
No inverno, é o que se tem de mais vivo e o oceano não parece tão importante e único assim. É apenas um em meio a tantos. Avenidas são mares em tempestade e lixos são embarcações em naufrágio.
E a chuva, mais chuva.
Saem de cada pneu, de cada carro, ondas no mar das ruas: tem as preferidas dos banhistas, pequenas e tímidas, e aquelas dos ônibus, que são boas pra surfar. Por apenas R$ 1,75, surfamos todos juntos a mesma onda, unidos nessa mesma prancha, apertada, abafada e calorenta. Pelo menos não tem perigo de ataques de tubarão. Da janela, banhistas em trajes de trabalho carregam guarda-chuvas que só protegem o rosto e os ombros e se escondem das ondas que lhes encobrem metade das canelas.
Boa Viagem – com suas areias vazias, sem vendedores ambulantes de caldinhos, ostras e camarões, sem guarda-sóis que por hora não têm o que guardar, sem famílias, namorados, vizinhos e amigos tomando cervejas e coca-colas e, ainda por cima, perfuradas pela metralhadora de gotas que não cessam de cair – olha o Recife e suas avenidas com ódio e inveja, daqueles que abaixam a cabeça com orgulho manchado e não podem fazer nada. A Domingos Ferreira e a Conselheiro Aguiar estão um mar só, cheio de carros e banhistas. E na Navegantes, todos, literalmente, navegam. A praia, por sua vez, somente espera a melhor oportunidade pra se vingar e se esconde submerso em suas próprias águas salgadas. Sonha docilmente com o próximo verão.
André Espínola
Um comentário:
Retratinho vertginoso da realidade (sub)urbana. Mas a poesia está em tudo. Gostei do mar resignado.
Abraço.
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