terça-feira, 28 de julho de 2009

A rua





Para as pessoas que passavam por entre os postes daquela rua
A brisa do ar não era nada mais que algo obrigatório
As calçadas sujas e esquecidas pela pressa
Nem mesmo se notava um buraco novo
Às vezes quando um pé descalço passava
Admirado com a riqueza do cimento milenar
Pedia licença para as pegadas feitas por sapatos granfinos


As mãozinhas das crianças
Eram as únicas a encostarem-se ao chão das grandes calçadas
As mães rogavam pragas a cada toque
Ávido por um passeio até a boca
E as ciganas das ruas diziam
Só mesmo uma criança para saber o verdadeiro gosto da cidade


Os mendigos que xeretavam
Cada lixo
Cada canto
Procurando como grandes caçadores de tesouros
Encontravam na bendita rua
Sua cama
Sua família
E suas carências com ela compartilhavam


Ontem passei pela rua
Por entre os postes altos como antigas árvores
A cada passo me encontrava mais próxima de um universo egoísta
Passei por entre multidões sem rostos
Por animais e lojas sem nomes
Mas quando vi seus olhos
Ofuscados pelo forte sol em meu rosto
Quase me perco na rua conhecida


Fui embora com a lembrança de sua boca
Dona da praça daquela rua popular
Que de lá sei que só sai disfarçada
Pra me encontrar na lambida de um sorve
Da sorveteria da rua
De grandes postes
De mendigos putrefatos
De crianças remelentas
De ciganas salafrárias
De pessoas mascaradas
Do amor da lúgubre visão
De mim
Em você



Audrey Carvalho

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Fim de Noite

Fim de noite. Ele abre a porta. Ela entra em casa. Segundos depois, ele também entra. Ela vai direto para a geladeira, pega uma garrafa de Coca-cola de dois litros, quase no fim, e bebe o restinho direto do gargalo. Ele vai ao banheiro, faz xixi, lavas as mãos e vai para o quarto. Enquanto ele tira a roupa com cheiro de cigarro, é ela quem vai ao banheiro e faz xixi. Ele veste o pijama enquanto ela lava as mãos.

Ele liga a TV, começa a zapear pelos trocentos mil canais em busca de algo que mate a insônia, de preferência, ou, se não der, pelo menos mate o sono. Ela liga o computador, lê emails, abre o Orkut, entra invisível no MSN para ver se tem alguém com quem valha a pena conversar sobre o que quer que seja. Mas é claro que às cinco da matina só estão online os losers completos. “Eu inclusive”, pensa.

“Droga de festa. Gente mais chata”, diz ele para os botões do controle remoto. “Festa mais chata. Droga de DJ”, ela pensa. Morto de tédio, mas ainda sem conseguir dormir, ele resmunga, “Que se dane” e serve-se de um uísque. Ela desliga o computador, pega a Veja de duas semanas atrás, vai para o quarto e acende um cigarro que fuma enquanto lê o Mainardi pela décima vez. Agora é ele quem liga o computador, abre um arquivo de trabalho e tenta dar uma adiantada nas coisas da semana que vem. Claro que morto de cansado – e não exatamente sóbrio – tudo o que fizer vai ter que fazer de novo outro dia. Mas pelo menos ocupa o tempo. Ela joga a revista no chão, liga a TV do quarto e assiste a um capítulo de Allie McBeal que já viu tantas vezes que sabe os diálogos de cor. Mas ocupa o tempo, pelo menos. E preenche o silêncio.

Ele desiste de estragar trabalho, fecha o Word e abre o Orkut, lê emails. Vai ter outra festa amanhã. As mesmas pessoas, o mesmo tipo de lugar. Gosta das pessoas e gosta do lugar. Mas já está meio saturado tanto de umas quanto do outro. Melhor ficar em casa, ler alguma coisa. Mas, no fim, provavelmente vai acabar indo, sim. E morrendo de tédio. Ela, que já sabia da festa, tenta resolver se está ou não com vontade de ir. Passam os créditos finais de Miss McBeal e ela dorme embalada pelo sotaque horrendo do Dr. Phil. A essas alturas o sol já ameaça raiar e ele desiste de dormir na hora em que o zelador arremessa delicadamente o jornal contra a porta do apartamento.

São perfeitos um para o outro. Pena que, mesmo morando na mesma cidade, no mesmo quarteirão, nunca vão se conhecer, nunca vão se apaixonar, nunca vão ter três filhos lindos e quatro netos. Não vão montar casa juntos, nem viajar juntos para Barcelona, nem ver juntos o pôr-do-sol em Santiago, nem envelhecer juntos, nem esquecer juntos das coisas que viram e fizeram juntos.

domingo, 26 de julho de 2009

Tempo Morto

CESAR VENEZIANI

teu corpo banquete em carne e fruta
tua gruta caldo de cultura
é pura mostra do prazer paraíso
te preciso não só pra vida
contida em massa e pensamento

teu canto sonata gemido
emitido do atrito de sensações
sem padrões surgidas do nada
e do tudo que é nós dois
depois e antes pura magia

tua ausência é tempo morto
caminho torto campo seco inerte
que verte vácuo inócuo
e me torna eterna espera

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Verso tinto


[imagem: autor desconhecido]

noite fria à beira-mar,
uma copa e uma cabana
quente pra declamar:

versos livres e soltos
assim como meus cabelos
encaracolados em teu corpo

coberto com seda vermelha,
que induz um toque baterista,
que não pára nem a peia
até se tornar tão intimista

e arrancar um beijo
do meu tinto anseio,
beber um gole de mim
pra descobrir meu segredo


Autor: Lena Casas Novas

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Silêncio de Alma...


A face que quente do calor da conversa quase que emitindo fagulhas da excitação
que o momento proporcionava de forma violentamente
brusca sente o sangue fugir abandonando totalmente o semblante exposto.
O que ate então fora fogo e ímpeto se entrega agora a lividez e total
perplexidade enquanto lágrimas descem impactando a mesma face.
Não é dor ou nada que se possa traduzir alem de perplexidade absoluta.
O que era entendido e esperado como soma e conclusões compartilhadas
e associadas passam de súbito a solidão do ser que se vê no meio do nada,
abandonado pra morrer sem nenhum por que.
É algo perto do que sem entende por morte que chega sem doença,
sem aviso prévio.
Ela só vem no meio de um lindo entardecer e aborta a mais sonora gargalhada.
Percebe-se dessa forma: só no meio do vazio, como um grito que perdeu
a força antes de sair.
Assim a alma que agitada brincava de bailar com a outra, agora posta num canto qualquer se amontoa sobre si mesma,
apenas se amontoa.
Porque toda vivacidade se foi se um momento para o outro,
em menos que um piscar de olhos.
O beijo que unificava bocas, agora sela o silêncio imposto.
Apenas interrompido pelo constante soluçar incontido.
Secam as lágrimas, já não há mais o que chorar nesse silencioso vazio de alma que abandonada assim perdida se deixa
Só ficar...


Catiaho/Reflexo d ‘ Alma

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dilúvio

Quando os ventos da crise sopraram forte e a linha de pobreza começou a subir, meio mundo foi inundado.

A maior parte dos que viviam na parte de baixo do mapa afogou-se.


terça-feira, 21 de julho de 2009

Poema só

Desejo um poema
Em que a luz da lua
Serpenteie a sua aura fria
No absinto azul
Marinho.
Fada verde
Tecendo mandalas enigmáticas
Perfumadas de ópio e alecrim.

Desejo esse poema só para mim.
Sem o sol causticante de amarelo rajado.
Na penumbra de um sono caiado
Me exorciza a lua negra.

domingo, 19 de julho de 2009

Almas várias e dedos.

(Imagem retirada do Google)

Almas várias e dedos.

Entre dor e loucura,
os risos, sábios camaleões,
nas pontes solitárias
rompem o silêncio/tempo.
E as horas, crianças astutas,
mastigam dos segundos,
simbólicos cortes da vida,
obra refeita caminho
nos dedos dos Poetas.

Eliane Alcântara.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Tez necessária

Da lástima em forma líquida
sobra o rímel escorrido na face

judia!

Envergo(nho)-me
pelas chibatadas
rumo ao campo
de concentração

E de novo tentar entender
é correr atrás da sombra
(vão)

Rosto borrado
atualmente antigo

A guerra nada mais é
que a menina que rouba risos

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Ode ao teu Olhar

(Sonia Cancine)
.

Em silêncio ouço fortes gemidos
Que rompem a sombra da noite
Repleta de estilhaços de dor.

Dos instantes em que te vejo
Guardo-te no olhar e contemplo.

Das serpentes dos teus olhos claros
A íris bucólica do teu olhar
Agoniza-me e me seduz.

Olhos que prometem me cegam
Como se fossem reflexos de espelho.
Colhem lírios e embriagam-se de absinto
Afastando-me do ninho das ninfas.

De súbito, enxergam ao longe uma flor
Jamais vista, a mais bela, e
Tua luz é brilhante (mente) intensa.

Do alto dos montes, delirantes súplicas
De espírito intranqüilo, de grata prece
Abro, então, uma cova no teu olhar

Rogo-te o calor
A incendiar-me as entranhas e
Sob a carne impenetrável
No pulsar do amor

Olhos que aos poucos fenecem
Causam-me - medo.

Êxtase


Quem me dera...
Ao menos, uma vez

O prazer de sentir
O estado latente, dos desejos
De sensações inexplicáveis
Vividas num momento

Único...

Sem limites impostos
Sem preocupações expostas
Transcendente,
O que chamamos razão

O surreal, a se tornar físico e
Em cada suspiro delirante
A realidade bem longe

Por breves e inesquecíveis
Instantes e

A imaginação
Transportada
Para planos
De puro sentir...


(Janderson Cunha e Ro Primo)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Mercadores de Almas

Párias malditos, semeadores da Mediocridade Humana,
Prisioneiros de suas crenças decadentes e vazias,
Acorrentados em dogmas e conceitos inferiorizantes,
São moralistas e contraditórios em negar sua realidade.

São picaretas e intolerantes, demonizadores de culturas,
Proselitistas religiosos, fundamentalistas arcaicos,
Pobres seres estagnados, mortificados em seu credo lixo,
Crentes no discurso apologético de um livro morto.

Grandes inimigos da razão e lógica, caçadores da perfeição,
São todos especistas, hipócritas, demagogos e machistas,
Cultistas fiéis do deus Dinheiro e seu poder distorcido,
Eis seu deus material e suas crias de almas viciadas e torpes.

Lânguidos são esses tristes fundamentalistas radicais,
Vestem seus símbolos de decência e abraçam seu diabo,
Travestem seu deus de esterco em mercadoria em templos,
Compram, vendem e alugam almas em prol de alienações.

Mercadores de Almas são os vermes consumidores viscerais da Humanidade.


- Mensageiro Obscuro.
Setembro/2007.

-- Glossário --


Mercadores de Almas = nome pejorativo para líderes religiosos proselitistas, aplicado para definir clérigos católicos, pastores cristãos, aiatolás, gurus e assim por diante. Esse termo é associado a líderes religiosos manipuladores de massas de alienados, escravizados, manipulados e limitados pelo Sistema.

domingo, 12 de julho de 2009

na hora do pico

.
eu perdi meu lugar no trem
mas tudo bem, contanto que seja
por um bocado de gramas.

é que tenho certa necessidade
de que não seja vão
o decoro perdido, na hora do pico.

por favor, não me perturbe
na hora do sono
que me chega derradeiro.

limpe meu braço, segure minha mão
avise minha mãe
que venha me buscar...
.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

efígie




cansado de mundo
guerras e presságios
vem e conta sonhos
deixa essa efígie
que pressinto
nas tardes perdidas
em que divagas

ouço tua voz
vem do mar
num sussurro

não explico
só te escuto
num segundo

não discuto
miro teus olhos
incendiados de promessa
vazia e dolente
plantada no azulejo
dessas viagens viúvas

estranhas remessas
desejos e desvarios
que o vento sopra

beijo,teu cenho
de súbito, tristonho,
com temor, prevejo
com esse ato
que é hora de ir



segunda-feira, 6 de julho de 2009

Vida - Edson Rufo

Simplesmente Medo

SIMPLESMENTE POR MEDO...

Edson Rufo

Portas que se abrem
Sonhos que se confundem
Soluções que não se encontram

Portas que se batem
Olhos dispersos
Abraços trêmulos
Passos inseguros

Portas que não se fecham
Objetivos se concretizam
Sucesso que vibra
Conquistas, alegria, estima

Portas que se trancam
Definitivas
Simplesmente
Por medo de buscar, de abrir, de bater




BLOG DO ESCRITOR, PALESTRANTE E TERAPEUTA:
escritorpoeta.blogspot.com

domingo, 5 de julho de 2009

Lua Negra

O grito torna palpável a solidão.

A estrada atada à linha fugidia,
o topo surdo da montanha
ou um nicho no granito
não ratificam tanto o ser só
quanto gritar na multidão.

O grito é faísca
de massa cinzenta em combustão,
imperceptível na tensa claridade.

O grito é rito
de intriga e desintegração
a riscar e trincar o obscuro.

Se a poesia lambe a face iluminada
o grito tange a lua negra,
sem arrecadar simpatia.

Sabe a censura da razão
e a ovação da boemia etilizada.

Seu palco é a rua, o relento,
entre a bênção das estrelas
e o irromper dos ratos nos bueiros,
onde qualquer cadela vadia
cuida ensinar-me amar a lua

Iriene Borges

sábado, 4 de julho de 2009

Um corpo enforcado


Desceu a corda lentamente pelo madeiramento que era suspenso por duas paredes, passou o laço pelo pescoço, deslizou o nó corrediço até atingir a nuca. Voltou-se para o espelho, olhou atentamente tudo a sua volta, suspirou, subiu no banquinho, se ajeitou, outra vez respirou, desta vez, mais fundo, virou o pescoço de um lado para o outro, relaxamento, fechou os olhos, respirou, novamente o pescoço, sentiu o vento marítimo, o som das ondas, ouviu o gracejo noturno. Balançou os pés para frente, para trás, apertou os olhos como quem diz, Estou com medo, o banquinho fraquejou, arqueou, lentamente, foi indo ao chão, árvore sendo serrada, ponte ruindo, castelos tombados... um corpo enforcado.

Um arrepio com razão


pintura: Diva Benevides Pinho - Avenida Paulista em uma noite de inverno (2º da série 450 anos de São Paulo








Há tantos dias
me chama...

Que há em mim?

velando as horas
contando os passos

assim
sem tropeços
desejo expresso

um café
um cinema
um passeio na Paulista
um sorvete de pistache

será?

você diz que à noite tem extras
e posso pedir

mais

e mais

e mais...


quinta-feira, 2 de julho de 2009

Flor de Cacto - Flá Perez

À gota
sobre o sulco da seca
a boca pálida e sem beijos
sôfrega espera.

Não choves

e o rio em meus olhos
torna em veios.

Banho-me

no cio que deixaste
em minhas veias.

Aguardo ao relento.

Intenso,
o Sol de amanhã
–que raiou ontem–
virá em contra-senso,
umedecer o pó
que tenho dentro.

Guardo que te esqueces...

E de manhã irá brotar
estranha flor
de gelo e fogo

que ainda
inteiramente desconheces.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

mojobooks

a editora virtual mojobooks irá publicar minha história A BALADA DE ALESSANDRA. tô satisfeitão.
a proposta da mojo é editar livros baseados em discos. o meu tem o ídolo WANDER WILDNER como inspiração.
em breve...!

Viva!




Não posso mudar o mundo,
Nem colar o dedo que está faltando
Azar da vida, que estão roubando
Sem volta, nem troco, só cobrador...


Devolve a virgindade, sem dor
Dê-me a simplicidade e ingenuidade
Para não te ver chorar...


Deixe-me gozar, sou eu que quero
E quando o absurdo de teu membro
Cair prostrado ao passar dos anos
Dê o ânus, mas não desista do prazer...


Ou se enterre de vez
.

A LeNdA Do cOrPo sEcO(๏̯͡๏)
1° Livro Impresso Da mE morTe - LaNçAmEnTo eM BreVe!!!(๏̯͡๏) /

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Óbvio

CESAR VENEZIANI

olhos que enxergam
percebem as formas
olhos que veem
percebem além

a forma da forma
a forma na forma

que se forma em quem
tem o dom
de sentir a cor do som
os ruídos do sabor
o gosto do tato

de fato
sentir a essência
é ciência abstrata
pois quem trata
do óbvio não sente
apenas repete
o nada de todos

domingo, 28 de junho de 2009

Olhos de fogo




Se pudesse olhar o tombo das coisas proibidas,talvez me permitisse alguma espécie de calmaria.Mas era um desenhista medíocre,com meus bonecos caóticos e alfinetes coloridos. Eu os desenhava na tentativa de capturar a natureza humana.
Quanta miséria nas minhas mãos de gelo e aço! Não havia outra saída para um imundo como eu, senão me disfarçar através de um jejum doentio. Não poderia contornar os olhos de minha irmã(na colcha de seda) ou as costas da menina que cruzava minha janela todas as manhãs.
Meu lápis era carrasco e viciado em bonecos tontos, que denunciavam minha forma automática de pensar.Como minha primeira mulher me deixara, me acusando de falta de sensibilidade e questionamento da vida.Sim,talvez eu nem sequer fosse podre,somente raso. Os alfinetes me atordoavam a pele macilenta e eu não podia ver sangue, mas um líquido esverdeado, denúncia da minha inanimação.
Minha irmã era religiosa e tomou profundo interesse pela minha abdicação aos hábitos alimentares:
- Está tentando purificar-se?
- Nada que o valha, deixe-me desenhar...
- Esses bonecos me assustam. Por que não me desenha?
- Sua vivacidade me assusta. Por que não some?
- Parece um tanto irritado. O que você faz para se controlar?
- Eu me purifico através do santo hábito da masturbação. Aliás é o que vou fazer agora, pensarei nos teus olhos...
- Você me dá nojo.
Algumas alfinetadas, oito bonecos e nenhuma lágrima, só a máquina de costurar da minha irmã, destruindo meus pensamentos. Tenho vontade de roer seus ossos, um pedaço da costela de Deus. Por que ela não me presenteia com uma focinheira? Atrevo-me a colocar uma vela sob a cabeça de um dos bonecos. Como se iluminados e vivos, finalmente eles esboçassem um sorriso, ousado,aterrador.
Eu poderia ter sido salvo naquele instante. Poderia começar a comer depois de semanas, sem nenhuma espéciede contato com o mundo que não fosse a presença perturbadora de minha irmã. Mas o universo conspirara mais do que minha suspeita poderia desenhar.
Adentrando o quarto, minha irmã, com seu trabalho de máquina de costura a postos: um vestido de bailarina e um capuz de carrasco. A sensação de que aquilo era uma alucinação, logo foi tomada pelo terror.E aquilo não era tudo. Ela tinha gasolina e fósforos. Estava decidida a por fim no meu trabalho,o que significava minha vida. Podia escutar o grito de meus bonecos nas chamas, em meio á musica que ela cantarolava febril. Fechando a porta, me mandou um beijo de fogo no ar, eu podia ver seus olhos ardendo de contentamento.Em um canto ainda seguro, com um toco de lápis desenhei este paraíso, os inebriantes olhos de fogo beijando-me e abri a boca para alimentar-me. Alimento das chamas, penso que nos últimos segundos pude desatar água dos olhos. Minha carcaça,ou o que restou dela, é um brilhante e doce manequim dos mais refinados modelos de minha irmã. Ela me ama. Terrivelmente.


Espectro

Foram as portas que se abriram
Como me disseram os desavisados
Que acabou por ocasionar tamanha tormenta
Estavam a dois passos do delírio
Repleto de brandura saliente
E por natureza sobressalente
Quando os corpos passaram a não mais sentir


As mãos estavam tão afastadas
Mas ainda buscavam uma a outra
Ela ansiava por uma noticia
Que a faria acreditar no que fora dito
Cada passo a frente
Determinaria que os órgãos vitais,
Mais tarde,
Trariam a sensação de estarem inertes


Era apenas a incerteza
De algo que ainda não tinha definição complementar ao interesse divino
As roupas todas lavadas
Nem mesmo uma pegada ao vento!
Assim são os jovens,
Diria o ancião.
Eu diria que foi a partida
Até meu suor já havia sido removido
De seus, agora inexistentes, lençóis


Anjos maléficos do ocidente
Permita a retomada da névoa em meus pensamentos
A alegria singular de sua voz
Alheia e irreconhecível
Perante a abundante quantidade de corpos
Cada qual em sua essência
Que sejas privado por um momento do ato de inquirir
E sua ultima acolhedora memória
Seja como minha imanente e tracejada concepção


O efeito foi a inexistente e inevitável
Futuramente aprazível paixão
Porém sucinta e confiante
A escola já estava degradada
E sua lição não poderá ser julgada
A guerreira que tudo possuía
Ansiou por um jovem estremecido fantasma
E nisso fora transformada



Audrey Carvalho Pinto

sábado, 27 de junho de 2009

Uma pausa na literatura




Esse desabafo foi publicado dias atrás no blog Manufatura. Repito aqui o texto por se tratar de um assunto sério.


Não é fácil perder alguém em um acidente de carro. Os familiares e amigos que ficam não tem o tempo necessário para elaborar a iminência da perda, quando, por exemplo, a pessoa querida é acometida de uma doença que a enfraquece pouco a pouco.
Já vivi essa situação três vezes: tive dois primos que se foram em acidentes de carro; ambos estavam sozinhos e aparentemente foram vencidos pelo sono.
No caso de Marcela, uma psicóloga brilhante, colega de faculdade, foi diferente. No dia das mães de 2004, ela saiu cedo de casa para comprar flores para a mãe. Na ponte Costa e Silva - aqui em Brasília - quando estava a cerca de 50 km/h, foi atingida por um idiota que voltava de uma festa a fantasia.
Ah, antes que me esqueça: o imbecil estava a mais de 120 km/h em um lugar cuja velocidade máxima permitida é de 60.
O assassino sobreviveu ao acidente e ainda responde ao crime. Marcela morreu na hora.
Quatro meses depois, a mãe dela não aguentou a perda e usou um coquetel de remédios para ir de encontro a filha...
As fotos aí de cima foram tiradas no balão que dá acesso ao aeroporto de Brasília. Faz parte de uma campanha do governo para conscientizar a população através do choque. O carro não é de "mentirinha", pessoas morreram nele justamente por causa da combinação álcool-trânsito.
Para problemas radicais, alternativas de solução - ou ao menos de abrandamento do problema - radicais. Seria também interessante que o governo colocasse tais instalações na frente de escolas infantis e faculdades, boates, bares da moda, etc...

De Gato e Rato

É no escuro, no quarto sem cantos vivos ou horizonte, que abro meus olhos. É no escuro, do lado de dentro do cubo de faces pretas, que faço o convite. É no escuro, com fumos de tabaco e assa-fétida, que ergo as cortinas do mundo. É no escuro, ao som de um violoncelo a noventa decibéis, que arranco da terra uma coluna de fogo. É do escuro, agora negro-escarlate, que me lanço em seu encalço. É no escuro que encontro, a cada noite, a sua luz baça. É no escuro que, a cada noite, atrelo seu sono aos cães.

É no escuro, perdido nos vapores, que você cai a cada noite. É no escuro, em ré menor, que um quarteto de cordas toca seu réquiem. É no escuro que você, cordeiro, bale perante os lobos. É no escuro que você, fraco, rasteja em busca de saída. É no escuro que você, fraco, implora por uma saída. É no escuro que você, fraco, jura que mataria seus pais em troca de uma saída. Quando, então, desfaço as amarras, é no escuro que você, fraco, balbucia e soluça obrigados.

É no escuro que pinto seu sono com os monstros da sua infância. É no escuro que corto, noite mal dormida por noite mal dormida, uma por uma, as cordas da sua sanidade.

(Quem mandou se meter com alguém que, um dia, matou um deus?)

terça-feira, 23 de junho de 2009

FLIP Incessante



A OFF FLIP é um circuito paralelo de idéias de grande destaque na Festa Literária Internacional de Paraty. Tornou-se um importante espaço de referência para a produção cultural local e nacional. A cada ano aumenta sua representatividade na cidade, em todo o Brasil e também no exterior.

A programação da OFF FLIP permite que um grande número de autores locais, nacionais e internacionais troque impressões e experiências em eventos que envolvem leitura, debate e divulgação de sua produção literária.

A OFF FLIP vislumbra a idéia de preservar e valorizar a cultura, as artes e a literatura de Paraty e ao mesmo tempo abrir um caminho para a interação com culturas de outros lugares. O evento homenageia, nas edições anuais do evento, os escritores locais em saraus onde são lidos textos e realizadas apresentações tendo por base a produção artística e a contribuição dessas personalidades à vida cultural da cidade.

Já estive na FLIP como visitante, mas neste ano, vou participar como autora na OFF FLIP. Lançarei oficialmente minha nova obra de poesias: Incessante. Além da exposição dos exemplares no local, terei meus 5 minutinhos de fama no Sarau da OFF FLIP dia 02 às 20h no DINHO´S BAR. Se você for... passe lá e prestigie o evento com sua graça!!

Com informações da Paraty.com

Caus e fascínio




O caus que assola por dentro

empurra pra frente

permite que o desejo da auto exposição

se instale fazendo parte

definitivamente do tudo que se é.

Sou a ousadia do vento que não se intimida,

Chuva que cai onde tem que cair,

Sonhos que alimentam esperanças

Grito que quebra o frio do silêncio nocivo.

Sou corpo que abriga desejos

Alma que permite ensejos.

Inferno pra quem o corpo em chamas trás.

Céu pra quem pela eternidade clama.

O caus que me assola por dentro

Nada mais é do que o imperativo

de ser quem de fato se é.

De viver a liberdade

Que não teme a realidade de ser expor,

sem limites ou reservas.

Andar á beira do abismo é o fascínio

de livre ter o viver.

E hoje o corpo nu se expõe ao sol sem falsos pudores

A boca profere palavras sem censura

Os olhos abertos enxergam a beleza da linha do horizonte

E os abraços ...

esses aguardam o aconchego.

Catiaho/Reflexo d'Alma 086091121

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Síndrome de Estocolmo


Do alto de seu salto, desconfortável e apertado, que fora obrigada a usar desde a adolescência, denunciava a crueldade e o atraso de outras sociedades, que impunham às mulheres regras e normas, fôrmas e formas.