sábado, 30 de junho de 2012

Convidado Júlio freitas


Vejo caras conhecidas
nestes rostos tão estranhos
realidade adormecida
jogo de perdas e ganhos.
Coisa velha, amanhecida,
agonia sem tamanho
a passagem prá descida
é a porta que arranho.
Vejo caras conhecidas
nelas olhos suicidas
indo juntos com o rebanho.


---
Júlio Freitas

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Respirando


Sabe quando a gente lembra que estamos sempre respirando? Quase nunca. Percebi isso ao vê-la morrer. Sabia o que estava acontecendo, sabia que seriam seus últimos goles de ar, acordei naquela manhã sabendo. Cada inspiração e expiração gastava mais tempo do mundo, as maiores pausas, até parar de vez. Soube imediatamente o que tinha acabado de acontecer: ela morreu. Então era assim que acontecia. Seu pulmão não mais buscava ar, seu diafragma aquietava-se pela primeira vez em décadas, seu coração parou. E o sangue nas veias não mais circularia, era tanto sangue e tanta veia. Aquele calor produzido continuamente por todos esses anos rapidamente se dissipara para o ambiente, era daquele quarto agora, não mais dela. Perdeu seu calor.

Perdeu também seu sufoco, mas foram com ele os sorrisos. Com o ar, foi-se a voz. Logo mais iriam também os carbonos. Voltariam pra terra, ela ficaria feliz com isso.

Mas morto amado nunca mais pára de morrer, aprendi isso logo. Admirava minha mãe morta na cama, e daquele segundo em diante não sabia mais o que fazer. Morri também, mas fiquei aqui. Recomecei: eu respiro, ela não. Quanto tempo fico na cama ao seu lado? O que faço entre o acordar e o dormir? Quando o tempo é doloroso - não porque você dói enquanto ele passa, mas porque ele, em si, te causa agudo desconforto com todos esses minutos e horas jogados nas suas mãos, e você, perdida, não sabe como fazê-los sumir - aí sim é dor de tempo.

Era morta a mãe, tentava entender aquilo. E seu peito não mais subia com o pulmão inflado, claro, está morta, não respira mais. Não se percebia mais o batimento cardíaco na sua jugular, claro, está morta, não bate mais. Toquei em sua perna, agora fria, claro, o sangue não te esquenta mais. A gente nunca lembra que é quente, só quando fica frio. Quis tirar o algodão de suas narinas, poderia sufocar. A morta? Morto não morre sufocado.

Desde então fui aprendendo a reaprender, sempre, o já sabido. A admirar-me com o esperado. E a enterrá-la mais de uma vez por dia.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Um Abraço de Portugal!!


Depois de sair do banco, antes de definir o percurso que ia efectuar, pensou: «- quero ir onde agora?», Então o seu cérebro traçou-lhe o rumo: «- vou ao café Monumental falar com o Sr. Lopes». Desceu a calçada, no seu passo sereno, cumprimentando as pessoas conhecidas que se cruzava, e entrou no seu café de eleição. Lá dentro, estavam poucas pessoas, talvez três ou quatro, reformados que tomavam a sua cevada. Dentro do balcão, com um ar simpático, o senhor Lopes, cumprimentou-o, com um sorriso acolhedor.

Quito Arantes/Portugal in " O recuperador de Tempo "

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Tentativa de Invasão

Cresce uma flor no meio-fio
(talvez alguma espécie
de lírio silvestre),
pétalas e sépalas intrépidas
através de uma trinca no concreto.
Mas logo virá a roda de uma bicicleta,
ou a equipe de limpeza do prédio,
acabar com a festa da penetra.

As flores são, mesmo, idiotas completas.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Pra sempre

o ato feito
é fato
o pensamento
é bruma
o fato feito
se prova
o sonho é etéreo
se perde
o ato é eterno

cuidado

domingo, 24 de junho de 2012

Escrevinhador Paulo Francisco estreiando hoje com: Mesa de bar




- Paulo, o que você vai querer?

 - O de sempre.

Seria tão fácil responder assim pra tudo: O de sempre, mas com uma pitadinha a mais de amor; o de sempre com mais cafuné até eu dormir em seu colo; o de sempre com um pouquinho mais de chamego – eu mereço.

- Paulo, o de sempre?

-Sim, mas traga aquela poesia e leia em minha orelha, hoje não estou pra prosa. Quero poemas recitados baixinhos até eu arrepiar.

 -Paulo, cerveja?

-Não, hoje estou pra vinho. Aproveita e coloca uma música suave pra eu pré-aquecer este coração vagabundo. Gosto da surpresa que existe em nós.
Quando passam a me conhecer, a frase não é mais necessária. Todas sabem o que eu vou querer e repetir. E sabendo de meus desejos, pegam-me lambendo o fundo do tacho.

 E hoje? O que quero?

Bem, talvez eu queira o de sempre ou a surpresa de teu céu em estrelas e poesias. Quem sabe uma boca vermelha e unhas que marquem as minhas costas numa surpresa divina.

Gosto da mesmice enfeitada, de saber da existência do dia, mas da surpresa do aparecimento do sol ou não. Gosto da cerveja gelada e do vinho à temperatura ambiente. Gosto da mistura da cerveja gelada e de sua boca quente, do vinho na temperatura ambiente que se transforma no corpo da gente.

Paulo o que você vai querer?

 -Hoje!? Hoje eu quero agradecer por você ter vindo até aqui e curtir comigo este dia 24. E, como agradecimento, eu deixo, no balcão deste bar, o bloco de anotações só pra você rabiscar.

. Até o próximo mês, à noite ou de dia, com cerveja ou com vinho; pouco importa; o que importa mesmo é a certeza do nosso encontro, neste bar, entre prosa e poesia.

Paulo Francisco
http://cores-e-nomes.blogspot.com.br/

Pensamento +



A RIO + 20 é uma idéia, e, não uma solução para os problemas socioambientais. O seu escopo marca a possibilidade de se pensar em um mundo mais sustentável, mas isso não quer dizer que nossos representantes serão capazes de tornar a idéia viável.

Em tempo de liberdade de expressão e de convergência digital, esse movimento vem somar a atenção para as nossas atividades cotidianas, que devem ser ecologicamente responsáveis.

Nós, como sociedade, deveríamos aprender, pelo menos, a lição de casa. É simples, mas não é usual, por exemplo, não jogar lixo na rua — principalmente não atirando pelas janelas dos veículos; economizar água ao escovarmos os dentes e também no banho; ensinar os filhos a importância de usar o material escolar com responsabilidade, sem jogar folhas do caderno fora; E por fim, mudar os hábitos de consumo dando prefêrencia aos produtos com algum percentual de preservação ambiental.

Se você não faz o básico, não pode esperar que a RIO+20 faça tudo. Fica uma pergunta para sua reflexão: Qual a sua contribuição para tornar o mundo melhor?

Assine a campanha >> "Desmatamento Zero"

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mercado ilógico


Antes de espatifar-se no chão, já era novamente um milionário







texto do livro Colcha de Retalhos

Convite para o lançamento em Brasília:


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Insano & Extinto Humano

A índia

CONTO

(O que é um engasgo para quem se afogou?)


      Aconteceu: “fudi”. A índia mais bonita que já vira na vida. Estava ali, sentada ao seu lado, esperando que o ônibus alcançasse o destino. Haveria de ser em um jardim, guarani ou paulistano, sabe-se lá. O fato é que estava ali. Aquelas coxas que mais lembravam dois bolos de carne, amassados sobre o assento com o peso de toda aquela massa que constituía peitos, quadril e etc. Não era obesa, mas do tipo fogosa. Os cabelos eram negros e lisos, nascidos da pele vermelha, flutuantes conforme o vento. Não usava cocar nem nada que é do costume arcaico, mas vestia jeans, uma blusa comum e quiçá tivesse até um óculos escuros dentro da bolsa de couro que levava. Mas era uma índia, exploradora, guerreira, descobridora, enfim. Que peça rara! Em meio toda aquela normalidade cotidiana das pessoas desesperançadas, devoradas pelos rituais coorporativos de cada dia, lá estava ela, uma índia. Precisava falar alguma coisa, puxar assunto, mas desajeitado, não sabia nem por onde começar. Depois da lambada, começou até a ouvir tango. “Olá”, disse, então. Olhou-o como se agradecesse, mas voltou o rosto sem dizer nada. Era um nervosismo mútuo: ele pela presença dela e as várias hipóteses e, ela, pelo trânsito talvez, o que denotava com linguagens corporais: uma índia indefesa na cidade, assustada com o caos, levando as mãos ao nariz, olhos, arregalando-os a cada buzinada. No mínimo talvez estivesse mal acostumada, o que não deixava de ser diferente. As vezes, o que percebia pelo reflexo no espelho do motorista em frente à primeira dupla de assentos onde estavam, seu rosto se transformava e deixava de sentir o tal medo, como se fosse pego de certo conformismo, dando a impressão de conhecer o caminho ou ir-se acostumando aos poucos, coitada, talvez morasse naquele jardim a que era destinado o percurso, antes tivesse ficado em sua aldeia, ô, deus! Mas em outros momentos, também, dava lugar a uma guerreira, ao exemplo de quando subia alguém suspeito; ou caçadora, com toda a seriedade que não deixava de lhe ser inerente. As mãos remetiam à dignidade. Por qualquer motivo percebeu as mãos. “Você é bonita”, insistiu. ”Gracias”, ela então respondeu. A índia falava castelhano. Que coisa incrível, pensou. Por que tudo se tornara um encanto? Você permanece condicionado (por qualquer razão pessoal idiota qualquer) dentro de um lugar onde só se ouve falar a tal “língua-gueto” - salve Caetano! - pequenas diferenças tornam-se surpresas agradáveis. Tirou uma revista da bolsa e a viu folhear, num instante de desapego qualquer.
      “Você é de onde?”, perguntou
      “Soy peruana...”
      "O que está lendo?”, curioso
      “Hablam política, não entendo muito bien, algunos reacionarios protestanto la corrupción”
      “Tô sabendo...”
      “São Paulo em crise...”, refletia a índia, com certo ar de frustração por escolher ter vindo à “cidade errada no momento errado”, talvez
      “É assim mesmo, linda... O mundo é uma história só, desde sempre, com vários personagens...”
      “Personarrens?”, riu
      “Todos mascarados, BOO!... tá cheio de “Robin Hoods” por aí, até conseguem alguma coisa, mas no final acabam sempre cedendo ao sistema corruptivo e, os bodes, coitados...”
      Ficou olhando-o assim como quem pensa “caramba”, e então passou pela cabeça dele dizer: “sim, sou corrupto... corrupto às minhas catarses, corrupto às minhas paixões...”, mas não disse nada.
      Ficaram por segundos olhando um ao olho do outro em uma transfusão de energia propagada pelo Deus Sol que, enfim, transbordava!!!
      “Vem cá, conheço um bar de esquina no próximo ponto. O que acha de uma cervejinha?”
      “Muy bien, vamos!”
      Foram caminhando até o bar que ficava há poucos metros do ponto onde desceram. Ele se dirigiu rapidamente até o banheiro por que estava apertado e, enquanto mijava (sem fazer uso das mãos), tirou a carteira do bolso e abriu-a para saber quanto tinha de dinheiro, então viu: a foto dela. Aquele banheiro era desses típicos de bar e fedia à beça, olhou dentro daquela privada cheia de merda. “Não, Linda, não vou te deixar aqui dentro...” Deu a descarga e PARTIU!

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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Convidado Michel Crismonte

Cala-te


    Dizinham-me que devo me casar. Casastes, caso não nunca casará. Casamento é casa feita, é vossa casa casada.
Cada casal não entende seus casos, se retorcem tentando concertar as calhas da casa e vivem se casando, casa tu casa eu e não se expõem ao pensar em se casar.
       Se caso casar, lembra-te diante o altar das calhas da casa que de principio foi bem feita e que já não é mas pintada, não sendo mas um casarão.
      Sei que está aqui uma questão, e se cada casal não casassem? Ainda casaram-se as flores? Casariam-se as dores?
“Casar-te-ei contigo e vivereis em um só par.”
Cala-te!
       Eu sou só uma mera testemunha presenciando um casal prestes a se casar, mas caso não se case, por vir ainda casaram-se as flores.



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Michell Cismonte

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Acalanto para abstinências e vazios

    é a falta e a lacuna quem cria
                                                                      (Paul Valéry)
é para agasalhar ausências que teço este poema
fantasmas não dormem
anseios me esperam

o que urge além do lábio e da palavra
é o mesmo que me trinca o esmalte dos dentes
vindo da lacuna que ocorre no rastro do voo
de cada pássaro que ousei ser
neste não sentir talhado nos ossos
feito rios secos a riscar-me a pele
álveos calcinados 
onde escorrem congeladas 
a doçura e a tortura
de vozes e olhares idos ou perseguidos
dentro de um pretérito que me bate à cara
ou em um porvir que se me escancara

é para agasalhar ausências que teço este poema
de vazios e de abstinências
e me permito à lagrima
tanto quanto ao riso

(Celso Mendes)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A fantasia


Ela não tolerava o abandono. E havia sido abandonada.

ELA: Boa tarde.

Saiu de casa e atravessou a cidade determinada.
Entrou na loja de costura ainda mais.

ATENDENTE: Em que posso ajudar?
ELA: Queria deixar pra fazer uns ajustes.

Entregou a atendente uma fantasia. Junto, um papel com as medidas para os ajustes.

ELA: Tá aqui.

A atendente observou, um pouco em choque. Era uma roupa de mulher maravilha num cabide. Olhou para o papel e viu os ajustes pedidos.

ELA: Muito cuidado que o tecido é delicado. E o meu chefe não quer de jeito nenhum que estrague. É um presente.

Não havia chefe algum. Havia ele.
Que havia partido há muito. Não queria mais nada.
Ela não era capaz de entender. Todos os sonhos destruídos. Não haveria casa com quintal, cachorro e crianças brincando na rua.

ELA: Tem que apertar a cintura. Dá pra fazer?
ATENDENTE: Dá... dá pra fazer...

A atendente gaguejou um pouco.
Ela sorriu.

ELA: Ótimo. Aqui tem um endereço de entrega.

Ela nunca havia digerido a separação.
Ele apenas fora embora. Relacionamentos acabam, as coisas sempre tem um fim. Era o que dizia.
Mas pra ela não. Era necessária uma vingança. Era passional.

ELA: E um cartão.

Ela abriu o cartão e pegou o celular. Fingiu ligar para alguém, mas não fez.

ELA: Oi, tudo bem?... Coloco o que no cartão?... Aham...

Enquanto fingia falar ao telefone, começou a escrever. A atendente pôde ler o escrito.
Para aquele que é a minha verdadeira mulher maravilha, a única pessoa capaz de fazer o avião invisível subir. Beijos, do seu.
Não sabia exatamente como agir. Tentou disfarçar. Fingiu que não estava prestando atenção.
Ela desligou o celular e entregou o cartão a atendente.

ELA: O endereço tá certo. Meu chefe disse que talvez ele resista um pouco a receber. Sabe como é, né? Mas insistam. É um presente muito importante. Eles brigaram. É uma tentativa de fazer as pazes.

E foi embora.
Sorria. Estava satisfeita. Era sua vingança.
Mas durou pouco.
Morreu uma semana depois. Atropelada.
Dizem que o carro era dirigido pela mulher maravilha.


terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia dos Namorados

Namorados, mesmo lado, entusiasmados
Dias sortidos, risonhos e límpidos
Mesmo que problemas existam...persistem
Mesmo que pedras pedregulem...assistem...juntos

Namorados atingidos pelo primogênito de Vênus
Ou não, pois beleza não gera...é gerada
Deus pródigo, não há parcimônia em suas flechadas
Mas, sedentos somos por suas lanceadas

Nesses tempos o tempo é nosso maior inimigo
Transpõe-se velozmente quando os hálitos contíguos
Ó tempo....tempestuoso oponente
Lentidosamente percorre quando estamos ausentes

Namorados....tudo maravilha
Olhar para o lado é apreciar a abadia
Somos santos...condutores do afeto
Idolatramos quem é, não quem somos...que é o correto

Entretanto, o tempo passa...o amor se rasga e o que sobra
Pode me chamar de tralha, canalha, a verdadeira corja
És verdade....tudo muda
O contrário se endireita e o certo vira de ponta-cabeça

Namorados, ambos os lados, enfadados
Dias corridos, sorumbáticos e enevoados
Mesmo que soluções brotem...desistem
Mesmo que flores floresçam... emurchecem...juntos

Namorados, antes desviassem do filho da Deusa
Já que não basta só beleza...não és perfeita
Deus gótico...há apenas barbárie em suas flechadas
Ainda sim, sorrisos hemorrágicos abrolham nas faces cansadas

Nesses momentos o tempo não é vento campestre
Venta forte opostamente...ventas apontadas para o leste e oeste
Ó tempo....és o verdadeiro bom samaritano
Trazes as verdades...é fácil dizer...eu te amo

Namorados....tudo é relativo
Olhar para o lado é ponderar debaixo do vestido
Somos pecadores....adutores da heresia
Contemplamos quem pode ser, não quem é...isso és uma premissa

Mas não...nem tudo tem que findar assim
Ainda mais nos corações dos adoráveis tupiniquins
Lutemos pelo respeitoso amor...enraizado, puro e sem contenção  
Pois não há dia, nem hora e nem lugar para nós mesmos sermos a verdadeira razão
De existirmos juntos...ou não

domingo, 10 de junho de 2012

Convidada Maria Luiza Falcão


CHORO NA CALÇADA


Percebe-se o choro já de longe, mas só de perto dá para ouvir melhor. E independente das suas razões, ele atrai as pessoas.
Os de mais sorte, confortavelmente instalados, mergulham em seus mundos bem alimentados, em estado de fervilhante alegria. Preferiam que aquele som não existisse, ou que parasse, não importava como. Mas diante do inevitável, fazem-se moucos, falam muito e até riem, tentando com isso abafá-lo. Os solitários buscam com olhos carentes. A solidão urbana é grande e senta-se a qualquer mesa, sem distinção. Mas todos ali sabem o que está acontecendo e, sem alarde, simplesmente deixam acontecer.
Alguns lhe dão as costas. Encaram os demais como a perguntar: você está ouvindo algo? Sem resposta, permanecem no lugar, ouvintes, porém passivos.
A menina chega.
Um grupo sequer nota. Parecem mesmo alheios a tudo, num universo à parte, compondo uma tribo especial. Entre si muitas semelhanças, no falar, vestir, agir... Corpos marcados com tinta, enfeites, estranhos objetos de um culto próximo à autoflagelação. Assemelham-se a sombras em suas vestes negras. Destacam-se, mas não se misturam. Partilham seu mundo e só.
A menina procura...
Há os que passam, nem distantes, nem presentes. Extraterrestres, viventes de um mundo além. Viajam em naves de lata ou vidro, aspirando vida, queimando suas existências. Seres que flutuam, que vão e vêm. Um deles recusa-se a ouvir. Acomoda-se no calçadão, oferece amendoim aos vizinhos, partilhando a própria miséria. Saca de um bolso um tosco instrumento e tenta a força preencher o ar com suas notas. Sem conseguir, chama em auxílio o menino que observa sentado em sua caixa de engraxate. Pretensão e esforço em vão. A pequena flauta está muda. Talvez em respeito ao choro. Talvez morta para o mundo, como seu próprio dono. Ninguém jamais saberá.
A menina oferece.
Alguns pares, de olhos fixos em suas mesas, estão alheios a tudo. Vivendo em castelos, em eterna guerra entre reis, rainhas e bispos, percorrem mentalmente aquelas estradas, calçadas em branco e preto.
A menina circula...
Outros seres voejam aqui e ali, oferecem, pedem, suplicam. O homem de barba estranha pára com seus badulaques. Mas o momento não é propício. Ninguém quer comprar. Eles também choram um lamento só seu. Apelos não atendidos abrem portas a atitudes extremas. A necessidade é maior que aquele pranto alheio que não lhes comove. Furtam a atenção devida e desaparecem numa esquina a mais.
Mas nem todos são indiferentes. Alguns ouvem em tímida solidariedade ou em franca parceria. Emocionam-se. Realmente entendem aquele momento e compartilham. Buscam transmitir sua força àqueles que pedem por ela, e quando a encontram, simplesmente sorriem como a agradecer. Em troca, num instante de intimidade, aquela platéia aplaude. O círculo se fecha. Faz-se a paz.
A menina encontra.
O som já não é mais de lamento. Não sente mais dor nem saudade. Não pranteia mais sozinho. Não é mais som, é melodia. Já não pede, confraterniza. Não é mais choro, é chorinho.
Assim a música segue em frente, em noites de terça-feira, no quarteirão fechado da Rua Rio de Janeiro em Belo Horizonte. São cinco, os homens a chorar. Dez mãos a nos enxugar o pranto.
Tão poucas as horas neste enlevo, mas a música tem este dom. Reúne estranhos que sem o saber, atendem àquela convocação. Chamamento que transcende, que vai ao além. Ou vem de lá. Quem sabe?
Ah! Quase me esquecia. O homem grisalho fuma, enquanto recolhe as mesas de xadrez. Uma a uma, desatarraxa seus três pés, recolhe-os à sacola. Os bancos pequeninos se dobram. Os tabuleiros se encaixam com perfeição numa velha carcaça de geladeira, projetado por certo, para aquele fim de vida. Recolhidos e guardados em saquinhos de pano, os nobres perdem todo o seu poder.
A menina vai embora com suas flores. Num mundo cada vez menos romântico, só uma flor conseguiu vender.
Os músicos também se vão. No lugar, apenas as cadeiras vazias. Até terça-feira que vem.



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Maria Luiza Falcão

 

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sábado, 9 de junho de 2012

A FAXINA NO FIM DO MUNDO


A FAXINA NO FIM DO MUNDO

Eu confesso
Saquei 300 mangos com o cartão magnético do segurado fúnebre
Retiro mensalmente a grana depositada pros falecidos a título de proventos de pensão por morte
Este é o meu esquema
Estelionatosinho basal contra a Previdência Social
Todo mundo rouba nessa porra
É a globaliladrão
Moramos no interior
Terra de ninguém
Onde se mata por vintém
Trabalho na Caverna do Capeta
Sou Servidor Público onde Judas perdeu as botas
Passo a vida coçando o saco e pensando merda
Não faço nada o dia todo
Vamos ao que interessa
Voltemos alguns meses atrás
Eu era casado e esse é o ponto
Minha mulher era a lascividade de minissaia
Até aí tudo bem
Casei por isso
Mas não
Ela era bem mais incisiva
Descobri que ela não se limitava a receber olhares dos outros
Numa das minhas várias noites entediantes a convidei pra termos relações no mato, bem como na adolescência.
Dei-lhe um beijo, os parabéns, ela deu de ombros.
Pegamos uma estrada pro interior, pra lá da casa do caralho, lá na puta-que-pariu.
Deixei-a lá com os caras das correntes e seus cachorros de coleiras de ouro
Na volta uma charrete atravessou meu caminho
Tentei frear, o carro derrapou e bateu.
Nada demais, amassou meu para-lama e quebrou uma roda da charrete do Zé Cachaça.
Ele caiu
Tava lá um bêbado do INSS estendido no chão
Sem sair do carro meti o pé do flagrante
Desde então minha mulher está desaparecida
Benditos pitbulls e correntes
Nesse dia fui dormir ansioso, de luto.
No dia seguinte, depois do almoço, fui pro trabalho e soube da morte do Zé Cachaça.
Fiquei incrédulo, mas nosso amigo Jorge ajudou muito falando do esquema dos proventos de pensão por morte, por sermos os Oficiais de Registro Civil da circunscrição local, o assento de óbito era lavrado por um de nós dois, se não o fazíamos dentro de quinze dias a contar do falecimento, somente poderia ser feito à vista de prévia autorização judicial.
Deixamos vários prazos passar
À época nenhuma pessoa se interessou pela morte do Zé Cachaça
Um cara sozinho
Uma bicha aidética sem família que nunca prestou favores a ninguém
Eu e o Jorge também gastamos a pensão do Zé Cachaça 
O desaparecimento da minha mulher foi muito triste pra cidade, principalmente pros homens que apreciavam sua generosidade.
As investigações até agora não tinham dado em nada
Hoje levei o Jorge ao encontro dos caras das correntes, os mesmos que conheceram minha mulher meses atrás.
Benditos pitbulls 
O Jorge também comia a minha indigníssima esposa
Viraram comida de cachorro
Até o fim do ano pretendo terminar a faxina no fim do mundo

Vocês também comeram minha mulher?

**********
Meus dois amigos de infância, pacatos policiais da pequena cidade onde moramos, botaram-me pra dentro da viatura, incrédulos da confissão e, com os olhos cheios, levaram-me pra delegacia.

Às vezes lembro-me dos lábios carnudos e das unhas pintadas de branco da vagabunda


Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Pulha Previdente




Olhar vazio como a vida, divisou embaçado o volver trágico e lânguido da pistola, da bolsa à boca. Indiferente como todo citadino que não se preza, não moveu palha. Apenas e tão-só um leve tremor natural ante o estrépito causado pelo disparo. Tão natural quanto a queda e o decúbito dorsal da infeliz. Por alguns segundos parcos, aquela barriga proeminente sob o vestido estampado com flores amarelas, aqueles olhos celestes-suplicantes alvoroçaram com flashes pardacentos e tortos seus pensamentos. Um balouçar de tronco mais um alçar de mãos afastaram o demônio da confusão, destrutivo que ele só. Vade retro, Satanás! Afastou-se, rumo ao seu habitat, agradável e sujo, frio e familiar, para encontrar os irmãos de caras pétreas, miseráveis e iguais. Um desgraçado filho da puta a menos no mundo - refletiu - e viu que era bom.

Carlos Cruz - 06/06/2012

domingo, 3 de junho de 2012

dogmas

o fantasma que mais amo
não arrasta correntes
sobre meus telhados
não caminha sobre cinzas
ou berra em maldições


me faz sorrir e chorar
faz brilhar essas cicatrizes
e pergunta: por quem morreu?
por quem foi sua luta?
pra que se arrepender?


ele vive a fugir do sol
vai embora quando amanhece
não mente, nem engana
sangra por fantasias
e sonha que sabe do amor.

sábado, 2 de junho de 2012

Espiral



Meu passado
ora me chicoteia as costas
e sangro,
lanhada e roxa

ora me morde a nuca
docemente
e me encoxa.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

facebooksídio

Sim, confesso: desisti covardente. Eu pensava nisso há tempos, não via sentido em continuar, estava sem alternativa. A intenção já pairava quando as relações se confundiram com falta de privacidade, este bem tão necessário porém renunciado pela modernidade tecnológica, tão longe e tão perto de tudo e de nada, que me parecia orgulho mas é insubstituível se perdida. A concretização deu-se quando minha intimidade se foi. Deixei de ser eu mesmo para me tornar alguém que achavam que eu era. Não me compreendiam! O que pra mim era singeleza, para outros era prepotência. Eu me achava direto e prático, mas me viam como grosso e antipático. Me vi julgado por coisas que não fiz, condenado por palavras que não disse, execrado por ser quem não sou. Me avaliaram parcialmente, me transformei, mesmo sem saber, em outro, meu perfil tornou-se non grato. Além disso, o registro infindável de futilidades desfilando como num carrosel de vaidades me parecia injustificável. Eu me via como numa mesa de bar alvo da panfletagem irrefreável dos ávidos por atenção. Embriagado, sufocado e entediado. Gastei eras tentando manter o interesse, ver o que os outros tanto apreciam, buscando essa incerta curiosidade do futuro, entretanto, me restava somente a amargura das vontades desfeitas e a melancolia da explicação não compreendida. Eu tentei, mas não deu. A pressão estava enorme. É claro que não aguentava mais.
Cometi facebooksídio!
Achava que seria o fim, mas foi o contrário, os descrentes estavam errados, a vida não acaba. Na verdade, inicia-se uma fase surpreendente. O dia fica gigante, há tempo para realizar o antes impensável. As possibilidades são imensas. Penso em malhar. Talvez escrever um livro. Quem sabe encontro um novo ambiente em que meus amigos se reconheçam, que nos reúna novamente, mas que não se torne apenas outra rede virtual do esgoto da humanidade.
Adeus.

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texto publicado originalmente no blog Bastardos do Velho Safado.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Convidado Thiago Tavares

O cético


Cansado e com fome, Rafael acordou, ouvindo passadas, abriu os olhos e com a vista ainda embaçada, viu a senhora manca e cega de um olho que, tarde da noite, entrava naquela encruzilhada com uma sacola preta nas mãos. “Talvez agora ela me dê ouvidos!” pensou ele que, sem perder tempo, se levantou e foi tentar se desculpar por mais uma vez:
– Sinto muito pelo meu atrevimento! Eu estou, profundamente, arrependido! Retire a maldição e deixe-me ir embora, por favor... – pedia em tom de desespero, contudo, a sombria mulher parecia não poder ouvi-lo e, como fazia das outras vezes, abriu a sacola que trazia consigo e iniciou a fazer uma oferenda destinada ao mundo espiritual.
Assistindo a tudo, Rafael continuava a implorar por perdão até que, cansado de ser ignorado, perdeu a paciência:   
– Velha maldita! – Por que nunca me responde?! – gritou, com ódio, enquanto a mulher, de fisionomia marcada pelo tempo, acendia velas e colocava algumas frutas no interior de uma alguidar.
Novamente não houve nenhuma resposta e tomado pela fúria, Rafael tentou, por diversas vezes, agredi-la, com socos e ponta pés, contudo, seus golpes atravessavam o corpo frágil daquela senhora como se ela não estivesse ali. Sem conseguir compreender aquele estranho fenômeno o rapaz continuou a desferir golpes e mais golpes, num esforço inútil, até sentir suas forças se esvaírem por completo.
Em meio a um choro sofrido, desabou sobre a calçada ouvindo a reza final daquela mulher que, em seguida, foi embora sem sequer olhar para ele. “Velha cruel!” pensou enquanto observava a senhora manca dobrando a esquina no final da rua.
Naquele momento sua raiva só não era maior que a fome, fato que o fez se arrastar até a oferenda, junto ao poste, onde vultos negros já disputavam espaço para sugar a energia etérica daqueles alimentos que estavam ali contidos. (Frango, frutas e bebida alcoólica... para alguém que já não comia há dias, aquilo era um verdadeiro banquete) Rafael juntou-se às entidades e, sem saber ao certo como fazia aquilo, iniciou a tragar a essência daquela oferenda enquanto pensava na ironia que estava vivendo. Justo ele que, desde os 12 anos de idade, chutava as macumbas que encontrava pelas encruzilhadas do bairro, agora necessita delas para saciar a fome.  
Quando finalmente se sentiu, ligeiramente, melhor, Rafael se afastou das demais entidades, indo até o muro de uma casa, aparentemente, abandonada onde se recostou. A mente, demasiadamente, perturbada não lhe permitia mensurar a quanto tempo estava aprisionado naquela encruzilhada. Tudo o que conseguia se lembrar era como aquele pesadelo havia começado...    

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Sabe aquele tipo de pessoa que não acredita, em hipótese alguma, na existência de fenômenos metafísicos, religiosos e dogmas? Pois é... assim era Rafael Lopes. Um jovem de 26 anos que não perdia uma boa oportunidade de zombar da crença alheia. Apesar da pouca idade, seus casos de descaso já eram muitos, pois, desde menino, nunca tratou com seriedade algo que não fosse passível de ser explicado pela ciência.
Sua história de zombaria teve início aos 10 anos de idade, quando passou a frequentar uma igreja, próxima ao condomínio onde morava, só para ter o prazer de divertir os amigos, debochando dos dizeres do velho padre que realizava as missas dominicais. Aos 12, como se aquilo já não lhe bastasse, passou a chutar as oferendas postas nas encruzilhadas do bairro e a dar, boas risadas, diante dos gritos de evangélicos, que ecoavam do interior das igrejas protestantes, como se o Deus, todo poderoso, deles sofresse de algum tipo de deficiência auditiva. Ainda na adolescência, passou a ridicularizar todo e qualquer tipo de dogma ou ritual religioso com o qual se deparava. Para ele as religiões não passavam de uma grande perda de tempo. Todavia, existem forças com as quais não devemos brincar e Rafael acabou aprendendo isso de uma maneira nada agradável.
A estória, aqui exposta, ocorrida num bairro carioca da zona oeste do estado do Rio de Janeiro, versa sobre um sinistro caso divulgado com o único propósito de alertar que, de uma forma ou de outra, todos estamos sujeitos a responder por nossas ações. 
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8 de novembro de 1996

Era madrugada quando Rafael e Rogério, embriagados, voltavam de mais uma noitada de curtição. Conversavam, animadamente, atravessando uma encruzilhada, já bem próxima de onde moravam, quando viram uma senhora manca e caolha parar em frente a um poste e abrir uma sacola preta de onde tirou velas, bebida, alimentos e duas alguidares.
– Para de sujar a rua e vai pra casa dormir vovó! – gritou Rafael, arrancando risadas de Rogério.
A senhora virou o rosto na direção dos dois ébrios rapazes que, cambaleando, passavam do outro lado da calçada, mas nada disse. Voltou-se novamente para a oferenda e continuou seu ritual. No entanto, Rafael não parou por aí. Ao ver uma garrafa de 51 que a senhora colocava, cuidadosamente, sobre o chão, resolveu atravessar a rua e dar continuidade ao seu desrespeito. Ele não desconfiava que, desta vez, sua zombaria não iria passar impune.
– Com licença! – disse Rafael apanhando a garrafa de cachaça para si.
– Devolva isso, rapaz!
Rafael ignorou a ordem e carregando a garrafa consigo, atravessou a rua novamente, como se nada tivesse acontecido.
– Miserável! – urrou a senhora apontando o indicador de sua mão velha e enrugada na direção do atrevido rapaz. – Que aquele que tem o poder de fechar e abrir os caminhos para o ser humano aja sobre sua vida trancando-a permanentemente!
Ao ouvir aquelas palavras, Rafael, imediatamente, voltou para chutar tudo àquilo que a senhora havia, cuidadosamente, colocado junto da calçada.
– Estou pouco me lixando para suas maldições, sem fundamento, velha bitolada! – Olha o que eu faço com toda essa porcaria! – retrucou ele desferindo um forte ponta pé numa alguidar que continha frutas em seu interior.  
Percebendo que seu amigo havia passado dos limites, Rogério aproximou-se para tirá-lo de lá e os dois saíram andando para longe da estranha senhora que continuava a fitá-los.
– Vai se arrepender por isso! – disse à mulher com ódio contido em sua voz.
Sem imaginar que a partir daquele momento, seus dias de zombaria estavam contados, Rafael regressou para casa e, uma semana depois, já nem lembrava mais deste ocorrido.

15 de novembro de 1996

A noite havia apenas começado quando Rafael desceu do elevador, deixando, pelo ar, um delicioso rastro de seu mais novo Pacco Rabanne.  Bem vestido, o jovem rapaz cumprimentou, educadamente, o porteiro do prédio e então ganhou as ruas, indo em direção ao barzinho, onde havia combinado de se encontrar com alguns colegas da faculdade. Como o local era próximo de sua casa, não levou mais que 20 minutos para chegar ao estabelecimento e, do outro lado da rua, já era possível ver como o bar, famoso pela boa música e ambiente agradável, estava lotado. Garçons andavam, de um lado para o outro, com suas bandejas repletas de caldeiretas de chopp enquanto um músico, de belíssima voz, embalava os casais apaixonados, ao som de Lembra de mim de Ivan Lins.  
– Rafael! – gritou uma voz, assim que o rapaz adentrou no bar. Era Rogério, que acenava de uma mesa mais ao fundo.
– Olá pessoal! – cumprimentou o recém-chegado, aproximando-se do grupo que, animadamente, bebia e jogava conversa fora.
– Cara, você não morre tão cedo! Eu estava falando, ainda agora, da maldição que te rogaram!  
– Maldição?! – Que maldição, Rogério? – perguntou, se sentando junto à mesa.
– Não vai me dizer que já se esqueceu daquela velha, manca e caolha, que você roubou na encruzilhada!
– Ah ta...! – disse Rafael que precisou de um breve instante para se lembrar do episódio. – Aquilo é bobagem! E eu não roubei coisa nenhuma. Só peguei o que ela iria desperdiçar. – Onde já se viu? – Colocar uma garrafa de 51, ainda fechada, numa droga de despacho.  
Todos riram, exceto, Vinícius, um colega de turma que parecia bem preocupado.
– Olha eu não sei não cara... tenho uma tia que meche com essas coisas e pelo que o Rogério nos contou, acho melhor você procurar um pai de santo para tentar te ajudar!
Rafael sorriu com escárnio.
– Desculpa Vinícius, mas se sua tia “meche com essas coisas” então ela esta perdendo tempo à toa. Isso tudo é crendice e não passa de uma grande besteira. Não vai acontecer nada comigo!
Disposto a convencê-lo do contrario, Vinícius apanhou um livro de umbanda, que trazia em sua mochila, e abriu na página onde havia uma imagem da entidade que a velha tinha se referido na maldição que lançara, mas de nada adiantou. O ceticismo jamais permitiria que aquele jovem acreditasse na possibilidade de haver realmente sido amaldiçoado. O grupo então entrou em outros assuntos e, sem que se dessem conta disso, as horas foram se passando. Rafael levou um baita susto quando olhou no relógio e viu que já eram 2:00h da manhã. Estava muito tarde para alguém que iria trabalhar no dia seguinte. Precisava ir embora e, contrariando os pedidos para que ficasse um pouco mais, despediu-se de todos com a promessa de repetir a dose na sexta-feira da semana seguinte.
– Cuidado com a maldição, hein! – ainda brincou Rogério vendo o amigo deixar o estabelecimento. Aquela foi à última vez que Rafael foi visto com vida.
Do lado de fora, o rapaz, que só pensava em chegar a casa e desabar sobre a cama, aguardava por um taxi, mas, após 15 minutos de espera, acabou desistindo e resolveu ir a pé mesmo. Fazia uma madrugada fria e mesmo com a blusa de manga longa que vestia, Rafael precisava esfregar os braços para afugentar a temperatura amena. O vento gelado soprava pelas ruas vazias enquanto ele avançava ouvindo o som do bar ficar cada vez mais distante. Quando atingiu a encruzilhada onde, na semana anterior, havia se deparado com a esquisita senhora manca que Rogério mencionara, não pôde deixar de se lembrar da conversa que tivera no barzinho. “Como uns marmanjos daqueles podem acreditar em maldição?” pensava ele, ligeiramente tonto, devido à grande quantidade de bebida alcoólica que havia ingerido.   
– Rafael! – bradou uma sombria voz vinda de trás.
Levando um susto, o rapaz virou-se, rapidamente, quase perdendo o equilíbrio, mas não viu ninguém. Estava sozinho naquela rua deserta. Acreditando ter imaginado coisa ele decidiu prosseguir, mas antes que desse um novo passo, tornou a ouvir a mesma voz:
– Rafael!
Um calafrio percorreu-lhe a espinha diante a reincidência que lhe dava a certeza de não estar imaginando coisas. Virando-se, lentamente, Rafael empalideceu ao constatar que não estava tão só quanto acreditava. Seus olhos fitaram um sujeito, exatamente igual à imagem que Vinícius tinha lhe mostrado no bar. Um homem de porte, extremamente, fino e poderoso que usava cartola sofisticada e também uma capa azul turquesa com contraste em vermelho, decorada com safiras amarelas. “Tranca ruas!” lembrou o nome da figura do livro ao mesmo tempo em que disparou a correr. O rapaz que até então jamais havia acreditado naquele tipo de coisa tentou escapar do destino que havia traçado para si, no entanto, numa velocidade sobrenatural, a entidade anulou a distância entre os dois e o agarrou pelas costas. Rafael gritou, desesperadamente, pedindo por ajuda, mas ninguém ouviu seus gritos apavorados.  
– Chegou a hora de pagar por suas travessuras, espírito desvirtuado! – sussurrou a entidade, ao pé do ouvido do rapaz, soltando uma gargalhada malévola.
Após essas palavras a entidade desapareceu e Rafael sentiu como se o seu corpo houvesse desabado, no entanto, viu-se ainda de pé. Estava tão atemorizado e preocupado em sair dali que não se deu conta de que seu corpo físico de fato havia tombado, sem vida, sobre o asfalto frio e que agora era somente seu espírito que, desesperadamente, tentava e, continua tentando, escapar daquele cruzamento.

Como foi dito anteriormente, todos estamos sujeitos a responder por nossas ações. No dia 16 de novembro do ano de 1996, Rafael Lopes foi encontrado, morto, numa encruzilhada do bairro onde morava e sua causa mortis permanece desconhecida.
Atualmente, os despojos mortais de Rafael estão enterrados no cemitério, Jardim da Saudade, em Sulacap... quanto ao seu espírito... bom, até os dias de hoje, ainda ouve-se relatos de pessoas que dizem escutar pedidos de socorro ao passarem pela escura encruzilhada, de Jacarepaguá, onde tudo aconteceu. 

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