segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Medusa,Prometeu, totens e espelhos



hoje pensei tanto nessa coisa doida
pensei no teu sorriso
sorri da tua voz
cansei de te ver
mas Gostei de te sorrir
da nesga da janela
donde despenca esse céu
eu te chamo

doidivanamente

tempestuoso vento trás teu nome
e vens arrastado e sereno
contar dos nadas abissais
braços remotos falam de totens colossais
cabeças de Górgonas caem dos bolsos
recolho cacos no colo
acaricio teus cabelos
sorrimos e eu

desentendo

deslizo dedos tortos
pelo reverso desses medos

quietos e caros
roubei a égide de uma deusa tão doida quanto eu
numa tarde quieta de abril
para congelar sorrisos
prometeu empedrar paixões e terrores

Odisseu, Aquiles, Penélope, Zeus, todos Prometeu
afrodite te escondeu sob um manto fino

oblíquo tu desvias dessa defesa incerta,
ri das serpentes que invento,
abraça-me os joelhos
através dos espelhos em que me guardas
deslinda venenos
destrava portas
ilumina desencantos febris

(imagem http://emilieleger.deviantart.com/)

sábado, 6 de outubro de 2012

mundo perro



"PERDEU, PLAYBOY!" "SE FUDEU, OTÁRIO!" "VAI TOMAR NO OLHO DO SEU CU, FILHO DA PUTA BABACA!" "VOU ACABAR COM A SUA RAÇA, SEU MERDA!"
Caixa alta, entre aspas. Assim me ensinaram na Academia de Polícia. Após o verbo e os dois pontos. A maioria dos colegas escrevia: ...então, João das Couves (policês acadêmico) disse: ou falou: ou gritou: Eu não. Preferia alternar outros verbos. Vociferar, esbravejar, bradar. Para variar, diria. Mas era mais para me exibir mesmo.


férias... férias. FÉRIAS! EU PRECISO TIRAR FÉRIAS! NÃO AGUENTO MAIS, CARALHO!



homicídios. latrocínios. sequestros. extorsões. extorsões mediante sequestros. roubos. furtos. lesões corporais. brigas. conflitos. pugnas. equimoses violáceas. lacerações. porradas. porradas. mais porradas. pow! blam! como nos gibis do frank miller. estava no limite. no limite. lembro do programa de televisão. precursor do big brother. dois programas idiotas. o segundo bem mais. babacas ávidos pela fama-fácil-sem-fazer-força expunham o que tinham de melhor: rostinhos bonitos e corpinhos sarados. caras, bocas e argumentos vazios para ludibriar os milhões de telespectros brasileños. ficaria george orwell satisfeito se vislumbrasse em que descambaria sua totalitária sociedade, sua personagem mão-de-ferro invisível que tudo via, sabia, controlava e reprimia? difícil saber. talvez almejasse a materialização da personagem, para botar ordem na casa, reprimir a súcia acéfala cheia de dentes e poses. apesar de que, e não se deve desconsiderar, há autores que dizem preferir as saudações pomposas e afetadas da crítica ao consumo desenfreado da populaça. balela! toda bexiga quer virar balão. e ganhar uma prata, pois prata é sinônimo de diversão em excesso e excessos despertam inspiração.



"conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". assim escreveu zaratustra, o discípulo. não. foi outro. barbudo. outro barbudo. que seguia aquele que alguns místicos asseguram ser zoroastro reencarnado. depois assassinado e ressuscitado. é a verdade. porque está nas escrituras sagradas. sagradas? todo escrito é sagrado. menos o diário oficial e a bula papal. o quê você disse? sei que vão cair de pau. afinal, escreveu, não leu, pau comeu! mas voltemos à verdade. a verdade é que só existe uma única verdade, ao menos para mim naquela noite fria: eu estava de - sa - co - che - i - o! por que e pra que tamanha mediocridade? beber é bom. dançar também. bater papo furado idem. foder, ah! gozei! nem vou mencionar a leitura de bons livros ou a audição de algum blues - qualquer um - ou até mesmo música erudita, pois isso é prazer para bestas empoladas como eu. por que os filhos da puta tinham sempre, invariavelmente, que se engalfinhar, dar socos, morder, enfiar facas, dar tiros nos seus semelhantes? seria um insight? uma consciência súbita e avassaladora de sua torpe condição refletida no outro? cadê minha psicóloga predileta quando preciso dela?



delegacia cheia. à porta, fila. burburinho que ocasionalmente virava falatório que virava gritaria. era hora de chamar o investigador santiago. mãe angolana e pai sueco, santiago era um misto de hércules com zumbi dos palmares, um mulato de dois metros e dez, forte como um estivador, de olhos claros e cara de bebezão. sim, aquele homenzarrão (ai, meu deus! que bofe é esse? remeti (ã?) ao amigo do salão. inevitável.) tinha traços delicados, bochechudo como um bebê de oito meses. daí a alcunha babyssauro, pronunciada entredentes, na delegacia. contudo, a impostura que faltava ao rosto sobejava no tamanho. santiago apareceu no andar de baixo. inopinado. nem precisava dizer nada, bastava chegar e ser visto. mas, a pseudotruculência era mais que uma ferramenta de trabalho, era uma necessidade pessoal, um recurso - eficaz, é verdade - para tentar rebater a brandura transmitida pela cara de neném. e ele disse, disse não, esbravejou (tá legal, sou besta, pronto): VAMOS PARAR COM A PORRA DESSA ALGAZARRA AQUI NA DELEGACIA! ONDE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO, CAMBADA DE GRANDESSÍSSIMOS FILHOS DA PUTA, NA MERDA DA CARALHA DA FODIDA DA CASA DE VOCÊS? PORRA! O PORRA! sempre arrematava o esculacho verbal, uma espécie de fechamento triunfal, "chave de ouro", diria professor diocleciano, do curso de oratória. O fato é que o esporro funcionou, mais uma vez. infalível, indefectível, batata. Atravessei a turba estática e com grandes olhos e quebrei o silêncio sepulcral: Santiago, segura aí. Vou comer alguma coisa. tá. mas vê se volta hoje. Vou tentar.



A noite estava fria, escura e malcheirosa. Uma brisazinha gelada e incômoda com odor de comida podre e urina esgueirava-se pelas frestas de meu paletó vagabundo comprado na loja do turco. Turco filho da puta! Vendia merda pelo preço de merda. Pensando bem, era justo. Pensando bem, o fodido era eu. Mamãe sempre dizia: estuda filho, estuda pra virar doutor e ganhar bem. Não. Não segui o conselho de mamãe. Virei polícia. Horas e horas perdidas com a cara enfiada em apostilas, livros, monitor do computador. A prova massacrante, a tonteira no final, o tombo-semi-desmaio. Um quase infarto no teste físico. Um quase surto no psicotécnico. Pra quê? Pra ganhar um salário de fome, ser taxado de corrupto e truculento pelos putos que jurei defender, sacrificar a própria vida se preciso for. Pensando bem, filho da puta era o sistema, o estado, o governo. Pensando melhor (e para encerrar a costumeira diatribe muda), o filho da puta era eu.



Cheguei ao Savana's. À entrada, constatei que o segurança era novato. Boa noite. O Rubi não veio trabalhar hoje? Do alto de seus muitos centímetros, o brutamontes dardejou um olhar hostil. Rugiu: quem quer saber? saquei a carteira - bendita carteira - e quase a enfiei na cara do negão de paletó, gravata e calça negra de tergal; o distintivo, mesmo velho e opaco, refletiu tênue a luz vermelha que provinha do interior da boate. investigador Arquimedes. a primeira reação do corpulento foi nenhuma reação. a mesma expressão carrancuda, a mesma atitude animosa. sessenta segundos depois, uma frase seca: espera aqui, vou chamar. entrou no inferninho. Enquanto aguardava, saboreava os odores que o lugar emanava, uma mescla de fumaça de chiclete tutti fruti, perfume barato e nicotina. Os aromas combinados às luzes multicoloridas e ao blues em alto volume faziam daquele lugar o paraíso na terra. ao menos para mim e os outros sacripantas bêbados embevecidos podres com quem certamente esbarraria lá dentro. queria entrar logo e me inebriar, tornar-me fumaça cheirosa e fétida, carne líquida inflamável, mergulhar e dissolver no oceano de bucetas altruístas e dissolutas, metamorfosear-me no ser primordial, metafísica e antropofagicamente ideal. quando minha ansiedade beirava o ápice, Rubi apareceu, magro, baixo e feio. sempre que o via, pensava: como um sujeito desses pode ser leão-de-chácara? o pensamento invariavelmente vinha acompanhado da impressão de que ele estava mais magro, mais baixo e mais feio. grande arquimedes, o melhor investigador da polícia civil do estado do rio! grande rubykleysson, o maior puxa-saco da vagabundagem do estado do rio! ei, alto lá, doutor! posso ser tudo mas vagabundo não sou não! trabalho e ganho meu pão honestamente. parou de traficar? pô, doutor, isso são águas passadas... agora, sou um homem lavado e remido no sangue de jesus. ah, tá. então, também não come mais as putas. bom... ninguém é de ferro, né, doutor? e jesus perdoa o pecador arrependido. ele é misericordioso. o senhor vai entrar? tem carne nova na casa, uma loirinha de olhos azuis, peitão, uma bunda de deixar qualquer um doido. sei. e você, é claro, já pegou. não, ela diz que não mistura trabalho com prazer. aquele papo de onde se ganha o pão não se come a carne. é um saco... Arquimedes esboçou um meio-sorriso. entrou.



casa cheia, mas não lotada. dava para se esgueirar entre os fregueses sem esbarrões ou pisadas. "fregueses o caralho! cli-en-tes!", diria madame samanta, a santa. com seus quase setenta, ainda fazia milagres na alcova, "dá até bicicleta em cima do pau", diziam. aproximei-me do palco, onde uma menina - que dificilmente convenceria alguém de sua maioridade - requebrava-se sensual e desajeitadamente e fazia caras e bocas para os putos que fumavam, bebiam e conversavam em tom elevado. cambada de porcos! poucos assistiam ao espetáculo. somei-me a eles. muddy waters, em um tom pontual e flácido, cantava "mannish boy" especialmente para a menina, parecia saber que aquele era o momento dela, só dela. aquela era uma das razões porque frequentava o savana's. o blues. a maioria das casas do gênero tocava apenas música eletrônica, aquele bate-estaca infernal que fazia minha cabeça doer. se não bastasse, ainda usavam aquelas luzes estroboscópicas que me deixavam zonzo. no savana's era diferente. boa música em volume razoável, luzes parcimoniosas. mirei novamente a moça, podia jurar que sua performance havia melhorado. "performance", odeio esta palavra. de repente, ela olhou para mim e sorriu. não retribuí o sorriso. sentia-me triste aquela noite, acho que mais uma vez os problemas fétidos do mundo invadiam sorrateiramente meu cérebro e se espalhavam pelo corpo todo, qual um câncer, qual odor de gente morta quando começa a putrefação. não era a primeira vez que isso acontecia. por mais que me esforçasse para mantê-los à distância e na companhia de seus donos, eles teimavam em me assaltar, me barbarizar, me emporcalhar com a sua pestilência fedorenta e voraz. você está melancólico hoje, santiago dizia. melancólico o cacete! vai se foder!, eu retrucava. a menina continuava sua ofídica dança, evoluía, dançava melhor com certeza. senti um cheiro forte, de um perfume que eu conhecia bem, francês. impôs-se sobre os outros odores não menos densos. sílvia! virei-me, dois passos e foi-se o metro que nos separava. engalfinhamo-nos naquela volúpia sôfrega e tenaz típica dos amantes que amam apenas com o corpo. beijei aquela boca vermelha como se fosse a última boca feminina na face do globo, suguei sua língua com ardor, sem pensar nos paus que ela havia acariciado naquela jornada de trabalho e em outras, centenas, milhares talvez. sabia beijar, a sílvia. assim como sabia chupar um pau. e foder. fodia muito. acho que o sucesso de sílvia se devia a um princípio simples que a aproximava de outros profissionais bem-sucedidos: ela gostava do que fazia. gozava, com quase todos os clientes, segundo me confidenciou numa dessas noites, entre uma trepada fenomenal e outra nem tanto. mas beijo na boca não, me disse certa vez, beijo na boca é só com você, meu pm gostoso. não sou pm, porra! quantas vezes tenho que repetir isso? ôôô... ficou bravinho? adoro quando você fica bravo... vem meter seu cassetete em mim, vem, meu policial malvado... esse diálogo invariavelmente terminava em uma daquelas camas sujas lá nos fundos da boate. mas nessa noite foi diferente. sílvia estava reservada para um gringo endinheirado, um magnata da internet, ela disse. fiquei puto. quando vi o sujeito, fiquei mais puto ainda. branco pálido, cara cheia de espinhas, uns vinte e cinco anos de idade, tênis nike colorido cheio de molas, calça jeans e camisa do chicago bulls. então aquilo era o tal magnata? ah, vai se foder! arrastada pelo braço, antes de sumir atrás da cortina vermelha, a puta ainda me jogou um beijo. minha melancolia voltou com toda a força. segui até o bar e pedi um uísque duplo. virei. pedi mais um. virei. outro. saí da boate, completamente e estupidamente bêbado.



a noite estava ainda mais fria. o asfalto úmido indicava chuva recente. se acreditasse que possuía alma, diria que ela estava tão fria como o clima noturno. minha cabeça acompanhava o fluxo de meus pensamentos que giravam alucinados por tempos, pensadores, bebedeiras e bucetas distantes ou nem tanto. como sempre acontecia quando bebia, tinha vontade de atirar, mas o homem-da-lei sofreava o desejo. súbito, surgiu um motorista apressado na via, bastante comum a essas horas avançadas, decerto movido e motivado pelo álcool e/ou outros entorpecentes lícitos e ilícitos. quando emparelhou comigo, reles transeunte ébrio, passou propositalmente sobre uma poça. tomei um banho de água suja e gélida. apesar da obscuridade, pude ver o sorriso do sem-mãe. FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! saquei a arma, mirei a traseira do auto, um Jaguar XKR conversível e atirei. para o alto. por pouco a razão não perde a peleja para o coquetel de raiva e vodka. por um triz. imaginei as manchetes no dia seguinte, primeira página do meia hora e do dia: POLICIAL BÊBADO ATIRA E MATA MOTORISTA. O investigador da Polícia Civil Arquimedes Sampaio, após sair da boate Savana's, conhecido inferninho de Copacabana, ponto de encontro de prostitutas, travestis e criminosos, assassinou covardemente o estudante Felipe Stonnenberger de Alvarenga na madrugada de ontem... não. definitivamente não. não vou dar mole pra esses putos. que crucifiquem outros pra vender seus tablóides de merda. parte do porre havia passado. encharcado, tiritava. novamente pensei na minha condição miserável. sim, era isso que eu era, um miserável, um merda. a melancolia sobreveio com força total, a boca medonha cheia de dentes afiados e alaranjados devorando-me pela cabeça. senti seu hálito nauseabundo, sua saliva gosmenta melando meus cabelos e meu ânimo de viver. um tiro na cabeça, morte rápida e indolor. indolor? será? ninguém tinha voltado da sepultura para lhe contar se realmente aquele átimo derradeiro e crucial doía ou não. acho que deve ser uma dor lancinante, a maior dor que existe no universo. depois, acabou.



paradoxal a ponto de reluzir e ainda assim - por muito pouco - quase não existir, modorrenta, turva, frenética, trágica, bela (como deve ser, a despeito dos implantes e peitos de jabulanis e ferraris e perfumes importados que fazem espirrar), a deambulação emitiu seu derradeiro estertor, descambou onde deveria - quiçá - o inevitável dever desgraçado e a monocórdia ladainha incessante: só pode nunca nada poder. se foder-se! de verde, de amarelo, de azul, de branco. de preto & branco. a vascaína tá dobrando a esquina. vaza, vagabundo! desinfle até virar galho de goiabeira. vou e volto sem sair do lugar. será a tal metamorfose? ansiada, dentre outros malucos, por literatos?, musicistas?, vates?. ah! vá te danar! ou vai se! pra não eriçar tão-só um gramático braço. não dá pra ser metamorfose, tampouco ambulante. os GM zunem cassetetes na cacunda e ninguém tá aí de plantão louco pra sofrer. só os S&M de araque e os leitores do caderno B. se uso avanço, ninfas avançam; se axe, exalo axiomas. piadinhas infames. adoro. e tudo isso somente pra dizer que cheguei à DP. comichão nos dedos. vontade de atirar da porra! tem nome isso, certamente tem. síndrome do desejo irrefreável e irresistível de atirar com armas de fogo (há atiradeiras ou bodoques no Sítio do Pica Pau Amarelo, nunca é demais relembrar, mesmo que os garotos informáticos e x-bóxticos desconheçam). deve existir. outra psicossomose bacana que consta ou deveria constar do vade mecum da psiquiatria: dependência de dupla penetração na delegacia de polícia. a merda é que só mulher feia e viado iam sofrer dessa porcaria. bosta!



giroflex vermelhos girando e girando e girando. sem parar. vermelho. sangue. vermelho-sangue. um sujeito negro chafurdando no seu próprio sangue no piso amarelo. pms com testas franzidas, fardas cinza engomadas, olhos injetados. sangue. olhos de sangue. sangue nos olhos. ao balcão, uma mulata chora. olhos entalhados no fundo de olheiras negras chovem em conta-gotas. lágrimas ininterruptas, fartas. sangue. lágrimas de sangue. farto, de novo novamente mais uma vez. estou farto e trêmulo. insano, enfim, estremeço. atirar! quero muito. necessito atirar! e atiro. descarrego minha pistola. recarrego, atiro de novo e de novo e de novo. alvoroço. pandemônio. pessoas ao chão. pms e civis e santiago se entreolhando, atônitos. em meio ao caos, transtornadamente tresloucado, sinto o calor no ombro somente quando a munição acaba. fumaça, neblina e cheiro de pólvora. o fluido vermelho que jorra, a cântaros, torna-se uma mancha crescente no piso amarelo. concomitante, choro e rio. babo também, acho. ora penso estar louco e sou tomado por um sentimento que acredito ser a alardeada, almejada felicidade; ora sobrevêm a decepção a partir da constatação de que ainda concateno pensamentos. dizem que os loucos não pensam. penso, logo, raciocino, logo, ajo em conformidade com a razão. quem disse isso? há estudos científicos comprobatórios de tal assertiva? ou serão meras quimeras dos dementes? não tenho respostas nem as desejo, quero apenas prolongar essa sensação de purificação libertária, esse júbilo remissivo que me enche de paz e me dá ganas de morder os dedos do pé e cantar as músicas do Benito di Paula. justo nesse instante - por que tão fugaz? - vejo a luz. vá para a luz, caroline! feliz, sim!, imirjo na lagoa rubra iluminada por pássaros de fogo emissários do hades. apago a luz e acendo um sorriso sem dentes no canto da boca. desapegado e telúrico, etéreo e com pés plúmbeos, não ascendo. a vida, afinal, não é assim tão ruim.



dolorido, desperto. deparo um mar de branco hospitalar. sinto-me um náufrago em minha solidão. a felicidade debandou ou viajou em férias ao camboja. quem sabe virou cinzas, causticada pelos pássaros de fogo. as lembranças vêm em pequenas doses, ao sabor do latejar do meu ombro. santiago aparece. segundo ele, surtei de alto a baixo, de frente e de costas, por dentro e por fora. em suma: endoideci geral e de vez naquela vez. serei avaliado e muitíssimo provavelmente - creio ainda não ter referido a simpatia de santiago pelos superlativos absolutos sintéticos - afastado pela psiquiatria; readaptado, talvez. felizmente - disse-me ele - não matou nem feriu ninguém. o computador do plantão, porém - coitado! - já era. virou uma peneira. trinta e um tiros é tiro pra caralho! você tava mesmo com raiva do pobre. volvi a cabeça e de soslaio, sorri esboçado e satisfeito como o jogador que vence a partida. missão cumprida. eu destruíra a caixa de pandora e salvara o mundo. glória a hesíodo! e a mim, claro. de preferência, acompanhada de uma medalha e uma promoção por bravura. afinal, a escassez de heróis demanda lauréis aos intimoratos necessitados de um cascalho a mais pra gastar com pornografias culturais e vícios legais. porque sou - convém jamais esquecer, sequer por um (seria ótimo?) átimo: um homem da Lei! VAGABUNDOS DE TODO O ESTADO, DO TIPO CORRIQUEIRO OU NEO-CONVERTIDOS CAOZEIROS, TREMEI! investigador arquimedes, o martelo da justiça, o flagelo dos párias, ainda está no páreo! a trovoada seguida do matraquear do granizo sobre o telhado galvanizado deu o tom maldito propício ao fechamento da diatribe. o céu desabava sobre as cacholas dos humanos, contribuintes e não. uma exaltação brotada na planta dos pés - pra não dizer frenesi, sempre achei um termo meio gay - escalou, deliciosamente implacável - nada adiantou, ficou gay do mesmo jeito - meu corpo e descambou e explodiu no cérebro. olhei a cidade enevoada e fluida e tive a certeza da inutilidade da minha existência. por isso e somente por isso, pela primeira vez, senti-me parte do todo social, mais idiota do que nunca. tive ímpetos de gargalhar.



e gargalhei.



Carlos Cruz - 18/12/2011

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

ARITMÉTICA NOTURNA




Dois copos
um cinzeiro
várias idéias
nenhum rumo

Seis cervejas, dois whiskys
mililitros alcoólicos
dez da noite
noves fora
páginas rabiscadas
péssima caligrafia
sem enxergar direito
tentando escrever poesia:
completamente bêbados
não fizemos porra nenhuma
só o de sempre. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Carta a Kerouac parte XIII, com cena de Sheyla de Castilho e a Palavra elétrica

http://www.youtube.com/watch?v=x-1eJr7ediQ&list=PL3DF0D8F92B3AED9B&index=1&feature=plpp_video


O que acaba comigo é a realidade, baby!

A verdade sobre os ombros dói mais que os golpes da palmatória e ainda trago marcas desses golpes em toda extensão da alma. A realidade arde bem mais que mãos depois do castigo!

Por muito tempo me enganei inebriada pela inocente certeza de ser única, especial, insubstituível.

Mas ao comprar meias-finas entendi que não fazem apenas uma e sim milhares delas, para mulheres que por algum tempo têm o mesmo gosto, vestem o mesmo número que eu!

O que me diferencia das outras são esses olhos enormes e agateados, vêem longe e atraem rápido demais!

Nunca quis esses olhos, nunca quis olhar as coisas com esse jeito de cachorro-do-mato, como quem assalta o galinheiro com prazer e foge para não ser apanhado.

Vejo as coisas como são e não quero encarar, desejei um filtro que me protegesse dessa dor nos olhos e não há óculos escuros que me livrem da verdade.

Recordei-me de uma noite em que me perguntou por que eu pedia para me foder com a força que tivesse e naquela época não tinha a resposta.

Hoje tenho.

O que não dói, não machuca, não penetra fundo e não rasga, não é real, baby!

terça-feira, 2 de outubro de 2012


SÁBADO 03 DE NOVEMBRO
AS 19:30 HS NA CASA DAS ROSAS
TEM SARAU A PLENOS PULMÕES
Lançamento do Livro da poeta Flá Perez , "POESIA SE ESCREVE COM T"
ENTRADA FRANCA MICROFONE E PALCO ABERTO
Av. Paulista , 37 Casa das rosas
Apresentação : Marco Pezao, Carlos Galdino e Jaime Matos


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Coloque o cinto, cidadão



- sabe por que te parei? – o guardinha da PM conferia meus documentos.
“Denúncia de que vim a esta favela para comprar maconha?”, mas deixei o pensamento só na cabeça e a sacudi num muxoxo de dúvida.
- o senhor não está usando o cinto.
“Ufs”. E respondi numa indefectível rima urbana: - sinto por isso.
- o senhor sabe que o uso do cinto é obrigatório, a falta de uso é passível de multa...
Fui concordando, enquanto pensava que essa lei servia apenas para o Estado exacerbar seus deveres e transferir ao cidadão o direito de escolher como se proteger em seu próprio carro ou na sociedade, igual o uso obrigatório de capacete para pilotos de motos e bicicletas e a proibição da posse de armas.
- mas desta vez vou te deixar ir embora. – Falou, magnânimo.
“Ah, a providencial preguiça das autoridades públicas que regula o sistema”. Assenti num ok, dei ré e engatei a primeira.
- coloque o cinto, cidadão.
- ué, você não disse que me deixaria ir embora?
- sim, mas de cinto.
Fingi que prendia o cinto e acelerei. Soltei meu corpo tão logo rodei alguns metros. “Sinto mais uma vez, seu guarda, mas sigo regras somente quando são úteis”. Peguei o baseado no cinzeiro, traguei e joguei a bituca pela janela, entristecido, eu não gosto de jogar lixo na rua, mas não podia manter o flagrante no automóvel. “Tchau, seu guarda”.

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publicado originalmente no blog Bastardos do Velho Safado.
 

domingo, 30 de setembro de 2012

Despedaçada


Do que estava inteiro, eu quebrei e despedacei. Quantas alucinações cabem num coração esfomeado? Em quantos podemos quebrar quem já está em pedaços?

Se a sua dor me atingisse, seria a minha menor?

Prefiro adoecer sozinha. Doer em prantos sensorizados com fundo musical. Mãos dilaceradas nos apertos e ruídos que não posso conter. Fogem de mim os barulhos que denunciam a loucura iminente. Não me olha assim. Olhar para mim diminui a dor do seu pranto? Fundamenta minha face reconstruída?

Sorrio hoje e todos os dias com a intrepidez de quem mente para viver, de quem mentirá a dor que sente e a felicidade que não possui. Sorrio e não me perguntarão o que me adoece.

Não há cura se a doença sequer chegou a existir. Não a reconheço, ela não está aqui. E de auto-ajuda eu me dilacero em negações eternas. Penso positivamente que todo esse pesar é brincadeira de esconde. Escondo o pranto, parto o tempo em dois e meus pesadelos travestem-se de sonhos coloridos. Cubro escombros com flores e deles finjo jardim.

Chamo de passado, mas não passou. Digo que está vivo, mas te encontro na morte. Desenho-o inteiro, no entanto, desloca seus ruídos em pedaços.

Chamo tristeza e, finalmente!, responde.

Ana Marques


Convidada Amanda Andrade

"Corpos unidos por um fio de prazer em apenas um sorriso"


Adão e Eva se amando.

A luz reflete o mármore que é a pele dela
seus dedos não resistem em tocar
em círculos lentos  
Uma expressão de surpresa
um suspiro ao som do ventilador
e os estalar das juntas
fazem o rosto bobo de amor 

A luz reflete os pontos sob a pele dele
seus olhos vermelhos de cansaço
de tantas horas se amando 
o frio entra 
e com um simples abraço 
ela o aquece
e com um roçar de línguas as palavras acabam-se
e o poema fica pronto
para que a noite de um quarto
viva escrita.
 
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"Contos de Encantos"

O dia do nosso encontro será quando tu quiseres, será quando nós quisermos, será quando Deus quiser. Tudo está a fluir para o mesmo fim que nos propusemos. Nós somos o nosso segredo, nós somos um só, somos o desejo das nossas caricias perdidas numa idealização sem fim. Seremos o tocar dos nossos corpos carentes. Seremos um só para a partilha dos nossos entes queridos.

Quito Arantes in "Contos de Encantos"

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Duas faces







Faça um circulo de fogo em volta de um escorpião que de imediato ele se suicida. Mentira! Este artrópode não tem esse sentimento guardado em seus instintos. Ele morre pelo calor do fogo, ele se desidrata e, automaticamente, seu aguilhão se curva como se estivesse sendo encravado em sua própria carapaça. Mas bem que a ideia de que o escorpião se suicida é bem interessante, é quase filosófico, guerreiro, poético ou qualquer coisa dessas inventadas pelo bicho-homem.
Quando a pessoa diz: sou um escorpião! Ela quer dizer o quê? Sou um suicida? Um ser peçonhento e vingativo? Uma pessoa que não leva pra casa desaforo, que não aceita perder?
Então vamos conhecer o outro lado deste grupo de aracnídeo: Ele é um dos mais românticos na hora de se acasalar. Depositam seus espermatozóides (guardados numa caixinha) num substrato limpo e numa corte nupcial ele dança pra fêmea, até hipnotizá-la por completo com o seu bailado sedutor, aí segura-a pelas pinças e a traz até a sua caixinha de amor que é sugada por ela. O escorpião é um cavalheiro que dança para a sua noiva.
Então, eu entendo, que quando se diz ser um escorpião, talvez seja pela fragilidade do ser, pela maneira de se defender e pelo amor que tem pela fêmea. Não vou entrar, neste texto, no mérito da partenogênese - deixo pra outro dia.
Faça um circulo de fogo da paixão em volta de mim, que de imediato, eu danço a dança do amor. Neste caso sou um escorpionídeo.

sábado, 22 de setembro de 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Primavera


Fresco aroma escorre

Pelos galhos encharcados.

Chuva em primavera.



Imagem da web: Claude Monet.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Convidado Eduardo Ferreira Moura

Ninguém

              Todo babaca acha que exerce uma profissão muito peculiar. É uma regra, quase uma lei, reescrita pela fala do povo todos os dias:
    - Taxista não é mole.
    - Vida de pedreiro é fogo.
    - Você não imagina como é ser esposa de cirurgião dentista.
    Todos acreditam que suas funções têm peculiaridades que as tornam únicas em meio a esse oceano de ocupações inventadas para resolver problemas que não existiam antes das suas invenções. Assim, todos se disfarçam de ninguém. E ninguém é feliz.
    Sou ajudante de entrega há três anos. Não vou cair no erro fácil de dizer que a vida de ajudante de entrega não é fácil. Até porque seria mentira. Há peculiaridades, mas não posso dizer que esses três anos na boléia do Guido tenham sido exatamente difíceis.
    Guido é o motorista. Ele não é de falar, por isso gosto dele. Não sei se ele gosta de mim, porque ele nunca disse. Mas acho que isso é gostar, no mundo dele. Também no meu. Nesses três anos dividindo a mesma boléia em silêncio, posso dizer que a gente se conhece bem.
    Então o caminhão bateu. Acontece, às vezes. A gente roda dez horas por dia. Dessa vez era uma manhã cinza e chuvosa de terça-feira. São dias muito tristes, as terças-feiras. Nós paramos no sinal e um idiota não. O Chevette bateu na traseira do caminhão. Pelo barulho imaginei que nossa lanterna havia quebrado e que a frente do carro havia sido destruída.
    Guido olhou para mim. Entendi, em seu silêncio, que devia conferir o tamanho do estrago e conversar com o idiota do Chevette. Sabia que se Guido descesse da boléia o idiota do Chevette nunca mais dirigiria nada que não sua própria cadeira de rodas.
    Então eu fui. Ele nem tinha saído do carro ainda, um Chevette verde-oliva repleto de podres na saia da porta. Ao lado do sujeito, uma mulher enorme de feia e terrivelmente gorda reclamava de qualquer coisa, acho que da vida. O sujeito, então, preferiu descer do carro.
    - Mulher feia, carro velho... A vida não tá fácil pra ninguém.
    Eu disse.
    - Pra ninguém.
    Ele concordou sorrindo amarelo. Precisava ser sincero ou ele não me pagaria o prejuízo da lanterna. Quase chorou ao ver a cara amassada do Chevette. Olhava para o pára-brisa e via a cara amassada da gorda e sentia ainda mais vontade de chorar.
    - Essa lanterna é vinte pratas. Já quebrou outras vezes. Mas eu reparei que hoje tá sendo um dia difícil pra você. Me dá quinze pratas e o resto eu tiro do meu bolso.
    O homem esvaziou a carteira, mas pagou. Enquanto eu voltava para o caminhão, ele voltava para os braços de sua amável mulherzinha. Para montar na boléia é necessário subir dois degraus. Enquanto eu fazia isso, meus rins doeram e eu gemi. Tem sido assim nos últimos dois anos. Tomei meu lugar no banco e coloquei o dinheiro no console do caminhão.
    - Quinze pratas. Dez pra lanterna, cinco pra cerveja.
    Mas Guido não sorriu.
    - Dor nos rins?
    Fiz que sim com a cabeça.
    - A vida não tá fácil pra ninguém.
    Ele disse.
    - Pra ninguém.
    Concordei.



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Eduardo Ferreira Moura
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Meu Desejo




Se te seco a boca, lagrimeja lábios meus
vem me do colo na arquitetura dos seus traços
passivamente atenta-me, viciando nítidos olhares
e ainda entendo que me recoloco, correndo para antigos abraços

Sabes de uma coisa? Eu estava a tua procura
me fortaleceram as pobres esperanças
me tragavam e consumiam os desejos, mas acordei cedo
antes da minha relevância

Será que quase nada seria integrado ao ignorante passivo
Na medida em que tudo poderá ser relevante
eu vivi, e na medida em que também sobrevivi
fui a prova marcada do meu amor intrigante

Sinto um sono referencial no que me parece roubar a alma
aquecendo-me o café quando nada satisfaz, apenas me retrai regurgitando aos normais
estou encurralado no xadrez azulado da tua saia à me veres frustado
tentando ser sincero para lhe dizer o que venero

Pois embora eu beba, ainda com os olhos de ressaca eu não te esqueça...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Através do para-brisa

Eles discutem. Ele quer, ela diz que também. Ele vai.
Passa a semana. Ele não quer. Sente a ausência. Mas ela diz que está tudo bem, que precisa pensar. Diz que não quer a prisão. Ele sofre, mas ama. Pensa. Ela diz que pensa.
Passa outra. Ele ainda sofre. Ela diz que.

ELE: Oi.
ELA: Oi.
ELE: Quanto tempo.
ELA: Tá tudo bem?
ELE: Tá.

Não está. Ele ama. E o que fazer? Tem dúvidas. Rupturas nunca são indolores.

ELA: Vamos lá em casa no fim de semana.
ELE: Tem certeza?
ELA: Aniversário do meu pai.

Ele pensa. Quer ir. Diz que vai. Ela sorri. Ele acredita. Quer acreditar.

ELE: Como você tá?

Ele quer ouvir que está tudo ruim. Quer ouvir sobre sua ausência. Quer saber da angústia daqueles dias. Quer a narração do calvário.

ELA: Bem.

Que não vem. Ela diz sorrindo. Não há peso. Ele sofre, mas não balança.

ELE: Que bom.

Ele não pode mais. Mas insiste. Quer mais.

ELA: Tenho que ir. A gente se vê no sábado.

Ele confirma. Ela vai. Ele pensa.
Sofre, mas espera.
A semana demora a passar.
Ele espera.
É sábado. Ele vai. Ela sorri com a chegada dele. Ele depositou todas as esperanças naquele dia.
Ela não.
Dois beijos, um oi e um tenho que ir ali ver umas coisas. Ele percebe, mas decide ignorar. Não está calor, mas ele sente o ar irrespirável. Mas insiste. A festa segue. Ela ignora. Ele não entende. Pensa em tudo.
Um caminho tão longo juntos. Pensa nos bons momentos.
E olha pra ela. Ela sorri.
Ele começa a perceber o caráter maquinal daquele gesto. Percebe, então, que toda a lembrança boa omite duas ruins. E que nem tudo é perfeito e cor de rosa. Que as coisas dão errado. A reprodução dos gestos consolida a relação e corrói a alma.
Onde estaria sua alma? Pensa.
Sente uma fisgada no peito quando decide partir. Seria sua alma? Entrando ou saindo? Pensa em cada gesto repetido. E sorri, sereno. Decide ir embora, sem despedidas.
E vai.
No carro, antes de ligar, olha através do para-brisa. Finalmente, ele entende.
Não pode mais. E percebe que é só seguir.


GH


GH - O cara!

Naquela época, eu trabalhava em uma empresa média, mas que estava crescendo, com muitos negócios. A empresa tinha departamentos técnicos e também uma área de treinamentos. Eu trabalhava de dia na área de consultoria e de vez em quando dava alguns treinamentos de noite. Era bom pelo dinheiro, mas pesava um pouco, pelo cansaço e pelo tempo longe da família e dos amigos.

Mas tinha o GH. GH era um cara legal, conversava com todo mundo, era muito inteligente. GH queria dar aulas sempre, todas as noites. Por causa dele, a empresa criou uma fila para os instrutores serem chamados. GH topava qualquer curso, podia ser qualquer coisa, se ele tivesse uma semana, ele dizia que virava noites e se preparava. GH tinha sua própria empresa, além disso trabalhava no ministério, tinha clientes próprios. GH era O Cara! Durante um tempo, achávamos que GH ia parar com isso depois de alguns meses, mas ele não parava. Uns 5 meses depois, resolvemos querer saber porque GH trabalhava sem parar desse jeito. A primeira coisa foi saber que ele não tinha filhos, família em outra cidade e que a esposa era médica e fazia muitos plantões. Mas nada disso era o motivo principal.

GH tinha uma meta. Ter um milhão de reais com 40 anos. E depois ele ia curtir a vida, segundo ele. Ele sabia que tinha que se dedicar. Apesar de não concordarmos muito com ele, por ele não se dedicar nenhum diazinho para lazer ou amigos, era um plano interessante e ele trabalhava duro e honestamente por ele. Sábados e domingos ele também arrumava o que fazer e o milhão ia chegando, segundo ele. Acho que ele tinha uns 33 anos, naquela época.

E por mais uns dois anos enquanto trabalhei nessa empresa, quase todo dia a noite, lá estava GH para mais um treinamento, sempre feliz, ele parecia mesmo feliz com aquela escolha, apesar de nós, da equipe da empresa, termos sempre umas duas semanas livres entre um curso e outro.

Em mais uma noite, ao chegar o GH, falávamos com um amigo sobre viagens e férias. GH ouviu e foi logo dizendo: Com 40 anos, vou tirar férias eternas! E sorriu. Nós perguntamos quando ele havia tirado férias antes e ele disse: Desde 8 anos atrás, quando comecei meu plano, nenhuma vez mais. Ficamos até desnorteados e mudamos de assunto. Eu sei que férias é uma coisa que muita gente não tem, mas para quem trabalha 3 turnos por dia incluindo finais de semana, 8 anos sem férias pareceu como algo sobrenatural.

Eu saí dessa empresa e ainda ministrei uns cursos lá de noite e ainda encontrei o GH, sempre por lá. Depois de uns 4 anos, estava em um bar com alguns amigos e chegou mais um, um dos donos da empresa onde tinha trabalhado. Ele estava com a cara fechada, tensa. Antes que nós perguntássemos o motivo, ele disse: GH faleceu! Parecia brincadeira. Nós ficamos mudos. Ele continuou: Acidente de carro, foi pego de lado por outro carro e não resistiu aos ferimentos.

Ninguém dizia nada, mas acho que todos tinham a mesma coisa na cabeça: E o milhão? E as férias eternas?
Mais nada, não tinha mais nada. Nem agora, nem antes, nem depois. GH não viveu para viver e mesmo assim não viveu.

Hospício Moderno


Hospício Moderno

Fui levado
Fiquei louco e viciado
Louco de amor e viciado nas pessoas que amo
Coisa normal
Mas normal de louco atual
Agora é tarde
Só me resta aguardar
Que tudo mude ou acabe
Fui levado.....

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Família

Família sortida...sorte sua tia, tio, avó, avô, todos em harmonia.
Pai, mãe e irmãos...ótima rotina, falta faz a companhia.

Ao menos o sentimento não se esvai, cresce proporcionalmente à distância adquirida, não pela rotina, quilometragens construídas com pedras da vida, nem sempre perto do que é mais correto...a família.

Quando presentes...mil presentes compensando os ausentes e o tempo escorrido. Quando olhares...sem palavras, pois não é preciso...apenas um sorriso basta para a tristeza desistir, ir ao longe e a felicidade apresentar-se e presente ficares até o fim.

À minha família que tanto amo.