quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Lugar Comum

Vou usar e abusar do chavão:
Fazer todo um poema de rimas
Desgastadas, cansadas, cretinas.
Vou rimar “coração” e “paixão”.

Vou usar só palavras banais,
Desfiar rimas burras e pobres
Até que nenhuma mais sobre
No meu velho e surrado Houaiss.

Vou fazer construções qualquer-nota,
E usar, sem ter medo nenhum,
Um milhão de lugares comuns
E as hipérboles mais idiotas.

Não faz mal se for tudo clichê,
Pois no fim resta salvo o poema
Se tiver algo raro por tema
E esse algo, mulher, for você.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

É uma pena que a obra belíssima de Oscar Niemeyer – Esplanada dos Ministérios – está em um estado deplorável. Entregue aos morcegos, sanguessugas, ratos, traças e cupins.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A vida imita a arte

Uma haitiana de cerca de 70 anos foi resgatada com vida dos escombros da Catedral de Porto Príncipe por bombeiros mexicanos que se emocionaram ao ouvi-la cantando depois de uma semana soterrada.

Os socorristas se abraçaram chorando enquanto a velhinha, coberta de pó, era colocada numa maca improvisada onde recebeu soro intravenoso e um cobertor térmico antes de ser levada para um hospital.

Anna Zizi foi resgatada duas horas antes de completar exatamente uma semana da ocorrência do terremoto que devastou o país.

"Nunca perdi a esperança. Nunca. Rezamos muito", afirmou o filho de Zizi, Maxime Janvier.

Fonte: Notícias UOL

Foto: Catedral de Porto Príncipe após os terremotos, tirada por Rafael Beleboni

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ciranda

Debruça-se o sol
Sobre a eclíptica.
Em dança climática e cíclica.
Rítmica das estações.
Outonos e invernos,
Primaveras e verões.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A dor do Haiti


Ai! Ai! Haiti
Mesmo cá, eu choro e sinto a dor daí.

O terremoto que abalou o mundo
Ainda faz tremer meu ser
Que vê tanta dor e angustia
E quase nada pode fazer.

Fico eu cá, vendo vos ai.
Em oração e pensamento
Manifestando o desejo
De não mais sentir a dor que dói ai.

Ai! Ai! Haiti!
Termino eu cá, pedido a Deus
Para abrandar essa dor aí.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sem desistir.

Sem desistir.




Não venha com dramas já não choro ou descabelo,

da sua menina resta a mulher sem pressa,

a parte mais forte daquela que por você ressuscitava

a coragem de quem gozava dos carinhos o melhor.



Passei da fase de ter alguém pelas metades

se é isso o que quer procure outra qualquer,

meu passo é longo e mais longe estão meus olhos,

os dedos querem geografia carnal de alguém com fome.



Não ouse ligar ou pense em surpresas,

cansei de brincar com quem não sabe jogar,

respiro a beleza dos que sabem amar sem temores

os recortes enluarados dos meus destinos de fêmea.



Eu quero sugar dos delírios os risos alados,

as rebentações de todos os gozos mordidos

e adormecer suada em braços exaustos

sem noção de que possa no aconchego haver perigo.



Há em meu peito o tremor de mil silêncios,

basta de dores e amores vadios, vazios.

Caía fora, já passou o seu tempo,

agora só cabe em mim aquele que for para sempre.



(E nem sempre há o para sempre, mas eu insisto).



Eliane Alcântara.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Capibaribe e Sua Guerra

Na noite de hoje, eu estava atravessando a ponte e, subitamente, decidi parar. Acabara de escurecer e era hora dos trabalhadores fatigados retornarem ao lar. Mas era uma noite incomum, dessas que não tem no Recife facilmente. Não havia sinal de engarrafamento numa das principais vias da cidade, nem buzinas e motores soprando suas melodias. Por isso decidir parar e observar como estava a noite para o Rio Capibaribe, se ele também compartilhava do breve regozijo de uma cidade em paz.

Suas águas carregavam um grande Mapa Mundi de nuvens, como que disposto em uma extensa mesa flutuante. Distinguiam-se os continentes cinzentos em sua imensidão, separados por oceanos negros. Enquanto eu fantasiava sobre qual seria a minha pátria querida, vi surgindo embaixo da ponte uma água podre, de tom mais claro, porém pestilento. Depois eu entendi que era como um estandarte, representando o silencioso contingente de lixo que avançava. Não tardou para invadir os continentes anuviados até dominá-los por completo. Um a um, estes foram caindo diante de sua força interminável, pois quando parecia que havia terminado um ataque, logo em seguida vinha um ainda mais forte e fulminante. Era uma guerra silenciosa, mas feroz. E o Capibaribe agonizava. Numa atitude desesperada, deu as ordens às suas águas e tentou recuar, mas a mesma correnteza que o recuou foi a que fez avançar ainda mais o exército em sua perseguição. O campo de batalha foi deixado desconfigurado. Os continentes sem a mínima força ou esperança de reagir.

O mais curioso é que neste exato momento olhei para o céu e o Mapa Mundi de nuvens estava intacto, numa tranqüilidade digna somente dos deuses. Assim o Capibaribe foi sentenciado a travar, sozinho, sua guerra contra os dejetos humanos.

André Espínola

Dos tempos chuvosos

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEikFa9a-JKtMuWs9j375sbDU9tKyv7cMciBVVmNhyphenhyphen_lTv6qgYakIKKwRSvnz6VaLmwx6yDh5CO7BMGohuypc-lmhMDrP1DNh7rFnjSqmUVR99SKUeQ1p8B23GBoDOWfw9BBYIG5sA/s400/x287844.JPG

01:36, sábado.

O tempo conjuga
medidas de vida
em ventos polares.

Arranham minha janela
em doses
tão maiores
que meus conhecidos
ares

Se eu abrir a vidraça pro mundo
ele me arrancará tudo.

Tudo que me cabe é um quadrado
muito menor que ela.

Tempestade, tempestade
passa.

A minha vida é uma fragata atracada
já não pode mais
ir ao sabor das velas.



(Jessiely Soares)




Imagem: Priscila Pimentel

sábado, 16 de janeiro de 2010

Retalhada


São retalhos
e não são desta saia

ou da colcha que repousa
segura do meu amor e lembrança
dentro do guarda-roupa

São retalhos
e oxalá fosse só dentro de mim

Mas não!

É dor esparramada
cheiro azedo
de felicidade estragada

Escombros no chão.

Ruínas
de Reis
e de Luízes de Paraitinga

E antes de sepultar meu amargo
a terra fez sua dança desajeitada
e de novo um cheiro de azedo
agora, de pouca felicidade estragada

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Passeio


PASSEIO


Hoje visitei a beira do abismo
Eu e meu jeans

No fundo, sempre achamos que o tempo não iria passar

Acocorei-me sobre o limbo que cobria o chão que pisava
Abotoei uma borboleta amarela na lapela
Cobri-me daquele sol desbotado e velho
Apanhei um cogumelo solitário que insistia em crescer na pedra
Cheirei duas nuvens passageiras
Mas resolvi não olhar para o espelho do mar

E o azul acima da minha cabeça sempre me desafiando

Resolvi seguir pra lá

Estou cansado de tentarem me convencer que envelheço


(Celso Mendes)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

No cais deserto

(Sonia Cancine)
.

A sina da vida me ensina amar
- sem narcisismo, eu sei -
Embora a luta persista no mundo
A maior delas é vencer a si mesmo.

No instante do amargo sabor
Que [aos teus olhos]
Peregrinam no barco da dor

O entendimento confuso
No mar dos pensamentos, navega.
Mas no teu barco junto ao vento
E nas ondas do teu olhar
Navegam sentimentos.

Carregada de um silêncio mortal

Abro a janela, entreaberta do caos
E não reconheço o arrebol
Que outrora refletia emoções.

Será que não o deixei antes de à hora
Despontar-se a de mim?

É o íntimo abatido de face cansada

Cansada

De esquadrinhar sempre sozinha
No cais deserto, o meu barco.
De ouvir ecos na sombra da voz
Que clama em chama por liberdade?

De escapar infeliz das lições
E das artimanhas nas manhas
Deste mar de contradições...

Mas sobre a areia molhada
Tua voz eu escuto...
Afaga-me a alma numa onda calma
Ecos que chegam ao meu silêncio.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Cadeia Alimentar



Teu corpo treme e transpira em calafrios,
Teu sangue está temperado para o banquete,
Eles estão às tuas costas a seguir seu aroma,
Corra, pule os muros, arme-se e esconda-se,
Não deixe que eles lhe peguem, corra!

Na noite a sede aplaca os famintos,
Tu és a presa, eles os caçadores,
Não deixes tua vida escapar do corpo,
Fujas enquanto pode, combata teu inimigo,
O terror e mistério lhe caçam.

São bestas de sede insaciável, malditos!
A gula implacável de imortais noturnos,
Corra dos sanguessugas que lhe farejam,
Vidas humanas são teu alimento.

A existência frágil contra existência trágica,
A sentença mortal contra a sentença eterna,
Humanos e vampiros, duelo de dois monstros,
Resolução de apenas mais uma cadeia alimentar.

Eis a cadeia alimentar: mais um vivo saciou um vampiro.


- Mensageiro Obscuro.
Fevereiro/2007.

Foto: Conde Stradh por Clyde Caldwell.
Página do artista: http://www.clydecaldwell.com

domingo, 10 de janeiro de 2010

Border

Aquele lá mora no paradoxo.
Vê como é tudo?
Pedra planta bicho homem:
o sim não exclui o resto, encontrou o infinito.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

silêncio


Os longos silêncios que pareciam feitos dos tentáculos de algum animal mítico. Eram eles que mais a incomodavam. Silêncios cheios de um vazio imensurável e tão vazios que faziam seus ossos doerem. O silêncio invadia todos os mundos em que ela navegava e até as almas andavam caladas, nenhum sussurro a seguia pelos cantos frios da velha casa escura, nenhuma sombra se escondia nas gretas.

Os remédios a tornavam surda a tudo que fosse incomum ou interessante. Ela suspirou e empilhou as panelas, guardou cada prato e copo em seus devidos lugares e depois voltou à massa de pão que descansava sobre a mesa já enfarinhada, onde sovou até que tudo ficasse liso e perfeito, sovou até que os reservatórios de medo estivessem vazios e ocos como a casa estava, sovou até que os nós dos dedos doessem. Depois colocou a massa para descansar e os pensamentos voltaram enquanto ela sentava quieta sem nada mais a fazer além de pensar no marido distante ou lembrar de como eram os movimentos do bebê sob sua tenda de pele.

O bebê tinha sido sua esperança de que o vazio desaparecesse. Na verdade, ele se tornara seu único refúgio a única coisa que tinha se permitido imaginar, a única esperança de futuro, mas agora não havia nada, apenas a lembrança daquela boneca morta que tinha uma pele azul de fada.

Os remédios vieram depois, caixas tarjadas de vermelho e preto que a faziam outra, talvez alguém mais aceitável, alguém que pudessem salvar.O céu estava claro e ela ergueu o rosto, estendeu seu espírito até a entrada da floresta onde sabia que a lua se espraiava e quase pôde ouvir os sussurros enrugados dos espíritos perdidos, podia senti-los agora, mais próximos do que em qualquer outro momento anterior.

Voltou rápido e agradeceu por estar sozinha. Não havia perigo de ser vista imaginando. Foi deitar e da cama ouviu quando um dos espíritos abandonados derrubou as panelas, pensou vagamente que ratos eram mais fáceis de controlar do que espíritos com senso de humor duvidoso.

Não tomou os remédios, mas empilhou as pílulas num canto do criado mudo. Olhou um pouco para elas , depois vestiu a camisola, apagou as luzes e caminhou no escuro, quando chegou à cozinha o espírito arranhava a porta e ela bocejou enquanto refazia o intrincado equilíbrio das panelas.

Lá fora o vento zumbia nas árvores, o ar se tornava subitamente gelado e os sussurros quase se tornaram uma palavra. Pensou vagamente no quanto os espíritos podem ser aborrecidos quando eram ignorados, despiu a camisola e enfiou-se nas cobertas. Sonhou que amamentava a pequena fada e que ambas tinham asas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

no último sonho

conto que não há mais nada
a heroína é o cansaço
que arregaço em minhas veias
fundidas ao pó da carne

dilacerada e entregue aos mortos
vou seguindo teus rumos
agregando-me devoto
aos pesadelos que desconheces

na pupila dilatada o universo
que engana
na finitude humana salva-nos
a ignorante batalha vã
e a vitória do desconhecido.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Ukma cantando meu poema Aureolada - Flá Perez



Aureolada

Eu tão anjo tenho andado,
que em mim nasceram asas.

O queme perde pro céu
é esse meu grande rabo
endemoniado

e minhas coxas grossas.


(repostagem de 07/01/08 com vídeo incorporado)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ton-sur-ton

Agora não quero falar
de coisas coloridas,
bonitas, delicadas,
de flores e borboletas.
Não quero falar de nada.
Hoje estou monocromático.

Por que não cantar o cinza
do asfalto e do cimento,
da gasolina e do diesel,
da poeira e da fuligem?

Por que não cantar o cinza
duro, frio, onipresente?
Os diversos tons de cinza
sobre cinza da cidade?

E uma vez cantado o cinza,
concreto armado e neblina,
e pintada a cidade em P/B,
aí, sim, falar de flores
e até, talvez, borboletas.
Sobre o fundo de cimento
não mais apenas bonitas,
mas praticamente perfeitas.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Ocorrência 2831/09

— Sabe... os minutos parecem dias, as horas são semanas, o meu viver parece que está suspenso, não planejo mais nada, não penso no futuro, não imagino o que me espera na rua seguinte, comprar um pão a menos todo dia pela manhã é um suplício, só consigo pensar na minha criança, 15 anos... Nunca tinha me dado trabalho, nunca demonstrou estar com problemas, e, de uma hora pra outra, some. Cada um fala uma coisa: um que fugiu com uma paixão que ninguém conhece, outro que foi vítima de seqüestro e tá no estrangeiro, mais um que aposta que morreu nas mãos de um doido, ai... é uma dor forte que aperta o coração, entende? Tenho mais dois filhos, mas cada um é único, a falta de um não é compensada pelos outros... Um mês, oito dias e três horas. Foi a última vez que falei com minha criança... estava normal, sabe? Não parecia estar com problema nem nada. Ia pra casa de uns amigos ver um filme, mas não chegou lá. Oitocentos metros. É pouco, né? Percorro o caminho da minha casa até a desses amigos todos os dias; são cinco ruas que me cruzam o caminho, fico imaginando em qual delas minha criança subiu. Ou desceu... trinta e oito dias de ausência, e não saiu uma nota no jornal, um comentário na televisão, ninguém se ofereceu pra fazer panfletos, página na internet, então, nem pensar. Aqui na periferia não é o primeiro caso, mas quisera que fosse o último, a dor é demais. Sabe, pode até ser estranho falar isso, mas beleza não era seu forte, não chamava a atenção de ninguém, só gostava de ver filme com os amigos e ler as poesias do Vinicius, aquele do “... que seja infinito enquanto dure.” Conhece? Nunca vi alguém com o seu jeito na capa dessas revistas de famosos. Mas era minha carne, meu sangue, minha história, que talvez não tenha continuidade. Ninguém tem conhecimento pela TV, pelo rádio, ninguém se pergunta “onde estará?”, não apareço chorando na frente das câmeras, mas, pode acreditar, a dor é a mesma que a dos parentes dessas crianças bonitas que somem, e cujo rostinho aparece nos cartazes e nos outdoors. É infinita. E pra sempre dura.

Conto premiado com o 2º lugar no concurso literário promovido pela ULBRA (Universidade Luterana do Brasil), com sede em Gravataí (RS).

Conheça o site www.desaparecidos.com.br

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Série: Cabeça Oca I



1. Toda vez que ouço alguém chamar a mulher de um governante de 1ª dama... não sei se acontece contigo, mas eu sempre tenho a impressão de que tem uma segunda, uma terceira...e, por aí vai.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A chave

me desejam feliz ano novo
de novo
e tudo é velho
olho no espelho
vejo a barba branca de Noel
finjo fazer seu papel
e no ô-ho-hoooo
dou
um sorriso desbotado
tão falso quanto o algodão jogado
fingindo neve
e quando alguém se atreve
a dizer "abra a janela da felicidade em 2010"
meto as mãos pelos pés
e pergunto: cadê a chave do cadeado?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Miserável

- Mais um!

- Desculpe-me pela indiscrição, mas o senhor já não tomou muitos?

- Mais um, porra! Não estou perguntando merda nenhuma, eu quero mais um! Eu pago a merda do seu salário, quero tomar mais um e você tem que me obedecer!

Abaixando a cabeça, o garçom atendeu-lhe prontamente. Era mais um sorriso que ele mandava goela abaixo, embebedando-se do pouco poder que tinha.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ouve


Ouve o silêcio, viajante ouve o silêcio
Veja a maravilha que nele habita
Esteja lá e viva cá.

Caos, violência e insensatez

No silêcio tudo se disfaz
Lá não há forma,
Há apenas paz.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Do humano.


(Imagem: Google).

Do humano.


Nunca espere que as portas se abram sós,

é preciso ternura para tocá-las.



Não entre sem convite,

é na magia do olhar que se reconhece,

a existência da vontade de habitar.



As janelas guardam segredos,

nunca ouse espreitá-las, modele o interior.



Não afaste do corpo a alma,

não é assim que se ama ou se faz amar.

Aprenda a cativar o que pretende alcançar.



Não respingue passado no presente,

é do futuro que nascerá a felicidade.



Deixa a beleza sua vida enfeitar,

e mais tarde, bem a frente, sorria,

a vida é bela, para quem a ela, com amor se dá.



Eliane Alcântara.
 
 
A todos, Boas Festas!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Temporão


Num beijo que nem chegou a ser de amor
é onde estou agora

Era terra infértil de novo
e eu ali me semeando

Não sei que problema há nos meus olhos
e nos meus sentidos

Era superficial e fogo
e eu ali me semeando

Trovões e relâmpagos
alertavam da chuva
que não veio

Por que se injetou na dança, nos planos, nas ancas
se não era para durar?

Tudo o que é demais não cabe
e em silêncio recolhi as minhas sobras

Morri semente sonhando com podas

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Alfarrábios


Percebo uma ruptura que me duplica.

Mas sou feito de ferro e concreto,
fissuras não me comovem.
Já sou azul e amarelo,
preto no branco,
e uma velha testemunha do conformismo.

O sopro que fere meu rosto
é a prova da fragilidade desta armadura.

Redimo-me da canção subalterna a um desejo ocre.

E que não me faltem alfarrábios
para dizer da crueldade dos anjos,
que infernizam minhas noites
e me visitam nas manhãs opacas
pintando-as de tons pastel,
feito palhas que incendeiam sutilezas
e espalham a fumaça:
ardência dessa angústia nos meus olhos,

asas que se queimam em pleno vôo
sobre um chão que já não há.

(Celso Mendes)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Parcas luzes...

(Sonia Cancine)
.

Pudera...
Ter a leveza dos pássaros
A delicadeza das pétalas e
Os sentidos felinos.

Quem sabe assim, sobreviveria
Em meio à tormenta escura em que vivo?

Por assim dizer, respiro.

Respiro lágrimas silenciosas
Que exalam cristais

As parcas luzes
De meu finito desejo
Apagam-se e

Eu não posso mais ver a luz...

Dói-me os sentidos por perceber a alma tão pequena.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Fúria Selvagem


Meu ódio é extenso e implacável,
É uma fera faminta e voraz
Que corre sobre tua sombra.
Não espere que eu tenha piedade
Ao hesitar em lhe atacar.

Em minha mente tu sofres demais,
Com meus olhos calculo tua distância,
Com meu nariz sigo teu rastro,
Com meus ouvidos busco teus sons
E com minha boca hei de lhe rasgar.

Minhas mãos estão armadas,
Minhas pernas lhe perseguem,
Chore e esconda-se
Cale-se e finja que sumiu
Eu vou encontrá-lo.

Tua pele será separada da carne
Em uma bruta tortura sem igual.
Acabou-se tua existência!
Tu és caça, eu sou caçador
Essa é minha fúria selvagem.


- Mensageiro Obscuro.
Novembro/2009.


Foto: "Dante and Virgil in Hell" de William Adolphe Bouguereau, 1850.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Yin

talvez narrativas fiem vidas.
talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
talvez não haja eu, apenas a tecelagem contínua entre dois pólos,
cujo projeto (que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias,
sentidos trans-lúcidos,
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.

por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção:
aqui se faz um mundo,
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde,
dedilhado em terças e sextas e não haja maestro.

talvez os homens das ciências sejam certos e o nosso multiverso seja órfão.
talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.
talvez seja só uma questão de abstração inútil e as coisas façam-se porque assim são feitas,
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido ou a falta dele
e houve um alberto caeiro.

talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.

talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.

talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como borges e tirésias, que alertaram para a escuridão.

talvez eu esteja errada, talvez eu creia.
teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados
e outro em que sou louca ou nada.
sirvo a uma lenda que conta a natureza em mim,
a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a poesia.

teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me antecederam.
teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois chamaram de um nome escandinavo.

talvez seja a verdade última, o naufrágio
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo
do uísque do meu pai.
talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros, me levando em pó
para o deserto quente onde o tempo nasceu como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja o deserto e o vento.

ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos como a noite pelo dia.
tolerar o calafrio do espelho na água da superfície e mergulhar no frescor não sabido,
em nem um pio das corujas que alerte os futuros.

o peso do infinito, matéria-prima do fio,
os deuses e a Certeza, outra deusa
enlouquecida em descrédito:
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ARCANO 16



o vento brinca com a árvore na janela
e tua voz vem riscar a vidraça

é tão tarde

quando sussurras teus versos
em rimas surreais
que deslizam pelos meus sonhos
junto com umas lágrimas descabidas

é tão tarde

para riscar peles e vidraças
até os mortos sussurram
longas árias 
em cadencias insanas
enquanto você chora
em rimas perfeitas
murmura histórias arcanas

versos
música
hosanas e teu corpo

é tão tarde

eu sussurro
os mortos mentem 
em línguas mortas
enquanto a tua desliza
no céu da boca
segredos estelares
bobagens seculares

mentiras de vento e folha
que eu finjo não ver
nesse gozo esquecido
perdido entre as frinchas da noite
eu entendo
tudo, ou quase tudo,
de tudo que nunca entendi

meus olhos ardem
e te esquecem um pouco mais
fecho o livro sem pressa
guardo o poema junto aos meus 
que dormem sozinhos

teus mortos sussurram
é tão tarde