A saudade causa dano,
nas imagens da memória.
Um detalhe vira engano,
passe um dia ou passe um ano,
e aí já vira história...
Tuas imagens, de tão belas,
luto para não perdê-las.
E pra não ficar sem elas
vou além destas janelas:
toda noite colho estrelas!
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
terça-feira, 29 de novembro de 2011
se eu escrevesse
Escrito por
.
colocaria aqui no papel um pouco do que tenho sentido. ficaria para a eternidade, compartilharia com amigos e desconhecidos. talvez escrevesse de maneira que até eu compreendesse, ou talvez ajudasse alguém a entender sentimentos-irmãos.
se eu escrevesse, estaria mais perto de compor um conto brilhante! ou quem sabe, num futuro mais próximo, esse conto participasse de um livro. se eu escrevesse, poderia escrever um livro. também faria com que outras pessoas soubessem de tanto que fica escondido nos bom dia, boa tarde e boa noite dos nossos dias, tardes, noites. se eu escrevesse, talvez inventasse uma palavra que ninguém jamais ouviu; quem sabe, talvez, até mesmo uma metáfora inteira nova, uma letra de música, uma onomatopéia brilhante, rapagabum. se eu escrevesse, poderia entender melhor porque meu peito aperta, minha cabeça dói, e às vezes meu ombro pesa. talvez até meu intestino trabalhasse melhor, seria minha escrita capaz de tanto? a dor ficaria bonita, do dia sairia poesia, a alegria causaria riso. os leitores talvez até imaginariam meu perfil, mais bonito que o real, enquanto mirava para baixo, pensativa. será?
se eu escrevesse, você leria, e a gente talvez se entenderia. será?
se eu escrevesse, estaria mais perto de compor um conto brilhante! ou quem sabe, num futuro mais próximo, esse conto participasse de um livro. se eu escrevesse, poderia escrever um livro. também faria com que outras pessoas soubessem de tanto que fica escondido nos bom dia, boa tarde e boa noite dos nossos dias, tardes, noites. se eu escrevesse, talvez inventasse uma palavra que ninguém jamais ouviu; quem sabe, talvez, até mesmo uma metáfora inteira nova, uma letra de música, uma onomatopéia brilhante, rapagabum. se eu escrevesse, poderia entender melhor porque meu peito aperta, minha cabeça dói, e às vezes meu ombro pesa. talvez até meu intestino trabalhasse melhor, seria minha escrita capaz de tanto? a dor ficaria bonita, do dia sairia poesia, a alegria causaria riso. os leitores talvez até imaginariam meu perfil, mais bonito que o real, enquanto mirava para baixo, pensativa. será?
se eu escrevesse, você leria, e a gente talvez se entenderia. será?
domingo, 27 de novembro de 2011
Sugestões de leitura
Escrito por
Glauber Vieira
Venho aqui sugerir alguns textos para leitura em meu blog, o Prosas e Viagens:
Guerras: poesia visual. http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Poesia%20visual
Profissional liberal: um miniconto sobre prostituição.http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/minicontos
José Alencar: herói ou homem comum. Uma crônica que pode ser adaptada para o ex-presidente Lula e outros famosos. http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Cr%C3%B4nicas
Museu da Cidade e Espaço Lúcio Costa: para quem quer conhecer um pouco mais de Brasília. http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Turismo%3A%20Bras%C3%ADlia
Guerras: poesia visual. http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Poesia%20visual
Profissional liberal: um miniconto sobre prostituição.http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/minicontos
José Alencar: herói ou homem comum. Uma crônica que pode ser adaptada para o ex-presidente Lula e outros famosos. http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Cr%C3%B4nicas
Museu da Cidade e Espaço Lúcio Costa: para quem quer conhecer um pouco mais de Brasília. http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Turismo%3A%20Bras%C3%ADlia
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Você é uma pessoa carente!
Escrito por
Lena Casas Novas
As redes sociais têm uma peculiaridade: O desabafo. As pessoas não precisam de muita intimidade umas com as outras, elas simplesmente, falam! Na verdade, elas precisam desabafar.
A dinâmica social [real] não permite que tanta gente esteja junta se confraternizando o tempo todo, é humanamente impossível. Por tanto a rede faz esse papel, até mesmo nos embalos de sábado à noite.
Eu mesma já andei desabafando para pessoas que só conheço virtualmente. Mesmo indiretamente, muitos que estão navegando, usam pensamentos de escritores, poetas e filósofos para ilustrar seus sentimentos.
Essa forma visceral de se comunicar, é o reflexo da carência - o mal do século. Sim. Você é uma pessoa carente! Você quer preencher uma falta, seja qual for, ela existe.
Todos que estão plugados têm um objetivo e fazem de tudo para atingir. Ora, quem não é visto, não é lembrado.Aqueles que não estão aqui são auto-suficientes, supremos, equilibrados, elas não precisam disso!
Enquanto não houver novas atividades para se fazer – para preencher esse vazio, continuaremos conectados, e não adianta resistir em não aceitar sua carência, você não consegue mais viver sem isso, é uma necessidade.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Lançamento e Vendas - Colcha de Retalhos
Escrito por
Rodrigo Domit
Você está convidado para o lançamento do livro:
Colcha de Retalhos
Rodrigo Domit
O evento será realizado no dia 04 de Dezembro de 2011, das 14h30 às 17h, no Bar das Quengas - Av. Mem de Sá, número 175 - esquina com Washington Luiz, Rio de Janeiro - RJ.
O "Colcha de Retalhos" foi finalista do Prêmio SESC (2008) e foi vencedor do Prêmio Utopia (2010). A obra reúne 73 textos curtos e, apesar da predominância maciça dos contos, escapa em alguns momentos para a poesia e para a crônica. A obra está sendo lançada pela Utopia Editora - com projeto gráfico da ilustradora Laís Brevilheri - e quem quiser levar um exemplar para casa desembolsará a quantia de R$10,00.
Conto com a sua presença!
Clique na imagem para ampliar
Venda Online:
Cada exemplar custa R$10,00, o frete é gratuito para todo o Brasil* e são aceitas as seguintes formas de pagamento:
Deposito bancário - Cartão de crédito (à vista sem taxa ou parcelado com taxa de 1,99% a.m.) - Débito online - Boleto bancário (taxa de R$1,00)
*Promoção válida até o dia 04/12.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Ultimo post
Escrito por
Anônimo
O INCONFORMISMO
Lito acordou cedo e foi até a cozinha, se serviu de café e passou requeijão no pão. Comeu, bebeu, tomou refrigerante e foi ao banheiro. Fez suas necessidades fisiológicas, escovou os dentes, se olhou ao espelho e lavou as mãos. Cuidou dos lábios que estavam rachados por tanta bebida vencida que havia tomado, passando uma pomada específica. Caminhou até fora de casa e ficou observando a serra, sentado à escadaria de entrada. Sua vida se reduz a poucas coisas, numa cidade sem muita razão de ser. A casa se localiza no nada, em meio a lugar algum. Só se vê um monte de grama envolta onde pastam as vacas, e a tal serra ao lado direito onde há uma gruta com cachoeira e de onde saltam de pára-glaiden. Há um mês que vive assim. Conseguiu emprego numa fábrica de tijolos ecológicos à beira de uma estrada, mas nem por isso veria problema se o seu coração parasse de bater.
Sua mulher o abandonou. Desde então não transa com mais ninguém. Além de sua mulher, sua mãe o expulsou de casa. Ele não sente muito por ter saído da casa da mãe, afinal de contas, de uma maneira ou de outra eles não tinham mesmo muito em comum, mas sente muito pela ex-mulher. Lito é um gênio, mas poucos sabem disso, sendo assim mesmo como funciona. Um verdadeiro poeta sul-americano dos tempos modernos que encontrou numa mulher tudo o que precisava e, não tivesse sido uns desvarios, ainda estariam juntos. Lito se levanta e entra pra dentro de casa, pega o telefone e põe-se a teclar os números. Alguém atende:
“Alô”
“Escuta aqui, cara, o negócio é o seguinte: vocês tão recebendo essa porra toda? Eu não vou ficar aqui escrevendo esse monte de coisas sem saber o que irá se suceder! Alemão, sinto muito!... Chamem do que quiser: “vaquinha magra do conformismo” coisa e tal, a verdade é que a gente gostava mesmo e eu ainda tenho leite pra tirar dela! Entendeu?!”
“Quem é que tá falando?”
“Você sabe quem é que tá falando, cara, não me venha se rogar de santo!”
“Porra, não fode a vida. A gente achou que você tava numa nice. E quanto àquela atendente?”
“Ah, agora essa?! Aquilo foi em caráter lúdico, qualquer um saberia! E avisa aí, avisa aí que eu quero a minha vaca magra de volta, senão eu não vou escrever mais porra nenhuma pra essa merda, tá me ouvindo?!... Passar bem!”
“Ah, agora essa?! Aquilo foi em caráter lúdico, qualquer um saberia! E avisa aí, avisa aí que eu quero a minha vaca magra de volta, senão eu não vou escrever mais porra nenhuma pra essa merda, tá me ouvindo?!... Passar bem!”
E bateu o telefone. Lito é o tipo de gênio que às vezes se deixa levar pela ira. Não que ele seja de má índole, mas é o fato de, acima de tudo, ser o tipo de gênio incompreendido, como a maioria dos gênios são. De um modo ele desabafara, agora. Foi até os fundos da casa onde há uma edícula. Entrou na edícula, ligou o som, serviu-se de um Curaçau Blue e se pôs a preparar um baseado. Isso o irá fazer ficar mais calmo, um pouco. Estacionou o copo na mesa e o cigarro num cinzeiro. Entrou no quartinho do fundo onde há o retrato da imagem de uma semideusa a quem confia e, num gesto ritualístico, prestou reverência pedindo que a trouxesse de volta.
O caso foi o seguinte: confiscaram-lhe a vaca. Supostamente estaria doente e contagiava um rebanho vizinho. A vaca era muito querida por ele e, embora magra, dava-lhe o suficiente. Mandou dezenas de cartas para a corregedoria, mas até agora nada. É a ex-mulher, é a vaca, tudo o torna depressivo. Voltou e bebeu o drinque. Acendeu o baseado e serviu-se com mais Curaçau, contemplando as garrafas. Ah, minha vaquinha sagrada, pensou consigo. Ele sabe que as chances são pequenas sem a sua amiga que tanto adora. Acomodou-se em uma cadeira à beira do jardim e sentiu o sol. Um rosto triste, então, pitou o cigarro... e bebeu o drinque. Não demorou muito até sorrir. Lito as vezes se lembra de coisas, e põe-se a rir sozinho mesmo.
(Escrito por Bobby, brother do Lito – em seu fantástico mundo)domingo, 20 de novembro de 2011
Convidado Lourenço Dutra
Escrito por
Giovani Iemini
Esperança
vermelha
Para
Vladimir Carvalho
Prédios
e sonhos erguidos em meio ao ermo.
Acampamento
cheio, improvisado. Ritmo de cidade em
construção.
Babel nacional: maranhenses, goianos, mineiros, paraibanos,
pernambucanos,
paraenses, gaúchos, piauienses, paulistanos.
Todos
explorados, calejados, esperançosos.
A
capital da esperança acelerando na velocidade de jipes,
rurais,
decavês, gordinis. Eldorado da poeira, da arquitetura futurista,
e
do concreto armado. Terra vermelha. Espécie de solidão
corrosiva,
de luta contra o nada.
Tratores,
patrols,
de esteira, retroescavadeiras. Todos americanos,
como
o dinheiro emprestado para tocar o projeto. Matéria
humana
genuinamente nacional. Gente pobre, calejada, sofrida.
Armações
de ferro por todos os lados. Toneladas infindas de
cimento,
tubulações e brita. Areia branca, rosa, saibrosa. Mistura
rápida
nas betoneiras. Candangos correm de um lado ao outro no
canteiro
sem flores, sem plantas, sem verde. Canteiro sim, mas
de
obras. Muito suor, muita terra vermelha revolvida, espalhada.
Obras
para todos os lados. Fatigantes, massacrantes, exaustivas.
Rodízio
de trabalhadores em turnos de 12 horas ininterruptas.
Obra
24 horas no ar, nas pernas e nas mãos. Operários sem
preparo
e sem equipamentos despencam nos ares. Do Congresso,
dos
blocos, dos ministérios. Gente sonolenta, cansada, mal alimentada.
Arquétipos
de prédios e instituições que não param.
Lá
embaixo, gente preparada para sumir com corpos, com
gente,
com mortos esfacelados. Lá em cima, gente treinada para
abafar
a mídia, driblar jornais, revistas, e os críticos mais acirrados.
Dizem
que alguns jazem entre paredes, gente misturada ao
cimento
e à brita dos palácios. Candangos desaparecidos antes
mesmo
da ditadura. Conterrâneos meus, seus, nossos. Conterrâneos
velhos
de exploração e de sofrimento. Conterrâneos velhos
de
guerra.
---
Lourenço Dutra
sábado, 19 de novembro de 2011
Hoje.
Escrito por
Eliane Alcântara.
(Imagem: Google).
Hoje.
Nada demais
apenas quero sua boca
taça ao meu fluir
amor.
E que seja
o amanhã
um vinhedo
de volúpias.
Eliane Alcântara.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Na cidade dos anjos
Escrito por
ofilhodoblues
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
A Academia vai ao Bar... na Feira!
Escrito por
Giovani Iemini
O Bar do Escritor recepciona a Academia de Letras de Brasília e a Academia de Letras de Taguatinga no stand 79 da 30ª Feira do Livro de Brasília.
Nos dias 11 a 20 de novembro, no ExpoBrasília, estaremos lançando e autografando livros dos membros das academias e do BdE. A lista dos participantes e a agenda podem ser encontrados no site da feira, aqui.
Nosso stand está bastante movimentado, a proposta é mais cultural que mercadológica: queremos aumentar o congraçamento entre os escritores entre si e com o público em geral.
No stand oferecemos uma deliciosa cachacinha de barril e um gostoso bate papo sobre literatura e afins, informando sobre os livros dos participantes, formas de publicação e eventos de literatura. Também divulgamos o Selo BdE, que publica livros de literatura com o devido padrão artístico e a necessária divulgação direcionada.
No blog do Cristiano Deveras há fotos e suas impressões sobre a feira. No site Literatura em Debate há entrevistas do jornalista Anand Rao com escritores do BdE e da Acleb, como o próprio Deveras, Marco Polo Haickel, Zeluis e Giovani Iemini (parte I e II).
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Vago
Escrito por
Celso Mendes
um poema gelado
de palavras mudas.
um verso solto, sem abrigo,
o zunido do silêncio
que se quer luz.
a busca, sim a busca.
uma lógica de vidro,
frágil, cortante, invisível, quebrável,
e as folhas de uma canção distante
a soprar-me os pés.
a companhia dos sonhos sugere que estou vivo.
um cão; há calor.
percorro o teclado,
roço olhos em cristal líquido,
renego os sentidos.
e as letras insistem
num significado
que não sei lhes dar.
(Celso Mendes)
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Convidado Daniel Delgado Queissada
Escrito por
Bardo
Antirreflexo
Memórias rasgadas
Aparentemente apagadas
Tinta bruta permanente
Permanentemente afiada
Sangra o que não deve
Porém, o que não se percebe
É o gosto...gostoso
De quem gosta do desgosto
De quem sente o assombro
De tudo que não lhe convém
Quando na melhor companhia
A solidão lhe cai bem
Memórias anuviadas
Pela tinta que dimana
E mancha a marcha do tempo
Que devagar flui como um rio...sedento
Sangria desenfreada
Sanguessugas da alma
Das almas penadas que somos nós
Sozinhos em nossos lençóis
Espelho meu abdica desta farsa
E só reflita o que for verdadeiro
Sem truques, caras e bocas
Apenas a face hermética...ainda presa no cativeiro
Antirreflexo da felicidade
Que não suporta o fim...start da vaidade
Mesmo não entendendo
Que o mesmo está ao lado de cada início inesperado
---
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Chama e topázio
Escrito por
Iriene Borges
É sobre o silêncio
a compostura, o prumo
e o enveredar pra vida
sem a regalia
de aferir o rumo.
E sobre a soltura
o lastro, o cimo a iguaria
preferida, o temperar
constante infindo,
que é Sabedoria.
Então eu me aproximo!
E o mais me escapa
entre o valor da paciência
e a humildade que encapa
na clarividência.
Algo sobre o orgulho,
o ermo, o menosprezo
alheio, e o limite; a poda,
o feio, a parte deformada
e o todo enfermo.
É sobre micro, macro
universos implodidos,
meditação, despojo
e os versos e reversos
escandidos.
É sobre saber, intuição,
o estômago e a fome;
sobre o digerir,
a gestação, o âmago
e o meu nome.
Sobretudo a compostura!
O zelo! A pálpebra
e a claridade, ser e estar,
a estrutura e o lar
o universal e o particular
Salienta o silêncio,
o som, a poesia, a fervura,
o caldeirão, a temperança ,
a ira, o ritual, a dádiva
e a bruxaria.
É sobre um tudo,
e um nada que resulta
da ruminância
e o regurgitar sonoro
de uma alma estulta.
É sobre o legado
o descompasso, a prece
a messe, o entremeio;
sublimação, e o passeio
deste a outro estado.
Sim, é a eternidade,
o bem, o belo, o bom,
o ambíguo e a palavra,
o amplo e o exíguo,
receptáculo e larva.
Einstein e relatividade!
É. Quando um anjo adeja
há vórtices, derramamento,
e entrevê-se a trama,
o fio, a fortuna, o rodízio
O anjo passa
E a graça lampeja
chama e topázio
nos olhos da moça
a compostura, o prumo
e o enveredar pra vida
sem a regalia
de aferir o rumo.
E sobre a soltura
o lastro, o cimo a iguaria
preferida, o temperar
constante infindo,
que é Sabedoria.
Então eu me aproximo!
E o mais me escapa
entre o valor da paciência
e a humildade que encapa
na clarividência.
Algo sobre o orgulho,
o ermo, o menosprezo
alheio, e o limite; a poda,
o feio, a parte deformada
e o todo enfermo.
É sobre micro, macro
universos implodidos,
meditação, despojo
e os versos e reversos
escandidos.
É sobre saber, intuição,
o estômago e a fome;
sobre o digerir,
a gestação, o âmago
e o meu nome.
Sobretudo a compostura!
O zelo! A pálpebra
e a claridade, ser e estar,
a estrutura e o lar
o universal e o particular
Salienta o silêncio,
o som, a poesia, a fervura,
o caldeirão, a temperança ,
a ira, o ritual, a dádiva
e a bruxaria.
É sobre um tudo,
e um nada que resulta
da ruminância
e o regurgitar sonoro
de uma alma estulta.
É sobre o legado
o descompasso, a prece
a messe, o entremeio;
sublimação, e o passeio
deste a outro estado.
Sim, é a eternidade,
o bem, o belo, o bom,
o ambíguo e a palavra,
o amplo e o exíguo,
receptáculo e larva.
Einstein e relatividade!
É. Quando um anjo adeja
há vórtices, derramamento,
e entrevê-se a trama,
o fio, a fortuna, o rodízio
O anjo passa
E a graça lampeja
chama e topázio
nos olhos da moça
PEDRO e a RUIVA
Escrito por
Pablo Treuffar

PEDRO e a RUIVA
Baixo Gávea
Agito da noite
Aglomeração
Burburinho
Pessoas passando pra lá, pra cá.
Na rua
Pedro e Léu discutiam sobre fidelidade feminina
Uma RUIVA passou linda
Olhou Pedro, decisiva, falou.
- Está dizendo que eu sou feia
Com um leve sorriso no rosto, Pedro rebateu.
- Bonitinha. Nunca diria o contrário. Quem é você?
Ele Pegou a mão dela
Ela esquivou dizendo
- Odeio bonitinha
Seguiu bufando na direção do banheiro do Bar Hipódromo
Pedro e Léu riram
Voltaram a conversar descrições da fidelidade feminina
Chope após chope
Outras mulheres vieram a Pedro
Pedro não comeu ninguém
Dia seguinte
Lá estava Pedro
Batendo seu ponto no Baixo Gávea
Mesma noite carioca
Mesmo Bar Hipódromo
Conversava chope adentro com amigos
Assunto
Vaidade feminina em relação à vulgaridade
Ou seja
Julgando a vida
Opondo a ela valores pretensamente superiores
Medindo-a por eles
Impondo limites
Condenando-a como diria Nietzsche
Conversando chope a chope
Pedro saiu para dar uma volta
Encostou-se a um carro na frente do bar
Espreguiçou-se
Bocejou
Alongou-se
Eis surgir novamente
Em sua frente
A RUIVA
Toda de preto
Uma saia justa
Gostosa
Foi direta
- Sabia que você é uma gracinha
Pedro devolveu o elogio
- Você também é uma gracinha
Com a bebezura de uma ninfeta embriagada
Auge dos dezessete aninhos
A RUIVA falou sensualmente com cheiro de leite
- Eu sei que eu sou bonita. Todo mundo quer me comer. Eu só dei pra dois.
Momento
Melhor acreditar ouvindo
Pedro entrou no jogo, um sonoro.
- Pôôôôôôôô!
A RUIVA instigando-o com diretas
- Você me excita
Sorriso safado no rosto de Pedro
- É. Bom. Você também me excita.
Puxou-a pela cintura, tentando beijá-la.
Ela vira cara, esquiva-se do beijo.
Sem o sorriso no rosto, Pedro puto, gritou.
- Porra! Não tô te entendendo.
A RUIVA, fitando os olhos e a boca de Pedro, sem sair de seu abraço, explicou.
- Eu tenho namorado
Depois de um dialogo tão surreal e interessante, Pedro insistiu.
- Vamos dar uma volta. Só conversar.
Embriagadamente, ela concorda com uma condição.
- Você bebe uma cachaça comigo?
Sorriso de volta ao rosto, sabendo ter ganhado, respondeu.
- Eu não bebo cachaça. Pago para vê-la bebendo.
A RUIVA o pegou pela mão
Passou pela aglomeração
Levou-o ao balcão
Pedro comprou a cachaça, dizendo.
- Vamos nessa!
Sem outras palavras
Subiram a Rua dos Oitis
A RUIVA na frente
Seguida de perto por Pedro, olhando a marca da pequena calcinha.
Direção, um canto distante.
A essa altura, Pedro não continha a vontade de amassá-la.
Paudurescência
Encostou-se a um carro da rua escura, não completamente deserta.
Passava às vezes um casal, ou outro grupo de pessoas caminhando para pegar seus carros.
Alheio a tudo isso, Pedro a puxou pela cintura novamente.
A RUIVA deixou
Beijaram-se
Amassaram-se a valer
Entre um beijo e outro, A RUIVA coloca seu copo no teto do carro.
Frases malucas
- Quantas você já comeu?
Pedro não acreditou estar ouvindo aquilo, respondeu rindo.
- Algumas. Que diferença faz. Vem cá. Vem.
Pronto
A pequena RUIVA não se continha
Aceitava toda a bolinação
Sussurrava palavras desconexas
- Você quer me comer? Quer meter a pica na minha bucetinha? Na minha boca? Quer? Quer?
Mãos enterradas na bunda da bela RUIVA
Pedro ansiosamente grita
- Quero sim. Quero muito.
A RUIVA não parava de falar absurdos
- Você sabe que é bom. Que é gostoso.
Pedro ainda com as mãos enterradas na bunda dela, esbravejou.
- Sei de nada. Você está dizendo.
A RUIVA insistia em falar frases fora de hora
- Aposto que as mulheres vivem dizendo isso pra você
Irritado, mas ainda com as mãos enterradas na bunda dela, Pedro foi decisivo.
- Para com isso menina. Porra. Vem cá. Vem!
Não adiantou
A bela menina continuou
- Eu nunca dei o cuzinho. Só dois comeram a minha bucetinha. Você tá me deixando tesuda. Me come aqui. Vai. Me come.
Encostados no carro
Meio da rua
Não fez diferença
Pedro a virou de costas
Bruscamente
Brutamente a empurrando contra o carro
Por trás, levantou sua saia.
Chegou a calcinha pro lado
De uma só vez
Penetrou a ali mesmo
Foi então
O pior
Na penetração
A menina desfaleceu, antes do fim do ato.
Pedro não bombeou nem cinco vezes na bucetinha apertada
Apavorado
Pegou-a nos braços
Botou a em cima do capô do carro que encostados segundos antes se amassavam
Pedro bateu em sua cara para acordá-la
Nada
Impulso
Pensou "Será que ela morreu?"
Muito nervoso botou a mão em seu peito
Não sentiu o coração
Nada
Estava Pedro ali parado
Apavorado com a possível morte da pequena
Não sabia por quê
Sentia-se responsável por aquela possível morte
Neste instante
Um carro em alta velocidade entra pela rua
Pedro jogou-se na frente do carro
Seu corpo morto foi projetado pra frente
Rolou, no meio da rua.
Com o barulho da freada
Impacto
Várias pessoas vieram correndo ver o acontecido
O motorista imóvel ao volante do carro amassado, cheio de sangue.
O corpo de Pedro, morto, todo quebrado, no chão.
Pessoas horrorizadas comentando
Um zunzunzum
No capo do outro carro, a aparente morta levantou-se, pegou sua cachaça no teto e saiu andando na direção contrária alheia a toda aquela confusão.
Pablo Treuffar
PEDRO e a RUIVA de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
A VERDADE É QUE EU MINTO
terça-feira, 8 de novembro de 2011
sarraceno perdido
Escrito por
bemditorosa
a noite cai sem cuidado
a lua pesa sobre nuvens
enquanto me desfaço
o sorriso desaba num canto
e eu me arrasto
na alquimia dos desastres
a malha dessa armadura
sempre desfia
quando todos ficam do outro lado da porta
a espada quieta e queda
a armadura esgarçada
as asas quebradas
eu sei
é só fechar os olhos
e ouvir a canção
em que recitas todos os pecados
grandes e pequenas máculas
numa fila estupenda
a tua sombra guardada
a garganta embargada
eu sei. eu sempre sei.
é só fechar os olhos e
ouvir a canção
aquela ária sem fim
Imagem:
"The Embrace" by Scott James Prebble
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
escarlata
Escrito por
Larissa Marques - LM@rq
escarlata
mientras todos los sueños
se van con el viento
y con las hojas rojizas
que parecen reír de tonterías
arrastradas con el polvo
ella está allí convicta
imaginando que nada podrá
quitar la lujuria de sus ojos
que miran la amplitud horizontal
de un tiempo tan ido, tan ido
pobre princesa rubra
contempla estática su imagen
espejada en mil rostros falsos
que carcajean entre sí
y ella jura que es amor
quería volver a la inocencia
que había antes del viento
arrancarme las hojas
antes de las tempestades
llevaren gajos y ámbar
rica princesa rubra
contempla estática su imagen
espejada en mil rostros de sí
y carcajea entre imágenes
y ella sabe que es amor.
(arte visual de Sindri Mendes e tradução de Carlos Cruz)
mientras todos los sueños
se van con el viento
y con las hojas rojizas
que parecen reír de tonterías
arrastradas con el polvo
ella está allí convicta
imaginando que nada podrá
quitar la lujuria de sus ojos
que miran la amplitud horizontal
de un tiempo tan ido, tan ido
pobre princesa rubra
contempla estática su imagen
espejada en mil rostros falsos
que carcajean entre sí
y ella jura que es amor
quería volver a la inocencia
que había antes del viento
arrancarme las hojas
antes de las tempestades
llevaren gajos y ámbar
rica princesa rubra
contempla estática su imagen
espejada en mil rostros de sí
y carcajea entre imágenes
y ella sabe que es amor.
(arte visual de Sindri Mendes e tradução de Carlos Cruz)
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Exilada de Nêmesis
Escrito por
Flá Perez (BláBlá)
Ela tem uns olhos desbocados,
onde nadam peixes de outras eras.
Traz neles medos cambrianos
e a ambição desenfreada das moneras.
Esse abismo recoberto de folhagens,
quando abre em armadilha
para o tempo, os bandolins, as aves,
num silêncio precedente de desastres.
Essa força incontrolável,
quando encontra um alvo
a gente logo sente o vórtice,
anticiclone fundo e sem barulho.
É como um deus imenso
tomando fôlego antes do mergulho.
onde nadam peixes de outras eras.
Traz neles medos cambrianos
e a ambição desenfreada das moneras.
Esse abismo recoberto de folhagens,
quando abre em armadilha
para o tempo, os bandolins, as aves,
num silêncio precedente de desastres.
Essa força incontrolável,
quando encontra um alvo
a gente logo sente o vórtice,
anticiclone fundo e sem barulho.
É como um deus imenso
tomando fôlego antes do mergulho.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Poesia
Escrito por
Giovani Iemini
Ontem, na Bienal do B - Poesia na Rua, no T-bone, eu vendia uns livrinhos quando escutei de rabeira:
- chegamos! são todos escritores. vê esse bigodudo aí.
um moleque duns dez anos projetou-se na minha frente, quase no meu colo.
- vc é escritor?
- é...
- vc é famoso?
- só pras minhas ex-mulheres.
ele franziu o cenho, seu pai riu.
- qual a vantagem?
- evita ressaca.
ele emburrou, o pai escancarava um sorriso. eu queria falar outra gracinha pro moleque, tirar sarro de sabichão, mas como explicar as incertezas da literatura, a volatilidade das mulheres, a irrefreabilidade do sexo e as vicissitudes da bebida a um virgem sóbrio mancebo?
- tome. leia.
a poesia nunca havia feito tanto sentido.
- chegamos! são todos escritores. vê esse bigodudo aí.
um moleque duns dez anos projetou-se na minha frente, quase no meu colo.
- vc é escritor?
- é...
- vc é famoso?
- só pras minhas ex-mulheres.
ele franziu o cenho, seu pai riu.
- qual a vantagem?
- evita ressaca.
ele emburrou, o pai escancarava um sorriso. eu queria falar outra gracinha pro moleque, tirar sarro de sabichão, mas como explicar as incertezas da literatura, a volatilidade das mulheres, a irrefreabilidade do sexo e as vicissitudes da bebida a um virgem sóbrio mancebo?
- tome. leia.
a poesia nunca havia feito tanto sentido.
domingo, 30 de outubro de 2011
Convidado José Luiz Parreira
Escrito por
Bardo
Rascunho I
Corrijam meus erros,
Desengavetem tudo,
Esmiucem toda minha vida,
Pontuem as frases,
Encontrem sinônimos,
Enriqueçam a linguagem.
Eu só fiz rascunhos, entendam!
Me poupem do vechame
Do “ch” ao “x”.
Mas não me poupem
Se eu nada sentir
Discordem da concordância,
Que eu, por certo concordarei.
Eu não escrevo versos,
Eu apenas transbordo
Como um pote que se não pode mais encher.
Passem tudo a limpo,
Não emoldurem nada
Deixem que crianças
Desenhem ao pé de cada página.
Ouçam música quando lerem,
Entertenham-se com minha alma,
Pois a morte vem chegando
Passando a vida a limpo.
---
José Luiz Parreira
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Dicas do Prosas e Viagens
Escrito por
Glauber Vieira
Pessoal, estou aqui novamente dando umas dicas do meu blog.
Quem gosta de minicontos, pode ler alguns clicando aqui: http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/minicontos
Quem se encanta por poesias visuais, veja algumas aqui: http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Poesia%20visual
Quem gosta de viajar e gostaria de ver algumas fotos e dicas de Brasília, confira aqui: http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Turismo%3A%20Bras%C3%ADlia e também aqui (pois o DF, acreditem, não é só Brasília): http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Turismo%3A%20o%20DF%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20s%C3%B3%20Bras%C3%ADlia
Ficam as dicas e boa leitura!
Quem gosta de minicontos, pode ler alguns clicando aqui: http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/minicontos
Quem se encanta por poesias visuais, veja algumas aqui: http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Poesia%20visual
Quem gosta de viajar e gostaria de ver algumas fotos e dicas de Brasília, confira aqui: http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Turismo%3A%20Bras%C3%ADlia e também aqui (pois o DF, acreditem, não é só Brasília): http://prosaseviagens.blogspot.com/search/label/Turismo%3A%20o%20DF%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20s%C3%B3%20Bras%C3%ADlia
Ficam as dicas e boa leitura!
Pele
Escrito por
Allan Vidigal
Pisa-te mal quem te acha feia.
Mas não eu, que te sei,
sob a máscara rude, delicada.
Pisa-te mal quem te tem medo e te acha fria.
Mas se te piso, São Paulo amada,
é como quem acaricia.
Cada passo a que me atrevo sobre o asfalto,
cada toque dos sapatos sobre as tuas avenidas
é como um afago, um agrado
sobre a pele da mulher querida.
Se percorro as tuas ruas e te toco o calçamento,
toco como quem toca, leve e lento,
as costas nuas da namorada.
Mas não eu, que te sei,
sob a máscara rude, delicada.
Pisa-te mal quem te tem medo e te acha fria.
Mas se te piso, São Paulo amada,
é como quem acaricia.
Cada passo a que me atrevo sobre o asfalto,
cada toque dos sapatos sobre as tuas avenidas
é como um afago, um agrado
sobre a pele da mulher querida.
Se percorro as tuas ruas e te toco o calçamento,
toco como quem toca, leve e lento,
as costas nuas da namorada.
sábado, 22 de outubro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Enfim
Escrito por
Angela Gomes
Sereia cauda causa cada
Átomo de tudo que é
E deixou de ser
Tudo que me cala
Planta sem jardim
Ramas de peixes
Escama fina flor
Espinho espinha
Fibras de alecrim
Aroma veia amarga
Sangue que há em mim?
Meu pulso jaz
No fluxo atormentado
Que há no fim, ou
Onde os teus olhos olhem
Onde tudo inicia e acaba
Em luz azul carmim
Átomo de tudo que é
E deixou de ser
Tudo que me cala
Planta sem jardim
Ramas de peixes
Escama fina flor
Espinho espinha
Fibras de alecrim
Aroma veia amarga
Sangue que há em mim?
Meu pulso jaz
No fluxo atormentado
Que há no fim, ou
Onde os teus olhos olhem
Onde tudo inicia e acaba
Em luz azul carmim
Reembolsar despesas era mais negócio
Escrito por
Anônimo
Bom, daí esse sábado resolvi fazer o teste.
O combinado era às três horas eu me apresentar. Tratou-se de uma pizzaria há uns quilômetros de casa. Já fazia algum tempo que recebia os sinais. Vocês sabem, o universo vai se comunicando conosco. Portanto, lá fui eu, partindo de casa sob a garoa de um céu cinza.
Fui caminhando. Protegendo-me da chuva, a lona de um guarda-chuva laranja. Eu só tinha esse guarda-chuva pra usar, e eu não ligava pra cor dele. Dizem que é feminino, mas, para mim, tanto faz.
Eu gosto de caminhar, é um bom exercício para as pernas, tirando a sensação de nostalgia que me invade sempre quando faço. Quer dizer, não teria como eu narrar qualquer outra coisa ou acontecimento nesse ínterim senão as minhas lembranças de quando caminhava com ela segurando os meus braços. Não deixou de ser triste.
Cheguei no horário combinado. Havia um sujeito com uma cara bastante desagradável de se olhar esperando sentado à frente do lugar. A pizzaria, de grandes portas de vidro, permanecia fechada e com as luzes apagadas. Eu não tinha relógio e perguntei ao rapaz sobre as horas. Ele me respondeu, com uma cara bastante feia, que já eram pra lá das três. Eu não me deixei abater. Encostei o guarda-chuva na parede e me sentei no chão que era coberto por uma telha na entrada do estabelecimento. Não demorou e surgiu mais outro integrante. Cumprimentou-nos de uma maneira alegre. Nada acontecia, só esperávamos. Depois de uns três minutos de silêncio, resolvi perguntar qual time ele torcia, como uma maneira de puxar um assunto e dar uma desbaratinada, de repente. Já fui logo perguntando: “Corintiano?!” E ele me respondeu “ôxe, São Paulino! E você?” E eu respondi: “Corintiano” Daí ele “tem cara” Aí eu “de maloqueiro?” Aí ele “não, não foi isso que quis dizer” Aí eu “é, você também não tem cara de ser veado! Melhor assim.” E não falamos mais nada.
Ficamos esperando por pelo menos uns quarenta minutos e eu não tinha sequer uma revista. O dono do lugar não aparecia. Que tempo perdido deveria ser aquilo, eu pensava. Mesmo assim eu permaneci firme e forte. Então, passado esse tempo, chega o dono, cujo eu havia conversado no dia anterior. Estacionou o carro numa área que havia bem a nossa frente, e saíram dele cinco pessoas. Quatro operários, com a mesma cara do sujeito que conheci primeiro. Como o dono de um rebanho, tomou a frente e já se pôs com as chaves na mão a abrir o portão dos fundos, por onde iríamos entrar e seguir os seus passos. Levou-nos até o lugar onde era feito tudo. Eram dois metros quadrados para se fazer as esfihas, outro lugar do que poderia ser de uns três por dois para as pizzas, uma cozinha onde se espremia tomates e picava cebolas, além da preparação do café, e por fim um cubículo onde havia uns armários e um banheiro. Tudo isso escondido do público, com exceção do espaço onde eram preparadas as pizzas, que tinha janelas de vidro para que os clientes pudessem ver o quão higiênico era o lugar.
O pessoal já estava adaptado, já sabiam o que fazer e como fazer. Cada um, à medida que iam entrando posicionavam-se em seus lugares. Um foi preparar a massa, o outro o molho, e assim por diante. Eu fiquei ali, esperando por qualquer coisa. Talvez uma luz divina, eu não sabia ao certo. Enfim... Aí alguém me jogou um pacote com uma camiseta branca e uma espécie de toca para não deixar os cabelos caírem. Eu entreguei o meu guarda-chuva laranja para essa mesma pessoa pedindo o favor de guardar, e ouvi “iih, olha a cor do guarda-chuva do cara” E eu simplesmente ignorei. Fui até o banheiro e me vesti. O dono, que se chamava Tico, orientou um rapaz, que por coincidência era aquele que havia conhecido melhor ainda enquanto estávamos lá fora, a me passar o que deveria feito. E então foi o que ele fez. Veio com uma caixa cheia de cebolas gigantes e um facão, depois trouxe um balde e disse: “é só descascar”. Aí ficamos eu e ele tirando as cascas de uma centena de cebolas. As cebolas eram gigantes, e exalavam aquela coisa forte que nos faz chorar. O sujeito que descascava as cebolas comigo até que era gente boa. Trocamos umas idéias. Ele estudava direito, e achei aquilo peculiar. Quer dizer, que espécie de futuro advogado descasca cebolas no final de semana? Isso deve ser raro. Bom, enfim... Vivendo e aprendendo.
As cebolas foram descascadas e a essas alturas eu já sabia até o nome do sujeito, que atendia como “Jonny”. Quando soube seu nome, pensei: caramba, que coisa, um Jonny descascando cebolas. Todos operavam e davam risadas. Eu não sabia se era da minha cara ou o quê, mas eu pouco ligava. Quando eu perguntava seus nomes, como resposta ouvia: “Péba”, ou “Galego”, ou “Barriga” e etc. Quer dizer, os nomes pareciam ser improváveis e eles não paravam de dar risadas enquanto falavam comigo. Deviam estar zoando com a minha cara, certeza. Mas de qualquer maneira, eu não ligava.
Aí eu fui pra cozinha, onde espremi uns tomates. Foi um sujeito que atendia pelo nome de “Bahia” quem me orientou a usar a máquina. A máquina que espremia os tomates era uma coisa de louco. Precisava-se de muita técnica para manuseá-la. Eu não peguei a técnica e, em um momento quando apelei para a força, o tomate explodiu lá dentro, espirrando suco pra tudo que foi lado. Bahia achou estranho, e disse: “oxe” Bom, eu me desculpei. Espremi uns tomates e piquei umas cebolas, também, usando a mesma máquina. Aquilo ia ser o tempero da esfiha. Sai dali. Fui até o espaço onde era feito tudo o que tivesse a ver com as pizzas. Eles preparavam a massa e eu fui aprender. Um sujeito que atendia pelo nome de “Jow” foi quem me ensinou. A gente tinha que pegar um punhado de massa e socá-la no balcão, assim para tirar o ar de dentro dela. Feito isso, fazíamos dela uma bola e guardávamos na gaveta. Não entendia a razão daquilo, mas fui fazendo. Várias bolas de massa.
Voltei ao lugar onde era feito tudo o que tivesse a ver com as esfihas. Um rapaz baixo e gordo espremia com a mão um monte de carne moída. Devo admitir que, após ter visto uns vídeos de uns ativistas vegans, essa coisa de se espremer carnes não me desce muito bem. Contrai certa rejeição contra esse tipo de coisa. De toda maneira, não falei nada. Era meio da tarde e ainda não havia muito movimento, ou seja, muitos pedidos. Ignorei o sujeito que mexia com o amontoado de carne. Eu não tinha nada para fazer lá e fui ao banheiro. Voltei e o Jonny colocava uns saches de catchup dentro de uns saquinhos com limão. Achei que ele merecia ajuda. Ficamos lá, fazendo isso. Quer dizer, apesar da chuva, dezenas de ônibus pegavam as estradas, a tribo mística saía em excursão, alguns recebendo vales e outros sendo bonificados, milhares de cabeças fervilhando em São Paulo planejando o que seria daquela noite com as garrafas de vinho tomando suas temperaturas e todo mundo ansiosos para celebrar a vida, enfim... O mundo acontecendo e eu lá, colocando saches de catchups dentro de um saquinho com limão. Era deprimente, mas me mantive forte. Ah, como eu era feliz e não sabia, pensava. Se pudesse ao menos falar com alguma das pessoas que sinto vontade. Desculpar-me. Enfim...
Feito isso fui até a cozinha, onde preparei um café. Tomei um copo de café. Aliás, de hora em hora eu tomaria um copo de café. Aí eu voltei. Alguém fazia bolinhas de massa, o que viriam a se tornar esfihas. Fui ajudar. Era um cara gordo e mal educado quem fazia isso. Ele tentou me dar uns toques, mas eu não entendi nada do que ele pronunciava. Era como outro dialeto. Enfim... Eu dei um jeito de levar aquelas nove horas de maneira que me fosse justo o que viria a receber. Eu ajudava um pouco aqui, e um pouco ali, até quando me fixei na tarefa de tirar as pizzas do forno. Alguém ia colocando as pizzas no forno e eu ficava de guarda do outro lado esperando que ela chegasse até mim por uma espécie de esteira. O forno era a gás e a pizza vinha automaticamente por essa esteira. Não era como esses fornos a lenha que vemos nas pizzarias mais tradicionais. Aí eu recolhia a pizza e colocava no pacote, etiquetava e despachava por uma janelinha ao meu lado, apertando um sino para chamar a atenção da recepcionista que iria entregá-la ao cliente. Fiquei fazendo isso. Num dado momento, começou a se tornar insuportável o cheiro forte de bacon e calabresa que tomava conta de tudo. Eu saia de trinta em trinta minutos para tomar uma água e me refazer, além do café. Era realmente difícil. Além do calor em excesso quando ficamos na frente de um forno como aqueles.
Ia e vinha, dava um grito pra alguém coisa e tal: “Aê Bahia, faz favor!” Foi como passei o tempo. A essas alturas eu já não chamava mais ninguém pelo nome ou apelido. De uma maneira todos eram “Bahia”. De repente me disseram que eu poderia fazer a minha própria esfiha, caso eu estivesse com fome. Bem, eu não tinha comido nada durante o dia todo, decidi ir lá ver como é que se fazia. Coloquei-me ao lado daquele sujeito que não falava a mesma língua que eu. Ele virou-se a mim, enfiou o dedo no nariz e voltou a se concentrar no trabalho. Dava socos em um monte de bolinhas de massa, depois as colocava em um recipiente e amassava fazendo delas uma seqüencia de discos e, só então colocava o recheio, que na maior parte era aquela carne misturada com tomate amassado e cebola picada. Imitei o procedimento e, na hora de colocar o recheio, peguei uns brócolis e queijo que percebi na bancada. Fiz quatro esfihas de brócolis e queijo e pus ao forno. Depois de cinco minutos, Jonny (único que assimilei o nome) recolheu-as e me entregou. Sentei numa mesa que havia por ali, aquela onde ficamos colocando os catchups no saquinho. Na metade da minha primeira esfiha sentaram-se ao meu lado duas das atendentes. Colocaram sobre a mesa, cada uma, um prato com arroz e batata com carne cozida. Exalava um cheiro. Um cheiro de carne cozida. Pensei: caramba. Aí elas ficaram conversando entre si, fofocando quaisquer coisas. E então, aconteceu: puxaram papo. Bem, tentaram alguma coisa, sim, mas eu não dei abertura. Aí eu guardei duas das esfihas e decidi que já havia me satisfeito.
Voltei ao lugar onde eram feitas as pizzas. Aí eu cheguei lá e o Bahia mexia com as massas. Ele retirava da gaveta aquelas bolas que havíamos feito e, com o rolo, esticava-as. Fui fazer também. Ele me estranhou, por algum motivo, e disse: “oxe”. Muita gente dizia “oxe”. Eu achava aquilo engraçado e simpático. E então eu me pus a esticar as massas, formando o disco. Não tive problemas com aquilo. Quer dizer, o meu ritmo não era tão bom, mas consegui algumas coisas.
Voltei a retirar as pizzas. Era tudo muito louco e frenético. Num sábado, uma pizzaria fervilha. Não temos muito que fazer a não ser tentar ajudar de todas as formas. De qualquer maneira, eu fiquei fixo na tarefa de retirar as pizzas do forno e despachar. Pela janela onde eu colocava as pizzas, apareceu a cabeça de uma das atendentes: “nossa, você aprende rápido” E eu não respondi nada. Qualquer coisa que viesse a dizer faria com que ela se achasse no direito de me dizer mais e mais coisas, o que iria gerar um baita mal entendido. Portanto, foi isso.
Meia noite e fui ao banheiro. Tirei a camiseta e a embrulhei novamente no plástico. Eu estava ansioso. Tirei a toca. Deixei tudo no armário. Sai e fui falar com o Tico, que comia sushis na cozinha. Ele me ofereceu, mas eu disse que não queria. Por algum motivo, ele já sabia de tudo e me deu trinta e seis reais, que era o equivalente às nove horas trabalhadas e mais os seis da condução. Agradeci-o e disse que havia sido uma boa experiência. Avisei-o caso precisasse de um motoqueiro, que iria ser um prazer.Sai de lá e dei uma boa noite Bahia de uma maneira geral. Todos retribuíram.
Pronto. Missão cumprida, né?
Sim, na rua, olhei pro céu. A atmosfera era agradável. Comuniquei-me com o universo. Houve alguma atenção por parte dele, senão eu não estaria escrevendo isso agora. Pensei nela. Pensei na vida. Caminhei. Caminhei sob a garoa. A sensação de nostalgia voltou a me invadir. Quantas vezes não passeamos sob a chuva com você segurando os meus braços? Agora ninguém o segurava. Era tudo muito simples e perfeito ao seu lado. O teu sorrido. Onde foi parar? A minha vida, onde foi parar? A nossa vida.
Entrei e sentei no balcão. Pedi uma garrafa de cerveja, enquanto uns moleques davam risadas em companhia de suas meninas numa mesa atrás de mim. Eu não tenho mais paciência pra isso. A gente era feliz. Fomos felizes. Tomei a garrafa de cerveja lembrando cada uma das garrafas que tomamos juntos. Lembrei do dia em que fui feliz ao teu lado. Ainda ouço você me acordar dizendo “bom dia Bahia”. E eu, às vezes, sem querer, me pego dizendo sozinho “bom dia, flor do dia”. Pra quem? Eu devo estar ficando louco.
Veio alguém e me cumprimentou. Eu só conhecia de vista, não sabia quem era. Talvez tenhamos estudado juntos há muito tempo atrás. De qualquer maneira, retribui. Pedi outra cerveja. Depois, uma dose de vodka... E assim por diante, você sabe como é... Mantive o pensamento em você.
Entrou no bar, por alguma coincidência metafísica qualquer dessas, uma daquelas atendentes. Não sei qual foi a concordância astral, mas lá estava ela. Passou por detrás de mim rebolando e senti o cheiro de um perfume. Bem, não era um ”Caroline Herrera”. Eu girei o rosto, como não iria fazer? Caminhou com a bunda empinada até o fundo, lá onde havia os sanitários. Parou, girou e olhou-me. Meditei e pensei: que mal tem? Ela prosseguiu. Virei a vodka que ainda restava no copo, levantei e fui. Ela me aguardava com a porta aberta segurando a maçaneta. Mesmo sendo feminino, empurrei-a porta adentro, de maneira que ficasse sem saída. Deixei que a porta se fechasse sozinha e a joguei pra dentro de uma das cabines, enquanto ela abaixava a saia toda desengonçada. Com as pernas arriadas, sentada numa privada de tampas fechadas, pôs com cautela o fio frontal da calcinha de lado, no instante em que pensei: caramba. Tirei pra fora, embrulhei-o e meti. Conforme as investidas, a cabeça da danada balançava que parecia uma maria mole pendendo pra fora. Na hora de gozar fiz graça: mirei no umbigo, mas acertei o olho. Acontece. Recompus-me e sai. Voltei a sentar no balcão e pedi outra cerveja. Ela ficou lá, não sei o que fazendo. Eu virava o copo quando passou por detrás de mim e beliscou meu abdome. Girei o rosto de maneira a retribuir. Arrivederci.
Sai de lá no meio da madrugada, assim que o bar fechou, ouvindo um psykovsky pelos fones de ouvido. Em momento algum eu tomei um ônibus, mas economizei e fui caminhando. Sempre caminhando. No dia seguinte acordei bem. Fui até o correio e postei dez reais que me sobrou ao endereço de minha ex-mulher. Meu bacuri tá lá, lindo e esperto. Como não pensar nele? Não sei se chegou o dinheiro, os correios são incertos. Ainda mais quando encaminhamos por carta simples.
Depois fiquei lendo a história do Brasil.
(por Lito Spuleta)
O combinado era às três horas eu me apresentar. Tratou-se de uma pizzaria há uns quilômetros de casa. Já fazia algum tempo que recebia os sinais. Vocês sabem, o universo vai se comunicando conosco. Portanto, lá fui eu, partindo de casa sob a garoa de um céu cinza.
Fui caminhando. Protegendo-me da chuva, a lona de um guarda-chuva laranja. Eu só tinha esse guarda-chuva pra usar, e eu não ligava pra cor dele. Dizem que é feminino, mas, para mim, tanto faz.
Eu gosto de caminhar, é um bom exercício para as pernas, tirando a sensação de nostalgia que me invade sempre quando faço. Quer dizer, não teria como eu narrar qualquer outra coisa ou acontecimento nesse ínterim senão as minhas lembranças de quando caminhava com ela segurando os meus braços. Não deixou de ser triste.
Cheguei no horário combinado. Havia um sujeito com uma cara bastante desagradável de se olhar esperando sentado à frente do lugar. A pizzaria, de grandes portas de vidro, permanecia fechada e com as luzes apagadas. Eu não tinha relógio e perguntei ao rapaz sobre as horas. Ele me respondeu, com uma cara bastante feia, que já eram pra lá das três. Eu não me deixei abater. Encostei o guarda-chuva na parede e me sentei no chão que era coberto por uma telha na entrada do estabelecimento. Não demorou e surgiu mais outro integrante. Cumprimentou-nos de uma maneira alegre. Nada acontecia, só esperávamos. Depois de uns três minutos de silêncio, resolvi perguntar qual time ele torcia, como uma maneira de puxar um assunto e dar uma desbaratinada, de repente. Já fui logo perguntando: “Corintiano?!” E ele me respondeu “ôxe, São Paulino! E você?” E eu respondi: “Corintiano” Daí ele “tem cara” Aí eu “de maloqueiro?” Aí ele “não, não foi isso que quis dizer” Aí eu “é, você também não tem cara de ser veado! Melhor assim.” E não falamos mais nada.
Ficamos esperando por pelo menos uns quarenta minutos e eu não tinha sequer uma revista. O dono do lugar não aparecia. Que tempo perdido deveria ser aquilo, eu pensava. Mesmo assim eu permaneci firme e forte. Então, passado esse tempo, chega o dono, cujo eu havia conversado no dia anterior. Estacionou o carro numa área que havia bem a nossa frente, e saíram dele cinco pessoas. Quatro operários, com a mesma cara do sujeito que conheci primeiro. Como o dono de um rebanho, tomou a frente e já se pôs com as chaves na mão a abrir o portão dos fundos, por onde iríamos entrar e seguir os seus passos. Levou-nos até o lugar onde era feito tudo. Eram dois metros quadrados para se fazer as esfihas, outro lugar do que poderia ser de uns três por dois para as pizzas, uma cozinha onde se espremia tomates e picava cebolas, além da preparação do café, e por fim um cubículo onde havia uns armários e um banheiro. Tudo isso escondido do público, com exceção do espaço onde eram preparadas as pizzas, que tinha janelas de vidro para que os clientes pudessem ver o quão higiênico era o lugar.
O pessoal já estava adaptado, já sabiam o que fazer e como fazer. Cada um, à medida que iam entrando posicionavam-se em seus lugares. Um foi preparar a massa, o outro o molho, e assim por diante. Eu fiquei ali, esperando por qualquer coisa. Talvez uma luz divina, eu não sabia ao certo. Enfim... Aí alguém me jogou um pacote com uma camiseta branca e uma espécie de toca para não deixar os cabelos caírem. Eu entreguei o meu guarda-chuva laranja para essa mesma pessoa pedindo o favor de guardar, e ouvi “iih, olha a cor do guarda-chuva do cara” E eu simplesmente ignorei. Fui até o banheiro e me vesti. O dono, que se chamava Tico, orientou um rapaz, que por coincidência era aquele que havia conhecido melhor ainda enquanto estávamos lá fora, a me passar o que deveria feito. E então foi o que ele fez. Veio com uma caixa cheia de cebolas gigantes e um facão, depois trouxe um balde e disse: “é só descascar”. Aí ficamos eu e ele tirando as cascas de uma centena de cebolas. As cebolas eram gigantes, e exalavam aquela coisa forte que nos faz chorar. O sujeito que descascava as cebolas comigo até que era gente boa. Trocamos umas idéias. Ele estudava direito, e achei aquilo peculiar. Quer dizer, que espécie de futuro advogado descasca cebolas no final de semana? Isso deve ser raro. Bom, enfim... Vivendo e aprendendo.
As cebolas foram descascadas e a essas alturas eu já sabia até o nome do sujeito, que atendia como “Jonny”. Quando soube seu nome, pensei: caramba, que coisa, um Jonny descascando cebolas. Todos operavam e davam risadas. Eu não sabia se era da minha cara ou o quê, mas eu pouco ligava. Quando eu perguntava seus nomes, como resposta ouvia: “Péba”, ou “Galego”, ou “Barriga” e etc. Quer dizer, os nomes pareciam ser improváveis e eles não paravam de dar risadas enquanto falavam comigo. Deviam estar zoando com a minha cara, certeza. Mas de qualquer maneira, eu não ligava.
Aí eu fui pra cozinha, onde espremi uns tomates. Foi um sujeito que atendia pelo nome de “Bahia” quem me orientou a usar a máquina. A máquina que espremia os tomates era uma coisa de louco. Precisava-se de muita técnica para manuseá-la. Eu não peguei a técnica e, em um momento quando apelei para a força, o tomate explodiu lá dentro, espirrando suco pra tudo que foi lado. Bahia achou estranho, e disse: “oxe” Bom, eu me desculpei. Espremi uns tomates e piquei umas cebolas, também, usando a mesma máquina. Aquilo ia ser o tempero da esfiha. Sai dali. Fui até o espaço onde era feito tudo o que tivesse a ver com as pizzas. Eles preparavam a massa e eu fui aprender. Um sujeito que atendia pelo nome de “Jow” foi quem me ensinou. A gente tinha que pegar um punhado de massa e socá-la no balcão, assim para tirar o ar de dentro dela. Feito isso, fazíamos dela uma bola e guardávamos na gaveta. Não entendia a razão daquilo, mas fui fazendo. Várias bolas de massa.
Voltei ao lugar onde era feito tudo o que tivesse a ver com as esfihas. Um rapaz baixo e gordo espremia com a mão um monte de carne moída. Devo admitir que, após ter visto uns vídeos de uns ativistas vegans, essa coisa de se espremer carnes não me desce muito bem. Contrai certa rejeição contra esse tipo de coisa. De toda maneira, não falei nada. Era meio da tarde e ainda não havia muito movimento, ou seja, muitos pedidos. Ignorei o sujeito que mexia com o amontoado de carne. Eu não tinha nada para fazer lá e fui ao banheiro. Voltei e o Jonny colocava uns saches de catchup dentro de uns saquinhos com limão. Achei que ele merecia ajuda. Ficamos lá, fazendo isso. Quer dizer, apesar da chuva, dezenas de ônibus pegavam as estradas, a tribo mística saía em excursão, alguns recebendo vales e outros sendo bonificados, milhares de cabeças fervilhando em São Paulo planejando o que seria daquela noite com as garrafas de vinho tomando suas temperaturas e todo mundo ansiosos para celebrar a vida, enfim... O mundo acontecendo e eu lá, colocando saches de catchups dentro de um saquinho com limão. Era deprimente, mas me mantive forte. Ah, como eu era feliz e não sabia, pensava. Se pudesse ao menos falar com alguma das pessoas que sinto vontade. Desculpar-me. Enfim...
Feito isso fui até a cozinha, onde preparei um café. Tomei um copo de café. Aliás, de hora em hora eu tomaria um copo de café. Aí eu voltei. Alguém fazia bolinhas de massa, o que viriam a se tornar esfihas. Fui ajudar. Era um cara gordo e mal educado quem fazia isso. Ele tentou me dar uns toques, mas eu não entendi nada do que ele pronunciava. Era como outro dialeto. Enfim... Eu dei um jeito de levar aquelas nove horas de maneira que me fosse justo o que viria a receber. Eu ajudava um pouco aqui, e um pouco ali, até quando me fixei na tarefa de tirar as pizzas do forno. Alguém ia colocando as pizzas no forno e eu ficava de guarda do outro lado esperando que ela chegasse até mim por uma espécie de esteira. O forno era a gás e a pizza vinha automaticamente por essa esteira. Não era como esses fornos a lenha que vemos nas pizzarias mais tradicionais. Aí eu recolhia a pizza e colocava no pacote, etiquetava e despachava por uma janelinha ao meu lado, apertando um sino para chamar a atenção da recepcionista que iria entregá-la ao cliente. Fiquei fazendo isso. Num dado momento, começou a se tornar insuportável o cheiro forte de bacon e calabresa que tomava conta de tudo. Eu saia de trinta em trinta minutos para tomar uma água e me refazer, além do café. Era realmente difícil. Além do calor em excesso quando ficamos na frente de um forno como aqueles.
Ia e vinha, dava um grito pra alguém coisa e tal: “Aê Bahia, faz favor!” Foi como passei o tempo. A essas alturas eu já não chamava mais ninguém pelo nome ou apelido. De uma maneira todos eram “Bahia”. De repente me disseram que eu poderia fazer a minha própria esfiha, caso eu estivesse com fome. Bem, eu não tinha comido nada durante o dia todo, decidi ir lá ver como é que se fazia. Coloquei-me ao lado daquele sujeito que não falava a mesma língua que eu. Ele virou-se a mim, enfiou o dedo no nariz e voltou a se concentrar no trabalho. Dava socos em um monte de bolinhas de massa, depois as colocava em um recipiente e amassava fazendo delas uma seqüencia de discos e, só então colocava o recheio, que na maior parte era aquela carne misturada com tomate amassado e cebola picada. Imitei o procedimento e, na hora de colocar o recheio, peguei uns brócolis e queijo que percebi na bancada. Fiz quatro esfihas de brócolis e queijo e pus ao forno. Depois de cinco minutos, Jonny (único que assimilei o nome) recolheu-as e me entregou. Sentei numa mesa que havia por ali, aquela onde ficamos colocando os catchups no saquinho. Na metade da minha primeira esfiha sentaram-se ao meu lado duas das atendentes. Colocaram sobre a mesa, cada uma, um prato com arroz e batata com carne cozida. Exalava um cheiro. Um cheiro de carne cozida. Pensei: caramba. Aí elas ficaram conversando entre si, fofocando quaisquer coisas. E então, aconteceu: puxaram papo. Bem, tentaram alguma coisa, sim, mas eu não dei abertura. Aí eu guardei duas das esfihas e decidi que já havia me satisfeito.
Voltei ao lugar onde eram feitas as pizzas. Aí eu cheguei lá e o Bahia mexia com as massas. Ele retirava da gaveta aquelas bolas que havíamos feito e, com o rolo, esticava-as. Fui fazer também. Ele me estranhou, por algum motivo, e disse: “oxe”. Muita gente dizia “oxe”. Eu achava aquilo engraçado e simpático. E então eu me pus a esticar as massas, formando o disco. Não tive problemas com aquilo. Quer dizer, o meu ritmo não era tão bom, mas consegui algumas coisas.
Voltei a retirar as pizzas. Era tudo muito louco e frenético. Num sábado, uma pizzaria fervilha. Não temos muito que fazer a não ser tentar ajudar de todas as formas. De qualquer maneira, eu fiquei fixo na tarefa de retirar as pizzas do forno e despachar. Pela janela onde eu colocava as pizzas, apareceu a cabeça de uma das atendentes: “nossa, você aprende rápido” E eu não respondi nada. Qualquer coisa que viesse a dizer faria com que ela se achasse no direito de me dizer mais e mais coisas, o que iria gerar um baita mal entendido. Portanto, foi isso.
Meia noite e fui ao banheiro. Tirei a camiseta e a embrulhei novamente no plástico. Eu estava ansioso. Tirei a toca. Deixei tudo no armário. Sai e fui falar com o Tico, que comia sushis na cozinha. Ele me ofereceu, mas eu disse que não queria. Por algum motivo, ele já sabia de tudo e me deu trinta e seis reais, que era o equivalente às nove horas trabalhadas e mais os seis da condução. Agradeci-o e disse que havia sido uma boa experiência. Avisei-o caso precisasse de um motoqueiro, que iria ser um prazer.Sai de lá e dei uma boa noite Bahia de uma maneira geral. Todos retribuíram.
Pronto. Missão cumprida, né?
Sim, na rua, olhei pro céu. A atmosfera era agradável. Comuniquei-me com o universo. Houve alguma atenção por parte dele, senão eu não estaria escrevendo isso agora. Pensei nela. Pensei na vida. Caminhei. Caminhei sob a garoa. A sensação de nostalgia voltou a me invadir. Quantas vezes não passeamos sob a chuva com você segurando os meus braços? Agora ninguém o segurava. Era tudo muito simples e perfeito ao seu lado. O teu sorrido. Onde foi parar? A minha vida, onde foi parar? A nossa vida.
Entrei e sentei no balcão. Pedi uma garrafa de cerveja, enquanto uns moleques davam risadas em companhia de suas meninas numa mesa atrás de mim. Eu não tenho mais paciência pra isso. A gente era feliz. Fomos felizes. Tomei a garrafa de cerveja lembrando cada uma das garrafas que tomamos juntos. Lembrei do dia em que fui feliz ao teu lado. Ainda ouço você me acordar dizendo “bom dia Bahia”. E eu, às vezes, sem querer, me pego dizendo sozinho “bom dia, flor do dia”. Pra quem? Eu devo estar ficando louco.
Veio alguém e me cumprimentou. Eu só conhecia de vista, não sabia quem era. Talvez tenhamos estudado juntos há muito tempo atrás. De qualquer maneira, retribui. Pedi outra cerveja. Depois, uma dose de vodka... E assim por diante, você sabe como é... Mantive o pensamento em você.
Entrou no bar, por alguma coincidência metafísica qualquer dessas, uma daquelas atendentes. Não sei qual foi a concordância astral, mas lá estava ela. Passou por detrás de mim rebolando e senti o cheiro de um perfume. Bem, não era um ”Caroline Herrera”. Eu girei o rosto, como não iria fazer? Caminhou com a bunda empinada até o fundo, lá onde havia os sanitários. Parou, girou e olhou-me. Meditei e pensei: que mal tem? Ela prosseguiu. Virei a vodka que ainda restava no copo, levantei e fui. Ela me aguardava com a porta aberta segurando a maçaneta. Mesmo sendo feminino, empurrei-a porta adentro, de maneira que ficasse sem saída. Deixei que a porta se fechasse sozinha e a joguei pra dentro de uma das cabines, enquanto ela abaixava a saia toda desengonçada. Com as pernas arriadas, sentada numa privada de tampas fechadas, pôs com cautela o fio frontal da calcinha de lado, no instante em que pensei: caramba. Tirei pra fora, embrulhei-o e meti. Conforme as investidas, a cabeça da danada balançava que parecia uma maria mole pendendo pra fora. Na hora de gozar fiz graça: mirei no umbigo, mas acertei o olho. Acontece. Recompus-me e sai. Voltei a sentar no balcão e pedi outra cerveja. Ela ficou lá, não sei o que fazendo. Eu virava o copo quando passou por detrás de mim e beliscou meu abdome. Girei o rosto de maneira a retribuir. Arrivederci.
Sai de lá no meio da madrugada, assim que o bar fechou, ouvindo um psykovsky pelos fones de ouvido. Em momento algum eu tomei um ônibus, mas economizei e fui caminhando. Sempre caminhando. No dia seguinte acordei bem. Fui até o correio e postei dez reais que me sobrou ao endereço de minha ex-mulher. Meu bacuri tá lá, lindo e esperto. Como não pensar nele? Não sei se chegou o dinheiro, os correios são incertos. Ainda mais quando encaminhamos por carta simples.
Depois fiquei lendo a história do Brasil.
(por Lito Spuleta)
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Convidado Carlos Henrique Azevedo
Escrito por
Bardo
Sexta-feira
O metrô estava estranhamente vazio naquela sexta-feira. Lá fora, o Rio de Janeiro continuava lindo. Mas para a minha alegria, a escuridão dos túneis deixava as pernas das cariocas ainda mais bonitas. Talvez fosse ilusão, quando havia poucas moças no metrô qualquer joelho valorizava a viagem. Na minha frente, uma bela prova da minha teoria: uma morena alta se espreguiçava calmamente, tinha seus dezessete anos. Tentei me lembrar dos meus dezessete, não consegui.
A menina olhou para mim. Meu peito, que já viveu alguns carnavais, se escolheu acuado. Meu nariz, por maior que seja, buscou sem sucesso o ar escasso do vagão. Engoli seco, ela iria falar.
A jovem sabia o que estava fazendo: com os pés apontados em minha direção, ela alisou seu cabelo e mordeu os lábios, o silêncio finalmente iria ser quebrado. Seus olhos passearam pelo ambiente, era como se pedissem autorização para o que ela iria fazer. Ela devagar abriu sua boca ... e logo depois a bolsa. O ar finalmente entrou nos meus pulmões, era alarme falso.
A moça tirou as mãos da bolsa e me encarou de novo. O suor mantinha minhas costas coladas no assento. Num gesto de angústia, arrisquei um sorriso. Sua boca se move novamente. Agora não tinha como, depois de quase me arrancar o marca-passo, ela tinha que falar.
Admito que não aguentei, olhei para o lado. Fingi ver as horas, mas os segundos não passavam .Quem diria, Capitão? Deu para ter medo de mulher bonita? A consciência não me perdoaria...o que que eu vou dizer lá em casa? Não vou dormir bem se não virar para frente e olhar bem ela. Tenho uma fama quase centenária na calçada, não seria uma moçinha bonita que iria me desestabilizar...já fiz esposa largar marido com apenas um telefona e meia dúzia de palavras.
Quando ia selecionar a melhor frase do meu arsenal, ela disparou:
-O senhor gostaria de comprar uma rifa?
-Rifa?!- perguntei incrédulo. Não podia ser, tanto charme para me oferecer um pedaço de papel?
- É, de uma bicicleta novinha. - Ela tentou justificar, tarde demais. Não fui o primeiro e nem serei o último homem feito que aquela senhorita decepcionou.
A Estação Inhaúma chegou,desembarquei ao som das minhas próprias gargalhadas. Essa cidade ainda me mata. Se não ela, uma carioca.
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Carlos Henrique Azevedo
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sábado, 15 de outubro de 2011
Balada para musa desaparecida em noite paranoica
Escrito por
Celso Mendes
não há paixão que sobreviva nesta calçada
onde teus pés de salto agulha feriram o concreto
e poças de lama preenchem os buracos
que escondem o sangue jorrado
dos últimos colibris de asfalto
não há mais passos em frente desta janela de bar
que não lembrem teu hálito de espuma
vazando pela veneziana
como serpente
a procura de pupilas escancaradas
não há mais amor nesta alameda em desatino
destino de alucinações desencarnadas
que não sopre o reflexo apagado de pirilampos
que já foram olhos
já não há mais a saliva espargida do teu canto
a deixar o brilho de teu rastro estéril
à porta destas casas
já acostumadas a hábitos cetônicos
hepatotóxicos
agora órfãs
de tua corrosiva doçura
etílica
nem há mais lua nesta rua
onde pisaste
e agora jazem as estrelas
ao fundo
opaco mundo
e apenas blues
(Celso Mendes)
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