quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Entrevista de Pablo Treuffar pro BDE


O jornalista Guto Correia entrevista Pablo Treuffar pro BDE




COMO FOI CRESCER NO RIO, ESPECIALMENTE EM IPANEMA?

Ipanema é um bairro de praia, cresci na praia, junto com tudo que ela oferece. Foi na praia de Ipanema que conheci a turma do morro, do subúrbio, da classe operária, da classe média, os traficantes, as putas, as sapatas, os viados, os artistas, os esportistas e a burguesia; enfim, a praia é um território democrático, todos os segmentos da sociedade estão lá.


VAMOS AO QUE INTERESSA. O QUE É ESCREVER PRA VOCÊ?

É um processo criativo no qual desejo irritar as pessoas perante suas próprias mazelas, suas inquietações. Quando escrevo, penso na reflexão, minha e do leitor. Escrever é passar minha alma a limpo, passar a humanidade a limpo. Gosto da ideia de Sócrates que o importante é a pergunta e não a resposta. Procuro o questionamento. Não há respostas.

EU LI SEUS TEXTOS E POSSO DIZER QUE TEM MUITO HUMOR NELES, VOCÊ CONCORDA QUE A IRONIA E O HUMOR SÃO FATORES MARCANTES NA SUA OBRA?


O humor é de cada um. Eu acho meus textos muito divertidos, outros também acham, mas os que acham são porque têm neles o senso de humor, outros leitores acham meus textos simplesmente ruins e ofensivos, um dedo na cara das mazelas que eles carregam e não querem assumir. Por isso eu incomodo. Conta uma piada pra um cara com dor de dente, ele não vai rir. Humor é mão dupla.


VOCÊ ENCONTRA DIFICULDADE AO ALTERNAR TEMAS POLÊMICOS E SÉRIOS COM A COMÉDIA?

Não há dificuldade alguma, a alternância entre rir e chorar se faz na consciência do leitor, não é lido o escrito, é lido o entendimento escrito, o entendimento é de cada um, uma vez escrito, sendo tudo verdade, escrito não é verdade, ou seja, o mesmo texto é cômico pra uns e sério pra outros.


COMO COMEÇOU A ESCREVER?

Quando criança, eu tinha meu diário, escrevia nos meus cadernos durante as aulas, no primário, no ginásio e daí pra sempre segui registrando alguns pensamentos. Devo ter quase mil textos inacabados. Escrevo muito, mas mostro quase nada. Se todas as pessoas escrevessem tudo o que vem à cabeça, qualquer pensamento, todos seríamos gênios. Comecei a escrever quando entendi que eu escolho meus pensamentos. Concordo com o Waly Salomão “A memória é uma ilha de edição”.


QUANDO DECIDIU TORNAR-SE ESCRITOR?

Acho que sempre fui escritor, mesmo quando não era, quando não escrevia, pensava. Estou sempre escrevendo mentalmente, sempre fiz isso, desde que me entendo por gente. Não paro um minuto. Minha mente é um caderno de redação. A única diferença é que hoje vocês podem ler alguns dos meus pensamentos.


QUANDO VOCÊ CRIOU SEU BLOG?

Meu blog é de outubro de 2006. Mas as pessoas começam a ter acesso aos meus escritos em meados de 2005, graças ao Bar do Escritor, de Giovani Iemini. Um dia, eu estava navegando no Orkut e achei esta comunidade, comecei a postar e fui achincalhado por muitos membros, vários comentários sucederam em todos os meus textos, muitos de cunho pessoal, daí percebi que eu incomodava e não parei mais. Com o tempo, os desafetos começaram a entender o meu não estilo. Ainda tenho muitos inimigos no Bar do Escritor. Adoro incomodar. Vou citar uma frase do escritor Alex Wildner que cabe muito bem agora: “Se tiverem a oportunidade de escolher como serão reconhecidos, optem por ser o incômodo. O Gênio. O Sábio. O Belo. O Astuto. O Achaque. A Doença. O Mal. O Incômodo. Todo Incômodo tem seu Talento.”


QUEM É ALEX WILDNER?

Um blogueiro da nova safra de bastardos da literatura, assim como eu, um escritor amador em busca de dois leitores.


COMO FOI PUBLICAR SEU PRIMEIRO TEXTO?

Foi porrada, apanhei muito dos leitores. Apanho ainda nas comunidades de textos net adentro. Faz parte.


COMO VOCÊ ENCARA AS CRÍTICAS?

Adoro, é muito fácil ler alguma coisa e escrever “gostei”, mas pra criticar você tem de ter lido a fundo, formado opinião a respeito, prestado atenção. Realmente, uma crítica de várias linhas me envaidece muito mais que um simples “muito bom”. Não tenho problema com isso.


QUERIA QUE VOCÊ FALASSE DE COMO FOI ULTRAPASSAR A BARREIRA DO ANONIMATO?

Não ultrapassei, ainda sou anônimo, mas é muito gratificante ver que dois ou três malucos entendem o que escrevo.


SABERIA DIZER O NÚMERO DE ACESSOS DIÁRIOS DO SEU BLOG?

Muito pouco, uma média de 80 visitas novas por dia.


VOCÊ ACHA QUE COM ESSE FENÔMENO DE MILHÕES DE BLOGS INTERNET ADENTRO O BRASILEIRO ESTÁ LENDO MAIS?

Infelizmente não acredito, acho que os internautas ainda são um retrato da TV aberta, usam a internet basicamente pra Orkut, MSN, futebol e sítios de fofoca. Todo o resto são jogos e pornografia. Se o meu blog tivesse mulher pelada, eu teria 80.000 vistas dia e não míseras oitentinhas visitas dia.


VOCÊ DISSE QUE COMEÇOU A MOSTRAR SEUS TEXTOS NO ORKUT, ACHA O ORKUT UMA BOA FERRAMENTA DE DIVULGAÇÃO PRA NOVOS ESCRITORES?

O Orkut pra nós que queremos ser lidos é uma boa ferramenta de debate, mas, por exemplo, se você entrar na Comunidade do BDE vai ter por volta de 4.000 membros, dos quais, 200 no máximo publicam e comentam regularmente uns aos outros, já a comunidade EU SOU GOSTOSA tem 1.658.652 membros, mais ou menos, veja bem, o Orkut é usado pra ver fotografias, pra azaração, não estão lendo no Orkut.


QUAIS SÃO SEUS AUTORES PREFERIDOS?

Poderia citar os ditos clássicos: Machado de Assis, Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Mario Quintana, Clarisse Lispector, Isabel Allende, Garcia Marques e tantos outros que são tudo e mais alguma coisa de bom em matéria de narrativa e conteúdo, gosto muito, mas eu gosto mesmo é dos marginais. Rubem Fonseca pra mim é Deus, Nelson Rodrigues um monstro sagrado, esses dois são fontes inspirativas sempre. Não posso esquecer o João Ubaldo de jeito nenhum, adoro a Norma Lucia, um ídolo pra essa sociedade careta (Norma Lucia é personagem do livro “A casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro). Dos gringos, gosto muito do Charles Bukowski, do John Fante, do Henry Miller, do Maiakovski, tô completamente apaixonado por um escritor cubano chamado Pedro Juan Gutiérrez. Se eu tivesse de falar só um escritor hoje pra você, seria sem sombra de dúvidas o Gutiérrez. Tô lendo agora Pornopopéia, do Reinaldo Moraes, e achando muito bom. Gosto da linguagem suja.


VOCÊ REALIZA ALGUMA ESPÉCIE DE RITUAL ANTES, DURANTE OU APÓS O ATO DE ESCREVER?

Não, mas se eu puder fumar unzinho eu gosto.


ONDE ESCREVE?

Em qualquer lugar, a qualquer hora, sou escatológico, eu vomito onde estiver. Se possível, como eu já disse, gosto de fumar unzinho pra escrever.


VOCÊ FALOU SOBRE A MACONHA EM DUAS RESPOSTAS ÀS PERGUNTAS QUE EU TE FIZ, VOCÊ ACHA QUE A MACONHA AJUDA NO PROCESSO CRIATIVO?

Não é isso, sou um cara muito ansioso, minhas pernas não param de mexer um minuto, essa inquietude física, nada mais é que o reflexo da minha alma ansiosa, fumar unzinho me deixa menos apreensivo e fica mais fácil de terminar os meus escritos. Só isso.


SEUS TEXTOS SÃO BASTANTE POLÊMICOS, PRINCIPALMENTE QUANDO VOCÊ ABORDA TEMAS COMO SEXO, DROGAS E VIOLÊNCIA. QUAL É SUA RELAÇÃO COM ESSES TRÊS TEMAS RECORRENTES?

Intensa, é uma trilogia recorrente na humanidade, a pecaminosa trindade. Eu sou o pecado. Você também é. Todos são. Eu admito. Sou pessimista e acredito na maldade humana.


SEUS CONTOS SÃO INSPIRADOS NA SUA VIDA, NO SEU DIA A DIA?

Esse tema é legal, por eu escrever na primeira pessoa, as pessoas acham, na maioria das vezes, que estou escrevendo sobre a minha vida, não é verdade! Meus escritos são inspirados na sua vida, na minha vida, na vida de todo o mundo. Escrevo as muitas visões da vida.


COMO SURGE SUA POESIA, SEUS CONTOS?

Depende muito, uma frase, um olhar, um filme, um livro, uma conversa, tudo me inspira. Basicamente, meus escritos surgem da observação das fraquezas humanas.


ANOTA MUITO?

O tempo todo, guardanapos, extratos bancários, cartões, anoto em qualquer lugar. Se você abrir minha carteira, vai achar coisas escritas em toda parte.


O QUE O INSPIRA?

Essa é fácil, tudo!


COMO FOI SEU APRENDIZADO?

Não foi. Eu nunca aprendo. A ideia de ter aprendido alguma coisa assusta-me, saber algo é a possibilidade real da estagnação. Como eu já disse: interessam-me as perguntas, e o aprendizado são as respostas. Prefiro as perguntas.


LENDO COMENTÁRIOS NOS SEUS TEXTOS, NOTEI QUE HÁ UMA DÚVIDA RECORRENTE SOBRE O QUE VOCÊ ESCREVE, SEUS LEITORES CLASSIFICAM SEUS TEXTOS DE FORMAS DIFERENTES, ALGUNS COMO CONTO, OUTROS COMO CRÔNICA E OUTROS AINDA COMO POESIA, MUITAS VEZES NO MESMO TEXTO VOCÊ É CLASSIFICADO DAS TRÊS FORMAS, SEU ESTILO É BASTANTE PECULIAR, COMO O DESENVOLVEU, COMO VOCÊ CLASSIFICA A SUA ESCRITA?

Adoro isso. Não me preocupo com o que escrevo, é assim que se desenvolve minha escrita. Meu estilo é não ter estilo. Já discuti com vários leitores por causa disso, lembro de uma discussão que tive com o escritor Edson Bueno de Camargo sobre esse assunto. Prosa ou verso? Não dou à mínima. Odeio rótulos. Existem correntes que me mandam escrever prosa, outros dizem o contrário. Comentaristas brigam entre si pra definir a minha escrita. Sinceramente, eu escrevo textos, ou “coisas” como Giovani Iemini gosta de denominar meus escritos. Acredito em textos bons ou ruins, além disso... o nada. Sei que vou continuar sendo massacrado pelos catedráticos de plantão por essa minha postura com a literatura, mas pra mim existem dois tipos de literatura, a literatura boa e a ruim, e isso na visão do um. Não necessariamente o que você vai gostar eu vou também. Só isso.

QUAL A SUA MAIOR DIFICULDADE AO PRODUZIR UM TEXTO?

Não tenho dificuldades, talvez o processo de me convencer que o texto está pronto às vezes seja doloroso, outras vezes é muito fácil, mas, se tenho um momento de dúvida no processo, esse momento é terminar. Nada que um ponto final não resolva.


VOCÊ CITOU O NOME DE GIOVANI IEMINI ALGUMAS VEZES. QUEM É GIOVANI IEMINI PRA VOCÊ?

Giovani Iemini é o responsável por vocês estarem me lendo. Foi na comunidade dele: O Bar do Escritor, que comecei a botar pra jogo meus escritos. Ele é autor do livro Mão Branca, entre outros projetos. Junto com Cristiano Deveras, são eles os idealizadores e escritores dos livros BAR DO ESCRITOR – Anarquia Brasileira de Letras e BAR DO ESCRITOR BRAND. Estes dois livros são coletâneas de vários autores independentes em formato pocket e de baixo valor de comercialização, com a finalidade de divulgar uma turma de escritores, que se não fosse por pessoas como eles, não seriam impressos tão cedo (Pablo Treuffar escreve nos dois livros). Outra coisa, com muita luta, eles conseguiram levar esses livros pra FLIP 2010 e pra Bienal de São Paulo 2010, ou seja, Giovani Iemini é um empreendedor, um amante da escrita. Pra mim, Giovani é o cara!


VOCÊ TEM CONTOS ESCRITOS NO FEMININO, COMO É PRA VOCÊ ESCREVER NA PRIMEIRA PESSOA UMA PERSONAGEM FEMININA?

Isso foi uma brincadeira, mulheres comentavam meus escritos e me chamavam de porco chauvinista pra baixo. Eu tenho um texto que se chama VADIAS MIMADAS, muitas que o leram vestiram a carapuça e me atacaram de todas as formas possíveis, resolvi criar uma personagem mulher que pisava nos homens e escrevi: MEU NOME É LUA. Deu certo. Elas adoraram. Gostei e escrevi mais dois. São três textos na verdade, PSICO-FOFO, MEU NOME É LUA e O PRAZER. Faço minhas as palavras de Gilberto Gil “Minha porção mulher que até então se resguardara, é a porção melhor que trago em mim agora”.


VOCÊ TEM UM CONTO SOBRE DEMETRIO TENÓRIO DE MELLO, QUE DE FATO EXISTIU. QUERIA QUE VOCÊ FALASSE COMO ERA SUA RELAÇÃO COM ELE?

Demetrio morou no meu prédio, em Ipanema, na década de 80. Era um cara enigmático, bonito, cheio de mulheres, dirigia carros importados e não trabalhava. Tráfico de influência era o seu ganha pão. Foi o ídolo da minha infância. Ele morreu assassinado, o caso nunca foi resolvido.


QUANTAS PUBLICAÇÕES IMPRESSAS VOCÊ TEM?

Além da minha participação nos dos dois livros do Bar do Escritor supracitados, tenho também um contrato assinado com a Editora Multifoco. Meu livro será lançado no dia 11 de janeiro de 2011.


PARA FINALIZAR. O QUE VOCÊ PODE ADIANTAR SOBRE O SEU LIVRO?

O nome é A DOENÇA É A DESCULPA DO CARÁTER. A editora é a MULTIFOCO. São 42 textos. A capa é do cartunista ANDRÉ DAHMER, pra mim o melhor cartunista da nova geração. O texto de apresentação do livro é do escritor TONINHO VAZ, autor das biografias de Torquato Neto, Paulo Leminski, Darci Ribeiro, entre outras. As orelhas são de GIOVANI IEMINI e GUTO CORREIA, que não por acaso é você que está me entrevistando. (gargalhadas)




Pablo Treuffar pode ser lido no blog:
http://www.pablotreuffar.com/



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

descrédito visionário
















antes fosse cego
penetrar além da visão
descaminhar pelos banheiros públicos
sentir-se a latrina descontaminada

ser aquele que perambula
de um pólo a outro
na cegueira por excesso
ou por falta de luz

ser aquele que desarma
a alegoria dos fatos
sem decifrar criptogramas
ou desnudar o dito perfeito

antes fosse ele mesmo
um desatrelado social
que se orgulhasse apenas
de sua tagarelice infeliz.


(imagem de Gilberto de Almeida Pinto, meu tio materno)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Vampira


Sedenta
provo com a língua
e gosto
do gosto
do teu beijo.

Tua desdita,
meu desejo.

Deixo-te vazio
e me afasto,
satisfeita.

Devoro a alma,
mas ponho
no pires do meu gato

o sangue
dos homens que mato.

(poema do meu livro LEOA OU GAZELA, TODO DIA É DIA DELA)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Boas Novas



Olá, amigos!

Tenho novidades!!

Está no ar a Loja Virtual Incessante Presentes. Estamos desenvolvendo um portifólio de produtos para atender a todos que querem presentear pessoas queridas.

Vamos cuidar com muito carinho do setor de produtos ecologicamente corretos. Temos a missão de estimular a prática da reciclagem, assim deixaremos de extrair recursos naturais bem como desacelerar a produção de produtos nocivos ao meio ambiente.

Para quem pretende ampliar seu canal de venda no seguimento de presentes, papelaria e artesanato, aceitamos parceria na divulgação e vendas de produtos.

Receba novidades assinando a newsletter e fique incessante!!

domingo, 22 de agosto de 2010

sábado, 21 de agosto de 2010

Três anos de Hotel Sete ...
21 de Agosto
Três anos de Hotel Sete ...
Acordei
Lavei o rosto
Passei no espelho o resto da noite que restava sob os olhos e minhas olheiras ...
Do bolso da calça tirei a chave do meu quarto
antes eram ácidos ou outros
Me dei conta que hoje já sei onde durmo
e que quando cheguei aqui me perdia nos andares
Hoje abro as portas e indico os quartos pros novos inquilinos e novatos
Percorri o corredor e desci as escadas
Passei a mão no jornal do dia
Na rua o mesmo trânsito iniciando sua transa, seu vai e vem
E eu, complexo transeunte, relembro minha primeira noite aqui dentro
A cabeça dói
Tudo a sua volta gira, se movimenta
Seu próprio estômago soca sua garganta
Golfadas de vômito
Engulho, e dormência nas pontas dos dedos dos pés
Esse sol intenso desequilibrando as paredes e o teto

São apenas 7:47
Depois disso foram muitas festas, encontros, brigas, amores e noites bem vividas e mal dormidas
Certas madrugadas, às vezes pra incomodar a justa serenidade do sossego do quarto, caminhava pelos becos e circunvizinhanças as duas, três horas pra alegrar os notívagos e arriscar minha vida, sempre obviamente com a carteira vazia...
Do meu quarto compus meu livro de poemas, escrito hora em caneta tinteiro envenenada, hora em máquina Remington enferrujada, relíquia do meu avô e destruída por amigos eufóricos
Freqüentemente avisto, na esquina, dois mendigos folheando as páginas
Eles me acenam fervorosamente quando passo e balançam o livro nas mãos dizendo em que poemas estão
Adoro presentear os amigos
Ocasionalmente aconteciam fantásticas jam’s musicais, onde compúnhamos canções e rocks, fumando cigarros e olhando o som da cidade pelas janelas abertas, surgindo assim uma banda que veio a gravar um disco empoeirado que toca no saguão central do Hotel numa velha vitrola de 1958, nas noites de sexta pra alegrar os inquilinos mais idosos, que reclusos preferem o conforto das poltronas, seus chás, dominó e gamão
Nesse ínterim fui conhecendo outros escritores, que sem lar vieram alugar quartos no Hotel e mesmo outros artistas que sublocaram todo o Subsolo do prédio
Com esses fiz mais amizade e por muito tempo morei junto a eles nos porões, confabulando e perpetrando nossa nova confraria.
Nossas intenções não eram de forma alguma muito nobres, sobretudo, porque ademais queríamos ser lidos, fato que em si só, contrariava uma premissa do status quo
Começamos motivados a realizar leituras e festas, organizar encontros, zines e ...
Mas esperem aí, já estou me estendendo e estou atrasado, deixe eu ir trabalhar para descolar uma grana porque hoje é dia 21 ...
e tenho que pagar o aluguel.

Vôo

Despertar...
Dar asas as asas do dia.
Manhã fria, preguiça de levantar.
Mas, um pássaro canta lá fora.
Um sabiá.
Não consigo ficar impassível a este chamado.
Com o cobertor nas costas ensaio um vôo.
Escrevo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Notícias do Bar do Escritor na FLIP 2010

A empreitada foi um sucesso!
O sonho de tornar o Bar do Escritor uma realidade durante a FLIP 2010 se concretizou de maneira mágica (como elogiaram os espectadores dos saraus).
De 02 a 08 de agosto de 2010, a comunidade literária mais anárquica e libertária do Brasil se reuniu num delicioso bar na Praia do Pontal em Paraty, RJ, em evento paralelo à Festa Literária Internacional.


Foram dias de poesia, contatos e, principalmente, de celebração à amizade e ao amor às letras.
Durante o dia, nosso cardápio incluía bebidas e comidas ao gostoso papo furado que dispensávamos em frente à linda baía de Paraty. Já de noite, às 8:00h, abríamos o microfone explicando sobre o projeto do BdE em difundir e discutir a literatura de forma absolutamente livre e respeitosa. Músicos, declamadores, atores, poetas, contistas, adoráveis loucos de toda espécie dividiram sucessivamente as atenções dos clientes do bar, cada um na medida do seu interesse, bagunçadamente organizados, como deve ser uma comunidade livre.
Foram tantas pessoas interessantes que não citaremos para não esquecer logo aquele amigo ...

Numa mesa ao lado do balcão, expomos os livros dos autores do bar e de todos os escritores que nos procuraram amistosamente, inclusive a Antologia Bar do Escritor Edição Nº 2 Brand, que lançamos durante o evento, com 41 autores de todo o país, organizada pelo escritor Cristiano Deveras.

Também havia exemplares da primeira, Anarquia Brasileira de Letras, de 2009, com 38 autores e organizada pelo idealizador do BdE, Giovani Iemini.







O Bar do Escritor em Paraty só foi possível com o apoio da cachaça Poesia, uma inspiradora branquinha que consumimos inebriados praticamente o tempo inteiro (sem ressaca, diga-se). Esta prestimosa cachaçaria também lançou o livro de contos do jornalista Paulo Rezende, da Vitrine Literária, novo parceiro do Bde.






Também travamos contato com os organizadores do clube de autores, um interessante projeto que instalou-se no centro histórico de Paraty, onde palestramos sobre as formas de produção do autor iniciante e o mercado editorial. Há mais detalhes no blog.





segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DOIS TIROS NA FAVELA


DOIS TIROS NA FAVELA

Hoje
Leio o jornal
Ontem mataram um garoto no Morro Azul
Onde estou lendo, ontem estava no segundo papelote.
Estava eu aqui
Depois de bater várias carreiras
Botei napa adentro
Adoro a Falete
Tarja amarela
É o que há
50 paus
Tem sempre um moto-táxi pra entregar
Acabei de foder
Digito compulsivamente entre um teco e outro
A imagem da minha letra recolhe em si negativamente o conteúdo do texto
Benditos Blocos de Nota, Word e WordPad.
Viva a cocaína
Mataram alguém no Morro Azul
Ouvi os tiros
Dois
A queima roupa
Tuf. tuf.
Da janela do quarto, na cama onde linda morena dorme ao meu lado, vejo dois clarões.
Ouço dor
Sinto morte e medo
Procuro
Paranoica, mente.
Furos de bala em minha cabeça
Não tenho
Estou de frente pro morro, sentado na cama, digitando merdas em um laptop.
A imagem digitada faz bem pro texto
No meu outro lado, o prato com pó.
Dou mais um belengo
A morena não acorda
Bom
Não quero foder
Quero entender
Um desconhecido insignificante deve ter morrido
Eu com isso
Foda-se
Acabei de foder
Tô cheirando e digitando
Caguei pro Azul
Azul é o caralho
Eu gosto é de Branco
Vou dar outro teco
A morena está roncando
Mulheres ronronam, vai saber...
Mataram alguém
Fui chupado, eu como, assim.
Como assim?
Porra! Mataram alguém!!
Foi a polícia
O Bope
Pronto, agora sou politicamente correto.
A culpa é da polícia
Pessoas morrem
Não tô ferido
Maldita polícia
É tudo culpa do Estado
O cidadão é um fodido
Nossa, sou uma pessoa boa.
Vou dar outro teco
Polícia matando remete culpar ao Estado absorvendo a bosta toda, absolvendo assim o pensador da imagem.
É
Bendita polícia
PUTA PÁTRIA QUE ME PARIU
Não sou assim
Tia dizia-se médium, vai saber...
A múmia paralítica disse eu ser também
Por que procurei a bala em minha cabeça?
Não quero ser médium
Vou dar outro teco
Foi a cocaína que matou esse garoto
Assim falaria o Capitão Nascimento
Fascista infeliz
É, sou uma pessoa boa.
Vou meter a pica na boca da morena safada
Mataram alguém
Uns fodem
Outros morrem
E agora...
Foder é o cacete
Tão fodendo o Morro e eu querendo foder
Sou o próprio Filho do Dinheiro escarrado e cuspido
Fico justificando pra legitimar prazer
O mundo tá fodido
Eu pensando em foder
Foder de novo
Só tem mais um belengo
Vou ligar pro moto-táxi
Terá moto-táxi no Azul?
Mataram alguém no Morro Azul, eu pensando se lá tem moto-táxi pra trazer cocaína.
Eu matei
Matei porra nenhuma
Vai se foder, Capitão Nascimento.
Vou foder sim!!!
Como disse o gênio Rubem Fonseca
Tão me devendo buceta e todo o resto que viria ao caso agora
Vou dar último teco e acordar morena pros trabalhos orais
Não tenho culpa
Não sei sobre vocês
A verdade é que eu minto
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

terça-feira, 3 de agosto de 2010
























a lúcida em mim
crucifica meu ser
administra mentiras
tenta ser correta
ser tão concreta

a lúcida em mim
afaga e engana
precede e o consente
meia volta
pra recomeçar

a lúcida em mim
sufoca o precipício
a lúcida em mim
parece não existir.




(imagem de Gilberto de Almeida Pinto, meu tio materno)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mil em uma noite

Dá um pouco de cansaço
dar o que fazer ao Rei,
ocupar bastante a sua agenda,
sua vida e seu espaço.

Tem suas vantagens,
lá isso tem...

Mas eu nunca fui a preferida
do harém.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Tempo

Eterna dança de roda,
um baile estático e mudo,
uma ciranda de rocha.
As pedras dançam sem pressa
e giram junto com o mundo
(seu tempo se conta em eras).

Canta como dança a pedra:
pra si e não para a gente.
A voz da pedra é interna,
sua cantiga é silente.
Antes cantasse mais alto
e desse a quem ouvisse
a voz que vem do basalto
lição, ainda que triste:

"O construtor, sendo humano,
é breve, mortal, finito
(seu tempo se conta em anos,
não é o tempo do granito).
E finda a vida nada sobra
a não ser, talvez, a obra."
Hoje é dia de propaganda.

Primeiro quero divulgar a entrevista que o escritor Selmo Vasconcellos fez comigo: http://antologiamomentoliterocultural.blogspot.com/2010/06/glauber-vieira-entrevista.html


Também queria divulgar o blog que criei no início do ano, com poesias visuais, contos, minicontos, fotografias, pequenos relatos de viagens... Para conhecê-lo: http://www.prosaseviagens.blogspot.com/

sábado, 24 de julho de 2010

Prato do dia: Traíra




O que você faria se descobrisse que está sendo traída por seu namorado ou marido com sua melhor amiga? Você perdoaria uma traição?

Não há dúvida que a mulher tende a ser mais fiel que o homem. Mas com a ascensão feminina no mercado de trabalho, onde  elas estão expostas a novos cenários, como happy hours, viagens, encontros de negócios, etc., elas ganharam maior espaço  para conhecer novas pessoas e por que não homens interessantes? Isso nos leva a crer que  até as mulheres "comprometidas" estão propensas a traírem.

Por esses dias, circulou na internet um vídeo de uma mulher agredindo uma suposta amante do seu marido. Um problema que era para ser resolvido entre família virou entretenimento na web com centenas de milhares de acesso.

O que leva uma mulher brigar fisicamente com outra por causa de um homem? Insanidade? Ciúme doentio? Desequilíbrio emocional? Seja qual for o problema, eu sustento a “tese” de que homem nenhum merece ser colocado no pedestal como se fosse o único,  o supremo, o máximo!

No momento em que um homem decidiu ficar com outra, ele não está feliz com seu relacionamento.  E, nada mais justo do que a mulher permitir que seu "companheiro" siga seu caminho  e busque sua felicidade. Ela pode superar esse desafio com muita dignidade além de ficar livre para encontrar um homem de verdade que a valorize. [Podemos inverter os papéis, porque todos merecem respeito!]

quinta-feira, 22 de julho de 2010

BAR DO ESCRITOR na Flip - 2010

O VIRTUAL SE REALIZA

Que a vida imita a arte, todos estamos cansados de saber.
Mas o que você ainda não viu foi uma comunidade do Orkut ganhar vida e materializar-se no mundo real.
Atenção, História da Literatura Mundial! Rufem os tambores!

Na Flip 2010 (de 04 a 08 de agosto) você encontrará, ao vivo, a cores e em todos os seus sabores, o

BAR DO ESCRITOR

Cerveja gelada, cachaça, comes e bebes;
Declamação de poesias, leitura de contos, causos e crônicas.
Vendas de livros de autores do BDE
Lançamaneto da 2o. Antologia BAR DO ESCRITOR

Estarão presentes membros do BDE  de todo o Brasil.

A duzentos metros da FLIP, eis o mapa. É tão perto que o Google nem calcula a distância.



Nos vemos lá.

Lúdico


Com certa facilidade, como se brincasse, criava personagens e suas histórias. Vivia envolvendo-se em diversas tramas, algumas rotineiras e, outras, um tanto insólitas. Mergulhava em enredos complexos, labirintos desenvolvidos em realidades paralelas

Entre os familiares e os círculos de amizade, todos exaltavam esta particular aptidão, capacidade criativa. No entanto, após visitarem diversos médicos, para que não restassem dúvidas, chegaram ao diagnóstico: esquizofrenia



quarta-feira, 21 de julho de 2010

Quanto de mim são lágrimas?
Quanto de mim sorria?
Quanto de tudo de mim
Jogado pelos cantos
Qualquer sorte bastaria?

(ou moderno aspirador hidráulico modelo luxo XW 6,02 x 10²³ se encheria?)

Frações, inteiras porções,
Em potes de fracassos.
Uma poção diluída
E, da prateleira me fitam
Dois olhos extremamente cansados.

O que restará ao fim,
Se algo ainda vibra?
Rarefeita sombra.
Reflexo da luz
Que insiste em dizer vida.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Avoando Inutilidades Pseudo-factuais

Enquanto formigas labutam em linha reta, penso torto: zune as asas da abelha ou seria o ar a festejar mais um voo? Não gosto de atritos, prefiro a sabedoria das curvas, que sempre me possibilitam ver as coisas por um ângulo diferente.

Entretanto existem algumas certezas quase retilíneas...

Toda luz que atravessa frestas rasga sombras. Nem toda luz que conheço é Sol, mas toda vida sim (a que conheço). E nem todo o escuro conhece o Sol. Essas pertinências por vezes me incomodam. Melhor mudar de rumo.

Um pardal pia e pisca suas penas rindo de mim. Ele pensa que eu não sei de nada. Mal sabe que aprendi que pedras se fingem de surdas e podem ser disfarces de estátuas ou deuses. Outros pardais pousam próximo e me olham com o mesmo desprezo. Talvez tenham razão. Só sei o que penso saber e minhas verdades não são mais verdadeiras do que as deles; muito menos minha sapiência. E só sei voar de mentirinha. Mas é tão gostoso...

(Celso Mendes)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Rastejante Maldito

Faminto em profunda decadência
e miséria rasteja o trôpego,
em sua desgraçada vida
o indigente apenas existe.

Farejava dor e putrefação,
ao mastigar restos e carniça
nomeado mordazmente:
Rastejante Maldito.

Rejeitado com chorume nas veias
sua carne repuxada sustentava
uma pele cadavérica
que sorria doentemente.

Distante de nossos sentidos
a fantasmagórica criatura
desejava uma vida verdadeira
mas só levou migalhas e surras.

Morreu! Um sem-número de cabeças
observaram seus restos mortais
negando que sua origem
é o mesmo ventre nos pariu.


- Mensageiro Obscuro.
Março/2010.


Foto: "Escolhas" por William A. R. Ferreira.
Portal do artista: Will Artes

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O PUTRAFICA


O PUTRAFICA
uma ode para Demétrio Tenório de Mello


Demétrio Tenório de Mello
O domador de leões
Morou em Ipanema, na década de 80.
Era visto dirigindo uma Maserati conversível na orla do Rio
Placa de Punta Del Este
Entre outros carros
Jaguar
Porcshe
Lamborghini
Não eram dele
Demétrio foi o cafajeste no balneário carioca
Adepto das campanhas contra as drogas
Servia café a PMs em cafeteiras cheias de pó
Cheirava compulsivamente depois e antes
Batidas em seu apartamento
Não foram poucas
Não achavam nada
Em geral, iam embora melhores amigos.
Os PMs e ele!
Comparsas
Também, contrabandeava Rolex.
Trazia carros roubados do Paraguai
Tinha leões em seu apartamento
O qual era frequentado pela nata da bandidagem mundial
Falava pelo menos quatro línguas estrangeiras
Fluentemente
Sua casa era um bordel
Ele era o gigolô mor do Rio de Janeiro
E era cearense
Vivia na noite de Ipanema
Ipanema era o Leblon de hoje
Naquele tempo
Diria Hélio Luz
Ipanema brilhava à noite
É!
Ipanema brilhava por causa de Demétrio Tenório de Mello
Não durou muito
Com 38 anos de idade foi encontrado morto no Cosme Velho
Tiros nas palmas das mãos
Em seu corpo, onze pipocos fizeram a avaria.
Não sei por que tantos
Por vingança ou cortesia
Seu fim foi degradado
Ele era o homem que sabia demais
Na casa dele, foi descoberto um dossiê.
856 páginas
46 capítulos
Relatos de cizânia com uma modelo Paraguaia
Evasão de bilhões
Envolvimentos com o Cartel de Cali
Cartel de Medellín
Máfia italiana
Deputados
Senadores
Empresários
Traficantes
Economistas
Todos nomeados explicitamente
Membros da sociedade brasileira
Até o CENTAC 26 foi citado no dossiê
Serviço de informações
Movimentações de milhões de dólares
Vários bancos
Dezenas de negócios nebulosos
Roubos de diamantes
Empresas fantasmas
Enriquecimento ilícito
Além de menções a festas regadas à puta e pó
Deus não destruiria com fogo e enxofre essa Sodoma e Gomorra documentada
O caso foi arquivado por falta de evidências
Ninguém nunca foi punido
Aparentemente nada ficou provado
Só rindo!
A vida como ela é
Quando Demétrio mudou-se pro meu prédio, eu tinha 12 anos.
Fui seduzido por ele
Qual menino da minha idade não seria
Enquanto meus amiguinhos tinham heróis convencionais
Superman
Batman
Homem-aranha
Tantos outros
Eu só tinha um ídolo
Demétrio Tenório de Mello
O Cearense da Doze do Cano Cerrado
O Homem do Taco de Baseball
Rapidamente virei seu leva e traz
Eu esperava ser chamado ao seu apartamento
Ficar no meio das gostosas seminuas
Entre um beijo e outro de suas meninas
Ahhh... Minha puberdade...
Sem entender bem o que acontecia o tempo foi passando
Com 14 anos de idade perdi a virgindade no apartamento do cara
Verônica foi a dissoluta da boa ação sexual
Ela foi capa da revista Ele & Ela
Franja repicada
Calça Dijon com plaquinha de metal no bolso
Sandália de plástico
Outros tempos
Minha mãe é cristã ortodoxa e sofria por minha amizade com Demétrio
Eu não tive pai
Escolhi o mito como pai
Estar na vida dele
Passear em seus carros
Rezar pela caridade de outras maneiras
Rameiras
Denominação usada por Demétrio ao classificar suas meninas
Assim vivia a minha biografia
Daí pra drogas foi um pulo
Com 17 anos eu já tinha cheirado mais de 50gr de pó e comido 49 mulheres
Sim
Eu contei
Pior
Escrevi no meu diário
Na verdade, até outro dia.
Parei de anotar no número 1.000
Infantiloide
Tinha medo de passar de 1.000 bucetas
Pensava nos astros de rock
Comeram tanta gente
Enjoaram
Viraram viados
Começaram a dar ré no kibe
Cagar pra dentro
Tô fora
Hoje tenho 39 anos
Perdi a conta das piranhas picadas por mim
Passei a pica em geral
Eu não enjoei
Foi também aos 17 anos o meu primeiro trabalho pro grande homem
A missão:
Pegar uma BMW em Teresópolis e trazê-la pro Rio
Imaginem um menino de 17 anos, dirigindo uma BMW na Washington Luiz.
Esse menino era eu
Não abaixava minha cabeça pra nada
Na mala da BMW
Dentro do estepe
Um quilo de cocaína
Montinhos de dólares
Soube depois
Demétrio contou-me o que eu tinha feito
Deu-me os meus primeiros 1.000 dólares
Elementar meu caro
Outras mulas eu fiz
Não parei
O esquema era o seguinte
Alguém roubava um carro de luxo no Paraguai
Geralmente esportivos com preço superior a 100 mil
Botavam as drogas no estepe
Com novas placas eu os pegava em Foz do Iguaçu e trazia pro Rio
Outras vezes, levava pra São Paulo.
Abastecendo ambos os mercados de carros e de coca
Tudo era falsificado
Meu RG
CNH
CPF
A porra toda
Eu era outra pessoa
Só faltou-me um curso de espanhol
Nunca fui pego
A fé não costuma falhar
Eu já sabia
Em 1995
No dia do show do Rolling Stone
Maracanã
Soube do assassinato do Demétrio
Chorei como nunca
Era tarde
Eu já era o filho do bordel
O sem caráter
O coisa ruim
Tenho orgulho de mim
Demétrio igualmente teria
Herdei seu famoso Taco de Baseball e sua Doze Cano Cerrado
Minhas relíquias
Uma das suas biscates deu pra mim
Obrigada
Eu sou o putano
Hoje trabalho vendendo sonhos
O melhor emprego do mundo
Juntei dinheiro com os ensinamentos do meu guru e construí o Templo do Senhor
Depois outro
Outro
Hoje tenho um império
Virei pastor
Você me conhece
Sou o maior de todos
Tenho até programa na televisão
Quem foi que disse que o crime não compensa
Demétrio era otário comparado a nós, os exploradores da fé.
Doações não pagam impostos
Lavei meu dinheiro
Multipliquei minha grana
É melhor que vender armas e drogas
Tirar dindin dos idiotas da fé
É só pagar o dízimo
Eu abençoo logo
Sou o mensageiro de Deus
Minha mãe tem orgulho de mim
Acredite se quiser
Hoje eu trafico a palavra de Deus
Convertido porra nenhuma
Gosto de dinheiro
Sou o máximo
O putrafica divino
O filho do Satanás
Meu nome é Lúcifer Jr.


Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

sábado, 3 de julho de 2010

Fuga (para Wassily Kandinsky)
























resvala na sequência
dos sons que embatem
à imagens verbais
prestes a se calar
diante da sodomia
que recolhe a venta
e respira para morrer

entrega-se ao bugre
ao cheiro de terra
entranhas ancestrais
evocadas pela vilania
que travam-se abstratas
em seu olho absurdo
que irrompe a linha
de colisão.





(imagem de minha autoria)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Japonesa


Queria ser toda enigmática,
muito mais controlada e quieta,
verdadeiro ideograma de mim.

Tentar me educar foi em vão.

Sou gritante,
buliçosa, bandeirante,
bandeirosa.

Nasci com a dor do carmim,
onde era pra ser cor-de-rosa.

domingo, 27 de junho de 2010

Cantos Vivos

Detesto as palavras redondas:
parecem-me frouxas e gordas
e de modo geral enfadonhas.

Prefiro as palavras agudas,
palavras que tenham arestas,
que saltem da língua afiadas.
Palavras assim como estas.

Entrevista e blog

Hoje é dia de propaganda.

Primeiro quero divulgar a entrevista que o escritor Selmo Vasconcellos fez comigo: http://antologiamomentoliterocultural.blogspot.com/2010/06/glauber-vieira-entrevista.html

Também queria divulgar o blog que criei no início do ano, com poesias visuais, contos, minicontos, pequenos relatos de viagens... Para conhecê-lo: www.prosaseviagens.blogspot.com

sábado, 26 de junho de 2010

Duas

foi assim:
duas rODas
          u
          m
          p
          o
          s
          t
          e
e duas aSaS
o levaram de mim...

(Em memória de Andrei Magalhães Veneziani: 18/05/86 - 19/06/10)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Imóvel







Quando os bandidos entraram atirando, só pensei em estrangular aquela arquiteta imbecil


Nesse maldito escritório clean, minimalista, não restou um móvel atrás do qual eu pudesse me esconder





segunda-feira, 21 de junho de 2010

Belona



Guerreira, guardiã das estrelas.
Da linhagem das bruxas e das fadas.
Da linguagem do fogo e das águas.
Frágil tempestade arrastando nuvens.
Prisioneira ocasional de brumas escuras,
Esconde-se nas entranhas dos dragões
Fazendo dos raios, armadura.
E, dissolve-se em gotas
Que se estilhaçam nas vidraças.
Suas canções desbotaram
Nas praias desertas de sol,
Lançaram-se dos penhascos rochosos
Mergulhados no orvalho.


Imagem da web: Belona, de Rembrandt van Rijn (1633)

domingo, 20 de junho de 2010

Convidado Geraldo Lima


UMA MULHER À BEIRA DO CAMINHO



Os vidros fechados quase o impedem de ouvir o chiado das rodas deslizando sobre o asfalto molhado, o repenicar dos pingos da chuva fina (mas persistente) no vidro dianteiro. Entrevê apenas, através dos vidros respingados, tiras de vegetação rasteira, úmida, devorada quase toda pelas mansões do Park Way / e o empreendimento imobiliário se amplia, estendendo-se, cada vez mais, em direção a Valparaíso, a Luziânia, ao sítio que mantém pros lados de Cristalina, num entremeado de condomínios, cidades, cidadelas, assentamentos // desordem de casas casebres casarões, motéis postos de gasolina prédios ruínas /// súbito, uns resquícios de cerrado resistindo heroicamente aos avanços do homem e suas máquinas.
Que ninguém se iluda: não se trata de um ecologista — o ser ao volante apenas constata friamente esses rasgos no corpo do cerrado, sem que isso possa, no entanto, desviar-lhe a atenção, acelerar-lhe os batimentos cardíacos, inundar-lhe a alma de angústia e revolta. Com o mesmo olhar com que analisa um processo, registra agora essas alterações lentas e progressivas na paisagem. Tudo isso seria mesmo inevitável, sentencia: o crescimento populacional, a ausência de uma política habitacional séria, a esperteza de alguns vigaristas desaguando no mar da desordem, no loteamento desenfreado de cada palmo de terra nos arredores da Capital...
Mas que fastio pensar em tudo isso! Que perda de tempo se desgastar tentando encontrar solução para esse caos. No futuro, vaticina, tudo isso aqui será uma megalópole, de Planaltina a Luziânia, um mundo só. Talvez cheguem até o seu sítio, na ânsia de se juntarem também a Cristalina. Depois, premidos pela necessidade ou pela ganância, perguntar-se-ão com ar de desbravadores, — E por que não emendar com Paracatu?
Ah, como é difícil esvaziar a mente! A todo instante, assalta-o a imagem do tribunal, arrastando-o para o julgamento, para a reflexão. E ele aproveita essa ida ao sítio exatamente para se desvincular desse universo de leis e sentenças. Do conceito de certo e errado. Sentir-se livre, quase outro, é tudo o que almeja.
A chuva persiste. Persiste, também, a prudência, a falta de pressa de chegar ao sítio. Não fosse isso, nem teria notado a figura esguia de uma mulher pedindo carona, perto da entrada do Catetinho, protegida apenas por um pedaço de plástico. Devia estar com metade do corpo encharcada. Devia estar congelada sob aquelas roupas mínimas. Devia estar ali há horas tentando comover os carros.
Sempre se orgulhou de ser um homem prudente, incapaz de agir por impulso, daí quase não se reconhecer na súbita decisão de frear o carro e dar carona à mulher.



Contrai a barriga murcha, dando passagem à mão desvairada que busca, com a ponta dos dedos, tocar-lhe os pêlos pubianos, ralos, ásperos. Mas que sensação primordial essa de adivinhar pelo tato o vão úmido entre as coxas! E a mão vai deslizando com muito custo até tocar uma carne magra, grudada aos ossos, tão grudada aos ossos que parece não haver ali cavidade alguma. A mulher, incomodada com a pressão dos dedos, retira a mão que a escava abaixo do ventre em busca de reentrâncias, — Você está dirigindo, recrimina-o com uma voz inexpressiva, exausta, — Não tem problema, ele retruca, consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e tenta desabotoar-lhe a calça, procura avidamente por um zíper, mas a mulher retira-lhe novamente a mão trêmula, — Tô é com fome, moço, andei a noite toda. Só então ele se dá ao trabalho de observar atentamente a figura ao seu lado, muito diversa agora daquela que ele vislumbrou ao lado da pista sob a chuva rala (que persiste), uma ninfeta, pensou de chofre, a calça de cós baixo e o bustiê deixando à mostra uma barriguinha com piercing e tudo. Nota, no entanto, sua barriga magra, sem piercing, o rosto seco e a boca meio puxada para um lado, o olhar embaçado, denunciando uns resquícios de álcool ou droga, — O que você fez durante a noite pra ter andado tanto assim? A mulher se tranca numa frágil redoma de cansaço e tristeza, deixando escapar apenas um leve sorriso de deboche e mistério. Mas aos poucos, com enfado, vai revelando fragmentos da sua vida: mora no Jardim Ingá, com a mãe e o filho de dois anos, — Como você se chama? Hesita, como se revelar o nome fosse se desnudar ou se desarmar de vez, — Nara. Talvez nem seja o nome verdadeiro, mas, de qualquer forma, é um belo nome, — O que faz na vida? — Nada. Mente, deduz, deve fazer programa, sabe-se lá como, em que condições, com que espécie de gente. Agora, desvencilhando-se do desejo cego do início, ele, um quase-ministro do STF, um homem de notável saber jurídico e reputação ilibada, começa a sentir nojo ao imaginar que ela nem se lavou ainda, — Transou muito?, indaga, e ela continua a olhar para fora, deixando-se evadir para o interior da paisagem molhada, melancólica. Parece que falar rouba-lhe energia, esfacela sua pobre existência. Enfado e gelo. Seu corpo, então, se deixa violentar, permite que as mãos brancas e trêmulas rompam seus limites. Os dedos, grossos e lisos, tentam alcançar, por dentro do bustiê, seu peito murcho, — Me paga um lanche?, pede, impondo à voz um tom de sedução. A melodia dessa voz, ainda que mutilada pelo cansaço e pela fome, arrasta a presa para os seus labirintos. Ávido, o homem procura envolver, na concha da mão, os seios flácidos, mínimos. A mulher, embora esteja fraca, sem couraça, amplia os seus recursos: acaricia-lhe o rosto, despenteia-lhe os cabelos brancos e ralos. A razão, porém, começa a se impor novamente, restabelecendo a conexão entre os neurônios, plugando-se ao que ele considera sua fonte de sabedoria: os preceitos da justiça. Então vai parar numa lanchonete qualquer e correr o risco de deparar com um advogado conhecido? Mas meritíssimo, o senhor aqui, nesse fim de mundo?!, e no outro dia toda a magistratura estaria sabendo, todos os acólitos, toda a plebe, mas que alegria dos adversários, que farra pelos corredores dos tribunais (suspendam os julgamentos, suprimam os artigos, ignorem os acórdãos, os mandados de busca e apreensão, neguem habeas-corpus, todos os recursos, arquivem os processos), ih, o riso avassalador dos técnicos e analistas judiciários, o palavrório dos advogados nos debates públicos, transmitidos ao vivo pela TV, o promotor, ah, aquele promotorzinho que o odeia, um iniciante ávido para se expor na mídia, ah, canalha (homo homini lupus ), aqui tens o meu ser abatido, aviltado, destroce ainda mais a minha alma, arraste o meu nome para o lamaçal! — Quer que eu faça um boquete?, — O quê?!, ele deixa escapar num susto, — Um boquete, não sabe o que é isso? Começa a se sentir ridículo: que faz ali, escavacando aquela mulher sem eira nem beira? Ainda que estejam só os dois no interior do carro, sob o cerco da chuva rala, não pode furtar-se à pressão de uma consciência que não o abandonará jamais. Pode parar o carro e pedir que ela desça. Exigir que ela desça, se for preciso. Mas por que não o faz? Por que não lhe dá um pé na bunda ali mesmo, logo depois de Valparaíso? Como se estivesse adivinhando-lhe os pensamentos, a mulher desliza a mão sobre sua braguilha, despertando o que já estava quase adormecido. O incêndio, que parecia controlado, volta a se alastrar. Ainda não está livre do desejo insano, por isso lhe indaga com voz abafada, vacilante, — E você tem camisinha? — Não, ela responde lacônica, e, depois de um breve silêncio, pergunta, — será que posto de gasolina vende? Ah, então ele vai parar agora num posto de gasolina para comprar camisinha e correr o risco de ser surpreendido por um dos colegas de tribunal ( nos limites já do estado de Goiás!), logo aquele que anda de olho numa das vagas do STF, — Mas meu caríssimo, que fazes aqui a esta hora? e quem é aquela no carro? a tua filha? mas ela não se encontrava nos Estados Unidos? e continuaria a falar assim, uma interrogação após a outra, quase um inquérito inteiro, tentando minar o seu futuro, canalha!, e no outro dia toda a magistratura estaria sabendo, as manchetes dos jornais, sensacionalistas, arrastando a sua imagem de homem público, íntegro, ( e repete para si mesmo, de notável saber jurídico e reputação ilibada) para o lixo, ele, o mais cotado para assumir uma das vagas no STF, dono de um trabalho intelectual expressivo, voltado para o engrandecimento da justiça, para o bem do Estado, ad majorem Dei gloriam, e de repente o escândalo, o linchamento em praça pública, que chance lhe dariam de se defender? de justificar seu ato absurdo? os princípios da lei seriam suficientes para julgá-lo? Dura lex sed lex, parece ouvir a própria voz sentenciando, e Pôncio Pilatos, lavando mais uma vez as mãos, oferece-o enfim à sanha da multidão ignara, e a filha mais velha vindo de Nova York, acompanhada do noivo ianque, de cara rosada e gorda (um típico filho do Tio Sam), só para indagar-lhe atônita, — Mas pai, que loucura foi essa?! & as socialites, com as quais sua esposa sempre toma chá, joga gamão, promove eventos beneficentes, todas todas negando ( uma, duas, três vezes até) fazerem parte do círculo de amizade da sua família, e imagine ser surpreendido em plena felação, como aquele ator norte-americano ( ou inglês, não se recorda bem), acusado de atentado ao pudor ao ser pego fazendo sexo oral com uma prostituta (como é mesmo o nome dela? só se lembra de que era negra), um escândalo em escala mundial, a noiva dele, coitada, tão bonita e sofrendo tanto!, a esposa dele esvaindo-se em lágrimas, a filha vindo dos Estados Unidos (o noivo de cara gorda e rosada a tiracolo, sem entender bulhufas do que está acontecendo, — What’s the problem? ) só para lhe jogar na cara, — Mas pai, o senhor não pensou no mal que faria à sua família?, e a farra então nos corredores do tribunal, os jornais escancarando seu nome, com foto e tudo, jogando anos e anos de um laborioso trabalho intelectual no lixo, no esgoto.



Raiva e nojo. Todos os sentidos parecem funcionar agora. Há um cheiro forte, denso, quase irrespirável no interior do carro. Vê, nitidamente, os pés sujos, encardidos, de quem vagou a noite inteira em busca de nada, deixando marcas incriminadoras. Corpo seco, vazio. Olhar arrasado, sem sol. Quando chegar ao sítio, vai lavar as mãos milhares vezes, na ânsia de se livrar da presença desse ser na sua pele. Vontade de pedir que a mulher desça, mas, dominado ainda por sentimentos e sensações contraditórios, vacila: sente pena ( a chuva ainda persiste), sente raiva (nunca fez nada parecido assim na vida), sente medo (deseja tanto que nada dê errado, que é bem capaz de acontecer um acidente por puro escárnio do destino: o carro derrapar, sair da pista, bater numa árvore, e, no outro dia, os jornais estamparem: ACIDENTE DE CARRO MATA JUIZ E PROSTITUTA. Vexame para a família! Passaporte para o inferno!), sente vontade de escancarar os vidros e respirar ar puro, pois o interior do carro, embora o ar-condicionado esteja ligado, tornou-se sufocante. Parece faltar-lhe espaço. A vida, submetida assim a uma convivência tão estreita com o oposto, torna-se insuportável. Irrespirável! Mas, apesar de tudo isso, inexplicavelmente não se liberta do desejo, e arrasta-o ainda a vontade de bolinar na mulher, tocar de novo na sua vulva seca, hermética, fria, como se durante todo esse tempo estivesse tentando seduzir um cadáver. Contra todas as leis da prudência, decide: vai até o fim. E, apartado ainda do homem sensato que sempre foi, acelera o carro, ignorando a pista molhada, a irregularidade das construções, a melancolia da paisagem úmida e devastada.

---
(Texto publicado, originalmente, na revista eletrônica Bestiário e no jornal Correio das Artes, na Paraíba)


Geraldo Lima é autor dos livros A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), Baque (contos, LGE Editora/FAC), Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora) e UM (romance, LGE Editora/FAC). A Editora Multifoco (http://grupomultifoco.com.br/tresporquatro) publicará seu livro de minicontos Tesselário. É autor das peças de teatro Error (encenada pela Oficia do Teatro de Periferia) e Trinta gatos e um cão envenenado (inédita).Tem textos publicados em jornais e revistas eletrônicas e impressas. Mantém o blog: www.baque-blogdogeraldolima.blogspot.com É colunista do blog O Bule: www.o-bule.blogspot.com

sábado, 19 de junho de 2010

A simplicidade é a inspiração.

Descobri que havia mais roupas para estender

do que eu poderia em versos escrever,

mas também compreendi que em cada peça

um verso em minha mente amadurecia.


Shorts, meias, calças, vestidos...

Cores tantas no vento a balançar

em doses de pura Poesia

a instigar novo poema ao meu caminhar.


No silêncio da tarde pássaros cantavam emoções,

lindas promessas de felicidade ao alcance

de todo aquele que se permitisse sonhar

com as belezas que a vida nos dá.


Fechei os olhos por um momento

e a Deus agradeci pela vida que em mim,

Ele a cada segundo recriava

até nas simples tarefas que feitas com amor


enchiam de graça e certeza de sonho realizado

o pequeno mundo de uma dona de casa,

sonhadora incorrigível disposta a transformar

tudo no sublime ato de amar.


Eliane Alcântara.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Nossas Memórias

Lembro de um banquete leve para dois,
sabores sensitivos e afrodisíacos,
a malícia de nossas faces marcantes,
bocas provocantes e corpos quentes.
Nos trajávamos com fantasias,
desejoso a abracei intensamente,
o cheiro e calor me excitaram,
seus pêlos arrepiaram
enquanto te agarrei.

Mascarada e coberta deitou-se
em meu divã enquanto a analisava
para descobrir os encantos
um pequeno corpo libidinoso,
que lentamente se despia
provocando-me com seus lábios.

Na longa e extasiante noite
chocolates derretiam aos beijos,
nossas peles atritavam-se
e atingimos o apogeu do prazer.
Acabou-se tudo, mas lembrarei
Que essas são nossas memórias...


- Mensageiro Obscuro.
Abril/2008.


Foto: Foto romântica sem referências encontradas. Adquirida no Google Imagens.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Por uma nova fonoaudiologia

Lembra:
literalmente
mamaram em mesmo peito -
língua e palato,
irmãos e amantes.

Ela:
lama gaia molhada
ventre da dança
nata fêmea,
lenta,
sinuosa.

Ele:
estrelado e rugoso
ar e osso
céu da boca.

Músculo viscoso e teto duro
lava e estalactites
contém e contido

seco e úmido alquímicos
pais de palavra e sentido.


Sempre dançaram,
o sabem bem os disfluentes:
o engasgo é aqui na gruta,
a gagueira é na garganta
(o buraco é mais embaixo).