domingo, 13 de setembro de 2009

Revelação


Absolvida pelos ventos esfuziantes do sul
Deixo a brisa tocar levemente minha face,
já tatuada de amarguras e profanas inquietações.

Uma força invadiu meu ser,
Mergulho na intensa profundeza
dos meus instintos mais sombrios

Impulsiono-te a conhecer meu inconsciente,
e apresento o que tenho de mais agressivo e feroz...

Revelo-me...

Ofereço a magia inebriante do prazer e,
Proporciono a mais bela e tenebrosa
psique da visão humana.

Faço-te perder os sentidos...

Torno-me o principio do precipício
Da tua perdição...

Se mesmo assim, quiseres me segui
Aviso...

Não é seguro.

(Ro Primo)

sábado, 12 de setembro de 2009

Teatro das Formigas - Décimo Ato

.
em cobertas
das fronhas matinais
sob babas

fruto de sonhos
ou pesadelos
de antigos marginais.

enquanto

salivam gordas
bodas
em conflitos

que atacam-lhe
os últimos
vestígios de sua

sanidade.
.






(foto: Reuters)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Bênção leiga

Já notaram que quase todo o mundo se despede sempre do mesmo jeito, sempre com as mesmas palavras? Há quem diga “Tchau”, há quem diga “Deus te acompanhe” ou “Vá pela sombra!”... “Deus te abençoe”... “Até logo”, “Até mais ver”, “Até amanhã”, “Adeuzinho” – e os poliglotas que se afastam com um “Adieu”, “See you later, aligator”, “Auf Wiedersehen”... Mas cada pessoa usa quase sempre uma mesma expressão para se despedir.

Fui algumas vezes a um cabeleireiro que tomava o rosto das clientes entre as duas mãos, sapecava-lhes um beijo na testa e dizia: “Eu te dou a minha paz”. Aquilo me incomodava. Excessivamente messiânico. Fui lá só umas três vezes. E, nessas três, respondi – rindo, mas era pra valer – que não queria levar comigo a paz de ninguém! Se ele me "desse" a paz dele, como ficaria? Sem paz?

Lá em casa, quando nos despedimos, dizemos “Juízo!”. Para nós, “juízo” passou a significar apenas uma espécie de “até logo”. A palavra perdeu a conotação real a tal ponto que sempre me espanto quando alguém retruca ao “juízo” automático que digo, levando ao pé da letra. Respondem: “Tarde demais!”, “Eu tento ter, mas não adianta” ou algo equivalentemente lógico. Por um segundo, penso: “ahn?”. E logo percebo, claro, a razão da resposta.

Uma amiga querida, a Claudia Dalla Verde, observou que digo “juízo” como se fosse uma “bênção leiga”. Você pode pensar que não sabe quem é a Claudia, mas sabe, sim. Ela é roteirista de TV, foi parceira do Flávio de Souza na criação do "Castelo Rá-tim-bum" da TV Cultura, depois escreveu o "Clube Disney", do SBT, e agora está fazendo "A Turma do Gueto". Quando a Claudia falou em “bênção leiga”, reconheci que, de fato, ao dizer “juízo”, é como se eu desenhasse uma espiral imaginária em torno da pessoa de quem me despeço. Uma espiral de proteção, um campo de força que isole de qualquer perigo. Nada a ver com superstições; é só uma sensação.

Quando meus filhos saem à noite e lhes digo 'juízo", não estou recomendando que “se comportem”... e eles sabem disso. Se por acaso eu estiver muito distraída e esquecer da “bênção”, parece q ficou faltando alguma coisa, que algo está errado, incompleto. Sou capaz de ir atrás deles, correr até o portão para completar a despedida...

Mas isso gera também histórias engraçadas. Em uma festa, eu disse como sempre “tchau, juízo” para uma moça que conheço muito pouco. Ela voltou da porta.

– Por quê?

Eu nem lembrava o que tinha dito, claro:

– Por que o quê?

- Por que você disse aquilo?

– O que que eu disse?

– “Juízo", ela repetiu, com um olhar desconfiado, de esguelha, me sondando.

Eu ri.

– Ah, digo isso pra todo o mundo... é meu jeito de despedir.

No dia seguinte, ela ligou para uma amiga comum:

– Mariana, a Betty me conhece?

– Bom... se encontrar você na rua, talvez não reconheça... mas se encontrar na minha casa, por exemplo, sabendo que somos amigas... claro que reconhece. Por quê?

– Ah, Mari, ela me disse uma coisa tão estranha!

A Mariana, ao me contar a conversa, estava achando muita graça na “coisa estranha”:

– Imagine que quando se despediu de mim a Betty disse... “juízo”!

E, diante da risada da Mariana:

– Será que ela me confundiu com a minha cunhada?

Eta! Que andará aprontando a cunhada dela? Despedidas podem trazer grandes revelações!

Enfim: se eu algum dia disser a você “juízo” – não me leve a sério. Não me faça confidências! Nem pense que considero você desajuizado, ou que confundi com alguém... É só um jeito de desenhar a tal da espiral imaginária de proteção... um jeito leigo de abençoar.
(2003)

alquimia




É tarde! Estirada ,
a noite sussurra intentos
nesses sonhos vagos

Tua reticente cilada
escora no céu da boca
largos esteios infundados
e desliza pelas abóbadas

Ajoelhada desabotoo
inveteradas promessas
elas exalam teu perfume
e as notas perdidas cantam
a mesma canção embolorada

Um minueto saliente
lançando palavras-raízes
nessa lua minguante
danço nos escombros
desses velhos achados
onde guardo com cuidado
o passado
embrulhado em seda azul

domingo, 6 de setembro de 2009

a vida não tem mesmo jeito...



às seis da manhã, quando distribuem os jornais pelos andares, ouço o ruído do elevador que se movimenta e para, se movimenta e para. isso não impede que eu durma em seguida, quando esse trabalho termina. Acordarei novamente quando a campainha do colégio em frente ao prédio tocar às 7:30, o que também não impede que eu volte a dormir depois. ando pensando em algo que me induza ao sono, ando querendo não pensar, ando querendo acordar daqui há algum tempo, quando já não mais estiver aqui. chorei.
o interfone tocou, esperei que tocasse mais algumas vezes, para ter certeza que havia tocado mesmo. a voz que chamava, o nome. pedi ao porteiro que repetisse e ele disse o nome e o codnome. da sacada do vigésimo andar, vi duas mãos segurando o portão, como a querer abri-lo à força. não. preciso dormir. olho no espelho e não gosto nada do que vejo. volto para cama. mas se fosse alguma emergência? - mulher é assim, não consegue dizer um não e ficar despreocupada - não. vou dormir. não durmo. ligo para o celular:

- aconteceu alguma coisa?
- vem tomar café comigo?! desliga o celular. põe no bolso do paletó do terno. vi da sacada. volto para cama. durmo. meia hora? o interfone toca novamente. peço que espere um pouco. tomo banho, um creme no rosto. um jeans e a primeira blusa que encontro...
- o que houve?
- vim te ver. vamos tomar café na padaria?
- cerveja? passou a noite em claro? ainda não foi para casa? pra mim café .
- a vida não tem mesmo jeito. ele disse olhando em meus olhos, como se essa fosse a conclusão de algo muito pensado e repetiu - a vida não tem mesmo jeito... 00:41 (1½ horas atrás) excluir Ivone fs
há um ano atrás parecia muito certo de seu rumo, pensei. mas eu sei que nada nesta vida é tão certo assim.
segurou minhas mãos e pela primeira vez senti que estava diante de mim tudo o que desejei daquele homem, tudo que duvidei que um dia ele tivesse coragem de demonstrar...

... o sol ofuscava minha vista, eu reparava em sua pele clara do rosto algumas sardas espalhadas, enquanto seus olhos continuavam nos meus. ofereceu-me a face que beijei com carinho...ele se foi...

sobre o que falamos? quase nada foi dito... nem foi preciso

Ivone fs


quadro : Frida Kahlo

sábado, 5 de setembro de 2009

Cômoda Luiz XV


Cômoda Luiz XV

As gavetas entreabertas do móvel denunciavam o ciclo de sua condição primária, o caos. Soube desde menina que não era como as outras, bem que tentou se adaptar, mas também descobriu muito cedo como era agradável descobrir-se fora daqueles compartimentos organizados.
Não conhecia Schopenhauer, mas já não dava valor aos melhores colégios, nem aos bons professores, ou aos bons modos, doou-se sempre à condição de ser contraditória. Coordenava bem seus movimentos, mas não tão bem as palavras quando estava cheia de dúvidas e de ódio. Por consequência de suas confusões existenciais foi considerada a louca.
Julgou engraçado observar os outros e constatar a ignorância impressa em cada gesto de punição ou de tentativas de controle e ajuste que tomavam em relação ao seu comportamento estranho.
Na visão de Cecília as pessoas idolatravam a propriedade, queriam ter, comandar, conduzir a vida e as escolhas dos outros, baseadas apenas em suas experiências e peculiares visões de mundo.
Ela preferiu ser, abriu mão de tudo que teve e saiu pelo mundo, errante. E naqueles dias acreditava que não era pena que os outros tinham dela e sim inveja. Desejavam ter a coragem que teve, de abandonar tudo e de ser chamada de covarde sem sentir nenhum remorso ou culpa.
Aprendeu a rir chorando, pois era contrariar demais ser sem limites e ela tinha os seus próprios muros. Jogou-se contra eles com tanta força que agora se sentia espório daquilo que mais odiava. Estava insegura e sentia vontade de chorar quão grande era sua decepção consigo.
Era evidente que estava mais sozinha que nunca, que se impôs o fardo do ser para vivenciar cada rusga de si como se fosse um desmembrar social, um investimento em suas durezas, enquanto o mundo se fingia afável.
Não sabia se vencedora ou derrotada, mas em batalhas ideológicas não abria mão de sua filosofia. Perguntava-se ali, sentada no chão, de frente para o móvel, imóvel. Em quantas gavetas estaria guardado o seu desatino?
Sim, aquela cômoda Luiz XV guardava na gaveta superior à da esquerda, os seus desatinos, algumas meias-finas velhas e suas calcinhas adolescentes. Na da direita, agora vazia, guardara todas as dores de sua carne e os diários de infância, há muito tempo queimados. Nas inferiores, de cima para baixo: na primeira os sons de todos os desesperos e dias de chuva que viveu; na segunda as crenças que perdera durante toda a vida; e na terceira a realidade, mas essa gaveta estava trancada com chave!

O demônio do meio

Há sol lá fora e não quero ir
A saia me estrangula pela cintura
e a bota revelará o passo lerdo
pelo tornozelo esquerdo
Há um engasgo me esperando

Girassol, Náusea, Asfixia

Tenho sono... fastio dos modos humanos
e nenhum interesse na arte do improviso
Há serpentes e odaliscas ondulando sob o sol
Nunca soube distinguir os guizos
No sofá sob a colcha azul
sou a concha que verte o mar nas almofadas

Não quero ir
Um palmo de luz pela janela já embriaga
E estou certa de que esfolarei a retina
Nas asas finas de alguma fada amarela.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Livre Arbítrio




Um despertar de raiva. Há vários jeitos de se acordar, mas o despertar raivoso realmente preocupava. Sempre descambava em merda. Em dias destes, já tinha largado ótimos empregos, terminado bons namoros, destratado péssimas amantes, mudado toda uma vida. Só um fato não mudava. Em dias como este, sempre fazia merda. A raiva incontida, trotoava ligeira sob a fronte, esperando um comentário menos inteligente, uma brincadeira maldosa, um esboço de pensamento para lançar−se mundo afora, represada que era normalmente, disfarçada em um sorriso cortês e gentil; em certos aspectos ainda vivia orientado por manuais de lanchonetes fast−food. Um despertar de raiva era tudo que a raiva podia querer. Concedia condicional para o mal aprisionado dentro d´alma, inconcebível, diante algumas opiniões, inexistente perante outras, detestável e esquecível para quem já o havia presenciado. Janis deslizava pelo ar, ordenando tentar (just a litle bit harder), então era só amar, amar, amar alguém. Quem?
A raiva, agora ódio, não sabia responder. Então era isso: o tempo passava continuamente e as possibilidades iam se esgotando. Quanto mais tempo, menos variáveis. Quanto mais experiência, menos lugares para aplicá−la. Quanto mais ódio, menos pessoas para direcioná−lo; o afastamento da humanidade, pelo menos na ótica das relações interpessoais, granjeia adeptos diariamente. Séculos de está bom assim, tá certo, eu concordo e não se preocupe, costumam se incrustar n´alma, se avolumando e enegrecendo humores, causando desconforto e rancores. Rancores estes alimentados diariamente com sucrilhos, adolescentes fortes que se tornam adultos vigorosos, tomam corpo e exigem espaço: pronto, está se formando mais um psicopata.
Pensamentos que ecoam em um cérebro rápido e celerado, dando voltas cada vez mais aceleradas sem pit−stops, levam passos pausados para lojas de armas. Dedos longos indicam, os olhos observam e a boca matraqueia qualidades do objeto procurado. Repetição, eficácia, penetração, alcance e calibre são estudados. Por sugestão do vendedor, que fez vista grossa pela falta do porte de arma, ao ver as notas dispostas em série, a escolha do mais caro: se já tivesse munição, começaria por ali. Um teste, por assim dizer. Municia-se falando em caçada, indiferente à indiferença pela mentira, abre a mochila e se vai. O vendedor vai até a porta da loja e dá um sorriso satisfeito.
Uma praça de alimentação de shopping−center, dois ovos maltine e cinco casquinhas depois, observava com frieza o ambiente climatizado. A mão isolada dentro da capanga, esperando trêmula pelo instante, uma faísca que falta surgir. Uma vontade de acabar com tudo que restava ser saciada. Um momento de revide no presente, um retraçar de metas estipuladas em vidas que passeiam paralelamente alheias. O gosto do poder de comandar destinos, na verdade, de destruir sonhos, enterrar esperanças e silenciar vozes. O levantar estático, disposição suicida de não voltar atrás, espera começar pelos que sorriem mais, estes que debocham das dores e dos amores, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulguram... Figuram colunas sociais e escândalos nacionais, sob o manto mesquinho e avarento da impunidade; por que todos não somos perdoados? Por que a condescendência atinge somente alguns? Por que a vida nega favores justamente para aqueles que mais deles necessitam? Doze balas iriam dar as respostas que procurava? Talvez não, mas havia trago vários pentes sobressalentes; continuaria seus questionamentos até achar uma resposta razoável. Ou uma morte rápida...
Deu um passo adiante, já tirava a arma de dentro da mochila quando esbarrou em uma senhora franzina que trabalhava na limpeza. Levava uma bandeja repleta de copos de papel e restos de sanduíche que espatifaram−se no chão, causando uma bagunça e um barulho não observados pelos comensais que continuavam a rir, beber, conversar, comer, mentir e opinar sem darem a mínima atenção ao que acabara de acontecer. Ele abaixou timidamente, desculpando−se pelo acidente. A velha, ajoelhada no piso, deu um sorriso amargo e sincero, confirmado pelo olhar cansado e castanho de muitos anos de luta:
− Tudo bem, meu filho! − Aquelas palavras causaram tanto impacto em sua mente febril, que ele teve que dominar−se para que uma onda de emoção, vinda não se sabe de onde, o dominasse. Acocorou−se ao lado da velha, pensava no que faria, afinal aquela senhora de joelhos em sua frente, não obstante todos os problemas, as dificuldades, humilhações, desrespeitos, continuava a manter viva a chama indomada da esperança em dias melhores; de lutar a cada dia uma batalha que ele já julgava perdida e por isso decidira ir ali, com aquele intento assassino na cabeça...Sentiu que uma onda de emoção percorria seu corpo, coisa que até então não havia lhe ocorrido. Parados naquele instante, pode ver que ela olhava com tristeza para a arma que segurava
− Isso resolve algo? – apontou para os indiferentes que os cercavam e arrematou – Há algum dentre eles que é menor do que nós, para que possamos tomar as mesmas atitudes que sempre tomam? Em quê melhoramos e onde chegaremos?
Final
Fechando a mochila com um gesto rápido, precipitou−se para a saída. Ao passar por uma lata de lixo jogou o invólucro recheado de morte e pegou o rumo de casa. Por−se−ia a escrever, esta noite. Sua loucura sempre apaziguava quando escrevia.
O sol caia lento no horizonte quando dois personagens se encontraram no estacionamento do centro de compras:
− Você trapaceou – acusava o rapaz – Interferiu nas escolhas quando apareceu como uma pobre coitada que levava o mundo nas costas.
− Pensa que não sabemos que você ajudou na aquisição da arma?
− Errr...Hehehe. Continuam de olho em tudo, hein? Ora, no meu caso, trapacear não é novidade.
− Entendemos isso. Por isso a Direção optou pela segunda chance para o garoto repensar o que estava fazendo.
− E o tal do livre arbítrio? Vocês são historinha mesmo. Se há uma coisa que não suporto é quando burlam as próprias regras. Elas se aplicam a mim? Lógico que não, pois se aplicasse não estaria lá embaixo, na segunda divisão! – Saiu gesticuladamente esbravejando, sumindo em uma nuvem de enxofre.
Final 2

Jogando a mochila nas costas, com um gesto rápido, levantou−se e apontou a arma para a primeira mesa, no rosto um olhar de ódio, olhava as vítimas, que ainda não haviam se dado conto do que ocorreria... Premia já o gatilho com um gosto de sangue na boca, quando um vulto branco, que podia jurar ser uma imensa asa de pombo, atingiu−o de lado, lançando seu corpo no vácuo... Despencou da praça de alimentação, no terceiro piso, vindo a se estabacar sobre a feirinha de produtos esotéricos; morreu em cima dos cristais que prometiam cura...
O sol caia lento no horizonte quando dois personagens se encontraram no estacionamento do centro de compras:
− Mas... Mas que merda foi aquela? – acusava o rapaz, colérico.
− Um espirro. Pedimos sinceras desculpas.
− Isso não vale! Ela interferiu no prosseguimento das coisas! Eu quero uma contraprova! Marmelada!
− Ora, ora... Se não era você quem ajudou na aquisição da arma.
− Isso é, hum... Um detalhe. Suas regras não se assentam muito para mim. Mas eles... Eles ainda têm o livre arbítrio. E vocês não respeitaram isso!
− Quem disse não respeitamos? O que aconteceu foi um lapso e nossa representante já foi inclusive chamada pela Direção, para prestar esclarecimentos sobre o acontecido. Provavelmente estará sob suspensão até novas ordens.
− Sei, sei...
− Regra nº 76473/E, interferência no andamento natural do Destino.
− Vem cá, você acha que ela vai ser punida?
− Olha, pra te dizer a verdade...Vamos ter que fazer uma CPI.

Final 3

Deixando a mochila cair ao lado, olhou em redor as pessoas que riam e viviam.. Sentiu o peso duro e frio da própria existência, sentiu que a culpa não era do mundo, da vida ou das pessoas... A culpa sempre fora sua, de sua incompetência de gerir a própria existência, sua covardia em assumir riscos e seu medo de viver. A culpa não era daquelas pessoas que alegres viviam; um ser repugnante como ele não merecia continuar respirando o mesmo ar das outras pessoas.
Em um gesto rápido colocou o cano da arma na boca e premiu o gatilho. A explosão do cartucho aconteceu imediatamente... As bochechas ainda se estufavam pela expansão do ar, sendo empurrado pela bala que atravessava o cano, quando ressoou alto, congelando o tempo e os movimentos: − PODE PARAR POR AÍ!
− O que você está querendo fazer? Mexer no contínuo tempo da vida? É total e completamente fora das regras! – a faxineira, junto ao recém chegado, eram os únicos que se moviam no espaço estático.
− Que regra o quê... Peguei vocês manipulando tudo, aqui e agora, sem desculpa nenhuma!
− Tá, quer dizer que você não entregou a arma nas mãos dele.
− Isso não vêm ao caso. O que importa é que isso ia acontecer mesmo. Ele ia sacar a arma e distribuir bala pra tudo quanto é lado... O bonde hoje ia descer cheio. E agora, por sua causa, tão querendo que eu leve somente este banana, isso eu não aceito!
− E quem disse que ele iria mesmo disparar contra os outros?
− Olha aqui, página 9472 da vida do fulano! – Apontou um calhamaço de papel.
− Peraí, como você teve acesso ao Roteiro da Vida?
− Er... Ah, isso? Nada não.
− Sabia que é uma falta gravíssima ter acesso a “dados não acontecidos”?
− Qualé...Suas regras não valem para mim. Mas alto lá! Me responda uma coisa: se vocês sabem que existe um “Roteiro da Vida”, com “dados não acontecidos”, como ainda estufam o peito para dizer que estes coitados possuem “livre arbítrio”? Como vão escolher se tudo já está escrito?
− Bom, é quer dizer... – um telefone toca− Só um momento... Sim Senhor, ok... Vamos resolver tudo. Certo, será tudo feito para sanar isso. Hã? Tá sim... Aqui do lado. Toma... Não queria explicações?
− Não... Deixa pra lá... Nem tava me ligando tanto assim... Podexá que levo esse pôrquera mesmo... Diz que eu já fui...
− Ele não quer lhe atender... Tá... Já esperava por isso, sei... Ok, resolvo tudo por aqui... É, limpeza parece que virou minha área mesmo, hehehe. Já sei o que fazer...



LIVRE ARBÍTRIO


Um despertar de amor. Há vários jeitos de se acordar, mas o despertar amoroso realmente deixava tudo lindo. Sempre descambava em coisas boas. Em dias destes, já tinha arranjado ótimos empregos, começado bons namoros, encontrado ótimas amantes, mudado para melhor seu futuro. Só um fato não mudava. Em dias como este, sempre fazia coisas maravilhosas. Ele sorriu para o céu e saiu confiante pela rua. Era muito bom sentir que tinha total controle de sua vida...






quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Andrógino- Flá Perez

E foi inevitável
- como se me soubesse inválida
e me quisesse em festa-

que esse cacho doce
de uva roxa-em-sangue
caísse
nessa boca ávida.

Ai, deus pagão (como eu)
que apaga quem me ultraja,
e tinge em novo,
entalha
a pele-trama
da tela
agora entregue

e finca tatuagem
nos quadris,
nas pernas,
como quem nada quer!

Ai, Baco de Caravaggio,
Evoé, Evoé!!


Convido todos para o lançamento do meu livro
"Leoa ou Gazela, todo dia é dia dela"
na Livraria Cultura Shopping Iguatemi Campinas,
dia 11/09/2009 a partir das 19:00 horas .
E para o lançamento e noite de autógrafos em São Paulo,
que acontecerá durante o XXIII Sarau Politeama Diverso:
Data: 15/09/2009 Hora: 20 h 46 m
Local: Fidalga 33
Rua Fidalga, 32 – Vila Madalena
Tel: 3032-7346

O desescritor

O descritor desescreveu o descrito de um desescritor que desalento descreveu o descritor

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Por que eu escrevo?


Por que eu escrevo? Quer dizer... por que me dou ao trabalho de construir idéias em formato de um texto para expô-lo num site qualquer que não será visto, nem lido e muito menos ouvido?
Me peguei pensando nisso e, consequentemente, sofri mais uma crise de escritor. Fiquei travadão, não conseguia escrever nada. Eu queria me explicar o motivo de gastar tanto a ponta dos dedos e as pestanas nessas linhas mal traçadas que talvez sejam peremptoriamente desprezadas.
E ontem resolvi minha própria charada: escrevo pois é preciso! Quer dizer... escrevo pois eu preciso escrever. Veja: durante um dia inteiro, tenho centenas, milhares de idéias, compreendo o ciclo social e biológico da vida planetária, resolvo as questões metafísicas da humanidade e ainda me dou ao luxo de orquestrar uma nova sociedade feliz e libertária. Daí quando sento para escrever, só lembro daqueles poucos recados que consegui me rascunhar enquanto mastigava o almoço ou abastecia a moto. Percebi, com isso, que preciso me organizar para registrar e oficializar tais idéias que beneficiarão não somente a mim, mas principal e efetivamente ao homem como espécie.
Sei que parece um tanto pretensioso, quer dizer... é pretensioso para caramba, mas é o que sinto quando sorrio ao desenvolver a equação da miscelânea de fatores que antecedem ao fato, qualquer fato. É nessas horas que vejo que minha formação em História na UnB foi preponderante para a percepção da maioria das sensações. Ou seja, é possível que eu seja tão louco que preciso escrever o que penso senão esquecerei no futuro e me transformarei em outra pessoa (como já aconteceu algumas vezes...).
Essa é uma boa resposta para a questão do título. Na verdade, não tenho outra. Ou sugiro novas idéias ao mundo, ou simplesmente organizo minha demência, tanto faz, quer dizer... escrever é preciso, viver não é preciso.

Flores




As flores
Pétalas inexatas
Cores e cheiros


As dores
Sentimentos insensatos
Dos amores ligeiros


Antíteses
De sinônimos inversos
Controvérsia
Loucura
Tom


As flores
Pétalas inexatas
Abstratas


As dores
Sentimentos insensatos
De quem está vivo...




Me Morte
"A Lenda do Corpo Seco"
www.biblioteca24x7.com.br

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Convidada Karla Jacobina

SEMPRE QUE SOU DESPEDIDA

Sempre que sou despedida
Chove um poema
Escrevo uma gota
Choro um delete
Clico uma lágrima

Sempre que sou despedida
Rasgo o chefe
Xingo rascunhos
Roubo memórias
Arquivo agendas

Sempre que sou despedida
Abraço amizades
Abraço fofocas
Abraço braços
com mangas de despedida

Sempre que sou despedida
Apago a porta
Fecho a luz
Assovio janelas
Abro uma música
e uma breja bem gelada

Sempre que sou despedida
Me sinto um pouco mais pra lá
De incompatível

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Karla Jacobina nasceu em Cuiabá-MT e atualmente mora em Sampa. Se formou na faculdade de Direito, onde aprendeu a escrever errado e a falar bonito. Logo, se tornou escritora, roteirista e atriz.
Foi Coordenadora de Literatura do Projeto Macabéa. No mesmo ano foi colunista, ao lado de Zé Rodrix, Ulisses Tavares e outros escritores consagrados em um blog de literatura. Administrou a antologia virtual feminina “Versos de Falópio” e atualmente integra o grupo "Poetas do Tietê". Marcou nobre presença de palco em peças de teatro, eventos de literatura, além de colaborações em jornais e revistas. Atualmente ministra uma oficina de poesia e artes integradas no Centro Cultural Tendal da Lapa. Além disso, Karla Jacobina é formada em danças ciganas.

Seu primeiro livro “EGA – o que nem Freud explica” foi publicado em ago/2009 e conta com poemas, contos e crônicas femininos que, variam em um degradê vermelho ao rosa-calcinha.
A característica mais marcante em seu trabalho é impedir que o texto morra no papel: "O papel não é uma morte, mas é uma cama, confortável demais para os meus textos". Assim, Desenvolveu um espetáculo lítero-cênico-musical com monólogos do livro, com direção teatral de Cissa Lourenço e trilha sonora de Marcelo Ferrari. Sua última novidade é a estréia do seu programa de TV EGA [no ar], em que levará o livro e o palco para a telinha.
Mais sobre a autora: www.karlajacobina.com



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Karla Jacobina

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

WHO IS IT FOR?... WHAT DOES SHE CARE?




Aquele gosto metálico na boca
Saboreando o seu sangue, o próprio sangue!
A água cai toda semana como um ritual
Como uma busca por vida
Gosta de estar sozinha, do isolamento
E do gosto de seu sangue
Sentia o peso demasiado humano
Sentia a fúria e alegria dentro do segundo
A camiseta suja, com cheiro de suor e labuta
A felicidade da conquista e a preguiça do inicio
Gosta de sentir seu corpo de forma delicada
Tem medo do temperamento
E quando ele é um convidado
Guarda a máscara numa num baú perto da cama
Não gosta de pentear os cabelos
E mesmo assim o faz corriqueiramente
Tem certa aversão a homens de meia idade
Usa roupas que a fazem feliz
Como meia calça e chinelo de vovó
Fala, fala, escreve e publica
E ninguém ouve ninguém nunca irá ouvir (às vezes lêem)
As palavras morrerão juntamente com ela
Sente uma grande felicidade quando ele esta vestindo vermelho
E sempre diz a ele e repete para si
Ele fica lindo de vermelho
Isso a faz lembrar do gosto do sangue
Gosta do cheiro e de lembrar
Veste o medo, e saboreia vagarosamente a tristeza
Lambendo com prazer e angustia
Preferia ganhar caixas de música
Mas nunca aconteceu
Provavelmente nunca acontecerá
Os amigos dela não se importam com as coisas que ela pensa
Ela é sempre muito fechada dizem
Estúpida às vezes
Mas ela sabe que quando tem vontade
Sua máscara brilha nos olhos alheios
Detesta imensamente que cobrem seu afeto
Cada um que se baste
Se estiver com tanta vontade
Sente ao lado em silencio
Espere por alguns anos se passarem
A felicidade virá, ela garante
Não tem uma legião de fãns
Não recebe ligações nos finais de semana
E sempre preferiu assim
A companhia que lhe agrada
É silenciosa e sábia
Gostaria de morar no Alaska
Sentir frio e solidão dentro das camisas de flanela
Tomar café quente e caminhar com desconhecidos
Mas às vezes pinta ele nesses quadros
É às vezes ela pinta
Como aquele desenho que fica colado na parede
E sempre que as horas são iguais ela olha pra ele
Parece que se condicionou a isso
Ela se enjoa de tudo e principalmente de todos
As duas pessoas que ela mais aprecia
Por suas inteligências bestiais
E complexidade
Nasceram no mesmo dia...
O que não quer dizes nada...
Mas é uma engraçada coincidência
Uma delas é o Bukowski
A outra é muito melhor!
E impressionantemente ela ainda não se enjoou dela
Num dia odeia azul
No outro se veste da cabeça aos pés de marinho, índigo e celeste!
Tem uma ilusão recorrente
De que um dia o mundo vai virar fantasia
E ela vai sair voando por entre as pessoas fedidas
Sem ninguém perceber porque ela será a mulher invisível
Mas mesmo evitando a realidade
Tem fé em sua morte
E no gosto maravilhoso que seu sangue deixará na terra
Ela vai viver na eternidade de seus coágulos
Mesmo que ela nunca tenha existido:
Realmente!




Audrey Carvalho.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Às vezes, só resta um cão como amigo


Confiança

Meia hora para o show. Anos atrás estaria acendendo o enésimo cigarro do dia e bebendo uísque ou vodka no gargalo. Ao contrário de tantos companheiros daquela época, nunca tinha caído na tentação das drogas mais pesadas; lhe bastavam a nicotina e o álcool. Os companheiros se foram, quase todos; ele ainda estava de pé – e às vezes se perguntava se valia a pena. Tinha largado tanto uma quanto o outro há anos e agora se contentava com um antiinflamatório e um analgésico engolidos com um gole de coca zero. Sim, porque além da hipertensão, havia o diabetes.

Quinze minutos para o show. Estaria no enésimo cigarro mais dois a essas alturas. E naquele estado entre sóbrio e bêbado que com cuidado cultivava. Observando os companheiros de banda mais para lá do que para cá, consciências alteradas, mas talento imaculado. Os companheiros se foram, quase todos, menos o que entra no camarim. Tinha sido baixista da primeira formação da banda. Mas nunca muito bom. Quando surgiu o primeiro hit, a gravadora sugeriu uma substituição e ele, humilde, aceitou. Por insistência do líder, foi contratado como assistente do manager. E encontrou-se: dois anos depois era o empresário oficial daquela já grande e ainda crescente potência da música. Ao longo das mais de duas décadas, cuidara da banda como se dela fosse parte. Como de fato era, de certa forma. Ou tinha sido. Ou algo assim. Um homem de confiança.

No camarim, a conversa de sempre: “Tudo em ordem, chefe?” Desde que passara de músico a burocrata, sempre o chamara de chefe, em tom de brincadeira. “Tudo”. “E a mão? Tá doendo?” – logo antes de todo show, a mesma pergunta, desde o primeiro diagnóstico de artrite. “Não, hoje tá boa”. Sempre a mesma resposta. E, por trás da resposta, o que os dois sabiam e nunca tinham dito: um dia a mão não ia aguentar riff após riff; solo após solo. Um dia o dinossauro ia morrer em praça pública.

Nunca tinham dito, mas uma hora iriam dizer e foi naquele dia. “Cara, preciso me aposentar. Parar antes de fazer feio”. “Que nada, chefe. Você ainda tem anos pela frente”. Sempre assim: de um lado os músicos e seus egos frágeis, seus vícios bobos. Do outro, o executivo que só fazia administrar finanças, vaidades, inseguranças. “Não sei o que seria de mim se não fosse você”. “Claro que sabe. Você ia fazer sucesso de qualquer jeito. Talento como o seu?” Condescendência e adulação. Bases estranhas para uma amizade de mais de trinta anos, desde antes de descobrirem a música. O ex-baixista ruim sentou-se ao lado do guitarrista prodígio. “Quer a bolsa de água quente?” A resposta foi só um abanar desanimado da cabeça. “Quer alguma outra coisa?” Mesma resposta. Ficaram sentados em silêncio.

Cinco minutos para o show. Levantaram-se. “Cara, preciso mesmo parar logo”. “Não se preocupa. Vai dar tudo certo.” Sorriram um para o outro e foram cada um para o seu lado: o músico para o backstage; o empresário para a cabine de som. Vai dar tudo certo, o guitarrista repetia para si mesmo, ouvindo a voz do amigo. Vai dar tudo certo. Entrou no palco ainda escuro, pegou a Gibson e esperou as luzes.

Dez minutos de show. As mãos, já aquecidas, não doíam mais. “Vai dar tudo certo.” Tinha até incluído no setlist desta turnê um medley que passava por aquela do Bob Marley que dizia isso.

Vinte minutos de show. Trinta. As mãos já cansadas. Mas sem problemas até agora. Mesmo porque, com o passar dos anos, tinham simplificado as passagens de guitarra, diminuído as extensões de dedo mínimo. Já não era um moleque de vinte anos.

Quarenta minutos. Já não conseguia dizer para si mesmo que a mão não doía. Porque doía. Mas repetia para si mesmo “tudo vai dar certo, vai dar certo, everything’s gonna be alright”, numa voz que misturava a do Tuff Gong e a do amigo que, fora a música, era a única constante em tantos anos de estrada; que tinha ajudado a lidar com divórcios, pensões, advogados, a largar o cigarro e a bebida, a enfrentar os médicos, a encarar um show depois do outro. Sentia um pouco de vergonha de ser condescendente com ele. Mas era assim a amizade: condescendência e adulação. E funcionava. A única constante, a amizade: a confiança que tinha no amigo e que o amigo tinha nele. Sabia muito bem, no fundo, que só não tinha desistido ainda, só não tinha parado por medo de fazer feio, por causa dessa confiança inabalável que o músico sem talento tinha no virtuose. Entre uma música e outra, um gole de chá gelado e mais um analgésico. Ia dar tudo certo.

Quase uma hora de show. Os shows da banda hoje em dia duravam pouco mais do que isso. A mão já não aguentava as maratonas de antigamente. Quase uma hora de show e, com uma hora exata, entrava aquela música. Aquela que tinha feito com que passasse de guitarrista de sucesso a deus do rock. Aquela que os moleques suavam para aprender. Aquela do solo heróico de seis minutos. Aquela que para ele tinha virado uma forma especialmente cruel de auto-flagelação. Aquela única que os fãs faziam questão absoluta de ouvir e que não podia sair do show. Tinham tentado uma vez. Foi a pior turnê da história da banda. Os jornais avisavam antes: não vá esperando ouvir Aquela.

O guitarrista respirava fundo e tentava esquecer a dor. Na metade da música já sabia que dessa vez ia ser difícil. Os remédios já não bastavam. Sentia cada tendão como se fosse uma corda de mizão esticada até virar um mizinho. Mas respirava fundo e ia em frente. Já nem estava mais preocupado com a platéia, nem com fazer feio. No fundo, o que queria mesmo era não decepcionar o amigo. Ou mostrar para ele que ainda era o gênio das cordas e sempre ia ser. Mas dizia para si mesmo que era para justificar aquela confiança.

No meio do solo, um pequeno erro, mas achou que ninguém tinha percebido. Dois compassos depois, outro erro. Não ia dar. Olhou na direção da cabine de som, que não via por causa das luzes. Mas olhou assim mesmo, querendo que o amigo visse em seus olhos o pedido de desculpas por ter traído sua confiança. A mão já não aguentava mais. Errou de novo. Feio

E viu que ninguém percebeu. Tinha perdido quatro notas seguidas, mas elas vieram no retorno. Parou de tocar. E a guitarra continuava. Aos poucos o público parou de bater palmas no ritmo da música. O guitarrista base parou também e, logo em seguida, o baixo. A bateria e o teclado demoraram um pouco mais. Mas a guitarra solo continuava. Daí vieram as vaias.

Na cabine de som, o ex-baixista gargalhava e brincava com a caixa do CD de playback que há anos deixava preparado para esse dia.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Amo Você

CESAR VENEZIANI

Amo você na sexta à noite,
quando beijo o rosto da amiga aniversariante,
quando vejo diante de mim
um drink delirante...

Amo você no sábado à tarde
quando o sol arde ao som do rock antigo
e aniquilo o inimigo amargor da sua ausência
com a demência do acorde dissonante...

Amo você no almoço do domingo
onde, antes do bingo, minha mãe me recebe
e concebe um banquete que me apetece
e o sabor de infância me remete ao prazer do teu corpo
e em torpor me transponho entre o aqui e o antes...

Amo você no desligar do despertador
quando por obrigação me levanto
e, no entanto, sem bem perceber
o final de semana já se foi
e eu estive consigo, ainda que distante, a todo instante...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Fogo incessante




a silhueta incendeia

os olhos,

.

e no apagar da luz,

queima por inteiro

corpos nus

.

o calor da mulher

é aguardente para imaginação,

.

faz o homem se inebriar.

.

o calor da mulher

provoca a translação

.

dentro do seu universo: amar

domingo, 23 de agosto de 2009

Presságio

É uma sede tão intensa... que os lábios ressecam mesmo que a língua passe várias vezes na tentativa de umedecê-la um pouco. Interessante que não parece com sede, parece com desejo desses que não cessam mesmo que saciados. A mente gira rápido trazendo um carrossel de cores e multi sabores... os olhos piscam e a frente já não enxerga com clareza. Deseja ardentemente que seja um sonho e que logo acorde, tome um banho e todas essas sensações desapareçam e desçam pelo ralo enquanto água fria aplaca essa coisa que não é sede, mas que resseca e incrível que não só por fora... por dentro queima tanto quanto por fora...Não sendo sonho devaneio é com, loucura e delírios incessantemente incontroláveis...pelo menos nesse momento a vida não faz sentido e o que importa de fato é o que faz o coração mais forte alem de bater acelerar...então a campainha toca...sente o fio da realidade puxar pra vida , de volta cena pega o copo com água sorve alguns goles, eleva a mão e derrama o restante sobre a cabeça , respira fundo , sacode a cabeça e vai atender a porta, quem sabe se o impossível não acontece e tudo isso apenas presságio para o que possa vir a acontecer dali em diante...


Catiaho/Reflexo d'Alma

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Manto



Sob o manto da lua negra, os astros tornavam-se archotes para o seu caminho.
Velar-se entre a densa ramagem das árvores do sombrio bosque, que eram sacudidas pelo vento, não facilitava o seu caminhar, mas, já se acostumara a transitar pela sinuosidade das madrugadas, a vida que escolhera.
A lua não era mais sombria que àqueles tempos... Nem, a rusticidade do bosque, nessas horas mortas, era mais trevosa que a intransigência humana hostilizando através da violência e sob o signo da ignorância, atos que julgassem pagãos.
Logo, a água fresca da fonte lamberia os seus cabelos, ora encobertos por pesado capuz de sua longa capa.
As nascentes d’água traziam a energia curativa da Mãe, eram bálsamos para os enfermos. Também, as ervas se tornavam mais frescas sob o orvalho. Apressou-se para encher o seu cantil de estômago de porco e coletar algumas ervas; sempre muito atento, pois as sombras eram mais perigosas que os seres.
Não muito distante dali, havia um grupo de pessoas a esperá-lo; os recursos xamanísticos faziam parte dos antigos costumes e atuais ritos.
Destinaram-lhe as incumbências de demarcar o círculo e acender a fogueira central. Não demorou, um agrupamento de pessoas o rodeou, ocultos em trajes semelhantes.
Bebeu do cálice da vida, entoou os cânticos sagrados, reverenciou a Terra. Retirou o néctar dourado de um favo e o saboreou. Repartiu o dourado fraternalmente, agradecendo pela colheita, pelos frutos do trabalho e à fertilidade do solo. Festejou com os próximos, a luz do sol, a divindade das chuvas, a temperança das estações do ano. Rompeu as noites e os dias e atravessou portais temporais. Vestiu novos trajes, participou de novas ordens cerimoniais, misturou-se às transfigurações sociais. Mas, continuou a pisar com os pés voltados para as estrelas.
Após sentir em sua nuca a água fresca da fonte, todo o seu corpo estremeceu. Despiu-se do tempo que oprime as eras e os passos e, pôs-se a nadar nu no lago.
Sua aura purificara-se e tornara-se translúcida com os primeiros raios do sol.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Convidada Penny Lane

Pra Você!

"Espere um pouco, estou quase cochilando
deixe-me contar meu último pensamento
que está à deriva na névoa profunda
perdida aonde fui esquecida

Espere um pouco
posso te sentir principalmente quando estou sozinha

Volto pra casa porque quero
passo o tempo com as vedetes
fico olhando o teto
faço um flashback dos meus sentimentos
no sentido mais doentio do meu sentimento

Te ouço transando através da parede
Te ouço transando
quando estou entediada

Envio vibrações na tua direção
elas saem da minha mente satélite.

Não sou suicida, só não consigo levantar da cama
continuo à deriva na névoa profunda, perdida aonde fui esquecida
Posso te sentir principalmente quando estou sozinha
Posso sentir teus fantasmas quando estou sozinha

E volto pra casa porque quero
passo o tempo com as vedetes
fico olhando o teto
escondendo e revelando
fazendo um flashback dos meus sentimentos
do sentido doentio de uma ligação rara

Te ouço transando através da parede
te ouço transando
quando estou entediada...

E te envio vibrações da minha mente satélite."

Penny Lane

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Necessário.


(Imagem retirada do Google).

Necessário.

Ele era um besta que eu seria capaz de amar.
Imaginá-lo cena de cinema... Não! Cena real. O rápido desabotoar do meu vestido. A mão atrevida a encher-me de carícias, mais. O pênis firme, ereto, roçando.
O olhar de deus; o meu deus – socorrei-me os céus!
Mas era pouco, eu queria bem mais. Queria o todo e este foi o erro; erro feminino.
E? E? Nada. Ele bem distante e minha vagina molhada, escancarada, cheia de desejos, enquanto ele, o besta, era figura fictícia e o dito amor escorria pelo ralo em um bom banho, hummm...
Ele valia a pena – de vez em quando.

Eliane Alcântara.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Acidente numa noite chuvosa


Antes da colisão,
gotas de chuva no para-brisa
são barras de ouro.

André Espínola

Sinestesia

http://t0.gstatic.com/images?q=tbn:UPV8123YCFtIoM:http://img411.imageshack.us/img411/7752/sinestesia2tq2.jpg&t=1



Não somos parecidos
nem sequer nos desvarios e esquecimentos.

Um porto selvagem se perde além das nossas trincheiras
e o que resulta
além do arrastar uma areia espessa

é algo como um chuva
num chão devastado por
por cores de serpentes e borboletas.

Tu és esfinge
eu sou apenas
o espectro

e ainda assim, não somos parecidos
nem sequer em nossas tormentas.

Caminhamos lado a lado
eu, fazendo escarcéu com o gosto do toque da névoa
e o teu rosto brincando de incendiar os belos
e mortos
pássaros de ar

que tu mesmo inventas.



(Jessiely Soares)




*Desconheço o autor da fotografia.

domingo, 16 de agosto de 2009

Apenas vestígios


Não sei dos meus caminhos
de amanhã.
Nem de hoje daqui a pouco.

Sei que tenho pernas
e espasmos de intuição.

E prazer nos labirintos.
E tenho cestas de maçãs.

Detenho um grito rouco,
e pressa em seguir chão.

Meus rastros se perderam em
ânsias,

e certos pedaços de asfalto
são apenas ruas sem importância.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Cálice de Adversidade

(Sonia Cancine)
.

A margem da estrutura social
Eu tento digerir
O que se impõe nas caldeiras ferventes
Das relações existentes.

Cozidos os destemperos
Sobram as porções carnudas
Para o prazer da gula animal.

Desmancham-se nos caldeirões
Aos borbotões olhos tristes
No regalo de perdas infindas
Onde deveriam nascer canções.

Embriagada pelo sentimento de saudade
O amor jazido entoa palavras jogadas ao vento
Buscando a brisa suave
Na esperança de que esta enleve
E abrande as cinzas do lado sombrio d’alma
Corrompida pela dor.

Sou livre sou pássaro
Que no alto de vôos imaginários
Deste inverno triste, aguardo os raios de Sol
Pousar e aquecer os quintais humanos
Para que me tragam de volta o brilho do olhar.

Olhar que se perde ao longe
E reflete a expressão de anseios

Inebriando-me no mais absoluto Silêncio d’Alma.

Assim num ritmo cigano
Ao som de pandeiros e violinos
Representando o júbilo do Sol
Embainhada de lenços eu danço
Um lamento arcano

E aos poucos revelo tão somente
A beleza e o poder da dança
Como forma de oração
E me basto neste instante.

Tal como filha do amor
Neste cálice de adversidade
Ao que o mundo se destina

Ao dançar manifesto desejo, sentimentos e sonhos
Movidos pelo deslizar dos lenços tristes pelo ar
Num transe livre e musical como o vento

Numa tentativa de envolver e fortalecer teu coração.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Meu Habitat

Corri firme pelos campos nevados das montanhas,
O céu era branco e pouco estrelado,
Árvores, pedras, rios e lagos... congelados,
Algo diferente havia em mim,
Sentia pelo corpo, sentia-me mais instintivo,
Eu mudei e buscava minha egrégora.

Notei cavernas escuras e geleiras imponentes,
Granizos caíam como estrelas pouco vívidas,
Na serenidade mortífera tudo era inóspito,
O frio e ventos incomodavam-me menos,
Minha aventura estava mais próxima do fim,
Abismos e cavernas agora eram meu território.

Vivi a edificante misantropia naquele lugar incrível,
Lá eu era livre de fardos da humanidade,
Em meu lar distante eu podia ser eu mesmo.
No alto da montanha observei o abismo,
E senti um poder interno crescente.

Rosnei e urrei, logo senti-me maior e poderoso,
Pesado e peludo, meus trajes sumiram,
Transformei-me em um grande urso polar.
Descansei em uma carverna escura,
Dormi entre meus parentes ursídeos.

Hibernei até a próxima estação, esperando por dias melhores.


- Mensageiro Obscuro.
Dezembro/2008.

Ostras

"Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas"



Rumores e sensações, vividas em silêncio
De profanas inquietações.

Guerras deflagradas a procura
Daquilo que foi encontrado
Na pureza dos sentimentos
Vividos antes do despertar
Da lua que nos observa
Brilhante e cheia...

Visionários de sonhos
Trazidos pelos ventos esfuziantes
Da maldita estrada que nos separa

Em um longínquo futuro inexistente
Tornamos-nos pérolas.

(Ro Primo)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

Fim de estiada XI


naquela altura
o sol já ia subir
e o seu amor por mim

foi-se com a chuva

deixou, porém,
de souvenir,
essa poça d'agua

aqui nos olhos.