domingo, 6 de fevereiro de 2011

Nosso Primeiro Ménage



Olá, leitores da Revista Swing & Ménage Sex Total. Para narrar minha história, por razões óbvias, usarei nomes fictícios de pessoas e lugares.
Digamos que eu e minha esposa nos chamamos Mário e Paula. Tenho trinta anos, sou branco, 1,73m de altura, magro. Ela tem vinte e cinco anos, mas com corpinho de vinte e um: alta, loira, seios fartos com mamilos apontando para o céu, boca carnuda, olhos verdes grandes e sedutores, uma linda bundinha empinada. Um tesão! Casamo-nos jovens, ela com vinte, eu com vinte e cinco anos. Sempre curtimos muito o sexo. Transávamos quase o tempo todo: no quarto, na sala, na cozinha, no banheiro, no quarto de ferramentas, na piscina, na varanda, no carro, no elevador, na obra abandonada, no motel barato, no cinema, no estacionamento, embaixo da ponte, atrás do muro, no terreno baldio... Era sexo sem parar.
Também gostávamos muito de assistir a filmes de sacanagem, especialmente do gênero "gang-bang". Aquele monte de paus revezando-se e fodendo a atriz na boceta, no cu, na boca, esfregando em seu corpo, gozando na cara até deixá-la completamente coberta de porra era muito excitante, alimentava nossas fantasias e fazia o sexo - que já era bom - ficar ainda melhor.
O tempo passou e, em uma noite especial - completávamos um ano de casamento - após mais uma foda fenomenal, decidimos nos dar um presente: realizaríamos uma de nossas fantasias. Como não podia deixar de ser, concordamos em fazer um ménage à trois masculino: eu a compartilharia com outro homem. Passamos, então, ao processo de seleção. Entramos em vários chats de sexo, conversamos com muitos babacas que só queriam zuar com a nossa cara, adolescentes curiosos e homens desinteressantes, carentes de atrativos. Semanas depois, cansados, desanimados, achando que nunca encontraríamos o parceiro ideal, eis que surge Jorge e seu sugestivo nick: Pirocudo Comelão. Mulato, alto, trinta e oito anos, "despachado" e bom de papo, demonstrou ser experiente no tipo de sacanagem que buscávamos. Envolveu-nos. Cativou-nos. Enviou fotografias. Disse tudo o que faria com Paula que, por sua vez, ficou interessadíssima. Percebi que finalmente a putaria ia rolar.
Combinamos o encontro no Bar Bacante, localizado na zona sul de São Paulo. Na data acertada, logo pela manhã, Paula me abraçou, roçando sua bocetinha peladinha na minha perna, qual uma cadela no cio, e disse no meu ouvido com aquela voz lânguida: "É hoje, meu amor. É hoje que você vai ver sua putinha dando pra outro, gozando no pau de outro macho." Meu pau endureceu na hora. Ela, então, deu-me um gostoso beijo na boca e saiu de casa rebolando, dizendo que iria comprar "roupas especiais". Horas mais tarde, quando regressou, quis ver o que havia comprado, ela não permitiu, disse que era surpresa.
Foi o dia mais longo de minha vida, as horas custavam a passar. Paula, a todo instante, provocava-me com frases do tipo: "Você vai ver, vou ficar muito puta pra ele. Vou chupar o pau dele bem gostoso, colocá-lo inteiro na boca, vou mamar o pau dele até ele gozar. Você vai deixar eu beber a porra dele, vai, meu amor?" Eu sempre respondia que sim. "Quero dar a bundinha pra ele. Quero que você abra minha bunda e mande ele meter com força, enquanto você só olha. Vou rebolar bem gostoso com o pau dele todo dentro do meu cuzinho. Você vai gostar de ver sua putinha rebolando em outro pau, vai, meu amor?" Eu sempre respondia que sim. E assim, vagarosa e torturantemente, o dia deu lugar à noite.
Estávamos ansiosos. Ansiosos e nervosos. Afinal, era a primeira vez. Não conhecíamos o tal "Jorge Comelão", sabíamos apenas o que ele havia transmitido durante nossas conversas no MSN. Ademais, a sensação de estar fazendo algo proibido dava um quê de conspiração à porra toda. Era como se estívessemos prestes a cometer um crime, o que aumentava ainda mais o tesão. Isso fez com que eu já estivesse pronto duas horas antes das 21:00 h, o horário combinado. Paula olhou para mim, fez aquela cara de safada que eu tanto adoro e disse: "Tá ansioso, tá, meu amor? Tá doido pra ver sua putinha dando pra outro, não?" Despiu-se, pediu para eu aguardar na sala e abriu o chuveiro. Liguei a TV mas não consegui me concentrar na novela. Meu pau latejava, duro como pedra. Meia hora depois, ela me chamou: "Vem, meu amor. Vem ver sua putinha vestida para matar." Corri para o quarto e tive que me segurar para não agarrá-la e comê-la ali mesmo. Paula estava simplesmente estonteante: espartilho, meia sete oitavos, cinta-liga, luvas, uma minúscula calcinha, tudo vermelho. Quase gozei quando ela falou: "O que acha, amor? Ele vai gostar?"
Chegamos, intencionalmente, meia hora antes do combinado. Precisávamos nos certificar que o cara era o cara. Ele não sabia como éramos. Por outro lado, nós o reconheceríamos caso ele fosse realmente o homem das fotos. O bar estava bastante movimentado, a maior parte das mesas ocupadas por casais. Pedimos uma cerveja que entornamos em dois minutos. A expectativa era enorme. Dali a poucos minutos, chegaria o homem que iria comer minha amada Paula. Pedimos outra cerveja. E mais outra. Estávamos na quarta quando ele chegou. Era o cara das fotos em carne, osso e piroca. Entrou e correu a vista pelo interior do bar. Olhei Paula nos olhos e mandei a fatídica pergunta, na lata, dando-lhe a última chance de voltar atrás: "Quer desistir?" Ela fez cara de espanto e deu a resposta que eu queria ouvir: "É claro que não!" De um salto, levantei da cadeira e fiz um sinal para Jorge, que se aproximou sorridente. Apertos de mão, beijos no rosto, ele sentou-se. Muitas perguntas, histórias e cervejas depois, já parecíamos velhos amigos, conversando, bebendo e rindo muito. Em dado instante, percebi que algo acontecia, Paula estava com aquela carinha de safada que eu tanto apreciava. Deixei a chave do carro cair no chão, abaixei para pegá-las e vi o que a toalha encobria: Jorge acariciava a bocetinha de Paula com uma das mãos, por dentro da calcinha, enquanto a vadia tocava uma punheta no pau dele que já estava para fora da calça. Fiquei de cacete duro no ato e sugeri que pagássemos a conta e fôssemos para um local mais tranqüilo. Todos concordaram.
No carro, a caminho do motel, Paula e Jorge ocuparam o banco traseiro e continuaram a sacanagem, enquanto eu olhava pelo retrovisor, cheio de tesão. Ela dava-lhe uma bela chupada, a língua percorria toda a extensão do pau que era totalmente abocanhado logo em seguida. Enquanto isso, ele enfiava os dedos na boceta. Eu sabia o quanto ele devia estar gostando, Paula mamava uma pica como ninguém. E foi assim, quase explodindo de tesão, que chegamos ao motel.
Mal entramos no quarto, os dois se agarraram em um beijo ardente, as mãos dele percorrendo as costas de Paula, apertando sua bunda. Depois, Jorge passou a chupar e morder o pescoço e os seios de Paula. Ela adorava ser mordida, delirava de tesão, pedindo-lhe para morder com mais força. Eu somente olhava e me masturbava, confesso que estava adorando ver minha putinha nos braços de outro. Jorge foi descendo a língua pelo lindo corpo de Paula até chegar a bocetinha, onde deteve-se, chupando com sofreguidão. Ela gemia alto, olhava pra mim e perguntava: "Tá gostando, meu amor? Tá gostando de ver outro chupando a bocetinha da sua puta? Ele chupa gostoso! Posso gozar na língua dele, posso, meu amor?" Eu apenas meneava a cabeça afirmativamente, sem nada dizer. Faltavam-me palavras. Estava muito excitado mas também com muito ciúme. De fato, havia um conflito dentro de mim: o marido ciumento sentia-se traído, ao passo que o puto degenerado sentia o maior tesão. Os sentimentos se alternavam rapidamente. Mas, naquele momento, o tesão falava mais alto, impunha-se qual um avassalador furacão somado ao calor fluido e irresistível ejaculado em ondas por um vulcão furioso. Éramos animais, éramos bestas feras sedentas de sexo, ávidas pelo prazer essencial. Os gritos de Paula interromperam meus devaneios.
- Ah! Ah! Ah! Vou gozar! Aahh! Aaahhh! Aaaaaaahhhhh!!!.......
Paula gozava. Gozava aos berros. Gozava como uma cachorra no cio, as mãos segurando tenazmente os cabelos de Jorge, comprimindo seu rosto contra sua boceta encharcada. Os espasmos e os gemidos diminuiram paulatinamente, até cessar. Jorge, com o rosto brilhando, molhado pelos fluidos vaginais de Paula, olhou para mim e perguntou: "Posso foder a bucetinha da sua puta?" Não respondi. Havia deixado bem claro no bar que Paula daria as ordens, comandaria a foda. Ela me olhou com aquela expressão misto de súplica e safadeza e pediu com aquela voz sensual: "Deixa, amor, deixa ele foder sua putinha? Deixa?..." "Deixo!", quase gritei. Paula ficou de quatro. Jorge posicionou-se por trás, encostou a cabeça do pau na boceta e meteu tudo, de uma só vez. Paula urrou de prazer. Jorge iniciou os movimentos cadenciados de entra-e-sai, aumentando gradualmente o ritmo, enquanto Paula rebolava e gritava:
- Mete, seu filho da puta! Mete com força, porra! Fode minha buceta! Bate na minha bunda! Isso! Com força!
Olhou para mim:
- Tá gostando, amor? Tá gostando de ver sua putinha dando pra outro? Tá gostando de ver seu amorzinho rebolando em outra pica, tá?
- Estou!!! - gritei, masturbando-me freneticamente, o pau latejando de tão duro.
- Posso gozar no pau dele, posso, amor? Ele mete gostoso, sabia? O pau dele é uma delícia! Quer que eu goze no pau dele, quer?
- Quero! Goza, porra! Goza gostoso, sua puta! Goza!
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Aahh! Aaahhh! Aaaahhhh! Aaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh!!!.......
- Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uuhh! Uuuhhh! Uuuuhhhh! Uuuuuuuuuhhhhhhhhh!!!.......
O cara gozou junto com ela, encheu a camisinha de porra. Paula, então, surpreendeu-me: retirou o preservativo do pau de Jorge, olhou para mim e perguntou: "Posso esfregar a porra dele no rosto, amor?" Eu não acreditava que ela fosse fazer aquilo. Decidi pagar para ver: "Pode". Paula deitou-se, espremeu a camisinha sobre o rosto, derramando a porra toda. Depois, esfregou na cara e lambeu os dedos. "Hum...Que delícia." Não resisti. Em outras circunstâncias, provavelmente eu sentiria nojo. Mas ali, naquele momento, mais uma vez o tesão falou mais alto: lasquei um beijo na boca de Paula, toda lambuzada da porra de Jorge. Depois, meti com força em sua boceta. Bastaram poucas metidas para eu gozar, um gozo farto, forte, delicioso.
Demos um tempo, bebemos algumas cervejas, conversamos banalidades e fomos tomar banho, os três. Foi a deixa para a putaria recomeçar. Eu e Jorge disputávamos o belo corpo de Paula com nossas mãos, línguas e dentes. Ora eu a beijava e Jorge mordia seu pescoço e ombros, ora Jorge chupava seus seios enquanto eu lambia suas costas. Descemos. Lambi sua boceta e Jorge seu cuzinho. Dávamos linguadas frenéticas, Paula novamente gritava de prazer. Sem nos secar, voltamos para a cama. Ela esfregava vigorosamente a boceta melada na cara de Jorge e chupava meu pau, saborosamente. À certa altura, langorosa, fez outro pedido inegável: "Amor, quero dar a bundinha pra ele. Lambe meu cuzinho, deixa ele bem lubrificadinho pra ele meter, deixa?" E lá fui eu. Ela de quatro, abri sua gostosa bunda com as mãos e lambi. Lambi, lambi, lambi, até deixar seu apertado anelzinho bem lubrificado. Então, cavalheirescamente, ainda separando as nádegas dela com as mãos, fiz o convite: "Vem cara, vem meter no cuzinho dessa puta! Ela está doida pra te dar o cuzinho, faz tempo. Arromba ela!" Jorge não se fez de rogado: encostou a cabeça da piroca no cu de Paula e foi empurrando, enquanto eu observava, de perto, o pau dele ir sumindo, sumindo, até desaparecer. Paula mexia os quadris alucinadamente, rebolava com gosto. Mais gritos:
- Mete com força! Mete, caralho! Fode meu cu! Fode! Enfia tudo bem fundo! Arromba ele! Mete na sua puta!
E Jorge, segurando as ancas de Paula, metia sem dó, produzindo aquele ruído de carne batendo em carne que misturava-se aos urros de Paula. Súbito, aconteceu algo que eu não esperava: os gemidos de Paula foram aumentando de intensidade, prenunciando o orgasmo. Mas não podia ser! Ela nunca havia gozado dando a bundinha para mim! Não, isso não! O ciúme voltou à toda, veemente e impetuoso. Meu coração disparou, o sangue subiu todo pra cabeça, comecei a tremer, meu corpo parecia estar em chamas, minha boca ficou seca. Ela não ia fazer aquilo comigo, não havíamos combinado aquilo, ela não podia! Fui até onde estavam minhas roupas e peguei minha pistola 765 que havia escondido sob elas. Os dois, compenetrados que estavam, não perceberam meu movimento. Ela já não me olhava, não me provocava, eu não estava mais ali. O fogo em meu rosto foi aumentando concomitantemente aos gemidos de Paula, até que... ela gozou! Aliás, eles gozaram! Gozaram juntos, um orgasmo como eu nunca havia visto igual, um orgasmo que ela nunca havia tido comigo. Mirei a nuca de Paula e atirei. O projétil lançou sua cabeça para o lado, mas não o corpo, Jorge a segurava firme pelos quadris. Ele, por sua vez, deu um salto para trás, caindo no chão, de costas. Que cena patética! Rastejou até a parede, como um rato assustado, enquanto eu o acompanhava com o cano da arma. Dois tiros. No peito. Terminava, assim, naquele suntuoso quarto de motel, nossa primeira experiência no fantástico mundo das fantasias sexuais. Sei que explicações são dispensáveis, mas para que a história não pareça também uma fantasia, fornecê-las-ei: usei pistola com silenciador, alterei as placas do carro antes de sair de casa e ninguém viu nossa cara no motel. O difícil mesmo foi colocá-los no carro, deixar Jorge Pirocudo Comelão no valão e guardar minha adorada putinha numa das gavetas do IML, onde exerço o cargo de legista-chefe. Mas, felizmente, deu tudo certo.
Apesar de haver sido uma experiência inesquecível e muito agradável, passaram-se quatro anos sem que tocássemos no assunto. Acho que ela ficou brava devido à minha broxada no final da foda. Agora, não sei bem o porquê, o desejo voltou. Talvez seja aquele negro alto que esteve em meu local de trabalho para reconhecer um corpo. Tenho certeza que vi Paula estremecer quando viu o homenzarrão. Ela está cada vez mais linda, ainda que pareça um pouco fria.
Bem, aqueles que estiverem a fim de sexo "caliente" e descompromissado e não tiverem medo de realizar as suas e as nossas fantasias, mandem um e-mail para casalsexyliberal@uauau.com.br. Negros, dotados e grupos de homens são bem-vindos.

Carlos Cruz - 29/03/2008

* História livremente inspirada nos tais "relatos dos leitores", encontrados aos milhares em revistas e sites eróticos. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas terá sido mera coincidência.

* Desenho de Auguste Rodin.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Miguel é uma mensagem

Miguel é uma mensagem

Será fim de trégua
maroto Querubim
aviltares outra vez
o teu Trono na poesia
suscetível ao incêndio
É implícita a cortesia
na aquiescência
às Dominações do silêncio

Uma mulher talvez despreze
talvez estraçalhe à unha
mas a minha alcunha
é uma Potência
que não se acomoda
em definições de Virtude
ou vício

Meu verso é um Principado
cuja soberania te concedo
Se não tens amor
deixa-o vago e branco
resguardado na saudade
que não se sabe

Aceita o arranjo que me cala
o que me custa
mas a vida não é justa
nem tem bula ou atenuante
Só poupa-me à ira
que macula este semblante
e apaga a lembrança
de ser teu Anjo

Iriene Borges

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CLUBE(S) DOS CANALHAS


"Não peço, imediatamente por nenhum governo,
mas imediatamente desejo um governo melhor"
Henry David Thoreau – A Desobediência Civil

“Vai chegar de madrugada e ela vai querer saber / onde foi, aonde esteve, o que foi fazer”... Esses são os versos iniciais de um dos maiores sucessos da banda carioca Matanza. A letra é uma espécie de manual para os cafajestes de plantão se darem bem com a vida dupla que levam.
Mas, observando à fundo outras partes da música, percebe-se que cai como uma luva para os nossos queridos e diletos representantes políticos. Senão vejamos:
“...Mas à todas as perguntas sabe responder / tem um plano A e tem um plano B”... Quem acompanha o mínimo do noticiário político sabe o quanto algumas declarações dos envolvidos em diversos episódios grotescos dentro do establishment são estapafúrdias: de ambulâncias superfaturadas a dinheiro na cueca, muita coisa teve que ser (mal) explicada. Basta lembrar de uma das várias CPI´s pizzaiolas que tivemos, o interrogado limitou-se a repetir mecanicamente “não tenho nada a declarar” a cada uma das perguntas. Mais de uma dezena de vezes.
“Se você nunca se contradiz / não abre mão do que te faz feliz...” A bem da verdade, algumas contradições são até benéficas para os depoentes, afinal, como diriam lá pelos idos de 30 (em uma Alemanha totalmente diferente da atual):“Uma mentira contada várias vezes acaba por tornar-se verdade”. É o lema da nossa geração política.
“Se nada abala a tua paz / já nasceu sabendo como é que se faz / e tudo segue do jeito que sempre quis...” A partir do momento que o cidadão brasileiro decide na política nacional, o faz primariamente para satisfação pessoal, nem tanto para contribuição coletiva e crescimento da sociedade como um todo, é levar a expressão “tivesse lá também roubava” ao pé da letra! Sendo assim, ao ingressar nos certames políticos, já o faz de caso (e conchavos) pensado.
“Temos mais um sócio no Clube dos Canalhas...” Esta deveria ser, em suma, a recepção a qualquer novo membro de partido político nacional, pois nenhuma das siglas se salva da titanomaquia que grassa a vida pública: há espoliadores do tesouro nacional à esquerda, direita, centro, abaixo ou acima de tudo quanto é cenário político. Nenhuma das agremiações pode se dar ao luxo de dizer que pode “atirar a primeira pedra”; o próprio telhado de vidro impede a ação.
Há de continuar assim, enquanto os partidos não forem co-responsáveis pelas ações de seus afiliados. Deve-se adicionar que quando a dita ação é boa, como a construção de algum bem comum, o partido faz questão de se alinhar ao lado do candidato da hora, o político que estava na hora certa e no local exato para colher os louros da vitória conquistada com o empenho de todos (via impostos pagos pela população, alheia ao direito de receber em obras aquilo que paga em tributos). No entanto, quando é o caso de se pegar o mesmo elemento (o político) com a mão na botija pública, o partido até que tenta defender o meliante, conquanto a coisa não comece a ‘feder’ acima do habitual ou naqueles casos raros onde não há habeas corpus suficientes para livrar o dito cujo das grades. Aí expulsa-se o aloprado (para usar uma expressão recente) com a condição do mesmo não dar com a língua nos dentes nem entregar um número de companheiros acima do permitido. E segue a vida como se nada houvesse acontecido.
Nossos partidos são, de mamando à caducando, conjuntos vazios de moral e repletos de erros. Pode-se ingressar sem qualquer preocupação latente com o passado cível ou criminal, na maior das caras duras. Do contrário não haveria tantos parlamentares com listagens quilométricas de processos correndo em estado quase vegetativo nas várias instancias do justiça-jabuti-tupiniquim.
“E não aceitamos que apontem nossas falhas...” É o desejo de qualquer Estado em estado de apodrecimento moral: controlar o que se diz ou que se pensa dele. Controle de sua imagem e semelhança, como se fosse um deus da consciência coletiva ou o ídolo das massas. Coisa que qualquer governo totalitário rapidamente se emprenha em conseguir, para o bem de seus próprios propósitos. Viu-se a luz amarelar neste quesito recentemente quando o TSE, por meio da resolução 23.191/2009, proibiu o uso do humor que “degrade ou ridicularize candidato, partido ou coligação”. Oras, os que deveriam se precaver disso seriam justamente os candidatos, partidos ou coligações, não se metendo em situações que se assemelhem a qualquer ato que degrade ou ridicularize eles próprios. Então, como qualificar de outra coisa que senão hilária a prisão de um elemento com dinheiro na cueca? A coisa só não é mais cômica pela seriedade que é o desvio do erário.
“...queremos tudo isso que a vida tem de bom”... Segundo o Transparência Brasil, o Congresso Brasileiro é o mais caro em um conjunto de sete países, sendo que quatro deles são de primeiro mundo, como Estados Unidos e Inglaterra. Além dos altos valores de seus vencimentos (incluindo-se aí, juntamente com os salários, algumas gratificações como auxílio terno, telefone e moradia), alguns mimos como as verbas de gabinete, passagens, representação, além de dois subsídios: um no começo e outro no fim do ano que correspondem efetivamente a um 14º e 15º salários. Uma bocada nada desprezível, se fosse só este o dano das traças públicas (os elevados gastos que a máquina corporativa demanda), até que seria um pequeno preço para os bolsos da nação, o pior é que ainda inventam de aumentar seus rendimentos com relações espúrias com o dinheiro dos outros. E dá-lhe corrupção porque já que o bem é público, a todos pertence.
“Farra, prá tudo é um bom remédio...” Que o digam as farras das passagens, do patrimônio da União, da utilização de veículos por parentes, amigos e até animais. O trem da alegria nunca pode parar.
“...Só um idiota completo morre de tédio / queremos tudo isso que a vida tem de bom...” Há quase cem anos um dos maiores parlamentares brasileiros (senão o maior deles), Rui Barbosa, já vaticinava a pobreza moral que imperaria nos meios políticos nacionais e, porque não dizer, em toda a sociedade: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Sabe o quanto é importante não dar muita explicação / não há nada de extraordinário na situação...” Alguém já viu um político que seja, responder de forma clara e precisa, sem rodeio algum, à qualquer acusação de má versação de recursos ou desvio de dinheiro público? Isso quando se predispõem à responder... E a sociedade brasileira, já desgastada por demais com o (baixíssimo) nível de nossos parlamentares, nem se assusta mais com os novos modelos e formatos das maracutaias de “seus representantes”.
“...o segredo do sucesso é a moderação / ter um dia sim e ter um dia não”... É aí onde a letra da música se distancia novamente da ação dos políticos nacionais. Para eles, todo dia é dia de feira, de festa, de fazer uma vaquinha com o dinheiro dos outros e de autofinanciar o próprio pé de meia. Se roubassem, digamos, nas segundas e sextas-feiras, já seria um avanço na corrupção brasileira: é que nestes dias não há expediente em Brasília...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

não vê

nada tenho de valor
nem esse grito não tem valia
e choro sem ter o que pedir?

agora sei o quem sou
observo esse pote vazio
sem vontades ou caprichos

naveguei por tantos mares
estou dura como pedra
de tão leve e oca
a onda me leva
e me traz
como todas
as outras conchas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

dois poemas do LEOA OU GAZELA, TODO DIA É DIA DELA

Meu D.Quixote

Tinha dragões
capturados
que repousavam,
pintados,
em seu braço.

Mas a paixão
perdeu o viço

e depois disso,
vejo desenhos de moinhos
tatuados.



Homem Árvore

Corpulento e magnífico
conífero
derrubado sobre mim,
pobre gramínea!

Com voz de carvalho
- grave e inclemente -
ele ordena:

- Prova-me, erva daninha,
que te orvalho!

Estranho sabor
tem seu falo:
sequóia milenar.

Gosto araucário de terra,
raiz tuberosa.

Não sei se o quero:

Sou frágil
como uma rosa!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

que fazer com meu eu virtual depois da minha morte

não me deletem nem me removam
nem excluam ou esqueçam
se estou vivo em bites
sou um ateu que crê na imortalidade dos dados
e no caos
espero alcançar o paraíso
dos desmortos virtuais

minha lápide no orkut
será uma incógnita
de toda minha demência

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Enchente

imagem: Evgen Bavcar


Solta.
A sua propriedade
se afogou.

Desobstrui.
Todos os seus canais
foram derramados.

Tira suas mãos
da minha vida.
O rosto nesse espelho

sou eu.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Convidado Abilio Pacheco

Poemia (fragmentos)
...
VII

A noite arrota no bar
(como um trovão)
e tic do relógio dá tique
no tempo (tac).

...
XI

A noite observa no bar
que os olhos se lançam
olhares em retinas ébrias
por sobre os copos
que beijam lábios dormentes.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A triste história da menina que não disse adeus

Desenhava uma vida linda, tinha tudo que uma trama precisa para dar certo. Sabia bem se comprometer, não tomava decisões apressadas, orgulhava-se de não ser capaz de machucar a uma mosca. Despediu-se de muitos caminhos errados, e arduamente talhava sua história nessa vida onde seu sobreviver era viver.

Mas ela não disse o adeus que a libertaria. Não compreendia o tamanho das amarras de suas perfeitas decisões. Teria já idade suficiente para poder culpar seus pais, se rebelar, e seguir em frente; mas ela jamais o faria. Escreveria e seria a personagem principal de uma odisséia de auto-ajuda - na qual, bravamente, sobreviveria às maldições de ser quem era e ainda não despejaria sequer uma gota de sangue. A cada tropeço em seu caminho pré-moldado não culparia o molde; sempre a condutora. Nunca cairia, e a cada obstáculo fincaria seus pés mais e mais profundamente. Sua vida não passaria de uma tentativa de auto-convencimento - testaria sua hipótese em seu corpo, cientista e rato ela mesma, somente para poder dizer: sim, posso confirmar minhas crenças. Sempre as confirmaria.


Nessa história de sempres e nuncas, ao passar por ela uns sorriam, outros choravam.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sobre o tempo III

Não faz muito que descobri os campos de espaço-tempo curvos.

Em silêncio, reconheço: na verdade, ainda não os descobri.

Que tempo é esse, que me esconde o espaço em que você est(á)(ava)(eve)?
Que dimensão do espaço-tempo escondeu você?
Em que tempo da minha dimensão você se camuflou?
Na dimensão em que você esteve em mim, como me dimensiono no tempo teu?

Quando tempo-espaço seguem juntos, em que lugar-momento está você?
Quantos milésimos de espaço-tempo dura o seu lugar?
Quantos lugares, ao mesmo tempo, você pode ocupar em mim?
De quantos você, em um único tempo, eu posso me ocupar?
Quantos de você tenho em mim?
Que tamanho tenho em você quando me vejo em ti?

Me disseram que o espaço se curva com o tempo. Que isso dilata o tempo.
Que é a relatividade.
E deve ser mesmo relativo.

Por que o tempo nosso não dilatou?
Pareceu tão curto.
Seu espaço, algum dia, vai se curvar sobre o meu tempo?
Tenho medo que a curva do seu espaço sobre o meu tempo me tire do lugar.
O espaço do meu lugar não se curva no infinito com o seu tempo.
O seu tempo curvou o meu espaço no infinito.
O seu infinito tomou espaço demais no tempo meu.
Meu infinito já não cabe mais no seu.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A (re)volta de Policarpo

Pela ausência de grandes e heróicos personagens literários, eis que o velho Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, foi resgatado em carne e osso pela nossa egrégia Academia Brasileira de Letras, saindo de seu “triste fim” para quem sabe um novo recomeço.
Não foram divulgados detalhes sobre o episódio, mas presume-se que a ABL tenha tido a ajuda de um certo mago para trazer o clássico personagem de volta à baila.
Policarpo ressurgiu de manhã, já estranhando de início o que via em volta. Nada mais natural, pois Lima Barreto o colocara na cidade do Rio de Janeiro em fins do século 19.
Saindo com um grupo de escritores para passear pelas ruas do seu Rio, não gostou nada do que viu.
— Bando de gente maluca! Quase nos atropelam com essas carroças de metal e sem animais! Como os cocheiros as controlam?
Enquanto se dirigiam para um parque, lugar mais tranquilo para conversar, explicaram-lhe sobre o desenvolvimento automotivo no decorrer das últimas décadas.
— A cidade está mais desenvolvida, não acha?
— Eu diria mais barulhenta e desorganizada. — respondeu, já perdendo o humor.
— Caro Policarpo — continuou um jovem poeta, talentoso, mas carente de bom senso — és dos personagens mais patriotas que o Brasil já conheceu. Poucos estudaram nossa pátria com tanto amor e competência, não por acaso, tornou-se um clássico na literatura nacional. Por isso te chamamos, para, quem sabe, ministrar um workshop para novos personagens...
— Um o que?? — perguntou Policarpo, estranhando aquele dialeto.
— Uma palestra, um curso. — respondeu outro.
— Bem... sabeis que o Brasil sempre foi minha paixão. O respeito à sua natureza, a sua língua, a sua gente, sempre permearam minha conduta. Terei sim prazer em orientar as novas gerações de personagens. Mas, por ora, encontro-me faminto. Há alguma taberna próxima?
— Sim. — respondeu o jovem poeta —, mas hoje em dia chamam-se restaurantes; ou fast-food, como preferem outros.
— Fésti fud?? Que diabos é isto?
— É comida rápida, em inglês. O pessoal daqui acha elegante a língua de Shakespeare.
— De fato, tem suas belezas. Mas, se não me levaram à sério na proposta de se ensinar o tupi nas escolas, deveriam pelo menos preservar a língua de Camões, também encantadora.
Por fim, resolveram levá-lo numa lanchonete, lugar geralmente mais calmo na hora do almoço, já que Policarpo ainda estava visivelmente incomodado com a enorme quantidade de gente nas ruas. O jovem poeta deu a idéia: levar o velho personagem para lanchar em um shopping center.
Lá dentro, depois de passar em frente de lojas como Golden Joalheria, Kings Coffee e Woodstock CDs, chegaram a praça de alimentação.
Apresentaram ao ufanista Policarpo... o Mc Donalds...
— Róti dóg, xis burguer... Que diabos de comida é essa, senhores?
— Não se preocupe, Policarpo, o nome pode ser estranho, mas o lanche não é ruim.
— As sardinhas da Taberna do João me pareciam mais apetitosas. E pelo menos dava para saber o que estávamos comendo...
Enfim, lancharam todos e uma hora depois estavam de volta à rua. Retornaram para a sede da ABL, onde apresentaram Policarpo a um aparelho inexistente em sua época, a televisão. Nada melhor para mostrá-lo de modo mais dinâmico o que acontecia no país. Foi aí que tomou conhecimento das fraudes em licitações públicas, do desvio de dinheiro, dos votos comprados...
— Bando de néscios, malta de bandidos, quadrilha de pândegos!! A mão da Lei será pesada sobre seus cornos!
Acharam por bem não alertá-lo que a mão pesada dos egrégios tribunais do país tinha por hábito presentear os acusados – a maioria presa em flagrante, com a mão na cumbuca, como diriam os antigos – com providenciais Habeas Corpus...
— Que fazem com meu país, calhordas? — perguntou Policarpo, sem desgrudar os já úmidos olhos da tela.
A notícia seguinte dava conta do desmatamento da Amazônia, da poluição dos rios, e da suprema incompetência governamental não só em prevenir tais problemas, como também em punir os responsáveis.
Depois do intervalo, chegou a vez do caos na saúde pública, das escolas de lata...
— Calhordas, salteadores, biltres, abutres, sacripantas!!! — xingava Policarpo, quase batendo na televisão.
Deram-lhe um calmante à base de farinha que não surtiu efeito. Por fim, preferiram trancá-lo em uma sala, para que pudesse descansar um pouco. No início da noite, mais calmo, Policarpo informou:
— Amigos, agradeço a honra de me considerarem como modelo, como exemplo, mas prefiro retirar-me. Na verdade, caríssimos, não preciseis de personagens clássicos ou de heróis míticos; preciseis de homens de carne e osso, de bom senso, justos e preocupados com o próximo, que saibam dirigir o país com responsabilidade e serenidade.
E foi-se o velho Quaresma, quem sabe passar uma quarentena no consultório do seu estimado amigo Simão Bacamarte, o Alienista, de Machado de Assis. Precisava desabafar um pouco...

“Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo, sacrificando, e as cousas ficaram na mesma, a terra na mesma miséria, na mesma opressão, na mesma tristeza.”
Triste Fim de Policarpo Quaresma


Texto premiado no VII Prêmio Barueri de Literatura, em 2010, na categoria "conto, de não-residentes em Barueri".

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Ninho de chupins

Após adentrar a sala, girou a chave da porta quatro vezes e repetiu para si mesma:

- Precaução nunca é demais!

Logo depois de conferir as janelas de todos os cômodos daquela enorme casa vazia, erguida pela própria família, em área hoje cobiçada pela especulação imobiliária, ela programou a televisão para desligar em meia hora, apagou a luz e deitou-se.

Antes de fechar os olhos, apalpou a cabeceira para pegar o aparelho celular, esperançosa de encontrar por ali uma chamada não atendida ou mensagem recebida - nunca tinha nada, nem sinal de nenhum dos filhos. Então, ela encolheu-se num canto estreito da velha cama de casal, abraçando os dois joelhos e, por fim, despediu-se mais uma vez da casa - certa de que, um dia, cairiam juntas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

2 poemas sem título

Cláudio Bettega
(12/06/1971-06/10/2010)

"Encontrei certa vez um verso
Todo esfarrado e sujo
Disse-me não ter passado
E também estar perdido e sem futuro
Pediu-me encarecidamente
Que escrevesse um poema belo
E nele o colocasse
Formando aqui e ali algum elo
Prontamente atendi seu pedido
E dei-lhe vida poética
Aqui está o poema
Mas não vou revelar o verso
Quem quiser que adivinhe
Sem dar significado inverso"

***

"De onde vem tudo?
Quem criou tudo isso?
Deus? Que deus?
O que mantém a energia
dos espíritos que, sei,
me energizam?
O que determina a beleza das palavras,
dos homens, da vida; a dureza
das palavras, dos homens, da vida?
O que gera dúvidas, estas dúvidas todas?
Sou louco, sou mito,
sou pouco, sou muito?
Como viemos, se já vamos?
Por que vamos, se viemos?
De onde, para onde?
Por que o por quê?
Ah! inexplicabilidades...
O que me resta é continuar!"


Do livro "Busca", Curitiba: edição do autor, 2006.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Convidado Louis Alien

À MAIS FIEL DE TODAS AS GAROTAS


Ela liga às 5 da manhã, pra avisar que não vem. A voz rouca e sexy dela me faz arrepiar por inteiro. Adoro a sensação. É como escorregar num tobogã de lâminas e mergulhar numa piscina de álcool.

é ela, que nem precisa se identificar: a mais fiel de todas as garotas. nunca me deixa na mão. mesmo quando não vem, ela faz questão de me avisar. E é sempre esse arrepido elétrico percorrendo meu corpo. nossa história começou há muito tempo atrás, nos tempos de eu menino. ela gosta de mim, eu sei. e eu gosto dela. esse gostar se entende pela aceitação de espaço e tempo.

tem sempre um espaço e um tempo certo pra encontrar essa garota, que anda por aí no meio de todo mundo, que já esteve em todo tipo de lugares, conheceu todo tipo de gente, já bebeu e usou de tudo, já esteve em tudo.

ela me pede pra ir com mais calma:

"babe você sabe que sou louca por você, mas ainda não é a hora. cuida das coisas, diz e faz tudo que deve ser dito e feito antes de eu te abraçar... cada dia é o último, e pode ser mesmo."

o rádio toca um blues dos anos 40, daqueles gravados num take só, eu reflito nisso pela crueza da coisa. a crueza dela está em todas essas coisas cruas e pulsantes. sinto o toque dela através do fone, como um sussurro ao pé do ouvido, e as ondas de choque aos poucos tornam-se calor. o frio lá fora passa subitamente. ela gosta de causar esse efeito em mim.

ela sabe tudo sobre mim.
não me julga por nada.


me aceita exatamente como sou, se estou ou não. se vou e não volto. abro uma garrafa de vinho e a saúdo. pergunto se ela quer, e ela me responde que bebe comigo sempre. que está sempre por perto

ela desce pela minha garganta quando o vinho rola pela minha boca, desce suave, doce, lenta. como o caminhar dela, que já a vi em muitos lugares.

eu a encontro em becos escuros, em ruas desertas. em bares vazios quando o amanhecer não passa de uma promessa nublada e escura. na casa de amigos, ao redor dos inimigos, através dos espelhos claros e embaçados do mundo...

ás vezes penso que ela é meu mundo. ela me diz que isso é uma besteira caótica apoteótica romântica típica dos poetas loucos como eu. rio e isso significa paixão louca, e esse sentimento passando por besteira é a escada pra novos horizontes, novas galáxias e planetas.

ela desliga o telefone. quando acordo, ela já partiu, mas não há solidão, só há aprendizado e uma paixão elástica esperando por preenchimento.

apesar dela estar em tudo que digo, ela é solitária. Eu também. afinal, a Morte parece ser de todo mundo, mas não é de ninguém




Louis Alien

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Trânsito

Foto  de intervenção Urbana de Banksy


Não existe mão ou contra-mão
no transito de minha alma.




sinais vermelhos só para o egoísmo




sinais verdes para novos amigos e antigos amores




FotoSensores de sonhos e desejos




Multa por excesso de ausência


Não existe mão ou contra-mão
no transito de minha alma.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Meu Reino




meu reino
teria uma casa velha
de madeira,

uma senhora bonita
de olhos verdes
e dois herdeiros
pentelhando pela sala,

seus sorrisos
ecoando
pela eternidade
de nossas vidas.

eu estaria bebendo
cachaça na cadeira
de balanço,
coçando a cabeça
de um vira-lata velho
e pulguento,

olhando para o céu.
como um soberano
orgulhoso.

mas desse meu reino
uns já se foram
e outros nem chegaram
a existir.

tanto melhor assim.

sem herdeiros,
meu reino fenecerá
logo depois de mim.

André Espínola

sábado, 15 de janeiro de 2011

Anoitecido


meus pés desejam pisar silêncios
de um alvorecer grisalho e calmo

não é pretensão, é despojo
despir-me das escamas de um tempo
atingir nuvens em dois saltos
sorver mares profundos
despetalar um poema e aspirar sua essência

mas desconheço e desmereço o segredo do Sol
permaneço em penumbra

de manhã lírios brincarão na brisa

até quando aquela estrela me consolará?

(Celso Mendes)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Atemporal

Eu te amo como os seres com mente se amam
mas também com amor de mamífero, de cabra e tamanduá.
Te amo como os pássaros mergulhando no vento,
nas reticências escuras dos tempos,
antes de um eu existir -
com o eros pré-amoroso dos répteis e a fúria fria dos dinossauros
que perdem tempo se matando sem saber que o mundo vai explodir.

Te amo em eras glaciais,
em desastres naturais
e na areia da praia antes de você nascer.

Te amo como os peixes na substância comum das águas,
como os pólipos, os corais, as algas
com o amor que a esponja tem pelo mar
e as plantas pela atmosfera.

Te amo em todas as histórias
em cada éon e era,
com o contágio inevitável dos virus
e a matéria reunida de todas as bactérias.

Te amo no microscópio, meus elétrons e seus prótons.

Te amo cosmogonia,
Eros órfico, Big Bang:
O meu amor antigo é gritado
no chuvisco das tevês.

Te amo além dos limites da ciência
e dos sonhos que não são lembrados.

Te amo na minha pressão sanguínea
e na sua pele invadindo minhas células olfativas.
No buraco vazio do peito,
no saco cheio da vida,
na voz que sai da barriga.

Te amo na realidade da gente: sua delicadeza às avessas,
que corta a floresta de espinhos para ver a primavera,
o seu peito de toureiro, o seu preto e o seu vermelho,
eu amo você inteiro.

Amo te alisar feito um gato
forjar um frio exagerado
e te puxar pra baixo do meu cobertor.

Amo e amo viver de amor.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Nunca Mais

Ao sonhar demais me perdi,
Enlouqueci em devaneios inventados
por uma mente que sozinha jurou amor eterno.

Imaginação fértil em terrenos impróprios,
plantações de frutos raros
que nunca serão colhidos.

A beleza que floresceu não terá cor
pois os olhos de quem as plantou estão vendados

Só restam os aromas que penetram na alma e
se fixam no coração que palpitante grita
Tudo que poderia ser mas por medo não foi e,

Cala-se.

Para nunca mais.

(Ro Primo)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Convidada Cris Linardi

Conto Vaginal


Minha provável simpatia com o nada mantém meus lábios murchos, neste corpo cuja capacidade de se estimular já foi perdida. Ultimamente os rijos membros que em mim adentram já não causam assombro algum, este mesmo que se faz necessário para que de fato eu me interesse. Formas diferentes, tamanhos variados e minha insatisfação equipara-se à monotonia do momento, uma reunião formal em que o encontro se dá por convocação e não convite.

Embuste. Uma arte tão sórdida e tão ácida que me arrepia, mas se somente isso me excita, creio que sou o mais sádico e preguiçoso dos órgãos, pois talvez meus dois únicos desejos sejam o vislumbre do desapontamento – duas burcas negras, perdidas num céu obscuro, a velar minhas reações à distância enquanto a língua procura desesperadamente umedecer um cáustico deserto – e um banho morno, depois de fugir deste embaraçoso momento.

Pêlos finos ou grossos, todos se mostram bastante interessados quando me veem adornada com enfeites, mas a verdade é que não me lembro o que fazer quando despida. Enrugo-me e fico tímida, a ponto de me ocultar por detrás das carnes e o que sobra é uma luta, sim, uma batalha, tentativa sôfrega de reanimar um corpo morto.

Ultimamente meus deleites têm sido coisas de velhinhas e suas maquinarias perfeitas, observando os namorados na rua. Contudo, escondida, me enlevo com outro tipo de manipulação. Não sei se os paus antes comiserados de meus amigos andam fugindo em surdina, como ladrão que desiste do roubo, mas a verdade é que não ligo. Me entrego ao alcool e à insatisfação e fumo um cigarro doce, cujo aroma é mais saboroso do que qualquer coisa viscosa descendo a garganta.

Viro pro lado e nem peço para fecharem a porta, pois já o sabem. O amargor que lhes fica na boca é como veneno, amarra. Devem ir lavar-se, já imaginei, pois são leves como plumas depois de uma tempestade de necessidades. E eu fico morta, olhos semi-cerrados, a ver a parede do meu quarto que pede, há meses, um novo reboco.



---
Cris Linardi
blog|twitter|facebook

domingo, 9 de janeiro de 2011

Lançamento de A DOENÇA É A DESCULPA DO CARÁTER de Pablo Treuffar. Dia 11/01 às 19h



Dentro de Pablo Treuffar existe um espírito indômito, irreverente e irônico a gritar conceitos e impropérios através de versos livres (de métrica, inclusive) que nos chegam como flagrantes do cotidiano e das emoções do autor. Isso de escrever sem apoio das delongas Pablo Treuffar aprendeu com os mestres que orientam suas leituras – Rubem Fonseca e John Fante, por exemplo. Sem pressa, mas com alguma urgência, o jovem poeta faz uso do pensamento/discurso na primeira pessoa para oferecer fúria e revolta sempre contundentes. A indignação em primeiro lugar. Os versos de Pablo Treuffar são – não de forma unilateral, pois existem outros atributos – revigorantes de uma energia perdida pelo leitor num passado recente.
Toninho Vaz (autor de Paulo Leminski, o bandido que sabia latim e Pra Mim Chega, a biografia de Torquato Neto)


Eu lia contos e poemas no Bar do Escritor (comunidade no Orkut para troca de experiências em literatura), quando um novo nome surgiu: Pablo Treuffar. Abri seu texto e me deparei com uma prosa poética sem correspondência com outro autor contemporâneo. Suas linhas eram fortes, marginais e muito engraçadas. Elogiei sua história, disse que via ali uma inovação bastante curiosa e interessante. Outros membros do BDE discordaram, disseram que o Pablo era um louco, sua crônica, que até falava de amor, mais parecia coisa de um beatnik alucinado. Ri. A crítica que o imputavam soava como rock´n roll para mim. O tempo passou e me familiarizei com a maneira peculiar de Pablo em se expressar. Eu gostava tanto da forma quanto do conteúdo. Ele falava dos tesões em viver na Cidade das Maravilhosas, cercado de tentações de biquíni e obrigações não tanto necessárias. Cada nova história me dava mais a impressão que aquele autor tinha algo de especial, sabia onde queria chegar e como queria ser percebido. Em alguns momentos, eu ficava até com inveja de sua sinceridade lírica e sensual. Um dia, li um comentário do escritor Edson Bueno de Camargo, que dizia conhecer um escritor do Rio de Janeiro que o lembrava a mim, pelas ideias libertárias e a forma pessoal e marcante de escrever. Ele falava do Pablito. Eu me envaideci. Muito. Já era fam do cara, uma voz que soava como se estivéssemos confessando nossos próprios pecados, mas sem vergonha ou arrependimento.
Giovani Iemini
(autor do livro Mão Branca, entre outros talentos)


O Treuffar tem uma coisa bem explícita: escreve como um carioca nascido depois do Rebouças... Isso fica claro no ritmo que ele impõem (sim, ele faz isso), reverberação do Baixo Gávea, da Prado Júnior... Um carioca irrecorrível escreve e pensa assim: Vai cuspindo idéias rápidas, que na verdade, pensou durante anos sobre cada uma delas. E vomita... Vomita porque a cidade partida, recém cerzida (em parte) pelo Capitão Nascimento (ironic mode on, please, tá?) exige certa ausência de lógica para funcionar. A Zona Sul carioca pede pelos sons das favelas para auto imolar-se de seus complexos de culpa. E o Pablo sacou isso já há tempos. Desanca putinhas patricinhas, mas as ama. Pensa na morte, teso por viver um pouco mais.
Eduardo Perrone
(escritor "quando dá na veneta" participou de antologias entre outros projetos)


Pablo Treuffar é violência. É sexo. É cotidiano urbano furioso. Dentre leblonetes, estampidos na favela, cadelas, sejam elas Shitsus ou pejorativas, a sensibilidade do autor sobressai. A métrica? Foda-se! Importante é estilo, e isso, transborda neste escritor talentoso. Inale Treuffar e descubra as facetas do Rio de Janeiro.
Guto Correia
(jornalista)


O Pablo Treuffar não é um poeta fácil de engolir, sua linguagem suja, me lembra algo como um beat tropical, sob o sol escaldante do Rio.
Edson Bueno de Camargo
(autor de Cabalísticos e De lembranças & fórmulas mágicas, entre antologias e outros livros)


Entrevista de Pablo Treuffar
http://www.pablotreuffar.com/



HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

ELE É O CARA


ELE É O CARA

Vou falar
Doa a quem doer
O William Bonner
O Zeca Camargo
O Luciano Hulk
O Faustão
Infinitos sem fim outros
São a legitimação da hipocrisia humana
Eles sabem
Facilitam as negociatas nas politicagens empresariais
São coniventes
Corrompem o Brasil
Seus sorrisos amarelamentem falsos vendem nosso país em promoção
Alienaram sua alma por milhões
Infinitas prestações
Monstros destruidores de um Estado Maior
Ciência exata da representação de suas palavras
Estão aniquilando a sociedade com seus programas
Garotos de programa
Não aceito em hipótese alguma a palavra inocência pra eles
Não são inocentes
São filhos do dinheiro sujo
Não estão nem aí
Muita gente boa morre, servindo como moeda na troca das elites.
Dou de cara com o moleque, saindo do Beco de Eduardo Marinho.
Sua pistola cromada
A verdade de um menino boleiro, abandonado na serventia do crime.
Não por acaso
Não se tornou um craque
É triste
Que vencedor, que nada.
Anos de convívio desumano
Escassez de pessoas interessantes
Eu não sou tão atraente
Sim
Falo mal da nata da sociedade
A simbiose dos meus escritos é descrever essa realidade cruel
Contudo
Escrevo tudo do meu apartamento no Leblon
Bebendo uma coca-cola gelada
Ou
Saboreando um uísque
Sinto-me mal por isso
É difícil assumir-me parte da elite por mim criticada
O passo na estrada dos invisíveis sociais de Luiz Eduardo Soares eu não dei
Fazer parte do resto, com tudo, é pra poucos.
Eduardo Marinho faz
Ele é O CARA

Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

sábado, 8 de janeiro de 2011

SIBILA


SIBILA

* Escrito para Lanóia depois de alguma conversa sem sentido e o pq alguém tinha me pedido um conto que incluísse um pacto e meias sete oitavos.


Era uma noite fria do começo de junho. Meu carro havia parado no meio de um imenso nada, o celular não tinha sinal e eu esperava na estrada, sozinho, desempregado, falido e mal pago. Depois de quinze minutos de raiva e recriminação, parei de pensar e apenas esperei. Preparava-me para desistir daquela tolice, quando Sibila surgiu das sombras e ficou um momento imóvel, a silhueta recortada contra o céu.

Nenhuma luz brilhava além do clarão mortiço da lua minguante que delineava as curvas que eu conhecia bem. Estava na mesma encruzilhada onde dez anos atrás eu a invoquei pela primeira vez.

— Pontualidade. Gosto disso num homem, especialmente quando ele é meu.
Meu coração começou a bater tão forte que meu peito doeu. Tive esperança de que ela não viesse. A saia balançava suavemente, respondendo aos movimentos do vento, mas ela não se afastava do ponto onde as estradas se encontravam. Atravessei a distância que nos separava tremendo, enquanto Sibila me saudava com um aceno e uma rajada de chuva fina e gelada, um truque bem típico dela.

— Você não me deixou muitas escolhas, deixou?
Sempre que pensam em seus demônios, as pessoas pensam em calor. Eu penso em frio, mas tinha esquecido que, ao voltar àquela encruzilhada, sentiria muito frio todo o tempo e não só pelo clima.

— Não reclame. Foram dez anos felizes que te dei. Uma família bonita, bom trabalho, grana. Tudo que me pediu, sem tirar nem pôr.

— Você se esqueceu de dizer que me tiraria tudo, assim.

Ela sorriu quando me aproximei e abriu os braços.

— Vem fácil, vai fácil. Você sabe que não sou nenhum anjo.

A pálida luz da lua brilhando em seu rosto produziu o resultado de sempre: uma quebra na linha de pensamentos infelizes. Aquela mulher era uma festa para meus olhos. Sorri, esquecido por um momento da razão do reencontro.Ela sorriu também, antes de me envolver num abraço, antes que eu me perdesse em seu perfume, antes do beijo. Era uma velha amiga que, com o passar dos anos, havia se tornado inimiga, mais uma na imensa lista de amigos a quem eu havia traído. Uma das muitas pessoas dedicadas a arruinar minha vida.
— Tá, sou seu, mas deixe minha família em paz. Eles não te devem nada.

Ela sorria enquanto deslizava a unha afiada e vermelha pelo meu rosto, deixando uma trilha de sangue. — Deixo. — Lambeu o sangue suavemente.

— Vamos terminar logo com isso, então.

Ela tirou o vestido e ficou ali, no meio da estrada, vestindo apenas suas meias sete oitavos e os sapatos de saltos intermináveis. O tempo passava denso e escuro. Fechei os olhos. Não precisava ver para saber que ela tinha uma tatuagem em forma de estrela na virilha, ou de como seus seios eram perfeitos. Na última vez, tudo me foi dado depois de um beijo. O beijo de agora seria o pagamento. Minha alma e tormentos menos suaves pela eternidade.

— Tic TAC tic TAC tic TAC... Vamos, querido. Tenho outras almas para tomar.
O tempo passava. Eu lutava para encontrar uma saída, mas não havia, a menos que fosse um bom exorcista. Desajeitado, beijei-lhe a tatuagem na virilha; ela contorceu o rosto num esgar de prazer, enquanto eu murmurava minhas últimas preces, as orações mais sentidas e verdadeiras que jamais fiz. Sibila gargalhou, ergueu-me pelo queixo e gritou alguma coisa que não pude entender, numa língua gemida, língua que já devia ser velha e esquecida antes que eu sonhasse em nascer; e, mesmo sem ter entendido o conteúdo das frases, senti meus pelos se eriçarem enquanto ela as dizia.

Antes do beijo final, ouvi um rosnado baixo, um desafio, vindo das margens da estrada, de onde surgiu uma figura negra e graciosa. Sibila largou meu queixo e disse algo suave e gentil à sombra escura e lhe estendeu a mão. A sombra respondeu com mais frases na língua morta e cravou os dentes no braço da minha bruxa, que cuspiu em sua direção.
Então, Sibila olhou para mim, e se eu duvidei por muito tempo que ela fosse o que dizia ser, agora tinha certeza: seus olhos vermelhos chisparam sobre mim, depois se torceu e se retorceu até virar algo que lembrava um gato, para desaparecer na noite. A sombra que viera em minha defesa desapareceu também e eu fiquei ali com o coração aos pulos.
Então, um ronco de motor à distância quebrou o encanto: um caminhão descia a estrada buzinando para o louco parado na encruzilhada. Caí no acostamento vendo o vermelho das luzes traseiras do caminhão, depois os insetos, depois as estrelas, depois mais nada. Corri para o carro, fechei os vidros e esperei por algum socorro.

Isso foi há uma semana. Sibila ainda vem à minha casa cobrar a dívida. Não aparece todas as noites, mas vem na maioria delas. Entra pela janela do banheiro e murmura coisas naquela língua estranha, desliza a língua pelo meu corpo e desaparece quando ouve o rosnar das sombras. Não sei o que fiz para merecer a ajuda, e egoísta e amedrontado, tento ser bom para que ela não suma.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011













Vênus saiu das águas numa manhã de Sol muito forte em Copacabana. De repente, algo ocorreu em na praia, algo peculiar. As pessoas homens e mulheres começaram a observar aquela moça. Tão bonita em sua beleza irretocável, era algo simplesmente diferente, extasiante. Ela era muito mais bonita do que qualquer banhista, modelo, atriz ou vizinha de condomínio. Um corpo perfeito, um cabelo que começou a secar ao sol e que formava um volume que realçava seus olhos e rosto. Ela era o desejo em pessoa. Ao ser vista, pensamentos ardentes se materializavam no ar. O seu jeito era febril. Ela era etérea e significava simplesmente, tudo. Era impossível não olhá-la ao caminhar atravessando a areia quente.


Ajoelhou e disse a um rapaz. Atônito, ele tremia.

Posso pegar seus chinelos.

São da minha mulher... mas pode sim

E a canga?

Claro, leva.


Continuou seu desfile, num gingado sublime.

Passou na barraca e pegou uma água de coco. Ela apenas tocou o balcão e sorriu aos freqüentadores. Ao chegar ao calçadão, o trânsito foi seu mar na cidade. Distraída, passeou seus chinelos e dedos delicados pelos vista dos retrovisores e vidros fumês, e os motoristas – ah! os motoristas !!! – eles começaram a descer dos carros, parar e filmar. A claridade da manhã incidia sobre o caos fazendo tudo ficar leve pueril e simples. As mazelas os defeitos as raivas os pecados os segredos e as desgraças, e também os medos, tudo se dissipava ali, na instância daquela mulher.


De repente, uns passos rápidos às suas costas.

Ei ei minha mulher quer os chinelos dela de volta, e a canga

Os chinelos...?

É sim, sim


Ela o olha, ele não resiste

Ele a beija eles se beijam

Que isso você ta beijando essa mulher, que porra é essa


Eles se separam

Que putaria é essa porra

Nada ... nada... você é linda demais hehebahua meu Deus


Ele se ajoelha e pega sua mão

ela sorri

Ele treme sua mulher o bate

ele sorri


Que que ta acontecendo aqui (um mortal pergunta)

Essa mulher aí ta tirando a roupa no calçadão, ta doida ficando pelada (uma outra mortal diz)

Essa mulher ta mexendo com o meu marido ( a mulher dele diz)

Os olhos esbugalhados da multidão e o sorriso de Vênus se degladiam. E venceu a multidão.

Todos querem se aproximar, ver de perto, sentir o cheiro, poder observar detalhes, nuances, pintas, formas. Ah muitas vozes no ar (mortais), um turbilhão de pessoas toma o espaço em volta dela, e Vênus é tocada, beijada, acarinhada, arranhada, esmurrada, quebrada e feita em pedaços, em poucos minutos.


Alguns saíram com nacos do seu corpo envoltos em suas camisas, correndo pela avenida e sendo perseguido por outros menos afortunados, uns levaram ao mar e nadaram até o meio do oceano atlântico pra morrerem loucos apenas pra ficar na exata solidão com seu pedaço ideal dela; fosse uma mão apodrecendo do sal quente do mar, ou um parte do seu lábio inferior e queixo, cova e pele morta.


Isso foi numa manhã em Copacabana...

O fato não repercutiu.

Foi hedonismo supremo.

Todos os envolvidos negam e ficou o pensamento pra quem não conseguiu sua parte da deusa; mesmo se indignando com os estupros e casos de pedofilia nos telejornais, a vaga idéia “- mas dela eu devia ter arrancado um pedaço”
#

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Outro

Sou outro, outra vez
refletido em um rosto que não reconheço
não sei onde me encontro
não sei qual é o preço
da sanidade que não controlo
da ingenuidade que me consola
da concordância com o mundo
ou da revolta que ainda guardo
há na mente tantos quartos !
Tantas lembranças, tantos fardos
mas vou à luta novamente
erguendo-me da lona
onde atirado estava
no fundo da minha vala
que cavei para me defender
dos assaltos ao coração
da covardia e da traição
da minha própria condenação !
sem defesa e sem juiz
me acuso continuamente
por teimar em ser feliz
por sorrir serenamente
enquanto o caos me consumia
levando os socos ainda sorria
fingindo ser tão poderoso
inatingível e inalcançável

Era outro eu que se valia
da bravura e covardia
que dissimuladamente exibia
Estóico !
era o brado que retumbava
nos caminhos onde passava
Heróico !
feitos meus que não contei
que nem mesmo acreditei
terem sido obras minhas...

Mas isso é passado de um outro
que guardo longe dos olhares
e me acompanha aos lugares
sem ser visto por ninguém...

Mesmo comigo ele insiste
quer provar que ainda existe
quer provar que é alguém

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

das coisas belas e sujas

essa face rasa respinga
no concreto
é o asco que abarca seres
rancorosos e magoados
iguais a você

surge com suas mãos
seus dedos sobre olhos
máscaras de esconder
com toque nocivo
que desdenha o que
mais quer

feche o punho que a vertigem
é mais soco que miragem
reflete o que há de belo
e aceitável

é imiscível com o que trago
sou suja, incurável
muco e substância
fétida

não vivo em seu mundo
e se sou uma qualquer
não sou para seus olhos

o que há de mais precioso aqui
é o que não pode alcançar
ou ao menos perceber.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Joio



Pra ser sincera:

sei que te assanho
e tiro o sossego.

Às vezes me entrego...

Mas na maioria,
é só brincadeira
e se aperta,

eu espano.

Tenho um escudo
à prova
de perdas e danos.
--------------------

Em janeiro, no dia 21, estarei no primeiro sarau do

que acontecerá no Bagaça Botequim, em Sampa.
Nos vemos lá!

sábado, 1 de janeiro de 2011

jack daniels

hei, jack
I am back
after you try give me a tack
I said: hangover is a sack

---
poemeto ridículo que fiquei repetindo no dia primeiro, após agradecer aos deuses da bebida a falta de ressaca. viva jack!