sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Maremoto


São ciclos desejando
oceanos e paz
quase suplicando areia
e rede

E depois, tudo tanto faz.

O mar causa angústia
por mais de cinco dias
Ser descalça, inflama
a mente

Me consolo nas águas de minha mãe
por mais um instante

Ninguém é ileso ao asfalto:

É preciso um Niemeyer ao alcance
é necessário que meu olhar se fragmente
na próxima parede

assim lembro-me pequena e
limitada.

Uma vez infectada de pressa
Apresenta-se sintoma latente de
Madalena e Mariana.

Mochila de novo nas costas
O último olhar de paulistana.
Riso, gratidão e alívio num
suspiro alto

E eu ainda
Morro de São Paulo


Barbara Leite

Lótus de Mil Pétalas

(Sonia Cancine)


Símbolo flor de pureza e perfeição
Iluminada pelo sol da manhã
Eclodem tuas pétalas e irradia perfume
Do lodo, floresce tua liberdade
Intocada pela imundície
Homem, inclina tua força interior
Apesar do teu sítio antagônico.

À espera de eclodir a tua existência
Oh! Belo lume lótus de mil pétalas
Espelho dos grandes homens do Sol
Abra tuas asas para mim...

Através do poder do fogo sagrado
e da grande força dos princípios vitais
Faz-te vida vivente, em minha carne.

O fogo arde neste sutil revelar
Uma vaga sombra da consciência
Fogo serpentino que pode criar ou destruir
Teu despertar num todo harmonioso.

Converte-te em pássaro e desvenda tuas asas
Incapaz de levantar vôo. Mas, neste afã de voar
Abaliza o belo do feio. Experimenta!
É chegada à hora que finalmente
>mil pétalas da lótus
o libertarão
e deitará sobre tua cabeça
a Coroa de flores do Amor.

Não tenhas medo, é vórtice que nos sintoniza
Neste cálice de vontades...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Muchachas de Copacabana

Quando Xavier dissera a Odete que jamais haveria outra mujer que lhe fizesse tão feliz quanto a ex-pobre garota de programa, os olhos azul-turquesa do Espanhol reluziam confissões de um amor sincero. A primeira vez que o Espanhol viera ao Rio foi paixão à primeira vista: as belas praias, a cidade imperial de Petrópolis, a Vista Chinesa, a melodia sussurrada do engraçadíssimo sotaque carioca - e as belas meninas que exibiam seus corpos torneados tal como o majestoso Pão de Açúcar. Não que fosse do tipo turista sexual, não era essa a questão, era homem de bem e de negócios, de caráter sóbrio. Além do mais que mal havia em deixar-se inebriar pelos doces lábios de cana-de-açúcar destilado das renomadas Muchachas de Copacabana? Conhecera outros gringos nos prostíbulos da Zona Sul e vez e outra ia de encontro aos novos amigos para tomar um drinque, jogar conversa fora e, claro, apreciar as meninas. Na noite em que trocara olhar com Odete não contava com a peça que o destino lhe pregaria. Tudo estava em seu perfeito lugar, como deveria estar. “ – Tem fogo?”, perguntou Odete. “ – Si, si, claro!”, respondera ele gentilmente o clichê em forma de convite de aproximação. Odete não intencionava flertar com o Espanhol – uma das meninas de fato lhe tomara o isqueiro emprestado e minutos depois desaparecera com um cavaleiro inglês. Era sua quarta semana na batalha e só não deixara ainda de exercer a profissão mais antiga do mundo por gratidão à Velha Sofia – cafetina de luxo e estrela-cadente dos tempos de ouro da rádio nacional. Sofia lhe estendera a mão solícita quando a mulata da baixada fluminense cansou-se da revenda de cosméticos: “ – quem consegue viver com quatrocentos reais por mês?”, reclamava Odete antes de dedicar-se a tal empreitada. O Xavier bem que se divertiu com o ritmo caliente de Odete. Como haveria de ser. Odete tinha um quê de bossa-nova, uma tristeza tépida quase elegante. Seus olhos negros e irresolutos descompassavam o Espanhol dos pés à cabeça. Xavier não percebera mas no primeiro encontro já se podia dizer que estava tão enovelado quanto as tranças nagô da jovem mulata. As visitas ao Brasil tornaram-se cada vez mais freqüentes até que um dia não resistira mais e entregou os pontos: “– Compramos um apartamento e dividiremos o mesmo teto de hoje em diante”, disse com ar de príncipe encantado. Tudo parecia as mil maravilhas para o casal mais feliz do ano. A Odete, que a essa altura havia se matriculado no curso de psicologia, acabara de concluir seu primeiro período na faculdade e para comemorar Xavier levou-a para Paris. Ela contava toda prosa, com o sorriso do gato de Alice, tudo que havia aprendido nas aulas de introdução a psicanálise enquanto os dois saboreavam a garrafa de Beaujolais Nouveau, vinho favorito de Xavier, no restaurante Chez René no Quartier Latin. Depois o casal de enamorados amaram-se loucamente sob as luzes difusas da Pont Neuf. Como haveria de ser. De volta ao Rio, os dois seguiram contentes até um certo mês de Agosto, um ano após a viagem. Xavier se dera conta de como seus ímpetos masculinos o haviam traído. Certa tarde em que Odete se encontrava na faculdade, o Espanhol acometeu-se de uma terrível saudade dos tempos em que não acordava todos os dias com a mesma mulher. Não que duvidasse de seu amor por Odete, só que por alguma razão inexplicável a felicidade lhe amargara o paladar. Tudo havia se tornado tediosamente previsível. Sua nova vida no Rio não lhe reservara mais surpresas. Do alto de sua cobertura em Copacabana, Xavier se vira enfadadíssimo. Foi quando resolveu discutir o caso com Odete de forma sincera: disse que preferia ser honesto com ambos. Não queria feri-la mas precisava de um tempo para refletir sobre a vida a dois. E como é sabido por todos: dar um tempo é tarefa individual. Odete não questionara a decisão do Espanhol, porém foi obrigada a chorar quando juntou seus pertences para nunca mais voltar. Era uma vez Cinderela. Ao decorrer de três meses, o suficiente para cicatrizar as feridas de amor, Xavier preferiu não abrir mão da cobertura – afinal o Rio de Janeiro não pagaria o preço por um caso de amor malogrado. Ao findar do sétimo mês lá estava ele novamente a passar noites em prostíbulos, jogando conversa fora com outros gringos, bebiricando seus drinques, cercado das mais belas damas de aluguel de Copacabana. Tudo estava em seu devido lugar, como deveria ser. Houve uma noite em que seus instintos exaltados falaram mais alto e ele resolveu levar uma menina para cobertura. Saciou seu apetite carnal com a mulata mais cobiçada da boite Help. Ao término do serviço sexual - que não incluía dormir em forma de conchinha - a menina, sem fazer cerimônia, pediu o lhe era de direito, vestiu-se e foi embora. Estirado na cama de casal, ainda nu, Xavier acendera um cigarro sorrindo e pensou: o amor é uma puta que se despede sem beijos. Como haveria de ser.


Sebastião M.

Meu Caminho

Devastando meus sonhos e esperanças...
Você reaparece!
E abruptamente consegue corromper uma vida
Onde a satisfação e o gozo se confundem
Na velocidade da tua indiferença minha angústia te acompanha
E ultrapassa todos os limites da minha sanidade
E neste descontrole me perco na única via de equilíbrio que me resta
O que tenho agora é a visão de um mundo em mão única...
Sigo o horizonte sem olhar para trás
A tristeza, fiel companheira segue -me nesta caminhada
Unilateralmente esmago a todos com voraz devassidão,
Ofereço o mais puro gozo...
e na minha indiferença...
Sigo!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Gêmeos Contextuais

Senhor Hipônimo e Senhor Hiperônimo eram gêmeos não-univitelinos. Trabalhavam juntos na mesma repartição.
Senhor Hipônimo era carrancudo. Metódico. Não abria exceções. Já o Senhor Hiperônimo era mais bonachão. Comunicativo. Guardava ainda uma rebeldia adolescente e levava a vida com condescendência.
Naquele dia, o sub-chefe do setor de pessoal da Secretaria do Conselho anunciou, com voz grave, que estavam todos dispensados de seus serviço e deveriam desocupar as gavetas.
Senhor Hiperônimo esbravejou. Lamentou todos os anos perdidos em dedicação à burocratização da Empresa. Ao fim, pôs-se a varrer os própios vestígios do recinto.Surprendeu-lhe um achado entre as pilhas de arquivos: Uma pasta amarela intitulada "Projeto de Vida Pessoal de Hiperônimo". Sorriu. Tomou a pasta contra o peito. Começou a assobiar uma canção dos anos sessenta e ganhou novamente a rua.
Senhor Hipônimo só agora começava a despertar da letargia que a notícia lhe causara.Abriu a primeira gaveta.Contemplou a simetria dada pelos objetos ali dispostos com perfeição.Abriu a segunda gaveta. Retirou o estojo com os óculos e, então, abriu a terceira.
Ouviu-se um estampido seco, metálico...como a vida do Senhor Hipônimo tinha sido por todo o sempre.

O Carrossel de Dlim Dlão






Que coisa tão
engraçada
bola pião
e risadas

Canta lá fora
a passarada

Minha irmã
pula corda
na calçada

Sorrio do tudo
que vejo

Descubro
o mundo
de meu berço

Se choro me
dão mamadeira

A noite chupo
chupeta

Adoro nadar
na banheira

Vovó me senta
no colo
dá um cheiro
em minha bochecha

Sonho meus
mundos deitado
na esteira

Toca o carrossel
seu dlim dlão
gira o mundo
gira o céu
gira lua
gira o anjo
que me sorri
lá do alto
da estrela



Autora: Angela NadjaBerg Ceschim Oiticica

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

PAIXÃO VULCÃO

Para: O amor
Ao som de Belchior




As vezes penso que o amor deixou de existe, mas toda vez que olha para os velhinhos se amando na praça, sorriu pra mim e fico bem, o amor ainda existe; nas bocas ressecadas pela idade que se tocam no banco da praça.
As vezes tomo alguma bebida alcoólica de leve querendo espanta o frio ou o medo da morte , sempre que bebo converso com pessoas conhecidas ou não o que importa e ouvir e se ouvido, atenção é uma coisa que não se vender; ontem conheci uma garota ela beirava a juventude usava preto e ouvia rock queria muda o mundo fazer algo. Eu disse pra ela que um dia pensei assim; hoje o que restava era a verdadeira realidade do ser vivo.
Ela me perguntou o que era, disse baixinho no seu ouvido:” fazer amor” ela sorri pra mim me beijou e saiu em busca de algo que não podia lhe dar.
Sandoval do bar vive dizendo pra mim que sou louco; que não presto pra nada, que não saber o porque de uma pessoa igual a mim viver naquele lugar pacato. Sempre sorriu pra ele e lhe digo: “Seu Sandoval amar e nada mais”.
Sempre que digo isso ele me deixa e vai cuida dos seus clientes normais. É verdade mesmo o que ele diz? Algumas pessoas acham que sim outras que não isso, não importa eu não sou popular no lugar onde habito, sou apenas mais uma figura urbana como tantas outras da cidades.
Fred é que é mais louco que eu imagine só!, viver pelas ruas da cidade mostrando um cartaz abraço grátis, algumas pessoas o abraçam mais isso é muito raro, o normal é ele passa semanas sem conseguir um único abraço, pobre Fred, já disse isso pra ele mais não adiantou nada, ele continua abraçando pessoas nas ruas e eu olhando os velhinhos se amarem na praça.
Tenho um amigo que deseja ser artista pobre diabo artista se é não ser deseja, ele quer sim o glamour da arte mais isso poucos tem. Quando ele me mostra seus escritos acho-os lindos e sinto uma vontade imensa de poder ajuda-lo a conseguir o estrelato. Sorriu pra ele e lhe pago uma bebida bebemos o álcool faz efeito começo a querer uma mulher pra a amar ele começa a falar sem parar sobre tudo sobre Deus, Diabo, arte, sexo e outras coisitas mais. Mandou ele cala a boca ele insistir em falar dessa vez sobre vampiros ; o deixo só, ele correr em mim direção e socar minha barriga corro dele e sigo em direção a casa de Maria puta bonita da minha cidade, ela ainda dorme a noite deve te sido longa; depois de meia hora ela abre a porta me coloca pra dentro me amar como uma donzela do século XVI, junto de mim ela não precisa de mascara, junto de mim ela não precisa de nada.
Depois conversamos sobre seus pais ela diz que seus pais ainda não aceitaram sua profissão de rapariga, digo pra ela ;que á vida é assim se preocupa é um fado sem importância.
Ela sorrir pra mim é me expulsa de sua casa fala que precisa dormir, que logo mas ira trabalha de novo. A deixou em paz.
E vou arrumar comida com os mendigos do centro, na verdade prefiro come com os cheira cola porque são crianças e ainda tem alguma esperanças na vida, os mendigos do centro na maioria são velhos decrépitos,rabugentos e ranzinzas , não gostam de conversar muito sempre que agente se encontra agente discuti principalmente quando a velha Irene esta. “Oxe o que tu veio fazer aqui ? cara nojento eu te odeio não quero você comendo da minha comida.” Me diz Irene
-Sai pra la velha rabugenta não quero conversar contigo vim conversar com os outros.
Respondo pra ela.
Consigo comer e os deixou a pedir pelo centro e volto pra meu lugar. Minha casa continua suja a dois meses desde que minha amante me deixou não limpo minha casa.
Tenho coisas mais importante pra fazer, como não fazer nada, assim é minha existência dormir como uma criança imaginando o próximo dia como o melhor para brincar com os outros menores.
Acordo cedo nem tomo café direito e coro pra praça e vou fazer o que mais gosto olha os velhinhos se amarem.

Salvatório

Em : dez de janeiro de dois mil e sete, sendo uma quarta de uma tarde quente.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Guerra e Paz


o tártaro decerto havia dito do sangue que escorria das montanhas e formava uma cascata colorida. tão bela, cheia de corações partidos e perfurados. e eu a admirava. embora supeitasse pecado por tamanho despudor de tê-la por diva. e nela via o rosto mais autêntico do ser. o medo do agora. tanta fobia por nada, um pouco de pó um pouco de dias e uma saudade imensa de minha filha.

Convaidada Allanna Menezes



 Fim de estiada

chuvarada
.
o que tanto pesa
nesses
que caiam
que tanto pinga
desses olhos
e tanto pesa
tanto chove
nessa cara
já nem sei se é
mesmo amor
ou outra peça
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tiro o mundo da tomada
preparo um café
e a velha cadeira,
herança de avô.
é,
com chuva
me deixam assim
fechada para balanço.
--------------------------------------
da janela espiava a chuva
afinada em si
fina, tão fininha
mais parecia
seus cabelos, vovó
num coque
conforme o vento
e o tempo
---------------------------------------
chuva
cor de nada
feito vento
ou feito deus
por isso
insiste em deixar
multicor
esse céu atrás de si
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quando saí do trabalho
a danada me esperava
molhada como sempre
e eu ali, duro
.
sem dinheiro pro táxi.
me encharquei todo.
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elegia da chuva
nada mais fazia senão chover
chovia por poros abafados em tule preto
e seguia o gotejo
e seguia o cortejo
.
---
Allanna Menezes

domingo, 11 de janeiro de 2009

Convidada Liege Marla




















LIBERDADE


Somos escravos do asfalto, enquanto pássaros desnudam com ar soberano e num lindo bater de asas, sua excelência como donos do céu, do ar, dos ventos e de uma liberdade sem limites!
O homem, pela incapacidade e insignificância diante a tanta beleza, empunha-se de uma arma e por simples prazer, finda este espetáculo para sempre...
E os frágeis corpos que caem, pousam sobre suas cabeças para novamente se fazerem vivos, mas em suas almas, para que jamais esqueçam o quanto irracional e cruel é o ser "humano".

---
Liege Marla


sábado, 10 de janeiro de 2009

Autópsia Psicológica





Havia um lugar em que eu queria estar agora, um ponto no fundo do quintal da casa em que eu cresci, um lugar aonde eu ia para chorar sem que me vissem (odeio que me vejam chorar) ou apenas para sentir o vento.

Lá ficava uma mangueira. Era mais nova que as outras árvores e na luta por sol havia se tornado a mais alta. Quase não tinha galhos laterais, era longilínea e sua copa se erguia acima de todas as outras. Só eu conseguia escalar aquela árvore, por isso a considerava minha. Era no alto dela que eu gostaria de estar. Escondida entre as folhas, esquecida do tempo. Infelizmente isso não seria possível já que a árvore foi cortada e no lugar da casa existe agora um prédio feio. Moro em outra cidade, outro tempo, outro corpo e não posso me esconder... Nem sempre.

Era de manhã quando ele ligou. Confesso que pensei em não atender. Sabia quem era e achava que sabia a razão do chamado. Estava errada, não sabia.

“Alô. É você? Tem alguma idéia de que horas são?”

“Cala a boca e escuta.”

Levei um susto enorme com o tom de urgência na voz. Um choque que me fez obedecer e suspender as reclamações.

“Presta atenção, meu amor. Eu decidi ir embora.”

“Como assim?”

“Fica calada e me escuta. Não é você... não tem nada errado com você OK... Não admito que pense assim depois... não esquece... EU DECIDI.”

“Você não tá falando sério.”

“Presta atenção! EU QUERO IR EMBORA E NINGUÉM TEM NADA COM ISSO!”Ele oscilava entre o sussurro e um tom próximo do grito. “Mandei um bilhete pro resto da família... mas com você eu queria falar... queria te ouvir antes...”

“Pára com isso! Onde você tá? Eu vou te buscar...”

Podia ouvir o vento em meio a um silêncio absurdo, tudo parado como se nada mais importasse além da voz dele no telefone. Depois de uma longa pausa, ele suspirou.

“Eu sei que viria, mas não dessa vez... Obrigada, anjo... eu quero ir embora.”

“Por favor, só me diz onde diabos você está e fica falando comigo, não desliga!”, eu disse pegando as chaves do carro e correndo para a garagem. O silêncio dele me assustando cada vez mais. “Fala comigo!”

“Só queria que soubesse... Não é sua culpa... um beijo, anjo.”

Fiquei algum tempo olhando para a chave inútil. A chuva começou naquela hora.

Chove enquanto eu fico aqui cercada por cartas, bilhetes, fotos e livros que explicam o que eu já sabia. Desisto de ler.

Assisto a cidade afundar numa tarde aquosa. Penso vagamente em andar na tempestade. Olho da janela minha rua transformada num rio pardacento e desisto disso, também.

Minhas idéias giram, rodopiam sem parar, os pensamentos embaraçam seus longos tentáculos e acabo por não pensar coerentemente. O céu ali, à esquerda do poente, abriu-se num magnífico azul que se expande. Sobre as árvores da praça surge um arco-íris e eu me escondo nele. Vento e chuva entram pela janela aberta. E se eu fechar os olhos posso ver a árvore morta dos meus devaneios.



* Tela: Miranda, The Tempest de John Williams

Convidado Robisson Sete















Acasos, Caos e Coincidências




Acredito em coincidências.
Acredito em acaso. Em instinto.
Meu Deus também joga dados, mas também sai às vezes pra dar um rolê.
Deixa o tabuleiro à mercê das crianças.

Acredito em premonições e no poder intuitivo.
Acredito no que dizem os arrepios na espinha. Creio em dejä vus.
Tento sempre que me lembro, decifrar meus próprios sonhos.
E os dos outros também.

Leio horóscopos.
Freqüento centros de candomblé.
Participo de reuniões de médiuns e videntes. Como biscoitinhos da sorte.
Peço a ciganas q leiam minhas mãos, as duas, pra que não restem dúvidas.

Sento sempre q posso
No centro da cidade na hora do rush
Tentando observar o acaso agindo sobre nossas vidas.
Um encontro inusitado. Uma batida de carro. Um ônibus q se perde.

Daí me permito seguir pessoas e descobrir o que o acaso lhes reservou.

Mania estranha né ?

Poizé... Melhor q roubar chocolate Bis nas Lojas Americanas, igual fazia quando estudava no Bueno.


Acredito que algumas coisas não são à toa. E outras acontecem e servem ou se utilizam, como q sendo antenas do subconsciente, pescando o pensamento coletivo.

Crash da bolsa, presidente americano negro e descendente de muçulmanos, as historinhas da Mônica agora são adolescentes, começo a ficar barrigudo, meu joelho dói, minha banda lança disco, eu lanço livro e a chuva se aproxima no horizonte.

Alguma coisa isso tudo deve ter ...

Tempo maluco esse em que vivemos.
Mas sempre foi assim, é como dizia acho que Dickens “... a mais maravilhosa época do homem, é a em que se vive”.

Meio obvio né Charlie ... mas tudo bem.

É ou seria presunção, adivinhar o futuro. Dizer isso ou aquilo.
Não me cabe ...

Do futuro pouco se sabe.
Sei q fim de semana tem ensaio, futebolzinho na sexta com os brothers, festinha no sábado.

Aliás festança né...

Do futuro pouco sei.
Sobre mim mesmo, ainda ando lendo a bula.
Mas estoy muy curioso sobre o que me guarda, esse maldito futuro.

Pra mim e pra nós

Pra vocês e pros outros

Pra eu e você

Pra ela


Pois bem ... nós vemos então qualquer dia desses

no futuro

.

Robisson Sete
www.myspace.com/juannabarbera

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Chico Mentirinha


Já passavam das quatro da tarde e eu ainda não havia forrado o estômago. Coisas de caminhoneiro que, levando a vida rasgando estradas do Brasil por dias a fio transportando na cabeça a preocupação em ser fiel a horários e deixar a carga sã e salva no seu devido destino, se esquece até do básico para a sua sobrevivência: alimentar-se.
A fome soou feito buzina de carreta, revirando as tripas. Ao sinal do estômago, decidi estacionar o caminhão no primeiro posto de gasolina que avistei. Era uma parada já conhecida, ponto de encontro de caminhoneiros oriundos dos quatro cantos do País. Queria matar a fome e bater um papo mas, pelo adiantado da hora me deu a certeza de que ali eu não teria nenhum colega de estrada para me fazer companhia durante o rancho. Detesto comer sozinho porém, os anos passados dentro das boléias se não me fizeram acostumar com as refeições solitárias ao menos me deram resignação e paciência para lidar com estes problemas miúdos.
Estava eu devorando com satisfação o prato feito que a cantina do posto tão bem servia quando Chico Mentirinha apareceu. Aparição, ao estilo dos fantasmas, foi a melhor expressão que me veio à cachola naquele momento para definir o surgimento do Chico. Nem notei o ronco do motor de sua carreta estacionando. Quando dei por mim, ele já estava se sentando ao meu lado, sem cerimônia, carregando aquela cara de mentiroso tão folclórica entre nós, irmãos caminhoneiros. Trajava chapéu de vaqueiro, camisa listrada, jeans justos seguros por um cinto cuja fivela gigantesca chamava atenção pelo brilho cintilante. Os pés estavam cobertos por um par de botas marrons um tanto empoeiradas. Lembrava um personagem de filme de faroeste. O próprio Chico costumava afirmar ter sido Cowboy nos States e tomado parte em rodeios montando cavalos chucros. Ninguém dava crédito à história.
Chico pediu um PF. Enquanto mastigava, começou a deitar prosa. Fazia jus ao apelido que os companheiros de profissão nele haviam posto, afinal, seus casos narrados, recheados das mais absurdas cascatas, faziam sua fama. Chico era motivo de chacota por onde botasse os pés e, como eu estava solitário e afim de um bom passatempo, festejei o encontro. Seria um pouco de diversão trocar uns dedos de conversa com aquele mentiroso pouco antes de dar prosseguimento a minha viagem.
Naquele final de tarde, Chico Mentirinha estava possesso. Contou-me uma história disparatada.
— Léo, tu me imagina o que aconteceu com o seu amigo aqui! Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo.
Chico acabara de soltar dos lábios sua frase predileta: “Que Deus mande um raio me partir ao meio se eu estiver mentindo”. Preparei-me para o tamanho da lorota acendendo um cigarro.
— Lembra daquela greve de fiscais de pesagem semana passada no Rio Grande? Pois é, eu estava lá com um carregamento de sementes de girassol. Chovia Léo, parecia que Deus havia mandado um segundo dilúvio. Fiquei mais de uma semana parado naquela fila maior que a muralha lá das chinas, esperando pesarem o caminhão para liberarem a carga. Quando finalmente me autorizaram a seguir caminho, eu já tava mais atrasado que noivinha no dia do casamento. Então eu nem pensei duas vezes: sentei bota no acelerador sem dar atenção para a carga que transportava. Foram quase dois dias guiando direto, quase sem dormir. Até que uma hora, veio um desassossego com o estado da carga. Fazia mais de uma semana que eu não dava uma espiada nas condições do frete que estava carregando. Parei o caminhão no acostamento e levantei a lona para conferir. Qual foi a minha surpresa? No meio das sacas haviam brotado uma dúzia de girassóis enormes, iguais aqueles do quadro daquele cara que arrancou a orelha, Van sei lá o que! E como cheiravam os danados! Lindos, com os caules taludos, parecendo um braço de tão grossos! Passei tanto tempo parado na fila da pesagem que deu tempo das sementes germinarem!
A incredulidade em forma de ironia deve ter fincado estaca em meu rosto, pois Chico Mentirinha encarou-me com aqueles olhos de "tá duvidando?".
— Tá pensando que é mentira, não?
— Que é isso, Chico!
— Pensa que eu não sei? Todo mundo por estas estradas vive dizendo que eu sou cascateiro.
— Não penso assim - menti.
— Pois eu vou te provar
Pediu nossa conta na cantina e fez questão de pagar. Seu semblante estava acabrunhado. Segui o "cowboy" até o seu caminhão me espremendo em desculpas, dizendo que nossa amizade não poderia acabar por causa de bobagens que os outros espalhavam.
Mas Chico não me dava ouvidos. Decidido, subiu na carroceria do caminhão começando a desatar alguns nós que prendiam a lona. Descobriu então a carga e exigiu que eu também subisse e olhasse.
Confesso haver sido assaltado pelo medo do que poderia encontrar dentro da carroceria, mas tomei coragem e olhei. Não contei o número de girassóis nascidos entre aquelas sacas de semente que cobriam todo o compartimento traseiro do caminhão, mas eles lá estavam, estupendos espécimes atestando a história do Chico. Ele sorriu vitorioso.
Segui meu destino desbravando quilômetros de asfalto com a história dos girassóis em mente. Deixei meu frete no Porto de Santos e rumei para casa com a imagem do Chico me atormentando. Pensava em como a gente costuma generalizar conceitos. O cabra mente uma vez e pronto. Não se passa recibo em mais nada do que ele diz.
Finalmente o lar. Abracei a esposa, beijei minhas crianças, estava de volta. Como é bom retornar para a família. Só que é caminhoneiro compreende o quanto aqueles que amamos fazem falta na solidão das estradas.
Durante o jantar, contei tintim por tintim o caso dos girassóis para a minha esposa. Ela olhou desconfiada e, para a minha surpresa, decretou:
— Deixe de ser bobo, homem. O Chico é tão mentiroso que é bem capaz dele de véspera ter comprado uns girassóis e enfiado entre as sacas só para dar fiança a mentira que ia ele contar para o primeiro que cruzasse com ele. E o trouxa foi você. Acorda Léo!
Sorri diante da bóia fumegante servida pela esposa concluindo que nunca saberei a verdade sobre o episódio. Que Chico Mentirinha continue por este mundão animando a vida de nós caminhoneiros com suas invencionices.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Homem bonito


Sempre achei que uma das maiores tragédias que podem acontecer a uma mulher é amar um homem bonito.

Claro que o pobre homem que teve o azar de nascer bonito não tem escolha, tem que conviver com isso, mesmo. Um dia ele se ligará a uma mulher, e vai condená-la, por amor, a uma vida de tragédia.

Certamente há tragédias maiores, grandes e súbitos desastres, perdas terríveis. E, dentre as tragédias cotidianas, há também muitas mais facilmente identificáveis como tal, pequenos cotidianos doloridos. Comparadas a essas, que todos concordam serem desgraças, a tragédia de que falo parecerá talvez insignificante.

Falo da dor de se viver a cada dia o pequeno problema de ter que estar ao lado desse homem. A tragédia de ter que ver a cobiça se acender no olho de cada mulher que olhar para ele.

Mulheres não são naturalmente traiçoeiras e falsas, não: isso é mito; como é mito a amizade incondicionalmente leal entre homens. Do que tenho visto do mundo, as amizades entre mulheres são tão incondicionais e tão cheias de lealdade quanto as masculinas. Mais, até. Mais capazes de abnegação e altruísmo. Mas a coisa a que me refiro aqui é cobiça em estado absolutamente bruto, uma coisa involuntária e indomável, independente das boas intenções, da boa formação ou do bom caráter de uma mulher.

Claro que isso de beleza é questão de gosto. Além disso, quase todo o mundo que conheço descreve um tipo físico ideal e acaba se casando com outro quase oposto (estou falando de casamentos como se ainda fossem eternos, mas é assim que gosto de pensar neles.).

Eu, por exemplo, casei com um homem que acho bonito, mas não é disto que falo. Não falo do simplesmente “achar”: falo do tipo de beleza que não é “questão de gosto”; que é indiscutível, que é consenso absoluto.

Tive sorte, cresci dizendo que queria um homem muito alto e muito magro, de cabelos escuros, olhos verdes e que usasse óculos. Alguém com cara de sábio, mãos longas, voz grave, essas coisas. Encontrei um homem exatamente como descrevi, mas não posso deixar de perceber que ele é o que 'me' interessa, e que deve haver muita mulher que não concorda comigo. E lembro de pelo menos dois casos de moças que me descreveram seus maridos como sendo lindos – não era 'modo de dizer', elas realmente acreditavam que isso era um fato indiscutível – e quando vi os moços em questão (aliás, muito parecidos um com o outro, embora não se conheçam), tinham uma aparência que não me faria olhar duas vezes, a não ser para torcer o nariz. Mas aprendi que é um tipo que agrada a muita gente...

Não é disso que falo: não estou falando de pessoas de beleza 'normal', a quem algumas mulheres achem bonito e outras achem feio.

Falo de um arquétipo.

Falo de beleza arquetípica, a imagem que os príncipes encantados têm nas ilustrações dos contos de fadas e está gravada no inconsciente de cada menina. Existe homem assim? Existe.

E, voltando ao início da conversa, uma das grandes desgraças que se pode enfrentar no cotidiano é ter de viver ao lado de um desses homens. Não é de hoje que digo isso, não. É coisa que sempre achei. Se tiver que dar um conselho a uma filha, será: fuja de homem bonito! Cuidado! Mais ainda se tiver um olhar cristalino, através do qual se vê a alma pura. É príncipe encantado pra ninguém botar defeito. Quanto mais ele for 'bom', mais difícil será a vida da mulher que ele escolher.

Talvez isto não seja assunto para uma crônica. Talvez eu devesse falar sobre mulher bonita, e aí me entenderiam melhor. Vou falar disso então: a coisa de que falo é muito diferente de um homem viver com uma mulher que faça todos se voltarem quando ela passa. Deixando de lado o fato de que ter mulher linda é, entre outras coisas, um atestado de status.

Vejo que existe entre os homens um certo respeito pelo fato de que uma mulher 'tem dono', está acompanhada, é casada, comprometida. Claro que isso não isenta essa mulher de paquera, mas é quase que uma paquera perfunctória, um atestado de masculinidade que o paquerador dá a si mesmo quando olha para ela de alto a baixo, quando lhe diz algo lisonjeiro ou quando troca com outros homens um comentário cúmplice. Uma mulher a quem você é apresentado como "a esposa de fulano", por mais atraente que seja, tem de certa forma um X invisível sobre seu corpo, algo que a identifica como 'artigo proibido'. Pode até ser que a própria condição de coisa proibida venha a torná-la cobiçada, eventualmente, mas não é nada disso o que acontece com mulheres quando deparam com a encarnação do Príncipe Encantado. Desgraçadamente, devido às ilustrações dos contos de fadas, ele tem o mesmo rosto, na imaginação de cada uma.

Mulheres crescem com a convicção de estar destinadas ao Amor. E se o Amor – o Príncipe Encantado – cruza seu caminho, uma mulher vai fazer qualquer coisa para obtê-lo, quer ele tenha outra ao seu lado, quer não. A enorme diferença está no fato de que, para ela, não há nada de errado nisso: está apenas lutando pelo que acredita ser seu, de pleno direito!

Enquanto um homem vai pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa para conquistar a musa que tem dono, uma mulher não hesitará em derrubar tudo, em destruir a própria vida e a dos outros em troca da possibilidade de um Felizes Para Sempre ao lado da encarnação do Príncipe dos contos de fadas. A pobre companheira a quem ele escolher terá de viver para sempre sendo desafiada em seu posto de Amada e tendo de comprovar a cada segundo seu poder de sedução, o que quer que tenha sido a coisa nela que atraiu a esse homem bonito. Quer tenha sido o bom-humor, a sensualidade, a meiguice, a inteligência ou mesmo a beleza dela (que nunca chegará aos pés da beleza dele), e ainda que tenha sido alguma coisa indefinível que o tempo não pode alterar, ela enfrentará a cada dia de sua vida o olhar pasmo de desconhecidas que terão, ao olhar para o homem dela, a Visão de alguém com quem sonharam e que por fim encontram. E a perceberão não como alguém a quem se pretende sacanear, mas como a Usurpadora que está levando aquilo que por direito lhes estava destinado (“O que ele viu nela?!”). Essas mulheres, caros amigos e amigas, lutarão pelo Amor. Com razão, talvez?

Por mais bem intencionado que esse belo homem seja, não há relacionamento que resista a isso. Ao teste diário e repetido, à constante necessidade de reafirmação da escolha. É estresse pra ninguém botar defeito.

E aí? Isto é tragédia ou não?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


VAGINA


------------------------------------------Eduardo Perrone..........................


Quase sempre

Essa gente imagina

Saber onde nasce

A vagina.


Mas não o sabem.


Nasce na descoberta

Da menina,

De que a fenda aberta

É quase uma certa sina,

É quase um atestado de gênero,

Genericamente

Falando.



E se é de orgão sexual

Que pensem que estou falando,

Eles erram novamente.

E novamente não o sabem.



Quantos mundos

Numa vagina cabem...?

Ouço falar de penetrações múltiplas,

E de céleres desculpas

Que afirmam o que não foi.

E fica, então,

A vagina como ilustre desconhecida.


Que gosto tem?

É de onde sai o neném?

Porque os pelos?

Precisava ser vazia...?



A vagina

Arrepia

Quem dela nasceu.

Quem a cheirou,

Degustou

Sentiu

Percebeu...


A vagina nasceu

Quando morreu

A última mulher

Que não a percebia.

Quando essa mesma mulher

Agonizava na primazia

De ser, tão somente, mulher

E nada mais.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Raimunda



Raimunda era uma mulher infeliz, muito infeliz. Obrigada a passar os dias reclusa, trancafiada em seu pequeno quarto sem janelas, longe dos olhares curiosos dos vizinhos e parentes. A única pessoa com quem tinha contato era sua mãe. Diariamente, Dona Jurema levava-lhe as refeições e passava alguns minutos na companhia dela, em silêncio. Não havia espelhos no quarto. Raimunda sabia o porquê. Nascera com um defeito congênito, um defeito que fazia dela um ser bizarro, diferente, uma anomalia ambulante: tinha cara de bunda e bunda de cara. Isso mesmo, por alguma razão que só Deus - ou o Diabo - sabiam, seu corpo havia se formado com essa estranha inversão. Só essa. O resto estava todo em seu devido, anatômico e fisiológico lugar. Ou quase. Em seu rosto ou, melhor dizendo, em sua bunda que ficava no lugar onde deveria estar o rosto, havia aquilo de que toda bunda é dotada: um ânus. É. Raimunda não tinha só cara de bunda, tinha cara de cu.
O parto de Raimunda deu um tremendo trabalho à Dona Sebastiana, a parteira. Trabalho e um baita susto. Por pouco, ela não caiu desacordada sobre o ventre da paciente quando viu brotar de suas entranhas aquela coisinha miúda, sem cabelos e provida de um rechonchudo par de glúteos no lugar onde deveriam estar olhos, boca e nariz. Saiu desabalada porta afora quando, ao procurar a origem daquele choro agudo, deu de cara com aquele rostinho angelical, de bochechas coradas e olhinhos azuis. Dir-se-ia um lindo rosto se acaso não estivesse situado em local tão impróprio. A carreira da parteira terminou em tragédia sob as rodas da carreta carregada de cuecas e calcinhas, contudo, tão desventuroso destino mostrou-se oportuno àquele pequenino ser humano recém-vindo ao mundo dos humanos humanos e desumanos: preservar-se-ia o segredo. Sabe-se lá por quantas mãos de especialistas-cientistas-curiosos Raimunda não teria de passar caso seu caso fosse dado ao conhecimento geral. Mas isso não aconteceu, Dona Jurema guardou muito bem guardada, trancou muito bem trancada a razão de seu infortúnio: Raimunda, a bela menina com cara de bunda.
Raimunda cresceu. Aos dez anos, quando começou a fazer suas necessidades defecatório-fisiológicas sozinha, tinha enorme dificuldade em acertar o vaso sanitário. Acabava sempre cagando no chão do banheiro e na tampa do vaso. Se estivesse com diarréia, então... era merda para todo lado. Com o tempo e a prática, foi-se adaptando ao mundo que não havia sido projetado para ela.
O tempo passou, Raimunda chegou à maioridade, imersa na solidão melancólica de seu quarto, cujo mobiliário era modesto como sua vida: uma cama de solteiro, um criado-mudo, uma estante com alguns livros e um aparelho de televisão com imagem em preto e branco, sua única janela para o mundo. Gostava de novelas e filmes românticos. Apaixonou-se um sem número de vezes por um sem número de atores. Numa fria noite de inverno, descobriu seu especial interesse por homens narigudos, enquanto assistia ao filme Cyrano de Bergerac, protagonizado por Gérard Depardieu. Era romântica, sonhadora, amava a vida com ardor, ainda que não soubesse o que era a vida além daquelas quatro paredes.
Certo dia, Raimunda sentiu um forte cheiro de perfume e ouviu uma voz masculina advinda de outro cômodo da casa. Pelo teor da conversa e os risos abafados, parecia que mamãe tinha arranjado um namorado. Sairiam para jantar. Raimunda esperou. Quando ouviu a batida surda da porta principal da casa e o subseqüente silêncio, tratou de movimentar a maçaneta. A porta abriu! Sua mãe, provavelmente sob o efeito do frenesi causado pela expectativa de estar novamente com um homem, havia esquecido de trancar a porta do quarto. Finalmente, após longos dezoito anos, Raimunda saberia como eram as coisas do lado de fora de sua prisão. Foi andando de costas, de modo a ver por onde andava. Conheceu o quarto de sua mãe, a pequena cozinha, o banheiro, a sala. Voltou à cozinha, vira algo que lhe chamara a atenção. A porta! Havia uma chave no interior da fechadura. Girou a chave, a maçaneta e... ar puro, finalmente! O frescor da atmosfera noturna atingiu em cheio seu rosto. Quedou-se vários minutos respirando aquele bendito ar. Por que sua mãe a havia privado disso por tanto tempo? Ensaiou um primeiro passo porta à fora e recuou, o medo do desconhecido a atingiu em cheio. Como um animal que permanece muito tempo enjaulado, foi tomada do receio de abandonar a segurança de sua cela. Sabia que era arriscado sair porquanto sabia que era uma mulher diferente, suas mãos, seus olhos e o monitor do televisor desligado lhe mostraram o que sua mãe tanto esforçou-se por lhe ocultar. Mas o desejo de liberdade, a curiosidade, a vontade de ver ao vivo e a cores tudo aquilo que assistira em cores neutras na tela do pequeno eletrodoméstico falaram mais alto. Hesitantemente, deu alguns passos no quintal de sua casa. Chegou ao portão que dava para a via pública. Estacou. Era o passo mais difícil. Respirou fundo. Puxou o trinco. Escancarou o portão. Estava na rua. Estava livre.
Caminhou devagar, deslumbrando-se com cada casa, cada prédio, cada árvore, cada poste, cada letreiro luminoso que encontrava ao longo da calçada. Na primeira esquina, descobriu o mal que habita a alma humana. Uma gangue de skinheads, ao redor de um latão em chamas, planejava seu próximo ataque em prol da supremacia branca. Raimunda tentou retroceder, mas era tarde: haviam-na avistado. Pensou em correr, mas o medo e a convicção de que não desenvolveria suficiente velocidade paralisou suas pernas. Limitou-se a virar-se de costas e fechar a abertura do manto com zíper, tapando seu rosto. Usava um manto negro, uma espécie de burka, que cobria seu corpo da cabeça aos pés. Sentia uma forte pressão, um turbilhão no estômago, como se lá houvera uma cambada de gatos em conflito. A gangue aproximou-se, rodearam-na. O mais alto, que parecia ser o chefe, disse:
- Ora, vejam só. Uma muçulmana perambulando sozinha nas ruas a uma hora dessas. Mamãe não te avisou que isso é perigoso, moça?
Raimunda não respondeu, todos os pêlos de seu corpo eriçaram-se, o estômago dava voltas e voltas, a pressão recrudescia perigosamente.
- As ruas estão cheias de indivíduos malvados que adorariam encontrar uma muçulmanazinha indefesa para distraí-los.
- Deixa a gente foder ela, chefe! - pediu um careca baixinho.
- Calma aí! Primeiro vamos ver a cara dessa puta.
No mesmo instante em que o chefe dos carecas arrancava, de supetão, o manto de Raimunda, ela perdia a batalha contra seu estômago. O jorro diarréico atingiu em cheio o rosto do líder do grupo, cobrindo-o de merda de cima a baixo. Ao ver Raimunda do jeito que viera ao mundo, os espavoridos carecas debandaram, atropelando-se uns aos outros, aos gritos de "alienígena! alienígena!"
Raimunda usou as páginas de um livro - Mein Kampf - que um dos skins havia deixado cair na fuga, para limpar-se. Vestiu-se. Recompôs-se. Pensou em voltar para casa mas ouviu música. Decidiu verificar a origem do som, a vitória sobre os carecas incutira-lhe confiança no espírito. Era um circo. Ela vibrou! Sempre quisera assistir a um espetáculo circense. Mas, com aqueles trajes, andando de costas e sem dinheiro para o ingresso, como entraria? Teve uma idéia. Esgueirando-se furtivamente em torno da tenda, encontrou um pequeno rasgo, por onde, ainda que com apenas um olho, podia ver o que se passava lá dentro. E o que viu fez seu coração palpitar: um homem baixinho, com pernas onde deveriam haver braços e braços onde deveriam haver pernas, fazia malabarismos com bolas e pinos, enquanto um palhaço de duas cabeças discutia e dava tapas em si mesmo, arrancando gargalhadas da platéia. Então, havia outros como ela! Não era a única diferente, a única anomalia ambulante na face da Terra! Continuou a assistir ao espetáculo. Viu trapezistas com quatro braços e quatro pernas, com pés no lugar de mãos e mãos no lugar de pés; um homem que não tinha olhos nem nariz, só uma enorme boca com a qual engolia quarenta e cinco espadas ninja; uma mulher gorda que peidava fogo, parecia um lança-chamas humano; outra que possuía vinte e dois seios ao longo do corpo, dava de mamar a vinte e duas crianças; o homem-galinha, que tinha penas, bico, cacarejava e comia milho. Por fim, o apresentador anunciou a atração principal da noite:
- Que rufem os tambores!... Respeitável público, El Gran Circo De Los Horrores tem o prazer de lhes apresentar o astro maior de nossa companhia, ele já foi político, juiz, empresário, escritor, ator de filmes eróticos, servidor público, policial, jornalista, michê, rufião, modelo vivo, operário em fábrica de preservativos, ele não precisa matar a cobra para mostrar o pau, ele ajoelha para rezar e também para mijar, ele não é metafórico, não usa Jimo Cupim, ele é dotadão, ele é... Ni-co-lau, o Ca-ra-de-pauuuuu!!!
A explosão de aplausos acompanhou, sincronicamente, os batimentos cardíacos de Raimunda. A taquicardia somada ao calor que lhe assomou ao corpo não deixava dúvidas: fora atingida pela seta inflamada do Cupido. Com o coração aos pulos, sem piscar os olhos, assistiu ao número do homem moreno, alto e musculoso que exibia, despudoradamente, um avantajado e portentoso pênis ereto no exato lugar onde deveria estar o nariz. O homem ergueu toalhas encharcadas, bolas de ferro, alteres, anões obesos e outras pesadas coisas mais com o pênis. Foi suspenso por uma corda amarrada ao bilau e voou sobre as cabeças dos boquiabertos espectadores. O gran finale consistia numa espécie de arremesso de porra à distância: o homem tinha de acertar um pequeno balde posto a uns cinco metros de onde estava. Silêncio total na platéia, momento de expectativa, tambores em pianíssimo. Alguns fotografavam, outros filmavam. O homem masturbou-se, masturbou-se, masturbou-se e... veio a primeira golfada de sêmen. Subiu, subiu, subiu - ninguém respirava - depois, em curva descendente, desceu, desceu, desceu e voilá! Acertou o centro do balde, sem respingar sequer uma gota no picadeiro. O público foi ao delírio, palmas, assovios, uivos, gritaria, algazarra total. Mas, decerto, ninguém vibrou mais que Raimunda, seu coração, sua alma, seu corpo, seu sexo clamavam por aquele homem.
Raimunda escondeu-se atrás de uma das rodas de um dos caminhões que compunham a frota circense. Aguardou, com ansiedade, a saída do público, o recolhimento dos artistas, assistentes e funcionários, o apagar das luzes. Pé ante pé, deslocou-se até o trailler onde se lia, em letras roxas: "Nicolau, o Cara de Pau". Hesitou, à porta, por alguns minutos. "Ele vai me atender ou me enxotar? Serei bem recebida? Ele vai gostar de mim?" Entretanto, essas dúvidas, esses temores naturais não vingaram ante a chama avassaladora que devorava Raimunda. Bateu. Três batidas secas. "Quem é?" - indagou, de dentro, uma voz grave. "Meu nome é Raimunda. Preciso falar com você." - parecia que seu coração pulsava na garganta e seria cuspido a qualquer momento. A porta abriu-se devagar. Nicolau, com seu nariz-pau descomunal, agora murcho, ficou olhando para os cabelos de Raimunda. "Aqui embaixo." Nicolau baixou os olhos, a glande roçou seu umbigo. Seus olhos se encontraram, tudo dependia daquele encontro de olhares, da mensagem muda que seria mutuamente transmitida. Gostaram do que viram. Nicolau sorriu, Raimunda sorriu. "Posso ajudá-la?" "Desculpe incomodá-lo a essa hora. É que assisti ao espetáculo e gostei muito da sua apresentação." "O que é isso? Incômodo nenhum. Entre, por favor." Raimunda não conseguia parar de sorrir. "Sente-se, fique à vontade. Aceita um uísque, uma cerveja, um refrigerante?" "Uma cerveja, por favor. E prefiro ficar em pé, se sentar, não conseguiremos conversar, você compreende?" "Oh, claro. Desculpe-me. Vou pegar as cervejas." Conversaram e beberam durante horas, cada qual contou sua história. Nicolau, que tinha o dobro da idade de Raimunda, disse-lhe haver descoberto a inexistência da normalidade humana, todos, absolutamente todos os homens tinham algum defeito, fosse no corpo, na mente, na alma ou no coração. "Há homens que, embora possuidores de um físico perfeito, apresentam toda sorte de defeitos morais, são homicidas, sociopatas, egoístas, avarentos, corruptos, degradados, dissolutos, ladrões, invejosos, estelionatários, escroques, a lista é gigantesca. Perto desses homens, somos as pessoas mais lindas e sãs de todo o mundo." - argumentou Nicolau. "Por falar nisso... Como você é bonita." Raimunda corou, mas não se esquivou do beijo. Percebeu que algo se mexia no rosto de Nicolau, era, obviamente, o pau, que crescia e endurecia assustadoramente. Mas Raimunda não se assustou, pelo contrário, entregou-se por inteiro àquele homem diferente, lindo e perfeito que a fez descobrir a beleza e a perfeição de sua própria diferença. Raimunda, nessa noite mágica, tornou-se uma mulher feliz, muito feliz, a mulher mais feliz do mundo.
Raimunda foi contratada pelo dono do circo e ganhou um papel de coadjuvante no número de seu companheiro. Enquanto ele faz seus malabarismos e acrobacias penianos, ela toca Brasileirinho numa flauta especialmente projetada para seu ânus. Devido ao aumento do consumo de refrigerantes e outras beberagens gasosas fundamentais ao bom desempenho de seu mister, ganhou alguns quilos. Perdoou Dona Jurema, que sempre vem visitá-los e trás cuscuz, o doce predileto de Raimunda. Para que a felicidade se tornasse completa, só faltava um rebento, um Nicolauzinho ou uma Raimundinha. Mas, nem um nem outra, há pouco mais de uma semana, nascia en El Gran Circo De Los Horrores uma linda menina, alegria da família, xodó da vovó, futura atração circense, a pequena, fofa, vermelha, testuda e peluda Julieta.

Carlos Cruz - 25/12/2008

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Convidada Sandra Santos






Perdidos
.



Os homens jogavam sinuca, na tarde morrida... Era um puxado num casarão de esquina, perdido num rincão, perdido no tempo e no mundo...

O vento eriçava os pelos e adentrava a saia, maroto como correntino. O dono do bar percorria com o olhar o caminho do vento enquanto secava os copos de bebida. A mulher não era das redondezas, ruminava. As mulheres dali eram possantes! Tiravam sustância da terra. Tinham formas arredondadas e marido. Aquela era magrela, como ovelha bichada... Prestando atenção em sua face descarnada e nos olhos úmidos e amendoados, não deixava mesmo de ter semelhanças... Mas as pernas eram bem torneadas, os seios em pera, apesar de pequenos...
A mulher sentiu o olhar devassador, virou-se e caminhou para um banco de tábua, lá embaixo dum cinamomo, ao relento... Mas, que fazia a criatura? Por certo queria morrer de frio, com aquele vento e aquela garoa quase neve num vão criado por Deus-Nosso-Senhor entre a tarde e a noite...

Um dos homens, que pintava de giz o taco da jogatina, enfiou a cara pela janelinha de tramela e chamou! Perguntou se não queria uma gajeta com mortadela. Ela fez que não, com um meneio de cabeça e ele retrucou que era de graça. Ela voltou. Comeu, ali mesmo, no balcão do bolicho, à luz do lampião de gás que já agora iluminava a sua pele murcha, não dos anos, mas da magreza... Não tinha aonde ir. Já viajava há dias na boleia de um caminhão, sem destino, mas o caminhoneiro havia chegado ao destino dele e a largara ali. Não sabia para onde nem de onde... O homem que lhe pagara o fiambre lhe indicava uma tapera perdida numa ponta de mato, a poucas horas dali, deixando a estrada. Agradeceu a bondade e seguiu o rumo indicado, na noite fria e sem lua.
sandra santos
Era uma picada comprida, cheia de juás... Muitos galhos secos a lhe riscar as pernas. Pensando em se aquecer num pequeno fogo, foi recolhendo gravetos pelo caminho. Ao chegar à casa abandonada, trazia uma braçada de lenha.
Não havia porta. Nem fogão havia. Umas poucas paredes protegiam do vento, junto com o arvoredo... O chão era batido... O teto de capim santa fé, já desmachando, deixava clarabóias, por onde se podia ver o céu e as estrelas, nas noites quentes, supunha-se, era uma noite escura..noite de desgraçados...Ela suspirou, um canto só seu... Ajoelhou-se a principiar o fogo. Uma preteleira, no quarto contíguo, ainda guardava latas com banha e farinha de milho. No dia seguinte haveria de ver o que dava para fazer... Agora, era se aquecer e descansar da vida... Pelo menos, por um dia...E adormeceu com os uivos do graxaim, ao longe, que ela não conhecia.

O que se sucedeu a seguir, embaralhou-se na sua mente. Reconheceu um deles, o que lhe tinha sido gentil. Os outros tinham todos o mesmo focinho, o mesmo cheiro de cachaça, as mesmas mãos imundas, o mesmo sofrenegar dos animais no cio. Não havia o que fazer! O grito se perdeu na garganta... As pernas paralisaram... Perdeu a noção do tempo, desviou o próprio pensamento para um cadinho de infância feliz e depois, mais tarde, o primeiro namorado e cerrou os olhos, assim...




Sandra Santos

Minha biografia não tem nenhum fato relevante. Não coleciono prêmios nem escândalos. Tenho escrito a vida por linhas tortas, maslonge dos holofotes. Sou uma gaúcha de temperamento mate. O frio do sul causa em mim um coração desconfiado. Leio Bucowski, mas também leio Hawkins e meu único medo é me perder de São Luiz Gonzaga ou das minhas reticências. Entre meus alter egos, este de escrevinhador é o que mais me identifica, mas são os outros que me sustentam. Tenho um cachorro azul, na estante. Fui abandonada recentemente por dois periquitos, depois de dar-lhes casa, carinho e uma janela aberta. Afogo as mágoas e mato as madrugadas no Bar do Escritor.









domingo, 4 de janeiro de 2009

Lembranças tardias de meu último duelo



Como posso começar explicando o fim? Mesmo sendo algo que todo ser vivo saiba, cógnito ou intuitivamente, o fim não é algo com o que nos preocupamos com a devida atenção. Evitamos pensar que somos suscetíveis à falha, ao passar do tempo, ao fim de nossos dias naturais. Mas um dia, pode ser agora ou daqui a cinqüenta anos, tudo acaba. Como deveria mesmo acabar.
Sinto já que não tenho tanto sangue quanto gostaria. Os vários e repetidos golpes foram minando não somente minha resistência, como também diminuíram essa rubra reserva de vida. Isso tornou-me lento e vulnerável à ainda mais golpes. A coisa piora a cada segundo que passa, sem que possa ver uma solução, uma saída para a situação em que me encontro. Não que já não tenha me visto em uma posição inferior em outras ocasiões, mas naqueles tempos tinha não só a fé na vitória, como também uma habilidade muito maior que meu oponente, o que me dava a calma necessária para aplicar-lhe um maior número de revides, o que salvou-me infinitas vezes da derrota.
Eu não conheço a derrota. Ainda não.
Talvez seja por isso que ela me amedronte tanto, mesmo eu não admitindo, apesar de vê-la gargalhando no fundo castanho do olhar de meu adversário, implacável e incapaz de demonstrar uma clemência que eu não suplicaria, ainda que continue posando de invulnerável, ao vê-la desfilar na conhecida voz daquele a quem combato:
- Vou vencer, até que enfim eu vou vencer!
Se ele soubesse o quão certa esta sentença está, acabaria comigo de uma só vez. Mas ainda me resta senão a força, ao menos o respeito que granjeei com meus anos de prática. Mesmo que tenha perdido meu escudo e tenha despedaçado minha espada, ainda assim já venci outras batalhas com minhas mãos nuas. Minha força e experiência, extraordinárias no passado, aos olhos de meu adversário ficam menores à cada dia que passa. E sempre soubemos disso.
Recuo. Ganho um tempo para respirar, mas este mesmo tempo se esgota rapidamente. Tenho que retomar a carga, retornar à luta ou estarei vencido de qualquer forma. Melhor cair em combate, que ser vencido pelo tempo. Preparo meu melhor golpe, forte o bastante para virar a maré da batalha. O único senão é que ele é muito lento e me deixa praticamente indefeso por alguns segundos. Enquanto giro minhas ensangüentadas mãos pelo ar, ele se atira para frente em uma velocidade espantosa, fruto de um golpe novo que eu desconhecia. Incrível como a mocidade aprende rápido.
Sou golpeado várias e repetidas vezes em meu flanco exposto e em uma semi-explosão do choque de corpos sou lançado ao ar em câmera lenta, enquanto minha contagem de vida rapidamente despenca para o nada. Impiedoso frente à minha sorte, indiferente ao meu destino e feliz com sua conquista, meu adversário põem-se a pular imediatamente, lançando ao ar sua comemoração pela vitória, a primeira em sua vida, minha primeira derrota... Continuo estático, olhando para meu corpo sem vida, quando ele coloca sua mão infantil em meu ombro:
- E aí Tio, vamos jogar mais uma?
Dou uma risada para meu sobrinho Daniel, nove anos, meu mais novo arqui-inimigo no vídeo-game:
- Bora, Zé-ruela. Mas agora não vou te dar mais canja não...
Reenergizado pelo poder curador do reset, tenho novamente meu poder e força para encarar o combate. Aquela primeira derrota me ensinou muita coisa. Uma delas é que não posso mais dar mole para o moleque...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Convidada Iriene Borges

Cai o pano


Eu devia engolir a fala

do modo que engulo o choro

e o retenho com um nó na garganta

e outras linhas emaranhadas


Mas a palavra me desata, me destorce

faca afiada me destrincha expondo trapos

desfia o alinhavo

da figura adquirida em banca de retalhos

mostra-me em cada laivo a artesania

dos adereços de rebotalhos

A isso que sou

---------boneca de sonho

--------------------títere do som

não cabe reter a palavra que resvala

.
.
Iriene Borges

Teimo que sou artista plástica, vivo flertando com a filosofia e a gastronomia, mas sou poeta. Participo do grupo Pó&teias, que publicou livro homônimo em 2006, através do qual percebi que renasço em cada verso, em cada palavra.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A traição

A traição

Com a faca na mão ela soltava seus desaforos, dizia aos berros:
_ Ainda mato aquele infeliz, desde que veio morar aqui o desgraçado me trai, um dia hei de cortar seu pescoço e vou ficar olhando o infeliz se debater, ah se vou!
Enfurecida, começou a amolar a faca.
_Como é que consegue fugir para casa da vizinha sem que eu perceba? Ai, que ódio, é hoje que Teteu me paga, hoje irá pagar por todos os insultos que tenho que ouvir, as risadinhas de canto de boca que tenho que suportar, sem falar das reclamações do marido da vizinha. Bem que eu podia deixá-lo morrer nas mãos do Álvaro, bem que ele merecia o prazer de o matar.
Falava consigo enquanto separava os ingredientes para o jantar, descascou uma cebola, duas, e pôs se a picá-las, começou a chorar compulsivamente, não sabia se por Teteu ou pelas cebolas que faziam arder os olhos.
_Trato-te tão bem dando tudo de melhor, tenho cuidados, e até carinho por você, e ainda assim vai para a casa da vizinha, não vou me conformar, te conheço desde pequeno, não deveria se comportar assim!
Saiu para o quintal, com a dita faca, que brilhava de tão afiada, o galo já estava debaixo do balaio, mas Helena não sabia mais se queria matá-lo, era desobediente, trazia-lhe aborrecimentos, mas ainda assim tinha carinho pelo bicho. Com piedade cortou-lhe o pescoço e o serviu ao molho pardo no jantar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Sobre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.

O Legislativo
Recebi, por correio, um nobre cartão do Senador Adelmir Santana, felicitando-me pelo natal e desejando um ótimo 2009. Quem é Adelmir Santana? Li, no cartão, que é senador pelo DF. Eu não sabia, mesmo me considerando um cara informado. Virei o cartão e estava lá, para todo mundo ver, sem a menor vergonha: carta impressa e enviada pelo Senado Federal.
- ta fazendo propaganda eleitoral com dinheiro público, sujeito?
Não me importa se há leis que permitam essa safadeza, não há justificativa que valide o gasto de qualquer verba de Estado para promoção pessoal. Para que serve, ao DF, um cartão natalino, em grosso papel plastificado, todo colorido, com a foto da cara enrugada do senador? Fui tão felicitado nataliciamente que aceito corrupção constitucional?
- não, Adelmir, saquei tua treta! – Joguei o cartão no cesto de papel reciclado do meu serviço. A faxineira vende o papel para fugir da miséria, diminuindo o prejuízo nacional dessas inversões estapafúrdias do bem público. – contudo, vou ajudar a te divulgar, não era isso que queria com a porcaria do cartão? – Estalei os dedos e os posicionei sobre o teclado. – Escreverei esta croniqueta para explicar a todos os meus oito leitores sobre sua hipocrisia. Serão oito possibilidades a menos de voto. Juntamente com a minha, são nove. - vai continuar gastando o dinheiro do povo para mandar cartões de natal, “senator”*?

O Executivo
Os dias ao redor do natal são exemplos de como o sistema executivo é irresponsável. Todos sabem que existe a tal folga extra-oficial, em que os servidores públicos se revezam no serviço para curtirem as festas. Na repartição, apenas metade das pessoas. Até ai, sem problemas – é igual no mundo privado. O que incomoda é que as coisas continuam funcionando.
Sim, o problema é que apenas a metade dos servidores é capaz de produzir o mesmo que o quadro completo. É de se supor que nos dias normais a quantidade de serviço seja o dobro, mas não acontece assim. No dia-a-dia o servidor se acomoda, fica indolente, não há estímulo pois não há cobrança. Ninguém bate no peito e diz: hei, vamos botar essa joça para funcionar! Nossos clientes são as pessoas mais importantes do país, são os contribuintes. O trabalho se arrasta eternamente, ninguém se importa.

O Judiciário
No dia 22/12/2008, o desembargador do TJDFT Mario Machado publicou um artigo no Correio Braziliense com o título Que juiz você deseja? Obviamente li o texto com atenção, um anarquista como eu não perderia a chance para questionar filosoficamente a teoria de estado baseado no sistema jurídico.
Qual não foi minha surpresa ao perceber que o desembargador tratava somente do aumento do subsídio dos juízes? Ele falava que recebem menos do que valem em relação à sociedade civil. Ao final, perguntava AOS PARLAMENTARES que juiz eles desejavam. Mais uma vez me surpreendi, achei que ele dialogasse com as pessoas comuns, já que estava num jornal e não numa publicação especializada. Resolvi responder, mesmo que minha opinião (e a dos outros cidadãos brasileiros) não importe:
- não queremos juízes como você, Mario! – Pensei em citar a pilhéria com o armário, mas ele poderia ficar ofendido. Juízes são muito sensíveis. - que se importam mais com seus os próprios benefícios que com a qualidade do seu trabalho. – Ainda estava tentado a fazer gracejos. – além disso, nós, anarquistas, não confiamos em juízes profissionais, que aplicam a lei fria e morta, sem olhar para as pessoas humanas. – Conclui, altaneiro, para quebrar a sensação de sacanagem.
Se o moço considera que recebe pouco para a importância que tem na sociedade, que corrobore essa mais-valia com argumentos plausíveis, no artigo havia apenas confete. Se basearmos a qualidade da justiça brasileira na certeza das decisões ou no alcance das punições, quaisquer “mil-réis” que o juiz receber é mais do que suficiente!
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* é o título do Lorde do Mal em Guerra nas Estrelas

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Convidada Jessiely Soares




















Sobre as estrelas do meio-dia



Ele não disse muita coisa.
Moleque de fim de tarde, chegou calado, malandro. Deitou a cabeça em seu colo e adormeceu.
Não sem antes fazer um arco de anjos voláteis passearem pela neblina.

Era noite quando o sono retirou-se do aposento. Na varanda duas estrelas brincavam com as corujas.

Ela segurou suas mãos, sorriu os olhos de mar naqueles olhos de fruta-madura e penduraram um pano florido de chita na janela.
E foi tanto mistério de chuva fina que a primavera nasceu veloz.

De cílios e sorrisos, varal de noites calmas, nunca mais aquele peito hibernou.


(Jessiely Soares)
(Foto de: »»SCALABITANO«« )


Jessiely Soares
Paraibana que sou, nasci com sangue forte, mas sofrido. Carrego fardo de ser de Sol, abençoada em lua cheia. E quando o Sertão anoitece, vai-se o medo e ficam os vagalumes. Sendo assim escrevo, carregando o verde do umbuzeiro na cor dos olhos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Convidado Flávio Mello









“AMAR SÓ SE FOR ARMADO”
LANÇAMENTO
Flávio Mello

SINOPSE



“Amar só se for armado” é o segundo livro de Flávio Mello, um dos destaques da nova safra de escritores contemporâneos.
O livro é uma reunião de dezessete contos/crônicas: crontos, que falam do amor em suas diversas manifestações. Com uma linguagem simples, o autor revela o fantástico, os mistérios, as dúvidas e os traumas das relações amorosas cotidianas, em situações que mostram a beleza e os conflitos ao nos relacionarmos com o outro.
Crontos carregados de sentimentos e interrogações, que convidam o leitor a refletir sobre o amor que sente por alguém, pela vida e por si próprio.
Espaço Idea

FLÁVIO MELLO - ESCRITOR E PROFESSOR

Há duas jóias nesse livro: a nota do editor, mais irmão que amigo do que editor, que sintetiza minha obra em uma única estrofe metafísica:

“Então, leitor, se também te enganas ou se enganas..., o amor deste livro é uma sombra. Mas se te declaras, o amor deste livro é uma arma. Se te privas, o amor deste livro é uma pista e se pensa que amas, o amor deste livro é um drama.”
E meu mais novo amigo de pena, pena sem tinta, mas cor, que escreve com o peso da experiência e com a paixão de um verdadeiro gentleman, Hildebrando Pafundi em seu prefácio que nos diz:

“Posso assegurar que o contista Flávio Mello reúne neste livro, Amar só se for armado, excelentes histórias produzidas numa prosa, que possui a beleza da melhor poesia já escrita em prosa. Embora todas as histórias deste volume sejam excelentes, eu destacaria outras três, mais por uma questão de preferência pessoal, além de O Pilão, citado no inicio deste prefácio: O telefonema, O cheiro de frutas de dona Clô e Amor à francesa. Finalizo desejando ao leitor, uma boa viagem nesta prazerosa leitura de contos cheios de sensualidade e sutil ironia.”

fale com o autor:

prof_flaviomello@hotmail.com
escritorflavio_mello@terra.com.br

Sobre o livro Seleção Natural:

“Acabo de ler um ótimo livro de contos, Seleção Natural, de Flávio Mello, Editora Espaço Idea – 2006, 105 páginas, com prefácio de Mauricio Miranda. Trata-se de um escritor estreante em narrativas curtas, contos e crônicas, mas que possui grande potencial para novas obras dos dois gêneros. Eu encontrei no livro, Seleção Natural, a vocação natural do escritor Flávio Mello para o conto e também para a crônica, em especial a narrativa poética.”


(trecho)

Hildebrando Pafundi (www.cliqueabc.com.br)

SITEs:

http://flavio-mello.blogspot.com/

(com maiores informações)

http://vervetente.blogspot.com/

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Meu caozinho


Algo faltava na casa
Foi amor a primeira vista
Chegou tão medroso
Para preencher nossa vida

Todo dia lá vem meu caozinho
E o meu dia já começa bem
Vou te abraçar
Vou te beijar

Vamos brincar
numa incansável diversão
e no seu jeito desajeitado
não me deixa fazer nada

Olha que caozinho mais lindo
lá vem ele tomar um banho de sol
com o olhinho observando o movimento
lá vem ele brincar

Quando fica triste
No seu passinho lento
Fica perto de mim
Que darei o meu carinho

Mas, nada abate esse grande coração
Que só traz felicidade
Lá vem ele todo desajeitado
E o meu dia termina bem

domingo, 28 de dezembro de 2008

Máscara


Era aquela que conhecia o terreno particular das texturas
A que adormecia ofendida
Nas areias dos poços sem fôlego
Existir era um ponto de mácula importado
Nas paredes demolidas de um sonho em preto e branco

Não há perplexidades o suficiente?
Diálogos retos em aerosol?

Fui negação por quase todo o intervalo
Entre a punhalada e a carícia
Para me render em drops falidos
Inalações disfarçando laços de fogo
Golpe único
Golpe solitário
Jugulares enterradas na palma da mão
Não querem ser salvas

Era aquela desfigurada
Para roubar versos de lábios roxos
Empacotadas agressividades
Delicados rumores suspendendo corpos ausentes

Era o jardim em que me deitava
Para não saber das urgências
Fluía carne e pó
Uma única delícia
Na santificada tormenta

Deus só de ausências
Meia três oitavos
Um quarto de demência
Tua danação
Reuno-me
Parto

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


Um natal diferente


Pela primeira vez em toda sua existência, os festejos natalinos a incomodavam; não sentia mais a alegria da escolha dos presentes, a satisfação da gula natalina e, nem tão pouco, o prazer com o último consumismo desvairado do ano, que tomava a todos de assalto.

Naquele ano, aos trinta e cinco anos de idade, solitária e esquecida em um canto qualquer, descobrira, quase sem querer, que papai noel não existia e que todo aquele gasto infundado saía de seu parco bolso, às custas de muito trabalho durante o ano.

Tivera a revelação tardia de que o décimo terceiro salário só servia para fomentar a economia mundial, fortemente auxiliada pelas propagandas enganosas e estratégias de marketing, descobrira ainda que toda família era um núcleo doente por natureza e a sua não ficava para trás- os minutos de festejo não apagariam os problemas que cruzavam seu caminho há vários natais.

Dessa vez não haveria pisca-pisca, tender, chester, árvore de natal, bolas vermelhas, chegada de papai noel, presentes inúteis, família distante reunida e um porre para comemorar a merda de ano que ficava para trás, pois, como de costume, merda maior estaria por vir.

Assim, cambaleante e decepcionada, saíra a esmo pelo pátio, sem procurar, nem esperar nada, quando deparou-se com um papai noel forte, jovial e alegre brincando com os demais convivas.

Lembrou-se dos quinze anos de casamento, dos filhos adolescentes e problemáticos, do sufoco para adquirir a cobertura em que morara, da dureza dos primeiros anos, da falta de amor, da falta de companheirismo, da falta de sexo e da doença que assolava seu corpo.

Olhou firme naqueles olhos, que de velhos não tinham nada e percebeu que sua carência era insaciável; os muitos anos de deserto sentimental a deixara assim- um poço fundo e vazio.

Desejou desesperadamente aquele homem que só deixava de fora os olhos. Apenas os olhos, somente as janelas da alma, bastariam para satisfazê-la naquela noite.

Quando a encenação acabou, aproximou-se daquele homem como uma pedinte faminta a implorar por um pedaço de pão, abaixou-lhe as calças e fez amor com seu membro voraz e seus olhos acolhedores.

Depois, ainda sem pronunciar uma só palavra, foi embora e guardou em sua mente a lembrança dos olhos mais ternos que já vira sobre a face da terra. E o que mais poderia desejar além de um olhar companheiro, já que as tantas palavras, que ouvira durante sua existência, o vento levava para onde bem entendia?

Guardou na memória a lembrança daquele momento até o ultimo dia de sua vida, que se dera antes mesmo do próximo natal; ali, em um hospital deserto e solitário, fechou os olhos para sempre e levou o olhar que nunca esquecera.

Aquele fora o único ano em toda sua existência que um papai noel lhe dera alguma coisa, sem que ela tivesse pago antes por isso!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

Domingo de luas



Domingo de luas.
Teu olhar nas nuvens
Decifrando fórmulas
Impossíveis de improváveis mundos,
Desprende-se do meu
Corpo caótico, denso e
Imponderável.
Que tropeça nos próprios passos,
Acorrentado à constantes espasmos
De um passado apagado
Das asas dos pássaros,
Das expectativas dos astros
Ascendentes do destino.
Sobrevivente de um
Quebrado coração amargo,
Qual ramo seco sem seiva,
Sem rio, mar, saliva.
À deriva, tragado pelas rochas.
Sucumbe à doces lembranças ácidas,
Que corroem do ôco das córneas
Às desesperanças.
Que alimentam a angústia
Que se alimenta das vísceras.

Imutáveis transitórios
Jamais recuperarão o que une
O fascínio dos sonhos
Aos delírios impunes.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Trágico (ou cômico?).

Minuciosamente ave
sondo a que persegue
meus olhos no outro.
E por mais simples a noite
continuo vendo dois
no terreno espaço de um.
Isso deve ser amor,
embora eu saiba
da minha obsessão
de amar o desperdício.

Eliane Alcântara.







Minha última postagem do ano : (
O que tenho para dizer?
Obrigada ao dono do Bar, aos Poetas amigos de mesa
e aos amigos de outros lados e visitantes.
Que as Festas do final de 2008 sejam excelentes para todos
e que 2009 nos receba em um abraço.
Espero estar presente aqui novamente e com a agradável
companhia de todos. Valeu!
Beijos!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Ninhos Motorizados

Na visão
Dos pássaros

Carros
São
Pássaros

Voando
Num céu de concreto

Não sabem eles
Que são mais
Como ninhos
Motorizados.

Cada um
Carrega passarinhos
Descansando asas.

Estás num daqueles
Que te leva para casa.

André Espínola