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domingo, 18 de setembro de 2016

a recíproca é verdadeira



eu sinto o blues o tempo inteiro,
todo dia.[1]
é minha sina, nasci com má sorte[2], dizem,
ao menos foi o que uma cigana disse a minha mãe[3]; 

nasci com o blues e pronto[4],

minhas 24 horas do dia cantam os blues
incansavelmente,
e eu canto junto.

afinal, se os problemas fossem dinheiro,
eu juro que seria um milionários[5];
como não posso perder o que nunca tive[6],
eu continuo bebendo[7] e esperando o sol bater na minha porta
algum dia[8],
pois os tempos são difíceis onde quer que você vá[9];

porque, sabe, é tão difícil amar alguém
que não ama você[10],
até porque ninguém me ama, a não ser minha mãe,
e olhe que ela pode estar bincando também[11],
mas logo eu estarei morto e dormindo a sete palmos do chão[12];

pois bem, é tanto blues na cabeça que
não sei se sou eu que sugo o blues,
ou se é ele quem me suga;
se eu o respiro ou se é o blues
que me re(in)spira.

André Espínola



[1] B. B. King – Everyday I Have The Blues
[2] Albert King – Born Under a Bad Sign
[3] Muddy Waters – Gypsy Woman
[4] Memphis Slim – Born With The Blues
[5] Albert Collins – If Trouble Was Money
[6] Muddy Waters – You Can’t Lose What You Never Had
[7] Pinetop Perkins – I Keep On Drinking
[8] Big Bill Broonzy – Trouble In Mind
[9] Skip James – Hard Times Killin’ Floor
[10] Son House – Death Letter
[11] B. B. King – Nobody Loves Me But My Mother
[12] Howlin’ Wolf – How Many More Years

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Gratidão



“Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade.”
― Charles Bukowski

sou grato porque
cheguei
entre trancos
e barrancos
a lugar nenhum;

pois se eu fosse um
bicho desses qualquer,
cuja existência se dá
na corrida entre os
mais aptos,

meu instinto de sobrevivência
há muito já teria
me matado.

André Espínola

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Salvifici Dolores



outrora os penitentes
eram mais felizes.

ah, Deus, perdoa!
não se faz mais
cilícios
como antigamente!


sexta-feira, 18 de março de 2016

Testemunho para o Futuro



dessa noite fria,

eu escrevo pra vocês
que,
como testemunho
da frágil democracia
brasileira,
em
dezoito de março
de dois mil e dezesseis,

o ódio é o amor dos nossos dias.

André Espínola

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Julgamento




Estava sentado no banco dos réus, disperso, com o olhar preso ao chão.

Que surpresa tive eu quando vi a mim mesmo no alto da tribuna determinando minha sentença:

- pena capital a todos os sabotadores da própria felicidade!

 nossos olhos úmidos entrecruzaram-se uma última vez.

 voltei a baixar a cabeça.

e pensei:
é justo.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

quando falas em fim


quando falas em fim
é como se,
de súbito,
num cataclismo apocalítico
de poucos segundos,
sugasses todas as cores
do meu mundo;

as cores
de uma viagem
ultra-psicodélica,
não apenas derretem
da nossa tela impressionista
como também param de cantar
quando falas em fim

restaria apenas
o blues solitário
que sai da caixa de som
contando histórias de idas e vindas
e corações partidos.

mas esse blues do fim do (nosso) mundo
que sai de teus lábios
quando falas em fim
é um blues que eu nunca poderia
sentar e cantar junto.

André Espínola

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Um Ato de Solidariedade


poupe-me da extrema-unção
e de seus planos funerários;
e poupe-se ainda
de pôr algumas moedas
nos meus olhos
para um barqueiro atarefado.

- não sirvo
para tais sacramentos -

mas quando a hora chegar,
basta-me levar ao Monte Kailash
e entregar-me aos urubus
que rapinam presos à Roda
do Samsara.

- e meu corpo será para eles
tal qual um banquete iluminado -

André Espínola

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Nós, O Rio e a Lua

Eu bem poderia
Ser o próprio Rio Capibaribe
Sempre preso no mesmo lugar,
Com suas águas escuras
Seguindo caminhos
Que nunca sabem onde vão dar.

Desde que tu fosses a Lua
E viesses todo dia
Me beijar.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Da aurora

da aurora
pouco
pode-se enxergar:
ou se está muito sonolento,
ou bêbado demais
abrindo/fechando bar.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

sábado, 18 de julho de 2015

Poesia Muda

Quando estiveres cansada
De ver sempre as três fatídicas palavras,
Todas juntas,
Nas minhas inúmeras
Posias de amor,
Tudo bem.

Fecha teus olhos
E com a visão escura,
Escuta.

Pois o silêncio que a boca declara,
É o meu amor também.

Em forma de poesia
Muda.

André Espínola

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Ponteiro do Tempo


Vivo a escutar
O tic-tac
Do relógio do tempo.

Não há minuto nem segundo
No único ponteiro que é o vento.

E faz as nuvens andarem
Por caminhos que não sabemos.

Que dá vida ao mar
Tornando seu líquido violento.
 
Movimenta nas árvores
Os galhos finos
E
Secos.

E corre.

C                 e

    o          r
         r
       
Assanhando teus lindos cabelos.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Poças de Mar

Nos teus olhos verdes,
Há duas pequenas poças de mar
Fora do oceano.

As águas são calmas,
E Netuno não é soberano.

Não preciso de vento
Nem de vela.

- Éolo que mande seus ventos
para outros cantos! -

Basta-me teu olhar,
Para neles seguir navegando.

André Espínola

sábado, 18 de abril de 2015

Outra Época



Hoje vivo n'outra época.
Cansei-me de ser negado,
E ver o silêncio do desdém como resultado
De ter sempre a morte como meta.
Deitava-me na cama olhando o céu negro
E sonhava com a sua presença ao meu lado,
A morte viva em meu leito,
Enquanto eu era pela sua vagina devorado
Para no final, com rosto pálido,
Ser abandonado por um beijo.
Mas ela nunca aparecia.
Tentei de tudo:
Rezei a deuses antigos,
Juntei palavras em poesias
Mas nem assim, como mendigo,
Ela sequer uma carícia me fazia.
Hoje vivo n'outra época.
Cansei-me de ter sempre a morte como meta.
Pois então, dane-se!
O pássaro se cansa quando o horizonte não chega,
O verso desiste da mente do poeta,
E o fracassado joga fora sua coleção de perdas.
Agora para a morte não estou nem aí!
Se quiser, ela que venha atrás de mim.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

quarta-feira, 18 de março de 2015

Do outro Lado do Globo


Tem noites tão noites,
Que de tão escura e fria,
Nem parece que em algum lugar

do outro
lado
do globo

Há um sol que ainda
Brilha.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Se eu fosse qualquer coisa

Se eu fosse amor,
Queria ser solidão.
E sendo solidão
Ia casar, ter filhos
Como quer
Toda e qualquer
Solidão.

Se eu fosse peixe
Queria ser camarão.
E sendo camarão,
Queria ser um
Mamífero de duas pernas,
Porque não gosto
Nem de peixe
Nem de camarão.

Se eu fosse pedra,
Queria ser a água
Que bate nela.
E sendo a água
Que bate na pedra,
Queria ter um pouco
A maciez dura
De um poeta.

Mas se fosse poeta
Seria louco
E ia querer ser eu mesmo.

E sendo eu mesmo
Queria ser qualquer um desses.

André Espínola

domingo, 18 de janeiro de 2015

Pagamento do Dia


vista cansada
sombras dormidas
em assombradas casas.
e uma dor
paga
à vista.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Aparecimento

hoje eu te apareço
como um sol que foge
das horas
e aparece de surpresa
no meio da noite.

como gotas de chuva
que caem de um céu azul
isento de nuvens
cinzentas ou brancas,
como neblina estranha
que invade o Recife
e engole os seus
arranha-céus.

e enfim te apareço
como assaltante
ao assaltado,
ou o semblante
surpreso
ao ver o amante
não anunciado.

André Espínola

Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Sobre quando o céu desaba


Quando o céu desaba
e as nuvens caem
feito escombros,
para mim tu és como Atlas,
e carregas meu mundo
nos ombros.

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

sábado, 18 de outubro de 2014

Gênesis do Meu Mundo

O céu tingido de negro
é a obra-prima
D'algum deus sóbrio
Que só dispunha
D'uma tinta.
As outras, extintas,
Um deus bêbado derramou

André Espínola

(Poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Do Olimpo

Do Olimpo



no olimpo
não há faxineiras.
há cálices
sangrando nos
corredores
e deuses
junkies
desfalecidos
pela sala
com gozo pintado
em paredes inteiras.
e é sempre tudolimpo

André Espínola

(poesia presente no Ebook "Apenas Cinco Minutos")