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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O Passo Seguinte - Parte Final

Depois que os outros partiram, Nicolas já pulou para uma cadeira da mesa de Sônia, pegando a sua cerveja, que a garçonete já havia trago algum tempo, e o seu copo. Encheu o copo dele e perguntou se ela queria, sendo que provavelmente a cerveja já estava quente.
- Não, não quero não. Eu já to meio bêbada, vou ficar de boa agora.
- Entendi, faz bem. Mas que bom que você ficou, de fato deu pra notar que você estava reagindo de uma maneira de diferente dos outros. Pois bem Sônia...
- Nossa, você lembra do meu nome? – disse Sônia interrompendo-o.
- Claro que lembro. Você foi a moça que me emprestou o isqueiro e que por sinal, pedi só para poder puxar conversa com vocês.
- Olha! Então quer dizer que a Júlia estava certa – disse isso finalmente sorrindo. De todos os fatos narrados aqui, entre todos, Júlia era a que sempre permanecia mais séria – e eu recriminando ela por pegar no seu pé.
- Mas com certeza, de todos vocês ela foi a que mais implicou comigo. E que língua afiada que ela tem hein. Caramba, aquela garota parece viver na ofensiva.
- É, ela é bem arisca mesmo. Mas ela é uma pessoa maravilhosa, você tem que ver quando ela está mais bêbada, ela vira um amor só. Não fala coisa com coisa e vive caindo – terminou dizendo isso soltando uma risada curta porém muito espontânea e gostosa, Nicolas também não se conteve e respondeu com o mesmo gesto.
- Mas como eu ia dizendo Sônia, por que é que você não me diz o que se passa aí nessa sua cabeça? O fato de você ter ficado aqui comigo me deixou bastante intrigado. Vai, me fala. Me diz também o que você achou de todo o meu discurso eloquente? – olhava pra ela com olhos de fascinação. Era uma garota muito bonita, com um corpo bastante sensual, apesar da saia que ela usava não deixar ele visualizar bem como era suas pernas. Mas com uma cruzada de pernas que ela deu, pode perceber que tinha cochas grossas que pareciam ser bastante firmes. Quando sorria formavam em suas bochechas duas pequenas covinhas, o sorriso era pequeno, porém muito brilhante. Cabelos negros, olhos negros, muito vivos e compenetrados. Toda aquela mulher era adornada por movimentos leves e sutis, mas não delicados, eram firmes, só aconteciam em momentos muito precisos.
- Nossa! – exclamou ao reparar tudo isso.
- Que?
- Nada não. E aí, você não vai responder as coisas que te perguntei?
- Então ou. Sinceramente eu acho que faz sentido muita coisa que você falou, só não concordo muito da maneira como você falou. Mas tipo assim, isso tem me deixado incomodada já faz algum tempo sabe? Por que tipo assim, são meus amigos sabe e eu gosto de estar com eles e eu acho que muita coisa que eles fazem é boa, mas tem outras que é foda, entende? E tipo assim, quem sou eu pra julgar também? Mas é isso, sei lá, eu acho que to meio perdida no meio de tudo isso, às vezes eu olho e não sei pra onde ir, o que fazer. Mas eu quero mudar as coisas sabe, eu sei que precisa mudar, é por isso que eu tento, que eu me organizo coletivamente, mas sei lá, as vezes parece tão distante. Ai... – parou e soltou um suspiro – e tipo assim, parece tão distante por causa das próprias pessoas, as mesmas que querem mudar as coisas, eu também devo fazer muita coisa errada, sei lá – mais um suspiro.
Após ouvir tudo isso, a fisionomia do rosto de Nicolas começou a mudar mais uma vez, estava ficando parecido com a mesma de quando ele estava discursando energicamente em pé para ela e seus amigos, isso de uma certa maneira assustava Sônia e lhe causava um pequeno aperto no peito, talvez por medo.
- E se tudo isso fosse uma grande bobagem Sônia? Tudo o que eu disse até agora, tudo que você acabou de dizer – ele já estava mais uma vez dominado por aquela fisionomia extremamente eufórica – Talvez minha querida a maior armadilha que a humanidade criou a si mesma foi ter entre aspas, “evoluído” – disse isso simbolizando com os dedos o sinal de aspas – Porque acabamos desenvolvendo a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento e consequentemente isso acaba nos colocando em um estado de agonia eterna. Por que no fundo Sônia, pouco importa, a natureza e o universo estão cagando e andando para todas as nossas questões filosóficas. Num futuro distante por mais que alcancemos o comunismo, o perfeccionismo, um dia o sol vai explodir e aí tchauzinho pra humanidade.
- Mas quem sabe a gente não se desenvolva tanto que consiga migrar para outra constelação.
- Há! Que perspicaz você Sônia. Eu ainda não perguntei, mas afinal que curso você faz?
- Eu faço filosofia e você o que faz da vida?
- Filosofia, sim filosofia. Não ensinam essas coisas no curso não é Sônia?
- Na verdade ensinar eu não sei, mas tem matérias sim que falam sobre, na verdade a maioria, só que de um modo diferente. Mas e aí o que você faz da vida?
- Eu vivo de bicos. É essa a lógica atual do mundo meu bem, empregos temporários, mas ficar de olho e se ligar no time deles, que quando acaba um você consegue outro.
- E onde você aprendeu todas essas coisas?
- Eu também já fiz faculdade um dia. Cursei direito provavelmente na mesma universidade que vocês, na pública.
- E você nunca pensou em seguir na área? O que aconteceu? Você criticou a gente, mas parece ter vindo da classe média também.
- Acho que não tão média assim, não tinha carro como vocês, dificilmente grana pra ir no bar com os amigos, se bem que eu não tinha muitos amigos... Mas caramba Sônia! A gente está se desviando do foco, a minha vida não importa, o que importa são as questões sobre as quais a gente estava dizendo.
- Humn sei, dá pra ver que você é meio fechado né.
- Menina, menina. Enfim, pra finalizar: mesmo sabendo que tudo isso um dia vai explodir e que não temos a certeza se vamos conseguir migrar pra uma outra galáxia ou não, a questão é que enquanto isso temos que tentar viver o melhor possível, não é? E com certeza o capitalismo não é a melhor pra isso? Mas o que fazer então? Me diz Sônia o que fazer?
- Sei lá. To começando a achar que você fala de mais e reproduz tudo o que critica.
- Provavelmente, mas acho que somente em partes, mas quem não? Somente aqueles que não criticam né. Mas é isso! Pra que criticar Sônia? O negócio acho que é dar o passo seguinte, fugir dos planos perfeitos, parar de querer ter a resposta, mas agir, agir no sentido de viver melhor, de que todos vivam melhor. Eu acho que nós dois demos o passo seguinte Sônia, eu não seguindo minha carreira, você só pelo fato de ter ficado aqui, boicotando essa porra toda. Até aonde a gente pode chegar? Agir livremente sem moralismos, até onde você consegue ir Sônia?
- Nossa, tem hora que você fala muito confuso. Não sei se eu to entendo. Mas sei lá, eu acho que é isso sabe, ter paciência e ir tentando do jeito que der, parar de perder tempo falando mal dos outros, enfim fazer o que acha certo fazer.
- Você se sente atraída por mim Sônia? Antes que você ache que tentei dar um golpe de mestre machista, não estou me referindo a uma questão sexual, mas sim enquanto personalidade. Você se sente atraída pela minha personalidade Sônia? Eu sinceramente achei a sua espetacular, acho que conseguimos desenvolver uma intimidade um com o outro, não profunda porque isso leva tempo, mas um laço íntimo interessante. Acho que a questão sexual deve ser meramente consequência disso tudo entre as pessoas.
O rosto da garota ruborizou. Olhando pra ele apesar de ter mais idade, dava pra notar que ainda era um homem bonito, mas não era essa a questão. Uma grande quantidade de sentimentos confusos girava em sua cabeça, enquanto eles falavam tudo isso, continuavam bebendo e bebendo rápido e a medida em que as cervejas iam acabando os garçons iam trazendo outras.
- Mas então você quer que eu transe com você? – disse Sônia inesperadamente.
- Não, claro que não, aliás, acho que depende – era ele agora que estava embaraçado e isso causava certa satisfação nela, por finalmente tê-lo deixado assim.
- Ah, deixa isso pra lá – respondeu ela.
Os dois ficaram calados durante algum tempo, ambos olhando para o chão.
- Talvez eu esteja muito mais perdido do que você Sônia. Olha pra mim Sônia, com certeza não tem ninguém aqui nesse bar parecido comigo. As vezes  dar o passo seguinte acaba nos deixando bastante isolados. Toma muito cuidado com tudo isso.
- Ué, então você está descartando tudo o que acabou de dizer – respondeu ela num tom de indignação.
- Não, claro que não, é só que às vezes todas essas decisões malucas pesam, mas o que é que não pesa nessa vida né?
- Pois é.
- Quer saber, tá afim de dar mais um passo? – disse Nicolas recuperando suas energias – que tal parar de escutar essas porcarias de música e ouvir algo decente, aliás algo decente ainda mais em vinil.
- Nossa! Aí sim hein, onde?
- Lá em casa. Eu tenho uma coleção interessante de vinis lá. A maioria de música clássica e jazz, qual você prefere?
Sônia titubeou ao ouvir aquela proposta. O aperto de medo em seu coração estava maior naquele momento, mas como uma fagulha tomou uma decisão dentro de si sem pensar muito nas consequências, parecendo que sua boca agiu mais rapidamente do que seus próprios pensamentos.
- Eu prefiro jazz, mas se a gente for tem que ser agora então.
Nicolas já se levantou pegando a comanda para poder pagar a conta, ela só apanhou a sua bolsa e foi atrás dele e foram até o balcão e acertaram o que tinha que acertar.
- Você tá de carro?
Nicolas apenas sorriu dizendo com a cabeça que não.
- Então a gente vai no meu. Vem tá aqui bem pertinho.
E realmente estava. Não demoraram nem dois minutos para chegarem e entrarem no carro.
- Já vou colocar uma pra gente ir aquecendo então – colocou então o álbum My Favorite Things de John Coltrane.
- Uau! Esse álbum é maravilhoso, um dos meus favoritos dele – ambos riram com esse comentário por causa do próprio nome do álbum – é um som muito educado e extremamente relaxante.
- Nossa com certeza, eu adoro ele também. Ou você tem que me guiar até onde é sua casa, é aqui perto?
- É sim, é ali no Santa Maria, você pode fazer o contorno, pegar a Belarmino para poder cair na João Naves, dae depois do posto você desce e algumas pra baixo você vira, a hora que for pra virar eu te aviso, dae anda só mais um pouco e a gente chega.
E assim aconteceu, não demoraram nem dez minutos para chegarem à casa dele. Era uma casa de portão bege, porém em várias partes a tinta já estava descascada. O muro era de tinta branca, mas também havia várias manchas escuras no mesmo. Entraram e após o portão havia uma pequena garagem e no fundo dela uma porta pintada também de tinta bege e também descascada que dava acesso à sala. Pelos ornamentos da porta e quando entrou na sala, Sônia pode notar que devia ser uma casa um pouco antiga, provavelmente construída na década de 80, ao menos os ornamentos indicavam isso e parecia que fora reformada poucas vezes. Era pequena, a cozinha era separada da sala apenas por um balcão.
- Posso ir ao banheiro?
- Claro. Fica dentro do quarto, é só virar aqui a direita que você vai ver a porta do quarto e lá dentro se você olhar a esquerda você vai ver a porta que dá acesso ao banheiro.
Sônia se dirigiu ao banheiro e antes de entrar nele não pode deixar de reparar no quarto. Continha apenas uma cama de casal, com lençóis bastante amarrotados e dois travesseiros bem gordos, todos na cor verde escuro, um guarda-roupas pequeno e uma escrivaninha do lado da cama. Entrando no banheiro viu que era todo azulejado na cor azul, aquilo causava até um impacto na visão. Viu também que apesar de pequeno estava bastante limpo e pensou “bom, ao menos com a higiene, ele não é um porco”. Fez a sua toalhete e saiu deparando-se com Nicolas, parado em pé, olhando fixamente pra ela. Aquele olhar era penetrante, fazia com que ela se fixasse nele, parecia que seus olhos vasculhavam o íntimo dela. Isso fez com que Sônia lembrasse toda a situação diferente em que estava. Provavelmente nunca vivera algo parecido e isso causava cócegas internas nela ao mesmo tempo aquele aperto no peito ainda permanecia.
Nicolas então lhe puxou pela cintura, sua mão era grande e grossa. Isso fez com que ela soltasse um grito fino e praticamente inaudível e antes que terminasse o mesmo ele a beijou. Ambas davam beijos de extrema gana e desejo, mordiam com força a boca do parceiro de uma maneira que podia sangrar, mas não chegava a acontecer. Entrelaçavam suas línguas com voracidade e intercalavam esses momentos de força com momentos em que apenas ficavam parados abraçados, se olhando e ofegantes. A troca de olhares entre eles parecia que servia de combustível para que voltassem a se devorar e logo para além dos beijos, começaram a beijar também os pescoços um dos outros dando mordidas e às vezes uns chupões bem forte.
Foi questão de tempo para que Nicolas descesse do pescoço de Sônia para os seus seios e quando começou a beijar e a morder eles na região do decote dela puxou com força para baixo a blusa revelando assim os dois seios de Sônia. Eram grandes e firmes, os mamilos pequenos e roxeados, logo Nicolas passou a beijá-los também, chupava-os com uma força que ia crescendo progressivamente e intercalava com carinhos com sua língua. Nisso Sônia começou a soltar pequenos gemidos, passou a mão nos cabelos dele puxando com força para trás, de uma maneira que ele olhou para cima fitando novamente o olhar dela.
Ela então se afastou e começou a tirar toda roupa, ele fez o mesmo, eram lindos os dois nus ali se olhando, mas isso já não importava mais. Voltaram aos beijos vorazes e Nicolas a jogou sobre cama, começando a lhe fazer sexo oral não com a mesma pungência, mas bem de vagar. Os gemidos dela iam crescendo, mas de repente ele parou.
- Não! Por que você fez isso? Continua – perguntou ela, mesclando indignação e graça.
- Vou colocar uma música pra gente. Desculpa, espera só um pouco – respondeu limpando um pouco a boca. Então levantou da cama, de pé, olhou mais uma vez pra Sônia, ela respondia seu olhar e mordiscava os lábios. Antes de sair do quarto, Nicolas apagou a luz, o que deixava a garota mais ansiosa ainda.
Na escuridão e passando suas mãos pelos lençóis que estavam um pouco gelados, Sônia escutou os primeiros ruídos de um aparelho de vinil sendo ligado e de quando a agulha está para cair sobre o disco. Quando o disco começou a tocar, percebeu que era um disco da Janis Joplin e a primeira música era Piece of My Heart. A música tocava e Nicolas não retornava ao quarto, percebendo isso ela já estava ficando impaciente.
- Ei! Você morreu aí? Foi abduzido? – Perguntou Sônia.
Acabando de dizer isso, a segunda música do disco começou, era Summertime, ouvindo os ruídos dos passos, notou que Nicolas voltava ao quarto e parou na beira da cama. Ela se arrastou até lá, ele a puxou e ficaram os dois juntos de pé, beijavam-se e faziam carícias no mesmo compasso da música.
- Pensei que você só tivesse discos de jazz e música clássica.
- A maioria é, mas nada como um bom rock n roll/blues para esses momentos.
Ela somente sorriu satisfeita diante disso que ele respondeu. Percebendo que a música estava chegando ao final, Nicolas a conduziu para cama e colocando seu corpo entre as pernas dela, penetrou num gesto que no inicio foi um toque delicado e que depois se concluiu num movimento rápido e forte. Sônia respondeu apenas com um suspiro curto, como se tivesse tomando um susto.
A terceira música começava, era Cry Baby. Os movimentos do sexo continuavam acompanhando o compasso da música, quando chegava o refrão, ficavam mais fortes, não só os próprios movimentos como os gritos e gemidos dos dois e a medida que o tom da música ficava mais calmo, eles também se controlavam um pouco. Sônia cedia seu pescoço para que Nicolas o mordesse, ele fazia isso, transitava também sua língua entre os seios dela, sua boca e seus ombros. Mudaram de posição quando mais um refrão se anunciava, ela agora estava por cima e os movimentos estavam mais rápidos e fortes, ele apertava a cintura dela com toda força que tinha.
Era linda a visão daquela mulher em cima dele, parecia uma deusa ancestral que conduzia aquele mero mortal com extrema perfeição. Isso significava para ele, estar unido não somente com Sônia, mas com um todo, parecia viver um momento de transe e talvez de fato estivesse. Seus gemidos juntos com os dela formavam uma harmonia perfeita. Nicolas sentou-se, agora acariciava lhe o rosto, passava as mãos em seus cabelos e ela devolvia os carinhos. A próxima música virou no tocador, era Get It While You Can. Nessa posição de fato, pareciam unidos, agora ela gritava mais do que ele, talvez porque o sentisse por completo. Transavam tão forte nessa hora que as estruturas da cama tremiam bastante, a fisionomia do rosto dela parecia refletir dor e satisfação. Gritava com os olhos fechados com o rosto inclinado para o teto e de vez em quando, voltava-o na direção de Nicolas, com um olhar que parecia devorá-lo. Não se sabe se o que chegou primeiro foi a próxima música ou orgasmo deles, ambos muito belos. Seus corpos se contorceram, como se tivessem sendo eletrificados, cravaram as unhas nas costas de ambos e mesclaram suas vozes num último gemido roco que esvaiu suas energias.
Deitaram ao lado um do outro, ambos olhando para o teto e de mãos dadas, a última música daquele lado do vinil era Maybe. Os dois quando escutaram a música, abriram sorrisos largos, como duas flores brancas desabrochando num escuro jardim e no mesmo instante suas pétalas voam na direção uma da outra. Não tardou para que adormecessem antes mesmo que a música acabasse. Por estarem dormindo não perceberam que a agulha não voltou automaticamente e por isso continuou chiando, arranhando o final do vinil.


Sônia despertou, estava bastante suada pelo calor que fazia ali. Continuou deitada e observou todo aquele quarto, bastante simples. Olhou para o lado e viu Nicolas nu, deitado de bruços, roncando levemente, quase inaudível. Observava agora a si mesma, olhou entre suas pernas e um pouco do sêmen dele escorria dali. Como fizera aquilo? Como transou sem camisinha com um homem desconhecido? Mas não se tratava somente disso, ela tomava remédio e muitas outras pessoas cometem esse tipo de atitude. A questão era que homem estava ali. Depois de tudo aquilo que ela assistiu no bar, mesmo assim Sônia estava ali. Levantou-se, vestiu sua calcinha e caminhou até a sala. Percebeu a agulha arranhando no tocador de vinil e desligou o aparelho. Pegou o celular na sua bolsa e viu que tinha várias chamadas não atendidas de Júlia e também da sua mãe.
O que ia dizer pra elas? Poderia inventar uma mentira. Pra sua mãe, dizer que dormiu na casa de Júlia e pra esta, dizer que foi pra casa logo depois que eles foram embora e que pegou no sono e não viu as ligações. Mas sua mente estava nebulosa. Ter dormido com aquele homem transgredia uma certa moral que Sônia tinha até então, mas ela mesmo já vinha colocando essa moral em cheque há algum tempo. De repente, sua mente passou a operar friamente. Naquele caso era fácil, ninguém sabia que estava ali e quem era aquele homem? Se quisesse no mesmo instante sufoca-lo com um travesseiro, provavelmente demorariam bastante a descobrir o corpo, pois parecia que ele não tinha ninguém. Será que não tinha mesmo? De acordo com a intuição dela, não.
Mas então, do estado de frieza sua cabeça subitamente voltou-se para uma angústia dilacerante. O passo seguinte estava dado, mesmo que secreto estava dado. E se esse homem começasse a querer se encontrar com ela frequentemente? Pior ainda: e se ela é que quisesse isso? E se ele a rejeitasse? E caso não. E se os dois quisessem estar um com o outro, como seria lá fora? Aí todo o segredo cairia por água abaixo. Mas pra quem tinha chegado até ali, por que não continuar? Qual era a diferença? A opinião alheia? “Que se foda a opinião dos outros”, pensou ela.
Foi até a cozinha, abriu a geladeira e visualizou uma garrafa de vinho tinto. Tirou a rolha que estava fácil de ser removida, procurou um copo por ali e encheu. Virou de uma vez e tornou a encher. Sentiu frio, lembrou nesse momento que estava só de calcinha e observou que a janela da sala estava aberta. “Quando que ele abriu essa janela? Quando veio colocar a música? Ou ela sempre esteve aberta?”.
Com o copo na mão voltou para o quarto. Olhou para a cama, Nicolas estava praticamente na mesma posição. Sônia então se aproximou mais da cama, bebeu um pouco mais do vinho e mais uma vez perdida em seus pensamentos lembrou-se que uma pequena atitude, mesmo que não seja errada, pode significar muita coisa, ela já havia passado por isso antes. Geralmente a decisão sobre tal atitude aparece subitamente e você tem que decidir ali na hora, se falar não, provavelmente será uma oportunidade que nunca mais voltará, e sua vida continuará calmamente. Mas caso diga sim, essa mesma vida pode ter todas suas estruturas mandadas pelos ares e as vidas das pessoas em sua volta também. Quando esse momento de decisão apareceu pra ela, titubou bastante, mas acabou no fim dizendo não.
Voltando a si, recuou e encostou seu corpo na parede e terminou de beber o vinho. Nesse instante conseguiu lançar um olhar tanto para a cama como para a porta do quarto praticamente ao mesmo tempo. Suspirou e fechou os olhos, dando um passo adiante...


domingo, 26 de janeiro de 2014

O Passo Seguinte - Parte I

Era uma noite muito quente, o que contribuía bastante para que o bar localizado no bairro Santa Mônica estivesse lotado. O calor foi supostamente o principal motivo para que o grupo de amigos se encontrasse ali. Eram seis no total.  Conversavam todos, muito alto, na verdade nem todos, pois uns pareciam serem mais narradores do que outros, mas conversavam assim porque o barulho no bar era muito alto e não havia outra maneira para que pudessem se comunicar.
Sentado-se à mesa ao lado estava Nicolas, bebendo sozinho. Como as mesas estavam muito próximas e de todos os sons que ele podia captar no bar o mais interessante parecia ser a conversa daqueles jovens, começou a escutar atentamente o que falavam.
- Cara, é absurdo essa questão da Copa. Vocês viram o vídeo daquele despejo? A polícia desceu o cacete em todo mundo. Puta que pariu! Mas eu boto fé demais que esse ano o bicho vai pegar, não sei não se vai ter Copa tão fácil assim. O que vocês acham? – Quem dizia isso era um rapaz negro, bastante magricelo e alto, com o cabelo estilo “black Power". A expressão do seu rosto transparecia que aquele assunto sobre o qual estava discorrendo era bastante grave, dava para ver isso nas contrações de sua face. Gesticulava com os braços e as mãos em movimentos bastante enérgicos e firmes. E no fim de cada frase terminava sempre por bater a mão direita sobre a palma da mão esquerda aberta.
A roupa desse rapaz era bem parecida com as dos demais rapazes que estavam na mesa: camiseta colorida meio amarrotada sem estampa, uma calça jeans e um “sapatênis” surrado. A diferença era a cor das camisetas e dos sapatos, a dele, no caso, era uma camiseta laranja.
- O foda é que aqui em Uberlândia não é cidade sede da Copa. Se fosse, eu acho que a gente podia tocar o terror aqui também – dizia outro rapaz de camiseta roxa. Este fazia movimentos menos bruscos para expressar sua fala do que seu colega.
- Ah, mas mesmo que aqui não seja, eu boto fé que a gente pode tentar ir pra alguma cidade sede e participar das manifestações, dá pra ficar na casa dos nossos amigos. – Respondeu uma moça, bastante magra, de cabelos loiros um pouco ondulados e pele clara. Ela vestia uma blusa cavada e muito colada ao seu corpo e com um decote que destacava seus seios, mesmo que pequenos, e na parte de baixo um saião estilo hippie que em boa parte do tempo escondia as sandálias de couro que calçavam seus pés. Uma outra moça vestia algo bastante semelhante, mais uma vez o que se alterava eram as cores das roupas, somente a terceira que mudava um pouco o estilo, trocando o saião por uma calça jeans e as sandálias por um tênis. O que se destacava nessa terceira era uns óculos quadrados bem grandes e de um vermelho muito chamativo.
Nicolas não só escutava a conversa, mas reparava em cada detalhe desses jovens, nesse estilo das roupas, na postura deles, na maneira como gesticulavam para se comunicarem uns com os outros. Reparava que parecia ser um jeito agressivo e impositivo. Pensava “o que é que eles vão fazer com toda essa raiva?”. Sem deixar de prestar atenção neles, sacou um maço de cigarros amassado do bolso da camisa e puxou um cigarro tão amassado quanto o maço e colocou-o na boca e perguntou para os jovens se eles tinham isqueiro. Prontamente a moça de estilo hippie, não a loira, mas uma morena que tinha os cabelos cortados bem curtos e um corpo mais destacado do que o da outra esticou o braço em direção à boca de Nicolas e ascendeu o cigarro com seu isqueiro.
- Oh! Obrigado, nem precisava de tanta gentileza.
- Que isso moço, de boa – respondeu ela dando uma risadinha antes de começar a frase.
A garota fumava um cigarro de palha e, depois que respondeu, lançou um olhar mais atencioso em direção à Nicolas para observá-lo melhor. Ela avistou um homem que provavelmente já deveria estar na casa dos quarenta anos, cabelos castanhos bem finos e em grande quantidade, partidos de lado, moreno claro que usava uma camisa verde escura, calça jeans já com a cor desbotada presa por um cinto de couro preto e nos pés uma botina um pouco gasta. Olhando as vestimentas do homem, pareceu a ela que fosse desses funcionários públicos que estava na base da pirâmide da hierarquia e que já estava bem cansado por todos os anos de dedicação ao serviço, porém, sem grandes recompensas. Mas quando olhava em seu rosto percebia algo diferente. A expressão era bastante séria, mas tal seriedade não parecia advir do cansaço aparente dele, mas sim porque estava imerso em pensamentos profundos, sentado ali fumando o seu cigarro, foi também nesse exato momento onde percebeu que esse homem estava atento à conversa na mesa deles. Porém, ao mesmo tempo parecia conseguir escutar tudo o que diziam e ainda continuar imerso nos seus pensamentos. E que pensamentos eram aqueles? Será que eram interessantes? Tudo isso estava deixando Sônia muito curiosa.
- Você não acha cigarro de palha muito forte? Não que meu Marlboro vermelho também não seja, aliás, talvez essa porcaria que estou fumando seja muito pior – Nisso Nicolas tirou seu cigarro da boca e ficou olhando-o – Mas não sei, esses palheiros parecem um soco no pulmão quando a gente levanta e, industrial por industrial, eu to preferindo as indústrias de grande porte – Depois disso, soltou uma risadinha curta e maliciosa.
- Ué, como assim? Você prefere as indústrias de grande porte pra que? O senhor vai me desculpar, mas só se for pra morrer mais rápido.
Nisso Nicolas pareceu um tanto sombrio e não respondeu de cara a pergunta da menina, parecia pensar sobre o que ela lhe falou. Todos os jovens da mesa ficaram olhando pra ele na expectativa de uma resposta e pareciam até um pouco assustados pelo tom que a garota dos óculos vermelhos usou.
- Morrer mais rápido. Talvez realmente seja isso, morrer mais rápido – Respondeu Nicolas quebrando o silêncio – Se todos nós, dia após dia, nos definhamos no vício, porque tentar burlá-lo? Os alcoólatras que encham a cara da cachaça mais barata, os fumantes que fumem o pior cigarro que exista, um que queime a garganta e o pulmão. Felizes dos maconheiros que nunca morrem de overdose, talvez o máximo que aconteça com eles seja morrer de tanto comer, que se afoguem em muita gordura saciando suas respectivas laricas.
Não se sabe se essa última frase proferida por Nicolas realmente foi uma piada, mas ela pareceu bastante cômica para os jovens e eles desataram a rir escandalosamente.
- Mas por que riem? – disse Nicolas um pouco irritado – Isso é uma questão muito séria meus pequeninos. Qual é o nome de cada um de vocês? – O tom em que proferiu a frase cortou instantaneamente o riso.
- Carlos – disse o de camiseta laranja.
- Beatriz – a moça loira.
- Eduardo – o de camiseta roxa.
- Manoel – um terceiro rapaz que estava de verde.
- Júlia – a dos óculos vermelhos.
- Sônia.
- Muito bom, muito bom, pequeninos, o meu nome é Nicolas, encantado por conhecer vocês – esse novo tom rebuscado que assumira fazia com que os jovens soltassem risinhos de canto de boca, contidos para que não o irritassem mais uma vez e para não ficar tão escancarada a vontade de debochar que tinham.
- Mas por que o senhor tá chamando a gente de pequeninos? O senhor é louco? – proferiu Júlia mais uma vez uma de suas frases fortes.
Então Nicolas soltou uma forte gargalhada e disse:
- E você não é? Desculpe então chamar vocês de pequeninos, mas é que, de fato, são e nem percebem. Enquanto a minha loucura, ela não difere de várias outras que se encontra em algumas páginas de uns bons livros.
Tentando disfarçar Beatriz se aproximou do ouvido de Carlos e cochichou:
- Falou então o maluco com mania de grandeza – O rapaz respondeu somente com mais uma risadinha contida.
- No fim das contas, todo mundo é – comentou ironicamente Júlia.
Parecia ser ali o fim da conversa entre ambos, os jovens voltaram seus corpos para o centro de sua mesa para retomar a conversa em que estavam e Nicolas bateu o cigarro para derrubar a cinzas que como ele ficou muito tempo sem fumar já estavam ficando maiores do que o próprio cigarro. Serviu mais um copo de cerveja para si e retornou ao que fazia antes, no caso aos seus pensamentos e a escutar a conversa das moças e rapazes da mesa ao lado.
Reparou também que sua cerveja estava acabando, decidiu tomar numa só golada tudo que tinha no seu copo para poder terminar o resto da garrafa e pedir outra. Ao virar o copo e batê-lo na mesa, levantou-se e foi ao banheiro. Chegando lá tinha dois caras na fila.
- Porra! Eu tinha que ter pedido outra cerveja. Foi pra isso que eu levantei e não pra ir ao banheiro. Vou lá pedir. – saiu então da fila e deu dois passos em direção ao balcão, mas parou e girou seu corpo em cima do calcanhar direito tornando a colocá-lo em direção a fila do banheiro.
- Mas se eu sair da fila pra ir pegar outra cerveja, provavelmente, quando voltar, a fila vai estar muito maior. Merda de indecisão! – enquanto sua mente não chegava a uma conclusão, ficou parado ali mesmo e passou um olhar naquela parte interior do bar descobrindo assim da onde surgia tanto barulho.
A composição das mesas, em sua maioria, era bastante parecida com a mesa dos jovens que estavam sentados ao seu lado. A maioria que estava ali era daquela mesma faixa etária, mudavam os estilos das roupas, mudavam os temas das conversas, mas uma característica principal permanecia: todos tentavam gritar mais alto do que os outros com a necessidade extrema de despejar todas suas angústias e pérolas de exibição, mas poucos paravam para ouvir essas mesmas questões.
- Puta merda! Desde quando o mundo ficou tão homogêneo? Eu sei que já tem muito tempo, mas parece que a coisa tá cada vez mais próxima do buraco. E que música é essa? – a música vinha de umas caixinhas que ficavam espalhadas por todo bar, no caso estava tocando uma música famosa contemporânea do estilo sertanejo universitário que dizia respeito sobre como os homens “pegariam” as mulheres na “balada”. Nem todos ali no bar pareciam gostar daquela música, mas a canção só contribuía para que todos falassem mais alto ainda.
Quando Nicolas se voltou para a fila do banheiro, viu que ainda tinha uma pessoa na sua frente e pensou “será que ela cortou fila de mim? Ou será que nem passou tanto tempo assim? Ah, que se foda o banheiro! Qualquer coisa eu “mijo” na rua. Saiu da fila e seguiu em direção para retornar a sua mesa, porém, caminhado uns cinco passos adiante, trombou com uma garçonete e aproveitando a ocasião pediu mais uma cerveja.
Chegando olhou para a mesa daqueles jovens e já pareciam estar bem “altos”, os rostos mais avermelhados, os gestos de todos, mesmo que em proporções diferentes, mais rápidos e agitados e as gargalhadas altas aconteciam com maior frequência. A conversa seguindo o fluxo de todo bar já acontecia aos gritos também.
- Mas, afinal, eu demorei ou não demorei tanto tempo lá dentro? Não é possível, ainda não deu tempo dos pequeninos estarem bêbados. – nisso reparou que um deles estava com o pé em cima de sua cadeira – Qual é mesmo o nome desse moleque? Manoel! Sim, Manoel. – Manoel era um rapaz moreno e robusto, não muito alto, de estatura mediana, porém era o mais sorridente de todos, tinha um sorriso bem largo, parecia que sua boca tinha o dobro do número de dentes e suas piadas apesar de bastante chulas, de tão sinceras que eram pareciam divertir muito todos ali.
- Tira o pé da minha cadeira, fedelho – disse Nicolas.
- Olha o tanto que esse velho é louco, uma hora ele tá chamando a gente de pequenino, de repente já volta tirando onda com a nossa cara – Respondeu Manoel, tirando o pé da cadeira de Nicolas e fazendo os outros rirem com esse comentário. Depois das risadas, todos deram uma olhada para Nicolas e fizeram um gesto pequeno com a cabeça, balançando para um lado e para outro, demonstrando assim uma mistura de negação com escárnio.
Nicolas sentou sem olhar e sem dar consideração alguma para os jovens. Tirou novamente o maço de cigarros do bolso, deu uma batida por debaixo dele com um dedo e um cigarro pulou de lá e apanhou-o diretamente com a sua boca. Nisso puxou uma caixa de fósforos do bolso esquerdo da sua calça e com muita classe protegendo o cigarro do vento com as mãos ascendeu. Aquilo tudo pareceu uma cena de filmes de faroeste.
- Caralho! Como você fez isso? Eu sempre tento fazer esse truque, mas nunca consigo – disse Manoel olhando para Nicolas surpreso.
- Então ele tinha uma caixa de fósforos e pediu isqueiro só pra puxar conversa com a gente, né?– disse ironicamente Júlia voltando-se para Sônia.
- Ué, mas talvez ele comprou quando foi lá dentro, você não sabe. Para de implicar com ele, nunca vi. – respondeu Sônia.
- Iiii já tô vendo que tem gente que tá toda interessada pelo tiozão. – retorquiu Júlia com todo o seu veneno.
- Ai meu deus, me deixa quieta, presta atenção aí na conversa.
A conversa parecia ser mais uma vez sobre algum assunto político.  Carlos parecia ser mais uma vez o narrador central:
- Cara, esse é um momento muito interessante. Toda hora surge um fenômeno inesperado, espontâneo.
- É, e da pra ver que esse tipo... – tentou Beatriz começar algum tipo de raciocínio, porém foi cortada bruscamente por Carlos.
- Tem que pegar essa galera e dar alguma orientação pra eles. Eles precisam de um projeto político concreto, se não pode ocorrer o mesmo risco das jornadas de junho, fica algo com muito potencial, mas sem pauta, esvaziado de conteúdo.
- Mas talvez não seja bem assim, por que tipo... – mais uma vez tentou Beatriz dizer alguma coisa, mais uma vez foi interrompida por ele.
- Por que agora é diferente – continuou dizendo Carlos – agora é a galera da periferia que tá tocando no ponto central do capitalismo, tá invadindo o maior templo de consumo deles. É uma questão de afirmação, tanto racial como enquanto classe social, mas também não é só isso. Quando a galera cola no shopping, tem muitos que nem estão abrindo, consequentemente está impedindo o consumo, está prejudicando o lucro das empresas. Isso é genial!
- Beleza, Carlos, boto muita fé no que você disse, mas acho... – começou a dizer Eduardo – que a gente tem que tomar muito cuidado com esse lance de dar linha política e tal, da questão do projeto político que você falou. Acho que realmente tem que ter um projeto, mas a questão é construir ele coletivamente, sem hierarquias, se não já vão começar a acusar a gente de vanguarda, farol da revolução e blá, blá, blá.
- Pois é, era isso que eu queria dizer se o Carlos não ficasse me interrompendo toda hora – disse apressadamente Beatriz antes que fosse interrompida mais uma vez e finalizou o seu comentário com um sorriso que parecia ser um misto de ironia com frustração.
- É isso! – gritou de repente Nicolas – É essa a tragédia de vocês pequeninos. Reparem. É nítido. Vocês mesmos conseguem sentir isso. Proclamam a própria libertação e, ao mesmo tempo, causam o próprio caos – Falava e gesticulava isso duma maneira tão espantosa, tinha até se levantado da cadeira. Era como se estivesse conduzindo uma orquestra, até lembrava Beethoven.  Aliás, os seus gestos eram tão bruscos com as mãos e os braços que isso realmente fez com que seus cabelos se esvoaçassem, lembrando de fato a figura do grande maestro.
- Vocês pequeninos, vocês têm uma fórmula perfeita de mundo. Sabem exatamente como tudo deve ser, mas não sabem como chegar até lá. Aliás, sabem sim. Basta ganhar a consciência das pessoas, não é assim que dizem? Ganhar a consciência! E quando todos estiverem esclarecidos assaltarão o Estado de uma vez. Para isso, é preciso pegar em armas, não é? Claro, a revolução tem que ser sangrenta, qual não foi? Mas aí vocês dirão: mas também não é assim. Existem as reformas, as reformas também são importantes, tudo é um processo, um processo histórico, mesmo que sejam graduais, elas são importantes para realidade concreta das pessoas, a realidade material. Mas o que importa mesmo é tomar o Estado, não é, pequeninos? A ditadura do proletariado, assim como foi na Comuna de Paris. Oh meus pequeninos proletários bem vestidos! Mas tudo isso é só uma fase de transição, não é mesmo? O mais importante é acabar com as classes, com a exploração do homem pelo homem. Viva ao comunismo! Viva a perfeição! Não! Mas não é assim, não é o fim da história, é somente o inicio dela, é o fim da pré-história, não é assim que o velho barbudo dizia? Vocês se lembram dessa frase dele? – Os jovens olhavam pra ele calados, atônitos, faziam apenas uns minúsculos gestos de negação, mas todos com o olhar bem fixo em Nicolas para ver onde tudo aquilo iria dar. As demais pessoas do bar também já começavam a olhar pra ele por causa de toda aquela cena.
Nicolas então caiu na cadeira soltando um suspiro como se fosse de decepção e continuou num tom muito mais baixo e sereno:
- Oh pequeninos, mas vocês não percebem a ação de vocês. Não vê como você é opressor com essa garota, mesmo sem querer? – disse isso se dirigindo a Carlos – E toda essa raiva meus queridos? Utilizam-na contra vocês mesmos e pelo visto devem utilizar contra qualquer um que se coloca no caminho do seu projeto perfeito de revolução. Afinal, quem é o inimigo? Se realmente é como o rapaz ali disse – agora apontou para Eduardo – Se o caso é fazer uma construção coletiva, sem hierarquias, não deveria então existir algum projeto pré-fabricado, a proposta de vocês se anula em si mesma, percebem? E vocês, moças, combatem o machismo dia após dia não é?  E, de fato, devem fazer, deu pra perceber o tanto que ele é presente no cotidiano, como o fato aqui na mesa. Mas o que pretendem fazer? Ter um casamento monogâmico feliz? Com lindas crianças com roupinhas limpinhas e bonitinhas? Sendo que todas elas vão estudar nas melhores escolas particulares para poderem ingressar na faculdade assim como vocês? Vão morar numa casa biossustentável dentro de um condomínio fechado e perceber a cada dia que passar como a boa máscara de seus companheiros, vai se esfacelando aos poucos, revelando o porco dominador e violento que ele é que adora sempre te foder por trás?
Terminou todo esse discurso parecendo estar exausto, corria muito suor de suas têmporas e sua camisa também estava um pouco molhada. Mirou um lugar qualquer na rua com olhar e se fechou numa expressão extremamente séria, praticamente impenetrável.
- Ai, vamo embora daqui? – perguntou Júlia – Eu to morrendo de fome, vamo em algum lugar comer.
- Vamo, vamo sim, eu to super laricado também – Respondeu Eduardo.
A maioria começou a se levantar, parecia que todo aquele discurso de Nicolas tinha momentaneamente cortado à embriaguez deles, estavam se preparando para pagar a conta, quando notaram que Sônia continuava sentada.
- Ué Sônia, você não vem? – perguntou Beatriz, mas a outra nem reagiu a pergunta.
De repente, Nicolas retornou sua mente das sombras e vendo que os jovens estavam indo embora parecia desesperado.
- Não meus queridos, me perdoem. Às vezes o meu jeito afasta as pessoas mesmo, eu sei disso, mas, por favor, não vão embora – Dizia tudo isso com as mãos juntas e cruzadas uma na outra, parecia uma criança implorando algo pra mãe – Se ofendi vocês, sinceramente me desculpem. Mas é que todas essas ideias, tudo isso que discursei pra vocês, comecei a pensar sobre exatamente quando tinha a idade de vocês, devia ser uma idade parecida com a de vocês. Fico pensando, se nessa época minha cabeça produziu essas coisas, o que deve estar fermentando nessas cabecinhas de vocês? Fiquem! Contem-me o que essas cabeças produzem, compartilhem comigo, por favor.
- Não tio, pra gente já deu. – respondeu Júlia – se não, você vai começar a dizer que nossas ideias são contraditórias e não sei o que. – se dirigiram então em direção ao balcão para poderem pagar a conta, mas deram apenas três passos e perceberam que Sônia ainda continuava imóvel e calada na sua cadeira.
- Sônia, você não vem? – perguntou Júlia.
- Não, to de boa. Pega esse dinheiro aqui, deve dar pra pagar a minha parte – e tirou da bolsa uma quantia de dinheiro, estendeu o braço e entregou pra Júlia, mal olhando para ela. Júlia então pegou o dinheiro, porém se abaixou e começou a cochichar no ouvido de Sônia:
- Sônia, eu não acredito que você vai ficar aqui com esse tio muito doido.
- Ai, eu não to com fome, podem ir sem mim, qualquer coisa eu ligo pra vocês.
Júlia deu uma risada inaudível e fez alguns gestos de negação com a cabeça e respondeu:
- Ou, você é muito doida mesmo. Mas você é quem sabe, qualquer coisa liga pra gente então. – Se despediram dando um beijo na bochecha de cada uma, os outros parecendo não acreditar se despediram somente com um aceno de mão.

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Conto de Natal

Será que somente eu estava sentindo aquilo? Não era possível, olhar em volta, olhar pro mundo e somente eu sentir aquilo. O aperto que sentia no peito, o choro travado na garganta que dificilmente explodiria, não era possível que ninguém mais compartilhava de tal sentimento perante a tudo que estava em nossa volta.
Mas no meio do caminho, bastou ouvir o arfar do peito do meu pai soltando um profundo suspiro, a engasgada na direção do carro e depois a acelerada forte pra entender que de alguma maneira o velho compartilhava sentimentos comigo. E que homem incrível era aquele, ao mesmo tempo era um dos motivadores de tudo isso que eu estava sentindo, mas ele era uma pequena peça.
A lembrança que tenho de acordar nesse dia era justamente ele entrando no quarto.
- Quer que eu feche a janela? Tá muito claro aqui.
- Não, não precisa, logo eu vou levantar.
- Mas por quê? Perguntou meu pai, em um tom sugerindo que eu deveria continuar descansando.
- Vou levantar pra estudar.
Simplesmente saiu do quarto. Pouco tempo depois meu despertador tocou, mas não levantei de cara. Estava num pequeno recesso do meu trabalho e resolvi vir visitar meus pais. Apesar de querer manter uma disciplina nos estudos e na escrita, resolvi ficar um pouco mais na cama, acho que acabei levantando só uma hora mais tarde.
Quando abri os olhos definitivamente, me deparei com a visão do meu antigo quarto em proporções muito menores, na verdade era eu que havia crescido, fisicamente é claro. As paredes de um branco escuro, tudo muito limpo, fruto do trabalho da minha mãe. Os móveis eram até novos, principalmente um guarda-roupas de grandes portas de correr, havia também uma bicicleta eletrônica e um ar condicionado portátil. Para completar o cenário, na parede figuram dois quadros: uma pintura de flores dentro de uma forte moldura e uma foto dos super-heróis da Marvel. Ao olhar tudo isso, fiquei triste pelas flores, tanto pela moldura que as sufocavam quanto pelos heróis que não estavam dando a mínima para elas, simplesmente pensando em salvar o universo para inflar ainda mais os seus egos.
Esse padrão de cenário do quarto, com móveis novos contrastando com uma aparência antiga do cômodo, valia para o resto da casa. Quando cheguei na sala dei direto com o meu sobrinho Hugo.
- Bom dia Hugo.
- Bom dia – Falou isso duma maneira um tanto mecânica sem tirar os olhos da televisão.
Tomei o café da manhã sozinho e voltei para o quarto para pegar meu violão e continuar tentando tirar uma música que comecei no dia anterior. Nisso lembrei-me de como foi a experiência com meu irmão e meu pai em relação à questão da música. Baixei umas cifras da internet e estava na tentativa de tirar algumas músicas que eu gosto quando percebi que meu pai estava escutando e então me cortou:
- Que isso hein. To achando que nesse trabalho seu deve ter sempre um violão a disposição porque você melhorou.
- É, no tempo que sobra eu tenho treinado.
- Se você continuar assim, daqui um ou dois, três anos você já vai estar fera – Ele sempre falava essa frase desde que eu era criança. Hoje em dia eu já não me importava mais, mas durante muito tempo eu pensava que o prazo tinha vencido e eu ainda não estava bom.
- É, o negócio é continuar treinando – respondi.
Nisso chegou meu irmão e percebendo logo do que se tratava mandou uma frase clássica:
- Cara, meu sonho é ouvir você tocando uma música completa.
- Não dá, não consigo.
- Todos eles são assim, isso me mata de raiva – comentou meu pai.
- Pois é, me mata também – concordou meu irmão.
Resolvi então tocar Knockin on Heaven’s Door do Bob Dylan, era muito fácil e talvez fosse agradar eles. Quando terminei, meu irmão bateu palmas.
- As primeira palmas que você mereceu.
Respondi com um sorriso seco. Meu pai então pediu para que tocasse uma música do Geraldo Azevedo, especificamente Dia Branco, baixei a cifra e comecei a tirar a música, mas logo no início fui cortado mais uma vez:
- Não, a outra você estava tirando no tom certinho, essa você não tá não.
- Calma, eu ainda to tirando a música.
Nisso, meu irmão colocou um vídeo na internet de um cara que fazia cover de Bruno & Marrone, meu pai observou um tempo e logo começou a pedir para que ele colocasse outras músicas. Continuei na minha durante um tempo, ainda tentando tirar minhas músicas e nesse momento percebi algo que sempre colocou empecilhos na minha vida em relação à música: é que na verdade o problema não era bem comigo, mas no fundo, por mais que dissessem que gostavam de música, principalmente meu pai, eles não tinham o mínimo respeito e incentivo com a mesma. Logo fui pro quarto e guardei meu violão.
Passado essa memória, continuei trabalhando mais um pouco em tentar tirar a música e depois apanhei um livro do Dostoiévski, no caso, Crime e Castigo. Filho da puta aquele russo, estava ainda nas primeiras páginas mas já dava pra notar a obra prima que era aquele livro. Um autêntico romance, pra mim ele e Balzac eram os maiores gênios da literatura. Conseguiam compor realmente criações esplêndidas, peças que se criavam entorno de uma tema central, mas que no decorrer desse tema várias outras questões eram inseridas, vários outros debates, debates filosóficos sobre a essência humana que transcendem até os dias de hoje, carregados de metáforas extremamente precisas. Será que um dia meus escritos seriam assim? Eu sabia que não, mas era possível ver na obra deles um caminho claro para se compor um grande trabalho, ao menos isso me dava um norte.
Mas as conclusões cruas sobre a vida que eles apresentavam me faziam pensar bastante sobre a realidade em que estava inserido e sobre meus objetivos de vida, eram conclusões na maioria das vezes tristes sobre o caráter da humanidade, não só sobre o caráter, mas sobre a própria condição miserável da humanidade e quando eu olhava em volta nesses dias de natal, tudo parecia confirmar tais conclusões.
Primeiro pensei no meu sobrinho Hugo, não só pensei como fui até ele.
- Você não quer ler um livro e sair um pouquinho da frente da TV. – Sabia que essa sugestão indutiva era ridícula e não concordava muito com aquilo, mas já estava ficando desesperado com o moleque grudado ali por várias horas.
- Não, não quero.
- Não precisava ser tão mal educado com o tio assim – Pior ainda essa frase minha.
Minha mãe ouviu isso e veio:
- Então agora, você também deu pra ser mal criado?
Ele simplesmente respondeu tudo isso só com uma risadinha maliciosa. Quando o danado do moleque pegou num livro, leu já esperando a hora que aquilo fosse acabar, sempre reclamando que era muito grande. Quando terminou e perguntei o que tinha entendido, me disse:
- Eu entendi, toda a história.
- Tá, tudo bem. Mas me diz o que tem na história?
- Se você continuar me perguntando assim, eu fico com vergonha.
- Tá bom, foi mal. Mas você não quer me contar nada da história?
Mais uma vez uma risadinha maliciosa.
- Você não entendeu nada da história, né?
- Não, eu não entendi nada – E caiu em gargalhadas.
Minha mãe pediu que lesse a história mais uma vez e ele fingiu estar dormindo e o caso se encerrou por aí. Nesse momento comecei a olhar mais atentamente para meu sobrinho e minha tristeza interior começou a se expandir ainda mais. O menino estava muito gordo, não que fosse necessário seguir as regras malucas impostas pelos atuais padrões de beleza, mas com certeza com todo aquele peso a saúde dele não ia lá muito bem. Passava horas e horas em frente à TV, assistindo uns desenhos que eram até legais, na verdade bem malucos, penso que deveriam ser bons pra imaginação. Mas afinal, qual era a concretude que ele dava para toda aquela imaginação? Gostava de desenhar, eu já havia insistido com minha mãe mais de uma vez para que colocasse o menino num curso de pintura, mas ela sempre negligenciava isso, preferia pagar as aulas de natação. Se nadava tanto, porque continuava gordo daquele jeito? Ele parecia ser um garoto de poucos amigos, na verdade, suas amizades pareciam se construir muito mais no mundo digital.
De onde veio tudo isso? Foi uma escolha dele? Foi influência dos próprios hábitos da minha família? Uma mescla das duas coisas? O mais provável é que realmente fosse essa mescla, mas será que a condição do garoto era parecida com das demais crianças? É claro que o recorte financeiro devia fazer diferença, mas quando eu refletia parecia que todas as crianças do mundo estavam cada vez mais fadadas à merda. Esse menino tinha salvação? Salvação do que? Salvação para que?
- O que você tá me olhando? – Perguntou ele.
Nem respondi, mergulhava tão profundo nos meus pensamentos que automaticamente meu corpo se levantou e se recolheu para seu casulo no quarto. Lá abracei mais uma vez Dostoiévski. A personagem principal era extremamente contraditória entre supostamente se suas ações eram certas ou não, ou se ela estava até mesmo acima de tudo aquilo. Que fazer o errado se justificava pelo certo que viria depois. Nada dos dilemas daquela personagem estavam ajudando a me livrar daquela tristeza expansiva, mas faziam com que mergulhasse ainda mais fundo nos meus pensamentos, chegou uma hora que simplesmente me perdi do livro.
- Preciso visitar alguns parentes. Sim preciso visitar eles, estão todos morrendo, estão todos moribundos, mas preciso encarar tudo isso de frente. Preciso visitar minhas duas tias, elas são as principais, uma já está bem velha, a outra teve um derrame. Preciso vê-las. Tem minha vó, mas ela veio me visitar ontem, como havia esquecido isso?
No dia anterior estava parado na porta da cozinha, em pé, sem camisa, só de bermuda, segurando uma grande caneca com água dentro. Provavelmente aquele era um dos momentos em que estava perdido também nos meus pensamentos, mas ainda não acometido pela mesma tristeza.
- Nossa eu vi um menino aí na porta e pensei: ué, quem pode ser?
- Pois é, sou eu vó. Como a senhora está?
- Eu to bem e você Miguelin? – Era o apelido que ela me chamava.
Minha avó estava com câncer desde o início do ano e era um dos graves. Já fazia uns quatros meses que estava fazendo tratamento em Barretos. Ao que tudo indica o tratamento estava progredindo bem e a velhinha estava aguentando fortemente, mas mesmo assim que ridícula minha pergunta: “como a senhora está?”. A gente sempre sabe que as pessoas vão continuar respondendo que estão bem, se fosse o contrário, se dissessem realmente como estavam, tenho certeza que a freqüência das perguntas diminuiria.
- Também to bem vó, só na correria mesmo – Que correria era essa? A dos corpos em movimento? Todos indo na mesma direção, ou seja, a cova? Tanto eu como ela estávamos nessa mesma corrida, a única diferença é que ela estava na frente do páreo.
- É, todos estamos meu filho – Respondeu-me ela.
- Cadê o resto do povo?
- Então. Meu pai e meu irmão estão ali desmaiados no sofá, já minha mãe ta tomando banho. Vou lá chamar ela.
- Não precisa não meu filho.
- Não tem nada não vó – Nisso fui até o banheiro, bati algumas vezes na porta e avisei minha mãe que minha avó estava ali. Quando voltei, ela estava sentada em uma das cadeiras que ficava em volta da mesa da cozinha, passando o olho pelo cômodo. Reparei então que estava usando peruca. Meus Deus! O que era aquilo? Ela ficava bem melhor careca, eu já a tinha visto uma vez assim ou também ficava melhor com seu lenço na cabeça. Mas aquela peruca veio como uma punhalada no meu peito. Talvez tenha sido ali todo o princípio da minha tragédia no Natal. O princípio da minha tristeza. Eu não conseguia tirar os olhos da peruca, minha avó conversava comigo, mas era como se estivesse falando em uma freqüência que meus ouvidos não compreendiam, só conseguia olhar para maldita da peruca. Aos meus olhos ela funcionava como uma terrível pincelada, na verdade várias pinceladas, uma verdadeira composição a parte da realidade que estava ali para me demonstrar concretamente todo o horror da condição humana que Balzac e Dostoiévski falavam sobre. Maldita peruca!
Pelo que eu me lembro, toda a conversa foi sobre uma tentativa de roubo a um carro forte na volta dela de Barretos. É, acho que realmente não passou disso. Mas e minhas tias? Eu precisava visitar elas de qualquer maneira. A visita de minha avó foi apenas o princípio, eu necessitava mais do que tudo ficar diante das duas, diante daquela condição. Precisava olhar para o cru da humanidade.
- Mãe, quando der, vamos visitar minha tia Soraia e minha tia Holga?
- Tá bom, assim que a gente almoçar a gente vai.
O almoço só foi sair no meio da tarde, mas como minha mãe disse, aconteceu. Pegamos o carro, meu pai foi dirigindo, eu ao seu lado sentando no banco da frente e minha mãe foi junto com meu sobrinho Hugo sentados nos bancos atrás. Minha tia Soraia foi a primeira a visitarmos. Ela não estava na casa dela, estava na casa de outra tia minha, ambas eram irmãs do meu pai. A distância era um pouco longa, acho que gastamos uns vinte minutos até lá.
Quando chegamos, minha tia Soraia estava na porta, sentada numa daquelas cadeiras de fio de nylon, fazia muito calor naquela hora e a maioria das pessoas tinha o costume de ficarem sentadas na beira da rua.
- Oi tia, como a senhora ta? Disse eu a ela.
Nisso ela abriu a boca e começou a chorar. Deu pra ver todos os dentes dela, eram bem curtos e tortos, não sei se estavam quebrados ou se simplesmente eram daquele jeito mesmo.
- Para de chorar so! – Minha mãe deu uma bronca nela.
Talvez pela bronca, talvez porque o choro já estava lhe cansando, talvez porque esqueceu o motivo de estar chorando, poucos minutos depois já parecia estar bem sossegada em sua cadeira. Minha outra tia estava no fundo da casa, vendo que chegamos veio ao nosso encontro nos receber.
- Oi tia, como você tá?
- To bem meu filho, e você? Parece que você ta cada vez maior ou é a gente que só ta encolhendo mesmo? – Essa piada era clássica na família, mas de certo modo acho que fazia sentido. Na medida em que os anos iam passando, realmente parecia que os mais velhos só iam encolhendo. Será que, quando velhinho eu também me transformaria em um hobbit?
- Vamos entrar pra dentro gente, vamos sentar aqui na cozinha.
- Não, vamos ficar lá fora mesmo – disse minha mãe.
- É, ta muito calor hoje, lá fora ta mais fresquinho. – Comentei também.
Então todos sentaram na porta da casa. Meu sobrinho seguindo os seus instintos mais primitivos começou a repetir várias vezes a mesma frase?
- Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate. Tia, me dá chocolate.
- O Huguinho não tem chocolate, mas tem aquela bolachinha de morango que você gosta, você quer?
- Não, eu quero chocolate.
- Hugo! Para com isso! Daqui a pouco a gente compra um chocolate pra você – Disse minha mãe para ele.
- Você quer ir no supermercado então? Haha eu já to oferecendo pra ela, pra gente ir no mercado tem mais de semana e ela não quer, agora de repente ela resolve ir. – Disse tudo isso em um tom brincalhão, meu pai, porque minha tia Soraia pediu pra ele que a levasse no supermercado.
- É que eu quero comprar umas coisas pra casa sabe? Um papel higiênico, um sabão pra lavar roupa, tem uma marca que deixa as roupas muito cheirosas, você só põe um pouquinho e rende até. Acaba que compensa.
- Então vamos lá – Nisso meu pai e tia Soraia entraram no carro e saíram, deixando eu, minha mãe, minha outra tia e o pequeno Hugo conversando a beira da rua.
- Tia, me dá bolacha – Pediu meu sobrinho.
- Vou lá pegar pra você fi.
- Não, vai lá e pega Hugo, você dá conta – Retrucou minha mãe.
Meu sobrinho levantou e foi buscar suas bolachas na cozinha.
- Hoje eu fui fazer uma omelete né, dae a Soraia não deixou eu fazer, falou que ela que ia fazer, que eu não sabia mexer com isso. Ou, mas ela colocou tanto ovo na omelete, um tanto de sal também, que acabou virando um ovo mexido.
- Ela perdeu a mão pra cozinhar né, depois do derrame? – Perguntou minha mãe.
- Perdeu, ela não tá muito boa pra cozinhar mesmo não, a omelete, aliás, o ovo mexido né, ficou super salgado.
- Nossa que estranho, minha tia Soraia era tão boa pra cozinhar.
- Ixi, depois que ela teve o derrame, até pra fazer crochê, ela não tá dando conta. Antes ela fazia um tapete enorme, num instantin. Hoje em dia, ela começa, vê que não tá dando conta, enfeza, desmancha tudo e joga pra lá. – Comentou minha mãe.
- Caramba! – Foi a única coisa que eu consegui dizer.
- E o Marcelo seu filho, ele ta namorando? – Perguntou minha mãe pra minha outra tia.
- Tá nada. A namorada dele deu um pé na bunda dele. Agora ele fica aí, quase todo dia enchendo o cú de cachaça. Mas se ele ta pensando que eu vou ficar sozinha, rumn, ele tá muito enganado. Eu vou só dar uma repaginada em mim, porque eu to meio caída e vou à luta minha filha.Você não gosta de ficar sozinho não, né Miguel?
- Quase ninguém nesse mundo gosta tia, são poucos que tem esse dom.
- Nossa, ficar sozinha é muito ruim. Você adoece, não tem ninguém pra cuidar de você, pra te dar um remédio, pra dormir junto, é muito ruim. – Respondeu minha tia.
- Não deveria ser assim né. Precisar casar, pra não ficar sozinho. Todo mundo poderia ajudar todo mundo, até mesmo aqueles que a gente não conhece. – Disse eu à ela.
- Pois é, que nem uma tribo né. Os índios que são assim. Às vezes, eu acho que eles é que são espertos viu. – Colocou sabiamente minha tia.
- Pois é, também acho tia.
Logo em seguida meu pai e minha tia Soraia retornaram trazendo as compras. Uma das compras inclusive, era um saco de bombons. Imaginem vocês, que mais uma vez movido por seu instinto primitivo, os olhos do meu sobrinho brilharam ao ver esse saco de bombons.
- Vovó me dá chocolate.
- Tá bom, vai lá e pega meu filho.
Ele já saiu correndo pra buscar os chocolates.
- Você já vai encher o menino de doces – Comentou meu pai.
- Ai, ele nem come o dia inteiro como você ta dizendo, come? – Minha mãe perguntou isso olhando pra mim, na esperança que eu fosse concordar com ela.
- Na verdade, come sim mãe. Ele come o dia inteiro assistindo televisão.
Então, Hugo voltou com as mãos cheias de bombons. Arrependida minha mãe ordenou que ele pegasse só um bombom pra ele e que desse os outros pros demais que estavam ali. Com os olhos cheios de água o menino começou a oferecer os bombons para as pessoas, numa tristeza que quase dava dó. No fundo era um bom menino, só estava sendo uma marionete do próprio estômago.
Passado esse episódio e por insistência do próprio Hugo, decidimos ir embora. Quando despedi da minha tia Soraia, abriu a boca pra chorar mais uma vez, mais uma vez foi repreendida pela minha mãe, a única novidade foi que meu sobrinho disparou a dar risada. Qual era a graça que via naquilo? Talvez a miséria e o cômico sejam muito parecidos e nem sempre as crianças saibam fazer a distinção entre eles.
Na volta pra casa, foi justamente o momento em que meu peito estava apertado, foi o momento que percebi que de algum modo meu pai compartilhava dos meus sentimentos, provavelmente por ter visto a situação em que se encontrava a sua irmã. Passei a viagem toda num absoluto silêncio. Quando chegamos em casa, assim que descemos do carro, avistei minha tia Holga fechando o portão da casa dela. Era vizinha nossa. Saí do carro e fui diretamente em sua direção.
- Tia Holga?
- Ô Miguelzin, nem vi que você tava aí. Faz muitos dias que você chegou?
- Faz não tia, eu cheguei ontem à tarde.
- Vamo entrar meu filho.
- Vamos sim tia.
- Então vamo ué.
Não sei se minha mãe estava esperando por isso, mas a maneira como eu aceitei o convite tão rapidamente, não restou outra alternativa a ela que não fosse entrar também. Descemos então a rampa para carros que dava acesso a garagem da casa e logo depois visualizava-se a porta da sala. Do lado esquerdo da rampa ficava o jardim dos meus tios, ainda era um jardim com muitas plantas, porém já não estava tão bem cuidado como na época em que eu era criança. Meu tio era muito zeloso com as plantinhas, na minha cabeça era o jardim mais bonito do mundo, não podia ser, mas pelo menos da rua era, todos ficavam admirados com as flores que meu tio cultivava. Mas ultimamente ele estava muito doente e já não conseguia levantar-se da cama e a saúde da minha tia já não estava das melhores também, sendo assim, eles não conseguiam cuidar do jardim com o mesmo zelo de antes.
Quando entramos na sala dei uma observada em toda ela. Que diferença! As paredes estavam com a pintura desbotada e em muitos lugares estavam cheias de reboco feito com barro. Na minha infância e quando meus tios eram mais novos, aquela sala era magnífica, tudo sempre muito limpo, os móveis brilhando e distribuídos de uma maneira que sempre se tinha aquela sensação de que ali naquela casa até o chuveiro era sério e respeitoso. Mas para além das paredes, havia poucos móveis na sala, somente um sofá encostado num canto, uma cadeira perto da entrada que dava acesso à sala de jantar e alguns colchões e estrados de cama encostados em outra parede. Lembro que ela começou a dizer sobre o seu neto, que havia dado um dinheiro para ele, mas a mãe acabou gastando e o menino ficou muito bravo. Mas de repente algo na conversa me chamou a atenção: ela disse que seu netinho não gostava de gente preta e de uma maneira muito natural. Como assim? O menino já tinha nascido com um dom pra nazista? Não, minha tia dizia tudo aquilo com um certo orgulho possível de ser lido nos seus olhos.
- Vamos embora então – Minha mãe já ia se levantando quando eu a interrompi.
- Meu tio tá dormindo tia?
- Vamo lá ver ele, vamo lá.
Acho que até levantei do sofá em que estava primeiro do que ela levantou-se de sua cadeira, depois nos dirigimos pro quarto. Meu tio estava deitado no centro de uma cama de casal encoberto por um lençol branco. Os móveis do quarto ainda eram os mesmos da época da minha infância, todos de madeira maciça e bem ornamentados: uma cama, um grande guarda roupas fixo na parede e de frente pra cama uma cômoda com um grande espelho oval ligado a ela logo acima. Minha cabeça girava por causa das perguntas que não paravam de surgir nela. Se meu velho tio conseguisse erguer um pouco a cabeça e olhasse naquele espelho, qual seria a visão dele? O que ele pensaria sobre?
Assim que entramos no quarto minha tia puxou o lençol que o cobria revelando que ele estava usando um fraldão.
- Bem, o Miguelzin tá aqui.
- Ahn? Ah sim, é, ele foi lá ontem... disse que tava lá. – Meu tio disse essas palavras duma maneira muito desconexa.
Minha tia estava sentada na beira da cama, enquanto eu e minha mãe estávamos sentados em duas cadeiras que davam de frente pra cama. Meu tio olhava fixamente para o teto e enquanto as duas falavam sobre as plantas do jardim, ele tecia comentários que não faziam nenhum sentido. Será? O que se passava na cabeça daquele velho homem? Pensar que um dia ele já foi tão forte. Conseguia derrubar um boi somente torcendo o nariz do bicho. Um dos meus antigos heróis naquela situação, a pele extremamente enrugada, parecia ser chupada pelos ossos, a carne já era muito escassa nele.
Tudo aquilo deixava-me cada vez pior. Por que eu tinha resolvido visitar eles? Quando as duas comentaram sobre as orquídeas que ficavam no quintal do fundo, era o pretexto que precisava pra sair daquele quarto e me levantei para ir ver as plantinhas. Assim que saí do quarto dei de cara com o velho banheiro mágico. Ele era todo azulejado com azulejos na cor de um verde água bem forte, lembro que quando tomava banho naquele banheiro parecia que me encontrava em outro universo. Agora figurava ali a cadeira de rodas do meu tio.
No quintal do fundo, seguia nas paredes e muros, grandes rebocos de barro fazendo assim um plano de fundo tenebroso para as pobres orquídeas. Conversamos ali mais um pouco sobre as flores que elas davam e quando minha mãe chamou para ir embora dessa vez não recusei, na verdade aceitei de cara.
- Não gente, fica mais.
- Não tia, a gente precisa ir embora, ainda to meio cansado da viagem. Preciso descansar.
- Tá bom meu filho, depois eu vou lá te ver então.
- Vai mesmo tia, to te esperando então.
Chegando em casa eu simplesmente desabei em um dos sofás, meu pai mais uma vez se encontrava desmaiado em outro. A sala estava escura, o sol já tinha se posto, liguei a TV e coloquei num canal de jazz clássico, essa era uma das poucas serventias que a TV a cabo dos meus pais tinha. Os solos de sax e trompete fizeram-me esquecer um pouco dos meus tormentos, acho que até cochilei um pouco.
Quando acordamos já estava quase na hora de irmos para a festa de Natal que ia ser na casa de uma prima distante da minha mãe. Lembro também que um pouco antes de começarmos a arrumar para a festa eu e meu pai tivemos uma discussão sobre os rumos que minha vida tinha que seguir.
- Eu ainda não conformo de você ter largado sua carreira acadêmica.
- Por que pai? Eu já te disse mais de uma vez que a faculdade abriu muito meus horizontes, mas hoje em dia se eu continuasse lá eu só me limitaria. Não quero mais ter que ficar cumprindo prazos e escrevendo coisas que ninguém lê pai, aquilo lá é uma grande bolha.
- Mas meu filho, se você realmente quer mudar o mundo, você precisa ter uma estrutura, você precisa ser alguém. Ser um doutor, um juiz, pra poder dizer como as coisas vão ser.
- Hahaha – não consegui conter o riso – Pai, você realmente acha que ocupar uma posição de poder dessas, vai adiantar? Você acha que eu não seria assassinado ou deposto?
- Ué meu filho, mas o lá da Amazônia também foi morto... o... o... o Chico Mendes.
- Pois é pai, pra mim tem que mudar tudo, não dá pra querer ficar subindo e depois mudar as coisas. Ma sei lá viu, eu ando bem descrente, eu tenho a plena ciência que as coisas só vão mudar quando as pessoas quiserem que mude, quando a maioria das pessoas fizer pra que mude.
Nisso o velho parou, mirou ao longe e disse:
- É, é tanta hipocrisia, tanta podridão, isso inclusive a minha volta, na minha própria família, eu não dou conta de fazer nada.
- Mas é porque a maioria das pessoas pensa assim, que não pode fazer nada, que as coisas não mudam.
- Fazer o que meu filho? O que é que eu posso fazer? Eu não to dando conta de ajudar os meus próprios irmãos.
Agora foi a minha vez de mirar ao longe. O velho também estava certo. Tanto eu como ele, sabíamos que o buraco era muito mais em baixo, na verdade, acho que a maioria das pessoas sabia disso, mas afinal, todo mundo tinha que sobreviver.
Na festa de Natal, tudo normal. Era notável que não haveria barracos como no ano passado, a família da minha mãe era muito mais contida e havia ali poucas pessoas. Quanto menos gente houver, menor o risco de barracos. Minhas primas estavam parecendo duas modelos, dois mulherões e uma delas tinha apenas quinze anos.
- Meus Deus! Você ta cada vez maior! – Falei pra ela quando a cumprimentei. Que frase de velho essa minha, ela nem se deu ao trabalho de responder-me.
E realmente o resto da noite foi bem tranquila, comemos muito, bebemos um pouco, contamos algumas piadas, fizemos a reza na hora da virada. Só teve uma tia minha reclamando sobre as músicas, de que não gostava de Pink Floyd e que preferia Gustavo Lima, vai entender né. E ela não estava já velhinha pra isso não? Enfim, acabamos voltando pra casa até um pouco cedo.
No dia seguinte, madruguei. Fiz minha mala, decidi colocar o pé na estrada. Escrevi um bilhete de despedida pros meus pais e deixei em cima da mesa da cozinha. Nele desejava feliz Natal pros dois e um feliz ano novo também, agradecia por toda hospitalidade e também dizia como os amava. Mas como assim? Vocês devem estar pensando. E toda aquela tristeza crescente, pra onde foi? Realmente é só um babaca amargurado, criticando tudo que vê.
A parte do babaca deve ser a maior verdade de tudo isso. Mas querem saber o real motivo da minha tristeza? O que me deixa mais triste não são as pessoas, mas sim a condição em que estamos inseridos. Ver as pessoas que amo nessa condição. Condição criada pela própria humanidade, me entristece saber que somos responsáveis por isso, por nossa própria cova e cada dia que passa estamos nos encaminhando pra ela. Todos nós, no meio disso cada uma faz suas acrobacias, mas não adianta, cedo ou tarde vamos estar como meu tio, olhando para o teto branco e caso consigamos erguer um pouco a cabeça vamos nos deparar com o nosso próprio reflexo, o reflexo de toda uma vida e que agora está moribunda e no fundo do espelho a morte nos olha e ainda dá uma piscadinha.
Abri a porta da cozinha, saí e antes de ir pra rua acendi um cigarro. Não costumava fumar, mas nessa ocasião que se foda, era a minha piscadinha pra morte também. Nisso meu tio Arnaldo chegou.
- Cara, você não tem um Legião Urbana aí, pra eu escutar?
Eu não era muito chegado na banda, mas fucei no meu celular, que não era dos mais modernos mas tocava música, e por incrível que pareça acabei achando algumas músicas do acústico deles.
- Tem essa aqui oh. – E coloquei a música pra tocar. Era Teatro dos Vampiros.
- Noh Renato Russo hein cara.
- Pois é – dei mais uma tragada no cigarro.
- Me arruma um cigarro?
- Arrumo sim. – Tirei um do maço e joguei pra ele, quando colocou na boca já acendi.
- Você ta aonde?
- To em Campinas tio.
- Campinas. O Mário Augusto fez medicina em Viçosa, ele até tentou passar em Campinas, mas não deu conta.
- É mesmo? Medicina lá deve ser muito concorrido né.
- Medicina cara, você tem que ser o... Ele morava com uns japoneses. Eu conhecia muitas pessoas, de todos os lugares. Conhecia os japoneses, os alemães, os europeus. PAIS E MÃES PASSEANDO COM OS SEUS FILHOS PRA CIMA E PRA BAIXO.
Nessa hora apaguei meu cigarro e senti um arrepio que começou no inicio da minha espinha e foi até o final. “Pais e mães passeando com os seus filhos pra cima e pra baixo”. Mario Augusto nunca existiu, o meu tio era esquizofrênico, mas nesse exato momento, com aquela frase entendi que diferentemente de nós ele estava livre de tudo isso. Será? Nunca iríamos saber, só isso já o colocava em outro patamar.
- Tchau tio. – Com os olhos cheios d’água abracei-o fortemente, acho que eu nunca havia feito isso antes. Virei-me e saí.

- Tchau Miguel – Meu tio nunca acertava o meu nome, aquela fora a primeira vez.