terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sabotagem





Contei até dez e
Meio incerta
Disse não pro teu sorriso

Não quero mais no meu colo
Essa alma desabalada
Essa coisa quebrada
Esse desejo inacabado

Decidi

Flanávamos no meio dessa aurora
Tudo era baço menos teu sorriso

Não te contei?

Sei desfazer o laço
Bastaria cortar essa liga
Que tua língua tem
Que me fisga

Bastaria não pensar
Calar tua voz imaginada

Bastaria...

Eu sei

Desfazer o laço
Fugir desse abraço
Contar até dez
Até cem
Até...

Que teu sorriso
Desata a ponta
Noutro canto
E vem outra noite
Outro verso
Outro encanto
E esse fado
Fiado em desertos

Os fios desse estofo me distraem
Embaraço os dedos nos teus
Risco tuas costas
Desenho teu nome
Sorrio
E fico
Enovelada
Enroscada
Enrascada
Engasgada

Traçando mapas para o nada
Perdida e enredada

Não quero contar mais nada
Confesso às minhas asas

Aquelas que dormem bem ali
Presas por teus alfinetes na almofada



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Um hotel na Monsenhor Eduardo


15h47
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Bebeu um gole no gargalo da garrafa, a língua já áspera pela mistura de vinho, cerveja e cigarro. Sentindo o álcool fazer efeito e elevar suas vistas turvas, se acomodou na poltrona.

Na calçada em que se encontrava jogado algumas horas antes, sua cabeça, ao acordar foi a primeira coisa que sentiu. A pele da cabeça, o couro cabeludo sendo arrastado no cimento. Convulsionava. Tinha isso às vezes, monstro sinistro escondido sob seus olhos. Era sempre de repente, súbito.

Às vezes quando tinha soluços, temia que deles, os soluços, como que em contrariada disputa, brotasse a temida crise de epilepsia, impondo sua histeria muscular. Não há quem se sinta à vontade dentro de uma crise de epilepsia. Um caldeirão fumegante, panela de pressão borbulhante. A sensação eminente de que uma multidão de demônios lhe arrancará a língua, ao mesmo tempo em que desejam e tentam sair por todos os seus poros.

Quando tudo acabava sobrava um gosto de sangue em sua boca, nem sempre, mas muitas das vezes que acometia uma visita a esse inferno.

- Dá um gole - pediu ela.

Ele se voltou, corpo arqueado em um quase S. Percebia-se como um boxeador morto em combate e ressuscitado por obrigação contratual, forçado a terminar sua luta. Só que seu Dom King* era um Deus escondido atrás de seu globo ocular. Encoberto pela retina negra de seus olhos.

Assim, ele se virou contorcendo todos os músculos doloridos das costas. Suas vertebras fora do lugar rangeram num imperceptível som, minúsculo aos nossos ouvidos.

- Toma. Vou abrir outra.
- Me morde.

Ele caminhou sorrindo, olhando os prédios emoldurados pela janela gradeada e aberta de seu quarto.

Quando das primeiras crises, ainda adolescente, acordava dos delírios com um tesão desgraçado. Logo já ficava de pau duro, e tinha realmente de ficar sentado, quieto, como todos sugeriam, não para se recobrar do choque, mas justamente, pra tampar o membro rijo nas calças.

Beber e transar depois das crises sempre foram seus principais objetivos. Não havia outras formas melhores de libertar a tensão dos choques e da violência das convulsões.

Abriram as cervejas e jogaram as tampas num latão de metal no canto do quarto.

- Vamos depois destas?
- Sim.

Ele queria perguntar a ela como havia acontecido o surto, mas era decepcionante ouvir algumas pessoas dizendo. Não tinha riqueza de detalhes nem tensão narrativa.
Muitas vezes era apenas - "Você caiu de repente e me assustou".

Como que lendo seus pensamentos, ela inexplicavelmente diz.

- Achei que você ia morrer hoje. Estávamos caminhando, você estava fumando e falando sobre as bolsas de valores quebradas na Europa e da última entrevista do Irmão Isacke, daí seus olhos se fecharam rapidamente, achei que você fosse rir, mas contorceu a cara – e ela imita lindamente a cara que ele tinha feito – e bateu com a cabeça na parede. Se a gente estivesse numa ponte ou em um barranco, você tinha “ido” – e ela ri da possibilidade – Você deu um pulo para o lado de lá e despencou, se debatendo meio que contra a parede. Eu já tinha visto crises mas a tua é muito forte.
- Sou um tipo de hulk imprevisível do cotidiano.
- Você é doido.
- Vou comprar um cigarro. Quer algo?
- Mais cerveja.

Ele riu, vestiu as calças, os chinelos e uma camisa.

- Se apronte que já tá dando a hora.

Frances era ótima companhia. Inteligente, rápida e confiante. Em uma única troca de olhares e num arfar profundo do ar ao entrar em um ambiente, era capaz de compreender tudo o estava ocorrendo em uma situação e à sua volta. Sexto sentido era seu sobrenome. Seus punhos e braços cheios de cicatrizes e marcas feitas com gilete e cortes produzidos por tesouras cegas e facas de cozinha eram signos de sua ruptura com a autocomplacência. Frances há muito tempo era uma solitária, apesar de ser uma mulher muito bonita, o que em certo sentido só reforçava sua melancolia.

Ele desceu pelas escadas os dois andares do Hotel Paris na Avenida Monsenhor Eduardo. Atravessou a rua e entrou em um bar de madeira, misto de botequim e pequeno prostíbulo popular, que inclusive funcionava às tardes, atendendo aos jovens trabalhadores da região, que se deitavam, com nenhuma desenvoltura e alguma vergonha, com as barrigudas moças vestidas de calças legging.

- Um maço de cigarros, por favor. Um Belmont vermelho.

Duas crianças se alimentavam de bolachas e refrigerantes em uma mesa próxima. Filhas das jovens meretrizes, com certeza. Tinham aspecto saudável e o cabelos revoltos característicos de meninas de 8 anos. Cabeleiras indomáveis e brincalhonas que lhes caiam em cachos nos rostos e angelicalmente, com as mãozinhas atabalhoadas, eram jogados para o lado ou prendidos no alto das cabeças.

Atravessou a rua novamente, com um cigarro acesso nos lábios pensando que em sua infância e depois adolescência, havia comido muitos pastéis na feira livre, pelas manhãs, naquela extensa avenida. Muitas vezes vindo de alguma festa de sábado à noite.

Quando saiu de Uberlândia aos vinte e poucos anos pra viver na fronteira do Paraguai, não tinha ainda o entendimento do mundo. Da vida. Não havia amado ainda, não havia passado fome, sentido dor ou se fodido e muito menos pensava que iria um dia matar alguém. Tantos anos depois, retorna justamente para realizar um trabalho na cidade em que nasceu.

Disse à atendente do Hotel que estava saindo e subiu as escadas.

- Frances, vamos?

Ela já estava pronta, vestida de calça jeans justa e botas, colocou uns óculos escuros e foi ao banheiro. Depois, jogou a bolsa no ombro e o esperou vestir uma nova camisa limpa e seus sapatos. Desceram juntos e pediram à atendente que chamasse um táxi. Ele carregava uma mochila de viagem nas costas.

- Vamos para o bairro Roosevelt, amigo. – o taxista partiu rumo ao destino.

O Roosevelt é um bairro nascido nos anos 40 ou 50 e rezava uma lenda sobre ele. Que havia sido projetado por um arquiteto comunista para que servisse de “aparelho”, de esconderijo a perseguidos pela ditadura Vargas. Suas ruas eram totalmente confusas e em vários pontos formavam labirintos, pontos cegos e becos. Caracóis de asfalto e postes de luz. Um lugar facílimo para se perder. Mas, não hoje.

Desceram do táxi a alguns quarteirões do destino final e caminharam adiante. Tocaram o interfone de uma casa com cercas elétricas sobre um muro verde alto.

- Oi? – perguntou a voz de um homem.
- Olá. Sou eu. Omar. – respondeu.

O portão foi aberto.

A área externa da casa era arejada e bonita, decorada com muitas plantas dependuras em xaxins. Um grande cachorro pastor alemão os observava de um canto, com uma cara lerda de quem sabia ser ele, o grande dono de todo aquele pequeno reino arborizado.

- Olá, Omar. – um homem de cerca de sessenta anos, cabelos grisalhos e bigode preto veio lhes receber - Vamos entrar.

O interior da casa era muito elegante, com grandes tapetes cobrindo o chão, vários quadros e uma adega com garrafas de vinho e cachaça.

- Bem, vamos ao que interessa. O alvo estará na Cidade Jardim, em uma reunião com empresários por volta das seis horas. O endereço você já decorou?
- Claro.
- Não precisamos de alarde nem de grande confusão.
- Obviamente você não precisa dizer isso.

Nelson o olhou nos olhos nesse momento, fixamente. Era um homem acostumado a dizer o que quisesse e pensava. Não estava familiarizado com ninguém lhe dizendo que não precisava falar o que queria.

- Certo. Bem, então tome aqui. – lhe empurrou um envelope que estava sobre a mesa. Olhou novamente para o homem à sua frente. Em pé, Omar lhe pareceu mais velho, sob a sombra do pórtico. Nelson pensou; “um assassino deveria ser mais humilde. Para alguém que não dá valor à vida, deveria entender que a sua própria também não vale nada, e que uma palavra mal dita poderia lhe custar um tiro na nuca, nesse exato momento”. - Ok, Omar. Boa sorte.
- Obrigado.

Saíram sem se cumprimentar ou despedir. Com o dinheiro no bolso e a adrenalina aumentando, sua mente agora passava a raciocinar exclusivamente sobre os detalhes que teriam de cumprir para que o trabalho fosse feito.

- Frances, vamos tomar um café?
- Claro.

Pediram dois cafés em uma lanchonete na Avenida Cesário Crosara.

- Faremos como sugeriu?
- Sim.
- Você está bem? Pergunto por conta da crise epiléptica.
- Fique tranquila. Não irá acontecer novamente. Fique tranquila.

Saíram caminhando pelo bairro e depois de vinte minutos avistaram uma Pajero preta com placa de São Paulo estacionada sobre uma calçada. Omar retirou do bolso uma chave, abriu as portas da Pajero e entraram.

- Liga o som pra gente.

Tocava jazz numa rádio local.

- Por mais que o mundo pire, veja bem Frances, a música sempre existirá sobre nossas cabeças, sobre nossas vidas. A música é intocável.
- Não sei. Acho que música tem sua época, essa aí não me agrada. Muito chata.

Dirigindo Omar riu e se distraiu com o solo de trompete do grupo de jazz. Gostaria de saber quem estava tocando. Torcia para que o apresentador dissesse. Detestava dúvidas. Seguiram-se então mais duas composições de jazz e ao entrar no ar, falando calmamente, o locutor disse ser aquele o programa “Jazz by Jazz” da Rádio Universitária, e anunciou o fim sem disse o nome das canções.

Omar pensou – “Meu Deus. Isso não foi um bom sinal. Merda!”

Logo em seguida um programa sobre a atual conjuntura política do país entrou no ar, com convidados debatedores.

Depois do assassinato da presidente Dilma, exercendo seu segundo mandato, o país se tornou uma terra gigante e sem lei. Com a intervenção da ONU e do governo norte-americano, os grupos de poder conservadores nacionais articularam a grande campanha pró-presidência de um jovem político religioso e negro, Irmão Isacke, que venceu as eleições em 2018.

O panorama político e social do país se encontra desde então como um barril de pólvora, mas não prestes a explodir e sim, com seu pavio sendo acesso diariamente e esse barril, como um Cristo ressuscitado ao terceiro dia, ressurgindo sanguinário e explosivo a cada manhã.

Rumaram para o bairro Cidade Jardim. Estacionaram o carro num descampado ermo e montaram, juntos, o rifle de alta precisão Barret M107, que estava embaixo do banco traseiro da Pajero.

Com a mira telescópica focada no saguão da casa onde o alvo se encontrava, aguardaram em silêncio por cerca de trinta minutos. Então um grupo de pessoas saiu de dentro da casa, conversaram um pouco no saguão e se despediram. Um homem e uma mulher permaneceram parados.

O tiro atingiu a cabeça do homem que caiu violentamente. A mulher se desesperou como uma Jacqueline Onassis redesenhada. Omar deu o rifle a Frances, que começou a desmontá-lo e deu partida no carro.

A cabeça de Omar doía, teve medo de que uma crise de epilepsia o acometesse. Entrou rapidamente numa estrada vicinal na rodovia que levava à cidade de Prata e dirigiu por uns 50 km, encostando o carro na porta de um casebre. Dois homens o esperavam.

Havia um monomotor estacionado dentro de uma plantação de café.

No ar, ao lado de Frances, sobrevoando o barril negro de enxofre e pólvora que havia posto fogo, Uberlândia, agora com seu futuro candidato a prefeito assassinado, Omar pensou em uma maneira de descobrir que linda canção era aquela que ouvira no rádio.

E decidiu voltar àquela cidade apenas quando seu corpo necessitasse de uma cova e do merecido desconhecimento que somente os mortos desfrutam.

*Don King é um norte-americano que foi produtor musical do grupo Jackson 5 e empresário do ex-pugilista Mike Tyson

domingo, 6 de outubro de 2013

onã anão


onã
toca tantã
pela manhã

no sexo
a febre malsã

na cabeça
o sutiã

onã
toma leite nan

onã
é fã do kleber bambam

onã
pensa que tupã é marido de iansã

onã
não come maçã

Carlos Cruz - 17/07/2013

sábado, 5 de outubro de 2013

um dos meus primeiros poemas no BdE


Convite para documentário "O centenário de uma Mestra"

Amigos de Três Corações (MG) e redondezas,
Neste ano de 2013 é comemorado o centenário de nascimento de Clotilde Iemini de Rezende Brasil, a Dona Tidinha, grande mestra do ensino da língua portuguesa na cidade e professora a conquistar o título de mestrado com a idade mais avançada no Brasil.
Em homenagem ao dia dos professores, a Câmara Legislativa promoverá o lançamento do documentário "O centenário de uma Mestra", de Patrick Moisés, dia 14 de outubro, às 19:30h, na escola Benefredo de Sousa, avenida Quinto Centenário, 1010, bairro Santa Tereza, em Três Corações, Minas Gerais.
Apareçam. Estão todos convidados.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sonhos em alemão

(Por conta da viagem que farei para a Feira Literária de Frankfurt - ALE, dia 07 próximo, decidi revisitar este pequeno conto. Aproveitando, meu endereço por lá será no Estande do Brasil, Área 4, Módulo Q3. Assim que voltar, trago as novas de lá, fiquemnapaz). 


Sem dúvida, sou apenas um andarilho,
um peregrino na Terra!
E vocês, são mais que isso?

J.W.Goethe

Descia a Paranaíba (ou seria a Araguaia?), quando notei que estava de óculos novos. Pelas lentes e formato da armação, vi logo que era um modelo caçador, Ray-ban origem. Legal, mas mesmo assim eu o tirei do rosto para me certificar, lendo por cima da barrinha de metal que fica no meio dos aros. Estava lá com todas as letras; um legítimo produto Bauch & Lomb, só que isto não me trazia a resposta de como aquele raio de treco estava comigo. Bom, pela curvatura do sol indicava que ainda estava bem de manhã, algo por volta das 09:00 h, o que me trazia apenas uma teoria: havia passado a noite na farra. Isto explicava em parte estar de posse de uns óculos que não sabia de onde vinha. Provavelmente estava com alguém que bebeu comigo, lógico. Mas isso não explicava onde diabos estava o meu carro. Será que eu havia sido louco o suficiente para trocá-lo pelos óculos? Merda, se for, vai ser muito difícil desfazer a troca, ainda mais se eu nem sei quem é o filha da mãe que me passou a perna. Talvez essa pessoa sinta o mesmo pelos óculos. Meu carro não é lá assim uma Ferrari e dirigi-lo é algo quase sobre-humano para quem não o conhece. Mesmo eu sou vencido algumas vezes por sua inegável vontade não de funcionar. Chevettão 84, cadê você??? Acho que quem está com ele deve estar fazendo a mesma pergunta desesperada pelos óculos originais. Dejavú. Sinto que já passei por esta situação antes. 
Foi a mais ou menos uns cinco anos. Ou seriam sete? Tanto faz. Era um Sábado de manhã e estava chegando em casa. Entrei pela garagem e tentei achar a chave da porta, mas necas da maldita. No seu lugar havia somente o chaveiro da velha Belina do meu pai. Ela era cortada e todos achavam que era uma Pampa. Eu achava que era o máximo não ter que abastecer. Tentei me lembrar um pouco. Havia ido ao bar do Treta encontrar a galera para o mesmo roteiro de Sexta-feira. Cerveja, cerveja e mais cerveja. Ás vezes uma batata frita. Tomei todas, falei um monte de asneiras para umas garotas esquálidas que se achavam modelos, beijei a mais feia e fui deixá-la em casa, uma rua abaixo. Na portaria do prédio nos desentendemos por alguma coisa que não valia muito a pena e depois eu fui embora de táxi. Era isso! Havia esquecido a chave de casa no console da Belina! E havia esquecido a falsa Pampa na porta do bar! Agora era só pegar dois ônibus e voltar para buscar as chaves e de tabela, trazer o carro do velho antes que ele percebesse a cagada que eu fizera.
A lembrança deste episódio me fez achar mais uma peça do quebra cabeça... Onde será que esqueci o Corvett’s? Olhei em volta e o mundo se materializou em poucos segundos. Estava parado agora na frente de um posto de gasolina e só então me dei conta que segurava um pequeno galão na mão esquerda. Na direita havia um cigarro. Era um Benson & Hedges, o que provava que havia serrado de alguém. Cigarro mentolado sempre me dava ânsia de vômito de manhã. Dei um último trago (fissura, fazer o quê?) e o joguei fora, afinal tinha que entrar no posto e nunca entro num posto de gasolina fumando. Mania besta. Ou um pequeno resquício de auto-preservação. Pedi ao frentista para colocar cincão (era o jeito de fazer cinco reais parecerem dinheiro, diz no aumentativo e ele parece aumentar de valor) e depois voltei ao lugar que estava na entrada, pensando se descia ou subia a, agora reconhecida, Av. Araguaia. Como ela tem somente um sentido acima da Paranaíba, fiquei olhando os carros descendo em baixa velocidade, tentando me lembrar se havia feito este trajeto.
Só então me dei conta que uma meia quadra acima, havia um acúmulo de pessoas em semicírculo. Observavam um acidente, obviamente. Merda. Será que havia batido o carro e ainda saí para comprar gasolina? Me aproximei timidamente, tentando reconhecer os veículos e não deixar que ninguém me reconhecesse. Logo vi que isto era uma idiotice, uma vez que não sabia quem eram as pessoas no local, daí como iria me esconder de quem eu não sabia quem era. Entenderam? Nem eu.
Um Renault Clio havia enchido a lateral de uma Strada. A velha do Clio estava errada logo vi. Coisas de quem já trabalhou com seguros, departamento de sinistro. Bem sinistro. Notei que o estrago não era grande, e que o Chevette estava estacionado atrás do acidente. Mas por que algumas pessoas olhavam tanto para dentro do meu ferro velho? Ao chegar na frente do pára-brisa, descobri. Havia uma loira ma-ra-vi-lho-sa deitada no banco do passageiro. Ponto. Descobri de uma só tacada de onde havia vindo o Ray-ban original e o cigarro. Agora só faltava saber o que aquela diliça estava fazendo dentro da minha caranga (e se eu realmente havia trocado os óculos pelo carro).
Coloquei o combustível no tanque, pedi um cigarro a um dos curiosos e depois entrei no carro para tentar dar partida no motor. O curioso arregalou os olhos ao me ver sentar ao lado da princesa adormecida. Senti o calor da inveja me atravessar o peito. Um pouquinho de sol também. Tirei a jaqueta e a joguei no banco detrás junto com meia mala de roupas que sempre estava por ali. Bombei o acelerador olhando para a loira e rezando para que o motor funcionasse. Ele expirou, tossiu e morreu. Tentei de novo e ele soltou um estouro. Parecia que estava acordando de mau humor. Nisso a bela desacordada se remexeu no assento (ufa, ela estava viva!) e disse algo ininteligível. Tentei entender o que era, mas parecia que ela falava outra língua. Repetiu agora um pouco mais alto e tive certeza que era outra língua. Mas, raios, que merda de idioma era aquele? Já havia ouvido algo parecido em algum filme, mas não sabia dizer qual era o título, nacionalidade então, lhufas.
O braço dela deu uma leve guinada derrubando a bolsa no assoalho, deixando cair uma porrada de coisas que estavam dentro. Havia o que eu audaciosamente julguei ser o básico em uma bolsa de mulher: batom, espelho mil e uma utilidades, uma caneta, carteira, algumas argolas, brincos, um celular descarregado, um tampax salva-vidas e um passaporte. Peraí. Passaporte ? Tava explicado o/a Haustfaguen que ela falou. Ela era gringa. Só restava saber de onde. Nem precisei abrir o dito cujo para saber. Na capa, embaixo de um engarranchado total vi uma palavrinha que respondeu tudo. Deutschland (lê-se Doitiland). Alemanha. Era uma conterrânea de Goethe, Bukowski, Hegel, Beethoven, Maquiavel e do Bruce Willis. Não, Maquiavel era italiano. Bruce Willis, o ator, nasceu na Alemanha, sim senhor. Bruce Lee, o lutador, nasceu em São Francisco. Estranho, não? É igual Fabérge, que era russo e todos pensavam que era francês por causa do nome.
Tudo bem. Nacionalidades a parte, isso não explicava a pergunta mais importante: quem era aquela gata e o que ela fazia no meu modesto, humilde e desligado carro. Outra vez puxei pelos cacos da memória para tentar explicar o até agora inexplicável. Veio devagar no começo, mas depois brotou tudo na mente. Ela é alemã. Gênio. Isso eu já descobri. Fazia intercâmbio cultural. Sensacional. Quase todas as estrangeiras que havia conhecido também eram. Eu a conheci ontem, em uma festa da faculdade, lá na casa do professor Pedro. Ela também havia estudado um pouco de filosofia na terra dela (quer filosofar? Vai pra Alemanha) e como eu, também havia bebido todas. Essa foi a parte em que nos encontramos. Trechos de alemão pra cá, migalhas de inglês de segundo grau para lá, um quê de português com sotaque e voilá! A gata tava no papo. Decidimos esticar a noite, ou seria a madrugada? Sei lá. Só sei que no meio da Araguaia, agora faz sentido, o maldito carro morreu de inanição. Ou sede se preferir. Após um cinco minutos de amasso, ambos embriagados, alguns vômitos pela janela, intercalados de beijos, sobre o freio de mão, desmaiamos romanticamente sujos e quase abraçados. A tal batida, de manhã, me acordou. Pequei o galão no porta malas, os óculos e um cigarro dela e fui em busca de um posto, inapelavelmente bêbado e sem saber aonde estava, até que me dei conta e começar esta pequena investigação. Agora era só fazer o maldito Corvett’s pegar e voar para casa. Ainda dá para dormir o dia todo grudado na loira (qual é mesmo o nome dela?) e depois... Pensando nisso, olhei novamente para aquele quadro de Rembrandt, que era ela dormindo, mas alguma coisa ainda me martelava a cabeça e me deixava encucado. Mas o que seria? O carro, eu já estava dentro dele. A gasolina, no tanque. O motor não pegava, óbvio. A gata era gringa. A língua, o alemão. O que havíamos feito, quase nada. Ainda. Como a conheci, na festa da faculdade.
Ops... Festa da faculdade? Mas, eu tranquei a faculdade no semestre passado...
Olho para o teto. Teve infiltração durante as chuvas do final do ano passado e agora descasca em vários pontos. Levanto a cabeça e dou uma busca no quarto. Estou deitado sozinho, novamente. Foi um sonho. Caraca. Como ela era gata! Putz, se soubesse que era um sonho e que não teria muito tempo, teria feito o sexo mais louco do mundo, dentro do Chevette, no meio da Araguaia e em frente de uma multidão de curiosos. Goethe morreria de inveja, se já não estivesse morto.

Lançamento da 4a antologia Bde em Uberlândia

por Robisson Sete

9ª Noite Literária # conexão Festival Timbre
Lançamento nacional da 4ª Antologia Bar do Escritor com a presença de Giovani Iemini (DF) e Cristiano Deveras (GO) e outros autores
Leituras e Performances
Exposição de fotos, desenhos e poemas
Música com Marcelo Macário e banda
Sexta 08/11 – 19h
Local: Armazém Literário – Rua Teixeira de Santana 54 – Fundinho
Entrada Franca


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

ungidos




se a cura vem pelo olho roxo
será o morno o respirar são
o que pode ser um paradoxo
ao passar pelo caos da terra
e pela falta de glória

vem na medida do nervo
ou frigir da história
esquece assim da guerra infame
feche os olhos tortos
e vá em cega trajetória
se guie pela mão dos mal paridos
pela oração de estranhos

será como estar ungido do sangue sacro
abençoado pelo orar dos enfermos
e amaldiçoado pelo clamar dos mortos

e que valham todos os santos nomes vãos
o culto dos cães raivosos arrastados pelo chão
que elevem sua falsa glória pelo nome vão...

Sozinho



Perambulando por prédios da insanidade,
nos ociosos calçamentos
de domingo após as bebedeiras

Perdido nos ébrios lábios de putas 
ou em suas penas de guilhotina.
Consagramos a existência do vício
encontramos nossa liberdade.

O torpor sentimental!
Jardins da luxúria
e o brilho escarlate
são o veneno da solidão.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ANITA, OLHOS DE CAPITU


Existe coisa mais difícil que esquecer um grande amor? É como se um pedaço da gente estivesse morrendo, é como se tirassem de dentro do peito, à fórceps, o que de melhor se pode sentir. Assim foi para Anita. 
A garota tinha os olhos de ressaca, como a Capitu de Machado de Assis. Daqueles olhos, lembro-me das lágrimas e da esperança que, de vez em quando, brilhavam neles. Mas em geral eram olhos opacos. Anita já não era nenhuma mocinha, passava dos 25 anos, e tinha uma aparência de alguém com quase 40. As drogas tinham feito estragos em seu corpo e sua alma. Aos 15 anos saiu de casa para fugir do pai bêbado e violento que abusava dela desde os sete anos. Sem saber como se sustentar, Anita se prostituiu. Antes tentou de tudo: trabalhar como faxineira, balconista, até procurou uma vaga para entregar panfletos no sinal de trânsito. Mas era uma criança, magrela, desgrenhada, sem lugar pra morar. Se virava nas ruas. O banho, quando podia, era na rodoviária. Ninguém deu um emprego para a menina abandonada. Às vezes sentia tanta fome que não se importava em catar restos de comida nas lixeiras da lanchonete. Até o dia em que o dono de um mercadinho vagabundo, que fedia a cachaça e fritura, percebeu aquele corpo maltrapilho e perguntou se ela queria uma pizza. Anita só balançou a cabeça querendo dizer que sim. 
– Então tá menina, mas tudo tem seu preço. Comentou com um sorriso meio de lado, o dono do mercado.
Foi assim que Anita percebeu que poderia ganhar dinheiro vendendo sexo. A pizza até foi barata. O gordo, dono do mercado, suava e grunhia enquanto fazia o serviço. Para alívio de Anita, foi rápido. 
Assim ela começou a amadurecer. Conseguiu mais do que pizzas. Passou rapidamente a morar numa pensão meio decadente, onde dividia a vida com mais três meninas. Isso no princípio. Logo conseguiu mudar para um apartamento de dois quartos, com vista para o parque. Usava roupas de grife e nunca mais comeu pizza. A vida passou a ser regada a champanhe. Frequentou bons restaurantes, e vendendo o corpo, até viajou para o exterior. Mas Anita se perdeu. Cocaína sobrava em sua rotina. Cada vez mais pesadas, as drogas também cobraram um preço. Anita consumiu a casa, os móveis, o carro. Perdeu amigos e a dignidade, que ela tanto tinha lutado para acumular. Passou a vender o corpo por qualquer pedra de crack. Voltou a morar nas ruas. Fazia sexo com os colegas mendigos a troco de um pedaço de pão. Ninguém mais queria a puta drogada. E Anita se afundava na lama da podridão da vida.
Numa noite fria, andava sem rumo pelas ruas molhadas, descalça, dentro de um casaco três vezes maior que ela, atravessou o beco do metrô. Dois garotos bem vestidos se aproximaram dela e comentaram:
– Tá sentindo um cheiro de mijo? 
– Tô, disse o outro. 
– Deve ser da puta aqui. 
– Acho que ela precisa de um banho. 
– Fechô, sentenciou o garoto com um sorriso maquiavélico, mostrando as péssimas intenções que tinha. 
– Vamos lá putinha, vamos tomar um banhozinho. E arrastaram Anita para o matagal que havia próximo ao beco. Arrancaram sua roupa, bateram tão forte na cabeça de Anita que ela caiu de joelhos. 
O comparsa puxou os cabelos da pobre coitada até ela não aguentar de dor. Então começaram o estupro. Anita foi currada várias vezes e desmaiou. Não tinha mais força para gritar. Os covardes continuaram a bater. Um deles baixou as calças e mijou em cima dela.
– Toma ai seu banho, vagabunda drogada. 
Em um último ato de crueldade os dois encheram a boca de Anita com a terra e deixaram a moribunda lá, quase à morte. 
No outro dia foi encontrada pela polícia. No hospital Anita era um pedaço de carne roxa. Depois de algum tempo recobrou a consciência. Tinha deslocado o quadril. Ela não conseguia falar direito, tinha perdido alguns dentes e não ouvia nada pelo ouvido esquerdo. Anita era um trapo de ser humano. 
Aos poucos foi se recuperando, ganhou um colega de quarto. Fernando. Nando. Era um menino, não tinha mais do que 17 anos. Tinha assaltado uma padaria e levou um tiro no braço. Ia voltar para o Centro de Detenção assim que ficasse melhor. Anita e o menino ficaram amigos. Conversavam a noite inteira antes de a enfermeira mandar os dois calarem a boca. Juntos arquitetaram um plano de fuga e conseguiram sair do hospital sem serem incomodados. 
Àquela altura já eram amantes. Na primeira vez que fizeram sexo, ainda no hospital, Anita se atrapalhou com os fios do soro, mas conseguiu sentar em cima dele. Quando Nando penetrou Anita, ela gemeu baixinho, um pouco de prazer outro de dor por conta do abuso que ainda não estava cicatrizado, nem no corpo menos ainda na alma. 
Foram morar numa invasão perto do centro da cidade. Construíram um barraco improvisado com restos de obra. Pra sobreviver catavam latinhas, papelão e pediam esmolas no semáforo. Apesar de tudo Anita estava feliz. Finalmente conhecia o amor, o carinho. Fernando estava virando homem e amava Anita acima de qualquer coisa. Ela não usava mais drogas e até os dentes que faltavam na boca não a incomodavam mais. 
Numa tarde de sol, voltando pra casa, Nando foi atropelado. Um motorista bêbado passou por cima dele. A dor que Anita sentiu foi maior que todos os estupros que já sofrera. A dor de perder aquele homem foi maior que todas as surras, todas as fugas, todas as mazelas que tinha vivido. 
A partir daquele dia Anita não falou mais. Os olhos perderam o brilho, caíram de vez. As olheiras escureceram o rosto. As drogas voltaram para a vida de Anita. Com a audição cada vez pior, sem falar coisa com coisa, acabou internada num hospital psiquiátrico. Serviço público, sem muitos cuidados. 
Foi lá que conheci aquela mulher. Fui fazer uma pesquisa para um livro que estava escrevendo. Ela passava o dia caminhando pelo corredor, sempre com uma rosa na mão. Às vezes era branca, no outro dia vermelha. “De onde ela tirou isso? Tantas?”, me perguntava. 
Ela não falava com ninguém, mas todas as noites, sozinha na cama, conversava e ria e de vez enquando chorava. Curiosa, fui ouvir certa madrugada o que dizia Anita. Ela se declarava lucidamente ao falecido amor. Surpreendida pela minha presença Anita abriu um sorrisinho tímido, fez um gesto pedindo para eu sentar na cama com ela e me contou essas histórias. Perguntei quem era a pessoa que ela imaginava conversar, e ela me disse que era o amor dela. O menino que virou homem. Fernando. 
–Todas as noites ele vem me “fisitar” – falou Anita entre os dentes quebrados – e me deixa uma rosa embaixo da cama. 
Descrente, mas com certa curiosidade, olhei embaixo da cama. Aproveitei para dar uma geral entre os lençóis e o cobertor. Nada. 
– Anita deixa de brincadeira, você sabe que não tem ninguém aqui, onde você consegue essas rosas? 
– São dele, tô dizendo. 
No outro dia Anita amanheceu morta, com uma rosa na mão. Congelada num sorriso desdentado, com olhos de ressaca, mostrando finalmente que estava em paz. 



terça-feira, 1 de outubro de 2013

A quem gosta e não gosta de mim



A quem gosta e não gosta de mim

Não quero que gostem de mim
mas gosto que gostem de mim
gosto ainda mais se gostam de mim
sem querer

Gosto de quem não gosta de mim
gosto mais ainda se gostei de quem não gosta de mim
gosto do meu bom gosto para quem não gosta de mim
por querer

Gosto de esquecer quem não gosta de mim
gosto mais ainda de esquecer que não gosta de mim
sem querer

Gosto de mim por gostar
de quem gosto, de quem não gosto
por querer

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publicado originalmente no Blog Bastardos do Velho Safado.