na fresta
da vista
arisca
a chance
de luz
do Sol
pra dentro
do negro
do só
(em 18/11/2013)
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Frase para começar um romance #2
Escrito por
Rafael Cal
Sentado no ponto de ônibus, pode observar todo o tumulto que se seguiu ao vaso sanitário despencando em frente ao prédio número 224.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Legítima defesa
Escrito por
Rodrigo Domit
O advogado alegou legítima defesa; E o juiz absolveu o comandante e mais 11 réus de todas as acusações: homicídio, agressão e uso abusivo de força.
Mais um caso de legítima defesa, em defesa da ordem social.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
A crônica de Miguel
Escrito por
André Bortolon
Miguel queria apenas escrever sua crônica em paz, e nada mais. Era o seu trabalho, o que ele gostava de fazer, então, ora bolas, mãos à obra!
Após passar o café e de servi-lo em uma generosa caneca, Miguel sentou-se à frente do notebook e abriu seu editor de texto. O pensamento começou a fluir no primeiro gole de café quentinho que descia pela garganta de Miguel. Tudo em sintonia, tudo “numa nice”. Até que o telefone de casa tocou. Daqueles toques que vão até o limite possível de toques de um aparelho de telefone. Miguel pensou: “isto só pode ser ligação de call center. Tem que ser. Querem me empurrar alguma porcaria goela abaixo. Quem telefonaria para o meu fixo numa quarta, as duas e meia da tarde? Não vou atender, dane-se!”.
Quando o toque intermitente cessou, Miguel rapidamente digitou as primeiras palavras de sua crônica. Ao iniciar a segunda linha, o telefone berrou de novo. “Por que um toque tão alto, meu Deus? É coisa da Edivandra. Só pode ser”. Edivandra era a diarista da casa, que de tão eficiente que era poderia ter passado o pano com força em algum botão e aumentado o volume do toque sem querer. Na verdade, Miguel nem sabia se o seu aparelho de telefone tinha tal botão ou não. Miguel às vezes até esquecia que cor tinha seu telefone fixo, tão pouco o tal aparelho era usado por ele. “É bege” constatou Miguel, olhando para o aparelho e pensando: “claro que é bege, mesmo se eu não tivesse olhado pro maldito aparelho agora, eu saberia dizer que é bege”.
Pois desta segunda vez, o telefone mais uma vez tocou até o último momento. Antes de seguir digitando sua segunda linha, Miguel bebericou um gole grande de café, que até respingou na mesinha. Decidiu: “Vou desconectar essa porcaria da parede. Sim, vou fazer isso agora. Em seguida já coloco-o no lixo reciclado e pronto. Ou doo. Sei lá, para que um telefone fixo, bege, me atrapalhando bem na hora em que quero sossego pra trabalhar?” Nisto Miguel levantou e andou a passos largos em direção ao telefone, que ficava junto à estante da sala. Quando colocou a mão no fio do aparelho, o toque estridente recomeçou. Miguel de um pulo para trás de susto, e chamou um palavrão na mesma hora. Miguel só poderia tomar duas ações naquela fração de segundos: desplugar o aparelho da tomada, ou simplesmente atender a chamada. Miguel foi na segunda opção, talvez porque o telefone estava mais à sua mão do que o fio. Atendeu:
- Alô?
- Boa tarde, eu poderia falar com o seu Miguel Gutierrez Filho?
Miguel suspirou, pensando em bater o telefone na cara da voz feminina do outro lado da linha. Mas resolveu dar mais uma chance:
- É ele.
- Miguel, aqui quem fala é Sabrina Cortez, da Fox editoras, tudo bem com você?
- Tudo ótimo...
- É que o seu original enviado para a avaliação em, em... Foi ano retrasado ainda, certo? Pois Miguel, acabamos de aceita-lo para publicação conosco...
- Como é que é?
Miguel ficou pasmo ao telefone. Seu primeiro livro, e ainda com uma editora grande! Ao término da ligação, Miguel saiu excitado de casa para dar a notícia a sua amada, Clara, que estava no trabalho. Mas decidiu, antes de contar às novas à sua mulher, passar nas casas Bahia e comprar mais um aparelho de telefone para fazer de extensão em seu quarto. Pensou ainda na cor, e viu que bege combinaria bem com o criado-mudo.
Após passar o café e de servi-lo em uma generosa caneca, Miguel sentou-se à frente do notebook e abriu seu editor de texto. O pensamento começou a fluir no primeiro gole de café quentinho que descia pela garganta de Miguel. Tudo em sintonia, tudo “numa nice”. Até que o telefone de casa tocou. Daqueles toques que vão até o limite possível de toques de um aparelho de telefone. Miguel pensou: “isto só pode ser ligação de call center. Tem que ser. Querem me empurrar alguma porcaria goela abaixo. Quem telefonaria para o meu fixo numa quarta, as duas e meia da tarde? Não vou atender, dane-se!”.
Quando o toque intermitente cessou, Miguel rapidamente digitou as primeiras palavras de sua crônica. Ao iniciar a segunda linha, o telefone berrou de novo. “Por que um toque tão alto, meu Deus? É coisa da Edivandra. Só pode ser”. Edivandra era a diarista da casa, que de tão eficiente que era poderia ter passado o pano com força em algum botão e aumentado o volume do toque sem querer. Na verdade, Miguel nem sabia se o seu aparelho de telefone tinha tal botão ou não. Miguel às vezes até esquecia que cor tinha seu telefone fixo, tão pouco o tal aparelho era usado por ele. “É bege” constatou Miguel, olhando para o aparelho e pensando: “claro que é bege, mesmo se eu não tivesse olhado pro maldito aparelho agora, eu saberia dizer que é bege”.
Pois desta segunda vez, o telefone mais uma vez tocou até o último momento. Antes de seguir digitando sua segunda linha, Miguel bebericou um gole grande de café, que até respingou na mesinha. Decidiu: “Vou desconectar essa porcaria da parede. Sim, vou fazer isso agora. Em seguida já coloco-o no lixo reciclado e pronto. Ou doo. Sei lá, para que um telefone fixo, bege, me atrapalhando bem na hora em que quero sossego pra trabalhar?” Nisto Miguel levantou e andou a passos largos em direção ao telefone, que ficava junto à estante da sala. Quando colocou a mão no fio do aparelho, o toque estridente recomeçou. Miguel de um pulo para trás de susto, e chamou um palavrão na mesma hora. Miguel só poderia tomar duas ações naquela fração de segundos: desplugar o aparelho da tomada, ou simplesmente atender a chamada. Miguel foi na segunda opção, talvez porque o telefone estava mais à sua mão do que o fio. Atendeu:
- Alô?
- Boa tarde, eu poderia falar com o seu Miguel Gutierrez Filho?
Miguel suspirou, pensando em bater o telefone na cara da voz feminina do outro lado da linha. Mas resolveu dar mais uma chance:
- É ele.
- Miguel, aqui quem fala é Sabrina Cortez, da Fox editoras, tudo bem com você?
- Tudo ótimo...
- É que o seu original enviado para a avaliação em, em... Foi ano retrasado ainda, certo? Pois Miguel, acabamos de aceita-lo para publicação conosco...
- Como é que é?
Miguel ficou pasmo ao telefone. Seu primeiro livro, e ainda com uma editora grande! Ao término da ligação, Miguel saiu excitado de casa para dar a notícia a sua amada, Clara, que estava no trabalho. Mas decidiu, antes de contar às novas à sua mulher, passar nas casas Bahia e comprar mais um aparelho de telefone para fazer de extensão em seu quarto. Pensou ainda na cor, e viu que bege combinaria bem com o criado-mudo.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Somos Todos Capadócios
Escrito por
Zulmar Lopes
— Boa
tarde, delegado.
— Boa…
— Sabe o que me traz a sua honrada delegacia?
— Certamente, doutor advogado. Veio ver o assassino.
— Preferia chamá-lo de injustamente acusado.
— Como quiser.
— Delegado, não há dúvida que o meu cliente é
inocente.
O delegado espantou-se com a notícia.
— Seu cliente?
— Exatamente. A Cúria contratou os meus serviços.
— Era só o que faltava! Doutor, sejamos sensatos!
— Sensatos, delegado? Chama isto de sensatez?
Alojado em frente a sua mesa já carcomida pelos anos de uso,
o delegado direcionou o olhar para a única e apertada cela daquela cadeia do
interior. Evitou cruzar vistas com o assassino ou, como preferia o advogado, o
injustamente acusado. Percebia-se no semblante o desconforto diante da
situação.
— Doutor advogado, acredita que somos todos iguais
perante a lei?
— Mas é claro. Tal afirmativa é a base da justiça.
— Contudo, alguns são mais iguais que os outros…
— Isto é uma balela, delegado!
— O que o senhor sabe a respeito do caso?
— Que se trata de um lamentável acidente. Todo o
povo que assistia a procissão é testemunha.
— Para o povo, foi assassinato, doutor advogado.
O suspiro do delegado poderia ser ouvido até do lado de
fora da delegacia, tão minúsculo era o prédio que a abrigava. Recomposto,
encarou o advogado.
— Lutero, nós somos amigos de longa data, jogamos
truco toda semana no bar do Fulgêncio e você me deu a honra de batizar seu
filho. Tenho assim você em alta estima e consideração. Fico constrangido com
tudo isso, mas encontro-me de mãos atadas. O que posso fazer?
O advogado levantou-se da cadeira e circulou em volta do
limitado espaço que compunha a delegacia. Também não teve coragem de encarar o
prisioneiro por detrás das grades enferrujadas. Parecia escolher as palavras
para continuar o diálogo com o seu compadre.
— Juventino, meu amigo. Conte-me exatamente o
ocorrido, sem esconder detalhes. Juntos, talvez, encontremos uma saída para
este caso.
Sabendo poder confiar de olhos fechados no amigo, o
delegado pitou seu cigarro de palha e começou a desfiar a verdadeira história.
— Bom, Lutero. Você conhecia a vítima?
— O Geninho? E quem não o conhecia por estas bandas,
compadre? Bom menino, estudioso, temente a Deus até as entranhas…
— Pois é compadre, pois é…
— E o que o nosso amigo ali engaiolado tem a ver com
isso? Foi vontade de Deus, por acaso? Continuo botando na conta de um infeliz
acidente.
Juventino desembuchou os fatos.
— Geninho era tudo isso que você disse e algo mais,
compadre. Ótimo filho, trabalhador, prestativo, caridoso. Já foi até anjinho em
outras procissões, mas todo mundo tem um fraco nessa vida e o do Geninho foi
uma mulher.
— Difícil acreditar, compadre. Ele era tão tímido e
católico. Nunca o vi nos braços das meninas lá na casa de diversões de dona
Eudóxia.
— Eu não disse mulheres no plural, compadre e sim
uma em especial. O menino meteu-se com uma senhora casada aqui mesmo da cidade.
Dizem que foi ela que o tentou, afinal, o rapaz tinha lá os seus atrativos e a
dita senhora um furor por debaixo das saias. Tanto perseguiu o Geninho que ele
caiu nos seus encantos. Provou dos chamegos da dona e gostou. Pois bem, o caso
foi levado em segredo por alguns meses até que o marido chegou mais cedo do
trabalho, só não pegando o casalzinho em pleno ato porque o pobre finado
conseguiu fugir pela janela do quarto sem ser identificado. O marido pôde
distinguir apenas um vulto vestindo calças laranja correndo desembestado pelo
seu quintal.
— Mas, afinal, Juventino, quem era o galhudo?
O delegado respondeu de modo quase inaudível.
— Doutor Haroldo Fontes.
Lutero por pouco não caiu da cadeira.
— O prefeito?
— E existe outro Haroldo Fontes na cidade, Lutero?
O espanto do advogado não cabia dentro da pequena
delegacia.
— Agora, eu entendo tudo.
— Pois é, compadre. Doutor Haroldo Fontes deixou a
vingança adormecida por umas semanas para fazer com que ela despertasse justo
no dia da procissão do padroeiro. Mas o prefeito me garantiu não ter sido
vingança tramada e comida pelas beiradas. Ele disse que até já havia perdoado a
primeira-dama pela escapada, afinal, ninguém soubera do acontecido e ele
precisava manter as aparências. Acontece que Geninho caiu na besteira de ir à
procissão com a mesma calça laranja que usava no dia do quase flagrante.
— Menino burro esse Geninho.
— Também acho, mas como ele poderia imaginar que o
prefeito tivesse guardado o detalhe da vestimenta do seu rival?
— Se ainda fosse uma calça azul, ou preta, compadre, vá
lá. Todo homem tem uma calça nestas cores, mas laranja? Foi muita bandeira.
— O resto da história você já sabe, Lutero. Vinha o
prefeito todo compenetrado na procissão, ombro esquerdo sustentando a parte
dianteira do andor quando deu de cara com Geninho dentro da sua calça laranja.
A cena deve ter despertado os miolos traídos do homem e deu no que deu. Ele
deixou escorregar o andor de seu ombro e a imagem de São Jorge caiu justamente
em cima do pobre menino. A lança atravessou o coração do garoto que morreu na
hora. O que parecia um mero acidente, como até tu, meu caro, acreditava, foi o
despertar de uma vingança adormecida. O próprio Doutor Haroldo Fontes me
confirmou em seu gabinete na prefeitura.
Lutero sacou do bolso um lenço e enxugou a testa gotejada
de suores causados pela surpreendente revelação de Juventino.
— Por que cargas d’água o prefeito confessou, compadre?
— Remorsos, meu amigo, remorsos. Não pelo Geninho, mas
pelo prisioneiro que eu e a brigada fomos obrigados a recolher ao xadrez. Você
viu como o povo ficou revoltado com o acontecido, exigindo justiça. Por isso
tive que tomar esta decisão para preservar sua integridade.
Os dois olharam em sintonia para o prisioneiro. O
delegado acendeu novo cigarro enquanto dizia:
— Nunca imaginei que o Geninho fosse
tão venerado na cidade. Quase um santo. Se o povo soubesse a
verdade…
— Preferiram um santo de mentirinha ao de verdade,
compadre.
— É, amigo Lutero, o povo nunca tem razão. E os poderosos
sempre escapam justamente por serem poderosos. Por estas e outras é que não vou
acusar o prefeito. Quanto ao seu cliente, não se preocupe. Com o tempo o povo
se acalma, esquece o Geninho e eu o libero. Na procissão do próximo ano ninguém
vai lembrar de nada e a Cúria fica satisfeita. Estamos acordados, Lutero?
Dentro da cela, a imagem de madeira maciça em tamanho
natural de São Jorge montado em seu cavalo parecia lamentar o acordo espúrio
firmado entre o delegado e o advogado cujo cínico aperto de mãos ele era única
testemunha. Juventino ainda pitou pela derradeira vez o seu cigarro de palha
antes de filosofar:
— Na verdade, compadre, somos todos uns capadócios, sem
exceção.
O advogado assentiu, flexionando a cabeça.Se eu fosse qualquer coisa
Escrito por
ofilhodoblues
Se eu fosse amor,
Queria ser solidão.
E sendo solidão
Ia casar, ter filhos
Como quer
Toda e qualquer
Solidão.
Se eu fosse peixe
Queria ser camarão.
E sendo camarão,
Queria ser um
Mamífero de duas pernas,
Porque não gosto
Nem de peixe
Nem de camarão.
Se eu fosse pedra,
Queria ser a água
Que bate nela.
E sendo a água
Que bate na pedra,
Queria ter um pouco
A maciez dura
De um poeta.
Mas se fosse poeta
Seria louco
E ia querer ser eu mesmo.
E sendo eu mesmo
Queria ser qualquer um desses.
André Espínola
Queria ser solidão.
E sendo solidão
Ia casar, ter filhos
Como quer
Toda e qualquer
Solidão.
Se eu fosse peixe
Queria ser camarão.
E sendo camarão,
Queria ser um
Mamífero de duas pernas,
Porque não gosto
Nem de peixe
Nem de camarão.
Se eu fosse pedra,
Queria ser a água
Que bate nela.
E sendo a água
Que bate na pedra,
Queria ter um pouco
A maciez dura
De um poeta.
Mas se fosse poeta
Seria louco
E ia querer ser eu mesmo.
E sendo eu mesmo
Queria ser qualquer um desses.
André Espínola
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
sábado, 14 de fevereiro de 2015
BOLIVARIANO
Escrito por
edweinels
Enrolado sem pudor
numa bandeira socialista,
proclamou o ditador:
Rebelião? Nem ouço.
Com o martelo causo a dor
e passo a foice no pescoço
de qualquer opositor”.
***
numa bandeira socialista,
proclamou o ditador:
Rebelião? Nem ouço.
Com o martelo causo a dor
e passo a foice no pescoço
de qualquer opositor”.
***
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Borboletário
Escrito por
André Foltran
[abril de 2009/fev. de 2015]
Desde os 13
Desde os 13
o meu quarto
está repleto
de borboletas,
borboletas
na janela,
borboletas
nas gavetas,
borboletas
amarelas,
borboletas
pretas,
borboletas,
borbotetas,
borbocetas,
borboletras.
***
LIBERDADE CATIVA
Escrito por
Daniel Delgado Queissada
Na esperança da liberdade da entrega
Mas preso nos temores deformados pelo tempo
Questionando as certezas da espera
Certamente duvidosas geram medo
Clareando o breu da alma
Faltando o que antes era sobra
Sobrando o que agora mata
Auspicioso continuo na entrega
Entregando o que mais me afeta
Afetivamente preso na liberdade que auferi
Displicente ao que se passa ao redor
Mas consciente ao que se passa em mim
Hoje liberto nos desígnios que hoje pelejo
Mas cativo nos anseios presos a mim
Criados pela certeza que hoje vejo
Mas ainda esperançoso na liberdade que sinto em ti
Tendo certeza do que hoje almejo
Tão certo do que apeteço
Tão clara como a luz que cega
É a dúvida que tudo isso acarreta
Nada mais intenso me inspira
Do que a liberdade cativa
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
FAMÍLIA – a saga de satã
Escrito por
Pablo Treuffar
Conto macabro
Estória sinistra
Trilogia bizarra
Três gerações
Uma mãe
Uma filha
Uma neta
Uma saga cruel
O maior carma
Agosto de mil novecentos e setenta
A gosto do diabo uma criança veio ao mundo
O demônio em forma de anjo
Maldades nada são perante o desumano
Tudo pode piorar
Sociopatia premeditada
Pouco pra pobre mãe
Quando você acha que tudo vai dar errado, já deu!
A neta veio somar perversidade
A nata do pecado
Duas proles encostadas num objetivo maquiavélico
Um plano elaborado
Uma doença inventada
Um acordo pra sugar a matriarca-mor
Pra nunca baterem um prego
Deu certo
O satã venceu
Gastaram todo o dinheiro
Tiraram toda a saúde
Duas vampiras inúteis enterraram a mãe viva
Não sobrou nadaa
Estória sinistra
Trilogia bizarra
Três gerações
Uma mãe
Uma filha
Uma neta
Uma saga cruel
O maior carma
Agosto de mil novecentos e setenta
A gosto do diabo uma criança veio ao mundo
O demônio em forma de anjo
Maldades nada são perante o desumano
Tudo pode piorar
Sociopatia premeditada
Pouco pra pobre mãe
Quando você acha que tudo vai dar errado, já deu!
A neta veio somar perversidade
A nata do pecado
Duas proles encostadas num objetivo maquiavélico
Um plano elaborado
Uma doença inventada
Um acordo pra sugar a matriarca-mor
Pra nunca baterem um prego
Deu certo
O satã venceu
Gastaram todo o dinheiro
Tiraram toda a saúde
Duas vampiras inúteis enterraram a mãe viva
Não sobrou nadaa
Pablo Treuffar
FAMÍLIA de Pablo Treuffar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
Based on a work at www.pablotreuffar.com
A VERDADE É QUE EU MINTO
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Um quarto em chamas
Escrito por
Robisson Sete
Um poema
arranha o vidro da janela com as unhas, anunciando sua presença numa
angustiante e lenta ranhura, como às vezes faz a chuva num começo de tempestade
Depois bate
rispidamente na vidraça, golpeando, esmurrando
Impondo-me a fazê-lo existir
É sempre
assim, inesperado e insistente e não tenho certeza se já me acostumei a isso
Forçando sua
entrada se arremessa contra a superfície transparente e cortante, sem medo de
que seu corpo seja lacerado se, com o impacto, tudo se estilhaçar
Ele deseja
existir e me escolheu para arranca-lo de sua carne ao devora-lo vivo
Enxergo seus
lábios, furtivamente sussurram algo
Tem dentes
sujos e olheiras escuras, seus olhos são minúsculos
Então levanto
da cama e apanho alguns livros, arranco suas folhas e preparo no meio do quarto
uma fogueira para receber meu novo amigo incendiário
As chamas
crescem, o vidro se estraçalha, o ar se torna pesado e irrespirável e a
presença monumental do poema toma conta de todo o ambiente
Sinto seu
impacto no peito, a boca instantaneamente seca e os olhos coçam
Fagulhas
rebrilham pelo ar tremeluzindo à minha volta, estou em chamas e minhas mãos são
torrões de carvão, negros e fumegantes
Há tanto calor
dentro do quarto que insetos e moscas caem mortos, ardendo ao meu redor, as
lâmpadas explodem e a madeira das estantes range endemoniada
Em delírio,
como amantes suicidas, num último reencontro mortal, nos abraçamos
Calidamente
nos beijamos, eu e meu poema, como fracassados misericordiosos que somos, não
nos escondendo em frestas sociais e purgando do singelo desconhecimento de
nossa conjunta obra
Mas isso pouco
importa, pois o fogo ainda continua queimando no meio do quarto e dentro da
minha cabeça as labaredas lambem meus lóbulos frontais
O poema então
senta em uma cadeira e dá o primeiro gole numa garrafa que subitamente surge em
suas mãos
O tempo é
curto
Não há nada o
que dizer
Pego uma
caneta, pouso no papel, deixo o sangue escorrer, o calor toma conta dos meus
ossos e então começo a escrever enquanto as chamas se alastram e tudo ao nosso
redor começa a incendiar
.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Escrito por
Larissa Marques - LM@rq
II
Suas alegorias insanas trazem lembranças do tempo em que as
esquinas eram menos sombrias e fétidas. De quando os olhos alheios não me
causavam asco e não me chicoteavam danos.
As humanidades nunca me proporcionaram pão e vinho e se não
fosse minha capacidade de abstrair talvez não tivesse sobrevivido.
Mesmo assim, Kerouac, doei-me a seus devaneios por
altruísmo, de maneira simples e cívica me coloquei em seus braços magros e
jovens como quem se entrega com gosto ao seu carrasco.
Nos becos o caos, a selvageria, a desordem e o atentado ao
próximo sempre me acompanharam de perto, era jovem e inconsequente, nada me
atingia em cheio!
Nós nunca almejamos arco-íris ou chuva de meteoros!
Enquanto você me esperava em casa com a perna quebrada, por
tantas rasteiras da vida, eu me vendia por bebida e diversão. Por horas, dias e
anos estranhos meteram a mão por baixo de minhas saias arrancando-me ralos
pudores, deixando esmolas e levando gozos recolhidos.
Não estou reclamando, aprendi contigo a não me arrepender de
nada! Os quarters que meu corpo recebia compraram ovos, conhaque e companhia
sua.
(fragmento de meu livro: Carta a Kerouac)
https://agbook.com.br/book/179030--Carta_a_Kerouac
https://agbook.com.br/book/179030--Carta_a_Kerouac
Assinar:
Postagens (Atom)