segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Tiflose

Às vezes, ser cego é enxergar além.
Sentir
As saliências do seu semblante desbotado
O bálsamo da matiz púrpura de seus olhos
O volume inesperado de tua boca

Ilumina
A paisagem do meu olhar
O breu do que vejo
Que se colore nos devaneios contidos em você

Vejo
O sentimento tão aguardado
Impossibilitado tantas vezes
Pelo conceito pré-deformado

Comportas
O meu mundo em desejos profundos
Profanas alegrias
Clareiam o mais inóspito dia

Enceta
A vida tão resguardada
Hirta pela luz, claridade que falta
Assustada pela cor que tinge minha alma

Aprendi
Que sobrevivendo vou aprendendo a sobreviver
E que sobre viver
É viver vivendo intensamente sem saber

Concluí
Que a luz que me falta não faz morrer
Pois a luz que importa, ilumina e salta aos olhos de viver
Está bem a frente...está em você

domingo, 11 de agosto de 2013

MILAGRES



MILAGRES

.
meu olho sangrou.-milagre, milagre, milagre!!!... o santo diz que é a cura da tal alma que enche verso e mais versos nessas poesias de dona de casa. milagre! o santo leu minha poesia e me penitenciou. nunca mais poetei por medo de pecar. melhor escrever barbaridades porque o mundo é de madame satã. há milagres que vem para o mal. milagre!! sangrei pelo ouvido. como se alguém dissesse que estou surdo, gritei blasfêmias ao deus local. milágre!, depois de me convencer de que o vermelho se transformara num roxo capenga embutido na face. e já era tarde pra acreditar que respirei restos de um sangue escorrido pelo nariz. -milagre!, antecipei à vindoura missa de domingo...
 .






*imagem da internet

sábado, 10 de agosto de 2013

Convidado Jonatas Rubens Tavares



Reflexos

Alzira passava por uma crise de identidade um tanto quanto diferente: Ela sabia muito bem quem era. Não tinha dúvida alguma em relação á isso. O problema eram as outras pessoas. Estas, sim, não sabiam quem era Alzira.
Os colegas da faculdade e do trabalho não a conheciam, as amigas (até mesmo as de longa data!) também não, o namorado não a conhecia, seus pais (com quem dividia a mesma casa desde o nascimento) também não. Aquilo tudo era muito estranho e incômodo. Sentia-se coadjuvante da própria existência. Vivia em um mundo em que as pessoas não se conheciam e nem se esforçavam para tanto.
Alzira não queria ser o centro das atenções, o centro do universo; Só não queria mais ser subestimada. Era isso o que mais a perturbava.
O jeito, a solução encontrada, foi mostrar a que veio. Mas muitos não gostaram do verdadeiro eu de Alzira. Procuraram se afastar. E a moça tinha de admitir: agindo daquela forma, querendo mostrar-se, provar-se, distorcia, de alguma forma, a própria personalidade. Distorcia o seu próprio Eu. Então a sua crise de identidade só piorou. Agora, ela mesma tinha dúvidas quanto a quem era de fato a Alzira que até pouco tempo atrás acreditava conhecer tão bem.
-Quem sou eu? – Perguntou a moça, aos prantos, ao namorado.
-Você é a mulher que eu amo...
Pois o namorado amava uma pessoa que não existia. Amava a imagem que tinha de Alzira, não a Alzira em si. Talvez ela mesma estivesse apaixonada apenas pelo que acreditava ser seu namorado. Esse pensamento a confundiu. Na certa, todos que ela supostamente conhecia eram apenas uma imagem errônea que ela havia produzido... Tratava-se de um mundo muito estranho, repleto de pessoas estranhas, que, estranhamente, estranhavam-se entre si mesmas... O fato é que a verdade não passa de um belo engano enquanto o que julgamos engano é o que talvez mais se aproxime da realidade que julgamos conhecer, mas que na realidade desconhecemos totalmente... Duplamente enganados.
Alzira procurou acalmar-se e, após uma longa e regeneradora noite de sono, estudou o próprio rosto no espelho. Não conseguiu distinguir, naquelas feições, o seu Eu. Era triste, mas era verdade, era realidade:
As pessoas nos veem como nos enxergamos no espelho: Apenas um mero reflexo do que realmente somos. 

---
 Jonatas Rubens Tavares
http://ooportal.blogspot.com.br/

 

Bar do Escritor em Quadrinhos

Carlos Cruz

Wilson R.

Giovani Iemini
Cristiano Deveras
Pablo Treuffar
Magmah

O próximo projeto do Bar do Escritor é uma HQ COM OS CONTOS DAS ANTOLOGIAS! Literatura em quadrinhos, não podia ser mais interessante.
Quem encabeça a edição é Luiz Augusto de Souza, que lançou a espetacular graphic novel Mitologias, uma história fantástica que acontece na cidade de Paraty. Ele escolheu os contos que melhor se encaixariam num gibi e chamou vários desenhistas para contarem suas versões em quadrinhos.
 

Nos esboços acima, os autores que serão os personagens das histórias.

Como este é um projeto grande e com várias peculiaridades, estamos buscando patrocínios, apoios e participando de editais públicos para a realização da empreitada. A ideia é remunerar os participantes, nem que seja com parte da produção para a venda. Assim, caso conheçam quem possa nos ajudar, entre em contato. Se quiser participar de alguma forma, entrem em contato com o Luiz.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

CADEIRA DE RODAS, MULETAS E FISIOTERAPIA. - a saga de uma reabilitação


Ao ficar um ano de cadeira de rodas
Me acalmei
Por saber que voltaria a andar
Relaxei
Sempre fui ansioso
Nesse ano sabático
Fui incentivado a não fazer nada
Ócio deliberado
Todos deveriam experimentar
Coisa fina
Calmaria
Entre muitos baseados e bebidas alcoólicas
O elixir da vida
Baixo Gávea e praia de Ipanema, às vezes Aristides Espínola.
Eu tinha o tempo a meu favor
Bagulhos
Chopes
Tecos
Ácidos
Ecstasys
Bucetas derivavam desse aglomerado de dias e noites em unidade
Deus salve a ilegalidade
Daime todo mau, amém!
A época da promiscuidade ilícita
Velei o sono de várias bundinhas cocainômanas
Mulheres estonteantes
Encantadoras
Eu as droguei
Abusei delas
Fui pau amigo
Em troca recebia bocas insanas
Burguesinhas vocacionais da fixação oral
Na minha condição de paraplégico provisório, mamadas eram volúpias de propriedade.
Mulheres se ajoelhavam diante da cadeira de rodas
Fetiches, são eles que nos diferenciam dos animais.
A melhor trepada da minha vida aconteceu no andamento das quatro rodas
Uma morena de alma apetitosa e corpo cavalar mandou um bilhete pedindo pra ver-me bater punheta
Durante o rito sexual, ela balbuciou palavras de não traição ao namorado.
Degustolhando-me o membro sacerdotal ela falava hipnotizada não estarmos fazendo nada
Um rostinho lindo a centímetros do meu pau confessando seus não pecados
Ejaculei litros de imoralidades qualificadas a décima potência na negação do outrem
O fescenino de minh'alma mandava as promiscuidades da pornografia
Lascividade inebriante
Sexo é isso
O corpo de uma mulher regido pela buceta da alma
Se sexo fosse penetração não existiria homossexualismo feminino
Eu penetrei almas pervertidas
Simples assim
Depois do primeiro ano na cadeira de rodas vieram as muletas
E com elas a fisioterapeuta
De segunda a sexta uma loura recém-formada levantava e abaixava minha perna aparafusada
Exercícios de rotina no seu consultório
Não era só minha perna que ela levantava
Com o tempo ela resolveu dar uma mãozinha
Sessões de fisioterapia peniana faziam parte da minha série de repetições
Seu namorado era ortopedista no mesmo prédio
O meu ortopedista
Foi ele que me indicou a punheterapeuta
Ela era da turma das que se formaram achando que negar a buceta no sentido pedagógico é não trair os seus
Definitivamente meu tipo de mulher
Eu legitimava tal pensamento não a beijando
Aprendi muito com as mulheres dessa turma
Beijar na boca e meter na buceta não pode: é traição.
E isso eu não faço
Eu tenho limites
Mas nem tudo eram férias sabáticas a gozar
Seu namorado e ilustríssimo ortopedista nos pegou no flagrante
Ele não apoiou a teoria da não traição
Tem horas que é melhor apanhar do que explicar
Apanhei
Tomei muita porrada
Bons tempos das trocas justas
Do toma lá da cá
Do aqui se faz aqui se paga
Onde eu dei a porra e recebi o equitativo troco
Hoje ando e corro de um lado pro outro sustentando o conceito de família
Sou a pessoa ao lado almoçando sem vocês perceberem
Normal como Norman Bates
Estou por um fio
Saudades da minha cadeira de rodas

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
CADEIRA DE RODAS, MULETAS E FISIOTERAPIA. de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Balzac sem SAC



deus, o todo-poderoso-de-olhos-chamuscantes, materializou-se em minha bacanal onírica e, esbanjando austeridade e vozeirão de trovão, mandou a letra, na lata: "quereis usufruir os prazeres e dissabores da vida mundana ad infinitum? comprai e lede balzac. enquanto não exaurirdes a comédia humana, vosso espírito permanecerá encerrado no cárcere que expele vapores nauseabundos, a sorrir pateticamente de sua própria vileza." eu, que não sou bobo nem nada, antevendo-me um highlander de espada flamejante sempre em riste, relampagueando a la he-man, acresci proust à lista e cliquei no botão comprar. foi aí nesse ínterim fatídico que o pequenino avatar brotou no canto esquerdo inferior do vídeo. evitei encarar os olhos-de-fogo pra não virar estátua de sal ou churrasquinho de carvão, mas o cabeludo barbudo grisalho sorridente, sem mais e de repente, foi ficando enrubescido, à proporção que o ígneo dos olhos enegrecia a olhos vistos. não tardou e a possibilidade de mirá-lo sem os receios pétreos iniciais deu o ar de sua graça, devidamente acompanhada e assistida pela recém-manifestada nefanda constatação: eu me fodera. o barbudo era o chifrudo de cavanca, rabo e cascos de bode. "me chamo mefistófeles. que prazer te conhcer!", disparou o sem-mãe, entre risadinhas zombeteiras. mas nem, pensei. morro, mas morro letrado, entupido de cultura a peidar literatura. "aqui jaz carlos cruz. ele leu balzac." ui. de mais a mais, vamos e venhamos que um livro com esse nome deve ao menos possuir algum humor. foda-se o capiroto traíra filho da puta e suas traquinagens de sérgio malandro glu glu ié ié. eu vou ler essa caralha. se à palavra fim inda houver respiração, emito minha opinião. se não, boiemos na crista do aluvião, sentemos sensatos à sombra do pé de feijão e, com unhas e dentes, destrinchemos carinhosamente nossa adorável auto-aberração. tudo é ficção.

Carlos Cruz - 20/03/2013

domingo, 4 de agosto de 2013

CUIDADO!



Ei, você aí empregado
você,
embaixo do ar-condicionado
toma cuidado, barnabé
a foice do corte se aproxima
e amanhã, talvez
pode ser que você esteja aqui
ao meu lado, pedindo trocados,
na Goiás com a Quatro
sentindo o olhar desdém
que outros como você
(ou como eu antigamente)
lança ao sujeitos das sarjetas

Como pode o único animal racional
cognitivo e pensante (também auto-limpante)
que entrega Oscars®
que entrega Nobels®
que entrega, putz, Pulitzers®!
deixar seus semelhantes
jogados às traças
como trapos velhos


Cuidado com a foice, barnabé... 

sábado, 3 de agosto de 2013

Bar do Escritor completa 08 ANOS


PARABÉNS a vcs, escritores, que publicam no fórum do Orkut, no blog, no ezine, nas antologias, no facebook e nas diversas comunidades vinculadas, que participam do BdE desde sempre ou de agora.
PARABÉNS, entusiastas das letras em todas as suas formas: publicados, impublicados e impublicáveis, que não se sentiram censurados e tampouco se guardaram em gavetas escuras e sombrias ou em arquivos escondidos em CPUs perdidas.
PARABÉNS, amigos, que tornaram esta comunidade um ambiente livre, crítico, saudável e difusor da literatura nacional.
PARABÉNS, sobreviventes, que superam a volubilidade do tempo e permanecem se divertindo com todos os textos do BdE.
PARABÉNS, BARNASIANOS, pela concretização deste movimento literário que já se insere nas nossas histórias.

um brinde ao BAR DO ESCRITOR!


infalível

terra onde pouco

se vê
pois há apenas
tanger

das eras de entes
dos tempos idos
"olho por olho"
já não se tem dentes

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A CHAVE

Não tenho medo de fantasmas. Quero dizer, quase nunca. Porém, confesso que me assustei. Era apenas um sonho, mas nele vários seres de outro mundo me perseguiam. Corri, corri e, já desesperada, acordei. Dei um pulo ao despertar na minha poltrona no final do ônibus. Fazia frio e mesmo assim eu estava suando. Olhei pela janela na tentativa de me recompor e vi a fumaça ao longe. Cerrei os olhos para ter mais nitidez e por alguns segundos tentei enquadrar o incêndio, mas tudo o que pude ver foi o imenso mato que corria pela beira da estrada e lá na floresta, escondido, o telhado de uma casa velha. Assim como apareceu, sumiu. O cheiro ficou no ar. 
A viagem estava tão cansativa que nenhum dos passageiros pareceu se importar. Muitos ainda dormiam. A impressão que tive é que somente eu vi aquilo. Dei de ombros. E o ônibus veloz deixou o fogo para trás.
Apesar do pequeno susto ao acordar, os pensamentos finalmente foram se tornando mais claros. 
Éramos uns 30 passageiros naquele veículo. Cada um carregando seus sonhos e planos. Os meus eram simples: instalar-me confortavelmente na pacata cidade e recomeçar a vida. Aceitei o emprego numa casa de família. Pelo anúncio no jornal seriam duas crianças que ficariam sob minha responsabilidade. Perfeito, pensei entusiasmada. Fiz as malas e lá fui eu.
A pousada que reservei era perto da prefeitura. Desembarquei e a pé mesmo achei o endereço. Instalada, refeita da viagem, fui tomar posse no meu novo emprego. Salário digno, casa e comida. Para aquele momento, me bastavam.
Chegando lá fui muito bem recebida. As crianças? Educadas e prestativas. Uma menina linda de cabelos cacheados e o irmão gêmeo de sorriso maroto. Imaginei que não teria muito trabalho com eles.
Em poucos dias deixei a pequena pousada e fui morar no quarto de hóspedes da casa. Logo me adaptei à rotina. Os patrões rapidamente se transformaram em pais adotivos para mim. Eu estava muito feliz ali. Acumulei algumas funções e além de cuidar da educação das crianças, passei a organizar a cozinha e a casa. Também passou a ser minha responsabilidade as compras no mercado.
Certo dia, indo em direção ao centro para comprar frutas e legumes, passei em frente a uma casa velha, quase caindo aos pedaços. Achei estranho, nunca tinha reparado na tal casa. Mas lá estava ela, fria e mal acabada, quase mal assombrada. Acelerei o passo e não olhei para trás. Mesmo não acreditando em fantasmas, nunca se sabe. Nos sonhos eles me assombram.
Na pressa de me livrar do calafrio que senti ao passar pela construção antiga, dobrei na rua errada. 
– Ah não, errei o caminho, lamentei a um gato que me olhava de soslaio. Mas fui em frente. Vi que lá longe a rua se bifurcava. Rua deserta, apenas terrenos arenosos ou abandonados. Caminhava rapidamente. Perdi de vista a casa velha. E me deparei com outra esquisitice: uma casa escondida atrás das árvores. De muitas árvores. Quase uma floresta. Curiosa, fui vencida pelo impulso e entrei pelo matagal. A minha esperança era conseguir alguma informação de como chegar ao centro da cidade.
Vindo do nada, apareceu um homem mais assustado que eu, pedindo ajuda. Desesperado, em pânico, falava de um incêndio na casa. Estiquei o pescoço e avistei a fumaça. Imediatamente me vi de volta ao ônibus, apavorada olhando pela janela e encarando a mesma nuvem negra, o mesmo telhado. Tentei afugentar a visão, disfarcei e me prontifiquei a chamar os bombeiros ou carregar água para reduzir as chamas. O homem implorou para eu não fazer isso, ele queria apenas que eu cuidasse de uma caixa que carregava nas mãos. Eu disse que sim, cuido, mas o que você vai fazer? 
– Vou voltar, me disse ele. Preciso voltar. 
– Não, insisti. Está um cheiro forte de queimado, pelo barulho das labaredas imagino que esteja muito perigoso entrar por ai. 
Mas ele implorou para que eu pegasse a tal caixa e correu em direção a casa. Fui atrás dele, mas me perdi entre tantas árvores que cercavam o lugar. Quando finalmente enxerguei a fachada da casa percebi que não havia fogo. Nem o homem estava lá. Atônita, dei uma volta completa no terreno. Nem sinal de fumaça. Bati na porta e nada. Ninguém atendeu. Voltei para o matagal aos gritos por alguém. Eu não podia acreditar: ele entrara por aquelas árvores e não saiu em lugar algum! E o fogo, se foi?
Ouvi um carro ao longe. Fui correndo em direção à rua e fiz sinal para o motorista que estacionou. Surpreso me deu boa tarde. Perguntei se tinha visto um rapaz, sujo, apavorado, correndo por ali e ele me garantiu que não. Contou inclusive que estava há algum tempo no início da rua trocando o pneu furado e jurou que não viu ninguém, nem indo, nem vindo. A não ser eu. Fogo? – Não senhora, só o sol quente mesmo.
A mesma sensação de medo dos meus sonhos invadiu meu corpo. Fiquei com as pernas bambas. Esqueci que estava indo fazer compras e voltei para casa dos patrões. Aos prantos. Eu sabia o que tinha visto, o que tinha sentido. O cheiro de queimado estava lá. Eu não podia ter imaginado tudo aquilo e finalmente lembrei: eu tinha a tal caixa comigo. Eu não estava louca.
Corri para meu quarto e quase quebrei a caixa ao abri-la afoitamente. Dentro dela, uma chave. Nada escrito. Nem uma pista do que poderia ser. Escondi embaixo da cama. Caixa, chave e medo. Limpei o rosto, dei uma desculpa qualquer sobre voltar de mãos vazias das compras e fui cuidar do jantar.
Os dias seguiram como se nada dos últimos acontecimentos fosse verdade. Quando o medo quase sumiu voltei a ter pesadelos. E eles se repetiam e se repetiam . Acordava no meio da madrugada com a nítida impressão de que alguém estava comigo no quarto. O pânico tomou conta de mim. Com as noites insones meus afazeres ficavam a desejar. As crianças se afastaram. Os donos da casa já me olhavam desconfiados. Com o tempo além dos sonhos, o cheiro de queimado passou a me atormentar. Sentia no quarto, no banheiro, na cozinha, na sala. Eu, sem saber o que fazer ou pensar, procurava o fogo e não encontrava nada. Procurava embaixo das escadas, atrás das portas, afastava os móveis para achar alguma fagulha, uma fumaça que fosse. Minha figura já estava de dar pena.
Comecei a imaginar que a tal caixa com a chave tinha alguma coisa a ver com isso. Cansada de me sentir apavorada, falei com o filho do jardineiro para me acompanhar até a casa onde encontrei o homem apavorado. O rapaz foi comigo e encontramos tudo bem, nada destruído. Ele também sentiu um leve cheiro de fumaça e chegou a ouvir um barulho que me descreveu como algo queimando. Mas não havia sequer indícios de que alguém estivesse por lá. Tentei a chave em todas as portas e nenhuma abriu. Desistimos.
Não me dei por satisfeita e voltei no dia seguinte por conta própria. Será que a chave abre algo que está dentro da casa? Forcei uma entrada na janela mais velha que encontrei. Apenas o reboco caiu. Inútil. Gritei de tanta frustração. A única resposta foi o vento balançando as árvores. Aliás, a floresta que cercava a casa estava mais densa e parecia ainda maior naquele dia.
Agora estou aqui. Louca e sozinha. As crianças choram ao chegar perto de mim. Dizem que estou sempre com esse cheiro de queimado na roupa, nos cabelos, na pele e sentem medo dos meus olhos endiabrados. Meus patrões mandaram me internar. Eu continuo a sentir o calor do fogo. Às vezes tenho a nítida impressão de ver no corredor do sanatório as labaredas subindo pelas paredes. É só manter os olhos bem fechados que a visão vai embora. Menos o cheiro. E a chave? Está aqui comigo, dentro da caixa. Todos os dias olho para ela e imagino que porta a chave abre. Ou pior, que porta ela deveria manter trancada.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Sobre os tais 20 centavos




Deixei o carro de manhã na oficina eu fui pro ponto de ônibus. Até me ofereceram carona, mas falei “ah, um busu não incomoda, relaxa”. Subi no 136 para sair do burguês Lago Norte em direção ao centro de Brasília. “É pela W3, motora?”, ele confirmou.
Li na plaqueta: ônibus urbano I custava 2 reais, urbano II era 3 reais e outros mais. “Quanto é?”, o cobrador esticou dois dedos, depois aumentou um, ou seja, 3 reais. Paguei, mas, confesso, achei estranha a mudança de dedos, talvez fosse lerdeza do cara.
Pensei na minha própria lerdeza e fui me sentar. Sou daqueles calmões que saem da paz completa para DEFCON 5 em milésimos, normalmente por conta de sacanagens, babaquices ou tirações de onda.
Aconteceu, certa feita, de ir com minha sobrinha ao banco e parei o carro em frente a uma vaga. Esperava o veículo da frente passar, não queria atrapalhá-lo, porém ele embicou pra minha vaga. Dei uma buzinadinha, dessas que dizem “hei”. O sujeito, um hipster, falou “você não tava dando seta”. Ok, não tava mesmo, não era óbvio que eu ia estacionar? Mas me contive, acelerei cinco metros e estacionei em outra vaga. Saí de mão dada com a sobrinha em direção ao banco. O sujeito, cabelinho irregular, óculos grosso sem lente, camisa xadrez de flanela vermelha combinando com o tênis AllStar, me abordou e proferiu “pra você estacionar na vaga tem que dar seta”. Da paz a DEFCON 5. Soltei a mão da sobrinha e a empurrei para trás de mim. “Fica na tua, filho da puta, que não reclamei da tua babaquice”. Ele insistiu “mas a seta...”. “vá se foder, seu merdinha, que tu é um escroto ladrão de vaga que não vale a bosta que come”.
Minha sobrinha cobriu os ouvidos e, espirituosa, comentou “pode falar, tio vani, que não tô escutando nada. Laralá”. Mas eu já tinha dado meu recado. O hipster se calou, fez que ia voltar para o carro, se virou para o banco e, então, deu a volta sobre si mesmo e foi pra lugar incerto e desconhecido.
Ri um pouquinho, é verdade, mas como eu deveria agir com um sujeitinho desses, que pra se justificar por sua descortesia, tentava me culpar pelo próprio erro? Se eu já havia consentido que ele poderia ficar com a vaga pela minha falta de seta, pra quê tirar onda? Ri mais um pouco do desconcerto do cara depois da minha bronca.
O motorista do busu que eu tava entrou no Eixo W em direção à rodoviária. Fui até a frente e perguntei “hei, motora, você não falou que ia pela W3?”. Ele não respondeu. Resolvi manter a calma, não quero mais rugas e, como parafraseou o confrade Carlos Ayres Britto, para isso basta diminuir as rusgas. Saltei do ônibus e andei o excedente até meu destino.
Na volta do escritório, à noite, peguei o mesmo ônibus e, curiosamente, com a mesma dupla motorista e cobrador. Coincidência? Isso não existe, era mesmo indução quântica sobrenatural.
Perguntei novamente ao cobrador, “quanto é?” e ele respondeu “dois”. 
Eu ri. Ou melhor, mostrei os caninos. Que malandro, o cara. Sacou que o branquelão aqui com cara de burguês nem imaginava o preço da passagem de manhã e surrupiou um real, 50% do valor total, muito mais que os tais 20 centavos que estão mobilizando o Brasil. Eu ia deixar barato? Jamé!
“Ô cobrador, a passagem baixou?”. Ele abriu dois olhões de reconhecimento. “Tá lembrando de mim, né? Você me roubou um real!”. Ele olhou para o motorista, o tal que não foi pela W3 e me obrigou a caminhar excessivamente. Provavelmente eram parceiros. Eu poderia enraivecer até o DEFCON máximo, mas havia me exercitado durante o dia, caminhada com mochila nas costas, tava com fome, ia deixar barato sim, mas não sem dar o recado. “Tu é um ladrão filho da puta de merda, é por conta de gentinha como você que este país é um cu fodido.”. Exibi novamente os caninos. “Vou quebrar tua cara”.
É claro que não bati nele. Retesei os músculos e rosnei um “há” pra cima do canalha. Ele quicou de susto. E eu, novamente, ri. Fazer o quê? Espancar cada babaca safado que cruza meu caminho? Não sou o Zorro, só vivo nessa zorra humana por falta de opção, aliás, só mesmo num mundo alienígena para me sentir em casa.
Me sentei, caninos expostos num sorriso de vingança, pensando quão relaxante estava pegar o busu vendo a cara de vergonha do cobrador. Ainda me incomodava o caso do hipster, a bronca com ele só voltou por entender que algumas pessoas já estão exasperadas com as babaquices alheias, porém ele não deveria ter tirado onda. Comigo não, faço de tudo para não atrapalhar a vida de ninguém, não me venham com sacanagens.
Quando chegou meu ponto, gritei pro motora “anda mais cinco metros, safado, que quero descer desta vez no lugar certo”. Ele assentiu sem pestanejar, sabia que me devia isso.
Os 20 centavos que incomodam tanto não são uma questão dinheiro, mas de educação, respeito e honestidade. 

---
crônica tb publicada no blog do autor.