sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sobre ditaduras

 King Jong-Un

Muamar Kadaffi


 Josef Stalin




Os ditadores em suas torres de marfim observam

Como cães de guarda, vigiam a nação
Matam minorias
Lambuzam o corpo com as moedas contadas do povo
Sorriem simpáticos  para o mundo

enquanto ignoram armistícios


Os ditadores uma noite acordam com o barulho
Olham a cidade abaixo:
há luzes e agitação


São bombas

Mas imaginam ser fogos de artifício.



Fotos: wikipedia


domingo, 22 de maio de 2016

Domador de demônios


Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as ideias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.

Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O Quinto Trapalhão

A estória que aqui será contada é daquelas que com o tempo caem na boca do povo, ganhando, para alguns, um tom de dramaticidade; para outros, de suspense, do tipo: “escuta só, essa é meio que segredo, ninguém pode saber...”. Apesar de um tanto quanto obscura para muitos brasileiros da nova geração, entre os mais antigos a estória que irei contar aqui foi e ainda é bastante comentada (e devidamente ‘aumentada’) em alguns botecos deste Mercosul. Pois sim, caros leitores, nosso personagem, apesar de brasileiro, foi mais conhecido de fato em nosso país vizinho e rival Argentina, do que aqui. Mas afinal, de quem estamos falando? De ninguém mais, ninguém menos do que ele, o palhaço Barrigão, ou como ficou conhecido na grande Buenos Aires, Él Barrigon de la Noche.

O lado brasileiro da história é o mais obscuro. Para começar, Barrigão veio de uma família pequena, como filho de adoção. Não há praticamente nenhum parente vivo hoje para confirmar a versão oficial dos fatos, mas o que se sabe é que, além de viver como palhaço de circo, por muito pouco Barrigão não chegou ao estrelato no Brasil sendo um dos Trapalhões. Isso mesmo. O famoso quarteto que animava os domingos da criançada era para ser um quinteto, aparentemente nesta ordem: Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Barrigão. Esse foi, sem dúvida, o maior golpe que Barrigão levou ao longo da vida. Dizia ele que, muitas das piadas levadas ao ar a partir de 1977 no programa do quarteto tinham sido criação dele (nem Didi, nem Dedé quiseram se pronunciar acerca da veracidade ou não dos fatos).

Desiludido com o sucesso dos demais, Barrigão enfrentou problemas com a bebida no final dos anos 70. Apesar dos pesares, uma nova esperança surgiu quando um uruguaio, que levava o apelido de Paco, viu uma apresentação de rua de Barrigão em Balneário Camboriú, no sul do Brasil. Encantado, Paco convidou o brasileiro para se apresentar em Punta del Este na temporada de verão, pois lá o cachê e a gorjeta dos milionários, seriam sem dúvida maior do que eram ali. Ganhando um novo fôlego, Barrigão desembarcou no começo de dezembro em Punta, para uma nova fase em sua vida. Como seu humor sempre havia sido muito gráfico – com ovos quebrados na cabeça, cambalhotas e baldes d’água na cara – não seria nada difícil fazer os turistas rirem de suas travessuras.

E exatamente como o fora prometido, o dinheiro era melhor lá do que no Brasil. A única coisa é que Punta morria no inverno, e Barrigão passou a participar de modestos espetáculos circenses no interior do Uruguai. Mesmo não estando totalmente livre do vício da bebida, ele queria mais para si do que circos pobres e apenas pão e água como pagamento em muitas de suas apresentações. No verão seguinte, voltou à Punta para lucrar um dinheiro maior, e lá conheceu quem seria por muitos anos, a amor de sua vida: a argentina Cecília.

Pode-se dizer que, ao menos nos primeiros anos do relacionamento, Barrigão conseguiu alcançar um pouco do prestígio de que tanto almejava. Mudando-se com Cecília para Buenos Aires, El Barrigón passou a ser cadeira cativa nas casas de espetáculo da Avenida 9 de Julio. Por atuar na noite é que sua alcunha foi estendida para El Barrigón de la Noche; porém, as más línguas sustentam que o "de la Noche" vinha do fato de Barrigão amanhecer sempre bêbado de cair. Dizia-se que os taxistas já sabiam o endereço dele e de Cecília, no bairro da Recoleta, e apenas deixavam Barrigão, na maioria das vezes desacordado, na porta do prédio onde moravam.

O que estava bom começou a degringolar quando Cecília iniciou um affair com um ex-jogador de futebol paraguaio, Javier Chácara, que havia feito sua carreira nos clubes de Buenos Aires, e vivia confortavelmente por lá, e sem ter consigo o vício pela bebida. Quando Barrigão flagrou sua mulher saindo de um restaurante em Puerto Madero ao lado de Javier, Cecília não teve dó e confessou tudo de uma vez, além de pedir para que Barrigão deixasse o apartamento da Recoleta. Dizia ela que não havia dito nada até então, por pura pena do palhaço de meia idade. Mesmo implorando de joelhos por Cecília, Barrigão recebeu um ultimato dos advogados de sua agora ex-companheira, para que deixasse o apartamento dentro de uma semana. Não só isso, mas Barrigão, bêbado e revoltado, tentou agredir Javier Chácara uma noite, na porta do prédio, mas acabou imobilizado pelo paraguaio, que por pouco não quebrou o braço de Barrigão na hora do confronto.

Morando num edifício velho, num apartamento pequeno e quase sem móveis, Barrigão tinha no ofício de palhaço, e no pouco de confiança que ainda lhe restava, um meio de sobreviver entre todos os seus problemas. Agora seus espetáculos eram durante o dia, pelas praças de Buenos Aires, a troco de migalhas. O pouco que sobrava ia para a bebida, comprada normalmente no supermercado com os trocados ganhos ao longo do dia.

Acometido de uma depressão, no dia 24 de junho de 1990, após assistir em um bar na Avenida 9 de Julio o Brasil perder para a Argentina por 1 a 0 e ser eliminado da Copa do Mundo daquele ano, Barrigão voltou para seu minúsculo apartamento certo da sua decisão. Nada mais podia alegrar o risonho palhaço de outrora. Com uma corda, atada no lustre-ventilador de teto, Barrigão subiu na velha cadeira de madeira para pular e cometer suicídio - isso se ele não tivesse feito um nó que não era nó. O que aconteceu foi que a corda não apertou o tanto quanto deveria apertar, o que fez com que Barrigão caísse no chão do seu apartamento, num tombo feio agravado pelo seu peso, fazendo-o quebrar sua perna no ato. Apesar do barulho causado, ninguém foi ver o que tinha acontecido em seu apartamento. Barrigão sentia a dor da perna quebrada, mas seguia ali, sem conseguir sequer levantar do chão. De arrasto, foi até a cozinha onde abriu a porta da geladeira; dentro dela, só havia uma garrafa de vinho pela metade, e meia dúzia de ovos. Com muito esforço, Barrigão alcançou o vinho, e virou num gole só. Depois, com os ovos, Barrigão teve que fazer o que vinha fazendo a vida inteira, mas dessa vez para não morrer de fome: quebrar os ovos rente a sua boca, para saciar sua vontade de comer.

Após duas semanas, um cheiro foi sentido no corredor. Os vizinhos baterem na porta por várias vezes, até que o senhorio do apartamento foi chamado lá e com a chave, abriu a porta do imóvel para ver junto de algumas testemunhas, él Barrigón no chão, de barriga para cima, com algumas cascas de ovo e uma garrafa vazia de vinho ao seu lado, e a perna visivelmente deslocada do lugar. Após a autópsia, acredita-se que Barrigão já encontrava-se em óbito há cerca de cinco dias quando os vizinhos o encontraram.

Barrigão faleceu com 51 ou 52 anos, dependendo da fonte pesquisada. Deixou a vida para entrar na história, mesmo que pelas portas do fundo, e ainda hoje serve de inspiração a alguns palhaços de circo sul-americanos. Cecília já tem mais de 70 anos atualmente, e está escrevendo um livro de suas memórias, no qual promete revelar um lado que ninguém conhecia “del Barrigón”. Mais uma pitada de polêmica para a vida deste que já não faz mais parte do mundo dos vivos.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A bala que se encontra

Dúvidas nunca atormentam quem quatorze anos completa. Somente certezas. Certezas emolduradas pela miséria pungente transbordada pelos becos estreitos da favela onde habitava. Decidira assim abraçar o banditismo.  Não esperou a maioridade. Naquele ramo iniciava-se cedo. Infante. Esse seria seu apelido. Henrique na pia batismal, Infante Henrique alusivo ao monarca de terras além-mar. Em pouco tempo reinava na boca de fumo. Começara soldado do tráfico e logo chegara a general. Abraçara um fuzil e com ele as maldades que o faziam forte diante dos súditos. Sua palavra era lei e quem a desobedecesse, morador ou membro da quadrilha, provava de sua fúria. Incontáveis matou por vontade própria, outros, as balas perdidas disparadas por seu AK-47 tomaram o rumo indevido e ceifaram vidas no morro e no asfalto não tão distante. Eu aperto o gatilho, Deus guias as balas, costumava zombar.
Raramente saia do seu feudo-favela e sonhava virar inimigo público número um, estrelando cartaz destacado no disque-denúncia tão logo completasse dezoito quando o improvável aconteceu. Infante conheceu o amor. Menina de família, mãe crente. Largou tudo por Cristiana antes da maioridade. Entregador de farmácia tornou-se. Certo dia, voltando do trabalho o Infante criou asas e transformou-se em anjo por obra de uma bala perdida que encontrou seu corpo. Morreu na via pública. Não fora castigo de Deus tampouco fatalidade. Apenas mais um dia da barbárie urbana que assola o País.


Gratidão



“Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade.”
― Charles Bukowski

sou grato porque
cheguei
entre trancos
e barrancos
a lugar nenhum;

pois se eu fosse um
bicho desses qualquer,
cuja existência se dá
na corrida entre os
mais aptos,

meu instinto de sobrevivência
há muito já teria
me matado.

André Espínola

terça-feira, 17 de maio de 2016

Soneto Céu da tua mão

Quanto tempo você tem para sair na vida

procurar nos ventos a avent'Cura sina de teu coração
quanto tempo você tem para sorrir teu sol e chorar tua chuva
encontrar no bolso da emoção tuas próprias mãos aladas em voo

se o amarelo das flores trazer o enlevo azul do céu
cada vez mais próximo de ti como o sublime calor apogeu
nada poderá fazer esse límpido amor sobre nós se desfazer
se tudo o que tens é a ti mesmo tua própria lógica do bem

despertas com um beijo dos ventos, vespertina visão que te leva
além do tempo nos olhos do teu próprio destino
a entrelinha composição das nuvens no horizonte do céu da tua mão
que desfilam nuas ao lado do céu e da lua

que solidão dormira nesse momento a tua imaginação
quando estiveres só e tão logo acompanhado em pensamento
assim, como se não tivesses ninguém, mas somente a ti e a deus.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Loop

ergueu-se do chão
foi ao banheiro
lavou o rosto
pegou os cigarros
as chaves
e saiu para a rua

o sol e o calor
o sangue fervia
o estômago embrulhado
o barulho ensurdecia
bolhas nos pés
o trabalho imposto
bate-ponto
filas de robôs
alienados
programados
para sempre seguir ordens
e alimentar
a grande máquina

fim de turno
fim de tarde

rostos
carros
buzinas

suor
tontura
fedor
e loucura

chega em casa
liga o rádio
senta no sofá
esboça um sorriso
e morre

como tem feito todo dia, aliás.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Baleado

Quando chegava ao quarto cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas; Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Trabalho

Almir é aquele tipo de cara que sempre prezou pelo seu trabalho. Dedicado na função, nunca deixou que outro compromisso, fosse este por lazer ou pura diversão, o atrapalhasse na execução de seu trabalho. Como Almir dedicava sua atenção máxima ao que fazia, seu foco raramente permitia que ele fizesse algo diferente quando em serviço. Normalmente mantinha o celular desligado - não naquela quarta-feira.

Almir vinha saindo com uma daquelas garotas difíceis de encontrar por aí; daquelas, como se diz, “para casar”. E foi dela a ligação que Almir recebeu, fato este que o fez no mesmo instante contrariar todos os seus princípios, mesmo que ele estivesse prestes a executar uma função importantíssima de seu trabalho.

- Alô? Oi Ritinha, tudo bem, e você? ... Sim e não. Tô a trabalho e não tem problema não, pode falar comigo sim... Não, só achei que seria importante te atender, afinal de contas, a gente tá se vendo bastante ultimamente né? ... Hum? Ah, eu gostei do suflê de batatas que você fez... Por que eu não comi muito? Ah, eu tinha comido um doce que não me caiu bem naquela tarde.... Sim, é claro que gosto de você também, você sabe que nunca ligo o celular em meu trabalho, só o deixei ligado por sua causa, Ritinha... É, prestação de serviços, entende? Ah... não, claro que posso te falar Ritinha... Sim, eu sei, eu sei que você me conta tudo. Puxa, te admiro mais ainda por isso! ... Não, nunca! Nunca casei, nem sequer namorei por muito tempo seguido, imagina que ia estar te escondendo uma relação... Não, esse não é meu perfil... E por que eu escondo o trabalho? Não, espera, eu vou te dizer quando chegar a hora certa, meu amor... Hã? ...Você gostou que te chamei assim, de “meu amor”? Ah, imagina. O quê? ... Ator pornô? De onde você tirou essa ideia maluca, Ritinha?? ...Ah, faça-me o favor... Eu tenho vergonha de pôr sunga quando vou à praia, imagina ficar pelado em frente às câmeras... não, eu prometo que vou te dar mais detalhes, não tem nada de mais mesmo... Vergonha? Não, nenhuma. É algo particular apenas, sei lá. Olha, posso te dizer isto de certeza: esse dinheiro que vou ganhar por esse trabalho vai me deixar tranquilo por, digamos, uns dois meses... Podemos sair jantar juntos, ir até Campos do Jordão pegar um fim-de-semana na serra... Ah você prefere Búzios? Ótimo, Búzios será... também gosto de praia Ritinha, adoro o mar. Já falamos sobre isso na noite do estrogonofe de frango que você preparou... Ah, era de carne, claro! O quê... Ritinha, não vamos começar uma discussão sobre isso. É claro que gosto da sua comida, eu não limpei o prato aquela noite? ... Sim, tá vendo? Ops, Ritinha, agora tenho que desligar que o batente me chama... eu também... um beijo bem gostoso para você, preciso desligar mesmo. Nos falamos à noite!

Almir desligou o telefone e deu uma última olhada na foto que seu cliente havia ele enviado pelo celular. Sim, os dados batiam. Almir discretamente saiu de seu carro, usando o seu tradicional uniforme – terno de tom escuro, gravata de cor única, e seus óculos Ray-Ban que sempre lhe davam sorte no cumprimento de suas metas. Atravessou a rua, aproximando-se do cidadão da foto:

- Com licença, o senhor é Aldo Viriato, certo?
- Sim. Quem gostaria? – respondeu o senhor de meia-idade num tom de voz um tanto autoritário, e o olhar desconfiado.
- Eu tenho uma encomenda enviada pelo Tarcísio, da factoring que o senhor tomou dinheiro emprestado alguns anos atrás, lembra?

O homem de meia-idade engoliu a seco a informação. Mudando o olhar de inquisitivo para surpreso numa fração de segundos, ainda tentou dizer:

- Eu ia mesmo ligar para ele hoje, agora na verdade eu estava prestes a fazer isso...
- Tarde demais, seu Aldo.

Com uma habilidade de quem conhece o que faz, Almir sacou a pequena pistola Beretta de dentro do seu paletó e disparou um, dois, três tiros na barriga de Aldo; que, impotente, caiu de joelhos na calçada. A passos rápidos, Almir atravessou a rua e voltou para o seu carro, antes olhando para os dois lados a certificar-se de que não havia ninguém na rua. Deu partida no motor, e foi para casa pensando que não deveria ter mentido para Ritinha.

Realmente, o suflê de batatas não estava bom. Um tanto quanto abatumado.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Dona Dora

O que me trouxe aqui é uma história pra lá de inusitada, seu Júlio. Caso o senhor disponha de tempo, gostaria de narrar os acontecimentos nos mínimos detalhes para lhe inteirar de todas as circunstâncias. Espero que ao final da minha narrativa você, desculpe-me, o senhor tenha dados suficientes para poder nos ajudar, livrando-nos deste pesadelo. É difícil iniciar o relato desta estranha, e porque não dizer, desagradável experiência, mas é melhor deixar os rodeios de lado e ir direto ao assunto.
Eu nunca imaginei uma mãe sendo capaz de vingar-se dos seus filhos. Sempre acreditei piamente na impossibilidade de sentimentos vis por parte de alguém capacitada a produzir vida. Deus é criador e é amor. As mães também criam, geram vida e são amorosas. Então, como explicar a atitude de mamãe para conosco, seu Júlio?
Tudo bem, estou calmo, fique tranquilo. Bom, somos em três irmãos, todos gravitando na faixa dos quarenta anos. Como já lhe disse, me chamo Alexandre e sou o caçula. Temporão por acidente e solteiro pela ausência de paixão, acredite.  E sendo o único livre de responsabilidades familiares coube a mim a missão de cuidar de mamãe quando ela enviuvou. Tão logo papai desceu à sepultura após o aneurisma, desmontei meio a contragosto o meu apartamento e fui viver com ela na ampla casa de subúrbio que meu pai erguera “tijolo por tijolo” como ele orgulhosamente dizia. O senhor fuma, seu Júlio? Ah, não posso fumar aqui? Sem problemas. Como e ia dizendo, sou o único solteiro e o senhor há de convir que para um homem acostumado a independência de morar sozinho, foi um tanto sacrificante esta mudança de hábitos, mas alguém tinha que renunciar  parte de sua vida para o conforto de mamãe que vivia há quase cinco anos em uma cadeira de rodas desde que uma poderosa artrose lhe assaltara os movimentos das pernas. Alberto, meu irmão do meio, mora com mulher e filhos em outra cidade e Acácia, primogênita e oito anos mais velha do que eu, tem sua própria família composta de marido e filhas problemáticas para  zelar.
Assim, mamãe ficou entregue aos meus cuidados. Eu procurava facilitar-lhe a vida, administrando o pequeno patrimônio que papai nos legara sem, contudo, deixar de viver a minha existência com certa autonomia. Isto significava dedicação ao meu trabalho como cronista de um jornal popularesco no horário comercial e eventuais casos amorosos tão logo a noite se desfraldava. Não me leve à mão, mas não vejo porque mentir para o senhor. Sou mulherengo mesmo, desculpe a franqueza. E por estas e outras, mamãe passava a maior parte do dia sob responsabilidade da Marta, uma simpática e robusta enfermeira por mim contratada. Ela parecia entender minha condição de homem e de profissional e, resignada, aproveitava minha parca companhia quando o meu tempo livre se dilatava.
Meus irmãos pouco apareciam para visitá-la. Alberto ligava semanalmente, mas demorava poucos minutos no telefone com ela, como se uma obrigação cumprisse. Acácia fazia aparições relâmpagos na casa do subúrbio e invariavelmente saia munida de um empréstimo cujo pagamento minha mãe raramente via concretizar-se. E assim a gente ia tocando a vida.
A primeira vez que eu percebi em mamãe certa mágoa com o nosso descaso foi cerca de três dias após a noite de autógrafos do meu primeiro livro. Sim, sou escritor. Não falei que escrevo crônicas para um jornal? Ah, o senhor mão me conhecia. Bem, vê-se então que eu sou bem menos popular do que imaginava, mas isto não vem ao caso agora. Toda a família estava presente na livraria onde seria a noite de autógrafos. Meu irmão despencou lá de Minas trazendo de contrapeso a mulher e os meninos. Acácia, que detesta livros, mas adora uma festa, não deixou de comparecer e mamãe ficou aos seus cuidados, sendo assessorada pelas minhas sobrinhas já adolescentes.
O senhor deve imaginar que eu era o centro das atenções naquela noite e isto me manteve todo o tempo ocupado, autografando o livro, atendendo à imprensa, forçando sorrisos e outras pequenas atitudes necessárias para o sucesso do evento. Lembro de haver tirado fotos com boa parte da parentada. Tinha certeza que mamãe estava em uma destas benditas fotos e qual foi a minha surpresa quando ao pegar loja os negativos revelados não encontrei nenhuma foto com a mamãe. Estavam todos lá, seu Júlio, divididos em várias imagens, sorridentes, segurando meu livro, abraçados a mim, mas faltava mamãe. Vendo as fotos, mamãe demonstrou uma surda mágoa com o incidente. Na mesma hora liguei para a Joyce, minha sobrinha mais velha e dona da câmera fotográfica, perguntando o que  havia acontecido. Ela disse ter certeza que havia clicado a mim e mamãe juntos e que talvez a máquina tivesse travado ou o filme houvesse chegado ao sem fim, ela não sabia ao certo. Moral da história, seu Júlio: ninguém assumiu a culpa pelo constrangedor episódio.
E o senhor nem imagina o que aconteceu depois. Isso mesmo! O ocorrido repetiu-se! Desta vez, nos 15 anos de Leonora, a outra filha de minha irmã. Fotos reveladas, mamãe ausente. Puro esquecimento e desconsideração. Minha também, o senhor está coberto de razão. Só que desta vez mamãe soltou o verbo: “esqueceram que eu pertenço a esta família, ou então vocês têm vergonha da aleijada aqui” – ela repetiu esta frase por meses, seu Júlio. Eu até a decorei de tanto que a ouvi.
A partir de então, em todas as ocasiões festivas, tomávamos as devidas precauções para retratarmos mamãe, mas, observando recentemente algumas fotografias daquela época, percebi em seu semblante a tristeza como que nos demonstrado que aquele nosso gesto em verdade consistia em nos livramos de uma eventual culpa de pisarmos na bola do que sincera consideração para com ela.
Viveu mais cinco anos, seu Júlio, e morreu como um passarinho. Estávamos nós dois na sala de casa, numa daquelas noites que me faltava uma companhia feminina, conversando banalidades quando o telefone que ficava em meu quarto tocou. Foi o tempo entre ir atender a chamada, constatar o engano e retornar à sala. Encontrei mamãe morta. A gente soube pelo Doutor Peçanha, cardiologista dela há muitos anos, que ela foi vitimada por um ataque fulminante. Ele me garantiu que nem dor mamãe há de ter sentido. Mas foi muito triste, ver o corpo dela ali, jogado sem vida naquela cadeira de rodas, cabecinha branca pendendo de lado como se dormisse. Lembro como se fosse hoje, parece que eu estou vendo a cena. Eu sentei-me ao lado da cadeira, acariciei seus cabelos ralinhos e, derramando lágrimas sentidas e sinceras, pedi desculpas por mim e pelos meus irmãos pela falta de atenção nestes últimos anos, pelo nosso descaso. Apesar de tudo, ainda tentei argumentar com o seu cadáver que as nossas ocupações e o ritmo de vida que levávamos eram os verdadeiros culpados por nossa pouca dedicação. Só depois eu liguei para a mana. Perdão pela voz embargada, seu Júlio, mas o senhor entende, não?
Bom, agora, o motivo que me trouxe aqui. Mamãe se vingou de todos nós, seu Júlio. É sério! E Alberto foi a primeira vítima. Calma, eu vou contar. Alberto e Isabela são pais de dois meninos com menos de cinco anos e curtem registrar o crescimento dos garotos através de fotos. Após uma das inúmeras sessões fotográficas, no quintal de sua casa, Alberto percebeu um vulto estranho em uma das fotografias, próximo ao muro, meio por detrás de um arbusto. Intrigado, pois só ele, Isabela e os meninos encontravam-se em casa, ampliou a foto e, assombrado, descobriu o rosto de mamãe! Sua expressão era de uma perturbadora sisudez. Uma imagem vale mais do que mil palavras, o senhor já deve ter ouvido esta frase, não é verdade, seu Júlio? Pois é. Mamãe decretara toda a culpa de Alberto por sua desconsideração com ela, intrometendo-se em um momento de lazer e felicidade de sua família.  Meu irmão enviou-me a foto  pelo computador e eu de início custei a acreditar. Briguei feio com ele, condenando o que eu julgava ser uma brincadeira de mau gosto com a memória da mamãe, que aquilo não se fazia, etc. Fique puto dentro das calças, seu Júlio. Desculpe, desculpe, não vai se repetir. Fiquei injuriado com o meu irmão. Cheguei a cortar relações com ele, embora Alberto afirmasse não se tratar de uma montagem.  Minha irmã também não acreditou na história porém, semanas depois, mamãe deu o ar de sua graça em uma fotografia de viagem que ela e o marido fizeram a Itatiaia. Era temporada de inverno e uma neblina torrencial cobria o cenário fotografado e, por detrás dos dois, via-se ao fundo uma silhueta a uns dez metros de distância que lembrava mamãe, com os mesmos vestidinhos estampados que ela costumava trajar! Somente uma silhueta era perceptível, mas eu tinha certeza que era ela!

E minhas certezas se confirmaram com a foto que eu tirei para renovar o passaporte. Aqui está ela, veja o senhor mesmo! Nítida, sorrindo, atrás de mim. Ao menos por mim ela teve piedade, não se apresentou aborrecida, a me censurar. Aterrorizados, estamos há semanas sem tirar uma mísera foto, impedidos de guardar nossas mais estimadas recordações. Meus sobrinhos correm riscos de crescer sem os seus momentos registrados, tudo por culpa deste capricho da mamãe. Sim, é espantoso, seu Júlio. Concordo com o senhor, mas, já que o senhor é médium e tem linha direta com as almas do outro mundo, venho lhe pedir por caridade. Numa próxima reunião espírita neste centro, evoque minha mãe. O nome dela é Dora, Dona Dora, e peça a ela para deixar de aparecer em nossas fotos. Já fui a parapsicólogos, exorcistas, pais-de-santo e só gastei dinheiro e ouvi conversa fiada. Após consultar estes especialistas, batia uma chapa e lá estava mamãe, onipresente, invadindo o papel fotográfico. O senhor é minha última esperança. Vai nos ajudar, seu Júlio?

Salvifici Dolores



outrora os penitentes
eram mais felizes.

ah, Deus, perdoa!
não se faz mais
cilícios
como antigamente!


domingo, 17 de abril de 2016

MinhA'lma

Minha alma é repleta de flores, 
onde cultivo meus amores,
onde minha felicidade habita, 
e só a bondade sobrevive.

Ao sol

No
Esforço
que sou
meu ser
secou
o caroço
ao sol

Virou arte

Te amar
     amar
       mar
          ar
          arte.


sábado, 16 de abril de 2016

Todos estavam errados

ele cresceu
e a vida adquiriu aquela cor
que tanto lhe diziam ser impossível

finalmente mar
finalmente flor
finalmente rosa


rosa como veneno de rato.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Matt Walters I Would Die For You


 
Thanks Matt Walters!
As coisas têm o seu tempo, enquanto cá estivermos.
Não deixarei por mãos alheias as minhas lutas pela minha liberdade intelectual.
O sofrimento pode trazer-nos felicidade, e é assim que a espero...

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Um porre

Um porre de poesia para que acordes.
musica livre, arranjos harmônicos.
o copo sobre a mesa, suando.
a luz do bar acessa, piscando.
o fio do horizonte paira, ondula.
perdura no amor de cada dose
no calor de cada arrepio.

terça-feira, 22 de março de 2016

segunda-feira, 21 de março de 2016

Moro na “República de Curityba”


Sou cidadã brasileira, porém
Moro, por mera tolice
Dita “República de Curityba”.
Onde moro as leis são diferentes.
Questiono se,
Moro, sobretudo, por soberba e vaidade.
Irresponsável ou, quiçá, ardil;
Supostamente no suprassumo do poder,
Moro qual deidade, com a mídia alienante, 
Fomenta confronto civil.
Disseminar subterfúgios para “subjugar” 
Representante democraticamente eleito
Parece, no mínimo, desconfiável.
As diferenças clamam por respeito.
Todos têm ou não iguais direitos?
E, a vestir as cores da bandeira?
Ideologias separam pessoas, separam partidos.
Mas, respeitadas as diferenças
Somos todos, nação brasileira.

Imagem: da web

sábado, 19 de março de 2016

Sem Eira nem Beira

Certa vez, fiz aqui uma rima
Sem nenhuma métrica
Apenas para levantar a estima
Em meio a uma situação tétrica

Por vezes, caótica
Para muitos, despótica
Que, independentemente de ótica
Segue sendo completamente idiótica

O assunto mais uma vez
É a tal da política
Que, mês após mês
Se tornou paralítica

Difícil de entender como uma mula
No caso, o ex-presidente Lula
E depois dele, uma jumenta
Conseguiu tornar-se presidenta

É tanto, mas tanto o cinismo
Dos que estão no poder
Que vão enfiando o país num abismo
Só mandando o povo se foder

É impressionante
E enervante
Em pleno século vinte e um
Enganar a todos, um por um

O refrão “Ordem e progresso”
Virou “Desordem e retrocesso”
Não há mais um pingo de respeito
E os calhordas ainda enchem o peito

Buscando sempre uma escapatória
Para essa situação vexatória
Se apoiam na ideia da democracia
Enquanto o país vive uma hemorragia

É, é foda mas é verdade
Toda essa insanidade
Essa máscara de falsidade
Já virou simples banalidade

Apenas para eu finalizar,
Até porque isso já está a me embrulhar
Essa é para você, político de terno,
Quero que você apodreça no inferno!!!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Testemunho para o Futuro



dessa noite fria,

eu escrevo pra vocês
que,
como testemunho
da frágil democracia
brasileira,
em
dezoito de março
de dois mil e dezesseis,

o ódio é o amor dos nossos dias.

André Espínola

O Sacrifício

Perdido naquele inóspito lugar, ele se debatia procurando livrar a cabeça que ficara presa entre os galhos de um arbusto um tanto ressecado pela aridez da região. Nervoso ante o fracasso das tentativas e temendo pela possível asfixia, berrou por alguns minutos, na vã esperança que o seu pastor o encontrasse, cordeiro desgarrado e rebelde, fugitivo na intenção de conhecer o mundo que ele desconfiava não estar restrito ao rebanho do qual pertencia. Empenhara fuga sorrateira, escalando aquele monte ausente de qualquer pasto ou água com a qual pudesse acalmar a sede provocada pela ansiedade da aventura. Quanto mais se afastava do nível do mar mais as sensações de privação de fluidos e alimentos provocavam o seu corpo, até que, diante de um solitário arbusto esquecido no meio da imensidão de pedras e terra ressequida, os cuidados foram deixados de lado e, por consequência ali ele se encontrou aprisionado a própria sorte.
Fazia horas que o incidente ocorrera e o cansaço já começa a abatê-lo. As pernas doíam, assim como o pescoço apertado entre os galhos do arbusto. Sentiu arrependimento pela ousadia da fuga. Melhor faria se fosse obediente como os outros cordeiros e se mantivesse cortês, servil à família de pastores zeladora do rebanho. Porém, temia o sacrifício e a morte que tantas vezes presenciara. Nem só de lã e leite eles cordeiros tinham serventia. Eventualmente, um ou outro era abatido em rituais estranhos ou mesmo para a carne fornecer alimento aos pastores e aquilo o revoltava.  Tanto bem eles cordeiros faziam à família, dando o sustento necessário para a sua sobrevivência e, como prêmio alguns recebiam a degola na ponta da faca. Sua vontade em desbravar o mundo aliada ao temor da morte, para ele injusta, reforçaram a decisão da fuga.
Estava quase desistindo, aceitando passivamente o seu fim quando percebeu duas figuras humanas aproximando-se.  Imaginou que talvez fosse o pastor com um dos seus filhos que seguira o seu rastro marcado no chão infértil daquele monte e seu coração encheu-se de esperança pela salvação. Pensou em berrar para que a dupla o localizasse, mas, á medida em que os dois humanos se aproximavam, não distingiu em nenhum deles alguém conhecido, e preferiu, assim, exercer a prudência. Tratava-se de um homem já entrado na velhice, acompanhado de um jovem imberbe. O rapaz trazia entre os ombros um pesado feixe de lenha que o encurvava a cada passo. Um pouco a frente, apoiado em um cajado, vinha o ancião, levando um cutelo na mão esquerda.
Pararam cerca de 100 metros do arbusto que mantinha o cordeiro aprisionado. Descarregaram seus pertences e iniciaram desanimada confabulação. Seguindo as ordens do mais velho, o jovem começou a recolher pedras de tamanhos medianos e dispô-las de modo a formar uma mesa retangular. De onde se encontrava, o cordeiro atinou que a construção lembrava os altares onde seus companheiros de rebanho eram eventualmente sacrificados naqueles inexplicáveis rituais de fogo que ele tanto temia e, assustado, procurou ocultar-se ainda mais no arbusto que, antes carcereiro, agora lhe servia como protetor.
Foi quando o tom da conversa entre os homens pareceu sofrer certa transmutação. O cordeiro divisou no semblante outrora sereno do ancião sinais de desespero enquanto o rapaz metamorfoseava em sua face a obediência decepcionada. Não compreendeu o cordeiro a atitude do menino quando se deixou de modo resignado que o velho o amarrasse. Os dois caminharam para o altar improvisado e o jovem pousou sua cabeça sobre imitação de távola. Agora, o cordeiro observava que os dois choravam. Parecia também que os céus cairiam em pranto visto o tom pesado das nuvens cinza-chumbo que o vento carregava para o monte. O velho rezava. O jovem também parecia em oração. O cordeiro, prisioneiro em seu esconderijo, esperava curioso, o desenrolar dos acontecimentos.
Viu o cordeiro o braço direito do velho tomar o cutelo e posiciona-lo à altura do pescoço do rapaz. Misto de dúvida e horror passeou por sua mente. Acaso os homens sacrificavam-se entre si? Resoluto, o ancião levantou o cutelo e mirou a cervical do jovem, pronto para o golpe final. O terror tomou-lhe de assalto e o animal deixou escapar um berro que se espalhou pelo lugar através do vento que preludiava uma tempestade.
O velho então estancou a pancada derradeira e descobriu o cordeiro preso a armadilha natural do arbusto. Uma alegria incontida tomou o seu ser, deixando o animal ainda mais desnorteado com os acontecimentos que presenciava. Enquanto chorava, levantando em conjunto as mãos para os céus em agradecimento, dirigiu-se para o altar de sacrifícios no intuito de libertar o rapazinho trêmulo diante da morte que em segundos se fizera vida em razão de um golpe abortado. Os dois se abraçaram e encararam o animal. O cordeiro sentiu-se aliviado. Por algum motivo, ele havia feito o ancião mudar de ideia e não sacrificar o jovenzinho e, em contrapartida, seria ele libertado como prêmio.

Os dois homens cuidadosamente separam os galhos, livrando o animal da incomoda prisão mas, ao invés da liberdade, o cordeiro foi surpreendido pelas cordas amarrando suas patas. Compreendia agora o que iria se suceder enquanto era levado para o altar. Berrava em desespero diante do pavor pela morte que se aproximava. Bando de malditos, raça vil a humana, bradava mentalmente. Amaldiçoou aqueles homens e seu olhar, longe do perdão, denotava o mais extremo ódio quando o cutelo atingiu seu pescoço. Sentiu o sangue molhar o pelo alvo a ainda teve tempo de perceber e o cheiro nauseabundo das suas carnes começando a serem consumidas pelo fogo antes de perder por completo a razão.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Cuspindo sangue em manhãs de glória

encarou as paredes
atirou o copo
mastigou os cacos
e bebeu a canha
da garrafa

a noite estava somente começando
os outros celebravam qualquer coisa
suas vitórias, talvez

e ninguém nunca iria entender
que nenhum mal
ou dor
da vida
jamais
iria afetá-lo.