terça-feira, 26 de agosto de 2014

#vai sem título mesmo#

A única coisa que posso fazer é escrever. um mero esquecimento, um simples esquecimento e sobrou isso. Um erro na mão e a fonte sobe automaticamente.. automaticamente, que palavra robusta, difícil. ahhhhhhhhh
tenho a certeza que continuo errando noite a após noite. É olhar em volta e gritar para um velho gagá:
- ELES ESTÃO TODOS PERDIDOS!! ESSA JUVENTUDE ESTÁ TODO PERDIDA. OLHA SÓ. TÁ TODO MUNDO CASANDO, TODO MUNDO CONVERSA ALTO DEMAIS, TANTO É QUE GRITO PRA VOCÊ VELHINHO.
Ele de cabeça baixa, me responde:
- Vira e meche eles caem na monogamia.
Meu Deus! nessa hora o desespero tomou  conta de mim, bati a mão na parede alaranjada, dei um chute na porta e saí correndo do bar, sem pagar mesmo, saí a la escocesa, não é assim que dizem?
ainda correndo, duas esquinas pra baixo, tropecei num grande cachorro amarelo, ele tinha o rabo cortado, mas em compensação o que perdeu atrás ganhou no tamanho da língua.
rolei uns bons metros na rua, a roupa ficou cheio de terra e meu amigo cachorro amarelão não esqueceu da minha figura. veio fuçando em mim, deu com a língua em minha nuca e falou baixinho em minha orelha:
De ti
só quero troça
pois toda essa joça
jaz
na podridão

Dei um grande salto e me pus de pé. Ora bolas, afinal de contas o que era aquilo? Aquele grande cachorro amarelo estava zombando, em plena três e quarenta e sete da manhã?
- Escute aqui meu amigo, esses seus versinhos não surtem efeito. Prefiro muito mais um axé, um pagodão dos bons, tá me entendo? Já ouviu aquele da loirinha que escorrega no quiabo?
Amarelão bateu asas correndo pela rua. Foi a última vez que o vi. Bem te vi, bem te vi, tocava as badaladas em minha cabeça, agora que só caminhava, tinha certeza que estava no caminho errado. Mas por onde andar? Em todos os lugares bacanas eu era considerado um estranho, era sentar e ser ignorado ou logo começava a receber os olhares fuzilantes.
Lá pelas tantas não sei se foi o vento que me levou ou se toda rua transformou-se numa grande esteira produtiva, estava de frente daquele casa roxa. Lembrei de um poema de um velho mortificado.

Naquela casa, as paredes são tortas
lilás escorre das veias
entre as portas
passam as sombras de meu coração

Poxa vida, que velho safado pensei. Levou mesmo uma vida bacana, melhor talvez do que a vida do velho gagá, meu amigo de bar que só conversava de cabeça baixa comigo. O desgraçado deve ter acertado o caminho, ao menos uma mulher bonitona que vai morrendo com o tempo, como será que eles se olham lá pelos oitenta anos? Fartura tinha na geladeira dele, disso eu sei, roubei até uma fatia de queijo fresco.
Mas enfim, não importa, o que importa é que estava lá. de frente para a casa lilás, roxa. Bati forte na porta, um belo dum soco e berrava a plenos pulmões, aquilo sim o ministério da saúde deveria recomendar
- DEIXE-ME ENTRAR, TENHO SEDE, MUITA SEDE. POSSO ATÉ MATAR CASO NÃO BEBA UM BOM GOLE D’ÁGUA.


Nada. o vento soprava lá no fundo rindo de mim, já estava me irritando com aquele danado, toda vez era assim quando me jogavam na indiferença. Ai que negócio difícil. muito difícil
Desta vez, resolvi dar uns pontapés na porta, doeu muito também, errei a pontaria e acertei o mindinho, mas que se dane.
- ESCUTA AQUI, JÁ ME ROUBARAM TUDO ATÉ AS EXPRESSÕES MAIS SOFRIDAS. DEIXE-ME ENTRA POR FAVOR!!
A porta desapareceu, restou o buraco do portal revelando a escuridão da casa. Pura magia hahaha entrei sem pestanejar. Pois bem meus queridos, podem ascender a luz. Bati umas boas palmas e tudo se clareou em minha vida, respirei aliviado pela primeira vez nessa história.
O mordomo se aconchegou perto de mim em sua bela cadeira de rodas dourada.
- Afinal, o que o senhor deseja?
- Bem, primeiro me veja, duas xícaras de leite, quero pão mandi, muitos pães, passem neles um boa manteiga, mas anota aí, tem que ser manteiga, não me venha com margarina. Sabe aquela geleia de amora? Passa no alface, enrola e prende tudo com palito de dente.
Ele rodou com suas mãos delicadas aquelas belas rodas douradas e com certeza foi efetivar meu pedido.
- MARGARIDA, MARGARIDA MINHA FILHA, VEM PRA CÁ, VEM.
Margarida era flor perigosa, só de ver dava medo, de vestido colado derrubava mil, de palavra na boca, ganhava a nação.

aiai

- MEU SENHOR, ESCUTA BEM O QUE TO TE DIZENDO.. OLHA PRA ESSA FESTA, TÁ TUDO PERDIDO.
Ele batia nas minhas costas, entendia bem todo aquele sentimento, talvez tivesse errado todas as noites da sua vida também.
- Meu filho escuta bem, os gênios têm a chave do tempo. Sei bem disso, meu erro foi o ano que decidi voltar. Fui ambicioso de mais, estava com quarenta anos e voltei pra quando tinha dez anos de idade. Tava na praça, a meninada toda brincando de safadeza, foi a primeira garotinha que beijei. Lembrava de tudo, tava num corpo de dez e com uma mente de quarenta, mas sabia das artes do amor. Dei um beijo nela que a tal ficou doida. Era crescidinha, maior que todas outras, não deu duas semanas já estávamos na coisa. Perdi então minha virgindade com dez anos, antes foi apenas com dezoito. Ha, mas viver a infância tudo de novo, meu grande erro, meus pais naquela época, tão crianças quanto. Um dia não aguentei e disse umas boas pra eles, usei da grande filosofia, meu pai chorou de soluçar. Não aguentei, foi foda, minha vida toda ficou muito mais fudida.
Abracei aquele velho gagá e choramos no bar. Finalmente silencio naquela birosca, todos nos olhando, berramos eu e o velho, berramos fundo, liberdade:
- EIS AQUI TODOS VOCÊS. APRESENTAMOS MARGARIDA, A MAIS BELA E FORMOSA DÚVIDA NA VIDA. BESTAS ATROSES, SABEM QUE ESTÃO CORRENDO PRA TRÁS. BAIXEM TODAS AS CABEÇAS QUE ESSE VELHO MEU AMIGO É MELHOR QUE TODOS. UM GÊNIO, UM SANTO GÊNIO, COMETEU APENAS UM ERRO, QUIS BEBER TODA A FONTE DE UMA VEZ SÓ. MAS SABE MAIS, MUITO MAIS, PEQUENOS INTELECTUAIS DE MERDA. AGORA, SÓ RESTA UMA ATITUDE A TOMAR, COMECEM A URRAR BEM ALTO, QUE O LOBO FAMINTO CONSUMA CADA CENTÍMETRO PEQUENO DA PODRE GOTA QUE É A VIDA DE VOCÊS.
eram gargalhadas, gargalhadas.. gargalhadas.. eu e o velho agora éramos dois cachorros, amarelo e roxo, morávamos na casa do teto do céu, uivando e fazendo cair estrelas.

publicado originalmente em: http://ilusoesliterarias.blogspot.com.br/

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A geladeira desligada

As janelas fechadas faziam entrar uma luz difusa do fim da tarde. Não havia ninguém vivendo ali. Os móveis também já não estavam.

A casa vazia se percebe pela geladeira desligada, pensou. Olhou por uns segundos antes de abrir. Aberta, contemplou as prateleiras vazias. Nenhum sinal de vida.

Fechou os olhos e tentou sentir o cheiro da comida no fogão. Não havia cheiro ou fogão. Só um espaço vazio.
Insistia na procura. Procurava por alguma coisa esquecida. Havia muitas.

Pequena, puxou o banco e subiu. Abriu o armário: pratos, copos, um escorredor. Tudo empoeirado. Pensou que o armário não impedia a poeira do tempo. Concentrando-se de novo na busca, não achou nenhum eletrodoméstico.

Não estava lá.

Desceu do banco e procurou embaixo da pia.

Um liquidificador. Pegou, organizou as coisas sobre a pia e ligou na tomada. Apertou o pulsar.

Pulsava.

Pensou em colocar gelo, cachaça e suco de frutas. Mas a geladeira estava desligada, não havia gelo. Cachaça, só no bar da esquina. E suco de frutas nunca havia entrado naquele apartamento.

Imaginou um milkshake. Mas lembrou da geladeira desligada. E leite, se houvesse, estaria azedo.

Melhor seria colocar ali a geladeira desligada, que parecia tão diferente iluminada por aquela luz difusa. Ou todas as suas mágoas. Sem escolher muito, decidiu pelas mágoas: a geladeira não caberia. Teve medo de transbordar. Apesar disso, ligou o liquidificador.

Mas não aconteceu nada.

As mágoas não poderiam ser trituradas. Até tentou.

Então, decidiu enfiar a mão na lâmina que girava.

domingo, 24 de agosto de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ditadura do silêncio


No país da impunidade, faz-se exceção à lei do silêncio, a única respeitada e temida.

Quem cala contente; E os que ousam desafiar a lei, arruaceiros, sofrem as punições



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Olhares




Para onde os teus olhos

Repousam no fim das tardes,

Partirei como um viajante errante.

Possuis no âmbar-gris

A intensidade das cores

Que alimenta a cumplicidade dos amantes.

 
Sigo, pelo fluxo que circunda o tempo,

No complexo movimento das galáxias,

Por onde gravitam mundos

E, partículas atômicas desenham luz

Na partitura dos ciclos solares.

 
Passado, presente,

Signos impressos,

Páginas a escrever...

 
Tudo se detalha na profusão dos instantes,

Dimensionais e inquietantes,

Em que, universos são criados.

 
Enigmas de luzes tingindo o céu

Ao misturar insólitos olhares.

O meu amor misturado ao teu.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Convidado Rui Catoma

O meu vinho (Monte velho)


Balbuceando a vida pelos trilhos do amoR
Ardo de dor, jubilo que só brinda amor. ódiO.
Rezo, peco, na medida da dúvida… whaT?

Digo, a dor deste amor que só meu não foI,
Orgulha-me de assim ser, pois se um dia foR,

Estarei amando um mundo santo, lúcido a IsaC
Santo bíblico que não sou. Teus beijos são ternuras celestiaiS
Crava-se em mim seu sabor que no peito é perenE
Reluzindo a estrela cadente o meu olhar doidO
Incitado ao amor louco. Bad, very BaD!
Tonalidade Inglesa do mal. Mas a dor é amoR
O que sinto pelo vinho que por mim escreve a linda fadA
Rica como a taça do quintal deste Bar com a letra B.


---


Rui Catoma

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Impressões

É muito fácil de perceber, em uma rodinha de amigos homens, qual a personalidade de cada um deles. Basta, por exemplo, passar uma mulher estonteante na frente destes homens, que cada tipo de caráter tende a se manifestar:

- Ô pedaço de mau caminho! Você é meu número, hein?

Falando em caráter, este é o mau-caráter, que além de canastrão na cantada, é o único casado da roda. Podemos chama-lo também de o cara-de-pau. Uma pequena variação deste tipo é o sem-vergonha, que muitas vezes é também exagerado:

- Nossa, mas isto sim é uma bunda de inaugurar banheiro público!

É, o exagerado realmente passa da dose no comentário. O invejoso já fala:

- Aposto que tirando essa calça legging, despenca tudo. Prefiro a minha namorada, essa sim é perfeitinha...

O problema é que a namorada do invejoso nem bunda tem a coitada. O pessimista já fala:

- Eu lá ia querer um avião desses? Só para ter um monte de marmanjo babando na minha mulher e eu virar corno? Tô fora!

O otimista já é o oposto:

- Com uma mulher dessas, não precisava de mais nada na vida. Podia chover o ano inteiro que eu não ia me preocupar. Ia ficar o tempo todo ali, só aproveitando. Até sem computador eu ficaria, sem problemas. Só alegria!

O tímido, após a mulher passar e quase sumir da vista, apenas modestamente concorda com os demais. Quando é perguntado o que acha, sai pela tangente:

- É verdade gente, ela é... Bem... Hum... – ele dá uma olhada para os dois lados para certificar-se que nenhum estranho está ouvindo, e completa: - Hum... Bonita, eu acho.

Já o convencido declara:

- Desse tipo aí, já cansei de pegar. Tô saindo com uma gata que deixa essa no chinelo. Vocês duvidam?

O convencido é tão seguro de si que faz os seus amigos acreditarem que ele realmente faz e acontece. Contudo, quando os amigos deixam de acreditar no convencido, seu perfil já muda para o de ‘o mentiroso’ na mesma hora.

Mas tem mais um tipo de personalidade, muito curioso por sinal. Quando a menina que desperta a atenção vem andando ainda a uma boa distância, ele é o primeiro que a vê. Quando ela se aproxima, e todos demais estão babando por ela, ele é o único que dá uma discreta piscada que desconcerta a beldade. Depois que ela passa, enquanto os outros estão tecendo seus comentários, ele já sabe onde ela trabalha, muito provavelmente onde mora e até o que gosta de fazer. Ele está a um passo de conquista-la, mas nenhum de seus amigos imagina isso.

Este tipo é popularmente chamado no Brasil por dois nomes: o ‘mineirinho’ ou então, o ‘come-quieto’.




segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Bradock de Copacabana

Em uma loja de ferragens na Rua República do Peru, em Copacabana, vive Bradock, o gato mais tranquilo, ousaria dizer zen, que eu tive oportunidade de conhecer – e olhem que eu conheço uma infinidade de bichanos pois sou daqueles que cultivo o estranho hábito de conversar com gatos de rua. Acho que já até escutei de rabicho de ouvido, alguém se referir a mim pelo bairro como “aquele sujeito meio maluco que fala com tudo quanto é gato”. Mas voltando ao Bradock e deixando de lado os outros felinos com quem travo amizade, dá gosto ver como ele consegue manter a paz de espírito tendo ao seu redor todo o caos urbano que só Copacabana é capaz de proporcionar.
Bradock é altamente sociável. Qualquer pessoa que entre na loja de ferragens por ele é bem recebido, seja enroscando-se nos tornozelos do cliente ou deixando algum frequentador acariciar o seu pêlo, ainda lustroso apesar da idade, pois Bradock já aparenta ser um senhor contando com mais de 10 dez anos de vida. Seu local predileto é o balcão da loja, onde ele permanece em uma atitude zen, totalmente contrária ao seu bélico nome, dado em homenagem a um Rambo de ocasião, deitando de lado, sacudindo em pêndulo o rabo tigrado. Ele é capaz de permanecer assim por horas, até que algum funcionário gentilmente o coloque no chão para poder utilizar-se do balcão. Certos moradores da região, nos quais eu me incluo, eventualmente dão uma chegada na loja não em busca de um parafuso, ferramenta o seja lá o que for, mas sim com o mero objetivo de fazer-lhe um agrado, brincar um pouquinho com aquele simpático pedacinho de selva.
Nunca o vi em atitude agressiva, dentes à mostra, miado intimidador ou pelo eriçado. Tal comportamento não combina com Bradock. Quando ele se aventura pela calçada em frente à loja e lá fica sentado sob as patas traseiras como uma pequena esfinge felina, o movimento dos pedestres lhe é indiferente. Somente a ação de um cachorro mais agressivo o faz sair do seu quase estado de “meditação” e, nessas ocasiões em que o perigo se torna iminente, prefere o aconchego da loja ao duelo com ofensor de quatro patas e, movido por fantástica habilidade, traça um caminho de fuga sempre bem sucedido. Minutos depois, retorna a calçada e lá permanece, sem aparentar medo, ou rancores.
Para Bradock, a vida é bela, simples e merece ser bem vivida. Se todos os humanos fossem tão zens como você, meu caro amigo felino, talvez o mundo fosse um pouco melhor.
Falando em gatos e em atitudes zen, vai aqui uma pequena história envolvendo bichanos e religião budista como encerramento.

Conta-se que num mosteiro distante, um grupo de monges budistas era sempre incomodado por um gato durante as orações. Atormentados por seus miados, eles resolveram amarrar e amordaçar o pobre animal ao início das sessões de meditação. Passaram-se os anos e o gato morreu, sendo substituído por outro, que também era amarrado e amordaçado. Esta atitude tornou-se uma tradição entre os monges. Um século depois, surgiu uma série de tratados filosóficos sobre a necessidade de se amarrar um gato antes do início da prática da meditação zen.

domingo, 17 de agosto de 2014

Oh chuva

Chove chuva, chove lá fora,
a chuva molha, molha a calçada,
os carros vem e vão, vão e vem pela estrada,
a chuva escorre pelos telhados das casas,
a chuva molha na minha horta, minha salada,
a Couve-flor, mas que amor,
a chuva molha, lá no varal,
a minha roupa que eu esqueci de recolher,
mas que horror, mas que desgraça,
amanha  eu vou  sair de cobertor,
E aqui dentro a nostalgia chora,
Oh chuva lava minha alma e manda a tristeza embora.

sábado, 16 de agosto de 2014

Disfarce

Hoje encontrei um poema
não falava de amor
e fedia a esgoto
não rimava com dor
mas sim, com biscoito.

Acabei de encontrá-lo
no ralo
do banheiro
era feio e sujo
e escarrava
o tempo inteiro.

Ninguém o leu.
Ninguém o quis.

Pensei num disfarce.
Então lavei-o, passei perfume
botei pomada pra que a bunda não lhe assasse
guardei numa caixa bem bonita
e só assim eu consegui que o publicassem.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

DUAS ALDRAVIAS


que
importa?
abre
todas
as
portas

***



passarinho
na
gaiola
a
ninguém
consola

*****

AUTOR: Edweine Loureiro

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Super-heróis


Imagem: Morbid,
William Wray

***

Se eu fosse um super-herói
daqueles que salvam gente
(mas nunca se salvam, nunca
de seus próprios acidentes)
acho que eu cortava os pulsos
a c i d e n t a l m e n t e .

Se eu fosse um super-herói
daqueles de aço & tédio
(que só dormem quando à base
de overdoses de remédios)
acho que eu me atirava
do alto daquele prédio.

Se eu fosse um super-herói
daqueles que não tem medo
(mas em seus quartos escuros
choram, baixinho, em segredo)
acho que eu abria o gás
e ia dormir mais cedo...

***

mais poemas do autor aqui

Existência

Santa existência
Cruel inquisição do ser...são
Dai-me insensatez e paciência
Para tudo que não há perdão
À incerteza do que é
Ao deslumbre do que foi
Ao mistério do que será
No desembrulhar do que sou
Abalizar minha existência
Na efígie da família
Até chegar o dia
Em que serei lembrança
Esfumatura.....mancha esquecida
Como já foi antes
Ante...passados
Que de pinturas reluzentes
Tornaram-se borrões...depois...apagados
Tenho uma paciência apressada
Uma sede esfomeada
Quero me alimentar da vida
Quero comer as palavras
Contudo, todo som que chicoteia
Aos meus tímpanos aguçados
Na escuridão clareia
O que não deveria ser lembrado
Tenho uma pressa paciente
Com fome aguardo...mas mato a sede
Solvo tudo que posso
Desse som estridente
Cruel existência
Para tudo que não há perdão
Dai-me insensatez e paciência
Enquanto sofro a santa inquisição

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

9 anos - Sorteio de box com as 04 antologias e o Sonetário Barnasiano



Em agosto de 2014 o Bar do Escritor completa 9 ANOS!

Comemorando o aniversário do nosso movimento literário, SORTEAREMOS no dia 31/08 um box com as quatro antologias (Anarquia Brasileira de Letras, de 2009; Brand, de 2010; Terceira Dose, de 2012 e Tomo IV, de 2013) e o Sonetário Barnasiano (de 2011), os cinco livros publicados pelo BdE.

Para participar é simples:
1 - curta a página do BdE no Facebook;
2 - compartilhe esta postagem e
3 - informe nos comentários abaixo que cumpriu os itens e está concorrendo.

www.facebook.com/BardoEscritor

Visite o Blog do Bar do Escritor, com textos de literatura publicados diariamente: www.bardoescritor.com.br

ps.: o nome do concorrente deve estar na postagem original sobre o sorteio da página do Bar do Escritor no Facebook.

Um brinde literário a todos e Boa Sorte!

DESPEDIDA

.
ela disse adeus. eu disse até. ela saiu, bateu o portão. eu fiquei, tranquei a porta. ela encheu o tanque da motocicleta. eu enchi a cara a certa hora. ela pegou a estrada a toda velocidade. eu deitei na cama e dormi até outro dia. o dia passou. a semana passou. o mês passou. o ano passou. ela voltou. eu continuei. ela trouxe um filho. eu, um cachorro. ela reza e pede perdão. eu escrevo sem noção. ela diz que se arrependeu. eu listo o que aprendi. ela se consome. eu resumo. a vida era dela. a vida era ela. ela despida. despedida.
.

domingo, 10 de agosto de 2014

Convidado João Victor Ferreira Batista




Cores de Primavera

Acordo de manhã
E abro a janela
A cor me penetra
E me leva

Me leva ao paraíso
Das cores de primavera
Rosas, tulipas, margaridas, todas elas
Dando luxo ao meu dia
Dia de primavera





---

João Victor Ferreira Batista

sábado, 9 de agosto de 2014

A GOIABEIRA DA LEAL


Sagrada casinha escondida atrás da furtiva goiabeira da Leal
Nesse bucólico endereço observei a dádiva da vida a florescer em minha filha
Aqui minha pirralha deu seus primeiros passos
Comeu sua primeira refeição
Aprendeu a andar e falar
Dormiu na rede amparada em meu peito
Descobriu seus bichos e a troca de amor com eles
Balançou-se no balanço vermelho com cheiro de quintal
Tomou seus primeiros banhos de chuveiro, mangueira e piscina de varanda.
Molhou suas plantas encantadas da floresta da Maria
Varreu o quintal as gargalhadas
Aprendeu a arrumar seu quarto e seus brinquedos
Invadiu meu quarto toda mijada pedindo pra dormir comigo
Disse-me o primeiro de infinitos “papai eu te amo”
Ensinou-me o verdadeiro e único sentido do amor
Aprendeu a cantar o Samba Rubro Negro
Deu-me abraços gostosos inesquecíveis
Ajudou-me a cozinhar
Fez seus primeiros desenhos e colagens
Aprendeu a andar de bicicleta e skate
Brincou de pique esconde eu estou aqui
Viu inúmeros desenhos, agarradinha comigo.
Dormiu ouvindo histórias mirabolantes inventadas por nós mesmos
E outras fábulas que consegui contar da forma correta
Aprendeu a dar cambalhota e a fazer de nossa cama o seu pula-pula
Viu-me chorando e disse para eu não o fazer por a vida ser legal
Nessa casa Maria deu-me amizade
Palavra
Respeito
Caráter
Bondade
Alegria e amor
Dançou e cantou comigo tantas músicas aos berros
De bola de meia e de bola de gude
Dançamos explodindo sorrisos e gargalhadas
O menino e o moleque uivando dentro de nós
E toda vez que a bruxa me assombra a Maria vem e me dá a mão
Obrigado Quatorze Bis e Milton pela trilha sonora desse cantinho em lar maior
Maria Maria é de fato um dom
Uma certa magia
Obrigado casinha cativada de Maria
Eu e Maria nos perpetuamos no infinito mágico do aqui
Explodo de emoção e faço votos que os próximos inquilinos desse pedaço de amor cravado no Arpoador possam sentir tanta alegria nesse espaço florescente de alegria
Obrigado a minha mãe que nos faz tão felizes aqui
Que minha nova casa seja tão frutuosa quanto essa
Sempre haverá esse passado no meu presente do aqui 

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

frango assado



depenado por galinhas ariscas e depravadas, engolido pela cloaca concupiscente e voraz que atrai, embevece e devora, duro como um ovo talhado em pedra chamada seixo carbono ferroso, o frango serelepe decidiu recolher as asas-coto, baixar a crista e pousar nu.

sábado, 2 de agosto de 2014

O MENINO QUE NÃO FEZ FALTA


“Letraerrada” sumiu naquele dia. Nem perceberam sua ausência.
O menino era o oitavo irmão de Anacleto, Berenice, Cleusiane, Doralice, Erivaldo, Francisco e Gervásio. Ele seria a letra H. A mãe queria Hércules, por causa das fotonovelas e filmes antigos que vira em preto e branco. Seria um herói, pensava a mãe nas horas vagas. O pai levou o nome ao moço do cartório. Não era lá tão versado em letras e o registro no cartório saiu como Ércules.  Logo o menino ganhou o apelido: o “Letraerrada”.
“Letraerrada” era magrelo, mesmo no auge de seus dez anos. Era franzino, com uma pele amarronzada carcomida pelos piolhos. Era pouco desenvolvido. De corpo e de cabeça. Era burro, como dizia seu pai.
“Letraerrada” não sorria, não chorava, não pedia nem reclamava. Sempre vítima das maldades infantis dos irmãos e irmãs, tinha medo de tudo, ou quase tudo. Só não temia a solidão.
Na pobreza em que viviam “Letraerrada” não brincava, não corria, nada fazia. Vivia sujo pelos cantos observando a natureza. A casa onde morava ficava isolada no meio do sertão de meu Deus. Poeira e desalento eram os únicos vizinhos.
Naquele dia “Letraerrada” ouviu de longe uma música alegre. Seus pobres ouvidos desacostumados com as cores da vida não reconheceu o som de um caminhão de circo.
Mas lá de longe chegava o tal caminhão, carregando a trupe toda que logo montaria lona próximo à cidade. “Alô amigos, não percam o espetáculo do palhaço Seu Zé e o amigo Chulé, amanhã no novo circo que está chegando”. Assim começava o discurso do som alto que saia do caminhão.
“Letraerrada” se encantou. Saiu correndo em direção à música. Parou na beira da estrada e o caminhão passou por ele. O menino não se segurou e saiu correndo atrás do velho carro colorido. Primeiro perdeu o chinelo do pé esquerdo. Deixou pelo caminho, sem arrependimentos. Depois caiu de joelhos na estrada de areia. O sangue logo apareceu, mas ele nem ligou. Levantou e correu novamente. Correu como nunca antes tinha corrido na vida. Correu sem medo, livre, como se deixasse pra trás toda e qualquer tristeza, como se arrancasse do peito toda a angústia e o peso de uma existência sem sentido. Nos lábios algo que poderia ser um sorriso se desenhou. As lágrimas tomaram o rosto de Ércules e ele correu, correu até tropeçar e cair de novo.
Dessa vez bateu a cabeça numa pedra. O caminhão foi embora sem tomar conhecimento da perseguição. Ércules caiu sem respirar. Caiu olhando para o céu. Não sentiu nada, como não sentira nada antes na vida. O ensaio de um pequeno sorriso congelou no rosto do menino que não fez a menor falta naquele dia.
Ércules foi encontrado no dia seguinte por Berenice e Doralice, meio por acaso, quando saiam para ir à cidade.  “Letraerrada” foi enterrado ao lado da casa dos pais. Sem música e sem circo. 

FIM

*texto original no livro "Bar do Escritor -TOMO IV" . se quiser comprar, é só me avisar.

** se alguém souber os créditos da foto, me informa. peguei na internet



tá nesse livro aqui. querendo comprar é só avisar.