sábado, 10 de abril de 2010

Convidado Ryoki Inoue

O SEBO 

Pouco maior que uma quitanda e quase tão sujo quanto uma peixaria malcuidada, este estabelecimento comercial não deixa de ter seu encantamento, sua poesia.
Todo o mobiliário se resume a uma escrivaninha em que o proprietário faz suas anotações, duas cadeiras ordinárias e montanhas de livros espalhadas pelo meio da loja, empilhadas pelos cantos, que sobem pelas paredes formando uma decoração caótica e complicada. Em todos os montes são desrespeitados os princípios mais elementares do equilíbrio e vê-se claramente que não há a menor preocupação com a estética. Aliás, não é mesmo possível adotar qualquer ordem de arrumação, pois os volumes, cada um diferente do outro em tamanho, cor e forma, não permitem tal luxo.
E há um certo aroma no ar! Sim, pois assim como uma quitanda ou uma peixaria tem seus cheiros característicos, esta loja também tem o seu: é um cheiro de mofo, de poeira misturada com nicotina e papel velho. Pode ser que seja o inferno para os asmáticos, mas conheço muitas pessoas que adoram essa mescla de estranhos perfumes... Entre elas há até as que dizem que esse é o cheiro da verdadeira intelectualidade.
Estamos num sebo, numa loja de livros usados, de segunda ou mesmo de enésima mão.
Já pela simples disposição das mercadorias, vemos que é absolutamente impraticável toda e qualquer operação de limpeza.
Faxina, então, nem pensar! Imaginem ter de levar tudo aquilo parra algum lugar para se poder passar um pano no chão! Varrer, apenas varrer, já é uma tarefa complicada e arriscada, pois seria muito fácil misturar com o lixo diversos opúsculos e livretos que jazem pelo assoalho em completa intimidade com pontas de cigarro, papéis de bala, palitos de fósforos queimados e muitas outras coisas ainda bem menos nobres e poéticas. Isso, é claro, sem falar do perigo de se esbarrar numa avultada pilha de enciclopédias, mal equilibrada sobre um dicionário, e causar um monumental desastre... Há até o risco de morte. A morte sob o peso do conhecimento!
Encontrar, especificamente, uma obra ali? Tarefa totalmente impossível. Nessa loja, compra-se aquilo que o acaso faz cair nas mãos. Lobato está ao lado de Eça que, por suas vez, está por cima de Montaigne, que, inexplicavelmente, está apoiado em Rousseau — que se encontra frente a frente com Byron. O positivismo se avizinha do tomismo e Kant se deixa montar por Sartre e por Baudelaire. James Joyce disputa um instável lugar com Hemingway, enquanto Jorge Amado e Simone de Beauviur empurram Thomas Mann para uma posição perigosa.
Sorrindo, vemos que inimigos mortais em vida se encontram agora lado a lado, deitados juntos, placidamente instalados. Talvez em seus túmulos, eles estejam remexendo, cheios de revolta...


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Ryouki Inoue é considerado pelo livro Guinness o escritor mais profílico do mundo, com mais de 999 obras publicadas.

Zoo, ou Sobre a Violenta Respiração Noturna

Imagem: http://www.thebeckoning.com/poetry/rilke/rilke1.html

Estar preso ao invisível
sendo a cegueira a prisão:
o macaco sabe o vidro,
a pantera, não.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

AGORA A CULPA É DO POVO


AGORA A CULPA É DO POVO
tragédia fluvial no Rio

Adoro a classe média
Pra não dizer ao contrário
Filhos de uma puta sem mãe
Bando de abastados reacionários
Depois da tragédia fluvial no Rio
Mortos já passam de cento e cinquenta
Sem falar em Nikiti
Por lá, muitos outros mortos.
Agora a pérola:
- A culpa é do povo que joga lixo na rua.
Só faltava essa
Tenho de escutar cada merda
Morte aos filhos do dinheiro
Eles não ligam pra morte dos fodidos
Eu cago e ando pra deles
Depois
Quando cair um avião
Vão ficar cobrando minhas lágrimas
Claro!
Quem pega avião?
Tô muito puto
Vou chorar pelos pés rapados
E digo mais
O próximo avião cheio de burgos que cair
Eu vou comemorar
Porque quando morre proletariado
Foda-se
Enquanto isso
A burguesia assiste a tudo em lençóis de seda
Não satisfeita, ainda caga regra.
Falam:
- Quem mandou o povo ser mal educado?
Eu respondo:
- Foi o governo.
Não venham me falar:
- A culpa é do pobre favelado.
Vou mandar o próximo tomar no olho do seu cu largo
Tô torcendo pra um avião cair
Logo
E de preferência, que morram todos na primeira classe.
Agora o meu leitor
Classe média clássico
Tá chocadinho
Pensando:
- Esse Treuffar é um monstro!
Monstro é caralho!
Quem vocês pensam que são?
Bando de xeetas!
Cadê o saneamento básico?
Cadê a urbanização das favelas?
Cadê a porra da lata de lixo?
Cadê?
Há séculos somos roubados por políticos corruptos e irresponsáveis
Enchendo o cu de dinheiro
E agora a culpa é do povo
Hoje eu vou matar um burguesinho
A classe média continua decepcionante

Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quinta-feira, 8 de abril de 2010

sonhei contigo ontem

                

Sonhei contigo ontem. Não mando em meus sonhos, eles são meio rebeldes e invariavelmente me levam a você. Sonhei com teu beijo inexistente que me deixou um vago sabor de morango na boca. Acordei com saudades de te ver, do teu sorriso, das longas conversas sobre nada.

                Sonhei com carícias longas, daquelas que duram horas, sonhei com tua boca que promete tantas coisas e cumpre tão poucas. Acordei assim, inquieto.

                Hoje, nesse momento, se eu pudesse... Mesmo sabendo de todas as impossibilidades eu queria te ver, ignorar tuas meias-verdades, deixar de lado as palavras eficientes e vazias, e passar uma tarde à toa, deslizando minha língua devagar pela tua pele, conversando sobre coisas importantes e sobre o nada, rir e ter você em doses alternadas. Era o que gostaria hoje, mas as impossibilidades dançam à minha volta e você está distante de muitas formas.

                Pensei em várias coisas para dizer, em maneiras de me despedir do que nem chegou a começar, e achei que, escritas, as palavras seriam mais fáceis de ser ditas, mas não são, e o pior é que elas não podem ser enviadas com um olhar anexo, um sorriso, um afago. Se eu disser algo errado elas não voltam.

                Mesmo assim vamos tentar.

                Sem te ver fica mais simples. Ainda ontem, quando te vi, minha única intenção era dizer essas coisas, aceitar o desejo como fato e depois partir, mas tua boca me deu outras idéias. Gosto dela, do teu sorriso, e terminamos do jeito de sempre.

                Você obedeceu admiravelmente ao meu pedido de que se afastasse, mas fazendo isso parece ter ficado mais forte e eu mais fraco.

                Inferno!

                Era para ser uma carta de adeus, e eu aqui divagando.

                Como pode ver, sou complicado e confuso. Escolho sua versão de sonho quando quero o real em minhas tardes, ao menos em uma delas.

                Você conhece mais de mim do que eu gostaria de admitir, embora seja burra demais para entender o que lê. Tudo bem. Não importa mais. Vou enviar antes que desista.

                Ah! Mesmo que não perceba, em anexo vai um sorriso bobo, um afago e um beijo rápido.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Coloquiais Ponderações Catártico-Genitais ou A Dialética da Vulva




Subitamente, de repente e sem aviso prévio, minha vagina desembestou a falar. O fato, por mais curioso, inusitado e estapafúrdio, deu-se. Ainda que inacreditem, questionem ou recalcitrem, deu-se. Deus, se incendiário não fosse, materializar-se-ia, cheio de pompa e circunstância, em rubra lâmpada incandescente e, prosopopeicamente, corroboraria minha história. Mas fatos são fatos e jamais deixarão de sê-los, não obstante controvérsias e contradições. Numa noite fria de sábado, no interior de um motel tradicional, sobre um leito redondo tradicional, um colchão redondo tradicional, forrado com alvo e tradicional lençol, debaixo de um espelho um tanto baço mas não por isso menos tradicional, tendo como testemunhas oculares, vaginais, anais, orais, notada e dotadamente penianas, Mandingo, Rocco Sifredi, Katja Kassin e a mulher-tigre de pele morena, imóvel e emparedada, cujo olhar felino e selvagem penetrava perscrutadoramente até a mais gélida alma dos copos baratos de vidro vagabundo e transparência perdida, ocasionando calafrios nas garrafas de cerveja transpirantes, minha semi-depilada vulva tagarelou sem pudor e sem papas, mesmo porque papas e bocetas, desde que o clero é clero, não combinam. O efeito foi devastador, uma excitação invertida. Deu-se que, falante, minha vagina não se deu nem se comeu. Explico. Artur, há dias e dias e outros tantos dias, papeava-me - no meio moderno - ou cortejava-me - no todo arcaico - arremessando, ora plácido, ora impetuoso, todo seu auto e árduo charme cafajeresco. Cavaleiro real, cavaleiro medieval, cavaleiro templário, jamais cavaleiro com agá a mais, muitas ocasiões cavaleiro sem eiro nem beiro, só ó sem acento e provido de ferraduras, duras ferraduras que machucavam, deliciosamente. Ora alazão, ora pangaré, chucro, sempre. Eu, cá em minha sagacidade feminina - pois todas as fêmeas, mesmo as auto-renegadas, possuem essa qualidade - adocicadamente recusava-lho sem recusar-lho, permitindo furtivas olhadelas, alvissareiros vislumbres de paraísos terrenos e gozos celestiais. Ele, por sua vez, qual lobo cuja voracidade não se aplaca com qualquer torresmo de porquinho-da-índia estragado, investia, arremetia e de novo investia, acrescendo ímpeto. Por fim, considerei oportuno o momento e, sem resistência - estava louca pra dar pra ele - deixei-me conduzir ao quadrado espelhado dos prazeres da carne. Estirei-me, escancaradamente nua, com as pernas descaradamente abertas, desabrochei-me perfumada e lúbrica, convite róseo e úmido, inescusável. Artur, todo suor e saliva, mal dissimulando seu atabalhoado ardor, chegou-se. Cerrou os olhos visando melhores aspirações, como o sommelier prestes a provar o vinho nobre e raro ou - cinzas, saco, silício, autofustigamento! - o devoto apostólico antes de bebericar "la sangre de Jesucristo". Lá do alto, meu cérebro pedia: "Lambe!", os mamilos túmidos de meus seios bombados imploravam: "Lambe!", meus lábios rubros e retorcidos suplicavam: "Lambe!". Artur expeliu um, dois, três palmos de uma língua muito vermelha, convulsa, frenética - soube depois, explico já - cuja afilada ponta aproximava-se vibrante de meu clitóris latejante. Foi quando minha encharcada vagina gritou: "Lambe, porra!!!" Uma voz rouca, quase gutural, que reverberou pelos seis lados do cubo, fazendo Artur dar um salto, uma pirueta desengonçada, um ornamental tosco, um mortal - gracias, Madre de Dios! - sem morte. Ele mirou de frente, de lados, detrás, olhares oblíquos, retos, diagonais, parabólicos, hiperbólicos, vasculhou cômodos com minúcias, sempre a interrogar aquele que julgava ser o emissor da ordem desobedecida: "Quem está aí? Apareça!" Eu, sem nada entender, sem nada atinar quanto à origem da voz de trovão, sentia os calores de minha recém-olvidada boceta esvaírem-se, pouco a pouco, de quente úmida, passando por tépida menos úmida, atingindo o nível fria quase seca. Quando as descargas elétricas provocadas pela nervosa tensão já se podiam divisar, eis que irrompe, mais uma vez, a tonitruante, desconcertante, brochante voz: "Tá procurando o quê, gostosão? Para com isso e vem cá continuar o que você não começou! Viemos aqui pra foder ou pra brincar de pique-esconde? Vem esconder essa pica aqui dentro de mim, vem!" Surpresa, estupefação, aturdimento, eu percebi, ele percebeu, não havia dúvidas, minha vulva falava, tagarelava com despudor, e, o que é pior, completamente desbocada e com farto uso de palavrões. Nervosa, fechei as pernas, ouvi grunhidos abafados, reabrí. Artur, olhos esgazeados e fixos em minha cona, aproximou-se, lentamente. Estacou ante nova abordagem. Era o início do colóquio.
- Tá, já sei, estraguei tudo, a foda já era... Bonitão, diz uma coisa, se eu ficar quieta, não soltar nem mais um pio, virar uma boceta-túmulo, você me fode? Ou pelo menos me lambe? Se você soubesse quantas vezes fiquei molhada por sua causa... Essa aí em cima tava louca pra dar pra você faz tempo... E aí, o que diz?
- Ma-mais... Como pode? I-isso é algum truque? - olhos na vulva, olhos nos olhos - Você é ventríloqua?
- Estou tão surpresa quanto você. - retruquei.
- Já ouviram falar em animismo, panteísmo, orfismo, pitagorismo, empedoclismo, platonismo, reencarnação, transmigração das almas, metempsicose? Outra coisa, podem, por favor, desligar a tevê? Esse papo e esse "fuck me" renitente não combinam.
Desligamos a televisão mas nada dissemos. Diante de nosso mutismo, ela assumiu um tom grave e didático. Prosseguiu:
- Segundo as teorias citadas, existe a possibilidade de a alma humana encarnar em outros animais e vegetais. É mais ou menos meu caso. Mais ou menos porque, apesar de não haver encarnado em animal irracional ou em vegetal, voltar à existência numa boceta, definitivamente, não se adequa ao conceito clássico de reencarnação, ainda que vaginas sejam feitas de carne. Concordam comigo?
Continuamos mudos. O reflexo da minha boceta no espelho, o movimento de seus grandes lábios - acho que nunca esse nome foi tão apropriado - enquanto argumentava, causavam-me uma espécie de deslumbramento. Não era uma boceta falante qualquer, era a minha boceta! E, além do mais, lúcida, razoável, inteligente, loquaz, malgrado o emprego constante de palavras obscenas. Mas, o que se poderia esperar de uma boceta falante? Polidez?
- Vocês não têm língua? Bom... pensando bem, eu não tenho e estou falando pelos cotovelos, digo, pelos grandes lábios. Ah! Deixa pra lá... Respondam-me, ao menos: querem ouvir as historias de minhas vidas?
Entreolhamos-nos, Artur e eu, mais uma vez. Meneei a cabeça, em sinal de aquiescência.
- Ótimo. Antes de começar, permitam-me que me apresente... Fui batizado Tomás de Torquemada e nasci no ano...
- O quê? - interrompi - Tomás de Torquemada, o cruel inquisidor espanhol? Não! Não pode ser!
- Não sou cruel! Não sou e não fui! Apenas cumpri meu dever, imbuído do poder que me foi conferido pelo Sumo Pontífice, o representante de Deus na Terra, que me nomeou inquisidor-geral e me dotou de autoridade para perseguir, capturar, julgar e condenar à Santa Fogueira, judeus levianos e muçulmanos dissimulados, todos hereges, feiticeiros, bígamos, sodomitas, apóstatas. À frente da Inquisitio Haereticæ Pravitatis Sanctum Officium, zelei por expurgar o mundo dessa raça maldita, extirpar os pecadores marranos da face da Terra, promover a purificação por meio do fogo, de modo que prevalecesse "la sangre limpia", os verdadeiros cristãos. Sou Tomás de Torquemada, o martelo dos hereges, a luz de Espanha, o salvador do meu país!
- Assassino! - gritei. Não podia ser verdade, era surreal demais, uma tremenda sacanagem, uma putaria do destino. Estava simplesmente apavorada, afinal, saber que minha linda, cheirosa, levemente testuda, apetitosa - palavra de quem provou - bocetinha era a reencarnação do mais atroz inquisidor que já passara pelo Santo Ofício não é uma informação fácil de assimilar. Bom, ao menos isso explicava o que anos de terapia não revelaram: meu incontrolável tesão diante de cenas de tortura com uso de fogo. Nunca vou esquecer o filme "O Nome da Rosa", não pelo elenco, roteiro, fotografia e tudo mais, que são ótimos, mas porque este filme me proporcionou um dos melhores, talvez o melhor orgasmo de minha vida, e, também, porque quase enlouqueci de vez... Mas e as outras coisas estranhas que me excit...
- Ah, você acha isso? Espere até saber quem foi minha encarnação seguinte...
- Meu Deus, ainda tem mais?... Não tenho estrutura pra novas surpresas estranhas... Nem pra revelações bombásticas... Vamos fazer o seguinte: amanhã você me conta, ok?
- Seria tarde demais. Ainda que talvez não compartilhem de minha opinião, lamento dizer que amanhã nada mais direi. Tive de usar todo meu poder de argumentação, tendo em vista a inutilidade de meu irresistível carisma, quando no Limbo estava, para convencer Aquele-Que-Tudo-Sabe-Tudo-Pode-E-Está-Em-Todo-Lugar-Ao-Mesmo-Tempo no sentido de fazer essa pequena e fugaz concessão, uma vez que meus anteriores pedidos se chocaram contra os tímpanos divinais, transmutados, naquele momento, em muralha de granito. Mas nem tudo estava perdido. Todos os céus, de alto a baixo, estremeceram com a gargalhada de Sua Excelência Toda-Poderosíssima quando ouviu minha derradeira súplica. Lembro como se fosse hoje de Suas santíssimas e rechonchudas bochechas vermelho-fogo e das palavras que disse: "Isso vai ser engraçado pra caralho!" Deus é um puta sacana, vocês sabiam?... Bom, mas voltemos ao que interessa, minha encarnação seguinte. Vocês arriscam um palpite?
- Nada é tão ruim que não possa piorar... Quem poderia ser? Ivan, O Terrível?
- Compreendo que não estou em condições de exigir nada, mas não me ofenda, por favor. Ivan foi um louco, um doido-varrido cujo único feito digno de louvor foi ter matado alguns muçulmanos quando conquistou Kazan. O homem no qual reencarnei foi, numa escala de importância, o segundo maior líder que já pisou a terra, só perde para Jesus Cristo e somente porque Ele era filho de Deus. Cá entre nós, considero as idéias desse segundo líder muito mais edificantes e interessantes que as do Filho de Maria.
- Jesus... Estou ficando preocupada... Não vá me dizer que minha boceta, além de Torquemada, também é a reencarnação de Stalin...
- Você tirou mesmo o dia pra me ofender! Não! Não fui aquele porco chauvinista!
- Tá. Então, fala. Quem você foi?
- Um homem inteligente, sensível, um artista que desde muito jovem demonstrava enorme talento com as tintas...
- Monet? Renoir? Pissarro? Degas? Van Gogh?
- Tá frio. Na juventude, para se sustentar, pintava paisagens e as vendia para mercadores...
- Sei lá quem é. Biografia de pintores não é meu forte. Seria Dalí, Picasso, Rembrandt?
- Bateu na trave de novo... Bom, vou fazer o seguinte, reproduzirei "in verbis" dois trechos de minha obra escrita que só não foi um best seller graças à interveniência de meus detratores, que eram gentinha, raça ruim... Escutem com atenção, depois me digam se descobriram quem fui... "As causas exclusivas da decadência de antigas civilizações são: a mistura de sangue e o rebaixamento do nível da raça, que aquele fenômeno acarreta. Está provado que não são guerras perdidas que exterminam os homens e sim a perda daquela resistência, que só o sangue puro oferece. Todo o que, no Mundo, não é raça boa é joio."
Suspendi a respiração, transpirei, estremeci. Ela, ele continuou. "Se os judeus fossem os habitantes exclusivos do Mundo não só morreriam sufocados em sujeira e porcaria como tentariam vencer-se e exterminar-se mutuamente, contanto que a indiscutível falta de espírito de sacrifício, expresso na sua covardia, fizesse, aqui também, da luta uma comédia. É pois uma idéia fundamentalmente errônea, querer enxergar um certo espírito idealista de sacrifício na solidariedade do judeu na luta ou, mais claramente, na exploração de seus semelhantes. Aqui igualmente o judeu não é movido por outra coisa senão pelo egoísmo individual nu e cru. Por isso mesmo, o Estado judaico - que deve ser o organismo vivo para a conservação e multiplicação da raça - não possui nenhum limite territorial. Uma formação estatal compreendida dentro de um determinado espaço, pressupõe sempre uma disposição idealista na raça, que ocupa esse Estado, antes de tudo, porém, uma compreensão exata da noção de 'trabalho'. A falta de tal convicção acarreta o desânimo, não só para construir, como até para conservar um Estado com limites marcados. Com isso desaparece o fundamento único da origem de uma civilização." - pausa. E aí, nada? Nem um palpite?
- Estou com medo de dizer o nome... Não me diga que você, além de Torquemada, foi...
- Adolf Hitler! O maior estadis...
- Não!!! Não! Não e não! - instintivamente, fechei as pernas. - Tudo menos isso! Saber que minha boceta é a reencarnação de Torquemada, mesmo a contragosto, dá pra engolir. Agora, Adolf Hitler! O maior genocida de todos os tempos memoriais e imemoriais! Aí já é demais!
Artur permanecia do mesmo jeito, calado e com cara de idiota.
- Artur! Você vai ficar aí com essa cara de imbecil? Diga alguma coisa!
- Abra as pernas.
- Puta que pariu! Porra! Caralho! Minha boceta, sem mais nem menos, resolve falar, diz que foi não um, mas os dois piores animais que já pisaram a face da Terra, eu com uma puta vontade de me atirar pela janela e você pensando em sexo!
- Você não entendeu. Abra as pernas. Deixe ela... ele falar.
Não queria reabrir as pernas, nunca mais, aqueles grunhidos roucos e abafados me oprimiam, eram uma tremenda tortura. Todavia, havia uma pontinha de curiosidade mórbida e meio masoquista somada ao desejo de que aquele pesadelo terminasse logo, além de uma vaga esperança de que minha vagina, após dizer tudo o que tinha de dizer, tornasse ao seu abençoado estado de quietude, nada de palavras, frases, períodos, orações. Sons, só aqueles desagradáveis e cacofônicos ruídos muito semelhantes a flatos que me deixavam constrangida. Cedi. Escancarei as pernas de novo. Fala, boceta!
- Cof! Cof! Porra! Não faça mais isso, por favor. Foi um custo conseguir essa concessão. Como falei antes, é só por hoje. Amanhã, volto a ser apenas uma vulva como outra qualquer. Urinarei, umedecerei, acolherei, abnegadamente, os pênis que desejem me penetrar, com vossa permissão, minha senhora, é claro.
- Tá. Deixarei você falar, ainda que isso seja um enorme suplício para mim. Mas, diga-me uma coisa: por que eu? Por que a minha vagina, dentre tantas, foi a escolhida?
- Sua preferência por negros, indígenas, ciganos, amarelos, sarracenos, judeus, mulatos, cafuzos, mamelucos, bissexuais, deficientes, et cetera e et cetera e tal. Foi o modo que o Todo-Todo-Poderoso escolheu para me punir por haver tentado, mais uma vez, limpar o sangue da decadente humanidade.
- Ei! Alto lá! Mas eu sou branco, não sou cigano, judeu, bissexual nem deficiente! - protestou Artur.
- Sim. Você é caucasiano. Não chega a ser um ariano, mas dá para o gasto. E é por sua causa que vocês estão tendo o prazer de ouvir minhas palavras... Vou explicar. Deus, conforme eu disse, é um pândego, um piadista contumaz, morre de rir com as trapalhadas humanas que ele mesmo promove. Antes de ensejar essa tremenda sacanagem que fez comigo, disse Ele, às gargalhadas: "Permito que fales, mas só por um dia. E antes que me perguntes, em verdade te digo que falarás no dia em que a mulher portadora de teu pérfido espírito se deixar conduzir à alcova por um homem de pele alva, de espírito impuro e de poucas palavras."
- Espírito impuro! Era só o que me faltava! Vou à missa todo domingo, me confesso, cumpro à risca a liturgia católica.
- E aqueles encontros com o coroinha, na sacristia, depois da missa? O que me diz? - indagou Hitler-Torquemada-Genitália-Vulva-Cona-Vagina-Boceta.
- Vou embora!
- Ah, vai não, fofo! - ele, ela de novo.
Artur bateu forte a porta do pequeno quarto. Ouvi o ronco do motor do carro, acelerou, arrancou, se foi.
- Viu o que você fez? - disse eu - Além de quase me deixar maluca com essa história de Torquemada, Hitler e o caralho a quatro, ainda me faz perder um dos homens mais gostosos que já se interessaram por mim. Além de tudo, fiquei a pé. - esqueci, por instantes, de que dialogava com minha própria boceta que era a reencarnação de Torquemada e Hitler.
- Liga não, "fräulein". A vida não é justa. Ademais, o bonitão é bissexual.
- E daí? Não deixa de ser gostoso por isso...
- Ah, esqueci que você aprecia...
- E agora, o que fazemos? - esqueci de novo que minha interlocutora não era minha amiga de faculdade. A loucura da situação estava me afetando.
- Continuemos o papo. Tô gostando de conversar com você.
- Mas... Vão rolar novas e terríveis revelações reencarnatórias?
- Não! Você, digo, sua boceta fecha o ciclo reencarnacionista, a tríade mística.
- Diga-me uma coisa... Por que nunca consigo depilar você completamente?
- Porque adoro meu bigode.
- Por que fico mais excitada quando estou menstruada?
- Porque me agrada o encarnado do sangue.
- Por que fico úmida com cenas de campos de concentração?
- Preciso responder isso?
- Você é um monstro!
- Não! Não sou e não fui! Fui uma vítima da História, assim como Judas Iscariotes, Vlad, Pol Pot, Jack O Estripador! Fizemos o trabalho sujo, que tinha de ser feito mas ninguém tinha coragem de fazer!
- Chega! Não quero ouvir mais nada! - fechei abruptamente as pernas, ergui-me da cama, vesti minhas roupas, pedi um táxi - Artur, no final das contas mostrou ser um "gentleman", tinha pago a conta.
Embarquei. O motorista me olhava pelo espelho retrovisor de uma maneira interrogativa. A julgar pela expressão de sofrimento estampada no meu rosto, indubitavelmente concluíra que eu fora abandonada. Devia estar se perguntando se meu parceiro se fora antes, durante ou depois do sexo. Imersa em meus pensamentos, distraí-me por um breve instante. Abri as pernas.
- Cof! Sua "schlamp"!
Cerrei as pernas rapidamente. O condutor olhou espantado pelo retrovisor.
- Celular... - disfarcei, dando um meio sorriso apagado.
Enfim, o táxi parou em frente ao prédio, meu prédio! Lar, doce lar! Certamente, sentir-me-ia mais segura, mais forte, no interior de meu apartamento, meu cantinho, meu refúgio do mundo. Paguei a corrida, o táxi se afastou. Acessei o "hall" e respirei fundo. Teria de subir pela escada até o quarto andar, o elevador, pra variar, estava quebrado. Pus minhas mãos entre as pernas e comprimi com força. Iniciei a subida e não parei, degrau a degrau, alheia aos aflitivos e roucos grunhidos de minha vagina. Abri a porta de meu apartamento com veemência, o impacto da maçaneta contra a parede provocou um tremendo estrondo e um grande buraco. Segui às pressas até o quarto, posicionei um pequeno espelho na cabeceira da cama - precisava acabar com o suplício - escancarei as pernas.
- Cof! Cof! Você está sendo má comigo, merecia um castigo, uma boa foda. Mas não vou te foder porque evidentemente não posso foder a mim mesmo. Além do mais, estou com uma vontade incontrolável de discursar... "Consegui meus êxitos simplesmente porque, em primeiro lugar, me esforcei por ver as coisas tais quais elas são e não como desejaríamos que fossem; segundo, porque, formada a minha opinião, nunca permiti fraquezas que me convencessem do contrário ou me levassem a abandoná-la; terceiro, porque, em todas as circunstâncias, sempre cedi à necessidade, quando como tal a tinha reconhecido. Hoje que o destino me permitiu tamanhos sucessos não serei desleal a esses meus princípios fundamentais..."
- Para! Esse sotaque, essa entonação me dão calafrios! Não quero mais ouvir sua voz!
- Você pode me calar fechando as pernas, Deus vai me calar à zero hora, mas não ficarei em silêncio para sempre! Um dia tornarei a ser homem e poderei terminar meu trabalho de purificação! A raça ariana prevalecerá sobre as inferiores e terá restabelecida sua gló... hum... hu...
Senti um aperto no coração, uma pressão no crânio, uma secura nos lábios, minhas mãos tremiam, todo meu corpo tremia. Sentia-me uma frágil boneca nas mãos de uma menina má chamada Deus, sentia-me um nada. Sentia-me mal, muito mal. A menina má arrancava minha cabeça, meus braços e pernas. Ruí. Desmoronei. Desabei. Rompi em prantos, chorei como nunca havia chorado. Entre minhas pernas, gemidos. "Cala a boca!" - gritei. Ele não se calou. Daí, veio o surto, o colapso total. Segui até a cozinha, saquei uma faca da gaveta do armário, cortei a mangueira amarela bem rente ao fogão, enfiei na boceta e abri o gás.
- Não!!! Gás não! Gás não!!!
Minha mente estava vazia. Em meu acesso de loucura, uma única, premente, desesperada necessidade: calar a voz! Peguei a caixa de fósforos, abri, retirei um - de minha boceta vinham sílabas desconexas - friccionei a extremidade contra o abrasivo... Clarão, explosão, dor, negrume...
Ouvi vozes, distantes. Abri lentamente os olhos, minha visão estava embaçada, meu corpo doía. Um vulto branco aproximou-se, voz de mulher.
- Ah, acordou finalmente.
- Onde estou?
- Hospital Central.
- O que aconteceu?
- Vazamento de gás, segundo o perito. Por sorte uma viatura do Corpo de Bombeiros passava em frente ao seu prédio no momento da explosão... Deus deve gostar muito de você.
- É. Ele me adora. Como estou?
- Você teve queimaduras de terceiro grau em sessenta por cento do corpo. Mas não se desespere, hoje em dia existem ótimos cirurgiões plásticos especializados nessa área. Agora, descanse...
- Doutora, uma última pergunta... A senhora ou alguém de sua equipe ouviu algum som estranho... proveniente... do meu corpo?
- Não, não ouvimos nada... Descanse.
Fechei os olhos. Apesar da dor, sorri. Eu vencera.
Muitos meses e muitas cirurgias depois, voltei às minhas atividades. Revigorada, refeita, quase perfeita. Dispensei o terapeuta, não precisava mais dele. Precavida, comprei um vibrador "Long Dong Extra G". Tudo ia bem, até o dia em que almocei uma apetitosa salada de repolho seguida de um saboroso doce de batata-doce, de sobremesa. Tenho certeza que meu ânus não só expeliu o flato como ainda proferiu um sonoro e efusivo "Oi!". Não foi nada fácil passar o dia com "Long Dong" enterrado no rabo, mas, como disse Bruce Lee, o filósofo: "Quem quiser vencer deve aprender a lutar, perseverar e sofrer." Sábio Bruce.

Carlos Cruz - 24/07/2009

(*) Os trechos de "Mein Kampf", os fragmentos do discurso de Adolf Hitler e a frase de Bruce Lee foram extraídos da Internet.


sábado, 3 de abril de 2010

O beijo






















As bocas opostas permitiam-se num afago gentil e forte, mordiam-se, lambiam-se, deleitavam-se, enfim. E ao abrirem os olhos se descobriram mais homens que nunca.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Só-tão



Vivo abarrotada de almas,
tanto novas quanto usadas,
pra mudar conforme o caso

(se uma suja, jogo fora,
quase nunca lavo).

Algumas são falsa-cor,
vermelhas,
cheias de prendas e laços,
penduricalhos mil costurados,
que já nem sei mais o nome.

– tenho um motivo fajuto
e sempre o sapato perfeito
pras feras que me consomem –

Há uma de esguelha, há outra rodada,
envolta em fuxicos, ismálias
e finas organzas de musas

– amélias no forro, teresas na barra –

há uma fechada, há outra que ousa,
e não tem botões, nem amarras,
rendada com puta de esquina.

(troco a cara e o vestido
quando aquela não mais me fascina).

Em noite de gala,
quando o amor desvestido me despe,
me visto com fendas
e tons de imprevisto.

Acordo no dia seguinte, num sopro,
já pano de vela que encontra
seu porto

- alma á espera, com jeito de corpo -

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A semente de Aton


Desta vez, foi diferente. Ele cumpriu sua missão e regataria a humanidade. Os problemas foram puramente técnicos: construir uma cidade, a capital, no interior, durantes apenas um ciclo de governo. Uma tarefa faraônica, disseram. Ele a achou mais fácil.
O motorista enrolou a erva no cigarro  e o acendeu. Deu uma longa carburada e depois passou para o chefe, no banco de trás. Voltou para a estrada, ainda travando a fumaça nos pulmões.
Antes, os sacerdotes acharam que ele queria construir a cidade para concentrar em torno de si os poderes políticos. Como cada deus dominava uma cidade diferente, o poder estava diluído nas mãos de vários líderes espirituais. A cidade em homenagem ao deus Aton, que ele, do alto de seus direitos e deveres como Faraó, anunciou como deus-único, seria o centro administrativo, social e, obviamente, religioso. É claro que isso modificaria a estrutura vigente; convergindo as esferas de forças para o mesmo local, ele, o chefe-supremo, absorveria todo o globo de poder. Não foi à toa que escolheu o disco solar para representar o deus, era a manifestação do simbolismo, tão importante para seu povo.
Akhetaton, a cidade, foi projetada para ser a capital do mais resplandecente trono da Terra. O clero bem que tentou impedir, queriam manter os próprios privilégios, porém Akhenaton soube contornar as adversidades. Seu objetivo, verdadeiro e sincero, o fortalecia.
A fumaça adocicada serpenteou sobre o rosto do ilustre homem confortavelmente aconchegado no banco de trás do Opala. Ele ria interiormente, sabia que se descobrissem este seu prazer secreto, seria a execração pública absoluta. Fazia tempo que não fumava, a última vez foi após cumprir a missão.
A semente de cânhamo poderia resistir durante anos, séculos, até, se permanecesse bem acondicionada na ânfora de barro. Akhenaton enterrou pessoalmente várias pequenas ânforas por toda a cidade durante sua construção. Ainda jovem, havia evocado Aton, o deus da ciência no antigo panteão egípcio. O ritual era fumar a flor de uma determinada erva. Cada pessoa tinha sensações próprias. Ele viu Aton, o próprio deus, no céu, travestido com raios de fogo, no formato do Sol.
Naquele dia, à margem do Nilo, ao lado do velho e seco pé da erva, de onde ele colheu a oferenda e a fumou enrolada numa fina lâmina de papiro, disse, o deus, que ele cumpriria uma missão sagrada. Deveria construir a cidade onde nasceria o Salvador, o próprio filho do deus. Lá, a criança aprenderia toda a filosofia para saber conduzir o homem à evolução. Em caso de insucesso, a civilização pereceria.
Lembrou quando encontrou a velha ânfora lacrada no mercado do Cairo. Adorava as viagens internacionais a serviço do governo brasileiro. Qual não foi a surpresa ao descobrir as  sementes quando abriu o lacre! Só foi menor que sua emoção quando germinaram. Era uma descoberta científica da maior importância, iria relatar o fato nas revistas médicas, sua profissão. Sabendo dos efeitos perturbadores do cânhamo que cresceu das pequenas mudas, pesquisou e descobriu que deveria fumar as flores. Resolveu, então, na decisão que mudou sua vida, aplicar em si os efeitos para ser capaz de relatar com perfeição quais as sensações geradas pela planta.
Assustado com a revelação do deus, Akhenaton traçou um plano para cumprir efetivamente sua missão. Percebeu que precisaria do apoio de todo o estado para construir a cidade que viu no sonho. Mesmo sendo o senhor do Egito, dividia os poderes religiosos com vários sacerdotes tão adorados quanto ele próprio. Ardilosamente, iniciou atacando Tebas e todos os seguidores de Amon, o deus mais poderoso do panteão. Justificou explicando sobre Aton ser o único e verdadeiro deus, era a maneira mais fácil de enfraquecer o clero e alcançar o que desejava.
Tudo correu bem, até a distribuição das ânforas, seu plano alternativo caso não cumprisse a missão. A cidade cresceu e ficou linda como Nefertiti, sua esposa. Com ela teve seis filhos. Morreu, velho, acreditando ter concretizado sua sagrada obrigação. Tut-ankh-Aton, o filho que ascendeu ao trono, viu, antes do fim da vida, o esfacelamento do reino por conta da descoberta de rotas comerciais fora do Nilo.
Tragou e prendeu a fumaça no pulmão. Lentamente sentiu os efeitos da erva. A névoa de calma e compreensão o cobriu, fazendo-o ouvir a voz de deus. Ele imaginava ser deus pois era católico, o que ele escutava eram sábios conhecimentos que pareciam vir lá do fundo de sua alma. Contavam sobre vidas passadas, missões sagradas, deuses e faraós.
Esconder as ânforas com sementes por toda a cidade foi a grande idéia de Akhenaton. Imaginava que algum descendente pudesse encontrá-las, fumar a erva e receber a mesma incumbência do deus, por serem parentes. Os deuses eram muito fieis. Conhecia a volubilidade política do seu reino, sabia que sua cidade poderia não durar o tempo necessário. Nunca imaginou, porém, que a civilização corresse tanto risco de perecer pois Akhetaton foi esquecida poucas gerações após sua fundação. O salvador, Jesus, acabaria nascendo milênios depois, em Nazaré, uma vila miserável, dominada pela simplória e fundamentalista seita judia. A criação do jovem acabou afetada pelos errôneos conceitos do seu ambiente. Se Akhetaton ainda existisse, o destino do salvador teria sido pleno.
Ele olhou pela janela. A Via Dutra estava vazia, já era tarde. Ele viajava do Rio de Janeiro para São Paulo. As quatro horas de carro seriam suficientes para fumar o baseado. Desta vez, responderia à voz do criador. Desde que descobrira sobre Akhenaton, durante a viagem ao Egito como Deputado, Juscelino Kubitschek ficara intrigado com a missão de construir uma cidade-modelo que fosse capaz de educar o filho de deus como líder da humanidade.
Quando fumou pela primeira vez, imediatamente entendeu que o plano alternativo de Akhenaton seria a última esperança da civilização. Ele próprio era um descendente do Faraó, talvez sua reencarnação, pois recebera a mesma incumbência. Significava que ainda haveria outra oportunidade para o nascimento do salvador acontecer no lugar correto, a cidade que seria o berço da nova civilização.
Olhou pelo pára-brisa e viu um carro vindo em sua direção. Não se importou, estava relaxado por conta da erva, da satisfação da missão cumprida, de saber que finalmente resgataria a humanidade. A voz de deus retumbou em sua cabeça. Respondeu, num discurso claro e fluente.
- Desta vez, foi diferente. Brasília há de durar até o nascimento do novo salvador.

terça-feira, 30 de março de 2010

Convidado Paulo José Cunha

dá-me o prazer?
 
a mim não importa a janela
nem a vida
muito menos a porta
da entrada
ou da saída
 
sou mais é participar da miragem
e bailar entre os espelhos 



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Agora

   
Preservativos sob os bancos
pelos becos, pelos cantos.

   Alegrias urgentes.

           Amor?
Não. Algo mais forte:
           na hora.

O amor quer ser eterno.
O prazer quer ser agora.

sábado, 27 de março de 2010

MANCHETES DE JORNAL (ou sobre Isabela e outros anjos)

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JOÃO HÉLIO FERNANDES








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João Hélio Fernandes
ISABELLA NARDONI









João Hélio Fernandes
Isabella Nardoni
ELOÁ PIMENTEL








Isabella Nardoni
Eloá Pimentel
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Eloá Pimentel
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Notas

João Hélio Fernandes – em fevereiro de 2007 foi arrastado por um carro em movimento por ladrões que abordaram sua mãe em uma rua no Rio de Janeiro.
Morreu um mês antes de completar sete anos.
......
Isabella Nardoni – em março de 2008 foi jogada do sexto andar do prédio onde viviam seu pai e a madrasta, em São Paulo.
Morreu um mês antes de completar seis anos.
......
Eloá Pimentel – assassinada pelo ex-namorado em outubro de 2008 no seu apartamento, em Santo André, após sofrer cárcere privado por cem horas.
Morreu aos quinze anos.



Este texto foi publicado no meu blog, o www.prosaseviagens.blogspot.com - nele, publico também contos, minicontos, relatos de viagem... espero suas visitas por lá...

Emoldurada

Viro pro lado e vejo
(filme adulto sem cortes,
revista de sacanagem),
em chiaroscuro e água-forte
à luz que vem da janela,
a obra-prima do vernissage.
Ainda sinto seu cheiro
doce e quente sobre a pele.
Ela dá uma de inocente
(nem catecismo do Zéfiro,
nem bem óleo sobre tela),
espreguiça e faz que não sente
os meus olhos sobre a dela.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Beijo especial

A língua lenta lambe o lábio
e o toque treme o corpo todo.
Na pele o pelo em pé se posta
e a boca bebe o puro gosto.

O olho fecha e vê o sonho.
A pele então que passa a ver,
enquanto a boca fala muda,
e o ar esquenta e escorre em gota...

E é então que esqueço tudo:
não há nem tempo nem espaço.
Sou cego, surdo e também mudo.
Só há um cordão de língua em laço!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Movimento geóide


Lá fora,
o mau cheiro do pólen.

Queimado pelo pavio da chaminé.
Construída pelo ego que destrói.

Que cessam as pétalas de bem-me-quer.

Arrancam o palmito
do tronco que chora.

Direitos Humanos?
Há esperança de melhora
em cinqüenta anos?

Com seu movimento geóide,
Sente uma dor pulmonar.

Pela combustão que explode,
Espera essa cratera sarar.

Ainda se ouve o tinir da esfera.
Conduzida pelo ego que destrói.

Que perturba o planeta Terra.

Lena Casas Novas - Da obra Incessante


"Hora do Planeta 2010 - DIA 27 DE MARÇO - ÀS 20h30 - Apague a luz por 60min. E acenda a consciência contra o Aquecimento Global!"


segunda-feira, 22 de março de 2010

Aviso aos desavisados


Neste sábado, dia 27 de março, ocorrerá o lançamento do
Vem cá que eu te conto no Rio de Janeiro

O evento será realizado na sede da Editora Multifoco
Av. Mem de Sá, 126 - na Lapa - das 17 às 21:00



Lembrando também que, no dia 17 de abril,
ocorrerá o lançamento do livro em São Paulo

Na cidade da garoa, o evento será na Casa das Rosas
Avenida Paulista, 37, das 17:00 às 20:00 (seguido por um sarau)



Mais informações, acesse: http://vemcaqueeuteconto.wordpress.com




Segue abaixo um conto (que não está no livro):


À parte


Voltando para casa, invariavelmente passava diante do mercado. Pensou em entrar e comprar um bom vinho para acompanhar o jantar, mas quando chegou na frente, desistiu. Não passou reto porque a multidão que começava a se aglomerar obrigou-o a desviar, mas, avesso a confusões, passou direto.

Enquanto ele passava, observou de relance que os seguranças estavam cercando uma senhora que parecia estar tentando atingir-lhes com uma sacola de tecido cheia de compras, também ouviu as pessoas comentando que ela já havia atirado outras mercadorias contra os funcionários do mercado. Permaneceu indiferente à cena e aos comentários, era também avesso às fofocas e burburinhos.

Continuou andando para casa, mas percebeu que enquanto ele andava, a notícia corria. Mal havia andado meia quadra e já via o assunto chegando na esquina, mais ou menos na mesma altura do congestionamento causado pelos motoristas que passavam devagar, tentando espiar alguma cena da confusão por entre os passantes, que no momento estavam parados, mas logo passariam. Sentiu-se incomodado ao ver que todos pelo caminho comentavam e aumentavam a situação vexatória dos envolvidos, mas o máximo que podia fazer era manter-se indiferente e não aumentar a onda - que a esse momento já estava enorme. Na esquina já comentavam que alguém estava atirando pedras e pedaços de pau para todo lado, que havia feridos.

Ao entrar no saguão do prédio, acreditou ter despistado a notícia que o cercava desde o mercado. Mas foi então que o porteiro comentou sobre a atuação violenta da polícia, há pouco tempo, em uma situação com reféns no mercado. Olhou para o porteiro e percebeu que ele falava com um morador que estava sempre por ali, sentado na poltrona - que talvez fosse até dele e não do condomínio, porque nunca havia visto nenhum outro morador usando-a. Sentiu-se aliviado porque podia poupar-se de fazer qualquer comentário em relação ao caso, até porque, caso comentasse, reduziria aos fatos o acontecimento que havia provocado tantas reações e, de fato ou ficção, agitado um bom tanto a vida um outro tanto monótona dos que deixam para viver no final de semana.

Quando entrou no apartamento, finalmente livre, sentiu-se superior aos que sucumbiram ao burburinho, às fofocas e conduziram uma simples confusão de saída de mercado a um conflito armado.

Começou a preparar o jantar e a repensar os acontecimentos do dia. Após alguns momentos de reflexão, sentiu-se angustiado porque, de fato, o que acontecera de mais interessante no dia foi o rebuliço na porta do mercado, que podia ter se tornado parte do seu dia se acaso não tivesse se esforçado tanto para ignorá-lo.

Um pouco depois que ele terminou a janta, especialmente preparada para a esposa, ela chegou. Cumprimentaram-se com um beijo - sem abraço por conta das mãos engorduradas - e, então, ele perguntou:

- Demorou um pouco mais hoje, muito trânsito?

- Essa rua ali da frente estava um pouco parada. Parece que houve alguma confusão no mercado. Você ficou sabendo algo?

Diante da pergunta a ele direcionada, o estímulo que lhe faltava, não conseguiu conter-se:

- Parece que alguém tomou um tiro no mercado.

domingo, 21 de março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

Convidada Carmen Silvia Presotto

Momentos


Há momentos insones

em que viver é morrer



na escada de um bar

na garagem de um prédio

um corpo me assombra



volto para casa morto de vida

e choro...

---
Carmen Silvia Presotto

sexta-feira, 19 de março de 2010

Somente... Amor!

(Imagem: Google)


Somente... Amor!



Busco um amor que venha tão de mansinho que todas as estrelas olhem para ele e sejam coniventes ao acontecer.

Não precisa ser do tamanho do infinito, mas não reclamarei se for o próprio.

Não exijo que seja daqueles que a gente lê nos livros, que nos ensinam na infância ou que projetam como imortal, mas se tiver essas características também aceito – desde que seja mais que encenação.

Durante todo o dia quero existir nele e que ele exista em cada poro do meu corpo mesmo ausente. Tipo parasita e hospedeiro, cada qual a doar ao outro o necessário para a existência.

Amor desse que não enlouquece de ciúmes, pois sabem os amantes o que representam um para o outro e respeitam os sentimentos. Mas se acontecer em dado momento de pintar um ciúme que a gente saiba espantar, juntos, qualquer dúvida que queira estragar a beleza.

Que venha suave e incendeie a cama, a casa. Que deixe impregnado nas paredes o seu cheiro, a sua imagem, os seus risos, as suas lágrimas. Que apresente suas feridas, mas que nenhuma delas seja forte o suficiente para ferir e nos lançar ao canto solidão.

Que esse amor não deixe ninguém destruir nossas certezas porque a inveja os domina e não são capazes de compreender a força e a magia que envolve tudo o que é abençoado.

E quando a gente entrar na dança das almas e sorrir inocentes crianças, que o céu nos conceda caminhos juntos caso o regresso nos habite. Que a gente nunca, nunca esteja separado em mundo algum.

Se a matéria de um tiver tempo a menos que a do outro, que o que ficar acredite no próximo encontro e continue a amar o corpo ausente no silêncio do coração, nos labirintos da mente e na alma eterna.

Busco um amor que não seja ilusório, amor que preencha a vida de flores, de paixão, de sol e chuva. Amor que não precise exigir de mim coisa alguma, pois toda eu, serei dele, a realização plena de tudo o que anseio.

Amor só amor.


Eliane Alcântara.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O primeiro voo da mariposa


http://www.nuaideia.com/imagem6/mariposa.10jpg.jpg


De tão pequenos gestos
numa timidez de afetos.
Esvoaçava fuligem num mar de cacos.

Como figuras num aquário
com secretas canções angelicais.

Quem pudesse veria
as marcas de sangue e vida,
de fogo e de partida ao longo do litoral

voo
primeiro e último
da mariposa que me habita
sobre as chamas do canavial.



(Jessiely Soares)

quinta-feira, 11 de março de 2010

A Vida é Curta Para Fugir

Diante de tua presença
Pêlos arrepiam e a boca treme,
Palavras não saem
E assumo o animal que sou.
Tomo-a de surpresa
Arrancando tuas vestes,
Dominando teu corpo 
Quero teu prazer e entrega
Chame-me de bruto e libertino,
É dessa forma que te amo.

Continue fingindo frieza
Com teu jogo de sedução
Brinquemos hoje
Só temos o agora
Agarre-se em minha pele 
Amanhã poderá ser o fim,
Pois a vida é curta para fugir.


- Mensageiro Obscuro.
Maio/2008.


Foto: "The Lady of Shallot" de John William Waterhouse.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Fênix



ressaca de certeza esfarelada
retalhos de vontades desfiadas -
nus, nós, depois do terremoto
dançando de mãos dadas
alegres, no velório das palavras.

Convidado Edson Bueno de Camargo

na origem dos pés


para Antônio Jorge Valério



na origem
os pés pisaram
este chão de basalto cristalino

planalto de pó e de origens
de plantas planares
em argila de ocre vermelho
dos ventres pungentes
que ainda gerarão a humanidade
(e de novo
e de novo)

somos todos africanos
em nossa origem humana
todos exilados do terreno
da pátria primeira

foram os pés de nossos antepassados
fincados na terra
que nos trouxeram aqui

------------

Edson Bueno de Camargo

terça-feira, 9 de março de 2010

AQUI PRA VOCÊS




Para os que acham - me lixo



AQUI PRA VOCÊS
esperem sentados


Há muito tempo
Decorro fechado
Mas agora resolvi peitar
Posto no bar
Muitos bocados
Eu não vou mudar
Pros que reclamam
Por meus comentários
Esperem sentados
Pra não cansar
Pois meus escritos
Os grandes críticos
Dizem odiar
Verdade é
Que nesse bar
Muitos gostam
De o meu estourar
Dizem-me ser
Um fanfarrão
Um machista
A profanar
Rotulam-me
De infantil
De inseguro
De truffinha
Lá... lá... lá...
Tentando me abalar
Que só falo do meu pau
Que meu ego é o que há
Porque são tão afiados
Não param de criticar
Criticam a mim
Não ao estilo
Acham que vão me expulsar
Os eruditos?
Cago e ando
Não vão me balançar
Esses merdas me levantam
Em evidência
Eu vou ficar
Pros que gostam
Falo então
Que machista
Não sou não
Meus escritos
Não, não, não.
Não sou eu
Quem sou mermão?
Minha humilde
Opinião
São retratos
Do mundão
De uma vida
Do leitor
De sua reflexão
Prosa
Ou
Verso
Ora
Pois
Não
Sou livre combinação
Sou humano
Vomitando
Minha indignação
Não encaixo no padrão
Sem nenhuma ambição
Isso aqui nada mais é
Que uma provocação

Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

segunda-feira, 8 de março de 2010

VÉSPER

“Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia. “








VÉSPER


não há nada sob esse céu
nenhuma estrela presente
nada me pressente
só Vésper alheia me paquera

há um teto sob meus olhos
é azul cáustico
escuro e brilhante
estranho

ah, gostaria de vê-la
velar essa luz que insinua
o brilho de estrela nua
já quase ido
esse quase nada de luz
o lusco-fusco a traduz

só tua sombra desliza
em queda livre e fria
se desvia da noite
e busca o sol
que se quebra em cacos,
como devia

e em tantos estilhaços
onde, enfim
você se vê
mesclada à teias de lembranças
em que desfia
o fio dessa trama infinda.

efêmera e brilhante
toda beleza é o instante
todo azul a anula.




quinta-feira, 4 de março de 2010

O Inimigo

Olho no espelho
e vejo um outro alguém
a me fitar com raiva
e tento demovê-lo da idéia
de sozinho me emboscar

Apenas contra mim
talvez meu maior inimigo

quarta-feira, 3 de março de 2010

Auguste por Camille

no princípio Auguste esculpiu esse amor ao som da rebarbadora nas pedras de mármore bruto. nasciam curvas sinuosas e vultos de olhos fechados. depois só queria estraçalhar-me o ventre como um animal raivoso. pensador como era, apenas devolveu-me a antiga vida. a realidade se encarregou de matar-me aos poucos.

terça-feira, 2 de março de 2010

Exercicícies

Não fosse somente Alice
o que, além do que se disse,
ela sereia?

Fosse Alice também uma sereia
ela não seria só Alice:

seria uma sereia Alice.

E o que faria Alice nesse caso,
(o de ser menina)
além de meninices?

Faria sereialices.

Sereia só é melhor
que somente Alice?

Então melhor sereia
(aquilo)
que uma Alice a litro.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre o menino que morreu na garagem do meu prédio, meu último acidente de moto e a indesejável.


Um menino morreu esmagado pela grade do portão eletrônico do meu prédio no último domingo. Desci a pedido da síndica para apoiá-la, estava abalada com a tragédia. Os dados: moleque perdido de 7 anos entrou no lugar errado.  Perambulei entre policiais e curiosos, vi o corpo, aparentava uns 8 anos, grandão, descalço com pés imundos.
- corre, vem ver, gente, tiraram o lençol. – Relinchou uma senhora com criança no colo, como se chamasse as fãs prum show da banda Calypso. Voltei para casa, detesto espetacularização de tragédia.
Contei o que vi para minha mulher: menor de rua tentou roubar a garagem e se deu mal. Simples assim. Mais tarde, já à noite, vim conhecer a amplitude do meu preconceito. Na verdade, o menino tinha 4 anos, era hiperativo e tomava remédios, morava na quadra vizinha, entrou no prédio pois era igualzinho o seu próprio e, quando percebeu que estava no lugar errado, voltou e foi pego pelo portão quando, com o susto, sofreu um surto. Uma fatal e infeliz coincidência.
Analisei por dias minhas emoções para escrever este texto. O que senti durante o desenrolar da história? Nada. Ou melhor, pensei no sofrimento se acontecesse com meus familiares, mas só isso. Tive pena do menino, e tal, mas acho que já estou acostumado com violência e morte ao meu redor.  Histórias novelescas de traição, vingança e medo acontecem com meus amigos, inclusive roubos, seqüestros e assassinatos. Por que eu me surpreenderia com uma fatalidade? E, olha, vivo num chamado bairro nobre, trabalho no serviço público e tenho nível superior, sou classe A pro IBGE. O que não acontece por esse mundão afora?
Lembrei que quatro dias antes eu mesmo havia me acidentado de moto. Um emo resolveu sair do carro do pai num semáforo enquanto eu transitava ao lado, trombei contra a porta de frente, capotei e pousei quase sentado no asfalto (ainda bem que tenho os instintos do rolamento no Judô). Foi na frente do Schlob, uma da tarde, aquela confusão, Samu, polícia, Hospital de Base. O único ferimento grave foi saber que o japonês pai do emo não quer se responsabilizar pelo prejuízo.
- meu filho ficou muito triste por você não aceitar suas desculpas. – Argumentou o pilantra.
- por que eu ira apertar a mão de quem quase me matou? Sou o Gandhi, por acaso?
Naquele dia não temi a morte, só senti uma pena antecipada por meus familiares se algo tivesse ocorrido de sério. Todos morrerão, cedo ou tarde, o que importa é como se gasta o tempo da vida, sem temer novos tombos ou fatalidades coincidentes, senão já estaremos mortos sem saber. A moto foi pro mecânico, já tô com saudade do vento e da liberdade.
E o menino continuou morto. O pior, ainda sofrendo os julgamentos espúrios de gente como eu, que espera o pior das pessoas como cartão de visita e que se distancia de tudo que desconsidera como quem se afasta de uma fossa séptica. Ele era só um coitadinho que nem teve tempo de errar, no primeiro já se deu mal. Talvez crescesse como um emo que um dia abriria a porta do carro no trânsito e mataria um motoqueiro, ou talvez descobrisse a cura para a corrupção, vai saber.
A única coisa que eu sei é que um dia todos morrerão.