dezembro, no Centrão de São Paulo. Tinha umas empadinhas bonitas na vitrine. E um cartão ao lado delas: “Empada de Palmito”.

Êba! Quando passar por aqui, na volta, vou pedir uma dessas, pensei, fazendo planos para o futuro. Fui ao tabelião na XV de Novembro. Depois, cumprindo o que me prometera, parei na lanchonete (não dá pra chamar de ‘restaurante’, não tem mesas. Se tem, não vi. Só uma prateleira de uns 20 cm, junto da parede, do lado oposto ao balcão, com banquetas de bar. Ok, por mim! Nada contra aproveitamento do espaço).

Primeira dentada na empada: era de frango. Depois de engolir, reclamei, desapontada:

– Ei, moça! Esta empada é de frango!
– E daí?
– Está escrito lá que é de palmito!
– De palmito acabou.
– Então precisa avisar que é de frango.
– Você não perguntou.
– Não perguntei porque tá escrito “em-pa-da-de-pal-mi-to”. Se não tivesse nada escrito, eu perguntava! Melhor não escrever nada do que informar errado!

Silêncio enquanto a moça limpa a chapa. Insisto:
– Precisa tirar de lá aquela plaquinha.

Ela continua limpando a chapa. Outra atendente vai lá e tira o cartão.

Na hora de pagar, digo à que me atendeu:

– Desculpe ter pedido a empada errada, viu?
– Tudo bem, responde ela com um sorriso magnânimo.

Até esqueci sobre o balcão a garrafa de água que eu tinha comprado pra levar...

domingo, 8 de fevereiro de 2009

RESGATE



Esta cidade que pertence aos carros,
será possível amá-la ainda, amá-la
como quem ama a um filho que se desviou,
a uma querida irmã extraviada?

Minha cidade mãe desnorteada,
que parece ter perdido o seu sudeste:
que pólo magnético é este,
que a faz tão atraente
para tanta gente?

Minha querida desorientada!

Minha cidade norte e oriente,
que bandeirantes tão intimidados
não te reconquistamos,
não tomamos posse,
não vimos desbravar-te?

Minha cidade enchente;
vêm de toda parte
os que te entopem as veias,
que te invadem
sem te amar
os que te bebem,
te devoram,
que destroem tua arte,
os que te exaurem, jurando
não poder suportar-te
nem mais um dia: precisam
fugir de ti, minha amada.

E vão-se, os bárbaros, a cada
pequena oportunidade.

Escoam-se pelas estradas,
estrangulam-nas,
mas temporariamente partem,
os não-amantes da cidade.

É quando quem te ama,
teus filhos e imigrantes,
pode reencontrar-te
como antes:
tuas lânguidas ruas,
teus bosques suaves,
teus prédios antigos,
tua maravilhosa nova arquitetura.

E assim te sei, Cidade,
ainda a mãe mais pura

apesar de tudo que te invade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Homem bonito


Sempre achei que uma das maiores tragédias que podem acontecer a uma mulher é amar um homem bonito.

Claro que o pobre homem que teve o azar de nascer bonito não tem escolha, tem que conviver com isso, mesmo. Um dia ele se ligará a uma mulher, e vai condená-la, por amor, a uma vida de tragédia.

Certamente há tragédias maiores, grandes e súbitos desastres, perdas terríveis. E, dentre as tragédias cotidianas, há também muitas mais facilmente identificáveis como tal, pequenos cotidianos doloridos. Comparadas a essas, que todos concordam serem desgraças, a tragédia de que falo parecerá talvez insignificante.

Falo da dor de se viver a cada dia o pequeno problema de ter que estar ao lado desse homem. A tragédia de ter que ver a cobiça se acender no olho de cada mulher que olhar para ele.

Mulheres não são naturalmente traiçoeiras e falsas, não: isso é mito; como é mito a amizade incondicionalmente leal entre homens. Do que tenho visto do mundo, as amizades entre mulheres são tão incondicionais e tão cheias de lealdade quanto as masculinas. Mais, até. Mais capazes de abnegação e altruísmo. Mas a coisa a que me refiro aqui é cobiça em estado absolutamente bruto, uma coisa involuntária e indomável, independente das boas intenções, da boa formação ou do bom caráter de uma mulher.

Claro que isso de beleza é questão de gosto. Além disso, quase todo o mundo que conheço descreve um tipo físico ideal e acaba se casando com outro quase oposto (estou falando de casamentos como se ainda fossem eternos, mas é assim que gosto de pensar neles.).

Eu, por exemplo, casei com um homem que acho bonito, mas não é disto que falo. Não falo do simplesmente “achar”: falo do tipo de beleza que não é “questão de gosto”; que é indiscutível, que é consenso absoluto.

Tive sorte, cresci dizendo que queria um homem muito alto e muito magro, de cabelos escuros, olhos verdes e que usasse óculos. Alguém com cara de sábio, mãos longas, voz grave, essas coisas. Encontrei um homem exatamente como descrevi, mas não posso deixar de perceber que ele é o que 'me' interessa, e que deve haver muita mulher que não concorda comigo. E lembro de pelo menos dois casos de moças que me descreveram seus maridos como sendo lindos – não era 'modo de dizer', elas realmente acreditavam que isso era um fato indiscutível – e quando vi os moços em questão (aliás, muito parecidos um com o outro, embora não se conheçam), tinham uma aparência que não me faria olhar duas vezes, a não ser para torcer o nariz. Mas aprendi que é um tipo que agrada a muita gente...

Não é disso que falo: não estou falando de pessoas de beleza 'normal', a quem algumas mulheres achem bonito e outras achem feio.

Falo de um arquétipo.

Falo de beleza arquetípica, a imagem que os príncipes encantados têm nas ilustrações dos contos de fadas e está gravada no inconsciente de cada menina. Existe homem assim? Existe.

E, voltando ao início da conversa, uma das grandes desgraças que se pode enfrentar no cotidiano é ter de viver ao lado de um desses homens. Não é de hoje que digo isso, não. É coisa que sempre achei. Se tiver que dar um conselho a uma filha, será: fuja de homem bonito! Cuidado! Mais ainda se tiver um olhar cristalino, através do qual se vê a alma pura. É príncipe encantado pra ninguém botar defeito. Quanto mais ele for 'bom', mais difícil será a vida da mulher que ele escolher.

Talvez isto não seja assunto para uma crônica. Talvez eu devesse falar sobre mulher bonita, e aí me entenderiam melhor. Vou falar disso então: a coisa de que falo é muito diferente de um homem viver com uma mulher que faça todos se voltarem quando ela passa. Deixando de lado o fato de que ter mulher linda é, entre outras coisas, um atestado de status.

Vejo que existe entre os homens um certo respeito pelo fato de que uma mulher 'tem dono', está acompanhada, é casada, comprometida. Claro que isso não isenta essa mulher de paquera, mas é quase que uma paquera perfunctória, um atestado de masculinidade que o paquerador dá a si mesmo quando olha para ela de alto a baixo, quando lhe diz algo lisonjeiro ou quando troca com outros homens um comentário cúmplice. Uma mulher a quem você é apresentado como "a esposa de fulano", por mais atraente que seja, tem de certa forma um X invisível sobre seu corpo, algo que a identifica como 'artigo proibido'. Pode até ser que a própria condição de coisa proibida venha a torná-la cobiçada, eventualmente, mas não é nada disso o que acontece com mulheres quando deparam com a encarnação do Príncipe Encantado. Desgraçadamente, devido às ilustrações dos contos de fadas, ele tem o mesmo rosto, na imaginação de cada uma.

Mulheres crescem com a convicção de estar destinadas ao Amor. E se o Amor – o Príncipe Encantado – cruza seu caminho, uma mulher vai fazer qualquer coisa para obtê-lo, quer ele tenha outra ao seu lado, quer não. A enorme diferença está no fato de que, para ela, não há nada de errado nisso: está apenas lutando pelo que acredita ser seu, de pleno direito!

Enquanto um homem vai pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa para conquistar a musa que tem dono, uma mulher não hesitará em derrubar tudo, em destruir a própria vida e a dos outros em troca da possibilidade de um Felizes Para Sempre ao lado da encarnação do Príncipe dos contos de fadas. A pobre companheira a quem ele escolher terá de viver para sempre sendo desafiada em seu posto de Amada e tendo de comprovar a cada segundo seu poder de sedução, o que quer que tenha sido a coisa nela que atraiu a esse homem bonito. Quer tenha sido o bom-humor, a sensualidade, a meiguice, a inteligência ou mesmo a beleza dela (que nunca chegará aos pés da beleza dele), e ainda que tenha sido alguma coisa indefinível que o tempo não pode alterar, ela enfrentará a cada dia de sua vida o olhar pasmo de desconhecidas que terão, ao olhar para o homem dela, a Visão de alguém com quem sonharam e que por fim encontram. E a perceberão não como alguém a quem se pretende sacanear, mas como a Usurpadora que está levando aquilo que por direito lhes estava destinado (“O que ele viu nela?!”). Essas mulheres, caros amigos e amigas, lutarão pelo Amor. Com razão, talvez?

Por mais bem intencionado que esse belo homem seja, não há relacionamento que resista a isso. Ao teste diário e repetido, à constante necessidade de reafirmação da escolha. É estresse pra ninguém botar defeito.

E aí? Isto é tragédia ou não?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

25 de dezembro


Morreu em São Paulo, no dia de Natal.
Não precisava ter ido pela Marginal,
mas era a última entrega do dia
e ele queria
estar em casa a tempo para o almoço.
Era tão moço!
Dezenove anos recém-feitos
e o coração daquele jeito,
dos muitos jovens, com muitos planos.

Em casa, a mãe e a namorada
preparavam rabanadas na cozinha,
entre segredos e risadas.

E ele que não vinha?

Na sala o pai lia o jornal,
sob o pinheiro iluminado em pleno dia:
“Esse menino! Eu bem dizia
que ele ia se atrasar... E hoje é dia
de trabalhar?”

Pernambucano esperto,
viera pra São Paulo no momento certo,
década de 70,
quando a cidade explodia em construções.
Ele, pedreiro caprichoso e atento,
toruxe consigo
garra e talento,
cresceu junto com as obras.
Hoje o dinheiro sobra
para fazer a festa dos amigos.

Soa a campainha:
é a vizinha
que vem trazendo a farofa do pernil.
“Que coisa, seu Libório. Onde já se viu?
Ninguém trabalha no dia 25!”
E chacoalhava indignada os brincos.

Aos poucos chegam todos.
Junto da árvore, um grupo canta um hino:
Toca o sino
pequenino...


– Onde estará, meu Deus, esse menino?

O menino dormia docemente
sobre o asfalto quente,
rosto coberto por uma camiseta
que um cara de lambreta
tirou do corpo, fazendo o sinal da cruz antes de ir.

Na camiseta estava escrito
(achei tão bonito):
“Natal! Paz na cidade
aos motoqueiros de boa vontade”.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Vampiros na Bienal do Livro



Na Bienal, a jovem escritora passa pelo nosso stand entregando convites para a sessão de autógrafos de seu livro de contos, que se realizará dentro de meia hora. Entrega um a cada pessoa presente e deixa um montinho em cima da escrivaninha a que estou sentada.

Uma senhora se aproxima de mim, com o convite na mão.

– “Um Vampiro Atrás da Porta” – lê, com cara de desgosto. – Por que você acha que ela deu esse nome para o livro?

– Não sei ...

Ela insiste:

– Você acha que ela deu esse nome só pra aparecer?

Parece realmente indignada. Contemporizo:

– Não... Deve ser o título de um dos contos.

– Um conto sobre vampiros?

– Metaforicamente, talvez...

– É uma brincadeira dela? Ela está só brincando? Você acha que é um livro infantil?

– Acho que não. Ela escreve para adultos. Já li contos dela, são muito bons.

– Porque, você sabe, crianças adoram essas coisas de vampiros, desde que fizeram aquela novela...

– É verdade.

(Não estou com ânimo para discutir.)

Ela prosseguiu:

– Você não acha um absurdo fazerem novela com vampiros? Não se brinca com isso!

– É só ficção...

– Mas vampiros existem, sabia?

Fiz uma cara interessada.

– Existem –, ela asseverou. – Existem vampiros vivos e vampiros mortos.

– É mesmo? Pensei que vampiro não morria.

– Algumas pessoas mortas voltam à Terra como vampiros... daí não morrem mais.

– Ah!

A gente aprende tanto, em uma tarde na Bienal...

– Tem um paciente no hospital em que eu trabalho que é vampiro –, ela contou. – Acho que ele nem sabe disso.

– Como pode não saber?

– Às vezes eles não sabem. Quando são sugados ainda muito pequenos, eles esquecem. Passam a sugar os outros e nem percebem.

– Mas... mordem o pescoço?

– Não! – ela se aborreceu com minha ignorância. – Não precisa morder. Eles sugam a energia da gente.

– É verdade, tem gente que se aproveita dos outros...

– Não é disso que estou falando! Estou falando de dreno de energia. Sabe o que é isso?

– ... Não...

– Não tem gente que te suga? Que te deixa exaurida?

– Hum...

Fiz uma cara de dúvida. E ela:

– Mas agora eu aprendi a me proteger. Eu via que todos os que lidavam com aquele paciente estavam ficando doentes... Médicos, enfermeiras... Todos! Aí resolvi me proteger. Agora só lido com ele com a mão esquerda.

– E funciona?

– Claro! Ele só pode sugar a energia da gente pela mão direita. Se eu não encostar a mão direita nele, estou protegida.

– Ah!

– Tem uma senhora no meu prédio que também é vampira. Ela era viciada em psicotrópicos e dormia o dia inteiro. Mas quando estava dormindo saía do corpo e ia nos apartamentos dos vizinhos.

– Ia?!

– Um dia percebi que ela estava no meu apartamento. Eu estava vendo TV, distraída, e de repente senti a presença dela.

– Como você percebeu?

– Ora! Como que um cego percebe quando tem alguém na sala com ele? Foi assim, do mesmo jeito. Eu sou sensitiva. Mas na hora em que eu senti a presença dela, peguei o desodorante e fiz assim: tsschhhhh! Bem em cima dela!

Encenou o gesto, empunhando um desodorante imaginário e dando uma sprayzada com o indicador. Arregalei os olhos:

– Puxa!

– E sabe o que ela fez, na hora que eu taquei o desodorante nela?

– O que que ela fez??

– Ela mora bem em frente do meu apartamento, a janela do quarto dela dá pra minha sala. Ela abriu a janela do quarto e deu um grito assim: AAAAAAAA!

Gritou bem alto. Arregalei mais os olhos. Algumas pessoas que passavam diante do stand nos olharam, curiosas.

– Depois, quando encontrei ela no corredor do prédio, sabe o que aconteceu?

Eu ia arriscar o palpite de que a tal senhora estaria com cheiro de desodorante. Ainda bem que eu não disse essa bobagem. Ela explicou:

– Quando ela passou por mim no corredor do prédio, ela gritou de novo: AAAAAAAA! Ela lembrou que fui eu quem jogou o desodorante nela...

– Que coisa...

– Pois é. Desde aquele dia ela mudou completamente. Agora ela acorda cedo e vai à igreja todo dia. A igreja lá dela... porque é católica fanática.

Eu diria “fervorosa” em vez de fanática, mas é questão de vocabulário. Concluí:

– Ainda bem que você tinha um desodorante à mão...

– Pois é...

Com esta conclusão filosófica ela se foi, que a Bienal era grande e havia muitos stands a visitar. Mas não deve ter ido à sessão de autógrafos de Um Vampiro atrás de Porta.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Quase uma mulher

Ela chegou com os cabelos presos e o olhar solto, e eu soube que era uma menina que poderia vir a ser mulher e amar sê-lo, e isso é tão raro e tão difícil, são tantas as meninas que nunca chegam a ser mulheres, tantas as que são e queriam ser meninas para sempre; são tantos os homens que querem mulheres para sempre meninas.


Para exercer essa delicada missão de enmulherecer com o tempo, e cada vez mais, há que ter o algo que nela se via e com que ela via o mundo: e há que ter também o riso em que a nota musical oculta não seja nenhuma das oitenta e oito do piano, mas algum som sempre intermediário, único, pessoal. E que esse som ao atingir o ouvido toque alguma corda não prevista no projeto do ser humano básico (aquele que sai de fábrica semipronto, só falta inflar).


Por assim preparar-se para a vida, ela seria das que muito amam, das que procriam, das que criam caminhos mesmo sem saber aonde chegar – e não é isso o que importa; não o final, mas a indagação; não a resposta, mas a vertigem da curiosidade que assim que satisfeita se estilhaça e de cada estilhaço atira novos dêndrios, novas ramificações, e na ponta de algumas delas – olha! – tem uma folhinha apontando, só o começo, verde-claro e brilhante, e talvez haja flores e frutos, mas esse nunca foi o objetivo. O objetivo era só procurar; encontrar terá sido mera conseqüência.


E por isso quando ela se sentou diante de nós sorrimos de volta, todos sorrimos, e era muito prazer, menina, muito prazer em conhecer você, porque algum dia diremos muito prazer, mulher, sabendo que você é das que nunca são conhecidas completamente por ninguém, porque você também nunca se conhecerá por completo, nunca estará completamente pronta, terminada, e é aí que reside a magia.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um telefonema na madru




Madrugada e toca o telefone. Checo o horário no canto inferior direito da tela. 2:35. Diante do micro, sorrio filosoficamente com meus zíperes, antecipando a razão do chamado.

Naturalmente, quem liga a essa hora não espera ser atendido por alguém que esteja alerta e que já estivesse acordado antes do toque. Espera um alô alarmado, antecipante de desgraças inomináveis, todos os receios por seres queridos vindo à tona.

Antes de apertar o botãozinho verde no fone, resvalo os olhos pelo identificador de chamadas. Como eu previa. De uma outra vez, foi 22. Hoje, O DDD do celular de quem liga é 21. Isso não quer dizer nada, claro. O chamado poderia vir de São Paulo e ter a mesma motivação. O fato de que este veio do Rio apenas reforça meu palpite. Que se confirma assim que atendo, com a entonação mais deliberadamente doce, tranqüila e sorridente que consigo conferir à voz. A resposta ao meu alegre “alô...” vem num grito:

– Mããe!!
– Oi, filhinha... – respondo ainda mais docemente, tranqüilamente, sorridentemente, alongando as tônicas. Uma mulher alegre e surpresa.
– Mãe, eu fui estuprada!
– É mesmo, filhinha? (tom de curiosidade interessada e bevenolente)
– Mãe, eu fui assaltada! – a menina explica com indignação, ainda aos gritos. Decerto pensou “essa tonta não sabe o que significa estuprada”.
– Que coisa, né, filhinha...
– Mãe, me ajuda! (aos soluços)
– Tá bom, fia. Eu vou te ajudar. Mas antes me diz uma coisa...
– ...
– Como é que você chegou no Rio tão rápido?

Ouço murmúrios e cochichos. Uma voz de homem vem ao telefone:

– Dá pra ver aí de onde tá ligando, é?
– Dá.... (respondo como quem previne, não como quem concorda)
– Mas é residência, aí?
– É... (mesmo tom)
– Então como que dá pra ver?
– Dá. (Desta vez, em tom de quem diz “ué, você não sabe?”. Eu poderia acrescentar “em que mundo você vive?” ou algum epíteto: “Dá, seu panaca”. Mas pra quê?)
– Ah, tudo bem. Vou ligar pra outro número. Toda noite eu pego alguém, mesmo...

Pega, é? Fico pensando... quem é que ainda cai nessa?

Isso foi há um mês.

Ontem, de novo. Só que a ligação foi à tarde, a cobrar e a voz aterrorizada desta vez era a de um rapaz.

– Mãe, me pegaram!
– Já era tempo, né, filho...! Pegaram todos os seus amigos, eu tava começando a ficar preocupada com você! (voz risonha)
Gargalhada bem humorada do outro lado.
– Valeu...
E clic. Certamente também partiu pra outra... e também, certamente, cáspite, toda tarde pega alguém...

Avisar à polícia? Rá! Já tentei. E isso ainda no século passado, quando ninguém ouvira falar nesse tipo de golpe. Não se interessaram por saber o número do ligador, embora a conversa tenha sido bem mais convincente – não que tenha me convencido –, embora não fosse um celular e embora fosse de São Paulo mesmo.

sábado, 8 de março de 2008

Fofoca? (dia internacional da mulher)


Eu era a única mulher no grupo em volta da mesa do bar, naquela noite. O que se faz em torno de uma mesa de bar? Fofoca-se. Fofocávamos, pois. Falava-se do caso extra-conjugal de um amigo comum. A moça é solteira, linda, fina, inteligente. Ele quer que ela se case – com outro, pois não pretende se divorciar. Ela provavelmente se casará, porque quer ter filhos. Elogios gerais à menina.

– Ela é um cristal –, explico ao único que não a conhece e que nos ouve boquiaberto.

Terminada a conversa, quem a arremata é ele. Diz que nunca imaginou que o outro, tão sério, tão calado, fosse capaz de conquistar uma pérola como essa que descrevêramos.
– Meu respeito por ele foi aqui, ó:
E ali sentado ergue o braço na vertical, dobrando os dedos no alto pra indicar o nível que o outro atingiu no seu respeitômetro.

Era o tal do Dia Internacional da Mulher.
Então fica combinado: poderemos dizer que há igualdade entre os sexos no dia em que uma mulher for mais respeitada se tiver um caso extraconjugal, desde que o cara seja maravilhoso.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

UMA ESTÓRIA DE CARNAVAL

É, eu sei. Ele foi pescar com os amigos, no Carnaval do ano passado.

Ela tinha sonhado com uma mini-lua-de-mel à beira-mar, em alguma pousada do lado inacessível da Ilha, aonde só se pode chegar de jipe ou de barco. Iriam no jipe dele, rindo das dificuldades da trilha entre cachoeiras e coqueiros, lambuzados de repelente para não serem devorados pelos borrachudos, rolariam na areia à noite e assariam peixe na brasa tomando água de coco.

Seria o primeiro Carnaval que os dois passariam juntos, depois de quase um ano de namoro. Mas ele foi pescar com os amigos. Disse que todo ano fazia isso e não ia mudar.

Por isso é que ela, no ano passado, aceitou o convite da amiga que não viajara porque tinha rolado um frila para entregar na quinta, mas estava solteira e muito a fim de aproveitar as noites de farra para conquistar um amor definitivo.

Ela aceitou o convite achando que ia ser uma tremenda roubada, imaginou as duas dançando sozinhas a noite inteira com uma cerveja na mão – sempre achou um horror isso de mulher dançando sozinha, em toda festa tem um monte de mulher dançando sozinha. Vestiu o conjunto bege que o namorado dizia que parecia fantasia de Carnaval, imagina, tão discreto, bege... mas tinha um decote fundo contornado por duas linhas em dourado. Pôs na testa o colar egípcio de moedinhas, achou-se linda no espelho.

A amiga tinha decidido que chegariam cedo, detesta homem suado e entrar em baile de Carnaval, só no começo, quando eles estão ainda bem sequinhos.

Quis o destino que, assim que adentraram o salão de baile do clube de futebol, fossem cercadas por quatro rapazes animados e bonitos que as puxaram para dançar. Um de colar de havaiana, um que dançava equilibrando na testa a latinha de cerveja, um de boné que se chamava Fred e ficou com a amiga dela, e Marcelo, o dos olhos verdes, que se apossou dela como co-folião.

Mais tarde as namoradas dos outros dois rapazes chegaram e os oito se mantiveram juntos a festa toda, e pela madrugada ela e a amiga já estava íntimas das outras duas garotas.

Na noite seguinte todos assistiram ao desfile das escolas de samba no camarote de uma
empresa de telefonia, com credenciais conseguidas pela amiga jornalista; no domingo voltaram ao clube; na segunda-feira foram a um baile de cabeças fantasiadas na casa de uma socialite amiga do Fred.

A essa altura ela e Marcelo já tinham passado por todos os estágios emocionais de um amor: o flerte e a conquista no primeiro dia, troca de olhares, abraços, um beijo quase roubado, quase dado, o encantamento um com o outro durante as dez horas que passaram juntos, provocação e atiçamento, negaceio e posse. No sábado tinham formado um par, inegavelmente um par, ele já sabia que ela tinha namorado e disse que não se importava, vamos ficar juntos nestes cinco dias, e sejoquedeuzquizer.

No domingo tinham se transformado num casal, ele ciumento perguntava pra onde ela estava olhando, puxava-a possessivo quase com fúria, cantava num arremedo de alegria desafiando os outros machos com a mão esquerda socando o ar enquanto insinuava a mão direita por baixo da blusa dela e ela se desvencilhava zangada, escuta, sem essa, tá? Eu tenho namorado! Se você não consegue ficar comigo sem ser inconveniente, não quero.

Então aquela festa da segunda-feira na casa da grã-fina não podia mesmo rolar muito legal, estava um clima meio assim, entende? Marcelo sorumbático pelos cantos da casa enquanto os outros sete tentavam dançar como se nada houvesse. Uma hora os três amigos dele a arrastaram pelo chão, dois puxando pelos tornozelos e outro por uma das mãos – a calça branca ficou escura no bumbum – e a levaram até Marcelo:

– Conversem! Resolvam essa história!

Os dois ficaram se olhando, os amigos foram embora e ela ainda sentada no chão disse, olhando para o alto:

– Olha, Marcelo, não faz gênero, tá? Eu não resisto a homem triste e sei que você não é assim. Está só fazendo tipo.

E esta era a situação na terça-feira do Carnaval do ano passado, quando estavam de novo no SPFC, tentando recuperar o clima feliz do primeiro dia e no último intervalo da banda ela foi ao banheiro. No caminho, sentiu o puxão no braço:

– Ana Rute?! O que você está fazendo aqui??

Ela se voltou e viu o namorado, bronzeado, ombros descascando de excesso de sol. Uma incredulidade insuportavelmente alegre fez com que ela perguntasse o óbvio:

– Lucas, você tá aqui?

E depois:

– Quando voltou?

– De longe te vi, pensei “reconheço esse cabelo em qualquer lugar do mundo”.

Aí ele repetiu:

– O que você está fazendo aqui? Voltei hoje, te liguei, deixei recado no seu celular.

– Deixa eu retocar a maquiagem, quando eu voltar a gente conversa.

Ela entrou no banheiro e viu uma ex-colega de colégio, que gritou:

– Ana Rute Lemos, você está linda!

Olhou-se no espelho e achou que estava mesmo, o rosto afogueado pela dança ou pelo encontro, um pouco descabelada, os olhos brilhando, a cintura acentuada pelo tecido da canga verde, curtinha, presa com um broche para o lado, as pernas morenas brilhando sobre as sandálias.

Quando saiu do banheiro, o namorado tinha sumido. Ficou esperando que ele voltasse, não o viu mais. Marcelo veio buscá-la para dançar, ela recusou:

– Meu namorado voltou.

Mas não o viu na multidão que passava, casais e mais casais abraçados no é hoje-só-só-só-vai-acabar-já-já. A amiga jornalista reportou que ele estava dançando agarrado a uma nariguda de cabelos cacheados e mini-blusa azul, com uma barriga sensacional, e que ela desencanasse e fosse com o Marcelo. Mas ela ficou ali, teimosa, na esperança de ver Lucas de novo. Não viu nenhum dos dois, nem ele nem a nariguda.

À saída do baile ainda achava que Lucas ia aparecer para levá-la para casa e foi a custo que a amiga convenceu-a a ir embora.

No celular, de fato, havia um torpedo: “Oi amor voltei me liga.”

Passaram o ano inteiro brigando, porque ela não perdoa ter sido abandonada no clube, esperando que ele a puxasse para dançar e depois esperando ser levada para casa, e ele admite que foi com a nariguda para um motel, “era Carnaval, pô!”, mas garante que nunca mais viu a criatura, “que aliás não chega aos seus pés!”. E outra coisa: se ela tivesse atendido ao telefone quando ele ligou, ele nem teria conhecido aquela menina. A culpa, portanto, foi dela. Ou pelo menos é o que ele acha.

Por outro lado, Marcelo não desapareceu do cenário, telefona, manda flores, mas ela diz a Lucas que “foi fiel o tempo todo”, enquanto ele alega que a outra “foi só" uma transa de Carnaval, além de discordar de que ela tenha sido fiel.

Pior: aquela grande amiga está até hoje com o Fred e vão se casar no fim do ano, e o Marcelo vai ser padrinho, o que complica ainda mais as coisas, porque adivinha quem vai ser madrinha?

Neste Carnaval ela e Lucas foram para a Ilha, para a praia dos sonhos dela, ele pela primeira vez em quinze anos deixando de ir pescar com o grupo dos amigos de infância.

Desconfio que passaram os quatro dias discutindo o Carnaval passado.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Uma tradução de Les Djinns de Victor Hugo


No prefácio de Les Orientales, de 1829, considerado por críticos da época mais importante do que o livro, Victor Hugo defendia a ‘poesia inútil’: a arte pela arte. O direito do poeta de escrever sem motivo, levado apenas pela fantasia.


A crítica habituada a um Hugo engajado considerou o livro mero exercício de versificação. Hugo diz no prefácio: “Se a alguém ocorrer perguntar ao poeta ‘Para que servem estes Orientais? O que lhe deu a idéia de ir passear pelo Oriente por um volume inteiro? O que significa este livro inútil de pura poesia, jogado em meio às graves preocupações do público? Oriente rima com quê?’ Ele responderá que não sabe, que foi uma idéia que se apoderou dele, e apoderou-se de forma ridícula, ao ver um pôr-do-sol.”


Les Orientales desenha um mundo árabe violento, terrível (e, ao mesmo tempo, em alguns poemas, feliz). Palavras como sang, bataille, terreur saltam do livro povoado por pachás, sultanas e derviches, em cenários como o Egito, a Turquia e sua capital, Istambul. A figura mítica dos djinns, de que o poeta fala de passagem no poema Clair de Lune, é o tema deste:


XXVIII - Os djinns
Paredes,
Cidade
E portos,
Hospício
De mortos,
Mar cinza:
A brisa
Lá dorme.

Na planície,
um ruído.
É a treva
que respira.
Ela clama
como alma
que uma flama
sempre segue.

A voz mais alta
Soa qual guizo
De anão que salta,
Corre a galope
Foge, se exalta
Depois, no ritmo,
Sobre uma onda
Se equilibra.

O ruído próximo.
O eco o reprisa.
É como o relógio
De um templo maldito
Ruído da turba
Que estrondeia e gira
E às vezes se anula
E às vezes se amplia.

Deus! A voz sepulcral
desses Djinns!... Que alarido!
Fujamos na espiral
Das escadas sombrias.
Já se apagam as luzes:
Eis que as sombras das sebes
Que circundam o muro
Sobem até o teto.

É o enxame dos Djinns que passa,
Turbilhona e assobia!
Árvores, façam que caiam,
Crepitem, pinus, em chamas.
Pesado e rápido bando
Voam no espaço vazio,
Lembrando uma nuvem lívida
Que leva ao lombo um relâmpago.

Perto demais! Melhor fechar
A sala, fingir que não vimos.
Que ruído, fora! Medonha
Horda de dragões e vampiros!
A viga do teto está solta,
Pinga como planta encharcada
E a velha porta enferrujada
Trepida a soltar-se dos gonzos.

Gritos do inferno! Voz que urra e que chora!
Horrível enxame, ao vento do norte
-- Sem dúvida, céus! -- cai em meu telhado,
Cede a parede sob a negra hoste
A casa grita e, inclinada, oscila,
Dir-se-ia que, do solo arrancada,
O vento a gira com seu turbilhão,
Como se erguesse uma folha do chão.

Profeta! se tua mão me salva
dos impuros demos das trevas,
prosternarei a testa calva
em teus sagrados incensários!
Faz com que estas portas fiéis
Matem seu sopro de centelhas,
E que em vão as unhas das asas
risquem estes negros vitrais!

Já passaram! Sua tropa
Se vai, e foge, e seus pés
Param de chutar a porta
Com multiplicados golpes.
O ar se enche do som
De correntes. Nas florestas
Os grandes carvalhos tremem,
Dobrados sob seu vôo.

De suas longes asas
Decresce o batimento,
Se perde nas planícies
Tão fraco que se crê
Ouvir um gafanhoto
Gritar com fraca voz,
Ou um som de granizo
Sobre o zinco do teto.


Sílabas estranhas
Chegam-nos ainda:
Assim como quando
Ao som do clarim
Os árabes cantam
Um canto tristonho,
A criança sonha
Um sonho sem fim.

Os Djinns funéreos,
Filhos do mal,
Dentro das trevas
Andam mais rápido
O enxame ronca
Assim, intenso,
Múrmura onda
Que não se vê.

O som vago
Que já dorme
É a vaga
Junto à orla
É o choro
Quase findo
De uma santa
Por quem morre.

Na dúvida
A noite
Escuto:
Já foi-se,
Já passa.
O espaço
Embaça
O som.

A métrica é pouco usual, talvez única: quinze oitavas, das quais a primeira tem versos de duas sílabas, a segunda de três – e a quantidade de versos cresce de estrofe em estrofe, até a oitava delas, quando começa a decrescer até voltar aos versos de duas sílabas. Ou seja: as estrofes têm versos de 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2 sílabas. Por que Hugo teria rejeitado as estrofes de nove sílabas?

Analisando a tradução
Não tem sentido traduzir Les djinns sem respeitar a métrica, já que ela, de certa forma, “é” o poema. Mas respeitá-la e manter, ao mesmo tempo, tanto o esquema de rimas como o conteúdo integral é impossível.


Quem traduz poesia tem de escolher entre privilegiar o significado ou a forma. Nesta tradução de Les djinns, procurei manter a métrica – que é a característica mais marcante do poema – e o significado dos versos. Mas não obedeci ao esquema de rimas ababcccb que Victor Hugo adotou.
Não conheço outra tradução para o português.


Trago aqui a primeira estrofe de uma versão para o inglês de John L. O'Sullivan, contemporâneo de Victor Hugo, que manteve o esquema de rimas em detrimento do significado:



Town, tower/ Shore, deep,/ Where lower/ Cliff's steep;/ Waves gray,/ Where play/ Winds gay,/All sleep[1]. Vê-se que O'Sullivan introduziu torres e rochedos inexistentes no original, adjetivou os ventos como alegres, destoando do tom sombrio do poema, e abandonou os “mortos”, que não aparecem na sua versão nem em hospícios, nem em asilos. Em compensação, foi fiel ao esquema de rimas.

O original (Murs, ville,/ Et port,/ Asile/ De mort,/ Mer grise/ Où brise/ La brise,/ Tout dort) seria, ao pé da letra: Muros, cidade/ e porto,/ hospício[2]/ de morto/ mar cinza,/ onde se quebra/ a brisa,/ tudo dorme[3].


Para a tradução deste poema, não encontrei solução que permitisse deixar “murs, ville” – muros, cidade – no mesmo verso, mantendo as duas sílabas do verso original. Em português, mesmo a evidente e compacta “muros, vila” já teria três sílabas. A saída foi optar por palavras com duas sílabas poéticas, deixando-as em versos diferentes: “paredes/ cidade”. Lembrando que mur, em francês, designa tanto muro quanto parede. Com essa opção, gastam-se dois versos para dizer o que Hugo disse em um, e em conseqüência algo se perde nos versos seguintes. No caso, o que deixei de lado foi a “quebra” da brisa.


Problemas semelhantes surgem, evidentemente, em cada estrofe de qualquer poema que se pretenda traduzir, e a cada dificuldade é preciso optar por manter ou perder significado, ritmo, sonoridade, métrica ou rima.


Gênios, demônios e djinns
Na mitologia da Grécia antiga, acreditava-se que a cada pessoa era designado um daimon para lhe servir de guardião por toda a vida. A palavra latina para esse mesmo ser mitológico – um semi-deus que presidiria ao nascimento de cada pessoa e a acompanharia em todas as ocasiões – era genius, o espírito tutelar que, acreditava-se, determinava a personalidade e o caráter de seu protegido. Genius deriva do verbo gignere[4], que significa conceber, originar, criar, dar vida, dar à luz.


Mas o latim emprestou do grego a palavra daimon, grafando-a daemon (dæmon), inicialmente com o significado de ‘espírito’ e, mais tarde de ‘mau espírito’.



Por outro lado, no início do século XV o idioma inglês tomou do latim o termo genius, dando-lhe o significado de ‘espírito protetor’. Quase 200 anos depois, em 1595, sir Philip Sidney, poeta inglês, usou a palavra para referir-se à vocação de uma pessoa: “A Poet, no industrie can make, if his owne genius bee not carried vnto it”. Numa tradução muito livre, “nada pode fazer de alguém um Poeta, a não ser seu próprio gênio”.


No século seguinte, a palavra estendeu-se dos poetas a outros artistas de diversas áreas.


Na Inglaterra do século XVIII, os Românticos passaram a usá-la com o significado de uma capacidade intelectual inata, voltada especialmente para atividades criativas. Nesse mesmo século, Antoine Galland traduziu para o francês o clássico da literatura oriental As Mil e Uma Noites (foi a primeira versão feita para o ocidente) em que aparece o termo árabe djinn com o significado de espírito ou demônio. Galland, que usa o plural djinniy, traduziu djinn para o francês, criando o então neologismo génie. Os ingleses adotaram essa grafia – sem acento, é claro – para designar uma figura mítica como o gênio da lâmpada de Aladim: genie (pronuncia-se em inglês justamente djiniy) A série de TV Jeannie é um Gênio brinca com esse vocábulo, num trocadilho com o nome próprio feminino que tem a mesma pronúncia.


Os árabes, no período pré-islâmico, davam grande valor aos poetas. Acreditavam que cada poeta é possuído por um djinn que lhe dita os versos, independente de sua vontade. Os poeta tinham nas tribos uma estatura social importante, e eram recompensados pelos poemas que ofereciam. Entre outros privilégios, não eram obrigados a pagar o dote de sua noiva, prerrogativa que não era concedida nem mesmo aos príncipes.


(Maomé, que resistiu o quanto pôde à voz que lhe sussurrava a ‘revelação’ do livro sagrado, talvez tenha sido um poeta que se acreditou profeta. Durante vinte anos ‘recebeu’ os versículos do que hoje compõe o Corão, acreditando que lhe eram sussurrados pelo anjo Gabriel, quando na verdade tratava-se provavelmente de um djinn em ação.)


Victor Hugo, que escreveu seus versos ‘dormindo’ – eles lhe vinham em sonhos, como acontece a tantos poetas – provavelmente sentia-se assombrado por djinns. A descrição que fez deles nesse poema, seres terríveis, mostra como é pouco confortável para o poeta o transe que produz o poema.


Bibliografia:
LURKER, Manfred. Diconário dos deuses e demônios. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da Mitologia Grega. São Paulo: Cultrix, 1995.
GRANT, Richard B. Sequence and theme in Victor Hugo's Les Orientales. PMLA, Vol. 94, No. 5 (Oct., 1979), pp. 894-908
KACIRK, Jeffrey. Forgotten english. Nova Iorque: Quill,1997.
WEBSTER’S Word histories. Springfield: Merriam Webster Inc., 1989.

Sites:
http://www.mundoislamico.com/mohammad.htm
Prefácio de Les Orientales: http://static.scribd.com/docs/8992gzt8s54ll.swf
Les Orientales - poema original isponível na íntegra em:
http://www.chez.com/lyres/Hugo/orientales/Hugo0rient1.htm
ou em
http://fr.wikisource.org/wiki/Les_Orientales
Íntegra da tradução de John L. O'Sullivan para o inglês:
http://www.johannes-eva.net/index.php?page=hugo_en

[1] Tradução: Cidade, torre,/ praia, profundeza,/ onde os mais baixos/ rochedos tornam-se íngremes,/ ondas cinzentas,/ onde brincam/ ventos alegres/ todos dormem.
[2] Asile, no século XIX, referia-se apenas a hospício (asile d'aliénés, asile de fous).
[3] “ Tout dort” significa “tudo dorme”. “All sleep”, como está na tradução de O’Sullivan, é “todos dormem”. as “todos dormem”, em francês, seria “tous dorment”. Em inglês, para manter esse significado original, seria preciso dizer “everything sleeps” – o que arruinaria a métrica. Em português, qualquer das duas formas (tudo ou todos) quebraria as duas sílabas do verso. Optei por “Lá dorme”, para resgatar o “Où” (onde) do original.
[4] gigno, gignere, genui, genitus

sábado, 8 de dezembro de 2007

O Homem de Boa Vontade




– Está bem –, disse o Diabo. – Você venceu. Eu dou o que você quer.

– Venci o quê? E por que você acha que sabe o que eu quero?

O Demo parou de lixar as unhas e sentou-se sobre a tampa da privada. Olhou fundo nos olhos do homem.

– Eu sei –, garantiu.

Justo desviou o olhar. Suspirou e enxugou as mãos sem pressa, com gestos precisos e lentos. Lentos demais, como é do feitio dos justos.

– E o preço, claro, é a minha alma?

– Justamente –, o Demônio concordou, enquanto examinava as unhas com atenção. E viu que estavam bem aparadas e lisas, e viu que aquilo era bom.

Cruzou as pernas, apoiando o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo. Começou a lixar o casco e logo parou:

– Não tem uma lixa mais grossa?

Justo suspirou e tirou da gaveta um pedaço de pedra-pome que entregou ao Belzebu, desprendidamente. Teria que comprar uma pedra nova para sua mulher, não queria que ficasse dividindo com Satanás objetos de higiene pessoal.

Preparou-se para ouvir a proposta.

Mas sabia com serena certeza que nada neste mundo faria com que se rendesse ao Coisa-Ruim. Nada almejava: nem fama, nem riqueza. Saúde tinha de sobra. Se a perdesse, paciência. Um dia a saúde se vai, mesmo, para todos os seres vivos, está escrito, maktub.

Nem a posse do corpo da mulher amada, nem dominar todo o conhecimento da humanidade, nada seria tentação suficiente para ceder um milímetro em suas convicções.

Nem a imortalidade, que sabia que não lhe seria oferecida: afinal, como o Diabo poderia reclamar o que lhe é devido, se os vendedores de alma parassem de morrer? Mas não, nem isso ele aceitaria: não trocaria a Vida Eterna pela imortalidade.

O Tinhoso jogou no lixo a lixa, que caiu ao lado da lixeirinha de junco, sobre o piso de ladrilhos em cujo desenho se encaixou com perfeição, como um detalhe que o designer se esquecera de acrescentar naquela antes quase perfeita geometria e agora, por fim, completa.

– Fala! Diz logo o que você acha que eu quero! –, exasperou-se o homem, nu, porque no momento em que o Senhor das Trevas se materializara em seu banheiro tinha acabado de abrir a porta do box para um chuveiro rápido.

Pensou que se as torneiras ficassem na parede lateral seria bem mais sensato... Não precisaria molhar as mãos ao abri-las, antes de a água se aquecer. Seria muito melhor, ainda que os canos tivessem que percorrer um caminho mais longo e provavelmente tortuoso.

O Capeta examinava com ternura a pedra-pome:

– Isto veio lá de casa...

– Sim, sim, é pedra vulcânica, é lava. Eu sei. Pode levar de volta, é sua!

E como o Coisa-Ruim não se decidisse a falar, concentrado que estava em alisar o casco, Justo pressionou-o, abrindo os braços:

– E...?

– Não adianta. Preciso de uma lima.

Satã guardou num bolso interno da capa escarlate a pedra que lhe pertencia.

– Não tenho lima! –, exasperou-se o homem de boa vontade.

Começava a compreender o poder da criatura infernal. Estivera a ponto de perder a paciência. Controlou-se:

– Já aviso que não quero nada.

– Ah, quer! Quer, sim! E quer muito!

Pelo vitrô, vinha o som de musiquinhas natalinas, da casa do vizinho.

– Tá. E como você sabe o que eu quero?

– Você disse ontem, no bar. Eu ouvi.

O homem se viu sem palavras, ali, no meio do banheiro iluminado pela luz avermelhada da tarde de verão, nu enquanto o sol se punha. Não se lembrava de ter dito nada a ninguém sobre desejos ocultos, vontades, apetites, anelos, aspirações inalcançáveis. Era um homem discreto, pouco expansivo, no bar apenas sorria sobre o copo, enquanto os amigos falavam, riam, xingavam-se alegremente.

– Diga logo, então, que inferno! O que eu quero, afinal?

– O que todo homem de boa vontade quer –, replicou o Diabo, faceiro, orgulhoso por ter levado aquele homem a praguejar. E diante das sobrancelhas intrigadas do interlocutor, acrescentou, quase levianamente:

– A paz na Terra.

O homem bom ficou mudo diante da oferta. Depois de instantes, balbuciou:

– Você pode conseguir a paz na Terra?

– Claro. Se não pudesse outorgar o que ofereço, eu não estaria aqui. De que me adianta fazer uma oferta que não posso cumprir? Se eu não entrego o produto, e tudo direitinho, de acordo com as especificações registradas nas linhas tortas deste documento (exibiu um pergaminho enrolado que retirou de outro bolso da capa cor de púrpura), você não me deve nada... E não me paga, certo? O que aqui está escrito, maktub, será o nosso trato, justo e contratado.



Pela janelinha do banheiro, Justo viu o sol rubro de dezembro reproduzir com perfeição a íris dos olhos do Anjo do Mal, que lhe lembrou:

– Você disse que daria tudo, que daria qualquer coisa que estivesse ao seu alcance para conseguir a paz entre os homens.



Diante do silêncio de Justo, o Demo elaborou:

– Todos dizem isso, mas é da boca pra fora. No seu caso, eu sabia que estava ouvindo um homem de palavra. Pensa que não me informo? Lúcifer sabe o que faz.

O homem de palavra continuou sem palavras. Mas que presunção, a daquela criatura!, pensou.

– Não dou ponto sem nó –, concluiu o Canhoto.

A oferta era insuportavelmente tentadora. Justo sabia disso. O Diabo sabia também.

Era uma pechincha, era muito barato. Só uma alma, uma apenas, em troca da Paz no mundo? Uma só alma: justamente a dele!

Justo aceitou. Rendeu-se sem arrependimento.


– Todo homem tem seu preço –, filosofou Satanás, enquanto saía, contrato enrolado na mão direita, assinado com sangue bom; mão esquerda coçando um chifre, na perplexidade que sempre o acomete depois de concluir um negócio.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O chiclete, a formiga e o motoqueiro




Um chiclete largado na calçada, coberto de formigas.
A segunda coisa em que pensei, enquanto ia para o carro, foi: “Como será que a formiga lida com o chiclete, quando chega ao formigueiro? Será que essa maçaroca não gruda no ferrãozinho dela? E aí vem outra ajudar – e também fica presa? E puxa uma daqui, outra dali, tentando se soltar, e vem mais outra formiga para ajudar, e em pouco tempo uma teia pegajosa de fios cor-de-rosa prende dezenas de valentes soldados do formigueiro?”

Mas, se isso não acontecer, se conseguirem estocar a guloseima na despensa do formigueiro... como será depois, no inverno, quando forem comer o chiclete armazenado? Ficarão grudadas 'por dentro'?

Pois é; tive tempo para pensar em diversas possibilidades, porque sempre estaciono meio longe, a uns dois quarteirões de distância de onde pretendo ir. Em parte porque faço questão de estacionar na sombra, e por isso rodo até encontrar uma árvore bem copada. Mas também porque é um modo prático de driblar o sedentarismo a que o microcomputador nos obriga. E ainda porque não gosto de 'contratar os serviços' dos flanelinhas e gosto menos ainda de deixar meu brinquedo em estacionamento.

No meio do caminho, com meus pensamentos formigais, empaquei. Pensei: será que não estão grudadas no chiclete? A curiosidade me fez voltar até onde estava a bolota cor-de-rosa. Arranquei um galhinho de um arbusto e aproximei-o devagar do ajuntamento de formigas. Todas fugiram, assustadas, ainda antes que as folhas as tocassem. Todas menos uma. Essa tinha, sim, ficado presa. E eis que uma das formigas fugitivas volta até a prisioneira.

Não fez nada, limitou-se a ficar girando em torno da pequena vítima, enquanto levava as ‘mãozinhas’ à cabeça, repetidamente. A imagem do desespero.

Poucas horas depois, assisti a um acidente na rua Augusta.

O ônibus que ia à minha frente parou para dar passagem a um Vectra, que saía de ré do estacionamento de uma loja. Um motoqueiro, que ia à esquerda do ônibus, ultrapassou-o e foi colhido pelo motorista do Vectra, que não poderia tê-lo visto antes. E que saiu do carro atarantado, levando as mãos à cabeça, exatamente como a formiga fizera. E como fiz eu, que vinha atrás do ônibus.

Enquanto o segurança da loja se comunicava por rádio com os serviços de resgate, o atropelante girava em torno do atropelado, sabendo que não devia movê-lo. Desesperado como uma formiga.

Que pobreza de repertório no nosso gestual. Quer esqueçamos os documentos em casa, quer matemos alguém por um desvio do destino; quer sejamos humanos, quer sejamos formigas, tudo que nos ocorre fazer diante de uma tragédia é levar as mãos à cabeça. Não deveria haver uma gradação? Gestos que mostrassem os vários níveis do desespero?

... Que falta de imaginação por parte da natureza!

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Soluços


SOLUÇOS
Pelas vozes sabia que estava em outra casa. O cheiro também, diferente. Mas agora não via mais nada. E então chorava, chorava.

– Que lindo, papai. Eu gosto desse passarinho novo. Canta mais bonito que os outros.
– É que furaram os olhinhos dele, filho.
– Furaram??
Enquanto o pai prendia na parede da copa um gancho para pendurar a gaiola do assum-preto, o menino, horrorizado e curioso, aproximou-se do pássaro,
– Quem furou?
– As pessoas que vendem. Sempre fazem isso.
– Por quê?
– Pra ele cantar mais bonito.
– Mas... por que ele canta mais bonito de olho furado?
– É que assim não se distrai, só pensa em cantar.
– É?
Enquanto pai e filho conversavam, o assum-preto chorava abandonadamente.
Chorava choro de pássaro.

A natureza é sábia: fez o som do choro dos recém-nascidos intolerável para os ouvidos de seus semelhantes. É uma forma de proteção. A mãe fará qualquer coisa para fazer cessar o choro do bebê. Na falta da mãe, sempre haverá quem diga: “Alguém dê uma mamadeira para essa criança, pelo amor de Deus! Ou então pegue no colo, embale, dê-lhe um biscoito, uma colher de mel!” Mas o choro dos pássaros só é insuportável para os outros pássaros.

Ninguém sabia, naquela casa, que o novo membro alado da família estava soluçando em desespero, lamentando a nova perda. Uma semana depois de perder a liberdade, a alegria de poder voar, perdera agora o jeito de olhar o mundo.

sábado, 8 de setembro de 2007

Lição de Antropologia


O fato é que, em algum momento da luta entre as duas tribos, as omas se extinguiram, desapareceram da face do planeta. Deviam ser frágeis demais, etéreas, delicadas. Com certeza é da lembrança atávica das omas que se originaram certas figuras da mitologia grega: as sílfides, as ninfas, as nereidas.

Naturalmente, esse processo de extinção fez aumentar a rivalidade entre as tribos. Sem suas fêmeas, os machos da tribo das omas se tornaram mais agressivos.
Em toda parte, os mulhos foram sendo extintos por esses machos da tribo inimiga. Simples conseqüência da seleção natural, da lei da sobrevivência do mais forte.

E, durante alguns anos, os sobreviventes de ambas as tribos se examinaram desconfiadamente. Por fim, concluíram que teriam que se ajustar uns aos outros, ou simplesmente deixar de se reproduzir.
Afinal, não existem mulas? Resultado do cruzamento entre jumento e égua, ou entre cavalo e jumenta, as mulas são estéreis. Mas não foi isso que aconteceu neste caso, como resultado do cruzamento entre as fêmeas de uma espécie e os machos de outra: foi como se, em vez de um produto híbrido, o resultado desse cruzamento simplesmente produzisse novos espécimes iguais ao pai ou à mãe, perfeitamente sexuados e capazes de reprodução ad infinitum.

Sem suas suaves omas, os homens vêm há séculos em busca da companheira perfeita.
Criadas para serem servidas e protegidas por seus dóceis mulhos, as mulheres não se conformam em se submeter aos homens, fisicamente mais fortes.
Condenados à coexistência, homens e mulheres, predadores por natureza, digladiam-se tentando inutilmente chegar ao entendimento.

Quem pode entender uma mulher?

Quem pode entender um homem?

Quem pode compreender essa coisa fascinante, o sexo oposto? Quem pode compreender essas criaturas incompreensíveis?

No princípio havia homens e omas, mulheres e mulhos.

É a única explicação possível: que homens e mulheres não sejam macho e fêmea do mesmo bicho.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Fadas



Ele ouviu risadas, pareciam vir da copa. Quem? Sabia que não havia mais ninguém em casa.

Levantou-se da escrivaninha, cauteloso. A copa. Risinhos cascateantes. Onde? Nada que se visse: a mesa redonda sobre os ladrilhos azuis, quatro cadeiras de plástico, a geladeira a um canto.

Dentro da geladeira?

Nada.

Apurou o ouvido. Sim, logo abaixo do lustre, os risos. Delicadas gargalhadas femininas. Sobre a mesa? Uma fruteira com pedestal. Nada de mais nela: maçãs, laranjas, bananas. Duas laranjas, três maçãs; duas bananas em um cacho que já tivera dez. Aproximou o ouvido: parecia, sim, que vinham de lá as risadas.

Uma das bananas pareceu trepidar. Ele viu que tinha uma aparência estranha, meio estufada. Mofo? Arrancou-a, separando-a da outra. Cautelosamente a descascou. E ali estavam, entre a fruta e a casca!

Ele atirou a banana ao chão, num gesto surpreso entre susto e nojo; nojo que logo foi substituído por um maravilhamento incrédulo.

Fadazinhas – ou coisa parecida – mulherinhas (coisas vivas, bípedes e aladas), do tamanho de saúvas, com pequeninas asas irisadas, algumas nuas, outras com vestidinhos azuis e rosa, desceram rindo da banana para o chão da copa, correram para a cozinha, passaram por baixo da porta, fugiram para o quintal. Uma que ficara presa entre a fruta e o chão ergueu a banana com um gemido de esforço, escapou da prisão e, com um grito agudo de medo do homem, correu atrás das companheiras.

Ele destrancou a porta de ferro, procurou a danadinha. Noite escura, lua clara. Ouviu risos entre as gavinhas do pé de chuchu. Olhou para cima e o som de riso já não parecia mais vir do alto, mas do fundo, de dentro dos tomateiros. Revirou as plantas, não viu nada. Silêncio, exceto por uma buzina pressionada na estrada, fora de hora. Mas talvez – ou seria ilusão? – de cá e de lá, risinhos abafados, como se agora elas cobrissem, com as pequeninas mãos, as bocas minúsculas.

Olhou para um lado e para outro, entrou em casa, trancou a porta com uma última verificação do entorno.

Foi até a copa, mãos no bolso, assobiando baixinho. Encostou o ouvido na banana que restara sobre a mesa. Observou-a por todos os lados, tocou-a com o dedo médio da mão direita e retirou a mão no mesmo instante. Criou coragem e tocou-a novamente. Destacou a fruta do talo.

Com cuidado atento, descascou-a.

Estava vazia de fadas. Apenas uma banana como qualquer outra. Ele suspirou e comeu-a, pensativo, conformado.