segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Cinzas
Escrito por
Rodrigo Domit
Em uma metrópole qualquer. Debaixo de uma chuva fina, mas tão fina que se tornava quase invisível, caminhavam lado a lado, de mãos dadas, o garotinho e a mãe. A mãe ia andando com pressa, sem dar atenção ao filho, arrastando-o pela mão.
Quando eles pararam em um cruza-mento, esperando o sinal abrir, o garotinho girou o pescoço e reparou no mundo à sua volta: nas centenas de pessoas apressadas, nas plantas, pássaros, prédios e tudo o mais. Após uma breve análise, por sinal muito precisa, ele virou-se para a mãe e perguntou:
– Mamãe, se os passarinhos são coloridos, as plantas são coloridas, os prédios são coloridos e até mesmo a comida é colorida... Por que é que as pessoas são assim, cinza?
E ele ficou olhando, esperando por uma resposta. Enquanto o rosto da mãe, por vergonha, passou de cinza para rosa.
domingo, 21 de agosto de 2016
Contraste
Escrito por
Angela Gomes
Como
pode haver poesia
Se
existem barrigas vazias
Se
há crianças em perigo
Refugiados
sem abrigo
Se
o medo é companheiro
A
liberdade usurpada
A
convivência insana?
Mas,
poesia é tão intensa que,
Crava n’ alma as dores e,
Faz
ouvir os gritos de pavores
Perceber
o amargo do sangue
As
cores que o corte derrama
A
lucidez que a tez exclama!
Rogo
em prece às Musas
Para
que o bom senso que jaz reviva
Como
brotos depois da chuva
Como
a paz que trazem as flores
Para
que viver e a Primavera
Continuem
a fazer sentido
(Angela
Gomes, 23/09/2015)
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Poetizo-me
Escrito por
Unknown
Faço de mim carne
Corpo para Deus manifestar-se
Faço de mim mente
Para Deus meus pensamentos povoar
Faço de mim espirito
Alma para Deus abençoar-me
E enfim faço de mim pássaro
Para com a liberdade poder voar.
Corpo para Deus manifestar-se
Faço de mim mente
Para Deus meus pensamentos povoar
Faço de mim espirito
Alma para Deus abençoar-me
E enfim faço de mim pássaro
Para com a liberdade poder voar.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
Feito o diabo fugindo da cruz
Escrito por
Júlio Freitas
Ela saiu correndo
e o derrubou
e atordoado,
custou a perceber
o que havia acontecido
forçou as vistas
procurando
e foi atrás dela
Dobrou a esquina
e pôde vê-la
estava longe
nada mais a fazer
Lá se ia a sua boa sorte,
tropeçando num gato
e se esparramando numa roseira.
e o derrubou
e atordoado,
custou a perceber
o que havia acontecido
forçou as vistas
procurando
e foi atrás dela
Dobrou a esquina
e pôde vê-la
estava longe
nada mais a fazer
Lá se ia a sua boa sorte,
tropeçando num gato
e se esparramando numa roseira.
domingo, 14 de agosto de 2016
domingo, 24 de julho de 2016
sexta-feira, 22 de julho de 2016
Sutil
Escrito por
Rodrigo Domit
Cantarolando, colheu do chão uma flor cheia de pétalas. Delicadamente, retirando pétala por pétala, começou a falar, entre sorrisos e suspiros:
– Bem me quer... Bem me quer! Bem me quer... Bem me quer!
Um amigo um tanto sem sal, e totalmente sem açúcar, interrompeu:
– Não! Não é assim!
Ao que ele respondeu:
– Você só diz isso porque você não conhece ela!
E continuou sorrindo.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Conversas a sós
Escrito por
Angela Gomes
Conversas a sós,
Entre mim e,
Sombras que me habitam.
Entre as que me agradam
E, as que me irritam.
Na solidão de uma cela
Cheia da minha companhia.
No aconchego do descanso
E, terror da luz que as clareia.
Entre, quem ama e se odeia.
Entre o que se conhece
E o que não se imagina.
Ante a contemplação
Do que nunca termina...
Cosmos em átomos...,
Moléculas em desenhos abstratos.
Meu amor em um porta-retrato
Desbotado pelo tempo
Perdido.
(08/09/2013)
quarta-feira, 20 de julho de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
Bush Doctor
Escrito por
André Bortolon
Arnaldo saiu de casa no horário de sempre. Banho tomado, cabelo penteado e baseado enrolado. Entrou no carro, selecionou no seu pen drive a sua coletânea preferida do Bob Marley, ligou o ar condicionado no talo e seguiu o seu tradicional trajeto da semana, por entre as ruas da cidade.
Arnaldo já sabia o tempo de percurso, tanto que sabiamente fechava o seu baseado tamanho extra large para, metricamente, fumar metade no caminho de ida, e a outra metade na volta. Sempre atento aos policiais ou guardas de trânsito, Arnaldo já tinha tanto a manha da coisa que escondia por entre seus dedos o cigarro de maconha de uma forma que poucos, ou ninguém, conseguiria perceber de fora o que era. Além de quê, seu carro tinha película e, devido ao calor tropical de sua cidade, Arnaldo sempre dirigia com os vidros fechados.
Na batida do reggae, Arnaldo prensava sua cannabis e viajava ao som do rei. Nada tirava-o do sério durante o seu ritual matinal. O trânsito, o stress, as discussões, tudo ficava de lado nessa hora. Absolutamente nada fazia Arnaldo perder sua calma. Apenas ele e seus dois Bobs, um no som do carro, o outro indo direto para a sua mente. Simples assim.
Quando o seu cigarro chegava à metade, Arnaldo já se punha a apaga-lo, geralmente entre as avenidas 07 de Setembro e Pedro II. A partir dali, se nada de anormal acontecesse, eram menos de quinze minutos até o seu destino final. Tempo para mascar um chiclete, e olhar no retrovisor a vermelhidão dos olhos. Mesmo tendo mais horas de fumo do que urubu tem de voo, Arnaldo ainda achava graça em olhar a si mesmo com as pupilas dilatadas – assim como quando era adolescente, antes ainda de entrar para a faculdade, quando Arnaldo fumara seus primeiros beques. Sim, Arnaldo parecia não perder aquele seu lado infantil, mesmo já estando perto dos quarenta – afinal, para ele, aquilo sim era a mais pura alegria.
Ao estacionar seu carro na vaga de sempre, Arnaldo pegou o colírio e pingou em seus olhos. Borrifou um pouco de perfume por entre os dedos e pelo pescoço e entrou no prédio comercial. Ao chegar no consultório, foi já de cara avisado pela secretária:
- Bom dia Doutor Arnaldo! Bem, são cinco pacientes agendados para a manhã, e quatro para a tarde de hoje. Isso se o seu Azevedo não aparecer aqui lá pelas duas horas. Aí já viu né... o que digo pra ele?
- Diga que espere. Se ele quiser uma reconsulta, vai ter de pagar. Não adianta querer fazer pelo plano, viu?
- Ah, vou dizer pra ele. Nossa, já estou até vendo a cara dele... Bem, já deixei seu chá gelado no frigobar e o café expresso na sua mesa, doutor Arnaldo. A primeira paciente já deve estar chegando...
- Obrigado, Marialva. Até mais!
Arnaldo entrou em seu consultório e ficou cantarolando a última música que escutara no carro. Bebericou o café e viajou o que pôde, até que sua primeira paciente chegasse e acabasse com sua festinha particular.
Arnaldo já sabia o tempo de percurso, tanto que sabiamente fechava o seu baseado tamanho extra large para, metricamente, fumar metade no caminho de ida, e a outra metade na volta. Sempre atento aos policiais ou guardas de trânsito, Arnaldo já tinha tanto a manha da coisa que escondia por entre seus dedos o cigarro de maconha de uma forma que poucos, ou ninguém, conseguiria perceber de fora o que era. Além de quê, seu carro tinha película e, devido ao calor tropical de sua cidade, Arnaldo sempre dirigia com os vidros fechados.
Na batida do reggae, Arnaldo prensava sua cannabis e viajava ao som do rei. Nada tirava-o do sério durante o seu ritual matinal. O trânsito, o stress, as discussões, tudo ficava de lado nessa hora. Absolutamente nada fazia Arnaldo perder sua calma. Apenas ele e seus dois Bobs, um no som do carro, o outro indo direto para a sua mente. Simples assim.
Quando o seu cigarro chegava à metade, Arnaldo já se punha a apaga-lo, geralmente entre as avenidas 07 de Setembro e Pedro II. A partir dali, se nada de anormal acontecesse, eram menos de quinze minutos até o seu destino final. Tempo para mascar um chiclete, e olhar no retrovisor a vermelhidão dos olhos. Mesmo tendo mais horas de fumo do que urubu tem de voo, Arnaldo ainda achava graça em olhar a si mesmo com as pupilas dilatadas – assim como quando era adolescente, antes ainda de entrar para a faculdade, quando Arnaldo fumara seus primeiros beques. Sim, Arnaldo parecia não perder aquele seu lado infantil, mesmo já estando perto dos quarenta – afinal, para ele, aquilo sim era a mais pura alegria.
Ao estacionar seu carro na vaga de sempre, Arnaldo pegou o colírio e pingou em seus olhos. Borrifou um pouco de perfume por entre os dedos e pelo pescoço e entrou no prédio comercial. Ao chegar no consultório, foi já de cara avisado pela secretária:
- Bom dia Doutor Arnaldo! Bem, são cinco pacientes agendados para a manhã, e quatro para a tarde de hoje. Isso se o seu Azevedo não aparecer aqui lá pelas duas horas. Aí já viu né... o que digo pra ele?
- Diga que espere. Se ele quiser uma reconsulta, vai ter de pagar. Não adianta querer fazer pelo plano, viu?
- Ah, vou dizer pra ele. Nossa, já estou até vendo a cara dele... Bem, já deixei seu chá gelado no frigobar e o café expresso na sua mesa, doutor Arnaldo. A primeira paciente já deve estar chegando...
- Obrigado, Marialva. Até mais!
Arnaldo entrou em seu consultório e ficou cantarolando a última música que escutara no carro. Bebericou o café e viajou o que pôde, até que sua primeira paciente chegasse e acabasse com sua festinha particular.
segunda-feira, 18 de julho de 2016
México 70 - A Copa que eu não vi
Escrito por
Zulmar Lopes
Será possível alguém sentir saudades daquilo que não vivenciou? Por mais estranho que pareça, eu sinto, pois sempre me lembro com nostalgia da Copa do Mundo que, com meros quatro anos de idade, eu não vi. Ele foi disputada no México, 1970, quando onze homens vestiram a camisa amarela da seleção brasileira e juntos elevaram o futebol à categoria de obra de arte.
Esqueçam tudo o que ouviram falar do governo Médici, seus porões sangrentos e a utilização do futebol como massa de manobra para manter o povo alienado e em seu lugar. Ignorem milagres econômicos, Guerra do Vietnã ou o movimento hippie. Procure no Youtube a Copa de 70 e foque-se apenas nas quatro linhas que demarcaram o campo de batalha do Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara. Naquele longínquo mês de junho, o “scratch canarinho” como era carinhosamente chamada a seleção, apresentou um espetáculo futebolístico nunca visto antes e quiçá impossível de ser reapresentado pois, a despeito do futebol haver mudando tanto em disciplina tática quanto nos aprimoramentos físico e técnico, as peças do xadrez eram outras, e de qualidade infinitamente superior ao que vemos hoje.
Para começar, havia um deus de ébano no esplendor de sua forma física, tecnicamente perfeito e amadurecido nos seus trinta anos de idade. Pelé, simplesmente o Rei, que conseguiu a façanha de ficar eternizado na Copa em que foi magistral não pelos gols assinalados, mas pelos perdidos. Veja, reveja e deslumbre-se com o seu chute do próprio campo contra a meta adversária e o desespero do goleiro theco, ou a clássica cabeçada defendia pelo inglês Gordon Banks, jogada responsável pela fama do arqueiro da seleção inglesa por muitos anos, ou ainda a incrível, fantástica, esteticamente maravilhosa meia-lua sem tocar na bola contra um goleiro uruguaio de prosaico nome polonês. No México Pelé foi perfeito, um maestro acompanhado pelo spalla Tostão, talentoso meia do Cruzeiro que meses antes sofrera um grave descolamento de retina e, do inferno a redenção, brilhou em terras aztecas. Justamente no confronto mais difícil, contra o “English Team”, consagrado campeão do mundo quatro anos antes, Tostão deixou sua marca em uma jogada individual pelo lado esquerdo onde, após provocar um salseiro, passou a bola para Pelé que, com um simples toque para lado, deixou Jairzinho livre para decretar a magra, contudo heroica vitória por um a zero.
Como esquecer de Jairzinho, o Furação da Copa? Seis jogos, seis gols, façanha nunca antes alcançada, nosso camisa sete levou pânico as defesas adversárias com suas arrancadas mortíferas. Tivemos ainda Rivelino e sua patada atômica; Brito zagueiro raçudo, considerado o pulmão da copa; Carlos Alberto, nosso eterno capitão que perpetuou o gesto de beijar a taça Jules Rimet (que como dizia o samba-enredo “derreteram na maior cara-de-pau”); a juventude veterana de Clodoaldo, a organização tática e os lançamentos milimétricos de Gerson, o canhotinha de ouro; a classe de Piazza, a discrição de Félix e Everaldo.
Campanha sem igual, coroada com a brilhante exibição na final disputada na Cidade do México. Um 4 x 1 convincente contra a seleção italiana, tão diferente destas finais insossas que nos acostumamos a presenciar nas últimas Copas.
Parafraseio Pablo Neruda e confesso que não vivi o momento, não vi a maior seleção de futebol de todos os tempos mas, graças ao milagre tecnológico, este espetáculo está ao alcance de qualquer mortal . Aprecie sem moderação.
domingo, 17 de julho de 2016
Flor dos meus pensamentos
Escrito por
Unknown
Meus pensamentos
são como uma flor
que desabrocha com o tempo
chamuscada pelo sol
despetalada pelo vento
são como uma flor
que desabrocha com o tempo
chamuscada pelo sol
despetalada pelo vento
sábado, 16 de julho de 2016
Onda
Escrito por
Júlio Freitas
aquele ali é hippie e está na moda
aquele outro é vegano porque é moda
fulano envenena o próprio corpo
e se diz preocupado
com a natureza
ciclanos e beltranos
estão dizendo que não vai ter copa
e tantos tantos outros
batem panelas contra o governo
poucos sabem
o que realmente estão fazendo
vejo uma onda levando todo o resto
e acabando num redemoinho
alguns se salvam
ficam boiando
como merda após a descarga.
aquele outro é vegano porque é moda
fulano envenena o próprio corpo
e se diz preocupado
com a natureza
ciclanos e beltranos
estão dizendo que não vai ter copa
e tantos tantos outros
batem panelas contra o governo
poucos sabem
o que realmente estão fazendo
vejo uma onda levando todo o resto
e acabando num redemoinho
alguns se salvam
ficam boiando
como merda após a descarga.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
sexta-feira, 24 de junho de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Visionários
Escrito por
Rodrigo Domit
Os donos do mundo sabem que o petróleo derivou-se de animais e vegetação soterrados
Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem
domingo, 19 de junho de 2016
No Bar
Escrito por
André Bortolon
Seu Reginaldo estava naquela fase em que qualquer barman já pensa duas vezes se é hora de pular do balcão e tentar remover o cidadão dali. O homem não só enrolava a língua, como também cuspia de quando em quando, ao falar. Seu terno abarrotado e a gravata com nó afrouxado faziam o seu semblante lembrar o do personagem Tavares, do falecido Chico Anysio. Mas, naquela noite de terça, o barman em questão – Aníbal - não queria confusão com ninguém. Era terça, poxa. Ninguém mais entraria no bar àquela hora. Em trinta minutos, ele fecharia o bar e educadamente conduziria Tavares, ou melhor, o seu Reginaldo, para a porta do recinto. Simples assim. Além disso, Aníbal estava lendo um livro intitulado: “Quero Vencer, Não Sei o Que Fazer”, o que o fazia ponderar suas atitudes em horas como aquela. Nada como uma boa autoajuda para se manter calmo...
- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!
Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.
- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!
Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.
- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!
Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:
- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.
“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.
- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...
Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:
- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...
Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.
- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!
Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.
- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!
Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.
- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!
Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:
- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.
“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.
- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...
Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:
- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...
Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.
sábado, 18 de junho de 2016
O Centauro de Saramago
Escrito por
Zulmar Lopes
Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um
corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou
para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho,
Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti.
Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da tentativa de figura feminina que Nélida se
esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba e a voz artificialmente colocada, por mulher
passaria. Ele voltou para casa incomodado, mas reconhecendo que Nélida havia
caprichado no corte.
Na segunda vez, já estavam um
pouco mais íntimos e o desconforto diluíra. “Trabalha em quê?”, perguntou
Nélida enquanto manejava com maestria a máquina. “Professor de matemática”, foi
a lacônica resposta. Como estávamos na Quarta-feira de Cinzas, Ignácio ouviu,
atento e assombrado, o relato de Nélida para as outras cabeleireiras sobre suas
aventuras no Baile Gay fantasiada de Coelhinha da Playboy. Voltou para casa
curioso, imaginando Nélida dentro dos seus trajes carnavalescos.
Na terceira ida ao salão,
encontrou um negro forte sentado onde já considerava o seu lugar. A felliniana
chamou outra cabeleireira para dar um trato em sua cabeça semi- raspada e
Ignácio, disfarçando a contrariedade, ficou bisbilhotando os movimentos de
Nélida que, num frenesi entusiástico, esculpia na nuca do Apolo de Ébano a
palavra “Mengo”. Voltou para casa platonicamente enciumado.
Em sua quarta visita ao salão,
durante ritual do corte, Ignácio pediu Nélida em namoro. Foram juntos para a
casa do professor terem sua primeira noite de amor.
Passaram a dividir um quitinete
em Botafogo em companhia de um gato angorá chamado Oscar que interpretava o
papel de filho que nunca teriam. Viviam como marido e mulher, pois Ignácio não
a desejava como homem e tão pouco Nélida prestava-se ao papel ativo. Só um
detalhe atrapalhava a paz conjugal: os flácidos 13 centímetros de Nélida.
Ignácio tinha verdadeira ojeriza ao falo da amada, mal conseguia encará-lo.
Passaram muitas madrugadas de carinhos no escuro, com o membro de Nélida
ocultado pelo negrume do quarto enquanto o travesti recebia Ignácio de bruços,
escondendo a parte de sua anatomia embaraçosa ao seu amor.
Um dia, pousou nas mãos de Nélida
um livro de contos de José Saramago (1). Não era dada a leituras, mas
interessou-se pela história de um centauro caçado impiedosamente por um grupo
de humanos. Narrava Saramago que a criatura mitológica sempre tivera o desejo
de dormir deitado de costas, o que sua constituição, meio homem, meio equino, o
impedia de realizar. Encurralado, o centauro queda-se por um desfiladeiro e tem
seu corpo violentamente cortado ao meio por efeito de uma pedra pontiaguda. Em
seus últimos momentos de vida, a porção humana do centauro caído de costas experimenta
o prazer de sentir solo acariciando seus omoplatas. Emocionada, Nélida cerrou o
livro e tomou uma decisão.
Foram quase dois anos de espera,
mais seis meses de recuperação após a cirurgia. Dr. Euclides Pessoa, conhecido
nos meios cirúrgico-científicos como “O Pitanguy das Xoxotas”, fizera um
trabalho digno de figurar em qualquer galeria de arte, dada a perfeição em que
construíra a vagina de Nélida. Então, tal qual o Centauro de Saramago, o agora
ex-travesti provou da emoção única de, omoplatas roçando os lençóis, receber um
homem, seu homem, de frente pela primeira vez na vida e ambos, unidos e
extasiados, gozarem os prazeres que um prosaico papai-e-mamãe só àquele casal
poderia proporcionar.
(1) Objecto
Quase, de José Saramago. Editora Companhia das Letras, Ano: 1994.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Ideia
Escrito por
Júlio Freitas
Um pardal entrou pela sua janela
bateu na parede
na porta da geladeira
e achou a saída
"Taí uma boa ideia", ele pensou
Então abriu a porta
abriu suas asas
respirou fundo
e voou
Dias depois
numa cidade vizinha
foi encontrado morto
apedrejado por crianças
com seus bodoques
e arminhas de chumbo
Não
ele não estava pronto
para sair do ninho
A ideia era boa
o tempo não.
terça-feira, 14 de junho de 2016
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Sobre ditaduras
Escrito por
Glauber Vieira
King Jong-Un
Muamar Kadaffi
Josef Stalin
Os ditadores em suas
torres de marfim observam
Como cães de guarda,
vigiam a nação
Matam minorias
Lambuzam o corpo com as moedas contadas do povo
Sorriem simpáticos para o mundo
enquanto ignoram armistícios
Os ditadores uma noite acordam
com o barulho
Olham a cidade abaixo:
há luzes e agitação
São bombas
Mas imaginam ser fogos
de artifício.
Fotos: wikipedia
terça-feira, 24 de maio de 2016
domingo, 22 de maio de 2016
Domador de demônios
Escrito por
Rodrigo Domit
Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as ideias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.
Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
O Quinto Trapalhão
Escrito por
André Bortolon
A estória que aqui será contada é daquelas que com o tempo caem na boca do povo, ganhando, para alguns, um tom de dramaticidade; para outros, de suspense, do tipo: “escuta só, essa é meio que segredo, ninguém pode saber...”. Apesar de um tanto quanto obscura para muitos brasileiros da nova geração, entre os mais antigos a estória que irei contar aqui foi e ainda é bastante comentada (e devidamente ‘aumentada’) em alguns botecos deste Mercosul. Pois sim, caros leitores, nosso personagem, apesar de brasileiro, foi mais conhecido de fato em nosso país vizinho e rival Argentina, do que aqui. Mas afinal, de quem estamos falando? De ninguém mais, ninguém menos do que ele, o palhaço Barrigão, ou como ficou conhecido na grande Buenos Aires, Él Barrigon de la Noche.
O lado brasileiro da história é o mais obscuro. Para começar, Barrigão veio de uma família pequena, como filho de adoção. Não há praticamente nenhum parente vivo hoje para confirmar a versão oficial dos fatos, mas o que se sabe é que, além de viver como palhaço de circo, por muito pouco Barrigão não chegou ao estrelato no Brasil sendo um dos Trapalhões. Isso mesmo. O famoso quarteto que animava os domingos da criançada era para ser um quinteto, aparentemente nesta ordem: Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Barrigão. Esse foi, sem dúvida, o maior golpe que Barrigão levou ao longo da vida. Dizia ele que, muitas das piadas levadas ao ar a partir de 1977 no programa do quarteto tinham sido criação dele (nem Didi, nem Dedé quiseram se pronunciar acerca da veracidade ou não dos fatos).
Desiludido com o sucesso dos demais, Barrigão enfrentou problemas com a bebida no final dos anos 70. Apesar dos pesares, uma nova esperança surgiu quando um uruguaio, que levava o apelido de Paco, viu uma apresentação de rua de Barrigão em Balneário Camboriú, no sul do Brasil. Encantado, Paco convidou o brasileiro para se apresentar em Punta del Este na temporada de verão, pois lá o cachê e a gorjeta dos milionários, seriam sem dúvida maior do que eram ali. Ganhando um novo fôlego, Barrigão desembarcou no começo de dezembro em Punta, para uma nova fase em sua vida. Como seu humor sempre havia sido muito gráfico – com ovos quebrados na cabeça, cambalhotas e baldes d’água na cara – não seria nada difícil fazer os turistas rirem de suas travessuras.
E exatamente como o fora prometido, o dinheiro era melhor lá do que no Brasil. A única coisa é que Punta morria no inverno, e Barrigão passou a participar de modestos espetáculos circenses no interior do Uruguai. Mesmo não estando totalmente livre do vício da bebida, ele queria mais para si do que circos pobres e apenas pão e água como pagamento em muitas de suas apresentações. No verão seguinte, voltou à Punta para lucrar um dinheiro maior, e lá conheceu quem seria por muitos anos, a amor de sua vida: a argentina Cecília.
Pode-se dizer que, ao menos nos primeiros anos do relacionamento, Barrigão conseguiu alcançar um pouco do prestígio de que tanto almejava. Mudando-se com Cecília para Buenos Aires, El Barrigón passou a ser cadeira cativa nas casas de espetáculo da Avenida 9 de Julio. Por atuar na noite é que sua alcunha foi estendida para El Barrigón de la Noche; porém, as más línguas sustentam que o "de la Noche" vinha do fato de Barrigão amanhecer sempre bêbado de cair. Dizia-se que os taxistas já sabiam o endereço dele e de Cecília, no bairro da Recoleta, e apenas deixavam Barrigão, na maioria das vezes desacordado, na porta do prédio onde moravam.
O que estava bom começou a degringolar quando Cecília iniciou um affair com um ex-jogador de futebol paraguaio, Javier Chácara, que havia feito sua carreira nos clubes de Buenos Aires, e vivia confortavelmente por lá, e sem ter consigo o vício pela bebida. Quando Barrigão flagrou sua mulher saindo de um restaurante em Puerto Madero ao lado de Javier, Cecília não teve dó e confessou tudo de uma vez, além de pedir para que Barrigão deixasse o apartamento da Recoleta. Dizia ela que não havia dito nada até então, por pura pena do palhaço de meia idade. Mesmo implorando de joelhos por Cecília, Barrigão recebeu um ultimato dos advogados de sua agora ex-companheira, para que deixasse o apartamento dentro de uma semana. Não só isso, mas Barrigão, bêbado e revoltado, tentou agredir Javier Chácara uma noite, na porta do prédio, mas acabou imobilizado pelo paraguaio, que por pouco não quebrou o braço de Barrigão na hora do confronto.
Morando num edifício velho, num apartamento pequeno e quase sem móveis, Barrigão tinha no ofício de palhaço, e no pouco de confiança que ainda lhe restava, um meio de sobreviver entre todos os seus problemas. Agora seus espetáculos eram durante o dia, pelas praças de Buenos Aires, a troco de migalhas. O pouco que sobrava ia para a bebida, comprada normalmente no supermercado com os trocados ganhos ao longo do dia.
Acometido de uma depressão, no dia 24 de junho de 1990, após assistir em um bar na Avenida 9 de Julio o Brasil perder para a Argentina por 1 a 0 e ser eliminado da Copa do Mundo daquele ano, Barrigão voltou para seu minúsculo apartamento certo da sua decisão. Nada mais podia alegrar o risonho palhaço de outrora. Com uma corda, atada no lustre-ventilador de teto, Barrigão subiu na velha cadeira de madeira para pular e cometer suicídio - isso se ele não tivesse feito um nó que não era nó. O que aconteceu foi que a corda não apertou o tanto quanto deveria apertar, o que fez com que Barrigão caísse no chão do seu apartamento, num tombo feio agravado pelo seu peso, fazendo-o quebrar sua perna no ato. Apesar do barulho causado, ninguém foi ver o que tinha acontecido em seu apartamento. Barrigão sentia a dor da perna quebrada, mas seguia ali, sem conseguir sequer levantar do chão. De arrasto, foi até a cozinha onde abriu a porta da geladeira; dentro dela, só havia uma garrafa de vinho pela metade, e meia dúzia de ovos. Com muito esforço, Barrigão alcançou o vinho, e virou num gole só. Depois, com os ovos, Barrigão teve que fazer o que vinha fazendo a vida inteira, mas dessa vez para não morrer de fome: quebrar os ovos rente a sua boca, para saciar sua vontade de comer.
Após duas semanas, um cheiro foi sentido no corredor. Os vizinhos baterem na porta por várias vezes, até que o senhorio do apartamento foi chamado lá e com a chave, abriu a porta do imóvel para ver junto de algumas testemunhas, él Barrigón no chão, de barriga para cima, com algumas cascas de ovo e uma garrafa vazia de vinho ao seu lado, e a perna visivelmente deslocada do lugar. Após a autópsia, acredita-se que Barrigão já encontrava-se em óbito há cerca de cinco dias quando os vizinhos o encontraram.
Barrigão faleceu com 51 ou 52 anos, dependendo da fonte pesquisada. Deixou a vida para entrar na história, mesmo que pelas portas do fundo, e ainda hoje serve de inspiração a alguns palhaços de circo sul-americanos. Cecília já tem mais de 70 anos atualmente, e está escrevendo um livro de suas memórias, no qual promete revelar um lado que ninguém conhecia “del Barrigón”. Mais uma pitada de polêmica para a vida deste que já não faz mais parte do mundo dos vivos.
O lado brasileiro da história é o mais obscuro. Para começar, Barrigão veio de uma família pequena, como filho de adoção. Não há praticamente nenhum parente vivo hoje para confirmar a versão oficial dos fatos, mas o que se sabe é que, além de viver como palhaço de circo, por muito pouco Barrigão não chegou ao estrelato no Brasil sendo um dos Trapalhões. Isso mesmo. O famoso quarteto que animava os domingos da criançada era para ser um quinteto, aparentemente nesta ordem: Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Barrigão. Esse foi, sem dúvida, o maior golpe que Barrigão levou ao longo da vida. Dizia ele que, muitas das piadas levadas ao ar a partir de 1977 no programa do quarteto tinham sido criação dele (nem Didi, nem Dedé quiseram se pronunciar acerca da veracidade ou não dos fatos).
Desiludido com o sucesso dos demais, Barrigão enfrentou problemas com a bebida no final dos anos 70. Apesar dos pesares, uma nova esperança surgiu quando um uruguaio, que levava o apelido de Paco, viu uma apresentação de rua de Barrigão em Balneário Camboriú, no sul do Brasil. Encantado, Paco convidou o brasileiro para se apresentar em Punta del Este na temporada de verão, pois lá o cachê e a gorjeta dos milionários, seriam sem dúvida maior do que eram ali. Ganhando um novo fôlego, Barrigão desembarcou no começo de dezembro em Punta, para uma nova fase em sua vida. Como seu humor sempre havia sido muito gráfico – com ovos quebrados na cabeça, cambalhotas e baldes d’água na cara – não seria nada difícil fazer os turistas rirem de suas travessuras.
E exatamente como o fora prometido, o dinheiro era melhor lá do que no Brasil. A única coisa é que Punta morria no inverno, e Barrigão passou a participar de modestos espetáculos circenses no interior do Uruguai. Mesmo não estando totalmente livre do vício da bebida, ele queria mais para si do que circos pobres e apenas pão e água como pagamento em muitas de suas apresentações. No verão seguinte, voltou à Punta para lucrar um dinheiro maior, e lá conheceu quem seria por muitos anos, a amor de sua vida: a argentina Cecília.
Pode-se dizer que, ao menos nos primeiros anos do relacionamento, Barrigão conseguiu alcançar um pouco do prestígio de que tanto almejava. Mudando-se com Cecília para Buenos Aires, El Barrigón passou a ser cadeira cativa nas casas de espetáculo da Avenida 9 de Julio. Por atuar na noite é que sua alcunha foi estendida para El Barrigón de la Noche; porém, as más línguas sustentam que o "de la Noche" vinha do fato de Barrigão amanhecer sempre bêbado de cair. Dizia-se que os taxistas já sabiam o endereço dele e de Cecília, no bairro da Recoleta, e apenas deixavam Barrigão, na maioria das vezes desacordado, na porta do prédio onde moravam.
O que estava bom começou a degringolar quando Cecília iniciou um affair com um ex-jogador de futebol paraguaio, Javier Chácara, que havia feito sua carreira nos clubes de Buenos Aires, e vivia confortavelmente por lá, e sem ter consigo o vício pela bebida. Quando Barrigão flagrou sua mulher saindo de um restaurante em Puerto Madero ao lado de Javier, Cecília não teve dó e confessou tudo de uma vez, além de pedir para que Barrigão deixasse o apartamento da Recoleta. Dizia ela que não havia dito nada até então, por pura pena do palhaço de meia idade. Mesmo implorando de joelhos por Cecília, Barrigão recebeu um ultimato dos advogados de sua agora ex-companheira, para que deixasse o apartamento dentro de uma semana. Não só isso, mas Barrigão, bêbado e revoltado, tentou agredir Javier Chácara uma noite, na porta do prédio, mas acabou imobilizado pelo paraguaio, que por pouco não quebrou o braço de Barrigão na hora do confronto.
Morando num edifício velho, num apartamento pequeno e quase sem móveis, Barrigão tinha no ofício de palhaço, e no pouco de confiança que ainda lhe restava, um meio de sobreviver entre todos os seus problemas. Agora seus espetáculos eram durante o dia, pelas praças de Buenos Aires, a troco de migalhas. O pouco que sobrava ia para a bebida, comprada normalmente no supermercado com os trocados ganhos ao longo do dia.
Acometido de uma depressão, no dia 24 de junho de 1990, após assistir em um bar na Avenida 9 de Julio o Brasil perder para a Argentina por 1 a 0 e ser eliminado da Copa do Mundo daquele ano, Barrigão voltou para seu minúsculo apartamento certo da sua decisão. Nada mais podia alegrar o risonho palhaço de outrora. Com uma corda, atada no lustre-ventilador de teto, Barrigão subiu na velha cadeira de madeira para pular e cometer suicídio - isso se ele não tivesse feito um nó que não era nó. O que aconteceu foi que a corda não apertou o tanto quanto deveria apertar, o que fez com que Barrigão caísse no chão do seu apartamento, num tombo feio agravado pelo seu peso, fazendo-o quebrar sua perna no ato. Apesar do barulho causado, ninguém foi ver o que tinha acontecido em seu apartamento. Barrigão sentia a dor da perna quebrada, mas seguia ali, sem conseguir sequer levantar do chão. De arrasto, foi até a cozinha onde abriu a porta da geladeira; dentro dela, só havia uma garrafa de vinho pela metade, e meia dúzia de ovos. Com muito esforço, Barrigão alcançou o vinho, e virou num gole só. Depois, com os ovos, Barrigão teve que fazer o que vinha fazendo a vida inteira, mas dessa vez para não morrer de fome: quebrar os ovos rente a sua boca, para saciar sua vontade de comer.
Após duas semanas, um cheiro foi sentido no corredor. Os vizinhos baterem na porta por várias vezes, até que o senhorio do apartamento foi chamado lá e com a chave, abriu a porta do imóvel para ver junto de algumas testemunhas, él Barrigón no chão, de barriga para cima, com algumas cascas de ovo e uma garrafa vazia de vinho ao seu lado, e a perna visivelmente deslocada do lugar. Após a autópsia, acredita-se que Barrigão já encontrava-se em óbito há cerca de cinco dias quando os vizinhos o encontraram.
Barrigão faleceu com 51 ou 52 anos, dependendo da fonte pesquisada. Deixou a vida para entrar na história, mesmo que pelas portas do fundo, e ainda hoje serve de inspiração a alguns palhaços de circo sul-americanos. Cecília já tem mais de 70 anos atualmente, e está escrevendo um livro de suas memórias, no qual promete revelar um lado que ninguém conhecia “del Barrigón”. Mais uma pitada de polêmica para a vida deste que já não faz mais parte do mundo dos vivos.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
A bala que se encontra
Escrito por
Zulmar Lopes
Dúvidas nunca
atormentam quem quatorze anos completa. Somente certezas. Certezas emolduradas
pela miséria pungente transbordada pelos becos estreitos da favela onde
habitava. Decidira assim abraçar o banditismo.
Não esperou a maioridade. Naquele ramo iniciava-se cedo. Infante. Esse
seria seu apelido. Henrique na pia batismal, Infante Henrique alusivo ao
monarca de terras além-mar. Em pouco tempo reinava na boca de fumo. Começara
soldado do tráfico e logo chegara a general. Abraçara um fuzil e com ele as
maldades que o faziam forte diante dos súditos. Sua palavra era lei e quem a
desobedecesse, morador ou membro da quadrilha, provava de sua fúria. Incontáveis
matou por vontade própria, outros, as balas perdidas disparadas por seu AK-47
tomaram o rumo indevido e ceifaram vidas no morro e no asfalto não tão
distante. Eu aperto o gatilho, Deus guias as balas, costumava zombar.
Raramente saia do seu
feudo-favela e sonhava virar inimigo público número um, estrelando cartaz
destacado no disque-denúncia tão logo completasse dezoito quando o improvável
aconteceu. Infante conheceu o amor. Menina de família, mãe crente. Largou tudo
por Cristiana antes da maioridade. Entregador de farmácia tornou-se. Certo dia,
voltando do trabalho o Infante criou asas e transformou-se em anjo por obra de
uma bala perdida que encontrou seu corpo. Morreu na via pública. Não fora
castigo de Deus tampouco fatalidade. Apenas mais um dia da barbárie urbana que assola
o País.
Gratidão
Escrito por
ofilhodoblues
“Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade.”
― Charles Bukowski
sou grato porque
cheguei
entre trancos
e barrancos
a lugar nenhum;
pois se eu fosse um
bicho desses qualquer,
cuja existência se dá
na corrida entre os
mais aptos,
meu instinto de sobrevivência
há muito já teria
me matado.
André Espínola
terça-feira, 17 de maio de 2016
Soneto Céu da tua mão
Escrito por
Unknown
Quanto tempo você tem para sair na vida
procurar nos ventos a avent'Cura sina de teu coração
quanto tempo você tem para sorrir teu sol e chorar tua chuva
encontrar no bolso da emoção tuas próprias mãos aladas em voo
se o amarelo das flores trazer o enlevo azul do céu
cada vez mais próximo de ti como o sublime calor apogeu
nada poderá fazer esse límpido amor sobre nós se desfazer
se tudo o que tens é a ti mesmo tua própria lógica do bem
despertas com um beijo dos ventos, vespertina visão que te leva
além do tempo nos olhos do teu próprio destino
a entrelinha composição das nuvens no horizonte do céu da tua mão
que desfilam nuas ao lado do céu e da lua
que solidão dormira nesse momento a tua imaginação
quando estiveres só e tão logo acompanhado em pensamento
assim, como se não tivesses ninguém, mas somente a ti e a deus.
quanto tempo você tem para sorrir teu sol e chorar tua chuva
encontrar no bolso da emoção tuas próprias mãos aladas em voo
se o amarelo das flores trazer o enlevo azul do céu
cada vez mais próximo de ti como o sublime calor apogeu
nada poderá fazer esse límpido amor sobre nós se desfazer
se tudo o que tens é a ti mesmo tua própria lógica do bem
despertas com um beijo dos ventos, vespertina visão que te leva
além do tempo nos olhos do teu próprio destino
a entrelinha composição das nuvens no horizonte do céu da tua mão
que desfilam nuas ao lado do céu e da lua
que solidão dormira nesse momento a tua imaginação
quando estiveres só e tão logo acompanhado em pensamento
assim, como se não tivesses ninguém, mas somente a ti e a deus.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Loop
Escrito por
Júlio Freitas
ergueu-se do chão
foi ao banheiro
lavou o rosto
pegou os cigarros
as chaves
e saiu para a rua
o sol e o calor
o sangue fervia
o estômago embrulhado
o barulho ensurdecia
bolhas nos pés
o trabalho imposto
bate-ponto
filas de robôs
alienados
programados
para sempre seguir ordens
e alimentar
a grande máquina
fim de turno
fim de tarde
rostos
carros
buzinas
suor
tontura
fedor
e loucura
chega em casa
liga o rádio
senta no sofá
esboça um sorriso
e morre
como tem feito todo dia, aliás.
foi ao banheiro
lavou o rosto
pegou os cigarros
as chaves
e saiu para a rua
o sol e o calor
o sangue fervia
o estômago embrulhado
o barulho ensurdecia
bolhas nos pés
o trabalho imposto
bate-ponto
filas de robôs
alienados
programados
para sempre seguir ordens
e alimentar
a grande máquina
fim de turno
fim de tarde
rostos
carros
buzinas
suor
tontura
fedor
e loucura
chega em casa
liga o rádio
senta no sofá
esboça um sorriso
e morre
como tem feito todo dia, aliás.
sábado, 14 de maio de 2016
Assinar:
Postagens (Atom)














