
Caminhei sozinha
Perdida sem seu amor
Mas, estou voltando para casa
Os seus olhos dizem
Estou no lugar certo
O seu coração me acolheu
Eu sinto que estou em minha casa
Nunca mais me perderei na vida
Desejando todo dia o calor do seu amor

Sebastião percebe que o vento não está mais soprando. Ele se ajoelha:
- Quando chegar o verão, eu vou te buscar em casa. Vamos passear no parque. Compro para você um sorvete daqueles que aprecia e peço para o homem com o violão me deixar tocar a sua música. A tarde será perfeita.
O vento agora voltou e parece estar mais forte que o comum. Sebastião deixa as flores em cima do túmulo, desiste dos planos e passa os olhos rapidamente na escritura da lápide: “Aqui jaz Sandra Borges de Medeiro, esposa amada e filha querida”. Ele deixa as lembranças de lado e se põe em pé novamente. Caminha pelo cemitério buscando um sentido para a própria vida, agora que a noiva não está mais presente e nunca mais estará. Ele se vê sozinho, sem família e perdido.
Ele sai do cemitério e, mesmo sem saber o que faria naquele momento, sobe no primeiro ônibus que vê passando. Dentro do veículo ele passa a escrever a primeira carta de sua vida, nunca havia escrito uma antes durante seus vinte e três anos:
“O engraçado (ou o inexplicável) é que eu não lembro de ver a cidade assim tão triste. A chuva, que normalmente não cai, parece tentar dizer a todos que alguém dentro de um ônibus, escrevendo, sofre por uma pessoa que conhece há tão pouco tempo. Isso me faz recordar de um filme qualquer, ou então seria tão único que só se vê em filme mesmo.” - Ele tenta se equilibrar no ônibus e escrever meio sem jeito. “Parece que eu te conheço há anos, que eu te adoro desde sempre. Parece que eu te amo desde que eu nasci... Você merece o mundo e eu só tenho algumas folhas de papel em branco, uma caneta e um lápis. Nem mesmo uma borracha eu tenho.”
Sebastião olha as calçadas, as esquinas, os bares. É hora de descer do ônibus, mesmo sem poder enviar a carta para quem gostaria.
Emerson Wiskow - Ovos de Touro
Alex Plunk - O Pior Poeta do Bar





Abro meu dicionário mental e a palavra sunomono lembra o nome de iguaria japonesa, especificamente salada de pepinos. Revisando as palavras mentais, lembrei-me de outras que devem ser da mesma família oriental mono: nimono, tsukemono e quimono. As duas primeiras, vistas em cardápios nipônicos e a terceira, em tatame. Concluo que mono traduzido para português significa pepino. Se pisar em tatame sem quimono vai dar pepino. Para nós, monoglotas, é pepino falar apenas uma língua.
João era pobre. Sentia-se mais pobre do que era. Sentia-se mais miserável e desgraçado do que realmente era. Mas João tinha sonhos, dois grandes sonhos para ser mais exato.
Aquele que é rico e almeja ser cada vez mais rico possuiu um sonho pobre. Porém João tinha sonhos nobres. O primeiro deles era terminar sua morada, que ele mesmo construía. Era servente de pedreiro desde os treze anos. Tentara outras profissões, até a catar papel se prestara. Foi na construção que se sentiu melhor.
João não tinha família. Já não tinha pai nem mãe, já não tinha paixão pela vida, aliás, viver era mais difícil do que imaginava. Já passara fome e sede. Era tão sozinho que chegava a ficar alguns dias sem pronunciar palavra nenhuma. Às vezes procurava outro abrigo para dormir, pois seu barraco sempre inundava com a chuva. Nunca estudou, mal sabia em que ônibus entrar para procurar um bico de pedreiro. Escrevia apenas o nome e talvez nem lembrasse mais como escrevê-lo. Vivia devagar e devagar passavam seus dias. Não tentava sorrir, não tentava mais chorar.
O segundo sonho de João era mais nobre e ao mesmo tempo mais impossível. Sonhava poder voar, cruzar o céu, passear entre as nuvens, ver a tudo e todos lá de cima. Envergonhava-se todas as vezes que alguém na rua o chamava de louco quando erguia a cabeça e caminhava de braços abertos. Sacudia os braços, pulava, pulava e nunca alçava o tão sonhado vôo.
Chegou um dia
Passou-se muito tempo até que vivesse outra vida. Uma vida completamente diferente.
Agora João é feliz. Voa para onde quer, na hora que quer. Ninguém mais discrimina sua cor, seu jeito, suas roupas. Até viu um casal na praça admirando seu movimento, enquanto voava. Seus sonhos agora são reais, aconteceram sem que soubesse explicar como. Não é mais um João triste, sem vida, sem família e sem lar. É um João alegre, vivaz, tem onde morar. É enfim um João-de-barro.
*Dedicado a João Luis, não o do texto, apenas um amigo!