sexta-feira, 24 de junho de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Visionários
Escrito por
Rodrigo Domit
Os donos do mundo sabem que o petróleo derivou-se de animais e vegetação soterrados
Pensando no futuro, matam, desmatam e encobrem
domingo, 19 de junho de 2016
No Bar
Escrito por
André Bortolon
Seu Reginaldo estava naquela fase em que qualquer barman já pensa duas vezes se é hora de pular do balcão e tentar remover o cidadão dali. O homem não só enrolava a língua, como também cuspia de quando em quando, ao falar. Seu terno abarrotado e a gravata com nó afrouxado faziam o seu semblante lembrar o do personagem Tavares, do falecido Chico Anysio. Mas, naquela noite de terça, o barman em questão – Aníbal - não queria confusão com ninguém. Era terça, poxa. Ninguém mais entraria no bar àquela hora. Em trinta minutos, ele fecharia o bar e educadamente conduziria Tavares, ou melhor, o seu Reginaldo, para a porta do recinto. Simples assim. Além disso, Aníbal estava lendo um livro intitulado: “Quero Vencer, Não Sei o Que Fazer”, o que o fazia ponderar suas atitudes em horas como aquela. Nada como uma boa autoajuda para se manter calmo...
- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!
Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.
- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!
Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.
- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!
Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:
- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.
“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.
- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...
Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:
- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...
Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.
- Mais uma, meu filho! – ordenou em voz alta seu Reginaldo, interrompendo a pré-contagem do caixa que Aníbal fazia.
- É pra já, chefe. – Aníbal pegou a garrafa e preparou mais uma dose do uísque mais barato para o seu Reginaldo.
- Sabe que você é um bom rapaz, meu filho... Sempre fui com a sua cara!
Aníbal tentou desviar, mas algumas gotículas de saliva acertaram sua bochecha. Ele discretamente puxou um lenço do bolso e passou no rosto.
- Também acho que o senhor é boa pessoa, seu Reginaldo. Se fosse outro, eu já tinha posto a correr do bar.
- Puxa, obrigado. Um brinde a nós! Salut!
Aníbal só pegou um copo vazio e imitou o gesto do freguês, em respeito.
- Eu faço questão que você tome uma, e por minha conta, Arlindo! Você merece!
- Aníbal, seu Reginaldo. Tá aqui no meu crachá, ó. E obrigado mas, nunca bebo em serviço; vou passar essa.
- Não, não... Esse cabra é dos bons. Eu contrataria ele para trabalhar na minha empresa, com certeza! – seu Reginaldo falava para o lado, como se uma plateia de bebuns o escutasse naquele momento. Mas só havia os dois no bar.
- Se ao menos eu fosse mais novo... – continuou seu Reginaldo - ... um cara forte como você, assim, eu não casaria de novo. Ah, nunca. Isso é uma prisão, garoto. Um inferno. Já te disse outras vezes para não cometer o mesmo erro que eu, não disse?
- Sim, seu Reginaldo... E o senhor não lembra que eu já lhe contei, talvez umas três vezes, que sou casado, tenho uma filhinha de 6 anos... Por enquanto, estou feliz em meu casamento. Mas entendo que o senhor está há muito tempo casado, nem tudo dura pra sempre, a gente sabe como é...
- Sabe como é?? – seu Reginaldo se indignou que o cuspe saiu repartido em três direções desta vez. Aníbal sentiu na testa o molhado. – ...porque você não se casou com a dona Gorete. Ah, não. Essa você não ia aguentar nem um ano na sua cola. E eu que estou há mais de trinta com esse traste na minha vida. Eita cruz!!! – virando a dose, rapidamente Reginaldo esticou a mão com o copo vazio no balcão.
- A saideira, Anésio. Por favor, aí vamos tomar o rumo, o rumo da... do meretrício!
Além de trocar o nome de Aníbal o tempo todo, seu Reginaldo vinha com “expressões velhas”. Quem falava meretrício nos dias de hoje? No relógio da parede, intermináveis vinte minutos para o fechamento das portas. Aníbal segurou a onda, e serviu uma dose dupla para seu Reginaldo. Ainda disse:
- Por conta da casa. Para o senhor ir mais embalado para a sua casa, ou para a zona, seu Reginaldo.
- Uau!! Nossa, não se fazem mais barmans como você, Adílio. Infelizmente, não mais. Um brinde a nós, dois homens justos, que pensam o mesmo! Salut!
- É Aníbal, seu Reginaldo. Meu nome é Aníbal. Capisci?
- Hum? Pois foi o que eu disse, meu filho.
“Meu filho” de novo. Aníbal não sabia mais o que era pior: ter seu nome trocado ou ser chamado o tempo todo por aquele bêbado babão de “meu filho”; seu pai, se ouvisse aquilo, estaria se revirando no túmulo agora.
- Mas como eu ia dizendo, casamento é pior do que cadeia. Ou pelo menos, que cadeia de primeiro mundo. Aqui no Brasil já não sei... Tu já esteve dentro duma prisão, Adílson? Ver o que é que esses caras passam lá dentro? Sem contar que tu pode ser enrabado a qualquer hora. A prom... – essa hora Aníbal viu o cuspe caindo no próprio balcão, bem ao lado do copo do seu Reginaldo. - ...a promiscuidade, eita palavra difícil hein, a prom... a putaria nessa prisões é algo que não dá pra imaginar. Pensando bem, aí nesse caso até a Gorete é melhor do que prisão no Brasil...
Essa hora Aníbal saiu de trás do balcão e chegou ao lado de seu Reginaldo. Falou:
- Game over, seu Reginaldo. Vamos até a porta comigo...
- Mas, faltam quinze minutos meu filho... eu nem acabei de te contar ainda o que minha mulher me aprontou outro dia... – Aníbal já não ouvia mais nada. Não queria mais ouvir, e trocou o copo de vidro por um de plástico, dando-o na mão de seu Reginaldo. Agarrou-o firmemente pelo braço e foi arrastando o bebum até a porta.
- Isso é uma falta de respeito, meu filho! Se eu fosse mais novo, isso não ia ficar assim, hein? – Aníbal sentiu o cuspe de Reginaldo entrar dentro de seu ouvido. – ... olha que já fui pugilista nos anos 70, e dos bons viu garoto, eu...
Aníbal soltou o velho Reginaldo cambaleante pela rua, e apressou-se em trancar a porta. Não queria mais ouvir as lamúrias de um velho bêbado, nem ter seu nome trocado, muito menos ser chamado de filho. Sem falar nos cuspes, o que era aquilo?? Aníbal não conhecia a tal Gorete, mas já imaginava que a coitada da história era ela, e não ele. Finalmente contou o caixa do bar tranquilamente, enquanto lembrava do livro de cabeceira. Chegou à conclusão que, de fato, uma autoajuda não fazia mal a ninguém. Talvez ele precisasse de mais um livro para ler, pro caso de um dia lotado, com uma meia dúzia de Reginaldos à sua frente.
sábado, 18 de junho de 2016
O Centauro de Saramago
Escrito por
Zulmar Lopes
Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um
corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou
para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho,
Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti.
Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da tentativa de figura feminina que Nélida se
esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba e a voz artificialmente colocada, por mulher
passaria. Ele voltou para casa incomodado, mas reconhecendo que Nélida havia
caprichado no corte.
Na segunda vez, já estavam um
pouco mais íntimos e o desconforto diluíra. “Trabalha em quê?”, perguntou
Nélida enquanto manejava com maestria a máquina. “Professor de matemática”, foi
a lacônica resposta. Como estávamos na Quarta-feira de Cinzas, Ignácio ouviu,
atento e assombrado, o relato de Nélida para as outras cabeleireiras sobre suas
aventuras no Baile Gay fantasiada de Coelhinha da Playboy. Voltou para casa
curioso, imaginando Nélida dentro dos seus trajes carnavalescos.
Na terceira ida ao salão,
encontrou um negro forte sentado onde já considerava o seu lugar. A felliniana
chamou outra cabeleireira para dar um trato em sua cabeça semi- raspada e
Ignácio, disfarçando a contrariedade, ficou bisbilhotando os movimentos de
Nélida que, num frenesi entusiástico, esculpia na nuca do Apolo de Ébano a
palavra “Mengo”. Voltou para casa platonicamente enciumado.
Em sua quarta visita ao salão,
durante ritual do corte, Ignácio pediu Nélida em namoro. Foram juntos para a
casa do professor terem sua primeira noite de amor.
Passaram a dividir um quitinete
em Botafogo em companhia de um gato angorá chamado Oscar que interpretava o
papel de filho que nunca teriam. Viviam como marido e mulher, pois Ignácio não
a desejava como homem e tão pouco Nélida prestava-se ao papel ativo. Só um
detalhe atrapalhava a paz conjugal: os flácidos 13 centímetros de Nélida.
Ignácio tinha verdadeira ojeriza ao falo da amada, mal conseguia encará-lo.
Passaram muitas madrugadas de carinhos no escuro, com o membro de Nélida
ocultado pelo negrume do quarto enquanto o travesti recebia Ignácio de bruços,
escondendo a parte de sua anatomia embaraçosa ao seu amor.
Um dia, pousou nas mãos de Nélida
um livro de contos de José Saramago (1). Não era dada a leituras, mas
interessou-se pela história de um centauro caçado impiedosamente por um grupo
de humanos. Narrava Saramago que a criatura mitológica sempre tivera o desejo
de dormir deitado de costas, o que sua constituição, meio homem, meio equino, o
impedia de realizar. Encurralado, o centauro queda-se por um desfiladeiro e tem
seu corpo violentamente cortado ao meio por efeito de uma pedra pontiaguda. Em
seus últimos momentos de vida, a porção humana do centauro caído de costas experimenta
o prazer de sentir solo acariciando seus omoplatas. Emocionada, Nélida cerrou o
livro e tomou uma decisão.
Foram quase dois anos de espera,
mais seis meses de recuperação após a cirurgia. Dr. Euclides Pessoa, conhecido
nos meios cirúrgico-científicos como “O Pitanguy das Xoxotas”, fizera um
trabalho digno de figurar em qualquer galeria de arte, dada a perfeição em que
construíra a vagina de Nélida. Então, tal qual o Centauro de Saramago, o agora
ex-travesti provou da emoção única de, omoplatas roçando os lençóis, receber um
homem, seu homem, de frente pela primeira vez na vida e ambos, unidos e
extasiados, gozarem os prazeres que um prosaico papai-e-mamãe só àquele casal
poderia proporcionar.
(1) Objecto
Quase, de José Saramago. Editora Companhia das Letras, Ano: 1994.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Ideia
Escrito por
Júlio Freitas
Um pardal entrou pela sua janela
bateu na parede
na porta da geladeira
e achou a saída
"Taí uma boa ideia", ele pensou
Então abriu a porta
abriu suas asas
respirou fundo
e voou
Dias depois
numa cidade vizinha
foi encontrado morto
apedrejado por crianças
com seus bodoques
e arminhas de chumbo
Não
ele não estava pronto
para sair do ninho
A ideia era boa
o tempo não.
terça-feira, 14 de junho de 2016
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Sobre ditaduras
Escrito por
Glauber Vieira
King Jong-Un
Muamar Kadaffi
Josef Stalin
Os ditadores em suas
torres de marfim observam
Como cães de guarda,
vigiam a nação
Matam minorias
Lambuzam o corpo com as moedas contadas do povo
Sorriem simpáticos para o mundo
enquanto ignoram armistícios
Os ditadores uma noite acordam
com o barulho
Olham a cidade abaixo:
há luzes e agitação
São bombas
Mas imaginam ser fogos
de artifício.
Fotos: wikipedia
terça-feira, 24 de maio de 2016
domingo, 22 de maio de 2016
Domador de demônios
Escrito por
Rodrigo Domit
Deito em minha cama e milhares de pequenos demônios infestam-me as ideias, o travesseiro e o canto escuro do quarto.
Ando cautelosamente até o som, ligo-o e volto para a cama; Com a música, ao menos, eles dançam.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
O Quinto Trapalhão
Escrito por
André Bortolon
A estória que aqui será contada é daquelas que com o tempo caem na boca do povo, ganhando, para alguns, um tom de dramaticidade; para outros, de suspense, do tipo: “escuta só, essa é meio que segredo, ninguém pode saber...”. Apesar de um tanto quanto obscura para muitos brasileiros da nova geração, entre os mais antigos a estória que irei contar aqui foi e ainda é bastante comentada (e devidamente ‘aumentada’) em alguns botecos deste Mercosul. Pois sim, caros leitores, nosso personagem, apesar de brasileiro, foi mais conhecido de fato em nosso país vizinho e rival Argentina, do que aqui. Mas afinal, de quem estamos falando? De ninguém mais, ninguém menos do que ele, o palhaço Barrigão, ou como ficou conhecido na grande Buenos Aires, Él Barrigon de la Noche.
O lado brasileiro da história é o mais obscuro. Para começar, Barrigão veio de uma família pequena, como filho de adoção. Não há praticamente nenhum parente vivo hoje para confirmar a versão oficial dos fatos, mas o que se sabe é que, além de viver como palhaço de circo, por muito pouco Barrigão não chegou ao estrelato no Brasil sendo um dos Trapalhões. Isso mesmo. O famoso quarteto que animava os domingos da criançada era para ser um quinteto, aparentemente nesta ordem: Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Barrigão. Esse foi, sem dúvida, o maior golpe que Barrigão levou ao longo da vida. Dizia ele que, muitas das piadas levadas ao ar a partir de 1977 no programa do quarteto tinham sido criação dele (nem Didi, nem Dedé quiseram se pronunciar acerca da veracidade ou não dos fatos).
Desiludido com o sucesso dos demais, Barrigão enfrentou problemas com a bebida no final dos anos 70. Apesar dos pesares, uma nova esperança surgiu quando um uruguaio, que levava o apelido de Paco, viu uma apresentação de rua de Barrigão em Balneário Camboriú, no sul do Brasil. Encantado, Paco convidou o brasileiro para se apresentar em Punta del Este na temporada de verão, pois lá o cachê e a gorjeta dos milionários, seriam sem dúvida maior do que eram ali. Ganhando um novo fôlego, Barrigão desembarcou no começo de dezembro em Punta, para uma nova fase em sua vida. Como seu humor sempre havia sido muito gráfico – com ovos quebrados na cabeça, cambalhotas e baldes d’água na cara – não seria nada difícil fazer os turistas rirem de suas travessuras.
E exatamente como o fora prometido, o dinheiro era melhor lá do que no Brasil. A única coisa é que Punta morria no inverno, e Barrigão passou a participar de modestos espetáculos circenses no interior do Uruguai. Mesmo não estando totalmente livre do vício da bebida, ele queria mais para si do que circos pobres e apenas pão e água como pagamento em muitas de suas apresentações. No verão seguinte, voltou à Punta para lucrar um dinheiro maior, e lá conheceu quem seria por muitos anos, a amor de sua vida: a argentina Cecília.
Pode-se dizer que, ao menos nos primeiros anos do relacionamento, Barrigão conseguiu alcançar um pouco do prestígio de que tanto almejava. Mudando-se com Cecília para Buenos Aires, El Barrigón passou a ser cadeira cativa nas casas de espetáculo da Avenida 9 de Julio. Por atuar na noite é que sua alcunha foi estendida para El Barrigón de la Noche; porém, as más línguas sustentam que o "de la Noche" vinha do fato de Barrigão amanhecer sempre bêbado de cair. Dizia-se que os taxistas já sabiam o endereço dele e de Cecília, no bairro da Recoleta, e apenas deixavam Barrigão, na maioria das vezes desacordado, na porta do prédio onde moravam.
O que estava bom começou a degringolar quando Cecília iniciou um affair com um ex-jogador de futebol paraguaio, Javier Chácara, que havia feito sua carreira nos clubes de Buenos Aires, e vivia confortavelmente por lá, e sem ter consigo o vício pela bebida. Quando Barrigão flagrou sua mulher saindo de um restaurante em Puerto Madero ao lado de Javier, Cecília não teve dó e confessou tudo de uma vez, além de pedir para que Barrigão deixasse o apartamento da Recoleta. Dizia ela que não havia dito nada até então, por pura pena do palhaço de meia idade. Mesmo implorando de joelhos por Cecília, Barrigão recebeu um ultimato dos advogados de sua agora ex-companheira, para que deixasse o apartamento dentro de uma semana. Não só isso, mas Barrigão, bêbado e revoltado, tentou agredir Javier Chácara uma noite, na porta do prédio, mas acabou imobilizado pelo paraguaio, que por pouco não quebrou o braço de Barrigão na hora do confronto.
Morando num edifício velho, num apartamento pequeno e quase sem móveis, Barrigão tinha no ofício de palhaço, e no pouco de confiança que ainda lhe restava, um meio de sobreviver entre todos os seus problemas. Agora seus espetáculos eram durante o dia, pelas praças de Buenos Aires, a troco de migalhas. O pouco que sobrava ia para a bebida, comprada normalmente no supermercado com os trocados ganhos ao longo do dia.
Acometido de uma depressão, no dia 24 de junho de 1990, após assistir em um bar na Avenida 9 de Julio o Brasil perder para a Argentina por 1 a 0 e ser eliminado da Copa do Mundo daquele ano, Barrigão voltou para seu minúsculo apartamento certo da sua decisão. Nada mais podia alegrar o risonho palhaço de outrora. Com uma corda, atada no lustre-ventilador de teto, Barrigão subiu na velha cadeira de madeira para pular e cometer suicídio - isso se ele não tivesse feito um nó que não era nó. O que aconteceu foi que a corda não apertou o tanto quanto deveria apertar, o que fez com que Barrigão caísse no chão do seu apartamento, num tombo feio agravado pelo seu peso, fazendo-o quebrar sua perna no ato. Apesar do barulho causado, ninguém foi ver o que tinha acontecido em seu apartamento. Barrigão sentia a dor da perna quebrada, mas seguia ali, sem conseguir sequer levantar do chão. De arrasto, foi até a cozinha onde abriu a porta da geladeira; dentro dela, só havia uma garrafa de vinho pela metade, e meia dúzia de ovos. Com muito esforço, Barrigão alcançou o vinho, e virou num gole só. Depois, com os ovos, Barrigão teve que fazer o que vinha fazendo a vida inteira, mas dessa vez para não morrer de fome: quebrar os ovos rente a sua boca, para saciar sua vontade de comer.
Após duas semanas, um cheiro foi sentido no corredor. Os vizinhos baterem na porta por várias vezes, até que o senhorio do apartamento foi chamado lá e com a chave, abriu a porta do imóvel para ver junto de algumas testemunhas, él Barrigón no chão, de barriga para cima, com algumas cascas de ovo e uma garrafa vazia de vinho ao seu lado, e a perna visivelmente deslocada do lugar. Após a autópsia, acredita-se que Barrigão já encontrava-se em óbito há cerca de cinco dias quando os vizinhos o encontraram.
Barrigão faleceu com 51 ou 52 anos, dependendo da fonte pesquisada. Deixou a vida para entrar na história, mesmo que pelas portas do fundo, e ainda hoje serve de inspiração a alguns palhaços de circo sul-americanos. Cecília já tem mais de 70 anos atualmente, e está escrevendo um livro de suas memórias, no qual promete revelar um lado que ninguém conhecia “del Barrigón”. Mais uma pitada de polêmica para a vida deste que já não faz mais parte do mundo dos vivos.
O lado brasileiro da história é o mais obscuro. Para começar, Barrigão veio de uma família pequena, como filho de adoção. Não há praticamente nenhum parente vivo hoje para confirmar a versão oficial dos fatos, mas o que se sabe é que, além de viver como palhaço de circo, por muito pouco Barrigão não chegou ao estrelato no Brasil sendo um dos Trapalhões. Isso mesmo. O famoso quarteto que animava os domingos da criançada era para ser um quinteto, aparentemente nesta ordem: Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Barrigão. Esse foi, sem dúvida, o maior golpe que Barrigão levou ao longo da vida. Dizia ele que, muitas das piadas levadas ao ar a partir de 1977 no programa do quarteto tinham sido criação dele (nem Didi, nem Dedé quiseram se pronunciar acerca da veracidade ou não dos fatos).
Desiludido com o sucesso dos demais, Barrigão enfrentou problemas com a bebida no final dos anos 70. Apesar dos pesares, uma nova esperança surgiu quando um uruguaio, que levava o apelido de Paco, viu uma apresentação de rua de Barrigão em Balneário Camboriú, no sul do Brasil. Encantado, Paco convidou o brasileiro para se apresentar em Punta del Este na temporada de verão, pois lá o cachê e a gorjeta dos milionários, seriam sem dúvida maior do que eram ali. Ganhando um novo fôlego, Barrigão desembarcou no começo de dezembro em Punta, para uma nova fase em sua vida. Como seu humor sempre havia sido muito gráfico – com ovos quebrados na cabeça, cambalhotas e baldes d’água na cara – não seria nada difícil fazer os turistas rirem de suas travessuras.
E exatamente como o fora prometido, o dinheiro era melhor lá do que no Brasil. A única coisa é que Punta morria no inverno, e Barrigão passou a participar de modestos espetáculos circenses no interior do Uruguai. Mesmo não estando totalmente livre do vício da bebida, ele queria mais para si do que circos pobres e apenas pão e água como pagamento em muitas de suas apresentações. No verão seguinte, voltou à Punta para lucrar um dinheiro maior, e lá conheceu quem seria por muitos anos, a amor de sua vida: a argentina Cecília.
Pode-se dizer que, ao menos nos primeiros anos do relacionamento, Barrigão conseguiu alcançar um pouco do prestígio de que tanto almejava. Mudando-se com Cecília para Buenos Aires, El Barrigón passou a ser cadeira cativa nas casas de espetáculo da Avenida 9 de Julio. Por atuar na noite é que sua alcunha foi estendida para El Barrigón de la Noche; porém, as más línguas sustentam que o "de la Noche" vinha do fato de Barrigão amanhecer sempre bêbado de cair. Dizia-se que os taxistas já sabiam o endereço dele e de Cecília, no bairro da Recoleta, e apenas deixavam Barrigão, na maioria das vezes desacordado, na porta do prédio onde moravam.
O que estava bom começou a degringolar quando Cecília iniciou um affair com um ex-jogador de futebol paraguaio, Javier Chácara, que havia feito sua carreira nos clubes de Buenos Aires, e vivia confortavelmente por lá, e sem ter consigo o vício pela bebida. Quando Barrigão flagrou sua mulher saindo de um restaurante em Puerto Madero ao lado de Javier, Cecília não teve dó e confessou tudo de uma vez, além de pedir para que Barrigão deixasse o apartamento da Recoleta. Dizia ela que não havia dito nada até então, por pura pena do palhaço de meia idade. Mesmo implorando de joelhos por Cecília, Barrigão recebeu um ultimato dos advogados de sua agora ex-companheira, para que deixasse o apartamento dentro de uma semana. Não só isso, mas Barrigão, bêbado e revoltado, tentou agredir Javier Chácara uma noite, na porta do prédio, mas acabou imobilizado pelo paraguaio, que por pouco não quebrou o braço de Barrigão na hora do confronto.
Morando num edifício velho, num apartamento pequeno e quase sem móveis, Barrigão tinha no ofício de palhaço, e no pouco de confiança que ainda lhe restava, um meio de sobreviver entre todos os seus problemas. Agora seus espetáculos eram durante o dia, pelas praças de Buenos Aires, a troco de migalhas. O pouco que sobrava ia para a bebida, comprada normalmente no supermercado com os trocados ganhos ao longo do dia.
Acometido de uma depressão, no dia 24 de junho de 1990, após assistir em um bar na Avenida 9 de Julio o Brasil perder para a Argentina por 1 a 0 e ser eliminado da Copa do Mundo daquele ano, Barrigão voltou para seu minúsculo apartamento certo da sua decisão. Nada mais podia alegrar o risonho palhaço de outrora. Com uma corda, atada no lustre-ventilador de teto, Barrigão subiu na velha cadeira de madeira para pular e cometer suicídio - isso se ele não tivesse feito um nó que não era nó. O que aconteceu foi que a corda não apertou o tanto quanto deveria apertar, o que fez com que Barrigão caísse no chão do seu apartamento, num tombo feio agravado pelo seu peso, fazendo-o quebrar sua perna no ato. Apesar do barulho causado, ninguém foi ver o que tinha acontecido em seu apartamento. Barrigão sentia a dor da perna quebrada, mas seguia ali, sem conseguir sequer levantar do chão. De arrasto, foi até a cozinha onde abriu a porta da geladeira; dentro dela, só havia uma garrafa de vinho pela metade, e meia dúzia de ovos. Com muito esforço, Barrigão alcançou o vinho, e virou num gole só. Depois, com os ovos, Barrigão teve que fazer o que vinha fazendo a vida inteira, mas dessa vez para não morrer de fome: quebrar os ovos rente a sua boca, para saciar sua vontade de comer.
Após duas semanas, um cheiro foi sentido no corredor. Os vizinhos baterem na porta por várias vezes, até que o senhorio do apartamento foi chamado lá e com a chave, abriu a porta do imóvel para ver junto de algumas testemunhas, él Barrigón no chão, de barriga para cima, com algumas cascas de ovo e uma garrafa vazia de vinho ao seu lado, e a perna visivelmente deslocada do lugar. Após a autópsia, acredita-se que Barrigão já encontrava-se em óbito há cerca de cinco dias quando os vizinhos o encontraram.
Barrigão faleceu com 51 ou 52 anos, dependendo da fonte pesquisada. Deixou a vida para entrar na história, mesmo que pelas portas do fundo, e ainda hoje serve de inspiração a alguns palhaços de circo sul-americanos. Cecília já tem mais de 70 anos atualmente, e está escrevendo um livro de suas memórias, no qual promete revelar um lado que ninguém conhecia “del Barrigón”. Mais uma pitada de polêmica para a vida deste que já não faz mais parte do mundo dos vivos.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
A bala que se encontra
Escrito por
Zulmar Lopes
Dúvidas nunca
atormentam quem quatorze anos completa. Somente certezas. Certezas emolduradas
pela miséria pungente transbordada pelos becos estreitos da favela onde
habitava. Decidira assim abraçar o banditismo.
Não esperou a maioridade. Naquele ramo iniciava-se cedo. Infante. Esse
seria seu apelido. Henrique na pia batismal, Infante Henrique alusivo ao
monarca de terras além-mar. Em pouco tempo reinava na boca de fumo. Começara
soldado do tráfico e logo chegara a general. Abraçara um fuzil e com ele as
maldades que o faziam forte diante dos súditos. Sua palavra era lei e quem a
desobedecesse, morador ou membro da quadrilha, provava de sua fúria. Incontáveis
matou por vontade própria, outros, as balas perdidas disparadas por seu AK-47
tomaram o rumo indevido e ceifaram vidas no morro e no asfalto não tão
distante. Eu aperto o gatilho, Deus guias as balas, costumava zombar.
Raramente saia do seu
feudo-favela e sonhava virar inimigo público número um, estrelando cartaz
destacado no disque-denúncia tão logo completasse dezoito quando o improvável
aconteceu. Infante conheceu o amor. Menina de família, mãe crente. Largou tudo
por Cristiana antes da maioridade. Entregador de farmácia tornou-se. Certo dia,
voltando do trabalho o Infante criou asas e transformou-se em anjo por obra de
uma bala perdida que encontrou seu corpo. Morreu na via pública. Não fora
castigo de Deus tampouco fatalidade. Apenas mais um dia da barbárie urbana que assola
o País.
Gratidão
Escrito por
ofilhodoblues
“Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade.”
― Charles Bukowski
sou grato porque
cheguei
entre trancos
e barrancos
a lugar nenhum;
pois se eu fosse um
bicho desses qualquer,
cuja existência se dá
na corrida entre os
mais aptos,
meu instinto de sobrevivência
há muito já teria
me matado.
André Espínola
terça-feira, 17 de maio de 2016
Soneto Céu da tua mão
Escrito por
Unknown
Quanto tempo você tem para sair na vida
procurar nos ventos a avent'Cura sina de teu coração
quanto tempo você tem para sorrir teu sol e chorar tua chuva
encontrar no bolso da emoção tuas próprias mãos aladas em voo
se o amarelo das flores trazer o enlevo azul do céu
cada vez mais próximo de ti como o sublime calor apogeu
nada poderá fazer esse límpido amor sobre nós se desfazer
se tudo o que tens é a ti mesmo tua própria lógica do bem
despertas com um beijo dos ventos, vespertina visão que te leva
além do tempo nos olhos do teu próprio destino
a entrelinha composição das nuvens no horizonte do céu da tua mão
que desfilam nuas ao lado do céu e da lua
que solidão dormira nesse momento a tua imaginação
quando estiveres só e tão logo acompanhado em pensamento
assim, como se não tivesses ninguém, mas somente a ti e a deus.
quanto tempo você tem para sorrir teu sol e chorar tua chuva
encontrar no bolso da emoção tuas próprias mãos aladas em voo
se o amarelo das flores trazer o enlevo azul do céu
cada vez mais próximo de ti como o sublime calor apogeu
nada poderá fazer esse límpido amor sobre nós se desfazer
se tudo o que tens é a ti mesmo tua própria lógica do bem
despertas com um beijo dos ventos, vespertina visão que te leva
além do tempo nos olhos do teu próprio destino
a entrelinha composição das nuvens no horizonte do céu da tua mão
que desfilam nuas ao lado do céu e da lua
que solidão dormira nesse momento a tua imaginação
quando estiveres só e tão logo acompanhado em pensamento
assim, como se não tivesses ninguém, mas somente a ti e a deus.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Loop
Escrito por
Júlio Freitas
ergueu-se do chão
foi ao banheiro
lavou o rosto
pegou os cigarros
as chaves
e saiu para a rua
o sol e o calor
o sangue fervia
o estômago embrulhado
o barulho ensurdecia
bolhas nos pés
o trabalho imposto
bate-ponto
filas de robôs
alienados
programados
para sempre seguir ordens
e alimentar
a grande máquina
fim de turno
fim de tarde
rostos
carros
buzinas
suor
tontura
fedor
e loucura
chega em casa
liga o rádio
senta no sofá
esboça um sorriso
e morre
como tem feito todo dia, aliás.
foi ao banheiro
lavou o rosto
pegou os cigarros
as chaves
e saiu para a rua
o sol e o calor
o sangue fervia
o estômago embrulhado
o barulho ensurdecia
bolhas nos pés
o trabalho imposto
bate-ponto
filas de robôs
alienados
programados
para sempre seguir ordens
e alimentar
a grande máquina
fim de turno
fim de tarde
rostos
carros
buzinas
suor
tontura
fedor
e loucura
chega em casa
liga o rádio
senta no sofá
esboça um sorriso
e morre
como tem feito todo dia, aliás.
sábado, 14 de maio de 2016
sábado, 30 de abril de 2016
domingo, 24 de abril de 2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Baleado
Escrito por
Rodrigo Domit
Quando chegava ao quarto cambaleando, sentia-se como um voluntário do atirador de facas; Enquanto a cama girava, ele ficava inerte, incapaz de desviar das acusações.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
terça-feira, 19 de abril de 2016
O Trabalho
Escrito por
André Bortolon
Almir é aquele tipo de cara que sempre prezou pelo seu trabalho. Dedicado na função, nunca deixou que outro compromisso, fosse este por lazer ou pura diversão, o atrapalhasse na execução de seu trabalho. Como Almir dedicava sua atenção máxima ao que fazia, seu foco raramente permitia que ele fizesse algo diferente quando em serviço. Normalmente mantinha o celular desligado - não naquela quarta-feira.
Almir vinha saindo com uma daquelas garotas difíceis de encontrar por aí; daquelas, como se diz, “para casar”. E foi dela a ligação que Almir recebeu, fato este que o fez no mesmo instante contrariar todos os seus princípios, mesmo que ele estivesse prestes a executar uma função importantíssima de seu trabalho.
- Alô? Oi Ritinha, tudo bem, e você? ... Sim e não. Tô a trabalho e não tem problema não, pode falar comigo sim... Não, só achei que seria importante te atender, afinal de contas, a gente tá se vendo bastante ultimamente né? ... Hum? Ah, eu gostei do suflê de batatas que você fez... Por que eu não comi muito? Ah, eu tinha comido um doce que não me caiu bem naquela tarde.... Sim, é claro que gosto de você também, você sabe que nunca ligo o celular em meu trabalho, só o deixei ligado por sua causa, Ritinha... É, prestação de serviços, entende? Ah... não, claro que posso te falar Ritinha... Sim, eu sei, eu sei que você me conta tudo. Puxa, te admiro mais ainda por isso! ... Não, nunca! Nunca casei, nem sequer namorei por muito tempo seguido, imagina que ia estar te escondendo uma relação... Não, esse não é meu perfil... E por que eu escondo o trabalho? Não, espera, eu vou te dizer quando chegar a hora certa, meu amor... Hã? ...Você gostou que te chamei assim, de “meu amor”? Ah, imagina. O quê? ... Ator pornô? De onde você tirou essa ideia maluca, Ritinha?? ...Ah, faça-me o favor... Eu tenho vergonha de pôr sunga quando vou à praia, imagina ficar pelado em frente às câmeras... não, eu prometo que vou te dar mais detalhes, não tem nada de mais mesmo... Vergonha? Não, nenhuma. É algo particular apenas, sei lá. Olha, posso te dizer isto de certeza: esse dinheiro que vou ganhar por esse trabalho vai me deixar tranquilo por, digamos, uns dois meses... Podemos sair jantar juntos, ir até Campos do Jordão pegar um fim-de-semana na serra... Ah você prefere Búzios? Ótimo, Búzios será... também gosto de praia Ritinha, adoro o mar. Já falamos sobre isso na noite do estrogonofe de frango que você preparou... Ah, era de carne, claro! O quê... Ritinha, não vamos começar uma discussão sobre isso. É claro que gosto da sua comida, eu não limpei o prato aquela noite? ... Sim, tá vendo? Ops, Ritinha, agora tenho que desligar que o batente me chama... eu também... um beijo bem gostoso para você, preciso desligar mesmo. Nos falamos à noite!
Almir desligou o telefone e deu uma última olhada na foto que seu cliente havia ele enviado pelo celular. Sim, os dados batiam. Almir discretamente saiu de seu carro, usando o seu tradicional uniforme – terno de tom escuro, gravata de cor única, e seus óculos Ray-Ban que sempre lhe davam sorte no cumprimento de suas metas. Atravessou a rua, aproximando-se do cidadão da foto:
- Com licença, o senhor é Aldo Viriato, certo?
- Sim. Quem gostaria? – respondeu o senhor de meia-idade num tom de voz um tanto autoritário, e o olhar desconfiado.
- Eu tenho uma encomenda enviada pelo Tarcísio, da factoring que o senhor tomou dinheiro emprestado alguns anos atrás, lembra?
O homem de meia-idade engoliu a seco a informação. Mudando o olhar de inquisitivo para surpreso numa fração de segundos, ainda tentou dizer:
- Eu ia mesmo ligar para ele hoje, agora na verdade eu estava prestes a fazer isso...
- Tarde demais, seu Aldo.
Com uma habilidade de quem conhece o que faz, Almir sacou a pequena pistola Beretta de dentro do seu paletó e disparou um, dois, três tiros na barriga de Aldo; que, impotente, caiu de joelhos na calçada. A passos rápidos, Almir atravessou a rua e voltou para o seu carro, antes olhando para os dois lados a certificar-se de que não havia ninguém na rua. Deu partida no motor, e foi para casa pensando que não deveria ter mentido para Ritinha.
Realmente, o suflê de batatas não estava bom. Um tanto quanto abatumado.
Almir vinha saindo com uma daquelas garotas difíceis de encontrar por aí; daquelas, como se diz, “para casar”. E foi dela a ligação que Almir recebeu, fato este que o fez no mesmo instante contrariar todos os seus princípios, mesmo que ele estivesse prestes a executar uma função importantíssima de seu trabalho.
- Alô? Oi Ritinha, tudo bem, e você? ... Sim e não. Tô a trabalho e não tem problema não, pode falar comigo sim... Não, só achei que seria importante te atender, afinal de contas, a gente tá se vendo bastante ultimamente né? ... Hum? Ah, eu gostei do suflê de batatas que você fez... Por que eu não comi muito? Ah, eu tinha comido um doce que não me caiu bem naquela tarde.... Sim, é claro que gosto de você também, você sabe que nunca ligo o celular em meu trabalho, só o deixei ligado por sua causa, Ritinha... É, prestação de serviços, entende? Ah... não, claro que posso te falar Ritinha... Sim, eu sei, eu sei que você me conta tudo. Puxa, te admiro mais ainda por isso! ... Não, nunca! Nunca casei, nem sequer namorei por muito tempo seguido, imagina que ia estar te escondendo uma relação... Não, esse não é meu perfil... E por que eu escondo o trabalho? Não, espera, eu vou te dizer quando chegar a hora certa, meu amor... Hã? ...Você gostou que te chamei assim, de “meu amor”? Ah, imagina. O quê? ... Ator pornô? De onde você tirou essa ideia maluca, Ritinha?? ...Ah, faça-me o favor... Eu tenho vergonha de pôr sunga quando vou à praia, imagina ficar pelado em frente às câmeras... não, eu prometo que vou te dar mais detalhes, não tem nada de mais mesmo... Vergonha? Não, nenhuma. É algo particular apenas, sei lá. Olha, posso te dizer isto de certeza: esse dinheiro que vou ganhar por esse trabalho vai me deixar tranquilo por, digamos, uns dois meses... Podemos sair jantar juntos, ir até Campos do Jordão pegar um fim-de-semana na serra... Ah você prefere Búzios? Ótimo, Búzios será... também gosto de praia Ritinha, adoro o mar. Já falamos sobre isso na noite do estrogonofe de frango que você preparou... Ah, era de carne, claro! O quê... Ritinha, não vamos começar uma discussão sobre isso. É claro que gosto da sua comida, eu não limpei o prato aquela noite? ... Sim, tá vendo? Ops, Ritinha, agora tenho que desligar que o batente me chama... eu também... um beijo bem gostoso para você, preciso desligar mesmo. Nos falamos à noite!
Almir desligou o telefone e deu uma última olhada na foto que seu cliente havia ele enviado pelo celular. Sim, os dados batiam. Almir discretamente saiu de seu carro, usando o seu tradicional uniforme – terno de tom escuro, gravata de cor única, e seus óculos Ray-Ban que sempre lhe davam sorte no cumprimento de suas metas. Atravessou a rua, aproximando-se do cidadão da foto:
- Com licença, o senhor é Aldo Viriato, certo?
- Sim. Quem gostaria? – respondeu o senhor de meia-idade num tom de voz um tanto autoritário, e o olhar desconfiado.
- Eu tenho uma encomenda enviada pelo Tarcísio, da factoring que o senhor tomou dinheiro emprestado alguns anos atrás, lembra?
O homem de meia-idade engoliu a seco a informação. Mudando o olhar de inquisitivo para surpreso numa fração de segundos, ainda tentou dizer:
- Eu ia mesmo ligar para ele hoje, agora na verdade eu estava prestes a fazer isso...
- Tarde demais, seu Aldo.
Com uma habilidade de quem conhece o que faz, Almir sacou a pequena pistola Beretta de dentro do seu paletó e disparou um, dois, três tiros na barriga de Aldo; que, impotente, caiu de joelhos na calçada. A passos rápidos, Almir atravessou a rua e voltou para o seu carro, antes olhando para os dois lados a certificar-se de que não havia ninguém na rua. Deu partida no motor, e foi para casa pensando que não deveria ter mentido para Ritinha.
Realmente, o suflê de batatas não estava bom. Um tanto quanto abatumado.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Dona Dora
Escrito por
Zulmar Lopes
O que me trouxe aqui é uma
história pra lá de inusitada, seu Júlio. Caso o senhor disponha de tempo,
gostaria de narrar os acontecimentos nos mínimos detalhes para lhe inteirar de
todas as circunstâncias. Espero que ao final da minha narrativa você,
desculpe-me, o senhor tenha dados suficientes para poder nos ajudar,
livrando-nos deste pesadelo. É difícil iniciar o relato desta estranha, e
porque não dizer, desagradável experiência, mas é melhor deixar os rodeios de
lado e ir direto ao assunto.
Eu nunca imaginei uma mãe sendo capaz de vingar-se dos seus filhos.
Sempre acreditei piamente na impossibilidade de sentimentos vis por parte de
alguém capacitada a produzir vida. Deus é criador e é amor. As mães também
criam, geram vida e são amorosas. Então, como explicar a atitude de mamãe para
conosco, seu Júlio?
Tudo bem, estou calmo,
fique tranquilo. Bom, somos em três irmãos, todos gravitando na faixa dos
quarenta anos. Como já lhe disse, me chamo Alexandre e sou o caçula. Temporão
por acidente e solteiro pela ausência de paixão, acredite. E sendo o único livre de responsabilidades
familiares coube a mim a missão de cuidar de mamãe quando ela enviuvou. Tão
logo papai desceu à sepultura após o aneurisma, desmontei meio a contragosto o
meu apartamento e fui viver com ela na ampla casa de subúrbio que meu pai
erguera “tijolo por tijolo” como ele orgulhosamente dizia. O senhor fuma, seu
Júlio? Ah, não posso fumar aqui? Sem problemas. Como e ia dizendo, sou o único
solteiro e o senhor há de convir que para um homem acostumado a independência
de morar sozinho, foi um tanto sacrificante esta mudança de hábitos, mas alguém
tinha que renunciar parte de sua vida
para o conforto de mamãe que vivia há quase cinco anos em uma cadeira de rodas
desde que uma poderosa artrose lhe assaltara os movimentos das pernas. Alberto,
meu irmão do meio, mora com mulher e filhos em outra cidade e Acácia,
primogênita e oito anos mais velha do que eu, tem sua própria família composta
de marido e filhas problemáticas para
zelar.
Assim, mamãe ficou entregue aos meus cuidados. Eu procurava facilitar-lhe
a vida, administrando o pequeno patrimônio que papai nos legara sem, contudo,
deixar de viver a minha existência com certa autonomia. Isto significava
dedicação ao meu trabalho como cronista de um jornal popularesco no horário
comercial e eventuais casos amorosos tão logo a noite se desfraldava. Não me
leve à mão, mas não vejo porque mentir para o senhor. Sou mulherengo mesmo,
desculpe a franqueza. E por estas e outras, mamãe passava a maior parte do dia
sob responsabilidade da Marta, uma simpática e robusta enfermeira por mim
contratada. Ela parecia entender minha condição de homem e de profissional e,
resignada, aproveitava minha parca companhia quando o meu tempo livre se
dilatava.
Meus irmãos pouco apareciam para visitá-la. Alberto ligava semanalmente,
mas demorava poucos minutos no telefone com ela, como se uma obrigação
cumprisse. Acácia fazia aparições relâmpagos na casa do subúrbio e
invariavelmente saia munida de um empréstimo cujo pagamento minha mãe raramente
via concretizar-se. E assim a gente ia tocando a vida.
A primeira vez que eu percebi em mamãe certa mágoa com o nosso descaso
foi cerca de três dias após a noite de autógrafos do meu primeiro livro. Sim,
sou escritor. Não falei que escrevo crônicas para um jornal? Ah, o senhor mão
me conhecia. Bem, vê-se então que eu sou bem menos popular do que imaginava,
mas isto não vem ao caso agora. Toda a família estava presente na livraria onde
seria a noite de autógrafos. Meu irmão despencou lá de Minas trazendo de
contrapeso a mulher e os meninos. Acácia, que detesta livros, mas adora uma
festa, não deixou de comparecer e mamãe ficou aos seus cuidados, sendo
assessorada pelas minhas sobrinhas já adolescentes.
O senhor deve imaginar que eu era o centro das atenções naquela noite e
isto me manteve todo o tempo ocupado, autografando o livro, atendendo à
imprensa, forçando sorrisos e outras pequenas atitudes necessárias para o
sucesso do evento. Lembro de haver tirado fotos com boa parte da parentada.
Tinha certeza que mamãe estava em uma destas benditas fotos e qual foi a minha
surpresa quando ao pegar loja os negativos revelados não encontrei nenhuma foto
com a mamãe. Estavam todos lá, seu Júlio, divididos em várias imagens,
sorridentes, segurando meu livro, abraçados a mim, mas faltava mamãe. Vendo as
fotos, mamãe demonstrou uma surda mágoa com o incidente. Na mesma hora liguei
para a Joyce, minha sobrinha mais velha e dona da câmera fotográfica,
perguntando o que havia acontecido. Ela
disse ter certeza que havia clicado a mim e mamãe juntos e que talvez a máquina
tivesse travado ou o filme houvesse chegado ao sem fim, ela não sabia ao certo.
Moral da história, seu Júlio: ninguém assumiu a culpa pelo constrangedor
episódio.
E o senhor nem imagina o que aconteceu depois. Isso mesmo! O ocorrido
repetiu-se! Desta vez, nos 15 anos de Leonora, a outra filha de minha irmã.
Fotos reveladas, mamãe ausente. Puro esquecimento e desconsideração. Minha
também, o senhor está coberto de razão. Só que desta vez mamãe soltou o verbo:
“esqueceram que eu pertenço a esta família, ou então vocês têm vergonha da
aleijada aqui” – ela repetiu esta frase por meses, seu Júlio. Eu até a decorei
de tanto que a ouvi.
A partir de então, em todas as ocasiões festivas, tomávamos as devidas
precauções para retratarmos mamãe, mas, observando recentemente algumas
fotografias daquela época, percebi em seu semblante a tristeza como que nos
demonstrado que aquele nosso gesto em verdade consistia em nos livramos de uma
eventual culpa de pisarmos na bola do que sincera consideração para com ela.
Viveu mais cinco anos, seu Júlio, e morreu como um passarinho. Estávamos
nós dois na sala de casa, numa daquelas noites que me faltava uma companhia
feminina, conversando banalidades quando o telefone que ficava em meu quarto
tocou. Foi o tempo entre ir atender a chamada, constatar o engano e retornar à
sala. Encontrei mamãe morta. A gente soube pelo Doutor Peçanha, cardiologista
dela há muitos anos, que ela foi vitimada por um ataque fulminante. Ele me
garantiu que nem dor mamãe há de ter sentido. Mas foi muito triste, ver o corpo
dela ali, jogado sem vida naquela cadeira de rodas, cabecinha branca pendendo
de lado como se dormisse. Lembro como se fosse hoje, parece que eu estou vendo
a cena. Eu sentei-me ao lado da cadeira, acariciei seus cabelos ralinhos e,
derramando lágrimas sentidas e sinceras, pedi desculpas por mim e pelos meus
irmãos pela falta de atenção nestes últimos anos, pelo nosso descaso. Apesar de
tudo, ainda tentei argumentar com o seu cadáver que as nossas ocupações e o
ritmo de vida que levávamos eram os verdadeiros culpados por nossa pouca
dedicação. Só depois eu liguei para a mana. Perdão pela voz embargada, seu
Júlio, mas o senhor entende, não?
Bom, agora, o motivo que me trouxe aqui. Mamãe se vingou de todos nós,
seu Júlio. É sério! E Alberto foi a primeira vítima. Calma, eu vou contar.
Alberto e Isabela são pais de dois meninos com menos de cinco anos e curtem
registrar o crescimento dos garotos através de fotos. Após uma das inúmeras
sessões fotográficas, no quintal de sua casa, Alberto percebeu um vulto
estranho em uma das fotografias, próximo ao muro, meio por detrás de um
arbusto. Intrigado, pois só ele, Isabela e os meninos encontravam-se em casa,
ampliou a foto e, assombrado, descobriu o rosto de mamãe! Sua expressão era de
uma perturbadora sisudez. Uma imagem vale mais do que mil palavras, o senhor já
deve ter ouvido esta frase, não é verdade, seu Júlio? Pois é. Mamãe decretara
toda a culpa de Alberto por sua desconsideração com ela, intrometendo-se em um
momento de lazer e felicidade de sua família.
Meu irmão enviou-me a foto pelo
computador e eu de início custei a acreditar. Briguei feio com ele, condenando
o que eu julgava ser uma brincadeira de mau gosto com a memória da mamãe, que
aquilo não se fazia, etc. Fique puto dentro das calças, seu Júlio. Desculpe,
desculpe, não vai se repetir. Fiquei injuriado com o meu irmão. Cheguei a
cortar relações com ele, embora Alberto afirmasse não se tratar de uma
montagem. Minha irmã também não
acreditou na história porém, semanas depois, mamãe deu o ar de sua graça em uma
fotografia de viagem que ela e o marido fizeram a Itatiaia. Era temporada de
inverno e uma neblina torrencial cobria o cenário fotografado e, por detrás dos
dois, via-se ao fundo uma silhueta a uns dez metros de distância que lembrava
mamãe, com os mesmos vestidinhos estampados que ela costumava trajar! Somente
uma silhueta era perceptível, mas eu tinha certeza que era ela!
E minhas certezas se confirmaram com a foto que eu tirei para renovar o
passaporte. Aqui está ela, veja o senhor mesmo! Nítida, sorrindo, atrás de mim.
Ao menos por mim ela teve piedade, não se apresentou aborrecida, a me censurar.
Aterrorizados, estamos há semanas sem tirar uma mísera foto, impedidos de
guardar nossas mais estimadas recordações. Meus sobrinhos correm riscos de
crescer sem os seus momentos registrados, tudo por culpa deste capricho da
mamãe. Sim, é espantoso, seu Júlio. Concordo com o senhor, mas, já que o senhor
é médium e tem linha direta com as almas do outro mundo, venho lhe pedir por
caridade. Numa próxima reunião espírita neste centro, evoque minha mãe. O nome
dela é Dora, Dona Dora, e peça a ela para deixar de aparecer em nossas fotos.
Já fui a parapsicólogos, exorcistas, pais-de-santo e só gastei dinheiro e ouvi
conversa fiada. Após consultar estes especialistas, batia uma chapa e lá estava
mamãe, onipresente, invadindo o papel fotográfico. O senhor é minha última
esperança. Vai nos ajudar, seu Júlio?
Salvifici Dolores
Escrito por
ofilhodoblues
outrora os penitentes
eram mais felizes.
ah, Deus, perdoa!
não se faz mais
cilícios
como antigamente!
domingo, 17 de abril de 2016
MinhA'lma
Escrito por
Unknown
Minha alma é repleta de flores,
onde cultivo meus amores,
onde minha felicidade habita,
e só a bondade sobrevive.
onde cultivo meus amores,
onde minha felicidade habita,
e só a bondade sobrevive.
sábado, 16 de abril de 2016
Todos estavam errados
Escrito por
Júlio Freitas
ele
cresceu
e
a vida adquiriu aquela cor
que
tanto lhe diziam ser impossível
finalmente
mar
finalmente
flor
finalmente
rosa
rosa
como veneno de rato.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
terça-feira, 12 de abril de 2016
Matt Walters I Would Die For You
Escrito por
Francisco M. M. Arantes (Quito Arantes)
Thanks Matt Walters!
As coisas têm o seu tempo, enquanto cá estivermos.
Não deixarei por mãos alheias as minhas lutas pela minha liberdade intelectual.
O sofrimento pode trazer-nos felicidade, e é assim que a espero...
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Um porre
Escrito por
Unknown
Um porre de poesia para que acordes.
musica livre, arranjos harmônicos.
o copo sobre a mesa, suando.
a luz do bar acessa, piscando.
o fio do horizonte paira, ondula.
perdura no amor de cada dose
no calor de cada arrepio.
quinta-feira, 24 de março de 2016
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