sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Chico Mentirinha


Já passavam das quatro da tarde e eu ainda não havia forrado o estômago. Coisas de caminhoneiro que, levando a vida rasgando estradas do Brasil por dias a fio transportando na cabeça a preocupação em ser fiel a horários e deixar a carga sã e salva no seu devido destino, se esquece até do básico para a sua sobrevivência: alimentar-se.
A fome soou feito buzina de carreta, revirando as tripas. Ao sinal do estômago, decidi estacionar o caminhão no primeiro posto de gasolina que avistei. Era uma parada já conhecida, ponto de encontro de caminhoneiros oriundos dos quatro cantos do País. Queria matar a fome e bater um papo mas, pelo adiantado da hora me deu a certeza de que ali eu não teria nenhum colega de estrada para me fazer companhia durante o rancho. Detesto comer sozinho porém, os anos passados dentro das boléias se não me fizeram acostumar com as refeições solitárias ao menos me deram resignação e paciência para lidar com estes problemas miúdos.
Estava eu devorando com satisfação o prato feito que a cantina do posto tão bem servia quando Chico Mentirinha apareceu. Aparição, ao estilo dos fantasmas, foi a melhor expressão que me veio à cachola naquele momento para definir o surgimento do Chico. Nem notei o ronco do motor de sua carreta estacionando. Quando dei por mim, ele já estava se sentando ao meu lado, sem cerimônia, carregando aquela cara de mentiroso tão folclórica entre nós, irmãos caminhoneiros. Trajava chapéu de vaqueiro, camisa listrada, jeans justos seguros por um cinto cuja fivela gigantesca chamava atenção pelo brilho cintilante. Os pés estavam cobertos por um par de botas marrons um tanto empoeiradas. Lembrava um personagem de filme de faroeste. O próprio Chico costumava afirmar ter sido Cowboy nos States e tomado parte em rodeios montando cavalos chucros. Ninguém dava crédito à história.
Chico pediu um PF. Enquanto mastigava, começou a deitar prosa. Fazia jus ao apelido que os companheiros de profissão nele haviam posto, afinal, seus casos narrados, recheados das mais absurdas cascatas, faziam sua fama. Chico era motivo de chacota por onde botasse os pés e, como eu estava solitário e afim de um bom passatempo, festejei o encontro. Seria um pouco de diversão trocar uns dedos de conversa com aquele mentiroso pouco antes de dar prosseguimento a minha viagem.
Naquele final de tarde, Chico Mentirinha estava possesso. Contou-me uma história disparatada.
— Léo, tu me imagina o que aconteceu com o seu amigo aqui! Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo.
Chico acabara de soltar dos lábios sua frase predileta: “Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo”. Preparei-me para o tamanho da lorota acendendo um cigarro.
— Lembra daquela greve de fiscais de pesagem semana passada no Rio Grande? Pois é, eu estava lá com um carregamento de sementes de girassol. Chovia Léo, parecia que Deus havia mandado um segundo dilúvio. Fiquei mais de uma semana parado naquela fila maior que a muralha lá das chinas, esperando pesarem o caminhão para liberarem a carga. Quando finalmente me autorizaram a seguir caminho, eu já tava mais atrasado que noivinha no dia do casamento. Então eu nem pensei duas vezes: sentei bota no acelerador sem dar atenção para a carga que transportava. Foram quase dois dias guiando direto, quase sem dormir. Até que uma hora, veio um desassossego com o estado da carga. Fazia mais de uma semana que eu não dava uma espiada nas condições do frete que estava carregando. Parei o caminhão no acostamento e levantei a lona para conferir. Qual foi a minha surpresa? No meio das sacas haviam brotado uma dúzia de girassóis enormes, iguais aqueles do quadro daquele cara que arrancou a orelha, Van sei lá o que! E como cheiravam os danados! Lindos, com os caules taludos, parecendo um braço de tão grossos! Passei tanto tempo parado na fila da pesagem que deu tempo das sementes germinarem!
A incredulidade em forma de ironia deve ter fincado estaca em meu rosto, pois Chico Mentirinha encarou-me com aqueles olhos de "tá duvidando?".
— Tá pensando que é mentira, não?
— Que é isso, Chico!
— Pensa que eu não sei? Todo mundo por estas estradas vive dizendo que eu sou cascateiro.
— Não penso assim - menti.
— Pois eu vou te provar
Pediu nossa conta na cantina e fez questão de pagar. Seu semblante estava acabrunhado. Segui o "cowboy" até o seu caminhão me espremendo em desculpas, dizendo que nossa amizade não poderia acabar por causa de bobagens que os outros espalhavam.
Mas Chico não me dava ouvidos. Decidido, subiu na carroceria do caminhão começando a desatar alguns nós que prendiam a lona. Descobriu então a carga e exigiu que eu também subisse e olhasse.
Confesso haver sido assaltado pelo medo do que poderia encontrar dentro da carroceria, mas tomei coragem e olhei. Não contei o número de girassóis nascidos entre aquelas sacas de semente que cobriam todo o compartimento traseiro do caminhão, mas eles lá estavam, estupendos espécimes atestando a história do Chico. Ele sorriu vitorioso.
Segui meu destino desbravando quilômetros de asfalto com a história dos girassóis em mente. Deixei meu frete no Porto de Santos e rumei para casa com a imagem do Chico me atormentando. Pensava em como a gente costuma generalizar conceitos. O cabra mente uma vez e pronto. Não se passa recibo em mais nada do que ele diz.
Finalmente o lar. Abracei a esposa, beijei minhas crianças, estava de volta. Como é bom retornar para a família. Só que é caminhoneiro compreende o quanto aqueles que amamos fazem falta na solidão das estradas.
Durante o jantar, contei tintim por tintim o caso dos girassóis para a minha esposa. Ela olhou desconfiada e, para a minha surpresa, decretou:
— Deixe de ser bobo, homem. O Chico é tão mentiroso que é bem capaz dele de véspera ter comprado uns girassóis e enfiado entre as sacas só para dar fiança a mentira que ia ele contar para o primeiro que cruzasse com ele. E o trouxa foi você. Acorda Léo!
Sorri diante da bóia fumegante servida pela esposa concluindo que nunca saberei a verdade sobre o episódio. Que Chico Mentirinha continue por este mundão animando a vida de nós caminhoneiros com suas invencionices.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Homem bonito


Sempre achei que uma das maiores tragédias que podem acontecer a uma mulher é amar um homem bonito.

Claro que o pobre homem que teve o azar de nascer bonito não tem escolha, tem que conviver com isso, mesmo. Um dia ele se ligará a uma mulher, e vai condená-la, por amor, a uma vida de tragédia.

Certamente há tragédias maiores, grandes e súbitos desastres, perdas terríveis. E, dentre as tragédias cotidianas, há também muitas mais facilmente identificáveis como tal, pequenos cotidianos doloridos. Comparadas a essas, que todos concordam serem desgraças, a tragédia de que falo parecerá talvez insignificante.

Falo da dor de se viver a cada dia o pequeno problema de ter que estar ao lado desse homem. A tragédia de ter que ver a cobiça se acender no olho de cada mulher que olhar para ele.

Mulheres não são naturalmente traiçoeiras e falsas, não: isso é mito; como é mito a amizade incondicionalmente leal entre homens. Do que tenho visto do mundo, as amizades entre mulheres são tão incondicionais e tão cheias de lealdade quanto as masculinas. Mais, até. Mais capazes de abnegação e altruísmo. Mas a coisa a que me refiro aqui é cobiça em estado absolutamente bruto, uma coisa involuntária e indomável, independente das boas intenções, da boa formação ou do bom caráter de uma mulher.

Claro que isso de beleza é questão de gosto. Além disso, quase todo o mundo que conheço descreve um tipo físico ideal e acaba se casando com outro quase oposto (estou falando de casamentos como se ainda fossem eternos, mas é assim que gosto de pensar neles.).

Eu, por exemplo, casei com um homem que acho bonito, mas não é disto que falo. Não falo do simplesmente “achar”: falo do tipo de beleza que não é “questão de gosto”; que é indiscutível, que é consenso absoluto.

Tive sorte, cresci dizendo que queria um homem muito alto e muito magro, de cabelos escuros, olhos verdes e que usasse óculos. Alguém com cara de sábio, mãos longas, voz grave, essas coisas. Encontrei um homem exatamente como descrevi, mas não posso deixar de perceber que ele é o que 'me' interessa, e que deve haver muita mulher que não concorda comigo. E lembro de pelo menos dois casos de moças que me descreveram seus maridos como sendo lindos – não era 'modo de dizer', elas realmente acreditavam que isso era um fato indiscutível – e quando vi os moços em questão (aliás, muito parecidos um com o outro, embora não se conheçam), tinham uma aparência que não me faria olhar duas vezes, a não ser para torcer o nariz. Mas aprendi que é um tipo que agrada a muita gente...

Não é disso que falo: não estou falando de pessoas de beleza 'normal', a quem algumas mulheres achem bonito e outras achem feio.

Falo de um arquétipo.

Falo de beleza arquetípica, a imagem que os príncipes encantados têm nas ilustrações dos contos de fadas e está gravada no inconsciente de cada menina. Existe homem assim? Existe.

E, voltando ao início da conversa, uma das grandes desgraças que se pode enfrentar no cotidiano é ter de viver ao lado de um desses homens. Não é de hoje que digo isso, não. É coisa que sempre achei. Se tiver que dar um conselho a uma filha, será: fuja de homem bonito! Cuidado! Mais ainda se tiver um olhar cristalino, através do qual se vê a alma pura. É príncipe encantado pra ninguém botar defeito. Quanto mais ele for 'bom', mais difícil será a vida da mulher que ele escolher.

Talvez isto não seja assunto para uma crônica. Talvez eu devesse falar sobre mulher bonita, e aí me entenderiam melhor. Vou falar disso então: a coisa de que falo é muito diferente de um homem viver com uma mulher que faça todos se voltarem quando ela passa. Deixando de lado o fato de que ter mulher linda é, entre outras coisas, um atestado de status.

Vejo que existe entre os homens um certo respeito pelo fato de que uma mulher 'tem dono', está acompanhada, é casada, comprometida. Claro que isso não isenta essa mulher de paquera, mas é quase que uma paquera perfunctória, um atestado de masculinidade que o paquerador dá a si mesmo quando olha para ela de alto a baixo, quando lhe diz algo lisonjeiro ou quando troca com outros homens um comentário cúmplice. Uma mulher a quem você é apresentado como "a esposa de fulano", por mais atraente que seja, tem de certa forma um X invisível sobre seu corpo, algo que a identifica como 'artigo proibido'. Pode até ser que a própria condição de coisa proibida venha a torná-la cobiçada, eventualmente, mas não é nada disso o que acontece com mulheres quando deparam com a encarnação do Príncipe Encantado. Desgraçadamente, devido às ilustrações dos contos de fadas, ele tem o mesmo rosto, na imaginação de cada uma.

Mulheres crescem com a convicção de estar destinadas ao Amor. E se o Amor – o Príncipe Encantado – cruza seu caminho, uma mulher vai fazer qualquer coisa para obtê-lo, quer ele tenha outra ao seu lado, quer não. A enorme diferença está no fato de que, para ela, não há nada de errado nisso: está apenas lutando pelo que acredita ser seu, de pleno direito!

Enquanto um homem vai pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa para conquistar a musa que tem dono, uma mulher não hesitará em derrubar tudo, em destruir a própria vida e a dos outros em troca da possibilidade de um Felizes Para Sempre ao lado da encarnação do Príncipe dos contos de fadas. A pobre companheira a quem ele escolher terá de viver para sempre sendo desafiada em seu posto de Amada e tendo de comprovar a cada segundo seu poder de sedução, o que quer que tenha sido a coisa nela que atraiu a esse homem bonito. Quer tenha sido o bom-humor, a sensualidade, a meiguice, a inteligência ou mesmo a beleza dela (que nunca chegará aos pés da beleza dele), e ainda que tenha sido alguma coisa indefinível que o tempo não pode alterar, ela enfrentará a cada dia de sua vida o olhar pasmo de desconhecidas que terão, ao olhar para o homem dela, a Visão de alguém com quem sonharam e que por fim encontram. E a perceberão não como alguém a quem se pretende sacanear, mas como a Usurpadora que está levando aquilo que por direito lhes estava destinado (“O que ele viu nela?!”). Essas mulheres, caros amigos e amigas, lutarão pelo Amor. Com razão, talvez?

Por mais bem intencionado que esse belo homem seja, não há relacionamento que resista a isso. Ao teste diário e repetido, à constante necessidade de reafirmação da escolha. É estresse pra ninguém botar defeito.

E aí? Isto é tragédia ou não?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


VAGINA


------------------------------------------Eduardo Perrone..........................


Quase sempre

Essa gente imagina

Saber onde nasce

A vagina.


Mas não o sabem.


Nasce na descoberta

Da menina,

De que a fenda aberta

É quase uma certa sina,

É quase um atestado de gênero,

Genericamente

Falando.



E se é de orgão sexual

Que pensem que estou falando,

Eles erram novamente.

E novamente não o sabem.



Quantos mundos

Numa vagina cabem...?

Ouço falar de penetrações múltiplas,

E de céleres desculpas

Que afirmam o que não foi.

E fica, então,

A vagina como ilustre desconhecida.


Que gosto tem?

É de onde sai o neném?

Porque os pelos?

Precisava ser vazia...?



A vagina

Arrepia

Quem dela nasceu.

Quem a cheirou,

Degustou

Sentiu

Percebeu...


A vagina nasceu

Quando morreu

A última mulher

Que não a percebia.

Quando essa mesma mulher

Agonizava na primazia

De ser, tão somente, mulher

E nada mais.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Raimunda



Raimunda era uma mulher infeliz, muito infeliz. Obrigada a passar os dias reclusa, trancafiada em seu pequeno quarto sem janelas, longe dos olhares curiosos dos vizinhos e parentes. A única pessoa com quem tinha contato era sua mãe. Diariamente, Dona Jurema levava-lhe as refeições e passava alguns minutos na companhia dela, em silêncio. Não havia espelhos no quarto. Raimunda sabia o porquê. Nascera com um defeito congênito, um defeito que fazia dela um ser bizarro, diferente, uma anomalia ambulante: tinha cara de bunda e bunda de cara. Isso mesmo, por alguma razão que só Deus - ou o Diabo - sabiam, seu corpo havia se formado com essa estranha inversão. Só essa. O resto estava todo em seu devido, anatômico e fisiológico lugar. Ou quase. Em seu rosto ou, melhor dizendo, em sua bunda que ficava no lugar onde deveria estar o rosto, havia aquilo de que toda bunda é dotada: um ânus. É. Raimunda não tinha só cara de bunda, tinha cara de cu.
O parto de Raimunda deu um tremendo trabalho à Dona Sebastiana, a parteira. Trabalho e um baita susto. Por pouco, ela não caiu desacordada sobre o ventre da paciente quando viu brotar de suas entranhas aquela coisinha miúda, sem cabelos e provida de um rechonchudo par de glúteos no lugar onde deveriam estar olhos, boca e nariz. Saiu desabalada porta afora quando, ao procurar a origem daquele choro agudo, deu de cara com aquele rostinho angelical, de bochechas coradas e olhinhos azuis. Dir-se-ia um lindo rosto se acaso não estivesse situado em local tão impróprio. A carreira da parteira terminou em tragédia sob as rodas da carreta carregada de cuecas e calcinhas, contudo, tão desventuroso destino mostrou-se oportuno àquele pequenino ser humano recém-vindo ao mundo dos humanos humanos e desumanos: preservar-se-ia o segredo. Sabe-se lá por quantas mãos de especialistas-cientistas-curiosos Raimunda não teria de passar caso seu caso fosse dado ao conhecimento geral. Mas isso não aconteceu, Dona Jurema guardou muito bem guardada, trancou muito bem trancada a razão de seu infortúnio: Raimunda, a bela menina com cara de bunda.
Raimunda cresceu. Aos dez anos, quando começou a fazer suas necessidades defecatório-fisiológicas sozinha, tinha enorme dificuldade em acertar o vaso sanitário. Acabava sempre cagando no chão do banheiro e na tampa do vaso. Se estivesse com diarréia, então... era merda para todo lado. Com o tempo e a prática, foi-se adaptando ao mundo que não havia sido projetado para ela.
O tempo passou, Raimunda chegou à maioridade, imersa na solidão melancólica de seu quarto, cujo mobiliário era modesto como sua vida: uma cama de solteiro, um criado-mudo, uma estante com alguns livros e um aparelho de televisão com imagem em preto e branco, sua única janela para o mundo. Gostava de novelas e filmes românticos. Apaixonou-se um sem número de vezes por um sem número de atores. Numa fria noite de inverno, descobriu seu especial interesse por homens narigudos, enquanto assistia ao filme Cyrano de Bergerac, protagonizado por Gérard Depardieu. Era romântica, sonhadora, amava a vida com ardor, ainda que não soubesse o que era a vida além daquelas quatro paredes.
Certo dia, Raimunda sentiu um forte cheiro de perfume e ouviu uma voz masculina advinda de outro cômodo da casa. Pelo teor da conversa e os risos abafados, parecia que mamãe tinha arranjado um namorado. Sairiam para jantar. Raimunda esperou. Quando ouviu a batida surda da porta principal da casa e o subseqüente silêncio, tratou de movimentar a maçaneta. A porta abriu! Sua mãe, provavelmente sob o efeito do frenesi causado pela expectativa de estar novamente com um homem, havia esquecido de trancar a porta do quarto. Finalmente, após longos dezoito anos, Raimunda saberia como eram as coisas do lado de fora de sua prisão. Foi andando de costas, de modo a ver por onde andava. Conheceu o quarto de sua mãe, a pequena cozinha, o banheiro, a sala. Voltou à cozinha, vira algo que lhe chamara a atenção. A porta! Havia uma chave no interior da fechadura. Girou a chave, a maçaneta e... ar puro, finalmente! O frescor da atmosfera noturna atingiu em cheio seu rosto. Quedou-se vários minutos respirando aquele bendito ar. Por que sua mãe a havia privado disso por tanto tempo? Ensaiou um primeiro passo porta à fora e recuou, o medo do desconhecido a atingiu em cheio. Como um animal que permanece muito tempo enjaulado, foi tomada do receio de abandonar a segurança de sua cela. Sabia que era arriscado sair porquanto sabia que era uma mulher diferente, suas mãos, seus olhos e o monitor do televisor desligado lhe mostraram o que sua mãe tanto esforçou-se por lhe ocultar. Mas o desejo de liberdade, a curiosidade, a vontade de ver ao vivo e a cores tudo aquilo que assistira em cores neutras na tela do pequeno eletrodoméstico falaram mais alto. Hesitantemente, deu alguns passos no quintal de sua casa. Chegou ao portão que dava para a via pública. Estacou. Era o passo mais difícil. Respirou fundo. Puxou o trinco. Escancarou o portão. Estava na rua. Estava livre.
Caminhou devagar, deslumbrando-se com cada casa, cada prédio, cada árvore, cada poste, cada letreiro luminoso que encontrava ao longo da calçada. Na primeira esquina, descobriu o mal que habita a alma humana. Uma gangue de skinheads, ao redor de um latão em chamas, planejava seu próximo ataque em prol da supremacia branca. Raimunda tentou retroceder, mas era tarde: haviam-na avistado. Pensou em correr, mas o medo e a convicção de que não desenvolveria suficiente velocidade paralisou suas pernas. Limitou-se a virar-se de costas e fechar a abertura do manto com zíper, tapando seu rosto. Usava um manto negro, uma espécie de burka, que cobria seu corpo da cabeça aos pés. Sentia uma forte pressão, um turbilhão no estômago, como se lá houvera uma cambada de gatos em conflito. A gangue aproximou-se, rodearam-na. O mais alto, que parecia ser o chefe, disse:
- Ora, vejam só. Uma muçulmana perambulando sozinha nas ruas a uma hora dessas. Mamãe não te avisou que isso é perigoso, moça?
Raimunda não respondeu, todos os pêlos de seu corpo eriçaram-se, o estômago dava voltas e voltas, a pressão recrudescia perigosamente.
- As ruas estão cheias de indivíduos malvados que adorariam encontrar uma muçulmanazinha indefesa para distraí-los.
- Deixa a gente foder ela, chefe! - pediu um careca baixinho.
- Calma aí! Primeiro vamos ver a cara dessa puta.
No mesmo instante em que o chefe dos carecas arrancava, de supetão, o manto de Raimunda, ela perdia a batalha contra seu estômago. O jorro diarréico atingiu em cheio o rosto do líder do grupo, cobrindo-o de merda de cima a baixo. Ao ver Raimunda do jeito que viera ao mundo, os espavoridos carecas debandaram, atropelando-se uns aos outros, aos gritos de "alienígena! alienígena!"
Raimunda usou as páginas de um livro - Mein Kampf - que um dos skins havia deixado cair na fuga, para limpar-se. Vestiu-se. Recompôs-se. Pensou em voltar para casa mas ouviu música. Decidiu verificar a origem do som, a vitória sobre os carecas incutira-lhe confiança no espírito. Era um circo. Ela vibrou! Sempre quisera assistir a um espetáculo circense. Mas, com aqueles trajes, andando de costas e sem dinheiro para o ingresso, como entraria? Teve uma idéia. Esgueirando-se furtivamente em torno da tenda, encontrou um pequeno rasgo, por onde, ainda que com apenas um olho, podia ver o que se passava lá dentro. E o que viu fez seu coração palpitar: um homem baixinho, com pernas onde deveriam haver braços e braços onde deveriam haver pernas, fazia malabarismos com bolas e pinos, enquanto um palhaço de duas cabeças discutia e dava tapas em si mesmo, arrancando gargalhadas da platéia. Então, havia outros como ela! Não era a única diferente, a única anomalia ambulante na face da Terra! Continuou a assistir ao espetáculo. Viu trapezistas com quatro braços e quatro pernas, com pés no lugar de mãos e mãos no lugar de pés; um homem que não tinha olhos nem nariz, só uma enorme boca com a qual engolia quarenta e cinco espadas ninja; uma mulher gorda que peidava fogo, parecia um lança-chamas humano; outra que possuía vinte e dois seios ao longo do corpo, dava de mamar a vinte e duas crianças; o homem-galinha, que tinha penas, bico, cacarejava e comia milho. Por fim, o apresentador anunciou a atração principal da noite:
- Que rufem os tambores!... Respeitável público, El Gran Circo De Los Horrores tem o prazer de lhes apresentar o astro maior de nossa companhia, ele já foi político, juiz, empresário, escritor, ator de filmes eróticos, servidor público, policial, jornalista, michê, rufião, modelo vivo, operário em fábrica de preservativos, ele não precisa matar a cobra para mostrar o pau, ele ajoelha para rezar e também para mijar, ele não é metafórico, não usa Jimo Cupim, ele é dotadão, ele é... Ni-co-lau, o Ca-ra-de-pauuuuu!!!
A explosão de aplausos acompanhou, sincronicamente, os batimentos cardíacos de Raimunda. A taquicardia somada ao calor que lhe assomou ao corpo não deixava dúvidas: fora atingida pela seta inflamada do Cupido. Com o coração aos pulos, sem piscar os olhos, assistiu ao número do homem moreno, alto e musculoso que exibia, despudoradamente, um avantajado e portentoso pênis ereto no exato lugar onde deveria estar o nariz. O homem ergueu toalhas encharcadas, bolas de ferro, alteres, anões obesos e outras pesadas coisas mais com o pênis. Foi suspenso por uma corda amarrada ao bilau e voou sobre as cabeças dos boquiabertos espectadores. O gran finale consistia numa espécie de arremesso de porra à distância: o homem tinha de acertar um pequeno balde posto a uns cinco metros de onde estava. Silêncio total na platéia, momento de expectativa, tambores em pianíssimo. Alguns fotografavam, outros filmavam. O homem masturbou-se, masturbou-se, masturbou-se e... veio a primeira golfada de sêmen. Subiu, subiu, subiu - ninguém respirava - depois, em curva descendente, desceu, desceu, desceu e voilá! Acertou o centro do balde, sem respingar sequer uma gota no picadeiro. O público foi ao delírio, palmas, assovios, uivos, gritaria, algazarra total. Mas, decerto, ninguém vibrou mais que Raimunda, seu coração, sua alma, seu corpo, seu sexo clamavam por aquele homem.
Raimunda escondeu-se atrás de uma das rodas de um dos caminhões que compunham a frota circense. Aguardou, com ansiedade, a saída do público, o recolhimento dos artistas, assistentes e funcionários, o apagar das luzes. Pé ante pé, deslocou-se até o trailler onde se lia, em letras roxas: "Nicolau, o Cara de Pau". Hesitou, à porta, por alguns minutos. "Ele vai me atender ou me enxotar? Serei bem recebida? Ele vai gostar de mim?" Entretanto, essas dúvidas, esses temores naturais não vingaram ante a chama avassaladora que devorava Raimunda. Bateu. Três batidas secas. "Quem é?" - indagou, de dentro, uma voz grave. "Meu nome é Raimunda. Preciso falar com você." - parecia que seu coração pulsava na garganta e seria cuspido a qualquer momento. A porta abriu-se devagar. Nicolau, com seu nariz-pau descomunal, agora murcho, ficou olhando para os cabelos de Raimunda. "Aqui embaixo." Nicolau baixou os olhos, a glande roçou seu umbigo. Seus olhos se encontraram, tudo dependia daquele encontro de olhares, da mensagem muda que seria mutuamente transmitida. Gostaram do que viram. Nicolau sorriu, Raimunda sorriu. "Posso ajudá-la?" "Desculpe incomodá-lo a essa hora. É que assisti ao espetáculo e gostei muito da sua apresentação." "O que é isso? Incômodo nenhum. Entre, por favor." Raimunda não conseguia parar de sorrir. "Sente-se, fique à vontade. Aceita um uísque, uma cerveja, um refrigerante?" "Uma cerveja, por favor. E prefiro ficar em pé, se sentar, não conseguiremos conversar, você compreende?" "Oh, claro. Desculpe-me. Vou pegar as cervejas." Conversaram e beberam durante horas, cada qual contou sua história. Nicolau, que tinha o dobro da idade de Raimunda, disse-lhe haver descoberto a inexistência da normalidade humana, todos, absolutamente todos os homens tinham algum defeito, fosse no corpo, na mente, na alma ou no coração. "Há homens que, embora possuidores de um físico perfeito, apresentam toda sorte de defeitos morais, são homicidas, sociopatas, egoístas, avarentos, corruptos, degradados, dissolutos, ladrões, invejosos, estelionatários, escroques, a lista é gigantesca. Perto desses homens, somos as pessoas mais lindas e sãs de todo o mundo." - argumentou Nicolau. "Por falar nisso... Como você é bonita." Raimunda corou, mas não se esquivou do beijo. Percebeu que algo se mexia no rosto de Nicolau, era, obviamente, o pau, que crescia e endurecia assustadoramente. Mas Raimunda não se assustou, pelo contrário, entregou-se por inteiro àquele homem diferente, lindo e perfeito que a fez descobrir a beleza e a perfeição de sua própria diferença. Raimunda, nessa noite mágica, tornou-se uma mulher feliz, muito feliz, a mulher mais feliz do mundo.
Raimunda foi contratada pelo dono do circo e ganhou um papel de coadjuvante no número de seu companheiro. Enquanto ele faz seus malabarismos e acrobacias penianos, ela toca Brasileirinho numa flauta especialmente projetada para seu ânus. Devido ao aumento do consumo de refrigerantes e outras beberagens gasosas fundamentais ao bom desempenho de seu mister, ganhou alguns quilos. Perdoou Dona Jurema, que sempre vem visitá-los e trás cuscuz, o doce predileto de Raimunda. Para que a felicidade se tornasse completa, só faltava um rebento, um Nicolauzinho ou uma Raimundinha. Mas, nem um nem outra, há pouco mais de uma semana, nascia en El Gran Circo De Los Horrores uma linda menina, alegria da família, xodó da vovó, futura atração circense, a pequena, fofa, vermelha, testuda e peluda Julieta.

Carlos Cruz - 25/12/2008

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Convidada Sandra Santos






Perdidos
.



Os homens jogavam sinuca, na tarde morrida... Era um puxado num casarão de esquina, perdido num rincão, perdido no tempo e no mundo...

O vento eriçava os pelos e adentrava a saia, maroto como correntino. O dono do bar percorria com o olhar o caminho do vento enquanto secava os copos de bebida. A mulher não era das redondezas, ruminava. As mulheres dali eram possantes! Tiravam sustância da terra. Tinham formas arredondadas e marido. Aquela era magrela, como ovelha bichada... Prestando atenção em sua face descarnada e nos olhos úmidos e amendoados, não deixava mesmo de ter semelhanças... Mas as pernas eram bem torneadas, os seios em pera, apesar de pequenos...
A mulher sentiu o olhar devassador, virou-se e caminhou para um banco de tábua, lá embaixo dum cinamomo, ao relento... Mas, que fazia a criatura? Por certo queria morrer de frio, com aquele vento e aquela garoa quase neve num vão criado por Deus-Nosso-Senhor entre a tarde e a noite...

Um dos homens, que pintava de giz o taco da jogatina, enfiou a cara pela janelinha de tramela e chamou! Perguntou se não queria uma gajeta com mortadela. Ela fez que não, com um meneio de cabeça e ele retrucou que era de graça. Ela voltou. Comeu, ali mesmo, no balcão do bolicho, à luz do lampião de gás que já agora iluminava a sua pele murcha, não dos anos, mas da magreza... Não tinha aonde ir. Já viajava há dias na boleia de um caminhão, sem destino, mas o caminhoneiro havia chegado ao destino dele e a largara ali. Não sabia para onde nem de onde... O homem que lhe pagara o fiambre lhe indicava uma tapera perdida numa ponta de mato, a poucas horas dali, deixando a estrada. Agradeceu a bondade e seguiu o rumo indicado, na noite fria e sem lua.
sandra santos
Era uma picada comprida, cheia de juás... Muitos galhos secos a lhe riscar as pernas. Pensando em se aquecer num pequeno fogo, foi recolhendo gravetos pelo caminho. Ao chegar à casa abandonada, trazia uma braçada de lenha.
Não havia porta. Nem fogão havia. Umas poucas paredes protegiam do vento, junto com o arvoredo... O chão era batido... O teto de capim santa fé, já desmachando, deixava clarabóias, por onde se podia ver o céu e as estrelas, nas noites quentes, supunha-se, era uma noite escura..noite de desgraçados...Ela suspirou, um canto só seu... Ajoelhou-se a principiar o fogo. Uma preteleira, no quarto contíguo, ainda guardava latas com banha e farinha de milho. No dia seguinte haveria de ver o que dava para fazer... Agora, era se aquecer e descansar da vida... Pelo menos, por um dia...E adormeceu com os uivos do graxaim, ao longe, que ela não conhecia.

O que se sucedeu a seguir, embaralhou-se na sua mente. Reconheceu um deles, o que lhe tinha sido gentil. Os outros tinham todos o mesmo focinho, o mesmo cheiro de cachaça, as mesmas mãos imundas, o mesmo sofrenegar dos animais no cio. Não havia o que fazer! O grito se perdeu na garganta... As pernas paralisaram... Perdeu a noção do tempo, desviou o próprio pensamento para um cadinho de infância feliz e depois, mais tarde, o primeiro namorado e cerrou os olhos, assim...




Sandra Santos

Minha biografia não tem nenhum fato relevante. Não coleciono prêmios nem escândalos. Tenho escrito a vida por linhas tortas, maslonge dos holofotes. Sou uma gaúcha de temperamento mate. O frio do sul causa em mim um coração desconfiado. Leio Bucowski, mas também leio Hawkins e meu único medo é me perder de São Luiz Gonzaga ou das minhas reticências. Entre meus alter egos, este de escrevinhador é o que mais me identifica, mas são os outros que me sustentam. Tenho um cachorro azul, na estante. Fui abandonada recentemente por dois periquitos, depois de dar-lhes casa, carinho e uma janela aberta. Afogo as mágoas e mato as madrugadas no Bar do Escritor.









domingo, 4 de janeiro de 2009

Lembranças tardias de meu último duelo



Como posso começar explicando o fim? Mesmo sendo algo que todo ser vivo saiba, cógnito ou intuitivamente, o fim não é algo com o que nos preocupamos com a devida atenção. Evitamos pensar que somos suscetíveis à falha, ao passar do tempo, ao fim de nossos dias naturais. Mas um dia, pode ser agora ou daqui a cinqüenta anos, tudo acaba. Como deveria mesmo acabar.
Sinto já que não tenho tanto sangue quanto gostaria. Os vários e repetidos golpes foram minando não somente minha resistência, como também diminuíram essa rubra reserva de vida. Isso tornou-me lento e vulnerável à ainda mais golpes. A coisa piora a cada segundo que passa, sem que possa ver uma solução, uma saída para a situação em que me encontro. Não que já não tenha me visto em uma posição inferior em outras ocasiões, mas naqueles tempos tinha não só a fé na vitória, como também uma habilidade muito maior que meu oponente, o que me dava a calma necessária para aplicar-lhe um maior número de revides, o que salvou-me infinitas vezes da derrota.
Eu não conheço a derrota. Ainda não.
Talvez seja por isso que ela me amedronte tanto, mesmo eu não admitindo, apesar de vê-la gargalhando no fundo castanho do olhar de meu adversário, implacável e incapaz de demonstrar uma clemência que eu não suplicaria, ainda que continue posando de invulnerável, ao vê-la desfilar na conhecida voz daquele a quem combato:
- Vou vencer, até que enfim eu vou vencer!
Se ele soubesse o quão certa esta sentença está, acabaria comigo de uma só vez. Mas ainda me resta senão a força, ao menos o respeito que granjeei com meus anos de prática. Mesmo que tenha perdido meu escudo e tenha despedaçado minha espada, ainda assim já venci outras batalhas com minhas mãos nuas. Minha força e experiência, extraordinárias no passado, aos olhos de meu adversário ficam menores à cada dia que passa. E sempre soubemos disso.
Recuo. Ganho um tempo para respirar, mas este mesmo tempo se esgota rapidamente. Tenho que retomar a carga, retornar à luta ou estarei vencido de qualquer forma. Melhor cair em combate, que ser vencido pelo tempo. Preparo meu melhor golpe, forte o bastante para virar a maré da batalha. O único senão é que ele é muito lento e me deixa praticamente indefeso por alguns segundos. Enquanto giro minhas ensangüentadas mãos pelo ar, ele se atira para frente em uma velocidade espantosa, fruto de um golpe novo que eu desconhecia. Incrível como a mocidade aprende rápido.
Sou golpeado várias e repetidas vezes em meu flanco exposto e em uma semi-explosão do choque de corpos sou lançado ao ar em câmera lenta, enquanto minha contagem de vida rapidamente despenca para o nada. Impiedoso frente à minha sorte, indiferente ao meu destino e feliz com sua conquista, meu adversário põem-se a pular imediatamente, lançando ao ar sua comemoração pela vitória, a primeira em sua vida, minha primeira derrota... Continuo estático, olhando para meu corpo sem vida, quando ele coloca sua mão infantil em meu ombro:
- E aí Tio, vamos jogar mais uma?
Dou uma risada para meu sobrinho Daniel, nove anos, meu mais novo arqui-inimigo no vídeo-game:
- Bora, Zé-ruela. Mas agora não vou te dar mais canja não...
Reenergizado pelo poder curador do reset, tenho novamente meu poder e força para encarar o combate. Aquela primeira derrota me ensinou muita coisa. Uma delas é que não posso mais dar mole para o moleque...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Convidada Iriene Borges

Cai o pano


Eu devia engolir a fala

do modo que engulo o choro

e o retenho com um nó na garganta

e outras linhas emaranhadas


Mas a palavra me desata, me destorce

faca afiada me destrincha expondo trapos

desfia o alinhavo

da figura adquirida em banca de retalhos

mostra-me em cada laivo a artesania

dos adereços de rebotalhos

A isso que sou

---------boneca de sonho

--------------------títere do som

não cabe reter a palavra que resvala

.
.
Iriene Borges

Teimo que sou artista plástica, vivo flertando com a filosofia e a gastronomia, mas sou poeta. Participo do grupo Pó&teias, que publicou livro homônimo em 2006, através do qual percebi que renasço em cada verso, em cada palavra.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A traição

A traição

Com a faca na mão ela soltava seus desaforos, dizia aos berros:
_ Ainda mato aquele infeliz, desde que veio morar aqui o desgraçado me trai, um dia hei de cortar seu pescoço e vou ficar olhando o infeliz se debater, ah se vou!
Enfurecida, começou a amolar a faca.
_Como é que consegue fugir para casa da vizinha sem que eu perceba? Ai, que ódio, é hoje que Teteu me paga, hoje irá pagar por todos os insultos que tenho que ouvir, as risadinhas de canto de boca que tenho que suportar, sem falar das reclamações do marido da vizinha. Bem que eu podia deixá-lo morrer nas mãos do Álvaro, bem que ele merecia o prazer de o matar.
Falava consigo enquanto separava os ingredientes para o jantar, descascou uma cebola, duas, e pôs se a picá-las, começou a chorar compulsivamente, não sabia se por Teteu ou pelas cebolas que faziam arder os olhos.
_Trato-te tão bem dando tudo de melhor, tenho cuidados, e até carinho por você, e ainda assim vai para a casa da vizinha, não vou me conformar, te conheço desde pequeno, não deveria se comportar assim!
Saiu para o quintal, com a dita faca, que brilhava de tão afiada, o galo já estava debaixo do balaio, mas Helena não sabia mais se queria matá-lo, era desobediente, trazia-lhe aborrecimentos, mas ainda assim tinha carinho pelo bicho. Com piedade cortou-lhe o pescoço e o serviu ao molho pardo no jantar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Sobre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.

O Legislativo
Recebi, por correio, um nobre cartão do Senador Adelmir Santana, felicitando-me pelo natal e desejando um ótimo 2009. Quem é Adelmir Santana? Li, no cartão, que é senador pelo DF. Eu não sabia, mesmo me considerando um cara informado. Virei o cartão e estava lá, para todo mundo ver, sem a menor vergonha: carta impressa e enviada pelo Senado Federal.
- ta fazendo propaganda eleitoral com dinheiro público, sujeito?
Não me importa se há leis que permitam essa safadeza, não há justificativa que valide o gasto de qualquer verba de Estado para promoção pessoal. Para que serve, ao DF, um cartão natalino, em grosso papel plastificado, todo colorido, com a foto da cara enrugada do senador? Fui tão felicitado nataliciamente que aceito corrupção constitucional?
- não, Adelmir, saquei tua treta! – Joguei o cartão no cesto de papel reciclado do meu serviço. A faxineira vende o papel para fugir da miséria, diminuindo o prejuízo nacional dessas inversões estapafúrdias do bem público. – contudo, vou ajudar a te divulgar, não era isso que queria com a porcaria do cartão? – Estalei os dedos e os posicionei sobre o teclado. – Escreverei esta croniqueta para explicar a todos os meus oito leitores sobre sua hipocrisia. Serão oito possibilidades a menos de voto. Juntamente com a minha, são nove. - vai continuar gastando o dinheiro do povo para mandar cartões de natal, “senator”*?

O Executivo
Os dias ao redor do natal são exemplos de como o sistema executivo é irresponsável. Todos sabem que existe a tal folga extra-oficial, em que os servidores públicos se revezam no serviço para curtirem as festas. Na repartição, apenas metade das pessoas. Até ai, sem problemas – é igual no mundo privado. O que incomoda é que as coisas continuam funcionando.
Sim, o problema é que apenas a metade dos servidores é capaz de produzir o mesmo que o quadro completo. É de se supor que nos dias normais a quantidade de serviço seja o dobro, mas não acontece assim. No dia-a-dia o servidor se acomoda, fica indolente, não há estímulo pois não há cobrança. Ninguém bate no peito e diz: hei, vamos botar essa joça para funcionar! Nossos clientes são as pessoas mais importantes do país, são os contribuintes. O trabalho se arrasta eternamente, ninguém se importa.

O Judiciário
No dia 22/12/2008, o desembargador do TJDFT Mario Machado publicou um artigo no Correio Braziliense com o título Que juiz você deseja? Obviamente li o texto com atenção, um anarquista como eu não perderia a chance para questionar filosoficamente a teoria de estado baseado no sistema jurídico.
Qual não foi minha surpresa ao perceber que o desembargador tratava somente do aumento do subsídio dos juízes? Ele falava que recebem menos do que valem em relação à sociedade civil. Ao final, perguntava AOS PARLAMENTARES que juiz eles desejavam. Mais uma vez me surpreendi, achei que ele dialogasse com as pessoas comuns, já que estava num jornal e não numa publicação especializada. Resolvi responder, mesmo que minha opinião (e a dos outros cidadãos brasileiros) não importe:
- não queremos juízes como você, Mario! – Pensei em citar a pilhéria com o armário, mas ele poderia ficar ofendido. Juízes são muito sensíveis. - que se importam mais com seus os próprios benefícios que com a qualidade do seu trabalho. – Ainda estava tentado a fazer gracejos. – além disso, nós, anarquistas, não confiamos em juízes profissionais, que aplicam a lei fria e morta, sem olhar para as pessoas humanas. – Conclui, altaneiro, para quebrar a sensação de sacanagem.
Se o moço considera que recebe pouco para a importância que tem na sociedade, que corrobore essa mais-valia com argumentos plausíveis, no artigo havia apenas confete. Se basearmos a qualidade da justiça brasileira na certeza das decisões ou no alcance das punições, quaisquer “mil-réis” que o juiz receber é mais do que suficiente!
---
* é o título do Lorde do Mal em Guerra nas Estrelas

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Convidada Jessiely Soares




















Sobre as estrelas do meio-dia



Ele não disse muita coisa.
Moleque de fim de tarde, chegou calado, malandro. Deitou a cabeça em seu colo e adormeceu.
Não sem antes fazer um arco de anjos voláteis passearem pela neblina.

Era noite quando o sono retirou-se do aposento. Na varanda duas estrelas brincavam com as corujas.

Ela segurou suas mãos, sorriu os olhos de mar naqueles olhos de fruta-madura e penduraram um pano florido de chita na janela.
E foi tanto mistério de chuva fina que a primavera nasceu veloz.

De cílios e sorrisos, varal de noites calmas, nunca mais aquele peito hibernou.


(Jessiely Soares)
(Foto de: »»SCALABITANO«« )


Jessiely Soares
Paraibana que sou, nasci com sangue forte, mas sofrido. Carrego fardo de ser de Sol, abençoada em lua cheia. E quando o Sertão anoitece, vai-se o medo e ficam os vagalumes. Sendo assim escrevo, carregando o verde do umbuzeiro na cor dos olhos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Convidado Flávio Mello









“AMAR SÓ SE FOR ARMADO”
LANÇAMENTO
Flávio Mello

SINOPSE



“Amar só se for armado” é o segundo livro de Flávio Mello, um dos destaques da nova safra de escritores contemporâneos.
O livro é uma reunião de dezessete contos/crônicas: crontos, que falam do amor em suas diversas manifestações. Com uma linguagem simples, o autor revela o fantástico, os mistérios, as dúvidas e os traumas das relações amorosas cotidianas, em situações que mostram a beleza e os conflitos ao nos relacionarmos com o outro.
Crontos carregados de sentimentos e interrogações, que convidam o leitor a refletir sobre o amor que sente por alguém, pela vida e por si próprio.
Espaço Idea

FLÁVIO MELLO - ESCRITOR E PROFESSOR

Há duas jóias nesse livro: a nota do editor, mais irmão que amigo do que editor, que sintetiza minha obra em uma única estrofe metafísica:

“Então, leitor, se também te enganas ou se enganas..., o amor deste livro é uma sombra. Mas se te declaras, o amor deste livro é uma arma. Se te privas, o amor deste livro é uma pista e se pensa que amas, o amor deste livro é um drama.”
E meu mais novo amigo de pena, pena sem tinta, mas cor, que escreve com o peso da experiência e com a paixão de um verdadeiro gentleman, Hildebrando Pafundi em seu prefácio que nos diz:

“Posso assegurar que o contista Flávio Mello reúne neste livro, Amar só se for armado, excelentes histórias produzidas numa prosa, que possui a beleza da melhor poesia já escrita em prosa. Embora todas as histórias deste volume sejam excelentes, eu destacaria outras três, mais por uma questão de preferência pessoal, além de O Pilão, citado no inicio deste prefácio: O telefonema, O cheiro de frutas de dona Clô e Amor à francesa. Finalizo desejando ao leitor, uma boa viagem nesta prazerosa leitura de contos cheios de sensualidade e sutil ironia.”

fale com o autor:

prof_flaviomello@hotmail.com
escritorflavio_mello@terra.com.br

Sobre o livro Seleção Natural:

“Acabo de ler um ótimo livro de contos, Seleção Natural, de Flávio Mello, Editora Espaço Idea – 2006, 105 páginas, com prefácio de Mauricio Miranda. Trata-se de um escritor estreante em narrativas curtas, contos e crônicas, mas que possui grande potencial para novas obras dos dois gêneros. Eu encontrei no livro, Seleção Natural, a vocação natural do escritor Flávio Mello para o conto e também para a crônica, em especial a narrativa poética.”


(trecho)

Hildebrando Pafundi (www.cliqueabc.com.br)

SITEs:

http://flavio-mello.blogspot.com/

(com maiores informações)

http://vervetente.blogspot.com/

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Meu caozinho


Algo faltava na casa
Foi amor a primeira vista
Chegou tão medroso
Para preencher nossa vida

Todo dia lá vem meu caozinho
E o meu dia já começa bem
Vou te abraçar
Vou te beijar

Vamos brincar
numa incansável diversão
e no seu jeito desajeitado
não me deixa fazer nada

Olha que caozinho mais lindo
lá vem ele tomar um banho de sol
com o olhinho observando o movimento
lá vem ele brincar

Quando fica triste
No seu passinho lento
Fica perto de mim
Que darei o meu carinho

Mas, nada abate esse grande coração
Que só traz felicidade
Lá vem ele todo desajeitado
E o meu dia termina bem

domingo, 28 de dezembro de 2008

Máscara


Era aquela que conhecia o terreno particular das texturas
A que adormecia ofendida
Nas areias dos poços sem fôlego
Existir era um ponto de mácula importado
Nas paredes demolidas de um sonho em preto e branco

Não há perplexidades o suficiente?
Diálogos retos em aerosol?

Fui negação por quase todo o intervalo
Entre a punhalada e a carícia
Para me render em drops falidos
Inalações disfarçando laços de fogo
Golpe único
Golpe solitário
Jugulares enterradas na palma da mão
Não querem ser salvas

Era aquela desfigurada
Para roubar versos de lábios roxos
Empacotadas agressividades
Delicados rumores suspendendo corpos ausentes

Era o jardim em que me deitava
Para não saber das urgências
Fluía carne e pó
Uma única delícia
Na santificada tormenta

Deus só de ausências
Meia três oitavos
Um quarto de demência
Tua danação
Reuno-me
Parto

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


Um natal diferente


Pela primeira vez em toda sua existência, os festejos natalinos a incomodavam; não sentia mais a alegria da escolha dos presentes, a satisfação da gula natalina e, nem tão pouco, o prazer com o último consumismo desvairado do ano, que tomava a todos de assalto.

Naquele ano, aos trinta e cinco anos de idade, solitária e esquecida em um canto qualquer, descobrira, quase sem querer, que papai noel não existia e que todo aquele gasto infundado saía de seu parco bolso, às custas de muito trabalho durante o ano.

Tivera a revelação tardia de que o décimo terceiro salário só servia para fomentar a economia mundial, fortemente auxiliada pelas propagandas enganosas e estratégias de marketing, descobrira ainda que toda família era um núcleo doente por natureza e a sua não ficava para trás- os minutos de festejo não apagariam os problemas que cruzavam seu caminho há vários natais.

Dessa vez não haveria pisca-pisca, tender, chester, árvore de natal, bolas vermelhas, chegada de papai noel, presentes inúteis, família distante reunida e um porre para comemorar a merda de ano que ficava para trás, pois, como de costume, merda maior estaria por vir.

Assim, cambaleante e decepcionada, saíra a esmo pelo pátio, sem procurar, nem esperar nada, quando deparou-se com um papai noel forte, jovial e alegre brincando com os demais convivas.

Lembrou-se dos quinze anos de casamento, dos filhos adolescentes e problemáticos, do sufoco para adquirir a cobertura em que morara, da dureza dos primeiros anos, da falta de amor, da falta de companheirismo, da falta de sexo e da doença que assolava seu corpo.

Olhou firme naqueles olhos, que de velhos não tinham nada e percebeu que sua carência era insaciável; os muitos anos de deserto sentimental a deixara assim- um poço fundo e vazio.

Desejou desesperadamente aquele homem que só deixava de fora os olhos. Apenas os olhos, somente as janelas da alma, bastariam para satisfazê-la naquela noite.

Quando a encenação acabou, aproximou-se daquele homem como uma pedinte faminta a implorar por um pedaço de pão, abaixou-lhe as calças e fez amor com seu membro voraz e seus olhos acolhedores.

Depois, ainda sem pronunciar uma só palavra, foi embora e guardou em sua mente a lembrança dos olhos mais ternos que já vira sobre a face da terra. E o que mais poderia desejar além de um olhar companheiro, já que as tantas palavras, que ouvira durante sua existência, o vento levava para onde bem entendia?

Guardou na memória a lembrança daquele momento até o ultimo dia de sua vida, que se dera antes mesmo do próximo natal; ali, em um hospital deserto e solitário, fechou os olhos para sempre e levou o olhar que nunca esquecera.

Aquele fora o único ano em toda sua existência que um papai noel lhe dera alguma coisa, sem que ela tivesse pago antes por isso!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

Domingo de luas



Domingo de luas.
Teu olhar nas nuvens
Decifrando fórmulas
Impossíveis de improváveis mundos,
Desprende-se do meu
Corpo caótico, denso e
Imponderável.
Que tropeça nos próprios passos,
Acorrentado à constantes espasmos
De um passado apagado
Das asas dos pássaros,
Das expectativas dos astros
Ascendentes do destino.
Sobrevivente de um
Quebrado coração amargo,
Qual ramo seco sem seiva,
Sem rio, mar, saliva.
À deriva, tragado pelas rochas.
Sucumbe à doces lembranças ácidas,
Que corroem do ôco das córneas
Às desesperanças.
Que alimentam a angústia
Que se alimenta das vísceras.

Imutáveis transitórios
Jamais recuperarão o que une
O fascínio dos sonhos
Aos delírios impunes.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Trágico (ou cômico?).

Minuciosamente ave
sondo a que persegue
meus olhos no outro.
E por mais simples a noite
continuo vendo dois
no terreno espaço de um.
Isso deve ser amor,
embora eu saiba
da minha obsessão
de amar o desperdício.

Eliane Alcântara.







Minha última postagem do ano : (
O que tenho para dizer?
Obrigada ao dono do Bar, aos Poetas amigos de mesa
e aos amigos de outros lados e visitantes.
Que as Festas do final de 2008 sejam excelentes para todos
e que 2009 nos receba em um abraço.
Espero estar presente aqui novamente e com a agradável
companhia de todos. Valeu!
Beijos!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Ninhos Motorizados

Na visão
Dos pássaros

Carros
São
Pássaros

Voando
Num céu de concreto

Não sabem eles
Que são mais
Como ninhos
Motorizados.

Cada um
Carrega passarinhos
Descansando asas.

Estás num daqueles
Que te leva para casa.

André Espínola

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Só isso


Sozinha
Repleta de poeira,

Senhora
Sem eira sequer beira,

Caminha
Descendo ribanceira,

E chora
Sua vida corriqueira...

Apenas dorme para acordar
Acorda somente pra se deitar
Mas antes do sono sempre precede
Um gemido, uma espécie de prece

“Deus, eis que estou cheia de pó.

Suplico:
-Me leve
Ou traga um aspirador de só”


Barbara Leite

sábado, 13 de dezembro de 2008

A Questão Limoeiro

Tenho-me por sociopata assumido. Ainda melhor, convicto. Árvores, não alcançaria jamais o clímax daquele roqueiro pederasta trepando com elas. Mas decerto que as prefiro. Desisto de corroborar com vivências psicanalíticas. Guardo tal peculiaridade com deferente egoísmo. Em tons do mais indissimulável sarcasmo.

Recém espaçado em nova choupana, me deparei com precariedades. Uma delas, absurda. Inexistiria área de serviço. Tomadas de decisões incumbem reflexão e havia um limoeiro implorando à porta. Esquelético, escroto, instando a estéril. O charlatanismo arquitetônico esboçado vazou-se para o real. Para a tangível dimensão. Direitos à suplicante, enfim, lhes resguardaria complacente telheiro.

Nada ou pouco conheço da arte agrícola, mas ouvira dizer sobre meses que não juntem a letra erre aos nomes. Quase no último, instrumentado com serrote, procedi às amputações. Posso resumir, imodesto, que plástica resultada confundiria especialistas.

Numa dessas madrugadas mal dormidas, que jogam o sujeito para fora da cama sem direito a sursis, me vi perambulando pelo pátio. Já não ardessem os olhos, ainda os incumbi de vistoria: se for pra foder com o dia, faça-se barba, cabelo et cetera. Juntar gravetinho, pedrinha, desenroscar folha morta encravada em galho, essas coisinhas que remetem a putarias da velhice. Porra, ainda estou esticando a segunda e a falta do maldito ronco já me pedindo terceira!

Fora desembaraçando uma dessas tais folhas, que engoliria a vulgaridade do verbo. O raquítico assomara corpo e, copado, resolveu travestir-se. Encheu-se de alegoria. Ofereceu-se, homocrômico. De espinheiro à árvore natalina.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Fragmentos.

A Marcha

os pelotões da brigada militar eram a sensação do dia. muito antes de sua formação Lucas disputava, empolgado, torneios de xadrez num colégio de padres. Figueiredo entrou no jogo e pôs o menino pra marchar. o pequeno estrategista aderiu ao golpe. o cavalo, mesmo dado, não convinha olhar os dentes.


A Ópera dos Garis

a cantoria solitária da avenida só era audível aos varredores de rua. cada esquina, uma nota. a cidade regia sua orquestra sinfônica em aparente desordem. Vivaldi não faria melhor. enquanto suas luzes eram apagadas pelo dia, o espetáculo ganhava força. as vassouras e pás como os violinos e violoncelos faziam-se fundamentos. fim de expediente. o artista maltrapilho dorme ao som da ópera das ratoeiras...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Ferro e Fogo

Waldemar era Flamengo até morrer. Flamenguista daqueles emotivos, de não faltar a um clássico no Maracanã, de atormentar a vizinhança ouvindo o jogo pelo radinho em volumes cavalares, de assistir compenetrado as mesas redondas nos finais de domingos televisivos ou ainda discutir com argumentos passionais cada lance das partidas no boteco da esquina. Tudo em honra ao querido mengão. Waldemar era fanático até as pontas das unhas.
Apenas um sentimento era capaz de igualar-se em calibre com o seu amor a equipe rubro-negra: o imenso ódio que Waldemar nutria pelo Vasco da Gama. Era algo irracional, um tanto infantil, fugindo a salutar rivalidade futebolística onde um sujeito gozava o amigo no trabalho ou no bar após uma goleada aplicada por seu time no maior adversário. As máximas que Waldemar cunhava a respeito do clube odiado assustavam seus interlocutores. “O caráter de um homem se mede pelo time que ele torce. Ser vascaíno é uma deficiência de caráter”, costumava dizer, solene, durante a roda de chope. Ao redor da mesa não se ouvia uma voz clamar em protesto contra tamanha afronta, talvez por que Waldemar fizesse questão de não cultivar amizades que porventura torcessem pelo Vasco.
Solange, a esposa, muito fazia para diminuir tanto a ira vascaína quanto a idolatria flamenguista que o marido semeava. Lembrava a Waldemar os episódios em que conhecidos haviam se afastado do casal, sobretudo os que torciam pelo clube de São Januário e, sem esconder sua irritação, alertava não estar em condições de disputar o amor do esposo com um time de futebol.
— Você liga mais para este Flamengo do que para mim.
— Será que eu não posso ter uma diversão? Trabalho feito um mouro durante a semana. Não posso nem curtir o meu mengão aos domingos? – contra atacava o esposo.
Ela tolerou seu fanatismo durante anos, mas quando Waldemar a presenteou com uma camisa do Flamengo em seu aniversário, Solange decidiu procurar um homem que lhe desse mais carinho e atenção.
Há algum tempo ela andava de olho em Claudinei, um desocupado do bairro, portador de um sorriso sedutor, bom de conversa fiada, que vivia zanzando pelos bilhares e pontos de jogo do bicho das redondezas e, segundo ouvira falar, vascaíno. O sujeito sempre a olhava com intenções devoradoras, cara de “tô querendo” e, na primeira oportunidade, surgida quando os dois se esbarraram dentro de um ônibus em direção ao Centro da Cidade, Solange se deixou fisgar pelo malandro.
Marcaram encontro para o dia seguinte em um motel vagabundo na Praça da Bandeira. Mal chegaram ao quarto, Solange foi logo perguntando:
— É verdade que o gato é vascaíno?
Em resposta, Claudinei, armado do seu mais caricato olhar sem-vergonha, livrou-se da camisa e exibiu o torneado braço esquerdo onde reluzia um imenso escudo tatuado do Vasco da Gama. Encantada, Solange languidamente lambeu aquela tatuagem para deleite de Claudinei que a tomou nos braços e a possuiu com voracidade. O malandro nascera para o ato sexual e fez coisas inimagináveis com Solange que, extasiada, cantarolou durante o gozo alguns versos do hino vascaíno que ensaiara de véspera para a ocasião. “Vamos todos cantar de coração, a Cruz de Malta é o meu pendão, Tu tens o nome de um heróico português, Vasco da Gama, a tua fama assim se fez”.
E os encontros dos amantes tornaram-se diários, sob o próprio teto do Waldemar. Bastava ele sair para o trabalho e Claudinei embiocava-se sem cerimônias casa adentro.
O flamenguista se descobriu traído no dia em que uma indisposição gástrica o fez voltar mais cedo do trabalho. Da sala Waldemar escutou grunhidos amorosos vindos do seu quarto e não precisou usar de todos os seus miolos para entender o que se passava por de trás da porta. Invadiu o quarto aos berros e a única cena testemunhada foi a da esposa tentando vestir-se atabalhoada e um vulto, só de calças, disparando quintal afora para em seguida pular o muro divisor do terreno vizinho. Do tal homem, Waldemar guardou em sua retina tão somente a imagem do distintivo vascaíno tatuado no braço.
Não conseguiu distinguir que dor o lancinava mais: a traição escancarada ou o fato do amante de Solange torcer pelo Vasco. Diante de uma esposa semivestida, descabelada pelos carinhos do desconhecido, paralisada pela vergonha e pelo medo de sua reação, um atônito Waldemar sentou-se mecanicamente em sua cama de lençóis em desarranjo e cheiro de sexo recente, contemplou o quadrado da janela que testemunhara a fuga do sujeito que dormira com sua mulher e, munido de uma inacreditável fleuma, talvez por conta do choque, disse com a emoção de um zumbi dopado.
— Mulher... Me arranja um remédio pra dor de barriga. Hoje eu estou que não me agüento. Não sei o que comi!
Por semanas Waldemar catou em todo o bairro aquele que possuía impresso no braço a marca cruzmaltina de sua humilhação. Vasculhou nos pés-sujos, sinucas, mesas de carteado, campinhos de pelada, puteiros e nada. Claudinei, prudente e desconhecedor de que não fora identificado, pôs asas nos calcanhares e buscou exílio em outras bandas.
Os dias seguintes ao incidente transcorreram com Solange dominada por um estado de perplexidade aliviada, pois Waldemar continuou tratando-a como se o flagrante nunca houvesse se consumado. Não fosse a tristeza construída em seu olhar e o abandono da obsessão pelo Flamengo, a esposa juraria que ele era o mesmo de sempre, inclusive nas noites de sexo burocrático debaixo dos lençóis e tendo como única testemunha o brilho da lua invadindo o escuro do quarto. Nestes momentos de amor mecanizado, Solange quase chegou a admirar Waldemar, que escolhera por manter seu casamento ao invés do escândalo do adultério. Entrementes, debaixo de seu marido, ouvindo seus arfares, consumia-se em saudades de Claudinei. “Por onde andaria o safado?”
A pergunta que Solange se fazia, Reginaldo Meia-Bunda tinha a resposta. Seu apelido politicamente incorreto resultara de uma poliomielite contraída na infância que atrofiara toda a musculatura da perna esquerda, deixando-o manco. Desprezado pelas mulheres e objeto de chacotas dos homens do bairro, Reginaldo Meia-Bunda pouco tinha de distração além do exercício da maledicência e o prazer pela intriga. Ouvidos apurados, captou notícias aqui e acolá a respeito de uma possível traição da mulher de Waldemar e, como percebera o sumiço do vascaíno Claudinei por aquelas bandas, juntou as peças do quebra-cabeça e, deleitoso por um escarcéu, decidiu encontrar o fugitivo. De fuxico em fuxico Meia-Bunda logo chegou ao paradeiro de Claudinei, morando em uma cabeça de porco nas franjas do bairro de Santa Cruz.
E numa mesa de boteco, tendo por testemunhas parcas rodelas de salame como tira-gosto e duas tulipas de chope, Reginaldo Meia-Bunda revelou ao flamenguista o nome e endereço do amante de sua esposa. Waldemar, se perturbado pela notícia não demonstrou, pesquisou em sua mente alguma referência ao tal de Claudinei e encontrou uma vaga lembrança, meio desbotada, de uma inflamada discussão travada tempos atrás com um fulano sobre quem fora o melhor: Zico ou Roberto Dinamite? Não tinha certeza de tratar-se do mesmo personagem, mas isto não vinha ao caso agora. Perguntou a Meia-Bunda o porquê da delação.
— Por quê? – Reginaldo cutucou um pré-molar com a unha para livrar-se de um fiapo de salame preso entre os dentes antes de responder. — Por inveja! Pela mais pura e avassalarora inveja do sucesso de Claudinei com as mulheres. Algo que um manco de perna seca como eu nunca há de conseguir.
Uma torrente de desprezo invadiu Waldemar. Aquele dedo-duro, sentado a sua frente, a revelar choramingando agir movido apenas pelo sentimento de inveja, provocou-lhe náuseas. Reginaldo Meia-Bunda era pior do que sua mulher e o amante. Sujeito vil, X-9 de merda, que nada ganharia com a sua delação. Um cara mau, covarde e mau. Waldemar teve ímpetos de esbofeteá-lo ali mesmo, mas sabedor que necessitaria do manco para a realização do plano maquinado em velocidade recorde enquanto ouvia a sua nojenta cagüetagem, conteve-se. Apertou o braço esquerdo de Meia-Bunda e, portando cínica ternura no olhar, pediu:
— Reginaldo, meu querido, nem tenho como agradecer sua preocupação. Você demonstrou ser meu amigo. Quando eu morrer, vou arrastar para dentro do meu túmulo a consideração que você teve comigo. Nunca esquecerei seu gesto e, em nome da nossa amizade, peço um último favor.
— Claro, claro, como negar?
— Preciso que você escreva uma carta para minha mulher, de preferência datilografada ou escrita num computador, se você tiver um, como se fosse o Claudinei marcando um encontro com ela, prá daqui uns quinze dias, lá na casa dele...
Reginaldo assustou-se diante da possibilidade de ser o responsável por um crime passional. Não imaginara que sua intriga pudesse ir tão longe.
— Tú vai matar o cara Waldemar? – perguntou em murmúrio aterrorizado.
O marido traído, sem largar o braço do manco, falou tranqüilamente.
— Dou minha palavra de honra. Por São Judas Tadeu de quem sou devoto e pelo Flamengo, juro que não.
— Jura que nem vai capar?
— Juro...
Um par de dias após sua conversa com Reginaldo, Waldemar testemunhou uma certa alegria incorporada ao semblante da esposa e, concluiu, satisfeito, que o Meia-Bunda cumprira o combinado. Ao anoitecer, enquanto Solange tomava banho, remexeu os pertences da mulher descobrindo a carta. Ao correr os olhos pelas linhas datilografadas, o marido traído percebeu em Reginaldo dotes românticos e literários, tanto que chegou a enciumar-se do estilo do manco, cheio de mesuras e algumas pitadas de erotismo nas metáforas dirigidas a sua mulher. Mais uma vez controlou-se, anotou data e hora do encontro, devolveu a carta ao lugar onde a encontrara, tomou um comprimido inteiro do seu calmante predileto e deitou-se para dormir o sono dos justos. Ao sair do banho, Solange encontrou Waldemar a roncar, portando um estranho sorriso em sua face adormecida.
Na manhã seguinte Waldemar saiu bem cedinho de casa e, ao invés de ir ao trabalho, zarpou para uma serralharia lá pro lados da Piedade. Encontrou a loja fechada em virtude da hora e gastou alguns minutos do outro lado da calçada, esperando a abertura do comércio. Mal o estabelecimento ergueu suas pesadas portas de ferro, lá estava Waldemar falando com um sujeito gordo e suarento, aparentando ser o gerente.
— O que o senhor quer vai custar caro. É quase um trabalho artístico.
— Sem problemas. Eu pago.
— Não é comum uma encomenda dessas.
— Dá ou não dá pra fazer?
— Sim, é claro. É que eu fiquei intrigado. Nunca me pediram uma coisa assim.
— Sempre há uma primeira vez. Quando fica pronto?
Reginaldo Meia-Bunda andava tenso por aqueles dias. Desde a sua deduragem no boteco e o envio da carta a Solange, Waldemar não mais se manifestara. Meia-Bunda aguardou, preocupado, pela passagem dos quinze dias combinados para o encontro, fiando-se na promessa do flamenguista que não iria matar ou ainda castrar o rival. “E se ele fizesse algum mal a esposa?” perguntou-se agoniado, afinal, Waldemar não jurara pela integridade da mulher. Concluiu que não poderia confiar plenamente em juras ou promessas. “Quem mantinha sua palavra nos dias de hoje?” lamentou.
Dormiu um sono picotado na véspera do dia marcado. Acordou em sobressalto e mal raiou o dia, armou tocaia na porta da casa de Waldemar. Escondido, Reginaldo, presenciou o flamenguista sair para o trabalho e, quando duas horas depois uma perfumada e rebolativa Solange botou o pé na rua, certamente em direção a Santa Cruz, o manco pensou em aborda-la, fazer uma confissão, revelar-se um crápula, evitar que ela rumasse para uma suposta morte, mas ao imaginar a tríplice ira do marido, esposa e amante se abatendo sobre ele, na sua visão um pobre aleijado, preferiu calar-se e, resignado, acompanhou com as vistas uma Solange metida em um sensual vestido colante irradiando alegria pelos poros dirigir-se para o ponto do ônibus.
As horas custaram a passar e Reginaldo viveu aquele dia atormentado pela culpa do assassinato anunciado. Trancado em sua casa, de súbito, foi tomado pelo pavor de ter que se explicar à polícia caso Waldemar relatasse como descobrira a traição. Em sua mente pairou mil enredos acerca da morte de Claudinei. Waldemar usaria uma faca? Revólver lhe pareceu clichê. Infidelidade se resolvia na ponta de uma faca, cara a cara com o traidor, imaginou. No cair da noite, tentou espantar os pensamentos sanguinolentos de sua cabeça ligando o radinho de pilha mas, obra do destino, a estação sintonizada transmitia um popularesco programa policial.
“aonde vamos parar minha gente! É o império do crime, da maldade, do sadismo! Honra antigamente se lavava com sangue, agora honra é marcada a ferro e fogo, literalmente queridos ouvintes. Caso você duvide, preste atenção no drama acontecido hoje, no bairro de Santa Cruz. Waldemar Cristiano de Souza, 35 anos, vendedor, descobriu que sua companheira, Solange Maria Pinto de Souza, 30 anos, dona-de-casa, estava tendo um romance com Claudinei Adalberto Ribeiro da Silveira, 27 anos, sem profissão definida. Enfurecido, Waldemar invadiu a casa do Claudinei em Santa Cruz e flagrou o casal de pombinhos, digamos, namorando. Portando um revólver, ele amarrou e amordaçou os adúlteros e, com um ferrete de marcar gado, queimou todo o corpo do pobre Claudinei. Vingança planejada friamente ouvintes! Waldemar mandou fabricar o tal instrumento em uma serralharia da Piedade, como já confirmou em depoimento Antonio Sacramento, dono do estabelecimento. O mais inusitado ouvintes, foi o tipo de marca que Waldemar encomendou. Torcedor do Flamengo, o marido traído marcou em ferro incandescente o escudo do seu time de coração por todo o corpo do amante de sua mulher. E por qual time Claudinei torce? Pelo Vasco!!! O maior adversário do Rubro-negro! Claudinei está internado na unidade de queimados do Hospital do Andaraí e, segundo os médicos que o atenderam, irá sobreviver mas terá que conviver para sempre com o escudo do Flamengo cicatrizado por quase todo o seu corpo. Solange, ainda chocada com os acontecimentos, relatou aos policiais que Waldemar foi particularmente cruel com a tatuagem do emblema do Vasco que Claudinei trazia em seu ombro esquerdo, ferindo-o diversas vezes. O monstruoso Waldemar encontra-se foragido...”
Pálido, Meia-Bunda desligou o rádio. O único pensamento alojado em sua mente foi que Waldemar cumprira a palavra. Não matara, nem castrara...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

25 de dezembro


Morreu em São Paulo, no dia de Natal.
Não precisava ter ido pela Marginal,
mas era a última entrega do dia
e ele queria
estar em casa a tempo para o almoço.
Era tão moço!
Dezenove anos recém-feitos
e o coração daquele jeito,
dos muitos jovens, com muitos planos.

Em casa, a mãe e a namorada
preparavam rabanadas na cozinha,
entre segredos e risadas.

E ele que não vinha?

Na sala o pai lia o jornal,
sob o pinheiro iluminado em pleno dia:
“Esse menino! Eu bem dizia
que ele ia se atrasar... E hoje é dia
de trabalhar?”

Pernambucano esperto,
viera pra São Paulo no momento certo,
década de 70,
quando a cidade explodia em construções.
Ele, pedreiro caprichoso e atento,
toruxe consigo
garra e talento,
cresceu junto com as obras.
Hoje o dinheiro sobra
para fazer a festa dos amigos.

Soa a campainha:
é a vizinha
que vem trazendo a farofa do pernil.
“Que coisa, seu Libório. Onde já se viu?
Ninguém trabalha no dia 25!”
E chacoalhava indignada os brincos.

Aos poucos chegam todos.
Junto da árvore, um grupo canta um hino:
Toca o sino
pequenino...


– Onde estará, meu Deus, esse menino?

O menino dormia docemente
sobre o asfalto quente,
rosto coberto por uma camiseta
que um cara de lambreta
tirou do corpo, fazendo o sinal da cruz antes de ir.

Na camiseta estava escrito
(achei tão bonito):
“Natal! Paz na cidade
aos motoqueiros de boa vontade”.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Eterno Retorno

Ano 2536. Episcípedes, na segurança de sua casa-redoma feita de vidro
ultra-resistente, observa a chuva ácida. A paisagem lá fora é
desoladora: só negrume, só fumaça,só morte. Só. Episcípedes
sentia-se aflitivamente só. Tomou outra dose de alcahol, outra
cápsula de ilusionithium. Drogas permitidas pelo Estado. Controladas
pelo Estado. Estado que controlava os cidadãos. Cidadãos que
consumiam as drogas controladas pelo Estado para que não perdessem o
controle de si. Episcípedes sentiu o formigamento nas mãos, o suave
torpor, a leveza do corpo. As substâncias faziam efeito, cumpriam seu
papel no organograma estatal. A paisagem lá fora transmutou-se. O
árido tornou-se fértil. O negro tornou-se verde. O morto reviveu.
Episcípedes viajou. Para dentro, para longe, para trás.

Ano 1210. Episcípedes era homem. Tinha a cabeça raspada em forma de
halo, trajava uma túnica grossa de lã, amarrada por uma corda na
cintura, e sandálias. A corda tinha três nós. Os nós tinham nomes.
Pobreza, Obediência e Castidade. Ao seu redor, animais, muitos.
Parecia que todos os animais da floresta tinham vindo lhe fazer
companhia. Episcípedes estava feliz, muito feliz. O estrondo da
trovoada fez os animais debandarem. Episcípedes correu atrás deles.
Não queria que aquele momento pleno de felicidade terminasse.
Chocou-se contra algo invisível. Uma barreira invisível. A chuva
desabou. Episcípedes, desesperado, viu os animais contorcerem-se,
dissolverem-se, transformarem-se em uma pasta de carne fumegante. A
relva verde ardia sem fogo. Fumaça. Muita fumaça. O verde tornava-se
negro. Episcípedes tateou a esmo a barreira invisível. Encontrou um
botão. Premiu. Uma porta invisível abriu-se na parede invisível.
Episcípedes transpôs. Saiu. Correu sob a chuva. Gotas ácidas
penetrando sua carne. Agulhas de fogo líquido. Queimando. Súbito, seu
corpo em brasas planou no ar. Levitou. Braços invisíveis
arremessaram-no violentamente contra a madeira. O madeiro. Grossos
pregos cravaram-se em suas mãos e pés. Cravos. Coroa de espinhos na
cabeça. Estigmas. Gotas ácidas. Queimando. Derretendo. Martirizando o
mártir. O homem humano. Super-humano. Não era Episcípedes. Não era
Francisco. Era a massa. A massa de carne sem vida. Morto. Estava morto.

Ano 3023. Episcípedes era uma célula nervosa implantada em um chip. Um
chip implantado em um andróide. Não sentia. Não pensava. Não amava.
Era só uma célula. Só um chip. Só um andróide. Só. Sempre só.
Operário na usina de reciclagem de lixo, encontrou, certa vez, uma
gravura antiga dentro de um livro antigo: Uma cobra engolindo a
própria cauda. Algo dentro de si reagiu. Talvez uma mitocôndria
anarquista. Familiaridade. A gravura era familiar. Aquela vaga
lembrança foi o foco inicial daquela que ficou conhecida como a
"Revolução dos Humanóides". Milhões de andróides foram
neutralizados. Episcípedes, crucificado na cruz de metal, exposto
durante meses como um lembrete. Depois, desmembrado, esquartejado e,
por fim, dissolvido em ácido. Era o fim de outro ciclo. Outros viriam.
A cobra engoliria o próprio rabo. Sempre.

Carlos Cruz - 20/11/2007

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

EXPIRAÇÃO

* Em parceria com o filósofo Marcus Renato
.
.
Onde andará minha inspiração?
parece estar tão apagada
quanto esta caneta
que expõe meu penar
.
De tão vadia que é
deve estar
num beco qualquer
(ela diria que está num beco sem saída)
.
De tão livre que é
deve estar num vasto campo
coberto de flores
(ela, obviamente, diria estar num campo de concentração)
.
De tão louca que é
pensaria estar me inspirando
entretanto, ela não percebe
que sequer estou respirando
(ela pensa que estou dormindo)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A mulher no jantar de fim de ano

A mulher no jantar de fim de ano

Tinha um olhar forte, mas distante, rosto quadrado, que mais lembrava feições masculinas, não havia fragilidade nela, trazia um jeito simples, vestes sem grife, ou ostentação, mas parecia ser fina, educada. Caminhava altiva sobre os tapetes vermelhos que minha avó colocava para o Natal.
Suas olheiras salientes poderiam indicar noites mal dormidas, ou que perambulava pela casa a noite, olhos inconformados. Possuía algo que não sei explicar, era diferente, observei a noite toda, a maneira que acendia o cigarro, sua delicadeza ao levá-lo a boca, sempre muito formal, parecia isolada dos outros convidados e também atenta aos detalhes, como eu. Por vezes a vi divagando com a fumaça do cigarro, sempre aceso.
Até que em um momento percebeu que eu a observava, deu algumas voltas na sala, dirigiu alguns sorrisos a minha pessoa e eu retribuí todos, acomodou-se ao meu lado, no sofá em que eu estive sentada desde o começo da festa. Quando se sentou, parecia que aquele grande sofá tinha diminuído tão pequena era a distância que tomou de mim. Apertou minhas bochechas dizendo, menina linda, esse laço de fita foi a vovó quem te deu? Respondia afirmativa com a cabeça, parecia que minha voz não queria sair, mas eu sorria, ela era tão cheirosa, seu perfume, misturado ao odor do tabaco não me incomodava, de certo modo parecia-me familiar, embora nunca tivesse visto aquela figura antes.
Tocou minha mão com suavidade e chamou-me para passear no jardim, minha avó tinha uma videira, que naquela época do ano se enchia de cachos viscosos, se esticou e pegou um para mim, eu disse a vovó vai ralhar, não gosta que mexam nas frutas dela e prontamente me respondeu, “um cacho só, saboreie menina, sinta como estão doces, nada daria mais prazer à vovó do que te ver comendo as suas uvas!”
Olhava aquela mulher desconhecida e tão familiar, parecia-me linda.
Seus cabelos caiam sempre do mesmo lado do rosto e ela os prendia atrás da orelha, instintivamente, seu olhar profundo parecia roubar minha alma. Dizia que a fruta que mais sentia falta era o cacau, e sabia que já tinha passado o tempo deles maduros, disse, eles nascem sempre tenros, debaixo daquela caixa d’água lá no quintal do fundo. E deveria conhecer bem a casa, pois muito poucos sabiam do cacaueiro da vovó.
Depois de caminharmos ali ela disse agora tem que entrar, irão sentir sua falta, eu já vou, deixe só terminar o cigarro, olhei para trás mais uma vez e a vi conversando com a fumaça do cigarro e ainda soltou-me um sorriso quase confidente.
Não a vi no brinde do “Feliz Ano Novo”, nem nos cumprimentos, ela e a fumaça de seu cigarro desapareceram por algum tempo.
Mas parecia estar presente em todos os momentos importantes da minha vida, foi ao meu casamento, me visitou na maternidade, quando tive minha única filha, em todas as dificuldades me ajudando e dando-me bons conselhos, sempre um ombro amigo.
Hoje, já com o corpo cansado, minhas pernas já não têm aquela agilidade de menina, ela veio me amparar, olhou-me profundamente, como da primeira vez e me disse que ia me conduzir, deixei-me levar, mas não tinha mudado, nenhuma ruga em seu rosto, nenhum cansaço nos olhos, entendi que a minha hora havia chegado. E finalmente vi que aquela figura havia me acompanhado era a minha face mulher, meu rosto de balzaquiana, os mesmos cabelos, a mesma expressão, o mesmo carinho. Deixei-me levar.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

...



Quando as águas fumarem
Os ventos pingarem
E houver fogo no céu

Quando perdermos o sentido
E almejarmos vazios dourados

Quando os amores findarem
E o desespero for a regra

Socorramo-nos!

Podemos também ser heróis
Lembremo-nos dos sonhos infantis
Queremos fazer a diferença
Ao menos por um dia

Esta data pode ser hoje
Então preparemo-nos
Haverá guerra antes da paz

Acordem os santos
Chamem os heróis
Avisem os paladinos da justiça

Levantem os mortos
Acudamo-nos de nós mesmo.

Para salvar o amanhã
Devemos evoluir hoje

Não há tempo
Nem para sempre