sábado, 12 de outubro de 2013

Oração do Coração Perdulário

Agora a luz aquece de longe
Transpõe fiapos de nuvens amanhecidas
Sopro realista alisa minha face
Começo a despertar da noite concedida

Se ainda embriagado pela fome
Tu não foste o mais sincero mentiroso
Como sempre tivera e agora some?
Dou-te mais uma chance coração danoso

Que a dor é tão velha que pode falecer
A felicidade tão sacra que pode ressuscitar
Que a vida é tão justa que pode acertar
O momento exato de reviver

Perdoe agora meu coração perdulário
Que ama mais do que pode e sofre mais do que deve
Ouça pelo saltério os lamentos dos excluídos
Conserve sentimentos para quem realmente merece

Sob felizes auspícios há de anoitecer
A assertividade se instalar
O pernicioso se ocultar
E a fausta felicidade permanecer

Amém

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A Saga de José

e agora, josé?
.
seguinte, vai ancorar um navio, vindo da jamaica, lá no porto de itaguaí. tu chega lá e procura pelo Bollota, que é o fiscal chefe de lá. o cara sabe que tu vai chegar nele, mas não sabe como é a tua cara, nisso segue a senha pra não dar muita bandeira junto aos traficas, que geralmente são homens duplos. pergunta pra ele onde se pode comprar uma camisa do walderrama, o colombiano. aí ele vai te acompanhar até a sala do "carlito" que é o homem de ferro do Fernandinho. estando juntos vocês dois, aja com naturalidade como quem já sabe de todo o esquema. é isso.
.
quando cê vier, traz cem adiantado. o negócio aqui é diferente. meio antes, meio depois. não esquenta, a lei é geral. se tu foder com o mano, os cara vão cair em cima. faz como todo mundo faz. pega lá o envelope que te dei e despacha depois das quatro. se demorar, avisa. melhor assim. se alguém perceber, aborta e caia fora e não discuta. agora vai, o filho da puta não pode esperar mais.
.
José, a coisa tá pegando, José. e agora?
.
na última sexta-feira a Raquel saiu com o tal colombiano que te falei. disse, a pretexto do encontro, que a mercadoria era boliviana. mentira. ela saiu noiada, cheia da boa. mas vacilou na hora de se explicar pro Carlos. então você já sabe, ela se estrepou. e aqui, minha filha, se alguém se estrepa, se estrepa sozinho. só estou te dizendo isso pra tu ficar antenada com a coisa. estão te vigiando de longe, porra. acelera o trampo aí, e se manda pro uruguai. te vejo em montevidéu.
.
chegando lá, vai pro hotel de sempre e se der, pega a suite 303. fica reclusa e nada de telefonemas. cuidado com os grampos. a camareira é nossa, ela é russa e tem sotaque carregado, e vai te passar as coordenadas pra transitar por aí no momento mais propício. se alguém te perguntar sobre mim, diz que não sabe. você não é nada, só está fazendo intercâmbio cultural, explica.
.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Convidada Lêda Selma



                          UMA QUENGA DAS BOAS

             
            Olhe, amigo, ontem me refestelei como há muito não fazia.
            – E foi? E a refestelança se deu de que modo, homem?
            – Do modo que todo homem merece, ora!
            – Virgem, e foi?! Mas que mal pergunte ao amigo, como foi?
            – Vou principiar pelo início. Bote tento e aguce os ouvidos, hem!?
            – Tento boto, e redobrado, e os ouvidos já afiei. O amigo principie.
      Primeiro, escolhi a pretendida. Então, montei o cerco, fiquei
na vigília e encantoei a danada.
– Hum!... a danada, é? E aí, danou-se!
– Nem tanto. Já na primeira investida, ela se esquivou e fugiu...
– Quer dizer que a danada pôs a fuga no trote e desfeiteou o amigo!?
– Mas insisti. E de novo. Corre aqui, escapa ali e ela esperneando...
– E entre um esperneio e outro...
      Segurei com força a bendita que, desassossegada, arrepiou e
rebundeou...
      E entre um arrepio e um rebundeio...
      – Ela se rendeu.
– Rendida, rendida, em seus braços, siô?!
      – Também, pudera: eu ali, resolvido, com o fôlego alterado, o
desejo pidão...
– Um felizardo, o amigo! Aí num quieto, num calado, sonso que só...
      – Ah! e que coxas, criatura! De aguar a boca, os olhos, a vontade...
      Principalmente, a vontade...
– Bem, vou desativar o princípio e ativar a continuação...
– Virgem, e é aí que a coisa vai esquentar...
– Ainda não, se aquiete! Antes da esquentação, tem o ajeitamento, ora!
– Bem lembrado... O ajeitamento... 
      – Dominei a fulana e, no maior capricho, apalpei tudo e deixei
a tal peladinha.
– Que suadeira, amigo! Pe-la-di-nha? Desnudadinha? Em pelo?
– Em pele. Pele e carne. E quanta abundância...! A peitaria, então, que fartura!
       – Valei-me, protetor dos invejosos! Farta, sim, é a inveja que
me desarvora...
– Compostura, homem...!
– Sim. Mas deixe de lado a continuação e chegue logo na consumação,
– Se acalme! A pressa é inimiga da detalhação. Como lhe dizia...
      Peladinha, com as coxas, peito e abundâncias a seu dispor...
– Eita gastura a sua, homem! Ajeite o desajeitado e me escute, criatura!
– Bem sugerido! Então, pe-la-di-nha... Ai, o que abunda sempre agrada!
– E no ponto pra virar quenga! Uma quenga deliciosa...
– Quen...ga?! Assim, quenga, quenga?!
– Quenga, homem, quenga!  E quenga de primeira. 
– Modelo quengão? Quenga gostosa, cheirosa, carnuda...
– Quenga de primeira, das melhores. Encorpada, aloirada, cheia de suculências e quenturas...
– Minha Virgem, por piedade, uma sobrinha que seja! Ih! não é de bom tom abordar tal assunto com uma virgem, ainda por cima, santa! A senhora me desculpe o mau jeito...!
– Sobrinha? Que mal há? Afinal, somos amigos. Por que não...?
– “Por que não...?” O amigo quis dizer o quê?
– Que vou lhe ceder a quenga!
      O amigo descerebrou!
– Ela está ali, ó, no descanso... E quenga dormida é boa por demais...
– Minha Virgem, acuda o homem! Me ceder sua quenga...?
– Sim. Ou o que restou dela. Depois de ontem à noite...
– E que noite, posso até imaginar...!
– De revirar os olhos! Ela sobre a mesa, remexendo-se, hum,
ao mais simples contato...
– O quê...?! Em cima da mesa? O amigo, pelo visto, abusou...
– Até me fartar, ufa! E, como lhe disse, a quenga é sua agora.
Dê um trato na dita! 
– O amigo perdeu de vez a compostura...?! O que é isso?! Me ceder a quenga depois de uma noitada...! Se atipe, siô!
– Ande, a gostosa está à sua espera! É só afogueá-la e...
– Pare de troçar comigo, moço! Vê se pode: eu e a quenga do amigo, em sua própria casa...!
– Eu mesmo vou reanimar a cheirosa e deixá-la no jeito pra você, sossegue!
– Espere aí! O amigo extrapolou e até me ofendeu...
      – Tome tenência, homem, e venha logo, venha, se adonar da saborosa...
– Me adonar da... por favor, amigo, judiação tem limite!
– Se adonar, sim, da galinha que virou quenga ou, se preferir,
engrossado de fubá!    

---
Lêda Selma
poetaledaselma@hotmail.com


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

BUCETALGAMER - eu te amo, amor.


Menores de dez anos não se misturam com meninas
Não sentem atração sexual
Meninos de oito anos odeiam o universo feminino
Antes da puberdade garotos não precisam delas
Pirralhos são a legitimação do “sem tesão não há relação”
É verdade!
Homem também não gosta de mulher
Homem gosta é de fuder
Sábias crianças intuitivas
Como disse o célebre nariz de platina:

- Se mulher não tivesse buceta, eu não dava nem bom dia!

Acontece que elas têm
E buceta é melhor que punheta
Da puberdade em diante precisamos delas
Aí começa a confusão da evolução humana
Pro resto da vida confundimos tesão com casamento
Negamos a Verdade em miseráveis relações
Tudo em nome da buceta
Então é bom dia
Boa tarde
Boa noite
Ai meu deus
Que merda
Puta que pariu
Aceito
Pronto, estamos casados com a buceta.
Mas a mulher vem junto
Fazer o quê
Separar a buceta da mulher
A mulher torna-se um utensílio doméstico
A buceta, um vídeo game last generation.
Sabendo jogar Bucetalgamer passamos de fase
Ganhamos boquetes extras e o superânus
O problema é zerarmos Bucetalgamer em menos de um ano
E quando percebemos nossa mulher na sala, game over!
Ação da progesterona
O linguajar feminino e suas confusões são beócios ululantes
Apesar de utilíssimas no Bucetalgamer, a boca e a língua são facas de dois gumes.
O instrumento do desentendimento feminino
Na ótica delas, a língua não cabe dentro boca e serve pra ganhar discussões.
Na nossa, pra ganhar porra, um papel bem mais nobre.
Mulheres não jogam Bucetalgamer
Bucetalgamer é o instrumento de negociação delas, o cacife.
Um pote repleto de fichas de mil dólares
Frias e calculistas
Elas blefam
Sobrinhas do John Wayne nos salões de beleza
Pistoleiras sem aptidão
Sempre pode piorar
Pensamento clássico feminil
O pior tipo de mulher não bebe
Restringem o convívio ao sofá
Sentadas vendo porcarias
Usando a boca e a língua de forma errônea
À deriva num oceano de detritos culturais
Novelas
Programas de fofocas
Programas de culinária
Programas de calouros
Depois não sambem por que falam merda
Nacos do nada flutuando sem destino
Tipos específicos têm inveja do pênis
As metidas a entender de futebol, com certeza.
No fundo elas querem ser homens
Nunca serão!
Mulheres são astronautas sociais
O lance delas é conquistar o espaço
Modinha escrota do politicamente correto
Não caio nessa
Falo na cara, doa a quem doer.
Mulheres são aglomerações de rabos respeitosos e almas nem tanto
De unhas pintadas e cabelos escovados elas falam
Quer que eu desenhe
Simples assim
Nunca jogaram cascudinho no recreio
Nem sabem o que é cascudinho
Mas tão lá enchendo a boca e ponderando sobre o impedimento
São um tremendo gol contra
Isso sim!
No meu receituário, eu prescreveria:
Mais louça, menos rua, e nada de controle remoto.
Tirem os controles delas
Do contrário
Vão botar na porra do GNT e você não vai fuder
Mulher é bom de pau duro, de pau mole eu passo.
Levá-las ao cinema é outra ideia equivocada
Vão querer ver alguma bosta sentimental
Ou um musical de saquinho de avião
Eu decidi!
Vou passar no mercado
Minha mulher vai preparar um rango
Eu vou cheirar e não vou comer
Nem a comida e nem ela
Vou matá-la
Eu te amo, amor.
Só de pau duro!

**********
Décimo andar da Galeria Menescal, Copacabana.
Sala 1008
Na porta a placa:
"Dr. Gustini Victor Strasser – Psicólogo"

Pablo Treuffar / Leandro Gama
Licença Creative Commons
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Sabotagem





Contei até dez e
Meio incerta
Disse não pro teu sorriso

Não quero mais no meu colo
Essa alma desabalada
Essa coisa quebrada
Esse desejo inacabado

Decidi

Flanávamos no meio dessa aurora
Tudo era baço menos teu sorriso

Não te contei?

Sei desfazer o laço
Bastaria cortar essa liga
Que tua língua tem
Que me fisga

Bastaria não pensar
Calar tua voz imaginada

Bastaria...

Eu sei

Desfazer o laço
Fugir desse abraço
Contar até dez
Até cem
Até...

Que teu sorriso
Desata a ponta
Noutro canto
E vem outra noite
Outro verso
Outro encanto
E esse fado
Fiado em desertos

Os fios desse estofo me distraem
Embaraço os dedos nos teus
Risco tuas costas
Desenho teu nome
Sorrio
E fico
Enovelada
Enroscada
Enrascada
Engasgada

Traçando mapas para o nada
Perdida e enredada

Não quero contar mais nada
Confesso às minhas asas

Aquelas que dormem bem ali
Presas por teus alfinetes na almofada



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Um hotel na Monsenhor Eduardo


15h47
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Bebeu um gole no gargalo da garrafa, a língua já áspera pela mistura de vinho, cerveja e cigarro. Sentindo o álcool fazer efeito e elevar suas vistas turvas, se acomodou na poltrona.

Na calçada em que se encontrava jogado algumas horas antes, sua cabeça, ao acordar foi a primeira coisa que sentiu. A pele da cabeça, o couro cabeludo sendo arrastado no cimento. Convulsionava. Tinha isso às vezes, monstro sinistro escondido sob seus olhos. Era sempre de repente, súbito.

Às vezes quando tinha soluços, temia que deles, os soluços, como que em contrariada disputa, brotasse a temida crise de epilepsia, impondo sua histeria muscular. Não há quem se sinta à vontade dentro de uma crise de epilepsia. Um caldeirão fumegante, panela de pressão borbulhante. A sensação eminente de que uma multidão de demônios lhe arrancará a língua, ao mesmo tempo em que desejam e tentam sair por todos os seus poros.

Quando tudo acabava sobrava um gosto de sangue em sua boca, nem sempre, mas muitas das vezes que acometia uma visita a esse inferno.

- Dá um gole - pediu ela.

Ele se voltou, corpo arqueado em um quase S. Percebia-se como um boxeador morto em combate e ressuscitado por obrigação contratual, forçado a terminar sua luta. Só que seu Dom King* era um Deus escondido atrás de seu globo ocular. Encoberto pela retina negra de seus olhos.

Assim, ele se virou contorcendo todos os músculos doloridos das costas. Suas vertebras fora do lugar rangeram num imperceptível som, minúsculo aos nossos ouvidos.

- Toma. Vou abrir outra.
- Me morde.

Ele caminhou sorrindo, olhando os prédios emoldurados pela janela gradeada e aberta de seu quarto.

Quando das primeiras crises, ainda adolescente, acordava dos delírios com um tesão desgraçado. Logo já ficava de pau duro, e tinha realmente de ficar sentado, quieto, como todos sugeriam, não para se recobrar do choque, mas justamente, pra tampar o membro rijo nas calças.

Beber e transar depois das crises sempre foram seus principais objetivos. Não havia outras formas melhores de libertar a tensão dos choques e da violência das convulsões.

Abriram as cervejas e jogaram as tampas num latão de metal no canto do quarto.

- Vamos depois destas?
- Sim.

Ele queria perguntar a ela como havia acontecido o surto, mas era decepcionante ouvir algumas pessoas dizendo. Não tinha riqueza de detalhes nem tensão narrativa.
Muitas vezes era apenas - "Você caiu de repente e me assustou".

Como que lendo seus pensamentos, ela inexplicavelmente diz.

- Achei que você ia morrer hoje. Estávamos caminhando, você estava fumando e falando sobre as bolsas de valores quebradas na Europa e da última entrevista do Irmão Isacke, daí seus olhos se fecharam rapidamente, achei que você fosse rir, mas contorceu a cara – e ela imita lindamente a cara que ele tinha feito – e bateu com a cabeça na parede. Se a gente estivesse numa ponte ou em um barranco, você tinha “ido” – e ela ri da possibilidade – Você deu um pulo para o lado de lá e despencou, se debatendo meio que contra a parede. Eu já tinha visto crises mas a tua é muito forte.
- Sou um tipo de hulk imprevisível do cotidiano.
- Você é doido.
- Vou comprar um cigarro. Quer algo?
- Mais cerveja.

Ele riu, vestiu as calças, os chinelos e uma camisa.

- Se apronte que já tá dando a hora.

Frances era ótima companhia. Inteligente, rápida e confiante. Em uma única troca de olhares e num arfar profundo do ar ao entrar em um ambiente, era capaz de compreender tudo o estava ocorrendo em uma situação e à sua volta. Sexto sentido era seu sobrenome. Seus punhos e braços cheios de cicatrizes e marcas feitas com gilete e cortes produzidos por tesouras cegas e facas de cozinha eram signos de sua ruptura com a autocomplacência. Frances há muito tempo era uma solitária, apesar de ser uma mulher muito bonita, o que em certo sentido só reforçava sua melancolia.

Ele desceu pelas escadas os dois andares do Hotel Paris na Avenida Monsenhor Eduardo. Atravessou a rua e entrou em um bar de madeira, misto de botequim e pequeno prostíbulo popular, que inclusive funcionava às tardes, atendendo aos jovens trabalhadores da região, que se deitavam, com nenhuma desenvoltura e alguma vergonha, com as barrigudas moças vestidas de calças legging.

- Um maço de cigarros, por favor. Um Belmont vermelho.

Duas crianças se alimentavam de bolachas e refrigerantes em uma mesa próxima. Filhas das jovens meretrizes, com certeza. Tinham aspecto saudável e o cabelos revoltos característicos de meninas de 8 anos. Cabeleiras indomáveis e brincalhonas que lhes caiam em cachos nos rostos e angelicalmente, com as mãozinhas atabalhoadas, eram jogados para o lado ou prendidos no alto das cabeças.

Atravessou a rua novamente, com um cigarro acesso nos lábios pensando que em sua infância e depois adolescência, havia comido muitos pastéis na feira livre, pelas manhãs, naquela extensa avenida. Muitas vezes vindo de alguma festa de sábado à noite.

Quando saiu de Uberlândia aos vinte e poucos anos pra viver na fronteira do Paraguai, não tinha ainda o entendimento do mundo. Da vida. Não havia amado ainda, não havia passado fome, sentido dor ou se fodido e muito menos pensava que iria um dia matar alguém. Tantos anos depois, retorna justamente para realizar um trabalho na cidade em que nasceu.

Disse à atendente do Hotel que estava saindo e subiu as escadas.

- Frances, vamos?

Ela já estava pronta, vestida de calça jeans justa e botas, colocou uns óculos escuros e foi ao banheiro. Depois, jogou a bolsa no ombro e o esperou vestir uma nova camisa limpa e seus sapatos. Desceram juntos e pediram à atendente que chamasse um táxi. Ele carregava uma mochila de viagem nas costas.

- Vamos para o bairro Roosevelt, amigo. – o taxista partiu rumo ao destino.

O Roosevelt é um bairro nascido nos anos 40 ou 50 e rezava uma lenda sobre ele. Que havia sido projetado por um arquiteto comunista para que servisse de “aparelho”, de esconderijo a perseguidos pela ditadura Vargas. Suas ruas eram totalmente confusas e em vários pontos formavam labirintos, pontos cegos e becos. Caracóis de asfalto e postes de luz. Um lugar facílimo para se perder. Mas, não hoje.

Desceram do táxi a alguns quarteirões do destino final e caminharam adiante. Tocaram o interfone de uma casa com cercas elétricas sobre um muro verde alto.

- Oi? – perguntou a voz de um homem.
- Olá. Sou eu. Omar. – respondeu.

O portão foi aberto.

A área externa da casa era arejada e bonita, decorada com muitas plantas dependuras em xaxins. Um grande cachorro pastor alemão os observava de um canto, com uma cara lerda de quem sabia ser ele, o grande dono de todo aquele pequeno reino arborizado.

- Olá, Omar. – um homem de cerca de sessenta anos, cabelos grisalhos e bigode preto veio lhes receber - Vamos entrar.

O interior da casa era muito elegante, com grandes tapetes cobrindo o chão, vários quadros e uma adega com garrafas de vinho e cachaça.

- Bem, vamos ao que interessa. O alvo estará na Cidade Jardim, em uma reunião com empresários por volta das seis horas. O endereço você já decorou?
- Claro.
- Não precisamos de alarde nem de grande confusão.
- Obviamente você não precisa dizer isso.

Nelson o olhou nos olhos nesse momento, fixamente. Era um homem acostumado a dizer o que quisesse e pensava. Não estava familiarizado com ninguém lhe dizendo que não precisava falar o que queria.

- Certo. Bem, então tome aqui. – lhe empurrou um envelope que estava sobre a mesa. Olhou novamente para o homem à sua frente. Em pé, Omar lhe pareceu mais velho, sob a sombra do pórtico. Nelson pensou; “um assassino deveria ser mais humilde. Para alguém que não dá valor à vida, deveria entender que a sua própria também não vale nada, e que uma palavra mal dita poderia lhe custar um tiro na nuca, nesse exato momento”. - Ok, Omar. Boa sorte.
- Obrigado.

Saíram sem se cumprimentar ou despedir. Com o dinheiro no bolso e a adrenalina aumentando, sua mente agora passava a raciocinar exclusivamente sobre os detalhes que teriam de cumprir para que o trabalho fosse feito.

- Frances, vamos tomar um café?
- Claro.

Pediram dois cafés em uma lanchonete na Avenida Cesário Crosara.

- Faremos como sugeriu?
- Sim.
- Você está bem? Pergunto por conta da crise epiléptica.
- Fique tranquila. Não irá acontecer novamente. Fique tranquila.

Saíram caminhando pelo bairro e depois de vinte minutos avistaram uma Pajero preta com placa de São Paulo estacionada sobre uma calçada. Omar retirou do bolso uma chave, abriu as portas da Pajero e entraram.

- Liga o som pra gente.

Tocava jazz numa rádio local.

- Por mais que o mundo pire, veja bem Frances, a música sempre existirá sobre nossas cabeças, sobre nossas vidas. A música é intocável.
- Não sei. Acho que música tem sua época, essa aí não me agrada. Muito chata.

Dirigindo Omar riu e se distraiu com o solo de trompete do grupo de jazz. Gostaria de saber quem estava tocando. Torcia para que o apresentador dissesse. Detestava dúvidas. Seguiram-se então mais duas composições de jazz e ao entrar no ar, falando calmamente, o locutor disse ser aquele o programa “Jazz by Jazz” da Rádio Universitária, e anunciou o fim sem disse o nome das canções.

Omar pensou – “Meu Deus. Isso não foi um bom sinal. Merda!”

Logo em seguida um programa sobre a atual conjuntura política do país entrou no ar, com convidados debatedores.

Depois do assassinato da presidente Dilma, exercendo seu segundo mandato, o país se tornou uma terra gigante e sem lei. Com a intervenção da ONU e do governo norte-americano, os grupos de poder conservadores nacionais articularam a grande campanha pró-presidência de um jovem político religioso e negro, Irmão Isacke, que venceu as eleições em 2018.

O panorama político e social do país se encontra desde então como um barril de pólvora, mas não prestes a explodir e sim, com seu pavio sendo acesso diariamente e esse barril, como um Cristo ressuscitado ao terceiro dia, ressurgindo sanguinário e explosivo a cada manhã.

Rumaram para o bairro Cidade Jardim. Estacionaram o carro num descampado ermo e montaram, juntos, o rifle de alta precisão Barret M107, que estava embaixo do banco traseiro da Pajero.

Com a mira telescópica focada no saguão da casa onde o alvo se encontrava, aguardaram em silêncio por cerca de trinta minutos. Então um grupo de pessoas saiu de dentro da casa, conversaram um pouco no saguão e se despediram. Um homem e uma mulher permaneceram parados.

O tiro atingiu a cabeça do homem que caiu violentamente. A mulher se desesperou como uma Jacqueline Onassis redesenhada. Omar deu o rifle a Frances, que começou a desmontá-lo e deu partida no carro.

A cabeça de Omar doía, teve medo de que uma crise de epilepsia o acometesse. Entrou rapidamente numa estrada vicinal na rodovia que levava à cidade de Prata e dirigiu por uns 50 km, encostando o carro na porta de um casebre. Dois homens o esperavam.

Havia um monomotor estacionado dentro de uma plantação de café.

No ar, ao lado de Frances, sobrevoando o barril negro de enxofre e pólvora que havia posto fogo, Uberlândia, agora com seu futuro candidato a prefeito assassinado, Omar pensou em uma maneira de descobrir que linda canção era aquela que ouvira no rádio.

E decidiu voltar àquela cidade apenas quando seu corpo necessitasse de uma cova e do merecido desconhecimento que somente os mortos desfrutam.

*Don King é um norte-americano que foi produtor musical do grupo Jackson 5 e empresário do ex-pugilista Mike Tyson