segunda-feira, 3 de outubro de 2011

o sonho de Lilith

veio pela fumaça cavalgando Cérbero
altiva e por hora a chamarei de Hécate
a guardiã escarlate das portas do inferno

há quem diga que tem asas
que seus cabelos longos
e vermelhos como fogo
trazem um aroma de inexplicável
de sémen e mirra

o desejo passivo nos olhos
travestia seu coração de pedra
afeita a tomar falos em contrações
que de tão violentas eram castrantes

quem há de se olhar refletido
nesse espelho de mil faces
sem que a deseje e se sinta impotente
enquanto o peito esmagado arfa
e o sorriso debochado estremece?

(arte visual de Sindri Mendes)

sábado, 1 de outubro de 2011

Oportunidade



Ele acelerou desembestado para alcançar espaço entre os carros mas logo travou as rodas para não encaixotar o fusca da frente. Puta merda, que susto. O babaca que entrou atrás piscou o farol sorrindo. Seguiu a fila até um cruzamento, um vermelhinho pediu passagem. Ele cedeu.
Era uma loira deslumbrante de óculos escuros. Ela estacionou em seguida e ele a seguiu.
- Oi. – Ele a interpelou à porta.
Ela sorriu confusa.
- Sou o cara que te deu passagem no carro. – A frase lhe soou ridícula.
- Você tá brincando, né? – A incredulidade a fez mais bela.
- Bem, - ao menos o toco, pensou, terá valido a pena. – é que eu tava no meu carro, meio de saco cheio quando me decidi a esquecer aquela bobagem e partir para uma nova vida. Um novo destino, sabe. Então, pensei, vou me apresentar à primeira mulher que passar pela minha frente. – Ele a contemplou, linda, um decote acolhedor, ancas firmes, pernas torneadas. Sim, o fora terá seu valor. – Daí seu carro apareceu, eu dei passagem e era uma gata. Tô aqui.
Ela o analisou antes de responder:
- Eu estava puta, imaginando como deixei as coisas me levarem a este ponto, agora que estava sem saída, decidi simplesmente esquecer. E falei para mim mesma: vou dar para o primeiro cara que aparecer. – Ela tocou o antebraço do rapaz. Massageou os ombros largos, viu as pernas fortes. – De repente, um tipão como você me aparece com essa história doida.
Ele fez o olhar matador. Ela virou o rosto.
- Se for esperto, já notou nossas alianças. – Ele só então viu o dedo da mulher. – Sabe que não pode dizer: na sua casa ou na minha.
A sinceridade dela o surpreendeu, mas se recompôs:
- Eu estava pensando no hotel mais perto.
Ela aproximou o corpo a ponto de roçar os seios.
- Não seria melhor um motel? – A voz sedutora ronronava. Ele quase foi agarrado pelas nádegas.
- Eu contava com o café da manhã. – Alargou a perna esquerda para ajeitar os documentos. – Uma noite é pouco.
Só voltaram a se falar entre a segunda e a terceira rodadas. São casados até hoje, mas não querem filhos. Estragam as oportunidades.





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Convidado Rafael Freitas

Mantiqueira


O alto da montanha
é mais próximo do céu.
Se as vacas fossem leves
voariam entre nuvens
cagariam feito pombas nos carros de passeio
pastariam toda a grama dos jardins do paraíso.

Estrume santo é o que seria.
Esterco bom pra ervas milagrosas,
poluição pros riachos do inferno,
solução pras terras pouco férteis.Link

O que salva o paraíso
é o que destrói o inferno.

Eu rolaria em bosta sacra
Pra sentir o peito em paz.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

gestação

Eleanor Davis

gesta-se a si mesma, indo contra a ideia de natureza do homem. e, dentro do inesperado, pare-se a si mesma, inúmeras vezes. são esses os ciclos da vida - dessa vez, no seu dentro. está no 105o trimestre de gestação (o relógio não zera a cada parto), e é gestante e feto. deve precisar e prover, ao mesmo tempo. possui a delicadeza e fragilidade do bebê que está por vir, e a força da mãe, que segura seus kilogramas e divide seu corpo, suas cavidades e seus órgãos, com outro ser (quanta intimidade). possui a força do feto (que se permite frágil), e a fragilidade da mãe (que se cansa como forte). coexistem.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Selvagens




Praia da Paciência. Para alguns, a do Jó.
Revoada de animais revoltos
qual “Os Pássaros”, de Hichtcock.




Cercam a mim e pessoas próximas e nos bicam selvagens, sem dó.
O porquê? Ao mar, bóia o lixo e a tralha humana, entre si, envoltos
Da humanidade, o escroque.




Deixa pra lá. Os selvagens?
Somos nós.



Fotos: wikipédia

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Deficiência



“Deficiência - s. f. - Def.: toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função anatômica, fisiológica, psicológica ou intelectual.”


O carro passou por mim um tanto rápido - não que estivesse correndo, mas seguia em uma velocidade imprudente ao considerar que estávamos dentro do estacionamento de um mercado. Ao avistar uma vaga ali, tão perto da porta, o motorista não hesitou, engatou a ré e começou a manobrar o carro; Sendo a vaga bem ampla, a tarefa nem exigiu muito esforço.

Eu permaneci ali parado, observando - nem sequer atravessei a via. Não era a primeira vez que eu via aquela mesma cena: um sujeito apressado estacionando na vaga reservada para pessoas com deficiência; Mas dessa vez, fiquei tentado a observar todo o desenrolar, só para me certificar se o motorista, sozinho no carro, possuía ou não algum tipo de deficiência.

Enquanto eu seguia em direção à porta do mercado, o sujeito abriu a porta do carro, saiu, olhou por cima do ombro, na direção do guarda do mercado e, só então, fechou a porta e ligou o alarme. Aquele olhar de cumplicidade, seguido por um ar de impunidade, comprovou as minhas suspeitas: era mais um dos irresponsáveis, que provavelmente se diria com pressa ou desligado - quando todos sabem que o diagnóstico é o descaso.

As pessoas que entravam e saiam até chegaram a lançar alguns olhares de reprovação, tanto para ele quanto para o guarda do mercado, mas este, com medo de envolver-se em qualquer confusão e acabar por perder o emprego, fingiu-se de desentendido. Eu fiz o mesmo, olhei para ele e para o guarda, na esperança de que alguém tomasse uma atitude.

Vieram-me à cabeça todas as minhas omissões em situações similares, além de todos os olhares de cumplicidade e esboços de sorriso pela impunidade. Senti-me realmente um cúmplice daquelas atitudes, aceitando-as mudo - cego e surdo; Eu e todos os outros éramos incapazes de protestar. Foi então que decidi que dessa vez não, eu não ia deixar passar em branco. Antes de abordar o sujeito, cheguei à conclusão de que ele também tinha uma deficiência; Após cutucá-lo pelas costas, avisei:

- Moço, essa vaga não é reservada para quem possuiu apenas deficiência de caráter.

As palmas evitaram uma reação agressiva. Quanto ao constrangimento, que o levou a entrar no carro e partir meio sem rumo, espero que tenha sido a melhor forma de reabilitação.







Menção honrosa no 9º Prêmio Paulo Setúbal - Prefeitura de Tatuí - SP

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Pássaro de Folhas


Encantada fada verde
Espalha vida e me ensina.
Voa da minha janela
Contemplando o azul, a lua, o sol.
Adensa-me as raízes o teu voo
Pássaro de folhas,
Fada Verde Macieira
Se lançando ao ar.



foto: Angela Gomes.

búúú

Como um típico sem autonomia, sou alguém caminhando até a porta da casa da mãe. Sinto-me debilitado. Com minha última depressão, é como se eu tivesse ficado com a cabeça plantada em um balde cheio de merda aguada, não podendo respirar por horas. Giro a maçaneta – pois o costume é de se deixar a porta aberta. Ao vacilo um cheiro de urina se exala de toda a parte. Meu estomago se vira, dando-me a sensação de algo errado. Vou me arrastando levando os jornais petrificados amarelados com urina por todo o espaço. Alcanço o sofá e sento-me. Percebo uma nuvem de poeira e pêlos se erguendo ao meu lado por um feixe de luz que reflete da persiana. Ouço o barulho de um ponteiro a cada segundo. São dez e meia da manhã. Recosto e medito. Um cachorro negro e cego vem até mim. Percebo que ele é cego quando bate com o rosto em minha canela. Ele me parece bastante debilitado. Identifico-me com ele. Ergo a mão para acariciá-lo. Ele se assusta e gira, tenta encontrar alguma coisa, mas só o que ele faz é se bater em tudo. Fica assustado e late. Mi madre grita “cala a boca!” lá do quarto que não enxerguei. Ela ainda está deitada e não quer ser incomodada. Ouço latidos vindos de lá também. São os outros animais ao perceberem movimentação. O cachorro negro começa a chorar. Mi madre grita novamente “Gordo, cala a boca!” Gordo sossega em um canto. Espirro e observo, então, o relógio. Mais latidos, dessa vez, sem motivo e, decido ir ao banheiro. Tentei não arrastar os jornais, observando cada passo, levantando os pés para driblar onde tinha urina. Piso em um excremento canino coberto por uma folha de jornal. Ele é macio. Chego ao banheiro e olho no espelho. O que eu vejo não me alegra. Devidamente levanto a tampa e miro no centro da privada. Motivo de ele ter permanecido durante tanto tempo ali amassado embaixo da cueca, talvez, foi que o jato saiu torto. Acertei o lixo ao lado. Seguro a urina, faço uma massagem e recomeço. Agora sim, consegui. Jogo uma água no rosto e desejo que tudo vá à merda. Volto, prestando o dobro de atenção, a fim de desviar qualquer coisa. Sento-me no sofá. Poeira, caos. Gordo se deitou num canto. Tita ao meu lado, no sofá. Ela tem câncer. A mais velha delas, das três. Metade de seu corpo está despelada, e nódulos gigantes crescem a cada dia na região mamária. Também há uma ferida que virou uma bolha. Não posso fazer nada para ajudá-la. Ao menos tento. Pego um saco de ração que vejo em cima da mesa e a sirvo. Ela agradece, levantando a cabeça e olhando os meus olhos. Volta a recostar-se. O relógio fica mais alto. Ouço o ponteiro cada vez mais alto. Tita ergue a cabeça e pega um grão da ração. Eu a amo, e faço carinho em sua cabeça. As outras duas cachorras não saíram do quarto de mamãe. Ficaram lá. E eu aqui. Ouvindo os ponteiros. Poeira e caos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Convidado Walter Bezerra

Os princípios etílicos do boêmio

O verdadeiro boêmio não bebe para esquecer, mas, vez e quando, bebe a memória.

O verdadeiro boêmio não é um bêbado contumaz, não bebe para se embriagar, mas para venerar a noite e as suas benesses.
O verdadeiro boêmio não é só aquele que dá de bom grado a gorjeta ao garçom, mas aquele que também o presenteia com um bom disco de Noel, Vinícius ou outros tais.
O verdadeiro boêmio tem cadeira cativa em todos os botecos onde se faz indispensável e desejado.
O verdadeiro boêmio não tolera bate-boca nem disse-me-disse. Ele pode até beber fiado, mas se abstém de conversa fiada.
O verdadeiro boêmio não senta à mesa cuja principal iguaria é a vida alheia, mas lhe cai bem banalizar os canalhas e velhacos que usurpam o país e se aproveitam da embriaguez política do seu povo.
O verdadeiro boêmio nem sempre canta ou toca qualquer instrumento, mas sabe como ninguém interpretar a beleza nostálgica de um Tango para Tereza.
O verdadeiro boêmio não é um “malandro”, mas um idolatra que celebra a vida e ressuscita, a cada golada de pinga, cerveja ou uísque, uma boa sacada de igual boêmio como Mário Lago: “Quando deixarmos de ter esperança, é melhor apagar o arco-íris”.
O verdadeiro boêmio não polemiza com os que se dizem donos da verdade, simplesmente porque ele não cobiça ter 51% das ações de soberba nenhuma.
O verdadeiro boêmio pode até esquecer a primeira namorada, jamais a “saideira”.

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Walter Bezerra
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sábado, 10 de setembro de 2011

Convidado Eurico de Andrade

Namoro em tempo de frio

Zé Mané sai de Tabuí. Baile na roça. E arruma namorada. Fazendeirinha bem ajeitada, novinha, limpinha e cheirosa. Moça muito distinta e recatada.... Tantos predicados deixaram o Zé na maior paixão.

- Se ocê quisé memo namorá ieu tem que falá com o pai.
O rapaz fica desanimado. Mas depois de alguns dias, várias noites sem dormir, conclui com seus botões:
- Ela é moça boa demais da conta. Vô lá resorvê o pobrema.
Mandou recado. Vestiu a melhor roupa, calçou botina gomeira e foi rever a paixão e enfrentar o velho, futuro sogro. Andou horas e horas até chegar ao destino. A família recebe bem o nosso Zé Mané. Velho pega na mão, bate nas costas, velha o chama de meu filho, paixão fica segurando sua mão e as três irmãs se derramam em sorrisos. Tudo era ânimo. Os dois apaixonados combinam, num momento em que conseguiram ficar a sós, que a conversa de homem pra homem seria no dia seguinte, na hora do almoço.
Tudo muito bem, tudo muito bom, noite chegou. Era junho. Tempo de frio. O Zé, como não previa passar a noite em casa alheia, nem uma blusa trouxera.
- Tô sentino frio não, gente! Sô assim memo, num sinto frio!
A desculpa não colava, mas o rapaz não queria dar o braço a torcer. O negócio era impressionar. Queria dar uma de macho e, no seu conceito, macho que é macho não sente frio.
A moça mostra-lhe o quarto e leva-lhe cobertores.
- Não, amô! Carece disso não. Nem lençor eu uso! Durmo só de cueca!
Donzela ficou corada ao ouvir essa palavra de baixo calão.
- Mas assim cê intangue, bem!
- Que nada. Tiau, amô! Té manhã!
Zé Mané fica sem os cobertores tão quentinhos. Tira a roupa e, para honrar a palavra, fica mesmo só de cueca esperando o sono chegar. Mas o frio tava brabo e ele, tremendo, não consegue pegar no sono. Rola pra lá e pra cá, com raiva da sua burrice, até que se lembra do monte de palha de feijão lá no terreiro da sala. Pula a janela e tafuia dentro do monte pra afugentar o frio que lhe entrava até os ossos. E, de fato, lá embaixo tava tão quentinho que ele dormiu sono profundo. Tão profundo que o dia amanheceu e ele nem tium. Continuou lá, encoberto, só com a ponta do nariz num buraco por onde entrava o ar. Lá fora, tudo gelou por causa da geada que chegara de madrugada.
O pai acordou, mãe também e as quatro filhas. Sol mal dava as caras.
- Bamo lá botá fogo na paia de feijão pra mode a gente esquentá, mininas? Chamou o pai.
E lá se foram e meteram fogo sem dó nem piedade na palha de feijão. O fogo rodeou o monte, pegando com certa dificuldade, pois tava meio úmido devido ao orvalho. Por isso o fumacê que começou a sair dali não tava no gibi. E aquela fumaça foi entranhando pro meio do monte e o calor do fogo também. O Zé Mané, ainda dormindo, começa a ficar prejudicado pela fumaça e pelo calor. Sufocado e suando, acorda. Sem entender nada, o instinto de sobrevivência avisa que ele tem que cair fora. Assustado, dá um pulo, fica de pé levantando cinza e fumaça e o fogo começa a chamuscar-lhe a pele. Zé Mané sai correndo empretecido, quase pelado, só de cueca vermelha desbotada, levando junto um canudo de fumaça e fogo. As moças, cada uma mais santa e donzela que a outra, são pegas de surpresa e não entendem nada. Nem reconhecem o moço. E vendo aquela figura estranha e inesperada saindo do meio do fogo, caem de joelhos, prontas para rezar, pensando estar vendo coisas do outro mundo.
- É o demônio! - Gritou uma.
- É o capeta, mãe! - Gritou outra.
- Livrai-nos Deus, Nosso Senhor! - Berrou a mãe.
Zé Mané nem no quarto passou. Cheio de vergonha, ainda sem entender direito o acontecido, se mandou estrada a fora e só foi descobrir que estava nu ao entrar em Tabuí, sendo vaiado por um bando de moleques.

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Eurico de Andrade
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

PEÇO PERDÃO AO ZICO


PEÇO PERDÃO AO ZICO


1981
Flamengo Campeão do Mundo
Zico, Junior e Cia...
Lembro do frenesi pós-conquista
Foi quando entendi alegria de massa
Pessoas rindo na rua
Cidade colorida em vermelho e preto
Uma lembrança quase igual
No sentido contrário é claro
Ao terceiro gol de Paulo Rossi em...
Deixa pra lá
Lembro de pessoas chorando nessa data
Também em 82 foi o segundo Campeonato Brasileiro do Flamengo
Depois veio o Brasileiro de 83
Era eu um Flamenguista de fanfarronices infantiloides validadas em farras primárias colegiais
Em 1987, Bebeto marcou na final contra o Internacional.
Lembro do Fernando (creme craquer) Vannucci chamando a matéria no Bobo Esporte
Flamengo Tetra Campeão Brasileiro
Eu?
Eu nunca tinha ido ao Maraca
Era eu um Flamenguista de festa
Sendo assim
Não lembro o gol de Cocada no Carioca do ano seguinte
Lembro o gol de Maurício, em 89.
Quem não lembra?
Pense
Meu pai queria que eu fosse Botafoguense
Imagina esperar tantos anos pra zoar os amiguinhos do colégio
Zico livrou-me disso
Devo desculpas ao Zico
Nunca o vi jogar no Maracanã
Como eu disse
Eu era Flamenguista de segunda-feira
Não acompanhava o dia a dia do Flamengo
Gostava de ser Flamengo pra atazanar meus coleguinhas
Nunca lidei bem com derrotas
O Flamengo deu-me segundas-feiras estudantis gloriosas
Tirando o gol do Mauricio é claro
Confesso nada ter mudado em mim essa derrota pra cachorrada
Até fiquei feliz por meu pai
Um dia, o Botafogo tinha de comemorar a maior idade civil.
...
Em 1991, já com 17 anos, fui entender o sentimento Rubro-Negro.
O Ser Flamengo
O Sangue Vermelho e Preto em minhas veias
O jogo?
Flamengo e River Plate
Supercopa dos Campeões
Maracanã
Inesquecível
Minha primeira vez no maior do mundo
Lembro muito bem
O Flamengo foi eliminado nos pênaltis
Junior perdeu um
Nesse dia, virei Flamengo de verdade.
Flamengo de Maracanã
Flamengo de coração
Desde então, sou Flamengo fanático.
Nesse dia, entendi.
Uma vez Flamengo

Flamengo até morrer


Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

sibila


no meu céu de baunilha
flutuam mentiras azuis
ladeadas pelas sereias decapitadas

o mesmo céu onde o criador vigia
escondo-me na folha branca

nesses versos ateus
lilith pisca o olho
serpenteia pela rua
flertando com evas dispersas
rebola fantasticamente
sorrio e rabisco armaduras

ela as ignora
enrosca-se às minhas costas

pensamos beijos-tempestade
abraços-nuvem
marasmos sem fim
sibilamos feitiços pagãos
pele e mar sob a lua santa

sorrio na rua vazia
delírio findado
ficam os dentes

metade do meu sorriso é dela
serpenteamos juntas

lilith e eu
poetisas enfastiadas trancadas em prosa e
em verso enoveladas

sábado, 3 de setembro de 2011

mortal

todos os meus poros agrupados
são gametas impunes
e assim como meu coração
habitam meus olhos

quisera que me tocasse a vulva
como me desfere seu olhar
muito mais que sua boca
mais profundo que seu falo
é o invisível imagético
que nos prende nesse laço

essa pele já não me protege
do externo e já não deseja
ser indivídua
quer ser alvejada, aferroada
rasgada e carcomida

para que me travestir pura
se a mulher ancestral berra
mesmo silenciosa e inculta
dá-me o que é de febre
encolha-me ao que há de profano

que ainda serei eu a chamá-lo de meu
mesmo que por poucas horas
pouco tempo, tempo algum
nem ao menos isso.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

conselho

ufane-se
da honrada conquista
mas não afane-se
da celebração humilde
pois fana-se
o brio no auto elogio

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Convidada Iara Fernandes

Organizados são eles


...Mas o malandro pra valer
- não espalha
Aposentou a navalha
Tem mulher e filho e tralha e tal

Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central...

(Chico Buarque)


O primeiro contato do dia foi a voz de Silas:

“Doca, semana passada cê ficou no posto da República. Hoje é na Atlântica?”

“Isso. É eu, a Joana e o Tota, por quê? Tá preocupado?”

“Preocupado com tudo. Preciso é ver um futebol na TV, viajar. Sabe aquilo de cachorro, criança, sogra? Coisa de vida de gente normal. Nem sei mais o que é isso. Minha mulher fica me cobrando.”

“Xi!!! Então vê se se ajeita, mas vai ficar difícil sem você nas coordenadas.”

“É. Mas, vou esperar acabar essa semana. Preciso ver quanto vamos lucrar. Os clientes estão ficando espertos e a concorrência não dá trégua.”

Enquanto tomavam café, Joana e Doca viram no noticiário que os assaltos na cidade reduziram-se em 23%. Ganharam a rua e assim que o ônibus se alinhou à calçada, entraram e tentaram se equilibrar no balanço agressivo da geringonça. Desceram bem no centro, rumaram para a Atlântica e encontraram-se com Tota.

Osvaldo coordenava o posto da avenida Afonso Pena. Andava atribulado com Marão, filho de Felicce, compatriota de Picollo Barnabieri, o dono da empresa. A atividade lá exigia terno discreto e cabelo comportado. Marão contrariou. Alegou o ridículo do traje e deu-se folga naquela sexta-feira.

Doca, Joana e Tota posicionados. Doca comunicava as características das vítimas a Tota. Joana – discreta e meiga – abordava outras na agência mesmo, surrupiando carteiras, cartões e senhas. Tota, na moto, percorria a rota dos indicados. Depois de um grande saque, foi dona Aurora chegar à porta de sua casa e um motoqueiro derrubou-a, levando a bolsa.

Ágeis na comunicação, lucravam alto. Em 2006, Picollo premiou os três com passagens para o Nordeste.

“Silas!”

“Diz aí, Osvaldo.”

“Silas, esse cara vai melar!”

“Peraí! Problemas no posto da XV de Novembro. Sexta lá é foda!”

Porra! Eu preciso resolver essa parada agora!”

Tá falando do Marão? Que que tá pegando?”

“Vou acabar com ele!”

“Calma! Seu Picollo te apaga. Pensa nos seus filhos!”

“O caralho! Foda-se! Tira ele da minha equipe!”

“Desloca você lá pra XV. O grupo de lá tá desfalcado, hoje.”

Na semana seguinte, as equipes reunidas. Picollo distribuiria prêmios. Marão queria função de destaque, mas não fora agraciado. Antes da fuga, entregou todos e a reunião foi barulhenta: sirenes, tiros, alto-falantes.

O delegado – cara rechonchuda e rosada de anjo barroco – detalhava, orgulhoso, o feito. O repórter, falando em “administração” “coordenação” e “planejamento”, mostrou onde e como funcionava a central.

Picollo extraditado, Silas, penitenciária estadual, Doca, presídio de segurança máxima e os outros espalhados em outras prisões.

O doce de coco veio para Silas, camuflando o celular. Na vasilha de rosquinhas entregue a Doca, um aparelho caramelado, funcionando com perfeição.

Doca!”

Silas?”

Como vai, meu velho?”

Indo... Algo em vista?”

Picollo fez contato. Em breve a gente volta.


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Iara Fernandes

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sábado, 27 de agosto de 2011

Fotos - Cataratas do Iguaçu

Galerinha, como estamos em um bar virtual, aberto a toda manifestação artística, seguem algumas fotos de uma viagem recente às Cataratas do Iguaçu:







sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Vital

tudo
inexoravelmente tudo
leva a você
fim maior

mesmo pétreo
cedo ou tarde me desfaço
e
esteja onde estiver
sigo incansavelmente
até seu ser

mesmo nos céus
meu destino
é o mergulho em seus braços

eu
fluído vital
você
o mar
amar
amor

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Amparo

Na desforra
até ouso blasfemar

Mas no desespero
rezo fervorosamente

Quando estou para baixo
ter um santo ajuda





@bardoescritor


Com a anuência do chefe, está criado o @bardoescritor, que vai puxar automaticamente todas as postagens deste blog. Sigam e divulguem!

http://twitter.com/bardoescritor



Aproveito também para destacar o seguinte projeto, vale a pena conhecer:

http://www.dicionariocriativo.com.br/

domingo, 21 de agosto de 2011

Chico Cateto







Saudade
Tem pele espinhenta
Lambuzada de lama
Do quintal da casa.

Chico Cateto
Chico, cadê tu?

Saudade
Tem morada na beira do rio
Entre os gritos coloridos das araras
E as pegadas que serão afogadas.

Chico Cateto, cadê tu?
De tão doce tens que ter espinhos.



Imagens: Angela Gomes

casa

sabem "casa"? pois bem. existem casas que são muito engraçadas, umas não tem teto, outras nada. existem casas que são de prostituição e casas de reabilitação. dentre todas, a mais engraçada e peculiar, é a casa onde, no interior dela, podemos nos surpreender com uma família de caralhos. para quem lê esta mensagem, que vá para uma casa dessa. que vá para a casa do caralho!

sábado, 20 de agosto de 2011

Convidada Cinthia Kriemler


O ladrão e a alma

O nome Francisco de Assis recebeu em homenagem ao santo. Virou Fininho por acaso, no seu primeiro assalto. Na hora da fuga, como era magro que nem vara foi o único a escapar, esgueirando-se por entre as barras de uma grade de ferro. Daquele dia em diante, o apelido pegou e o santo ficou enclausurado na certidão de nascimento.
A mãe, Dona Cidinha, cozinheira de grandes prendas, deu vida boa a Fininho, dentro do possível, porque queria que o menino virasse “um homem de bem”. Não virou. Firmou-se na vida como ladrão e especializou-se em furto a residências.
Fininho adorava a mãe, mas tinha medo dela. Mulher de bondade farta, virava uma fera com os malfeitos que chamava de “coisa do demo”. Quando pegava Fininho chegando muito tarde da farra, ou sentia nele o cheiro de pinga, obrigava o rapaz a ajoelhar-se em frente à imagem de Nossa Senhora das Graças e a rezar duas Ave-Marias em penitência.
O rapaz protestava, mas ela, irredutível, respondia:
— Reza logo, menino! Uma pelo pecado, outra pelo pecador.
Dona Cidinha jurava que depois das duas Ave-Marias no capricho a Santinha pedia a Deus para perdoar o delito. Por outro lado, se o pecador não se arrependia, e nem rezava, a Senhora pedia às almas do outro mundo para virem atormentá-lo sem sossego. Fininho rezava pelo pavor às almas.
Então, aconteceu o roubo à casa de dois andares. Era ainda cedo quando Fininho encostou o veículo em frente ao jardim. Proprietário de férias, rua tranquila, tudo corria bem. Usava como fachada para os furtos um utilitário branco, com adesivo de floricultura, e nunca estacionava dentro das casas para não despertar suspeita. Além do mais, desde que Zé Gaguinho, seu primo, tinha se juntado ao negócio, as coisas estavam mais tranquilas, porque enquanto um vigiava, outro furtava.
Entrou facilmente na casa e foi direto para o andar de cima. Por experiência, sabia que começar por ali era sempre mais seguro. No primeiro quarto, um aparelho de TV e um de DVD. No segundo, apenas material de costura. Ansioso, abriu a porta do terceiro aposento, esperando encontrar ali alguma coisa que valesse mais a pena.
Na cama, uma mulher idosa parecia dormir. Fininho estancou, sem reação, ficando assim por alguns instantes. Mas alguma coisa ali não estava certa. Aproximando-se sem ruído, verificou e comprovou que a coitadinha não respirava. Morta, completamente morta!
Automaticamente, fez o sinal da cruz e rezou duas Ave-Marias. E já pensava em sair quando enxergou, sobre a cômoda, um colar de pérolas pequeno e uma aliança de ouro. Indeciso, voltou-se para a defunta e desculpou-se:
— A senhora me perdoe, mas isso aqui não vai mais lhe fazer nenhuma falta mesmo.
E agarrou as duas joias.
— Devolva! Isso não é seu! — advertiu uma voz tremida de mulher.
Fininho deu um pulo para trás, apavorado.
— Quem está aí? — perguntou, tirando a arma de brinquedo da cintura.
— Eu, ora bolas! — respondeu a voz.
— Eu quem? — insistiu ele, sentindo o pelo arrepiar nos braços.
— A pobre senhora de quem você está roubando as joias.
Fininho se apoiou na parede, sentindo-se desorientado e tonto. Mas, recuperando-se um pouco do susto, imaginou que aquilo era alguma brincadeira de Zé Gaguinho para pôr medo nele. No auge da raiva, ligou para o primo, reclamando, mas o rapaz, colérico,respondeu:
— Oooolha peeela jaanela paara a r-r-rrua, seu be-besta! Eu eestou aaaqui na es-es-quiiina, tra-traabalhando! Nãão aaamola!
Tentando impedir que o medo tomasse conta dele, agachou-se, procurando pela voz debaixo da cama. Abriu o closet de porta de madeira e espiou, depois mexeu nas cortinas. E enquanto o terror tomava novamente conta dos seus músculos, escutou a mulher irritar-se:
— Como é, vai devolver o colar e a aliança ou não vai? — insistiu a voz que parecia de outro mundo.
Jogando os dois objetos de volta na cômoda, Fininho apressou-se em sair dali, mas antes que seus pés obedecessem, a voz gritou:
— Nem pense em ir embora agora! Se sair daqui, vai se arrepender!
As almas! As almas de Nossa Senhora tinham vindo persegui-lo pelos pecados, pelos furtos, pela vida de ladrão! Bem que a mãe tinha avisado!
Parado no meio do quarto, tremendo, perguntou num fio de voz:
— Dona alma, o que a senhora quer que eu faça para me deixar em paz? Diga!
— Pouca coisa. Uma penitenciazinha aqui, outra ali e você pode ir embora, perdoado.
— É só falar, dona alma! O que a senhora quiser, viu? — continuou, sem coragem de olhar para a defunta.
— Vamos lá. Vou lhe dizer tudo o que tem a fazer. Preste a atenção. Primeiro, arrume as camas dos três quartos.
— Como?! — estranhou o rapaz.
— Isso mesmo, e ande logo antes que o meu filho chegue, porque se ele pegar você aqui é cadeia na certa!
De onde é que Zé Gaguinho tinha tirado a informação de que os moradores daquela casa tinham viajado? — remoía-se Fininho — Ah, Zé Gaguinho, você hoje vai se ver comigo! — esbravejou.
— Alôô! Você ainda não se mexeu, é?
— Mas arrumar as camas é penitência, dona alma?
— Uff...você nem sabe o quanto! Obedeça logo, vamos!
Acostumado a ajudar a mãe em casa, Fininho colocou rapidamente em ordem as camas dos três aposentos.
— Posso ir? — perguntou timidamente.
— Que pressa é essa? Você não estava com pressa quando entrou aqui! Ainda tenho mais duas tarefas para você, antes de deixá-lo partir.
— Duas? Então diga, por favor, dona alma, diga que eu faço!
— 1º: varrer a casa. 2º: preparar o almoço. Só isso. Depois, pode ir embora.
Mas que alma folgada! Arrumar, cozinhar...
— Está pensando em quê? — interrompeu a voz da defunta — Quer desistir? Tudo bem. Eu posso começar a atormentar a sua vida, quer ver?
— Nem pensar, dona alma! Calminha aí! Só estou achando esquisito esse negócio de a senhora ficar me pedindo pra limpar e cozinhar! Isso não parece penitência... É muito esquisito.
Com uma risadinha que deu calafrios em Fininho, a voz explicou:
— Hehehehehe! É que eu fui empregada doméstica. Trabalhei aqui nesta casa durante muitos anos, até hoje, quando morri. E não consigo pensar num castigo pior do que as tarefas domésticas, hehehehehe! Ande! Ao trabalho, meu rapaz! E se quiser falar comigo, volte aqui em cima, porque como eu desencarnei há pouco tempo, ainda não consigo ir para longe do meu corpo. Acho que a missa de Sétimo Dia vai dar um jeito nisso...
Encharcado de suor, aterrado pela companhia da alma, prometendo à Santinha que iria se emendar, correu a se desempenhar das penitências solicitadas. Em menos de uma hora, o cheiro de casa limpa se misturava ao de um almoço apetitoso. Retornou ao quarto e chamou a alma, na esperança de ela ter ido embora:
— Dona alma?
— Terminou tudo?
Ali estava ela, esperando por ele. Alma chata!
— Terminei. Posso ir agora?
— Pode. Agora pode.
Fininho alcançou a porta em duas passadas mas, antes de sair, uma curiosidade que o atormentava falou mais alto:
— Dona alma — perguntou sem se virar — a senhora pode me responder uma coisa?
— Depende, meu rapaz, depende do que você quer saber.
— A senhora é uma alma do outro mundo, dessas que só aparecem quando a gente faz coisa errada, ou é uma alma penada, que não encontra rumo e fica por aí vagando e perseguindo as pessoas? — perguntou sem respirar.
— Com eu disse, depende, meu rapaz, depende.
— Do quê? — insistiu Fininho.
— Assim que a gente desencarna, tem que começar a ajudar os vivos a encontrar o seu caminho. Se corre tudo bem, a gente vira alma do outro mundo. Agora, se o sujeito é teimoso, insiste nas coisas erradas, a gente vira alma penada e persegue o infeliz eternamente.
As pernas empurraram Fininho escada abaixo, aos tropeções, mas antes que alcançasse a porta da rua, ouviu de novo, distante, a voz da alma:
— E precisa rezar, viu meu rapaz? Rezar muito para as almas!
Saiu dali um homem de bem. Sem fazer caso do carro que o esperava com Zé Gaguinho ao volante, desceu a rua feito um louco, repetindo: “Um rosário inteiro, minha Santinha, um rosário inteiro, eu juro!”.
Na casa, uma senhora de cabelos brancos desligou o moderno circuito de comunicação que interligava o seu closet ao closet do quarto ao lado, ocupado pela defunta que tinha lhe servido de empregada, de companhia e de amiga pelos últimos 40 anos de vida.
Entrando no quarto da morta pela porta camuflada atrás das prateleiras, colocou-lhe no pescoço o pequeno colar de pérolas e sussurrou em seus ouvidos:
— Quem diria, hein, minha amiga? Afinal, a tal geringonça que o meu filho tanto insistiu em instalar entre os nossos quartos teve a sua utilidade!
E soltando um riso abafado, completou:
— Eu não lhe disse que você podia partir tranquila que eu dava um jeito de me


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Cínthia Kriemler é carioca e mora em Brasília há mais de 40 anos. Relações Públicas por formação. Contista e cronista por necessidade de respirar o ar meio puro, meio diesel das palavras. De vez em quando, passeia pelas Cartas e Artigos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crime Passional

Estava cagando e com uma dor de cabeça terrível. Em minhas mãos, um jornal da semana passada. Com minha visão turva, olhava-o sem ler. Fazia força. Suava. Saiu, enfim. Uma respiração de alívio se seguiu. As palavras do jornal tomavam forma. Pude ler: “Mulher assassina ex-marido no quarto por ciúme”. Chorei. Uma sensação indescritível de inveja tomou conta de mim enquanto me limpava. Não pude evitar e imaginei a cena. Uma mulher ensandecida invadia o quarto com passos fortes, nervosos, porém decididos. O homem a olhava com surpresa e curiosidade. Ela escondia uma arma. Suava. Fazia força. Puxou a arma. Saiu, enfim. Após primeiro tiro o homem a olha incrédulo, como uma grande interrogação. Não sentia dor. Suava. Olhou-a nos olhos. Chorou. Lágrimas corriam por seus olhos enquanto mais dois tiros se seguiram. Ele, debruçado na cama ensanguentada, olhava para o teto enquanto sua vida se esvaía. Ele ainda lembrava-se do olhar dela ao puxar o gatilho. Sorria. Por fim, suspirou, feliz: - Meu deus, quanto amor havia em seus olhos! Morreu. Terminei de me limpar, dei descarga e abri a porta pensando que alguma mulher imaginária iria irromper pela porta com uma arma na mão e olhos de amor para me matar.

André Espínola

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Convidado Marco Buzetto

Aske I

A pergunta que ficou no ar, sobre mim, fora exatamente a que menos queria saber. Haveria, eu, encontrado o que queria?
Maldição! Claro que sim! Infelizmente.
Passei alguns anos em companhia de outras pessoas, e me cansara de tal maneira de mim mesmo, que tudo o que mais desejava era a solidão, e chamava isso de liberdade, por mais que a companhia da terceira tenha me feito o mais feliz entre os pagãos de todo o mundo, em pouco tempo.
Esta foi uma cicatriz que nunca se fechou. Procurei a liberdade, encontrei-a, mas perdi minha sanidade controladora.
Quis, por muito tempo, dizer algumas palavras depois do final. Mas sempre que tive a oportunidade, a coragem me abandonava, e eu pensava mais do que duas vezes nas conseqüências. Conseqüências estas que quis a todo custo evitar no futuro, pois sabia, tinha certeza de que viriam, ruins, pesadas, e dificultariam ainda mais as coisas para nós dois.
Certo, é verdade: quis sua felicidade a qualquer custo, mesmo que isso significasse abandonar o barco, pular no cosmos. E fora o que fiz. Eu tive a certeza de que não conseguiria trazer esta felicidade se permanecesse naquele sorriso. Me arrependo amargamente até hoje, até meus últimos dias.
Não tenho inveja, não tenho ciúme, não possuo lágrimas visíveis nos olhos. Não pergunto ou quero saber de sua vida. Nada disso! Quero apenas um pós-escrito, que talvez um dia seja lido e lembrado, como minha cicatriz eterna nos olhos e em minha língua.
Maldição! Quis tanto uma coisa, que abri mão de minha sanidade. Quanto a tal liberdade... Rufh!... Tornei-me seu prisioneiro mais fiel.


* * *
Marco Buzetto é professor.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

BURRICE EMOCIONAL


Deveria existir um manual de fim de relação
Aprenda a terminar com sua mulher
Algo absorvendo o sofrimento de uma
Ou ambas as partes do relacionamento
Absolvendo
Como dar a notícia final
Não gosto mais de você
Não funciona!
Tô comendo outra
Pior ainda!!
Você merece mais
Hipocrisia!!!
Talvez peidar na cara dela quando estiver fazendo sexo oral seja a melhor opção
Um jato de merda mole e quente em sua face
Durante a felação
Seria perfeito
Não
Definitivamente não
Foi só uma ideia
Pelo menos ela sentiria nojo
Não rejeição
Rejeição é o pior pensamento humano
Rejeição deságua negação
Negação
Não
Não tenho o manual
Tento ser sincero
Não trair a alma
Trair é mentir a sua verdade ao outro, a quem você diz gostar.
Verdade
Mulheres não gostam de verdade
Tentei dar a minha
Rejeitaram
O importante...
... Não é a verdade
O importante...
... É o que sabemos
Vai saber...
Uma coisa eu tenho certeza
Burrice emocional irrita profundamente

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

white lies



fantasma vago
ponto cego
no canto do olho

desaconteço

o mundo adolesce
treme e eu encolho
num canto desse quarto crescente

fotos, câmeras, manifestos
desvarios roucos
punhetas entrópicas
afogam ofélias

insepultas e castas
flutuam dormentes
recitando cantigas mortas
versos inúteis

resgatam insetos
riem dos manifestos
rasgam incunábulos
repletos de promessas

fatos, atos, ratos, mortos
falos, otelos, ralos, ateus

cubro teus ouvidos
protejo tua pele nua
enquanto danças evitando
roletas poliglotas
filtro meu olhar em verbos
traçando esses caminhos intransitivos

“quem lê tanta notícia?”

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Beleza Irrefletida

Narciso, no sertão aflito,
não vê lago ao largo
para se ver refletido,
e não vendo que não há Eco
para os seus gritos
se desespera...
e acaba afogado em lágrimas.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

estirpe

pede os calos do mundo
como se soubesse suportar
mas mal entende a realidade

roga os vazios mundanos
como se ainda existissem lutas
que não causassem danos

sabe bem de sua origem
mas não lhe cobrem os panos
mostra-se nua feito as putas

não há como julgar uma rainha
essa que se cobre de enganos
só há o que dizer do belo

daquela que nos enfeitiça
sobram as lágrimas
de quem viu e não pôde tocar

sabe bem de sua semente
musa rubra de felicidade
pouca e pernoitada

vê que não lhe pedem nada
além do suplício de ser
a vertente intocada.

a visita do poeta

foi numa tarde de quarta
poucas horas
mais que um livro
dono de olhos opacos
como que insatisfeito
tinha poesia nas mãos
bem mais que um livro

e ficaram as palavras apenas
e a indagação
do que eu olhava
ficaram as palavras apenas
naquela casa simples
de piso frio e dedos mornos
a visita do poeta
deixou-me poetiza
bem mais que antes

ele me contou
que há vinte e seis anos
chora
olhando o horizonte
não querendo sol.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carnívora


Talvez tenha entendido errado
e se encolheu num canto,
feito menino intimidado.

- Loba em pele de Chapeuzinho,
sempre levo a culpa pelo estrago -

O gatinho ficou assustado.

Então faço ron ron no peito,
seus pelos

e falo

:

- Felino...

Pra ficar mais relaxado.

(Ai, que porre ser perigosa
a animais domesticados!)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ideia adversa

reflita:
a ideia adversa
que te irrita
é só o que você não aceita

digo: aceita
verá que a briga aflita
é tolice controversa
se tolerar facilita