quinta-feira, 6 de junho de 2013

iPhone 5


o besta
desembesta
ou quiçá, çá, çá
defenestra
na poeira das vaidades
bestas
e atuais, mais
que atuais

os ancestrais
cambalhoteiam
inutilmente
pra frente
pra trás
qual idiotas

os devotos
do black metal
dão saltos
camisas pretas
acham demais!

mas, ademais, existe a luz
no fim do túnel
da Tunísia
pour elise
eu faria tudo, tudo

coesão, coerência, clareza
o importante é ser feliz
na cama
o mais, é o amor
só o amor
que conhece o que é verdade

a verdade dói e mói e corrói e destrói
mas isso é bom e agradável
exceto ao platão

seja bem-vinda, ruidosa bofetada!
bate outra vez, coração!
a mão que balança o berço
envolve e cabe perfeita na masturbação

o ego rebelde não quer rebentar
diz que há os tais maiorais
déspotas e tarados
cheios de pênis eretos
no lugar dos pelos
glândulas invertidas

pelas barbas de netuno!
levantai, unamuno!
semeai a discórdia e a dúvida
entre os homens bicudos
jegues-justos-obtusos
cheios de hemorróidas
enfiados em ternos justos
absurdamente demodés

quem dera ser um peixe
para expor em riste a guelra média
ao anzol pontiagudo
imerso, babacamente
pelo babaca-mor

que o mundo acabe em buceta
de mulher tesa
para morrermos encharcados

felicidade é algo mais que uma maçã eletrônica.

Carlos Cruz - 20/12/2012

terça-feira, 4 de junho de 2013

DAS ARTES DO AMOR OU DE QUANDO SENTI A PRESENÇA DE YEDA SCHMALTZ


            Entre os dias 16 e 19 de maio, tive a felicidade de participar da 10ª Galhofada Cultural, aqui em Goiânia. Um evento que por algumas de suas particularidades já seria bastante sui generis, afinal, uma mostra de teatro feita no meio da rua e da comunidade já é por si só algo inusitado, mas que por conta de outros fatores torna-se ainda mais envolvente e impactante.
Em plena atividade de "Literatura Corpo-a-corpo": vendendo o livro nosso de cada dia.
            Destaque-se que é praticamente uma operação de guerra, com um batalhão de pessoas envolvidas com o intuito único de levar, como diria a música, “diversão e arte” de forma gratuita e sincera para a população. É bom lembrar que os artistas participantes doaram seu tempo e esforço para que o evento acontecesse. Sem cachê, sem patrocínio, sem jabaculê. E sem qualquer apoio governamental ou de alguma lei de incentivo, ato raro em um país rico em cultura, mas pobre em investimentos na área (pelo menos aqueles onde não se vê uma lei de incentivo por perto).
Conversando com Marcos Lotufo, o "culpado-mor" pela Galhofada. 
            Entre os que carregam a bandeira do evento, estão a Oficina Cultural Gepetto, o Teatro Zabriske, Grupo de teatro NuEscuro, Cia de Teatro Poesia que Gira, Teatro que Roda, além de vários outros grupos  e abnegados como Marcos Lotufo, que insistem em levar adiante tal empreendimento em nome de algo que está  cada dia mais raro de se encontrar por aí. Estes malucos do bem fazem o que fazem em nome do amor.
            Amor... Pela Arte.
            
Cortejo da 10ª Galhofada Cultural. 







Foi lindo ver palhaços, mágicos, atores e atrizes, equilibristas, músicos, artistas das mais variadas gamas dando o melhor de si em atuações de delicado fervor, acompanhados de perto por um público que era composto desde a população das redondezas, gente que comumente não tem acesso a nenhuma forma de arte ou evento cultural, até grandes apreciadores das artes, que ali estiveram para conferir o que acontecia no evento. Bonito de ver também foi o apreço que as pessoas deram à nossa banquinha de troca de livros; crianças, adultos, idosos ou adolescentes, era nítido o olhar reluzente que transmitiam, toda vez que topavam com um título conhecido ou algum exemplar há muito desejado. O exercício da literatura também é isso, aproximar o público dos livros.

            Amor... Pelos colegas de profissão.



Uma das coisas que ficaram impregnadas na memória foi observar de perto a união do pessoal do teatro / circo. De empréstimo de figurino a ajuda para compor público, ali se viu de tudo que um artista pode fazer em favor do outro. Uma camaradagem genuína, daquele tipo que não se vê todos os dias. Arrisco a dizer que, se na literatura local tivesse semelhante movimento, as coisas seriam bem melhores para nossos escritos...
Amor... Pelo próximo.

Os voluntários do apoio: pessoal da cozinha, do som, iluminação e outros. Esta tropa recebeu os aplausos não do público, mas dos próprios artistas. 
Além de todo o contingente de artistas que dedicaram tempo e esforço para tal empreendimento, houve também todo um aparato de apoio por trás da lona: cenógrafos, iluminadores, operadores de áudio, até uma cozinha inteira, que alimentou não só o exército de voluntários, como também uma parte de público, que teve a oportunidade de saborear deliciosos pratos no meio daqueles que apresentavam-se por ali. Lembro que, quando desarmava diariamente minha barraquinha de livros, juntamente com a parceira Izaura Franco, quando tinha que carregar algum dos mais variados itens que acabamos levando para estes eventos, geralmente aparecia, assim quase do nada, algum integrante de grupo teatral ou pessoal do apoio e punha-se a ajudar na hora, espontaneamente, como devem ser feitas todas as boas ações. Fica a lição de civilidade e companheirismo, mesmo daqueles que nem cheguei a conhecer devidamente. Registre-se também que, mesmo nos dias de sua máxima lotação, não vislumbrei um único ato de vandalismo ou confusão no local; parece que a aula de cidadania dada pelo evento conseguiu ludibriar até dona violência, que agradecidamente não deu as caras por lá.

 Amor... No ar. Entre o público, entre as crianças, entre os espectadores e as apresentações, entre os músicos, artistas, nos palcos, nas ruas, no cortejo e na Ilha da Galhofa, na Feirinha de Pulgas, debaixo da lona ou no meio do picadeiro, o que se via ali era um exercício de amor. Pela arte, pelo companheiro, pelo próximo.  
A população participa ativamente desde os primórdios da Galhofada Cultural. Prova  viva que a Cultura é bem recebida em todos os lugares. 
            O amor, sempre ele. Até quando apresentou-se em sua singela forma fraternal. Veio por conta do bate-papo descontraído com um dos leitores presentes no estande, Júlio Cesar, que teve a felicidade de partilhar da intimidade de uma grande poetisa como Yeda Schmaltz. Fez ele um emocionado relato daqueles anos que dividiu com sua amiga de tal modo que pode-se sentir como se ela estivesse ali, conosco naquela barraca de livros, trocando impressões sobre o movimento de pessoas e artistas no local, da felicidade que é poder participar de um evento genuinamente artístico, de amor pela arte e pelo outro... A voz, por vezes embargada, fez um retrato fiel do relacionamento ─ conturbado em alguns momentos, como deve ser toda amizade sincera ─ mas, que no fundo deixava entrever o amor que ali existiu até depois do final.
             Exatamente o mesmo tipo de amor que parecia emanar da Ilha da Galhofa, naqueles quatro dias de efervescência cultural.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

le fabuleux



possuo uma anomalia
em meu coração
ele não esquece nada
e traz tudo que vivi

o olhar ainda é assustado
o inocente garoto
de lábios trêmulos
no nosso primeiro beijo

uma oração com dedicatória:
"ao nosso jovem e amado filho"
a minha dedicatória só está aqui
e redunda em silêncio e não foi:
"Marco Fernando saudades sempre"

hoje virei a velha caixa
de preciosidades do passado
e entre elas seu rosto jovem
uma fotografia antiga
de sua missa de sétimo dia.

a sombra


alguma coisa me persegue
roubando o melhor de mim
cobrindo minhas pegadas
sussurrando meu fracasso
e o desgosto já esperados

ri e zomba como se para sempre
me segue feito passado a assoviar
quem há de acreditar num imbecil
quem há de acreditar em um bêbado
que se entrega a qualquer derrota?

olho para trás e ela ali
é a única que não desiste
vê todos os meus passos
sem se comover
e não me deixa dormir

diz que sou um hipócrita
mais um infeliz sem saída
um maldito mentiroso
que por vezes se precipita
e já não quer continuar isso

não peço nem que
acredite que não sou louco
mas a figura está a me assombrar
na boca da noite, antes do porvir

breviário



em suas orações
sempre gozei
de liberdade:
polução

domingo, 2 de junho de 2013

O tipo de barulho que jamais se esquece

Ela não aguentava mais aqueles ruídos noturnos. Não era gato, não era chuva, não era o irmão. Não era nada.
Mas ela ouvia. E sentia.
Toda noite o peso do medo tomava conta dela.
Naquela madrugada, saiu a andar sozinha pela casa velha, os móveis estalavam. Lá fora o vento batia nas paredes querendo entrar. Mas não era isso o que ela ouvia.
Ela abriu a porta e viu a casa abandonada no outro lado da rua.
Eram duas janelas e uma porta, mas eram também dois olhos e uma boca muito nítidos para ela. O barulho que ouvia vinha de lá.
Foi-se aproximando aos poucos. Um velho poste piscando ininterruptamente iluminava o caminho.
O portão aberto era um convite. Ela não teve a coragem para entrar, mas ficou encarando aquela casa ainda mais velha que a dela.
A casa tinha certa personalidade. Dava a impressão de ter tanta maldade em si que parecia respirar um ar demoníaco.
A menina encarou, rodeou, mas não entrou. Resolveu voltar para a cama. Foi ai que a casa piscou um olho. Na verdade fechou uma janela, mas ela viu com certeza, o olho da maldade espiando sua caminhada. Correu pra cama e se escondeu embaixo dos lençóis.
A casa em frente abriu o olho, ou a janela. A porta deu um sorriso. E soltou a risada. A menina ouve a gargalhada até hoje, mesmo aos 70 anos. É o tipo de barulho que jamais se esquece.

sábado, 1 de junho de 2013

Sobre homofobia e adoção




Tenho na cabeça uns restos de cabelos compridos. Se faz frio, pra evitar asma, uso cachecol, não gosto de casacos, sou peludo, me suam os sovacos. Escutava um rock do Queen, “Don´t Stop Me Now”, e cantava like a lady Godiva a plenos pulmões enquanto esperava uma vaga em frente ao mercado. De repente, um carro canta os pneus ao me ultrapassar, buzina e dele saem gritos de “veado” e “bichona”.
Nem liguei. Estacionei tranquilamente e, ao sair, uma senhora me abordou: ”como existe gente tola, né?”. Só então caiu a ficha: xingavam a mim!
Fiquei todo nervoso, corri para a pista, reclamei alto que “eram machos para gritar e fugir, mas não para me encarar”. Tão logo disse isso, percebi quão incoerente era me revoltar. Os empacotadores do mercado me sorriram. Podia ler em seus olhos: “é, esse veadão é brabo”.
Fiquei ainda mais puto, mas comigo mesmo por não gostar de ser confundido. Oras, logo eu, grosso, peludão e marrento?
Percebi, então, que eu também estava sendo homofóbico. Se jamais me importei com o preconceito dos imbecis, já que o único juízo comportamental que me valia era o meu próprio, não deveria me chatear com aquilo.
Mas nada é tão simples.
Um “de menor” perguntou se podia vigiar o carro. Olhei pra ele com raiva. Também iria rir do baitolão aqui? Mas o menino só queria uns trocados, talvez pra arranjar um casaco, ele usava apenas uma camiseta velha e suja. Se ele tivesse sido adotado, sua vida seria diferente.
Se ele tivesse sido adotado por um gay, não seria diferente?
Meus miolos entraram em choque. Eu concluía, na cabeça de poucos cabelos compridos, um pensamento com nova forma: achava a adoção gay nociva à criança, mas entendia agora que era puro engano. Inda mais na questão da sexualidade. Gays dispostos a adotar jamais influenciariam seus filhos. Quem sofreu conflito (interno e externo) até se harmonizar, obviamente não obrigaria a qualquer visão de desejo sexual, exatamente por entender que não há escolha, é inerente de cada ser humano. O que eles fariam, certamente, seria educar a criança para que ela fosse livre de preconceito.
Ofereci meu cachecol ao moleque. Ele negou. Riu. Não sei se havia nele algum desprezo por receber um presente de um “agasalhador de croquete”. Ainda que existisse, seria compreensível. Era apenas um pobrezinho, não teve ninguém para ensiná-lo que gays são capazes de amar como qualquer um, até mesmo a crianças abandonadas por casais heterossexuais.
Continuo grosseirão e peludo, mas minha marra diminuiu. Vi que opinião boa é a de quem vivencia o fato.
Sofri com a homofobia.  Senti na pele como é incômodo ser destratado por algo que não é errado ou afeta a vidinha confortável dos outros.

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originalmente publicado no Blog Bastardos do Velho Safado