quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Convidado Felipe Daher




Alto clero

Dragões escarlates
Voam pelo cinza metropolitano
Baforadas de fogo queimam
Os crânios dos transeuntes
Três bolinhas giram
O malabarista recolhe seu tesouro
Nas esquinas os açougues
Vendem o produto da exclusão social
Fast-food, tira a embalagem
Come o que gosta e joga o resto fora
Bueiros entupidos com o lixo da aristocracia
Enchentes carregam o passado
Destroem o presente
E só da um salário mínimo de futuro
Os presídios do planalto central estão vazios
Seus ocupantes estão em belos jantares
Bebendo vinhos caros e fumando charutos
O único que dorme na casa de albergado é seu vigia
Enquanto diárias de hotéis luxuosos são pagas
Para reuniões com lindas garotas.
O destino coletivo é decidido na cama
Em cima de lençóis suados e corpos esgotados.
Tempo bom aquele em que tudo acabava em ‘pizza’,
Agora tudo acaba em “PICA”...


---
Felipe Daher
felimescouto@gmail.com


terça-feira, 19 de novembro de 2013

(Mais) Um Brasileiro

Sebastião era como muitos brasileiros país afora. De origem muito humilde, teve de trabalhar muito cedo para ajudar no sustento da família. Com onze irmãos (que poderiam ser catorze, caso três deles não tivessem falecido prematuramente), Sebastião já havia trabalhado mais na adolescência do que muitos outros numa vida inteira.

Mas Bastião, como era carinhosamente chamado por todos que o conheciam, não carregava nenhuma mágoa de sua vida sofrida; pelo contrário, estampava sempre um semblante alegre, com um belo sorriso em seu rosto já enrugado, na sua pele curtida pelo sol forte do dia a dia.

Bastião havia construído sua família. Seis filhos, todos adultos e vivendo suas próprias vidas. Bastião também contabilizava 18 netos; apesar de ele nunca saber ao certo se eram dezoito, ou dezessete, ou dezenove, Bastião nutria um carinho imenso por todos eles, mesmo que alguns estivessem morando longe do avô. “É um Brasilzão muito grande, e meus filhos correm atrás do trabalho onde ele está” dizia Bastião que, a propósito, nunca havia saído do próprio estado onde nasceu.

Mas Bastião via seu país, ou uma parte dele, pela tela da TV. Como a recepção de sinal só permitia que Bastião assistisse a um canal com nitidez, era este um mesmo que ele assistia. Bastião gostava de se deitar após mais um árduo dia de trabalho e de ver TV ao lado de sua velha companheira, dona Zezinha, que passava os dias em casa costurando para as vizinhas da comunidade onde moravam, no intuito de ajudar no apertado orçamento familiar.

Dona Zezinha chegou a frequentar a escola por um tempinho quando criança, o que a fez aprender, mesmo que com certa dificuldade, a ler; já Bastião permaneceu analfabeto até os 40 anos de idade, quando uma de suas filhas, Zulmira, teve a paciência para ensinar o pai a ler.

Bastião pegava exemplares de jornais que seus patrões assinavam e lia somente as manchetes. “Não leio letra miúda. Não consigo” dizia Bastião, que apesar do gritante problema de visão, nunca havia consultado um especialista. Fato era que pouco dinheiro sobrava para Bastião procurar um oftalmologista; seus modestos vencimentos eram inferiores a um salário mínimo.

Por isso mesmo Bastião recebia donativos com imensa alegria, desde restos de comida até roupas usadas. Cada peça de roupa recebida, dona Zezinha costurava e adaptava para o marido usar. Bastião sequer lembrava quando havia comprado uma roupa nova pela última vez. “Acho que faz uns trinta, quarenta anos” calculava ele.

Bastião também nunca havia dirigido qualquer tipo de veículo automotor. Seu meio de transporte era a sua velha e enferrujada bicicleta, que segundo ele “nunca me deu pobrema”. Bastião pedalava pelo caótico trânsito da cidade sem se importar com os outros; ia e vinha assoviando melodias das músicas mais conhecidas de Luiz Gonzaga, sorrindo e pensando na vida.

Bastião também gostava de ano de eleição, por dois motivos: primeiro, sempre um político visitava sua comunidade e trazia cestas básicas ou até alimentos mais refinados para as famílias, apenas em troca de votos; e segundo, porque Bastião realmente se sentia importante ao poder ajudar na escolha dos governantes. A única coisa que Bastião lamentava é que os candidatos só iam uma vez a cada quatro anos até a comunidade. Ele achava pouco, mas pensava “eles tem muito que fazer lá em Brasília. Esse negócio de lei é complicado”.

Mas Bastião já não era mais um moleque. Sentia dores fortes nas costas, nos braços, no peito. Aguentava o dor calado, sem reclamar, sem faltar ao trabalho diário. Dona Zezinha percebeu que o marido estava fraquejando e insistiu para que este fosse ao SUS para ver o que acontecia. Bastião foi. E agendou uma consulta para seis meses daquela data. Certo dia, Bastião sentiu-se muito tonto, e pela primeira vez na vida, deixou o trabalho para ir ao posto de saúde. Teve forças para pedalar até a unidade mais próxima e, chegando lá, sentou numa poltrona para aguardar a sua vez de ser chamado. Isso não era nem dez horas da manhã. Quando o ponteiro do relógio anunciou quatro horas da tarde, a enfermeira de plantão gritou “Sebastião! Se-bas-ti-ão!”.

Aí uma senhora percebeu um senhor dormindo, com a cabeça abaixada, na poltrona ao seu lado. Cutucou o braço dele e perguntou “O senhor é o Sebastião?”. Não obteve resposta. A enfermeira se aproximou, pegou no pulso do homem e não viu batimento algum. Tarde demais. As pessoas ao redor se assustaram. Houve um princípio de tumulto, com algumas pessoas chamando o SUS e seu staff de “assassinos”, “carniceiros”.

Aos 65 anos de idade, Bastião morreu sentado na fila de atendimento. Seu semblante era de alegria, apesar da imensa dor que ele vinha sentindo. Sem saber que doença tinha, mas certo de que havia cumprido a sua missão na terra da melhor maneira que pode – dentro das condições que a sua família e, em especial, que o seu país havia lhe proporcionado.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Brincando de Boneca

Mamãe diz que brincar de boneca é coisa de menina. Nem ligo pro que ela diz. Sou homem e posso provar. Haja vista as mulheres que amei. Além disso, o que há demais em brincar um pouquinho? Tem adulto que joga videogame. Meu hobby é esse, passatempo da hora de almoço. Esta perna cabe aqui no corpinho, vai ficar diferente da outra, mas pior se ficasse perneta. A cabeça, felizmente, não se perdeu. É original, mas deu um trabalho colocar de volta no lugar. Os braços eu vou utilizar dessa outra aqui. Braços negros e corpo caucasiano? Paciência, é o que se pode arranjar no momento. Vou ter que prender com algum parafuso. O Geraldo da manutenção deve ter um do tamanho necessário. Melhor não. Geraldo não entenderia. O vestido eu pego com a dona Marta lá na lavanderia. A droga é que branco fica parecendo noiva. Depois eu dou um banho nela, pra espantar este cheiro podre de membros amputados aqui do lixo hospitalar. Será que vão dar por falta de você lá na sala de autópsia, meu amor? Que marido horrível que você tinha, precisava te esquartejar e jogar as partes na Lagoa Rodrigo de Freitas?

domingo, 17 de novembro de 2013

Quando bebo

Quando bebo me convêm
                               dizer algumas verdades
                               também algumas mentiras

muito cheio
           de bondade
           e bobagens

sábado, 16 de novembro de 2013

Pontaria

Um soco
que retira todo o ar
dos pulmões

O tesão
o pau como uma arma
carregada de balas

A alma
em puro fogo
tomada de álcool

A poesia
é como um jogo
de tiro ao alvo.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Mandrágora

Era sabido naqueles dias da Idade Média que, onde repousavam pendurados os corpos dos enforcados, brotava na terra uma raiz mágica chamada mandrágora. Iselda aprendeu com sua mãe que, nos últimos estertores, os enforcados ejaculavam o esperma que fecundava a terra, transformando-se no elemento que servia para evocar o diabo. Ela fez tudo conforme ensinava o grimório: o círculo, o caldeirão fervente, as palavras ancestrais e, por fim, a sagrada raiz, que se parecia com um pequeno homúnculo de cinco pontas. O cheiro de enxofre no ar anunciou a presença maligna: - Mulher, aqui estou. Faze teu pedido. - Quero que me faças homem. E assim foi feito. Ela se tornou um lindo moço chamado Isar, que matou um desafeto pelo amor de uma donzela. Certa de que viveria melhor como homem, a bruxa acabou sentenciada à forca. Do seu estertor brotou uma nova mandrágora...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

MATEUS 19:14

Driblando a vigilância,
irrompe uma criança
para pedir ao Santo Padre,
antes que seja tarde
e a outro inocente se fira,
que cesse logo a mentira
do Voto de Castidade.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Tempo (DBS)

O Tempo


O Passado me revolta, o Hoje me abandona e o Futuro me amedronta! Eu quero viver fora do Tempo....
(Danilo Souza)


O Passado me traz saudade, o Hoje me garante felicidade e o Futuro me faz sonhar! Eu só quero viver....
(Danilo Souza)


Às vezes, sou a antítese de mim mesmo.....

( ? )

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Desabafo

Com um lápis e um papel esquivo-me da prisão
Cá tenho alvedrio em meu mundo de ilusão
Não anseio ser diferente...só...ausente
Neste cálice que me corrói até o derradeiro fio de esperança
Que herança ignomia deixaste para mim...que levarei até o fim
Como desvirtuar o que nunca está igual?
Como ser careta se ser insano é normal?
Como retificar tudo de tortuoso se a lei é desigual?
Também posso ser afortunado neste caos-carnaval
Onde a verdade assombra
E dissimular a vista é a saída para não notar o mundo errôneo
Vamos dar risada...migalhas de pão
Para o infante nesta prisão
Sem grades...teto estrelar...tapumes de chão
Onde o ar é grátis...mas saldamos para contaminá-lo
Onde a poeira não baixa...já desce pelo ralo
Vamos sair...já estou extenuado de me planejar
Planejamento subliminar...sem raciocínio...televisão à elucidar
Não vou camuflar nada...não temos que se mortificar
Ser afável à toa e o mundo a nos subjugar
Partamos para rua...dar a face a bater
E obtemperar de outra maneira...mas não sabemos nem escrever
Brasil
Há de ser um Brasil melhor

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Teatro das Formigas - Ato 3 e Ato 4

Terceiro Ato
.
na 'seca come carne'
do sertão...

em conluio
com urubus,
elas traem a peça...

enquanto
orbitam pelas
cavernas cranianas

o sol refresca
o tatame

onde, vestidas
para o rigor da ocasião,
celebram

nos bastidores...
.
Quarto Ato
.
sob intensa chuva
de domingo...

sem missa
ou notícias nos jornais
em manchete...

as colônias
repletas de enredos
repetidos

encaram atordoadas
a presença
do patriarca

"in memoriam"...
.

domingo, 10 de novembro de 2013

Convidado Jovenal Maloa

Burros em tudo – inteligentes em nada

Haja maneira mais doce de brindar
Não! Prefiro brindar felicidades e alegrias neste meu silêncio
Porque não comeres e ficares calado?
Beber e ainda continuares calado…?
Gritos e suspiros fartos nunca em momento algum dirão,
Que da comida estás farto…!
E nem comportares-te como um delirante demente,
Definira quantos copos de talvez vinho você tomou!
Sou gigantescamente lucido!
Nada me fara não ser…
Pensamento correctamente íntegro e maduro
Não há como eu não saber, que gritar farturas
Somente em pobres de civismo e pior de intelecto
Cambalear de tanta embriaguez? Nunca!
Pois nada que tenha álcool bebo
Só correctamente correcto
Nego fazer papel de palhaço em público muito menos em versos


---
Jovenal Maloa
jovenalmaloa@gmail.com

sábado, 9 de novembro de 2013

PUTADETERNUM - a digníssima do Valqueire


O fato não é
Nem permanece
Pensamentos sobre episódios são o que há
Aforismos abstratos
Futuro e passado não contém eventos
Realidade é ilusão fora do presente
Lembranças são montagens de memórias
Devaneios comandados pelo individual
Não vendo e não escutando, não aconteceu.
Não procurem sarna pra se coçar
Confiança é parceira da omissão
Matrimônios duram um ano
Penso logo existo
Elogiosas bronhas pra todas
Maior galanteio não há
As outras
Meu casamento atual acabou emendando noutro
Ser visto por sua mulher olhando bunda feia na rua é o fim
Olhar bunda na rua não é feio
Feio é olhar bunda feia e ser pego em flagrante
Imaginar-se traída com barangas anula o amor mulheril
Desejar mulher feia é proibido, mas sou anarquista.
Outro pé na bunda por causa das bundas
Outro casamento convertido em amantes
Ex-mulheres no papel da outra são intensamente depravadas
Não são capítulos de namorar
Solteiro não funciona
Elas querem o lado B
Botar chifres na filha da puta da esposa
Casado eu não perco o ímpeto vocacional feminil da promiscuidade vil
Tô morando com minha quarta ex-mulher
Temos uma filha e resolvemos tentar
Mulher/Amante/Mulher
Confusão da porra
Elas viajaram e levaram o Totó
Minha casa sem mulher, filha e cachorro, parece um museu.
Um silêncio total
Não um silêncio qualquer
Um silêncio perturbador
Um silêncio tão alto que é impossível deixar de ouvir tanta ausência de som
Liguei pras primas e dei uma festa
Não sou afeito a museus
Uma das putas chamava-se Jennyfher Valqueire
A piranha deixou-me embucetado
Comer vagabunda da Vila Valqueire é um erro geográfico abissal
Moro em Ipanema e a cachorra não é local
Difícil
Não consigo terminar relacionamentos
Eu agrego mulheres
Sou apegado
Não me satisfaço comendo minhas oito ex-mulheres
Com frequência
Somando vagabundas
Colecionando amantes
Tomo Viagra duas vezes por dia
Eu tenho cinquenta anos
Vou ter uma overdose
Coquetéis de bucetas com Viagras e Ecstasys matam mais que cocaína
Vim parar em frente ao gabinete do juiz
Depois da festinha lá em casa eu viciei na Jennyfher
Garota Centauros durante o dia
Mãe casada durante a noite
Puta devassa da Rua Caning
Mulher de família virtuosa da Vila Valqueire
Quem não perderia a linha no cardápio requintado das perversidades sexuais
Paguei paixão pra vagabunda
A esposa do sargento Bráulio da Vila
Tudo é o que não deve ser
O sobrenome do sargento é Pequeno Cornélio
Sargento Bráulio Pequeno Cornélio
Eu achava que era embuste da digníssima do Valqueire
A vida é engraçada
A moeda gira no alto
Quando otário vira machão é uma merda
Aí é matar ou morrer
Imaginem o sargento Bráulio descobrindo a verdade da mulher
Legítimas fotos num envelope causando desorientação de pensamentos
Depois de infinitos minutos olhando incrédulo, o sargento Bráulio tinha uma nova mulher.
O marido que governa o destino da família não pode fraquejar
É fadigoso pro grande homem ascendente conviver com safadezas
O chefe da moral e dos bons costumes não pôde aceitar
Jennyfher Valqueire foi degolada e sua cabeça fincada na grade da Praça Saiqui
Foto da capa do jornal O Povo
Bráulio Pequeno Cornélio foi condenado a doze anos de prisão pela morte de Edisleia Souza Capixaba
Sim, eram os nomes nas carteiras de identidade.
O argumento da acusação foi de crime planejado
Muitos acompanharam a estória
Todos livres pra dizer e escrever o que pensam
Sargento Bráulio foi perdoado por ser bom pai nos programas de televisão
Jennyfher Valqueire foi condenada várias vezes
Sentenciada à morte e executada pelo Cornélio
Bombardeada impiedosamente pela opinião pública
Puta ad aeternum
Democracia do só rindo
Eu soube da morte de forma ruim
Fui intimado a prestar esclarecimentos do meu envolvimento com Edisleia Souza Capixaba
Por isso estou na frente do gabinete do juiz esperando ser chamado
Quando eu for perguntado, responderei:

- Sou defensor das injustiças sexuais existentes no pensamento moral! As putas me amam! Os conservadores querem minha morte!

Nada do que foi será
Ajuízo a meu favor
Tenho mulheres pra cuidar
O fato não é e nem permanece
Como uma fênix, Jennyfher Valqueire renascerá em minhas punhetas.
Eu vou trucidar o Bráulio!

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

amor próprio



amo-te
de um jeito
só meu

sem parada
sem charada
sem trovoada

amo-te
de um ímpeto
só meu

sem bordoada
sem almofada
sem saraivada

amo-te
de um tempo
só meu

sem jangada
sem pincelada
sem alvorada

amo-te
de um barulho
só meu

com batucada
com gargalhada
com patuscada

amo-te
de um amor
só nosso

Carlos Cruz - 18/07/2013

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sobre listas, Frankfurt e um goiano perdido em Mainz


Coisa de quase um mês atrás, tive uma de minhas melhores experiências como escritor. E divide-se em duas partes. A primeira, da viagem, trato agora. A segunda, de considerações a respeito e seus desdobramentos, retorno daqui a pouco.
Arrisquei os pés para fora do Brasil varonil, pela primeiríssima vez, diretamente na maior feira de livros do planeta. Em Frankfurt. Para quem não havia ido nem ao Paraguai, isso é uma caminhada e tanto. Ou voo, tanto faz. O legal da coisa foi que pude levar meus escritos e de vários parceiros (pessoal do Bar do Escritor, Revista Mitologias do Luiz Augusto de Souza, Histórias dos Sertões de Goiás, de Herculano Wagner). Claro que tenho que lembrar que isso foi um convite super bacana da Izaura Franco, da RF Editora.
Sair do árido clima do Centro Oeste e nossas particularidades enquanto legítimos representantes de uma nação emergente e desembarcar na calculada organização europeia é, no primeiro momento, paradoxal. É perceber que as coisas podem e devem seguir um método, um ritmo constante. Ok, não quero cair aqui na velha e manjada constatação que “lá fora está tudo beleza e aqui é uma bagunça”. Não, nem perto.
Mainz
  Mas perceber as coisas funcionando como um relógio, é legal, bem legal. Pelo pouco que lá estive e também por não ter andado muito fora do roteiro “Feira-hotel-hotel-feira-(poucas)compras-hotel”, o aspecto que melhor pude apreciar foi o do transporte público. É até irônico, vindo de alguém que não utiliza, em sua própria cidade, deste recurso há uns dez anos, mas tenho que dar a mão à palmatória: não conseguiria, nem lascando, participar da feira em Frankfurt estando hospedado em Mainz. Palmas para o excelente serviço prestado pela DB Bahn, com seus trens e bondes sempre no horário.
Pontualidade de pirar o cabeção. E sem funk no bonde... 
No que tange à Feira, o negócio lá é mesmo de tirar o chapéu. O espaço da Messe (Feira, em alemão) foi criado exclusivamente para isso. Há sempre uma feira acontecendo por lá. Com sua própria estação de metrô, fica fácil de ir dali para qualquer canto tanto da cidade, quanto nas vizinhanças. Havia stands de diferentes países, simplesmente uma ONU literária, não sei lá quantos países. E, pelo fato do Brasil ser o convidado de honra, recebemos visitantes de todas as partes, fizemos vários contatos, conversamos, literalmente, com o mundo. Mesmo utilizando meu inglês macarrônico e subnutrido. E ainda aproveitei para aprender alguma coisa em alemão: Ich bin ein schriftsteller. Cortesia do pessoal do apoio, que nos ajudou pra caramba.  
"Lisa, by the way"
Mas nem tudo foram flores: por ficar sempre no mesmo roteiro não tive a oportunidade para conhecer melhor a cidade onde estava hospedado, o que me deu um baita arrependimento no último dia, quando já não tinha tempo para mais nada: Mainz é simplesmente o berço de Gutenberg, o pai da imprensa. Lá fica seu museu que não tive tempo de ir... Catzo. É também um sítio arqueológico dos tempos do Império Romano, além de uma porrada de coisas legais que não fui. Mas beleza, um dia ainda volto como turista em tempo integral...
Schiller




            Como havia dito antes, a segunda é sobre a Feira em si e algumas considerações. A primeira notícia veio antes mesmo de desembarcar em solo alemão: a desistência da participação de Paulo Coelho.
Gostos à parte, entendo seu ato, por uma questão bem pessoal, em se falando da tal lista: já que era para se representar a literatura brasileira, porque vários estados ficaram sem  representação? Não vi o nome de nenhum goiano na parada, assim como ninguém do Piauí, só para ficar em dois exemplos. Tá, alguns dirão que é uma questão de representatividade e blá, blá, blá intelectualóide, mas não vejo como nomes como Miguel Jorge (como lembrou-me Ignácio de Loyola Brandão quando passou por nosso stand, ao ser informado que de Goiás só haviam ido eu e a Izaura Franco, assim mesmo no maior estilo “tocando o f...” com o limite do cartão), Delermando Vieira ou Augusta Faro, possam estar de fora de uma lista dessas. E, se for para lembrar de prêmios e afins, ainda temos o Edival Lourenço, que além de ser um dos ganhadores do último Jabuti (com o Naqueles morros, depois da chuva), ainda é presidente da UBE – GO.  Achei no mínimo injusto com a terrinha do pequi. Mas toda lista é feita para ser criticada mesmo, ainda mais quando está em jogo uma viagem por conta como essa...

             Sobre a barraco mor que rolou por lá, acabei perdendo o início: como cheguei no dia da inauguração, perdi o já famoso e muito debatido discurso do Luiz Ruffato. Só na manhã seguinte pude chegar lá, mas o debate estendeu-se por toda a semana, com prós e contras. Pessoalmente, acho que foi muito corajoso em sua postura, mesmo que para alguns estivesse lavando roupa suja em público. Bateu na canela: somos um paradoxo. O grande país belo, simpático e ao mesmo tempo violento e cruel. O pior é que somos mais cruéis com nós mesmos...
            Mas nem só de polêmica foi feita a participação brazuca na parada. Concorridíssimas foram as participações de Giselle Tigre, soltando o vozeirão (canta muito!), bem como a palestra do Maurício de Souza. Extremamente simpático, esbanjou simpatia e carisma. E, putz, deixei-me levar pelos anos e anos de leitura dos quadrinhos da Tuma da Dentuça (O Cebola sempre foi meu personagem predileto) e vivi meu momento de fã incondicional. Rolou até uma foto meio espremido ao lado dele, devido ao acumulo de pessoas. O lado irônico da coisa foi que no outro dia ele apareceu por lá numas de simples mortal. Aproveitei para apertar-lhe a mão devidamente e dirigir-lhe o apreço pelo trabalho. Ao saber que era uma de minhas influências e que acabei escrevendo por ler demais, mandou um “Agora é com você”. Bem Capitão Planeta.
            No frigir dos ovos, o que conta mesmo é que colocamos a cara à tapa e mesmo levando a parada na tosquice de inglês de segundo grau, com migalhas de alemão para cá e para lá, um tanto de mímica, algumas caipirinhas e afins, conseguimos levar um pouco da cultura de Goiás lá pro Velho Mundo, bem como as letras dos parceiros do BdE e afins. Agradecimentos ao pessoal do Sebrae-GO que nos salvou com uma das passagens, caso contrário a ida seria quase impossível, bem como os contatos na Secult que pavimentaram essa ponte.
            Finalizo aqui citando parte do já falado discurso do Ruffato, só para salientar a dor e a delícia de ser escritor em terras tupiniquins: “Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias.”

fiquemnapaz



P.S.

                   Não podia deixar de lado uma parada que acabou rolando por lá:

Homem da Máfia? Não, o homem da pizza... 

         Acima é a frente de uma pizzaria que fica em Mainz, a Pizzaria do Dato, um italiano super gente fina. Na primeira noite lá por aquelas bandas, sem saber onde bater um rango, acabamos (depois de errar o endereço umas três vezes) baixando por lá para arrebentar uma pizza, salva vidas em qualquer lugar do planeta. Por conta do papo que fomos trocando com um dos garçons, um português que foi muito bem vindo para o auxílio com os pedidos, ficamos trocando um papo legal assim que a redonda saia. Daí que o dono, o próprio Dato acabou se achegando e, numa mistura de diversos idiomas fomos falando sobre todas as paradas. Ainda sob efeito da longa viagem e da mistura de sons, Izaura ficava meio à parte da conversa, que nessa hora roda entre times de futebol e a maldição do Paolo Rossi em 1982.
Vai que para estreitar laços acabei perguntando ao italiano de onde ele vinha na bota.
Sicilia! ─ respondeu esfuziante, com o característico sotaque.
─ A terra da Máfia? ─ Izaura interveio.
Non ─ respondeu Dato, didático ─ La Máfia está em Brasília, capiche?

Tive nem como discordar... 

domingo, 3 de novembro de 2013

h_ouve




veja que a letra é muda
e mesmo surdo
o verbo é intransitivo
dispensa complementos
apenas é no símio de ser

e se suspira o verso
sente-se o arfar do peito
declinando sob
um sussurro vago
a canção silenciosas do calo

vê que o dedo segue o que
o olho aponta, ou seria o contra?
mas a fala é palavra-cega
aquela que ainda atira pedras
sem mesmo ter direção

a letra muda ouve o peito em riste
rimar sentidos imperfeitos
enquanto outra sorrindo rouba
e impotente vê o invisível
escapando entre os dedos

Maldição

Eram os mesmos olhos da noite. Fome voraz, sede de um rugido. Pois eram negros e expressivos. Caçadores da floresta ou qualquer coisa morta os conheciam bem. Se já os viram? Estiveram em carnificinas, provando do puro néctar escarlate como os cães infernais da matança. Possíveis lendas? Detestável seria revelar tal segredo, acreditar na existência sem que houvessem algozes, são meras psicoses, ou boas doses empunhadas de mistério. 


sábado, 2 de novembro de 2013

A BRIGA


* texto baseado livremente em lendas, causos e folclore do norte do país. 

Depois do terceiro copo de tarubá já se sentia embriagado.  A bebida mais vendida no bar era feita por ali mesmo e tinha esse poder sobre ele. Assim, meio zonzo, foi até a mesa mais escondida. Sentou e ficou observando o ambiente. O dono da espelunca, seu Ribamar, corria de um lado para outro pra dar conta de atender a clientela. Última noite de lua cheia, o vai e vem era grande. Pegou mais um cigarro, e com as roupas amarrotadas e inteiramente molhadas de suor, o lobisomem não passou despercebido. Quase todo o  mundo que passava lançava um olhar de curiosidade.
– Quem é? Perguntou o famoso senhor Boto Pink Dolphin, também conhecido por Botinho.
 Detetive do sul, respondeu Ribamar entre dentes.
Botinho andava mal de saúde. A idade estava chegando, com ela muitas dores nas costas e nas pernas. O olhar cansado denunciava um mal ainda pior: estava apaixonado. As noitadas de festa e conquistas, cada vez mais escassas. Ele só pensava na amada. O dia amanhecia e nem queria voltar para casa. Naquela noite tomava uma bebida quente, coçava as tatuagens e esperava o tempo passar, meio encostado no balcão.
 Seu Botinho hoje tem festa na casa de Iaiá, vai não?
 Vou não Ribamar, vou ficar aqui mais um tantinho pensando nos cabelos de Iara, aquela ingrata. E assim passava mais uma noite a lamentar o amor não correspondido.
Já o tal lobisomem, o detetive do sul, continuava registrando o movimento. O lugar estava cheio de fumaça, dos cigarros, das comidas e das assombrações que davam o ar da graça sem se preocupar com a bagunça que causavam.
Neste momento chega o Bôita. Apelido que Boitatá ganhou dos mais íntimos. Bôita já entrou furioso com os primos.
 Eu já falei pra tia Zelina que ela tem que dar um jeito no Honorato e na Maria Caninana. Estão lá os dois brincando de “sou-maior-que-você” de novo. Conclusão: está o maior reboliço na praça, tem gente correndo pra tudo quanto é lado pensando que o mundo vai acabar, que o terremoto chegou. Já avisei. Não adianta. Ela mima demais aqueles dois e é nisso que dá.
Ribamar nem respondeu aos resmungos de Bôita. Estava ele próprio com problemas suficientes para resolver depois que o Saci sumiu com o estoque de petiscos do bar. Logo os clientes estariam famintos e pra comer? Nada. O Saci tinha feito das suas. Só não desapareceu com a bebida porque metade do bar ouviu aquela risadinha infame. Acabou então se entregando, mas antes quase ateou fogo na cozinha quando saiu pulando feito doido de lá de dentro. Ainda perdeu o gorro pelo caminho.
Gritos histéricos saíram da mesa próxima ao banheiro. É que o Caipora acabara de descobrir que a montaria dele era na verdade Matinta Perera. A velha tinha pregado novamente uma peça nele. Ficou furioso. A feiticeira fingira ser o porco que levou o indiozinho até o bar. Ele quase morreu de susto quando ela se revelou. Pior foi saber que tinha perdido o transporte de volta pra casa.
 Sua velha nojenta. Ainda faço você e seu assobio se perderem para sempre na floresta.
E lançou o olhar em brasas pra cima dela, tão violento que o vestido preto e já muito sujo de Matinta chegou a dar uma chamuscada, mas nada que tirasse o bom humor da bruxa. Caipora logo pediu uma cachaça e mais cigarros. Ficou num canto amuado.
Enquanto isso, o detetive pediu outra bebida. E já olhava o relógio desconfiado quando entra ela, deslumbrante, de vestido branco quase transparente, cabelos loiros longuíssimos, andar lânguido. Uma tristeza embelezava o rosto daquela mulher. Foi andando vagarosamente em direção a ele.
 Boa noite detetive, falou numa voz de tirar o fôlego. Ah esse sotaque espanhol caliente, pensou o detetive.
 Boa noite. Achei que tivesse desistido do encontro, comentou o detetive entornando o copo , já com ar de insatisfeito.
 Imagina, é claro que eu não isso por nada, seduzia a mulher.
Maria Chorona. La Llorona, a bela da meia-noite. Vinha direto do México para dar notícias desastrosas:
 O pessoal da neve me garantiu que é verdade a vinda de Big, comentou a loira já comendo algumas frutas que Ribamar achou escondidas longe do alcance do Saci.
 E quando será? Perguntou o lobisomem.
 Em breve. Assim que a última colheita de açaí terminar, respondeu. O velho Itaki já está informado e vai adiar ao máximo o fim do trabalho.
Curupira vai ficar furioso, pensou o detetive. Vamos ter que segurar o chefe à força, quase falou em voz alta.
 Está aqui, como o prometido, disse o lobisomem. E pagou a informação com o mais lindo colar de jade já feito naquelas bandas. - Veio direto do cofre de Muiraquitã. O safado do batráquio exigiu doze donzelas ao chefe, no ano passado, confidenciou.
Deslumbrada, a mulher deixou a mesa e foi embora.
Bem ali ao lado, Jurupari Júnior falava com uma moça tímida. Gritava, na verdade.
 Dona, eu já falei mais de um milhão de vezes, eu preciso falar com Tupã. Questão de vida ou morte. E um trovão cortou a noite.
O detetive não ficou para ouvir o final da conversa. A notícia de que Big estava chegando o deixou muito preocupado, afinal o gringo não brincava em serviço. Pé-Grande em pessoa estaria por ali em poucos dias. Viria para brigar por mais terra.  Queria invadir as florestas do Curupira pelo simples prazer de ter mais e mais. Estava na cara que aquilo não ai dar certo. Vai dar confusão, pensou.
O lobisomem saiu do bar apressado para dar as notícias ao chefe. Sem nem prestar atenção à lua que saia brilhante de trás das nuvens, atravessou a mata correndo. Com receio de se perder foi marcando as árvores por onde passava. Tinha medo da ira do patrão. A sorte foi que após dar a notícia da vinda do Pé- Grande, Curupira não prestou atenção em mais nada. Ficou nervoso, endiabrado. Seus cabelos mudaram imediatamente para um tom mais intenso que seus olhos de fogo. O duende caminhava de um lado para o outro, quase tropeçou nos pés virados. Arrancava os pelos de todo o corpo. O detetive nunca antes vira o chefe tão furioso.
 O que pensa aquele sasquatch? O que quer fazer nas minhas matas? Não está satisfeito em conquistar os territórios gelados e quer invadir meu lar? Vem pra cá infestar tudo com aquele cheiro horroroso insuportável? Praguejava. - Não. Nunca, nunca, gritava com ódio o Curupira.
O detetive perguntou ao chefe se precisava de algo mais. Foi dispensado. Achou o caminho de casa e foi descansar, apesar dos sussurros e assobios que o acompanharam durante toda a noite.
Na manhã seguinte, tudo parecia normal. Parecia. A floresta tremia todinha. Logo se pensou em briga na família Cobra Grande novamente. Mas Maria, Honorato e a tia Zelina foram os primeiros a surgir sem entender o que estava acontecendo. Eis que Big chegou antes do previsto. Veio derrubando árvores, pisando em tudo, deixando marcas pelo caminho.
Curupira logo chamou o exército que havia formado. Desde Tupã até ao Uirapuru, todos juntaram forças para defender a floresta. Big estava sozinho. Finalmente quando ficaram frente a frente, a Mula Sem Cabeça chegou correndo. Com ela vieram os pirilampos, as fadas, os hobbits, os elfos, até os trolls e as crianças estrangeiras de Avalon. Sem fôlego, a Mula gritava:
 Parem tudo. A Árvore da Vida está em perigo.  Os homens brancos estão chegando.
O silêncio tomou conta da floresta. Deuses, semideuses, duendes, cobras, lobisomem, mulas, animais, todos, todos congelaram. Ninguém sequer piscava. Esqueceram imediatamente as diferenças, as muitas línguas que falavam e olharam ao mesmo tempo para Curupira. Até o sasquatch recém-chegado ficou apavorado.
Foi assim que todos se uniram. Saíram em marcha em direção à clareira que abrigava a Árvore da Vida. A briga estava apenas começando. 

FIM 


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

conto, poema e vídeo no blog Bastardos do Velho Safado.

publiquei, no blog Bastardos do Velho Safado, que divido com Pablo Treuffar, Barata Chichetto e Emerson Wiskow, o poeminha puxa-saco, sobre a política no brasil, o vídeo do poema O fornecimento da solução, texto falado na III bienal de poesia de rua de brasília e o conto A última vila do oeste, este cheio de citações, inclusive ao amigo escritor André Giusti.
dá um chego lá.