quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Lugar Comum
Fazer todo um poema de rimas
Desgastadas, cansadas, cretinas.
Vou rimar “coração” e “paixão”.
Vou usar só palavras banais,
Desfiar rimas burras e pobres
Até que nenhuma mais sobre
No meu velho e surrado Houaiss.
Vou fazer construções qualquer-nota,
E usar, sem ter medo nenhum,
Um milhão de lugares comuns
E as hipérboles mais idiotas.
Não faz mal se for tudo clichê,
Pois no fim resta salvo o poema
Se tiver algo raro por tema
E esse algo, mulher, for você.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
TerreMortos
Haiti
pobre
pedra
podre
que treme
e trama
o trauma
em tanta gente
domingo, 24 de janeiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
A vida imita a arte
Os socorristas se abraçaram chorando enquanto a velhinha, coberta de pó, era colocada numa maca improvisada onde recebeu soro intravenoso e um cobertor térmico antes de ser levada para um hospital.
Anna Zizi foi resgatada duas horas antes de completar exatamente uma semana da ocorrência do terremoto que devastou o país.
"Nunca perdi a esperança. Nunca. Rezamos muito", afirmou o filho de Zizi, Maxime Janvier.
Fonte: Notícias UOL
Foto: Catedral de Porto Príncipe após os terremotos, tirada por Rafael Beleboni
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Ciranda
Sobre a eclíptica.
Em dança climática e cíclica.
Rítmica das estações.
Outonos e invernos,
Primaveras e verões.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
A dor do Haiti

Mesmo cá, eu choro e sinto a dor daí.
O terremoto que abalou o mundo
Ainda faz tremer meu ser
Que vê tanta dor e angustia
E quase nada pode fazer.
Fico eu cá, vendo vos ai.
Em oração e pensamento
Manifestando o desejo
De não mais sentir a dor que dói ai.
Ai! Ai! Haiti!
Termino eu cá, pedido a Deus
Para abrandar essa dor aí.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Sem desistir.
Não venha com dramas já não choro ou descabelo,
da sua menina resta a mulher sem pressa,
a parte mais forte daquela que por você ressuscitava
a coragem de quem gozava dos carinhos o melhor.
Passei da fase de ter alguém pelas metades
se é isso o que quer procure outra qualquer,
meu passo é longo e mais longe estão meus olhos,
os dedos querem geografia carnal de alguém com fome.
Não ouse ligar ou pense em surpresas,
cansei de brincar com quem não sabe jogar,
respiro a beleza dos que sabem amar sem temores
os recortes enluarados dos meus destinos de fêmea.
Eu quero sugar dos delírios os risos alados,
as rebentações de todos os gozos mordidos
e adormecer suada em braços exaustos
sem noção de que possa no aconchego haver perigo.
Há em meu peito o tremor de mil silêncios,
basta de dores e amores vadios, vazios.
Caía fora, já passou o seu tempo,
agora só cabe em mim aquele que for para sempre.
(E nem sempre há o para sempre, mas eu insisto).
Eliane Alcântara.
domingo, 17 de janeiro de 2010
O Capibaribe e Sua Guerra
Na noite de hoje, eu estava atravessando a ponte e, subitamente, decidi parar. Acabara de escurecer e era hora dos trabalhadores fatigados retornarem ao lar. Mas era uma noite incomum, dessas que não tem no Recife facilmente. Não havia sinal de engarrafamento numa das principais vias da cidade, nem buzinas e motores soprando suas melodias. Por isso decidir parar e observar como estava a noite para o Rio Capibaribe, se ele também compartilhava do breve regozijo de uma cidade em paz.
Suas águas carregavam um grande Mapa Mundi de nuvens, como que disposto em uma extensa mesa flutuante. Distinguiam-se os continentes cinzentos em sua imensidão, separados por oceanos negros. Enquanto eu fantasiava sobre qual seria a minha pátria querida, vi surgindo embaixo da ponte uma água podre, de tom mais claro, porém pestilento. Depois eu entendi que era como um estandarte, representando o silencioso contingente de lixo que avançava. Não tardou para invadir os continentes anuviados até dominá-los por completo. Um a um, estes foram caindo diante de sua força interminável, pois quando parecia que havia terminado um ataque, logo em seguida vinha um ainda mais forte e fulminante. Era uma guerra silenciosa, mas feroz. E o Capibaribe agonizava. Numa atitude desesperada, deu as ordens às suas águas e tentou recuar, mas a mesma correnteza que o recuou foi a que fez avançar ainda mais o exército em sua perseguição. O campo de batalha foi deixado desconfigurado. Os continentes sem a mínima força ou esperança de reagir.
O mais curioso é que neste exato momento olhei para o céu e o Mapa Mundi de nuvens estava intacto, numa tranqüilidade digna somente dos deuses. Assim o Capibaribe foi sentenciado a travar, sozinho, sua guerra contra os dejetos humanos.
André Espínola
Dos tempos chuvosos
01:36, sábado.
O tempo conjuga
medidas de vida
em ventos polares.
Arranham minha janela
em doses
tão maiores
que meus conhecidos
ares
Se eu abrir a vidraça pro mundo
ele me arrancará tudo.
Tudo que me cabe é um quadrado
muito menor que ela.
Tempestade, tempestade
passa.
A minha vida é uma fragata atracada
já não pode mais
ir ao sabor das velas.
(Jessiely Soares)
Imagem: Priscila Pimentel
sábado, 16 de janeiro de 2010
Retalhada

São retalhos
e não são desta saia
ou da colcha que repousa
segura do meu amor e lembrança
dentro do guarda-roupa
São retalhos
e oxalá fosse só dentro de mim
Mas não!
É dor esparramada
cheiro azedo
de felicidade estragada
Escombros no chão.
Ruínas
de Reis
e de Luízes de Paraitinga
E antes de sepultar meu amargo
a terra fez sua dança desajeitada
e de novo um cheiro de azedo
agora, de pouca felicidade estragada
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Passeio
PASSEIO
Hoje visitei a beira do abismo
Eu e meu jeans
No fundo, sempre achamos que o tempo não iria passar
Acocorei-me sobre o limbo que cobria o chão que pisava
Abotoei uma borboleta amarela na lapela
Cobri-me daquele sol desbotado e velho
Apanhei um cogumelo solitário que insistia em crescer na pedra
Cheirei duas nuvens passageiras
Mas resolvi não olhar para o espelho do mar
E o azul acima da minha cabeça sempre me desafiando
Resolvi seguir pra lá
Estou cansado de tentarem me convencer que envelheço
(Celso Mendes)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
No cais deserto
(Sonia Cancine)
.
A sina da vida me ensina amar
- sem narcisismo, eu sei -
Embora a luta persista no mundo
A maior delas é vencer a si mesmo.
No instante do amargo sabor
Que [aos teus olhos]
Peregrinam no barco da dor
O entendimento confuso
No mar dos pensamentos, navega.
Mas no teu barco junto ao vento
E nas ondas do teu olhar
Navegam sentimentos.
Carregada de um silêncio mortal
Abro a janela, entreaberta do caos
E não reconheço o arrebol
Que outrora refletia emoções.
Será que não o deixei antes de à hora
Despontar-se a de mim?
É o íntimo abatido de face cansada
Cansada
De esquadrinhar sempre sozinha
No cais deserto, o meu barco.
De ouvir ecos na sombra da voz
Que clama em chama por liberdade?
De escapar infeliz das lições
E das artimanhas nas manhas
Deste mar de contradições...
Mas sobre a areia molhada
Tua voz eu escuto...
Afaga-me a alma numa onda calma
Ecos que chegam ao meu silêncio.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Cadeia Alimentar
Teu sangue está temperado para o banquete,
Eles estão às tuas costas a seguir seu aroma,
Corra, pule os muros, arme-se e esconda-se,
Não deixe que eles lhe peguem, corra!
Na noite a sede aplaca os famintos,
Tu és a presa, eles os caçadores,
Não deixes tua vida escapar do corpo,
Fujas enquanto pode, combata teu inimigo,
O terror e mistério lhe caçam.
São bestas de sede insaciável, malditos!
A gula implacável de imortais noturnos,
Corra dos sanguessugas que lhe farejam,
Vidas humanas são teu alimento.
A existência frágil contra existência trágica,
A sentença mortal contra a sentença eterna,
Humanos e vampiros, duelo de dois monstros,
Resolução de apenas mais uma cadeia alimentar.
Eis a cadeia alimentar: mais um vivo saciou um vampiro.
- Mensageiro Obscuro.
Fevereiro/2007.
Foto: Conde Stradh por Clyde Caldwell.
Página do artista: http://www.clydecaldwell.com
domingo, 10 de janeiro de 2010
Border
Vê como é tudo?
Pedra planta bicho homem:
o sim não exclui o resto, encontrou o infinito.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
silêncio

terça-feira, 5 de janeiro de 2010
no último sonho
a heroína é o cansaço
que arregaço em minhas veias
fundidas ao pó da carne
dilacerada e entregue aos mortos
vou seguindo teus rumos
agregando-me devoto
aos pesadelos que desconheces
na pupila dilatada o universo
que engana
na finitude humana salva-nos
a ignorante batalha vã
e a vitória do desconhecido.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Ukma cantando meu poema Aureolada - Flá Perez
Aureolada
Eu tão anjo tenho andado,
que em mim nasceram asas.
O queme perde pro céu
é esse meu grande rabo
endemoniado
e minhas coxas grossas.
(repostagem de 07/01/08 com vídeo incorporado)
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Ton-sur-ton
de coisas coloridas,
bonitas, delicadas,
de flores e borboletas.
Não quero falar de nada.
Hoje estou monocromático.
Por que não cantar o cinza
do asfalto e do cimento,
da gasolina e do diesel,
da poeira e da fuligem?
Por que não cantar o cinza
duro, frio, onipresente?
Os diversos tons de cinza
sobre cinza da cidade?
E uma vez cantado o cinza,
concreto armado e neblina,
e pintada a cidade em P/B,
aí, sim, falar de flores
e até, talvez, borboletas.
Sobre o fundo de cimento
não mais apenas bonitas,
mas praticamente perfeitas.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Ocorrência 2831/09
Conto premiado com o 2º lugar no concurso literário promovido pela ULBRA (Universidade Luterana do Brasil), com sede em Gravataí (RS).
Conheça o site www.desaparecidos.com.br
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Série: Cabeça Oca I
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
A chave
de novo
e tudo é velho
olho no espelho
vejo a barba branca de Noel
finjo fazer seu papel
e no ô-ho-hoooo
dou
um sorriso desbotado
tão falso quanto o algodão jogado
fingindo neve
e quando alguém se atreve
a dizer "abra a janela da felicidade em 2010"
meto as mãos pelos pés
e pergunto: cadê a chave do cadeado?
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Miserável
- Desculpe-me pela indiscrição, mas o senhor já não tomou muitos?
- Mais um, porra! Não estou perguntando merda nenhuma, eu quero mais um! Eu pago a merda do seu salário, quero tomar mais um e você tem que me obedecer!
Abaixando a cabeça, o garçom atendeu-lhe prontamente. Era mais um sorriso que ele mandava goela abaixo, embebedando-se do pouco poder que tinha.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
domingo, 20 de dezembro de 2009
sábado, 19 de dezembro de 2009
Do humano.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Temporão

Num beijo que nem chegou a ser de amor
é onde estou agora
Era terra infértil de novo
e eu ali me semeando
Não sei que problema há nos meus olhos
e nos meus sentidos
Era superficial e fogo
e eu ali me semeando
Trovões e relâmpagos
alertavam da chuva
que não veio
Por que se injetou na dança, nos planos, nas ancas
se não era para durar?
Tudo o que é demais não cabe
e em silêncio recolhi as minhas sobras
Morri semente sonhando com podas
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Alfarrábios

Percebo uma ruptura que me duplica.
Mas sou feito de ferro e concreto,
fissuras não me comovem.
Já sou azul e amarelo,
preto no branco,
e uma velha testemunha do conformismo.
O sopro que fere meu rosto
é a prova da fragilidade desta armadura.
Redimo-me da canção subalterna a um desejo ocre.
E que não me faltem alfarrábios
para dizer da crueldade dos anjos,
que infernizam minhas noites
e me visitam nas manhãs opacas
pintando-as de tons pastel,
feito palhas que incendeiam sutilezas
e espalham a fumaça:
ardência dessa angústia nos meus olhos,
asas que se queimam em pleno vôo
sobre um chão que já não há.
(Celso Mendes)
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Parcas luzes...
(Sonia Cancine)
.
Pudera...
Ter a leveza dos pássaros
A delicadeza das pétalas e
Os sentidos felinos.
Quem sabe assim, sobreviveria
Em meio à tormenta escura em que vivo?
Por assim dizer, respiro.
Respiro lágrimas silenciosas
Que exalam cristais
As parcas luzes
De meu finito desejo
Apagam-se e
Eu não posso mais ver a luz...
Dói-me os sentidos por perceber a alma tão pequena.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Fúria Selvagem
É uma fera faminta e voraz
Que corre sobre tua sombra.
Não espere que eu tenha piedade
Ao hesitar em lhe atacar.
Em minha mente tu sofres demais,
Com meus olhos calculo tua distância,
Com meu nariz sigo teu rastro,
Com meus ouvidos busco teus sons
E com minha boca hei de lhe rasgar.
Minhas mãos estão armadas,
Minhas pernas lhe perseguem,
Chore e esconda-se
Cale-se e finja que sumiu
Eu vou encontrá-lo.
Tua pele será separada da carne
Em uma bruta tortura sem igual.
Acabou-se tua existência!
Tu és caça, eu sou caçador
Essa é minha fúria selvagem.
- Mensageiro Obscuro.
Novembro/2009.
Foto: "Dante and Virgil in Hell" de William Adolphe Bouguereau, 1850.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Yin
talvez eu não tenha sido como me contei,
talvez nunca serei.
talvez não haja eu, apenas a tecelagem contínua entre dois pólos,
cujo projeto (que desconheço)
pulsa-me a traçar teias de associações arbitrárias,
sentidos trans-lúcidos,
dissipáveis pelo toque da dúvida como bolhas de sabão.
por trás do véu, a natureza sem foco
a noite, as coisas que acontecem
sem sentido ou intenção:
aqui se faz um mundo,
outro ali, em outra oitava
... e o momento um acorde,
dedilhado em terças e sextas e não haja maestro.
talvez os homens das ciências sejam certos e o nosso multiverso seja órfão.
talvez sejam mais loucos que os fanáticos da sé.
talvez seja só uma questão de abstração inútil e as coisas façam-se porque assim são feitas,
ou ao invés de aranhas sejamos primatas que descobriram o sentido ou a falta dele
e houve um alberto caeiro.
talvez nossa narrativa tenha enrijecido idéias,
platônicos discretos exilados na ponta do iceberg.
talvez apolo e dionísio fossem gêmeos e a virgem tenha nascido do oráculo.
talvez os hindus estejam certos e um deus me sonhe
ou tudo seja o espelho e o tigre que são o mesmo
como borges e tirésias, que alertaram para a escuridão.
talvez eu esteja errada, talvez eu creia.
teço um labirinto em que sei e outro em que queimam meus pecados
e outro em que sou louca ou nada.
sirvo a uma lenda que conta a natureza em mim,
a maior das minhas histórias e a inevitável e que talvez seja a poesia.
teci mundos olhando para os antigos, para os sonhos que me antecederam.
teci veias para me enterrar na placenta
e redes hídricas e vermelhas para me reunir em alguém que depois chamaram de um nome escandinavo.
talvez seja a verdade última, o naufrágio
e eu me derreta no oceano frio do mundo
como o gelo no copo
do uísque do meu pai.
talvez a vida me perpasse e desgaste as paredes dos meus poros, me levando em pó
para o deserto quente onde o tempo nasceu como naquele sonho desconexo,
e o tempo seja o deserto e o vento.
ah, dançar com o talvez da Dúvida,
a deusa voraz por epistemologia e altares pagãos como a noite pelo dia.
tolerar o calafrio do espelho na água da superfície e mergulhar no frescor não sabido,
em nem um pio das corujas que alerte os futuros.
o peso do infinito, matéria-prima do fio,
os deuses e a Certeza, outra deusa
enlouquecida em descrédito:
fiar-se com belos dedos, única âncora que há.






