sábado, 18 de janeiro de 2014

O Cheiro da Carne Queimada

Os odores alquímicos vindos da cozinha inebriavam os cômodos da pequena casa geminada. O tempero de Maria serpenteava para fora do seu lar, invadia a vila e, através dos vapores, anunciava à vizinhança que à noite o casal talvez se reconciliasse. Quem sabe o aroma da comida de Maria sepultasse a última madrugada entrecortada por seus gemidos, pelas pancadas desferidas por José e por sua voz desfigurada pela bebida?
Apesar da violência da noite, os vizinhos não deixaram de se encantar com o cheiro liberado pelas panelas da vizinha espancada. Quando feliz, Maria costumava dedicar-se com ardor às artes culinárias. A mistura de alho, cebola, óleo e outros ingredientes não podia combinar com o estado de espírito em que devia se encontrar aquela mulher surrada de véspera. Na verdade, não se ouvia sua voz miúda, um tanto desafinada, cantarolando melodias populares enquanto cozinhava. Naquele dia os cheiros que emanavam da cozinha de Maria não possuíam trilha-sonora.
Por conta dos fatos, naquela tarde, a mudez de Maria durante o cozinhar não causava estranheza à vizinhança.
Os moradores ainda tinham frescas em suas memórias o dia em que o casal se mudara para a vila, dois jovens ainda entorpecidos pela felicidade de uma lua-de-mel recente. Prestativos, os homens trataram de ajudar José a descarregar a mobília do caminhão enquanto Maria era convidada a se reunir com algumas mulheres em uma das casas. Foi improvisada uma feijoada para alimentar os trabalhadores. A noite terminou com uma roda de samba em homenagem aos novos vizinhos. Vendo aquele jovem casal dançando em torno dos músicos como que participantes de um ritual de agradecimento a gentil acolhida, quem imaginaria que anos depois a tranqüilidade quase idílica da vila fosse quebrada pela violência de José no breu da madrugada?
Naquela noite, José chegou à vila um tanto constrangido. Era a imagem do canalha arrependido. Passara todo o dia no trabalho respondendo aos colegas por meio de monossílabos, cabisbaixo, ruminando as possíveis consequências da sua brutalidade. Não era um homem dado a perversidades. Culpava a cachaça pelo incidente da madrugada anterior. Também, por que Maria havia de se meter em sua vida? Era adulto, senhor de suas vontades. Que mal havia em ficar umas horas na birosca tomando uns tragos com os amigos? Todos faziam aquilo por aquelas bandas. Chegara trocando pernas. Maria, de cara amarrada, o censurara pela bebedeira. Reclamou. Ele falou mais alto. Contudo, o que provocara a sua ira, materializada nas porradas dadas na companheira, fora ela chamá-lo de desgraçado. Que chamasse do que quisesse. José se esparramaria em um canto para curar o porre e tudo acabaria. Mas qual! Sua mulher o xingara de desgraçado! Ela conhecia o seu ódio por este insulto. Seu pai costumava ofendê-lo com aquela palavra. Fora de si, deu uma bofetada na esposa. Ela, por força do impacto, caiu sentada no sofá arregalando os olhos castanhos, surpreendida pela reação do marido. Limpou o sangue que brotara do canto do lábio e demonstrando um ódio entranhado, repetiu três vezes sem baixar a cabeça: “Desgraçado!”, “Desgraçado!”, “Desgraçado!”. José desferiu dois socos na mulher atingindo-a no rosto e abdome. Ela não resistiu à violência dos golpes, desmaiando. Extenuado, o homem dormiu no sofá. Ideias embaralhadas pelo álcool, decretou que a esposa fora culpada pela própria agressão. Na manhã seguinte, porre curado, não entrou no quarto para ver o estado de sua mulher. Foi trabalhar corroído pelo remorso.
Enfiou a chave na porta, atento ao delicado som da fechadura girando. José parecia captar as dezenas de olhares vizinhos ocultos nas casas geminadas, à espera, quem sabe, da reconciliação.
 Encontrou Maria radiante, com um sorriso desfigurando seu rosto. A mulher trajava seu melhor vestido, um azul, que modelava sensualmente o corpo. José percebeu um leve hematoma abaixo do olho esquerdo da esposa. Notou a mesa posta com capricho e o olor da comida impregnando a casa. Aliviado, entendeu que fora perdoado. Jantaram como nunca haviam jantado. Maria se esmerara nos pratos. Riram, gargalharam, beberam, se acariciaram e às portas da madrugada amaram-se como há muito tempo não faziam.

Ao invés dos galos, a vizinhança amanheceu despertada pelos urros de José, corpo incendiado, a correr sem direção pela vila. Para horror dos que testemunharam, sentada a soleira da porta, Maria apenas observava a agonia estrebuchada do marido. Dera a José uma noite memorável antes da vingança. A Justiça decretou quinze anos de prisão. Homicídio por motivo torpe. Vingar uma surra não justificava assassinato, entendera uma parte do júri. Maria recorreu. Talvez ganhe. Dizem que o cheiro de carne humana queimada ainda hoje empesteia a vila. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Valsa

Vem dançar comigo,
em passos lentos,
a valsa gravitacional,
na lua.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Caos

A fumaça aos poucos tomava conta de seu quarto
um copo vazio
um cinzeiro cheio
não era nenhum dia especial para ele
era seu aniversário
igual a tantos outros
igual a todos os dias

Desistira definitivamente
dos poucos conhecidos que tinha
as pessoas não o interessavam mais

Outro cigarro
tremia
agora algo diferente o envolvia
e era isso que ele tanto temia.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Poema canalha

Não quero mais do amor / O enlevar do espírito / Nem da paixão / O falso brilhante... / Muito obrigado! / Já não sou o mesmo que dantes. / Quero aqui, comigo, / Somente essa solidão, tão minha, / Que sentimento igual / Tão puro e virginal / Nenhum outrem me daria... / Quero o silêncio / De uma tarde fria / Tempo para ler, pensar, / Tempo para ser eu / Sem importar a quem seja / Sem me importar com quem seja. / E quando os desejos da carne / Afligirem-me o corpo? / Ora! / Afirmo, nesse poema canalha: / Deixem-me chafurdar /Como um lúbrico porco / Nos imundos lupanares! / Deixem-me da noite / Sorver esses ares... / Deixem me perder por um triz / Nas curvas da dissimulada meretriz / (Amante e ao mesmo tempo atriz...) / Quero pagar com prazer pelo prazer vendido / Pois tem ele muito mais verdade / Que quaisquer desses sentimentos fingidos. / Então, amigo, não sejas tolo, não ames! / Busques antes / O gozo rápido e o orgasmo infame / Pois eles serão mais sinceros / Que uns cínicos e falsos "eu te amo", "eu te quero"... / Quanto às doenças do sexo? Te afianço: / Estas tem eficaz proteção / Em uns poucos centímetros de látex / Muito, muito mais / Que as dores do coração. / E se acaso, por esses males passares, / Mantém a calma; / Afinal, serão eles muito menos penosos, / Que os ditos males da alma...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Aldravia de Bar

gotas
de
solidão
adicionadas
ao 
vinho

************

Nota: Aldravias, em regra, não possuem título. Cometo o erro aqui de forma proposital para homenagear o Bar, desejando a todos um Feliz 2014. Sem solidão!

Edweine Loureiro

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Menos a minha (DBS)

naquele dia eu fechei o olho
todos os problemas acabaram
poucas lagrimas
forte dor em alguns poucos
descaso de muitos
lembrancas para o tempo dissolver
olho nao abriu mais
ninguem viu
de longe se foi
todos os ex-pertences orfaos
a vida seguiu
menos a minha

domingo, 12 de janeiro de 2014

Onde cantam as cotovias

1.

Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...
Não há drogas, não há vida:
nunca houve um suicida...

Pus os meus barcos no mar
mas não querem navegar...
Tenho moinhos de vento
mas eles giram tão lento...

Nas ruas, todas tão planas,
passam manhãs cotidianas.
Mas que tédio são os dias
onde cantam as cotovias...

2.

Onde cantam as cotovias
cantam outros passarinhos
canções de todos os dias...

Quando acordo no meu ninho
já cansado de morrer
não há sangue, nem vizinho

a quem possa recorrer.
— E esse silêncio lá fora
que não me deixa escrever!

Como eu queria ir embora,
voltar pras minhas orgias,
e me esquecer da aurora
onde cantam as cotovias...

***
poema publicado no blog do autor

Desprovidos de Alma

Tão claro do que poderia ser possível, acordei naquela manhã com a certeza de que tornaria o mundo um lugar mais suportável para se viver.
Eliminar os desprovidos de alma, os ausentes de caráter, os humanamente inanimados.
Assim, levantei com a convicção de quem acertaria mil vezes na loteria, marcaria o gol no último minuto de jogo, ficaria com a mulher mais bonita da festa.
Sai de casa com a ideia tão intensa como fogo, que saberia exatamente o que fazer quando chegasse o momento.
Desloquei-me serenamente, durante prolixos 76 minutos, até a Câmara Municipal da cidade. Para mim, o covil dos mais famigerados lobos, famulentos, desprovidos de alma, sedentos por sangue.
Sabia precisamente a hora que ocorreria a sessão, o conciliábulo, as formulações sobre subtrações públicas corriqueiras. Impressionantes malfeitorias que acontecem em plena luz do dia e com o aval do povo, dos alienados, dos desprovidos de cérebro.
Logo que adentrei o grande salão, os lobos lançaram olhares incrédulos, famélicos por saber como um ser tão repugnante como aquele, execrável, um inseto, um cidadão, poderia estar ali. Tendo a ousadia de ingressar no covil sem o aval dos seus iguais acerebrais.
Entretanto, mesmo antes da turba finalizar seus pensamentos maléficos e partirem para a carnificina cidadã, arrebatei da mochila a arma. Ansiosa para esputar o metal. E assim, alvejei todos, todos os lobos, ausentes de caráter, desprovidos de alma.
Com o alívio de quem sabe que está absolutamente certo em suas ações, fui embora lentamente, deliciando-me com cada fragmento desfechado, degustando o deleite do sangue entornado, dos corpos alastrados no chão, dos lobos no salão. Que já desprovidos de alma, agora jaz o que era maléfico, abstêmio de humanidade.
Voltei para casa com a mente tão serena como fui ao meu passeio à Câmara Municipal. Até me passou por pensamento, tão velozmente como a correnteza do rio mais tempestuoso, que ninguém, nenhuma autoridade me abordara, nem antes, durante ou após a benfeitoria realizada. Contudo, não dei importância. Talvez, eu tenha adquirido muitos adeptos com a minha façanha, minha generosidade.
Assim, voltei para cama para complementar meu descanso, agora merecidamente conquistado.
Então, e somente então, percebi que não estava indo dormir, e sim já o estava durante todo o tempo desta narrativa.
Com isso, intuí que o que fizera estava vivo somente em devaneio, um sonho, um pulcro e sublime sonho que tive após mais uma noite de propaganda eleitoral gratuita, símbolo da democracia áspide que vivemos, nós, pobres ratos. Nesse tempo de eleições, nesse fim dos tempos.
Um devaneio, a aniquilação dos lobos desprovidos de alma.
Por favor, não me acordem nunca mais, ou até que o mundo esteja limpo.
*Nota: O autor não é favorável a nenhuma forma de violência, seja ela física ou verbal. Mesmo que os lobos a mereçam com todo fervor. Lembrem-se, no covil estão apenas os que receberam nosso aval.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Teatro das Formigas - Ato 5 e Ato 6

Quinto Ato
.
pela varanda
há sobras de festança...

sem escrúpulos
algumas saem do palco
pela surdina

amontoam
estoque de papelotes,
e desaparecem...

sem vestígios
dos desfalques

sendo parte
do contrabando...
.
Sexto Ato
.
reunidas
em plenário

incontinenti
decidem...

onde
pôr marcadores
via GPS,

sob vigilância
ostensiva
dos mercadores,

resguardada
a integridade material
do embrulho

apreendido...
.







sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Convidado Emyli Sousa



A casa da esquina

            Se soubesse antes, nunca teria virado aquela esquina… Voltava da faculdade, eram 10 horas da noite, o campus já havia fechado. Todo dia era tudo sempre igual, saía cedo (ou tão cedo quanto conseguia), sempre estudo, sempre gente, sempre discussão e os professores que não conseguiam ver além dos seus próprios umbigos. Toda aquela masturbação mental me enojava às vezes, mas aprendi a respirar fundo: quando se tem um objetivo, essa é a primeira coisa a se fazer, salvo o clichê. Respirei fundo quanto ao machismo de cada dia, respirei fundo quanto àquela arrogância inveterada, respirei fundo com a comida da lanchonete e respirei fundo quando percebi que mais uma vez, teria que virar aquela esquina.
            Já ouvira gritos vindos daquela casa antes. Sempre grossos, ficava imaginando se nunca ouviria gritos em resposta. Sim, eu ouvia gritos de um só. Mas não podia haver um só. De onde viriam aqueles estrondos? De onde viria aquele silêncio, aquelas pausas? Os gritos que evocavam um poder covarde por vezes ressoavam na rua, fazendo os vizinhos saírem de suas casas. Mas ninguém nunca foi lá ver – talvez pelo tremor, talvez pelo silêncio que respondia. Poderia ser simplesmente uma crise esquizofrênica ou sei lá, um ataque de raiva, problema do outro, coisa de marido e mulher. Todo mundo sabia a origem do primeiro, mas a resignação do segundo parecia ressoar ainda mais forte, se repetindo pelos arredores da rua.
            Dessa vez não se ouvia gritos. O portão como sempre, nesses momentos de silêncio, estava aberto. Saindo da garagem, outro carro de luxo… Lembrar de respirar fundo. O cachorro preso à corrente, criado de forma violenta para ser violento; golfada de ar. Meus pulmões já estavam ardendo, talvez fosse pressentimento, talvez necessidade e no fim, talvez fossem os dois. Apertei o passo para não ser vista, tentando não abaixar o olhar. Envergonhava-me abaixar os olhos, por instinto, ao virar aquela esquina. Se a errada não sou eu, por que esconder o rosto como culpada? Errado, certo… Tudo se relativiza quando se trata de um jogo de poder.
            O gosto de nojo me subiu à garganta quando percebi que olhos me analisavam. Apertei o material entre os braços e desejei estar em uma bolha. O bar já havia ficado na outra esquina, única movimentação nesse horário no meu bairro. Com o pulmão ardendo, vi que se aproximava pelo reflexo do vidro do carro. Não eram movimentos rudes, mas eu sabia que poderiam ser. Puxou-me para dentro da garagem, deus ou seja lá o que for sabe o quanto eu queria gritar. E eu iria, quando ele gritou. Com a voz cada vez mais grossa ressoando no meu cérebro, rosnava coisas que por sorte, não consigo lembrar com clareza. Algo sobre quem eu achava que era, algo sobre quem mandava ali. O jogo estava claro, o detentor da força detinha também o poder. Não era só o poder de ter um carro de luxo sabe-se lá por que meios, de tornar violento um animal ou de fazer calar a vizinhança inteira. Era o poder sobre o meu corpo que estava em jogo. A voz, a respiração, o tremor, o gosto amargo na garganta; nada disso era meu.
            Consigo lembrar cada detalhe do que aconteceu, com excessão do que me foi dito. Enquanto ele gritava e eu tentava resistir, ele me batia. Batia em mim, nos móveis e em qualquer coisa que pudesse ficar à frente de si. A dor parecia atingir cada um dos meus órgãos e por mais que eu tentasse, quanto mais os berros me invadiam, mais o nó na garganta que me impedia de gritar, crescia.  Agora eu entendia aquela resposta silenciosa sobre a qual tanto me questionava e agora, sabia qual era a sensação de ouvir meu silêncio ressoar pela vizinhança. Queria pedir socorro, queria sair dali, queria que meu corpo fosse jogado no fogo, pois só assim se mataria os germes que vinham de cada toque e cada fluído daquele ser. Gozou três, quatro, cinco vezes. O prazer vinha com raiva e com a raiva, mais prazer. Quando se questiona o porquê de uma mulher sentir culpa quando violentada, entre tantas coisas, talvez se deva entender que ela busca entender o porquê de tanta raiva contra si. Só alguém que fez uma coisa muito errada pode merecer tanto ódio, nessa nossa sociedade de mentalidade cristã.
            Senti o peso de todo aquele ódio sobre mim, assim como a exaustão que ele provocou. Terminados os trabalhos, parecia até uma última sacanagem, para não deixar espaço que pudesse me fazer pensar que eu tinha a alguma relevância naquele momento. Repousou seu corpo sobre o meu. Eram 300, 400 quilos? Antes sentia meus órgãos e agora também minhas vísceras. Não bastasse o peso sobre a cabeça que latejava, sentiria por mais alguns minutos aquele soco permanente no estômago.  Conformei-me como um mestre budista: acho que atingi minha iluminação espiritual – de tanta dor, passei a nada sentir. Enquanto eu buscava meu nirvana, ele começou a roncar como um trator. Não sei o que acontece nesses momentos, penso que vem uma dádiva divina que te faz achar que qualquer coisa é algo normal. O que mais poderia ser anormal depois daquilo tudo? Esquivei-me e com uma força que me pareceu vir de outra dimensão, rolei seu corpo macilento para o outro lado.
            Procurei minhas roupas no chão. Por sorte, nada fora rasgado. Vesti sentindo meu sexo arder. Ao olhar, vi um pouco de sangue – preferi ignorar. Peguei minhas coisas espalhadas pelo chão. O cachorro se divertia com um dos meus livros. Deixei, alguém precisava se divertir naquela situação toda. Olhei no relógio: 3 da manhã. Parecia haver passado três dias. Com dificuldade, andei até o portão e virei à esquerda. Dali, já conseguia vislumbrar minha casa. Faltavam alguns passos – quarenta, cinqüenta, talvez. Não era muito, embora eu não soubesse até onde minhas pernas poderiam resistir. Com a cabeça latejante e os gritos dele ressoando, só me restava andar. Quando se tem um objetivo, a primeira coisa a se fazer é respirar fundo. Foi o que fiz.




---

Emyli Sousa
http://limpeseusolhos.wordpress.com/


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A BOA MORTE - nossas mulheres e suas bundas maravilhosas


Deveria ser proibido mulher gostosa usar shortinho branco sem dar pros olhos tarados que as secam
Isso é um absurdo
Nossas mulheres e suas bundas maravilhosas têm de ser socialistas
Dar carne pra quem tem fome
De que adianta malhar duas horas por dia e não liberar a carninha rosada temperada no salgadinho suor
Capitalismo sexual só é bom nos puteiros
Na praia e nos bares queremos bundas comunistas
Sou bundocetólogo e sei o que estou falando
Pergunte ao pau
Ele vai bater continência
De pé e olhando pro céu
Positivo e operante
Esperando a hora de entrar rachando
Mas não
Bundas rebolando são dedos indicadores sinalizando negação
Na Ataulfo de Paiva, rabos abanam negação.
Na praia, bundas sorriem negação.
Gostosas desfilam rabetas insanas no ensaio metido do não
Por essas e outras me formei em pegação compulsória
Sou estuprador com mestrado e doutorado em coito anal
Exerço minha profissão
Também chambro na punheta
Masturbação é fazer amor com quem você gosta e sem autorização
Antes de me formar, a bronha era minha única opção.
Agora não!
Voltando as musas
Melhor que mulher de shortinho
Só mulher de shortinho branco jogando futevôlei
A cada recebida na coxa o biquíni vai enterrando no short
Esse é o objetivo das tesudas nas redes da orla
Deixar todos os homens na mão
Comigo não!
Mulher sem querer não deve evidenciar e sim esconder
Mulher que esconde não precisa sair de casa
Mulheres gostosas abusando dos shortinhos brancos merecem
O shortinho branco é um combo
Vem com calcinha marcando
Barangas têm de saber este item ser do vestuário feminino das graduadas
Mocréias não podem usar
Não trabalho com mulher feia
Fica determinado
Gostosa vestiu branco tem que dar
O punheteirólogo Woody Allen disse:

- Sexo bom é sexo imundo!

Concordo
O Sexo sujo é o mais elevado
Quase espiritual
Quando estou exercendo minha profissão
Cuspo
Xingo
Esporro na cara
Meto dedos
Dou tapas
Tapas são minha especialidade
Tapa na bunda revestida de branco estala alto
Deixá-las roxa é ter atitude
Não quer tomar porrada?
Não use branco!
Bundas gostosas de shortinhos são alvos gritando:

- Eu tô de shortinho branco, não tá vendo? Bate que eu gosto!

É uma voz sussurrando:

- Me come! Me fode! Estraga-me!

Putas vestem branco
Não é preto
Nem vermelho
O branco é o senhor do puteiro
Realça as coxas morenas de meninas marotas
Reluz o neon estroboscópico
O branco é a cor das putas
E das filhas das putas
Fodam-se os santos
O shortinho branco fala pela usuária
É uma promessa de sexo
Uma declaração de intenção
A maior ameaça aos sem tesão
Nenhuma mulher coloca um short branco impunemente
O branco refrigerador cromático das bucetas quentes e meladas clama por mim
Mulheres de branco são hordas suicidas sem direção
Mulheres de shortinhos são ruas sem saídas
Becos escuros
Um convite à penetração
Por mais que elas chorem e gritem dizendo que não
Com meu revólver eu não fico na mão

Pablo Treuffar / Leandro Gama
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Desacordo




— Eu disse que precisávamos resolver isso.

Sorria ao repetir a frase, quando ela desligou o chuveiro e passou a enxugar os cabelos. Sabia que ficar ali parado encarando-a daquele jeito a incomodava, eram amigos há muito tempo. Tinha certeza que ela também não daria o braço a torcer. Divertia-se com sua teimosia silenciosa, andando nua pelo quarto, não se deixando vencer pela estranheza da situação. Gostava disso nela. Ainda enxugando os cabelos ela respondeu suavemente.

— Eu sei o que disse, mas agora o que eu preciso é ir embora.

A pressa, o rubor e os olhos tristes o irritavam mais do que gostaria de admitir. Era como se fosse agora outra mulher que tinha na sua frente.

— A pressa é sua não minha.

Passou a recolher as roupas espalhadas pelo quarto, os lábios dele se estreitaram numa linha fina.

— É eu sei que a pressa é minha.

Sabia que estava sendo sensata e até gostava disso, mas por alguma razão a sensatez dela naquele momento o irritava, sentia uma raiva crescente daquele ritual de despedida e fuga. Pegou sua saia sobre a cadeira num gesto rápido, ela sorriu e foi pegar alguma outra peça esquecida perto da cama, depois estendeu a mão pra que ele lhe desse a saia. Estava bonita assim semi-vestida, apressada e descalça. Ele sorriu e agarrou-a para um beijo rápido.

— Tudo bem. Vou ficar mais um pouco. Importa-se em sair sozinha?

Disse num tom neutro enquanto permitia que ela pegasse a saia.

— Fica tranqüilo. Prefiro assim.

Ajudou-a com o zíper, ela sorriu quando ele a beijou na curva do pescoço. Gostava do sorriso, era uma das coisas de que gostava nela, pois fazia um contraste interessante com os olhos tristes. Deitou na cama, braços sob a cabeça e ficou assistindo sua amiga se arrumar.

— Quando te vejo de novo?

— Não vê. Acho que resolvemos tudo que tínhamos pra resolver.

Prendeu os cabelos num coque, passou batom e passava os olhos pelo quarto em busca da bolsa, sapatos e da chave da porta.

— Não sei, acho que preciso resolver isso mais algumas vezes.

Ela sorriu. Estava quase pronta.

— Sei.

Procurava as sandálias.

— Sabe? Convencida.

Achou-as em algum lugar entre a cama e a porta.

— Não. Não sei. Te vejo quando quisermos, quando der ou não nos vemos. Não importa muito, não foi o que você disse? Queria apenas foder-me por horas.

— Foi o que eu disse ? Só não disse quantas horas.

Ela viu a chave na mão dele, olhou o relógio, ele sorriu.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Poesia para fundo de gaveta




Este poema é para ir para o fundo da gaveta
É para nunca ser lido e se lido esquecido
É para nada significar ao leitor mais atento
É para não valer um centavo e não pagar as contas do poeta
                                                                                   em questão
Este poema é como qualquer outro, para ser incômodo,
                                                    ser reflexo, ser espelho
                                                       
                                                                          e sumir 

                               ploc!

                                     como bolha de sabão ...

Este poema não diz respeito a nada, a não ser a ele mesmo
como vê, não há belas palavras, imagens ou aliterações

Este poema, como qualquer outro
é para ser esquecido
como moedinha de centavos,
como tampa de caneta bic
na gaveta da cômoda
sob a televisão ligada
nos programas de auditório nas casas das famílias do século XXI

Afinal
para que poesia ?

_ Amor, venha ver aquele cantor que você gosta na TV ...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

polícia para quem não precisa de polícia




a função precípua da polícia civil, ou polícia judiciária, é apurar as infrações penais, aqueles fatos - por 'fatos' entenda-se algo que já aconteceu - definidos por lei como crimes ou contravenções penais. logo, tal atribuição NÃO inclui:


01) apurar crimes que ainda não aconteceram. o crime ou contravenção tem quatro fases sequenciais: cogitação, preparação, execução e consumação. o candidato a meliante tem a ideia do crime, decide pô-la em prática, traça seu plano diabólico, inicia os preparos e parte para executá-lo. se bem-sucedido, o crime se consuma. caso contrário, responde pela tentativa. a lei brasileira pune o criminoso somente a partir dos atos de execução. portanto, não, a polícia não é obrigada a agir porque você acha que seu vizinho pode lhe ferir ou matar ou fazer qualquer mal a você porque ele, cujas feições lembram muito as do monstro do doutor frankenstein, olha para você de cara feia.



02) apurar crimes impossíveis. embora muitos - dentre os quais habitués da Serra da Beleza, Chapada dos Veadeiros e Chapada dos Guimarães, bem como assinantes da revista UFO e leitores de erich von daniken - possam discordar, não, a polícia não tem o dever de lhe proteger porque os alienígenas espalharam câmeras invisíveis por toda a sua casa e podem a qualquer momento lhe abduzir e fazer altos e excitantes experimentos sexuais com você enquanto deslizam pela via láctea.



03) dar susto. uma das não-atribuições mais requisitadas pela clientela, especialmente por vítimas de violência doméstica: "sabe, doutor, meu marido não é uma pessoa ruim. ele só fica violento quando bebe. e ele bebe todo dia. daí ele me bate. mas eu não quero prejudicar ele não. eu amo ele. só queria que a polícia desse um susto nele pra ver se ele para de me bater." não, minha senhora, lamentamos informar que a polícia não dá susto. embora seja certo que eles seriam de enorme valia à instituição, não, o conde drácula, o lobisomem, a múmia, darth vader, satan goss, gasparzinho e o fantasminha pluft não integram nossas fileiras. é até verdade que temos alguns colegas na casa que antes de descerem à terra entraram na fila da feiúra várias vezes, contudo, malgrado involuntariamente sirvam para provocar choro em bebês de colo e dispensem dedetização nos locais onde trabalham, assustar maridos agressores não faz parte do seu rol de atribuições.



04) apurar crime ou contravenção penal que não é crime nem contravenção penal. se a lei define isso ou aquilo ou aquiloutro como crime ou contravenção, então, sem a menor sombra de dúvida, isso, aquilo ou aquiloutro É crime ou contravenção. se não, não. a polícia judiciária não tem que intervir:
a) se você acreditou no garoto-propaganda da casas bahia quando ele, com aquele sorriso idiota, afirmou que você poderia pagar quanto quisesse naquela linda cozinha bartira;
b) se o farmacêutico estava caindo de bêbado mas ainda assim lhe vendeu o medicamento correto;
c) se a professora disse que seu filho - cuja maior nota foi um 2 em educação artística - tinha déficit de aprendizagem mas (embora até pudesse estar pensando) em nenhum momento o chamou de jumento;
d) se seu marido comeu aquela secretária loira que tem um litro de silicone em cada peito, usa sumários tubinhos, tem piercing do tipo penduricalho no umbigo e uma tatoo tribal logo acima do cofre;
e) se você contratou o canal sex gay mas a sky só disponibilizou o canal de putaria hétero;
f) se sua filha de 16 anos topou alegremente um gangbang com todo o time de futebol do colégio no vestiário do clube;
g) se você chegou em casa e flagrou sua mulher e três afrodescendentes que poderiam facilmente ser confundidos com seu guarda-roupas e cujas envergaduras somadas ultrapassavam fácil 70 centímetros, praticando sexo animal no seu leito de amor conjugal;
h) se sua vaidade masculina foi massageada pela possibilidade de aumentar seu bilau com a super-ultra-mega-sensacional bombinha big pênis, expectativa frustrada pela constatação de que aquela coisinha minúscula e ridícula, por mais que sua mão esteja dormente de tanto bombear, continua e continuará ridícula e minúscula;
i) se o morador do 701 soltou uma bufa fétida no elevador que quase levou você à lona quando houve aquele blecaute de 20 minutos;
j) se você ficou atônito e amedrontado quando soube na curimba que frequenta às sextas, por meio do relato fidedigno da dona maria padilha das sete encruzilhadas do rodoanel, que uma das amantes do seu marido fez um trabalho 'indesfazível' para costurar espiritualmente e para todo o sempre a sua linda e rechonchuda vulva;
k) se você, ao chegar da vernissagem ou do shopping, deparou-se, horrorizada, com o vira-latas pulguento do vizinho engatado e babando em cima de adriane, sua cadelinha poodle que para você é muito mais que uma simples cachorrinha, é sua filhinha querida super bem-tratada à base de ração inglesa e shampoo francês;
l) se o ogro sujo, cabeludo e tatuado que mora perto da sua casa não separa as latas vazias de cerveja das garrafas de pinga das guimbas de cigarro dos restos de comida quando joga fora o lixo;
m) se você todos os dias se vê forçado a escalar o morro mais alto de sua cidade para falar ao celular com sua mãe que mora em santo antão do horizonte infinito;
n) se você, bêbado como um gambá, foi implacavelmente sodomizado naquela bacanal em que topou participar;



não. definitivamente não. seu problema é enorme, gigantesco, um problemão, mas não é previsto nem definido como crime ou contravenção na lei penal brasileira, logo, não é caso para a polícia. o policial pode se compadecer e até mesmo sentir ganas de fazer algo para tentar resolver sua questão, mas ele sabe que não pode fazer isso. tomar para si o encargo de outro funcionário público é usurpação de função pública e isso é crime. mas não fique aí parado, reclamando que ninguém faz nada para ajudá-lo. o chapolim colorado não vai aparecer e chamar os bons para seguí-lo. informe-se e procure o órgão nas esferas administrativa, civil, órgãos de classe, o judiciário, o batman, o justiceiro, etc., busque quem tem a atribuição, o dever de ouvir sua reclamação e tomar providências no afã de reparar a tremenda injustiça que você sofreu. pense também sobre a possibilidade de aceitar jesus, apagar a luz, usar brinco de cruz ou comer cuscuz, senhor(a) avestruz.



Carlos Cruz - 29/08/2013

domingo, 5 de janeiro de 2014

"faz de mim teu mimo mulher"


faz de mim teu mimo mulher,
despeja teu amor e não se arrependa.
                                        crie caso,
                                        me morda,
faz cara de amor partido,
mas faz de mim teu mimo mulher.

exceda. faz de mim teu
                  exercício...
                         vício.
me tome para teu gozo
com tamanha leveza
e não ligue para o sacrifício
da carne machucada.

faz de mim teu detalhe mais
                            discreto,
                          teu afeto,
tua total falta de medidas
e não pense...
seja uma tarde blues.

ah mulher! faz de mim teu ciúme
disfarçado.
ronda meu desamparo
com essa tua finesse de pessoa
e, numa boa,
faz de mim teu mimo?

eu já desaprendi a caminhar com
as próprias pernas,
hiberna em mim, em qualquer estação,
a sutileza com que reverencias
                           o meio dia,
                      a tarde toda...
as horas de tua ilusão.

faz de mim teu mimo mulher,
teu brinquedo único
teu lugar de meiguice...

[daufen bach.]

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O HOMEM QUE DESVIAVA


Alexandre era um cara responsável. Pai de Rafael, marido de Julia, filho único de dona Selma. Estava sempre disposto a ajudar. Tinha habilidade em consertar carros, luminárias e amizades. Era ele quem acalmava os nervos da galera quando a discussão esquentava. Ele que trocava as lâmpadas queimadas da casa da mãe viúva. Ele que levava o sogro ao médico. Ele que nas horas vagas distribuía ração para cães abandonados.
Alex, apelido obrigatório, não tinha muitas reclamações sobre a vida. Se dedicava de corpo e alma a fazer o bem. Mais corpo que alma. Alex estava bem acima do peso, mas nem isso tirava seu sono. Bonachão e boa praça. Sabe o tipo? Então, assim era.
Trabalhava em uma imobiliária no centro da cidade. Cidade quente, sem chuva, sem sombras, tomada pelo asfalto. Ia cedo para o serviço. Perdia mais tempo caçando vaga para deixar o carro que rodando pelo caminho. Ele morava pouquíssimos quilômetros da firma, mas a gordura de seu corpo era desculpa para não encarar uma caminhada.
Chegava ao escritório arfando. Dia sim, e no outro também, o elevador estragava e Alex encarava três andares como quem vê os portais do inferno. Vermelho, suando e sem dignidade alguma, entrava na sala, se jogava em sua cadeira e dava início ao dia de multitarefas.
Funcionário exemplar, além de ser responsável por várias contas de aluguel e cobrança de condomínios, tomou para si a obrigação de descer até a lanchonete da esquina para comprar diariamente as guloseimas do escritório. Valia tudo na hora do lanche. De pastel a picolé. E Alex era criativo, nunca repetia o petisco.
Em sua simplicidade, se dizia um homem completo.
– Pra que eu quero mais? Tenho uma mulher linda, um filho cheio de saúde e inteligência, uma casa com piscina e uma sogra que já já bate as botas, ria Alex até engasgar durante o discurso no cafezinho, quando os colegas agradeciam as gentilezas do gordo simpático.
Apesar de todas as alegrias que a vida pode proporcionar a um bom pai e cidadão exemplar, Alex se incomodava com uma coisa: ele era um cara que desviava.
É exatamente isso. Mesmo com todo aquele tamanho, Alex precisava andar sempre, ou quase sempre, em zigue-zague. As pessoas simplesmente não desviavam dele . Se estava subindo a escada escorado no corrimão para se equilibrar e manter o fôlego, lá vinha uma horda descendo os degraus que simplesmente não saia da frente e o obrigava a soltar o corrimão e deixar todo mundo passar. 
Se andava pela rua, quem quer que viesse em sua direção, ia reto, não desviava. Alex se obrigava a dar um passo para o lado.
Era um problema. Pra muita gente, uma bobagem, para Alex, um problemão.
Qualquer duzentos metros de caminhada se transformavam automaticamente em dois quilômetros de tanto que ele desviava das pessoas.
Quando tentava não desviar era de praxe levar esbarrão. E com ele sempre um puxão de orelha:
– Ei, olha por onde anda...
Isso sem contar as diversas vezes que iam lanche, sucos, cafés e respeito para o chão. Tudo porque ele não desviou.
Outro dia, andando apressado pela calçada, não desviou de uma senhora distraída e a mulher bateu com toda força em seu peito. E ainda xingou muito Alex. O homem ficou sem palavras. Não pediu desculpas porque afinal não era culpa dele. Ficou parado olhando a mulher indo embora e para sua surpresa, a tal senhora seguiu caminho desviando de tudo e todos. Naquele momento Alex se perguntou quase em voz alta: por que sempre eu que tenho que sair da frente?
Aproveitou o intervalo do almoço para observar o trânsito, os pedestres, o movimento das ruas. Dividiu a humanidade em dois tipos: os que desviam e os que não desviam. Passou a admirar os que não desviam. Mostravam mais confiança, elegância, força e determinação. Enquanto os outros que saiam da frente geralmente andavam de cabeça baixa, quase cansados. Disposto a fazer parte do mundo dos fortes, bradou a si mesmo:
– A partir de hoje não vou desviar. Venha o que vier, seja quem for, eu não desvio.
Fez o sinal da cruz para garantir a seriedade do juramento.
Manteve a rotina de ir de carro ao trabalho, achou vaga perto da entrada. Ninguém passou por ele. Surpreendentemente o elevador estava funcionando. Desceu no andar do escritório, foi até sua mesa, e nada de precisar desviar.  O dia começava bem.
Hora do lanche, Alex se preparou para ir até a esquina pegar as coxinhas de galinha tradicionais da quinta-feira. Confiante, desceu pelo elevador, atravessou a porta grande do prédio e nem viu que a rua estava praticamente vazia.
Feliz em não precisar desviar de ninguém, Alex caminhou tranquilamente. Nem percebeu que o local estava cercado pela polícia. Naquele momento, bandidos estavam fugindo de um assalto a um banco ali próximo. O centro da cidade estava nervoso. Policiais do esquadrão antibomba gritavam para todos se afastarem, a rua fora interditada, polícia de um lado, ladrões de outro. Sirenes, confusão.
Quando se deu conta do que acontecia Alex saiu correndo, nessa hora começou o tiroteio.
Alex dobrou a esquina para o lado errado e acabou de cara com os bandidos. Ficou paralisado. Sem mexer um músculo, apenas ouvia os gritos dos assaltantes encurralados.  
A primeira reação foi pedir “peloamordedeus” que o deixassem ir, mas Alex lembrou que agora ele era forte, destemido, um homem que não desviava de nada. Não cederia um passo, um centímetro para o lado.
Não teve medo. Manteve o juramento: morreu com uma bala na cabeça porque não saiu da frente.

FIM