a mim não importa a janela
nem a vida
muito menos a porta
da entrada
ou da saída
sou mais é participar da miragem
e bailar entre os espelhos

Voltando para casa, invariavelmente passava diante do mercado. Pensou em entrar e comprar um bom vinho para acompanhar o jantar, mas quando chegou na frente, desistiu. Não passou reto porque a multidão que começava a se aglomerar obrigou-o a desviar, mas, avesso a confusões, passou direto.
De tão pequenos gestos
numa timidez de afetos.
Esvoaçava fuligem num mar de cacos.
Como figuras num aquário
com secretas canções angelicais.
Quem pudesse veria
as marcas de sangue e vida,
de fogo e de partida ao longo do litoral
voo
primeiro e último
da mariposa que me habita
sobre as chamas do canavial.
(Jessiely Soares)

Luzindo no fim do dia. “
no princípio Auguste esculpiu esse amor ao som da rebarbadora nas pedras de mármore bruto. nasciam curvas sinuosas e vultos de olhos fechados. depois só queria estraçalhar-me o ventre como um animal raivoso. pensador como era, apenas devolveu-me a antiga vida. a realidade se encarregou de matar-me aos poucos.

Porta aberta pro mar
onde só há serras.
E o Porto que lhe guarda
acaba sendo ainda mais distância que vidraça
Ainda mais maresia do que praça
Ainda mais horizonte que bom tempo.
Benditos segredos que se arrastam
dentro dos cantares oceânicos.
Nem sempre somos amantes.
Carregadores de vida é o que somos:
papel de jornal velho,
andantes por caminhos eternos,
vidas carregadas de sonhos
(Jessiely Soares)