sábado, 21 de janeiro de 2012

Inusitado


O novo chega de repente.
De maneira inusitada.
Quebrando a vidraça da janela,
Subindo pelas paredes...
Ignorando as escadas.
O novo chega com o corpo ausente.
Mas, a alma estilhaçada.
E, refaz-se juntando os pedaços
De outras almas que encontra na estrada.
Corpo e alma, vidas novas...
Novos rumos, rastros indecisos.
Não sabe aonde ir,
Mas é preciso.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Convidado Rui Werneck de Capistrano

Ficsonho

Na saída da Biblioteca Pública, a menina-moça abraça amorosamente um livro contra o peito em flor.
Que livro não gostaria de ser um garotão sarado nessa hora?





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Rui Werneck de Capistrano, de Curitiba, é autor de NEM BOBO NEM NADA, primeiro romancélere brasileiro. Contato: rwcapistrano@gmail.com
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Pisciano

sou um homem sem vontades
que sente saudade
das vontades
que nunca teve.

o que existiu em mim
foi como devaneio,
que ao sinal do
primeiro passo,

fechasse os olhos
e morresse.

André Espínola

Mensalmente

Há um vulcão escondido
De onde brota sangue grosso.
Forte, quente e vivo.
Lágrimas de algo que foi morto.

Ele jorra aos montes.
Escorre entre as minhas pernas
Limpando a dor ou o amor antigo.
E muitas vezes, suja o meu vestido.

O sangue se esparrama pelo chão,
Não faz cerimônias ou concessões
Apenas me afoga em seus braços lânguidos.
E reafirma algo que tento esconder.

Não há fruto, não há semente
Nem espera ou desespero
Apenas uma mulher que colore
De vermelho, o banheiro.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A escuta

onde a voz aponta
e o dedo alcança
sangro esta palavra
em riste, como peito
em lança sem escudo
como água em pedra cristalina
como o rugido do fogo
silêncio de horizonte sem auroras
bocejo de luas amanhecidas
solares sorrisos de criança

nos lábios, as digitais
olhos viajam repletos de sonhos e sílabas
nas falanges distais, o início

e quando o grito rompe
o eco das estrelas
calo
contemplativo
a escutar o ruflar do universo
pulsando infinitos

(Celso Mendes)

sábado, 14 de janeiro de 2012

A Pescadora de Luas

(Sonia Cancine)
.

Eternizam-se na memória
- no embalo do vento -
Absorvidas pelo nó sorvido
- com gosto de maçã -
Emoção em gotas cítricas e hortelã.

Das pupilas e das contas d’água
- do verde mar de seus olhos -
Da bruma espuma, nódoas de solidão
O vinho escorre nas veias, rompendo o chão.

Arranco calhetas e cascalhos
Do ferrolho de meu peito
- sou pescadora de Mim -
Húmus mudos
Fragmentos que perdi...

A Luz espalha o seu aroma
Na Terra que fenece
Irrompe em tempos estranhos
Onde se tinge de sangue
Precipita-se ao Sol e
Só se detém, ao amanhecer.

Vislumbro o oceano
- no marejar de meus olhos -
E ao trazer a alma azul do mar e do céu

Eu chorava ao voltar para a Terra.

O imaginário da Lua inspira-me
- a mulher guerreira -
No fundo do lago ou de Yaci...
Qual espelho da Lua, na face refletida

O antes e o agora
- pescadora e cavalgante -
De águas e terras distantes
Neste agreste mundo aquoso

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Dúvida


  

Muitas coisas me intrigam nessa vida. Coincidências são algumas delas. Eu sempre pensei em escrever, na verdade, eu tenho escrito faz tempo, escrever me dá uma boa sensação de liberdade. Algumas semanas atrás, um amigo me perguntou se queria escrever para o blog, que coisa legal. E o mais legal, eu não disse absolutamente nada e o dia escolhido para eu começar foi 13 de janeiro. Coincidência? Eu nasci em 13 de janeiro. Mas tudo bem, não vou escrever sobre coincidências. Não hoje.

Dúvida. Sim, na dúvida, vou escrever sobre ela mesma. Embora a dúvida esteja sempre viva para o próximo pequeno segundo à frente, vivemos amarrados à certeza. Qual certeza? De quê? Tanto se pesquisa, tanto se estuda, mas quanta coisa ainda a ser respondida e quantas respostas que criam novas perguntas. Certeza mesmo só do fim, ou você acha que não? Não?

A verdadeira sabedoria está na dúvida e não na certeza. Aristóteles escreveu sobre isso bem antes desse meu texto. Uma criança de poucos anos que não cabem em uma mão cheia pode fazer simples perguntas para deixar muito pesquisador chateado. Veja no exemplo uma conversa séria de pai para filho que presenciei recentemente:
- Pai, por que os dinossauros não existem mais?
- Filho, veio uma bola de fogo do céu e queimou tudo e eles morreram.
- Não entendo o porquê do papai do céu mandar a bola de fogo e eles morrerem! Por quê?
Sim, é um exemplo infantil, mas dúvida genuína é sempre infantil, acabou de nascer. Em seguida ela nos move ou nos paralisa. Ou então fingimos estar dominando a dúvida só enquanto podemos ter certeza da sua resposta. Não, não estou falando de dúvida que o Google pode responder, estou falando de dúvidas sérias. 

Faça uma lista das suas dúvidas e certezas na sua vida, coisa rápida. Seja sincero. Não fique em dúvida, mesmo que sua lista precise estar escondida dos outros. Não confunda essa reflexão com irresponsabilidade, ou seja, vou largar tudo e viver na dúvida. Faça a lista. Descubra suas dúvidas. Elas podem te dar certeza de algumas boas coisas! 

Como encontrar um retorno? ou Sobre o entendimento

 
O carro está parado e desligado.
Ela está sentada no lugar do motorista, ele no banco do carona.

ELE: Tenho que ir.
ELA: Tem certeza?
ELE: Acho que a gente tá num ponto sem volta.

Ele solta o cinto de segurança. Ela desvia o olhar. Tenta se ajeitar, mas o banco não ajuda.
Tampouco o cinto.
Encontra com o olhar o retrovisor e permanece olhando fixamente por ele. Tenta ver alguma coisa que não consegue enxergar.

ELA: Como eu faço pra sair daqui?
ELE: Segue em frente. No fim da rua, tem um retorno.

Ele não sai do carro. Ela não liga o carro. Parece um impasse.

ELE: Você consegue ver pra onde a gente vai?
ELA: Não sei.

Ela decide ir embora.
Está sufocada, precisa sair daquele lugar. Tenta ligar o carro, mas o carro não liga. Ele ignora a tentativa dela de ligar o carro.

ELE: Pois é. Também não sei.
ELA: Não quero que acabe.
ELE: Nem eu. Mas acho que você não tá pra valer.
ELA: Como assim?
ELE: Acho que a gente podia ir adiante, mas não vejo você abrir mão de nada.
ELA: Como?
ELE: Desculpa, vou reformular. Acho que você podia abrir de algumas coisas.

Ela olha pra ele.
Pensa o que ele deve estar sentindo. Tenta adivinhar. Sente que o esforço é em vão.
Fala, bastante incisiva.

ELA: Mas eu já abro mão de muita coisa. Pode ter certeza.

Silêncio.

ELE: Não quis te ofender.
ELA: Sei que não.
ELE: Tô falando sério.
ELA: Eu sei.
ELE: Quero voltar.
ELA: Eu também.
ELE: Mas vai ter que ser diferente.
ELA: Eu sei.
ELE: Tudo. Completamente.
ELA: Completamente diferente é ódio. Não quero te odiar.

Silêncio.

ELE: Sabe que eu não falei isso.
ELA: Você disse completamente diferente.
ELE: Eu sei. Mas você sabe o que quero dizer.

Ela não sabe.
Não faz a mais vaga ideia. Pensa consigo o que seria diferente. Amar mais parece impossível. Mais dedicação, também. Não sabe o que ele quer dizer. Nem o que sentir.
Não sabe amar mais. Também não sabe amar menos.

ELE: Você entende o que quero te dizer?
ELA: Entendo.

Não, ela não entende.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

venda de produtos do BdE



O Bar do Escritor, a Factotum e a Incessante Presentes firmaram parceria para vender e enviar os produtos do BdE. Por enquanto, estão disponíveis apenas as três antologias, mas em breve teremos camisetas, canecas, ímas de geladeira, copos, lápis, canetas, borrachas, cadernos de anotação e outros mais. Aguarde. E conheça:

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Convidada Roberta Doelinger


Tempo

Na linha da vida
 
Onde o tempo é tudo
 
Onde o tudo é nada
 
Somos simples passageiros
 
Desta triste
 
E longa jornada

 
Já sabemos pois
 
Que o tempo é veloz
 
Devorador do amor
 
E da sorte
 
Carrasco da vida
 
E mestre na morte

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Roberta Doelinger

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A LOURA DO CARA


A LOURA DO CARA

Rua Visconde de Pirajá com Vinicius de Moraes
Ipanema
Três da madruga
Um carro parado
Dentro uma loura gostosa discute com um cara
Posso ver claramente no meu telescópio
Seu decote
Sua minissaia
Suas cochas
Tenho uma ereção
Saio da janela
Sirvo-me uma dose de uísque
Meu pau não abaixa
Aperto um verdinho
Dou vários catrancos na erva
Meu pau não abaixa
Volto pra janela
O carro ainda está lá
Miro meu telescópio pra gostosa
Eles ainda discutem
Penso várias coisas
Ela deve ter o traído e ele descobriu
Vadia deliciosa
Meu pau não abaixa
A loura da um tapa na cara do cara
Com certeza ele descobriu que foi corneado
Ela sai do carro batendo a porta, com raiva.
Passional
O cara do carro vai embora
Caralho, ela é muito mais gostosa em pé.
Desisto do telescópio
Olho a olho nu
Da minha janela constato suas curvas
Sua minissaia preta colada ao corpo oferece-me sua bunda
Seu decote dourado serve-me suas tetas siliconadas
Meu pau não abaixa
Lá está ela, abandonada, andando de um lado pro outro.
Desfilando suas carnes pra mim
Dou um baita gole no uísque
Um tapa no bagulho
Ela me vê
Pegou-me de bagulho na mão
A vadia ri pra mim
Fico imóvel na janela
Ela grita:

- Posso subir e dar um dois aí com você?

Não acredito
Continuo imóvel na janela
Ela grita de novo:

- Tô falando com você

Mando-a subir
Meu pau não abaixa
Ôôô... Sooorteee...
Em minutos a loura estará no meu apartamento
Crio um clima à meia luz
Deixo a vista uma garrafa de uísque e um paco de maconha
Ela toca a campainha
Abro a porta e ajeito a pica
Que visão
A cadela vai direto ao meu telescópio e pergunta-me:

- Você espiona muita gente com isso?

Respondo sim
Ela continua:

- Gostou do que viu dentro do carro do meu namorado?

Respondo sim
Ela não para de falar:

- Aquele otário acha que eu tô sempre dando pra outro, acredita?

Eu tenho certeza
Respondo não
Ela senta no sofá, cruza as pernas e ascende um cigarro.
Cavala
Em pé na porta eu posso ver bem
Ajeito a pica e fecho a porta
Ela olha pra minha pica e da um trago no cigarro
Silêncio
Sento-me ao seu lado e aperto um baseado
Silêncio
Ascendo o verdinho e dou pra ela
Silêncio
Ela da um tapa no bagulho, depois outro, e mais outro.
De repente ela bota a mão na minha perna e fala:

- Isso não tá me dando onda, você tem cocaína?

Respondo não
Porra, a maluca grita-me na janela querendo fumar um, e agora quer cocaína, tô sentindo cheiro de merda.
Sem tirar a mão da minha perna ela diz:

- Vou ligar pro moto-taxi, tem problema?

Claro que tem problema
Respondo não
O telefone dela toca, ela não atende.
Batem na porta
Não estou esperando ninguém
Uma voz masculina grita:

- Eu sei que você está aí sua piranha, abre essa porta porra!

Calmamente ela olha pra mim, da um trago no cigarro, levanta, abre a porta, e vai embora.
Corro pra janela e vejo o mesmo carro na esquina, vazio.
Os dois saem do meu prédio e andam na direção do carro
Ainda a escuto falando pro cara:

- Eu te amo seu bobo, o Mauricio é viado, eu nunca te traí.

Meu pau não abaixa


Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
Based on a work at http://www.pablotreuffar.com/.
A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

domingo, 8 de janeiro de 2012

Celofânica


Meus dedos cansados
Deslizam
Cordas imaginadas
Pendem sobre abismos

Tensas

Dedilho com cuidado
Velocidade de dobra
Desfolho sonhos apressados

Penso catecismos

Conselhos didáticos
Vagueiam pelas cercas
Em vôos celofânicos

Tudo vão

Recolho as asas
Imensas dentro do alambrado

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Adágio Prestíssimo de Adalgisa Pitonisa




Zarabumbeia a zabumba em derredor do ataúde
A terra engole a prole
de Adalgisa
Esconjuros de ebós de mandingas de "viernes santo"
Um negro ancião estala a língua e os ossos
Socializando o fogo fluido engarrafado na fonte
O futuro é um gato preto com futum de pelo molhado
Jesus Fura-bucho masca mato e cospe cospe cospe
Mariposas em revoada (mariposas revoam?)
antecipam o eclipse vaticinado pelo velho
a barba cofia desconfiado nauseabundo e lúgubre
Se esvai o dia do augúrio mau

Adalgisa chora
Adalgisa grita
Adalgisa cai
A terra devoradora de "niños"
revolve
e rega

Desesperai, filhos do homem!

Adalgisa vê
a luz de Jesus
Adalgisa arrebata
o prateado revólver
cano boca cano boca
estrépito silêncio
sete palmos

dor pungente
finis
mezinha quente

Adalgisa sabia
os mortos não mentem.

Carlos Cruz - 28/07/2010

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Gripe Literária

Acordar gripado é terrível. Com a garganta inflamada e torcicolo então, aí é pesadelo. A constipação da gripe afeta o cérebro e o pensar, a inflamação das cordas vocais te deixa afônico e sem condições de se expressar corretamente e o pescoço imóvel, apontado sempre na mesma direção ilustra muito bem aqueles que não movem o seu pensamento, que não veem outros horizontes e são habituados só com uma visão de mundo.

Junte à isso estar editando um livro, fazendo uma monografia e estudando para provas finais. Punk, né? C´est la vie.

Aproveito que ainda é manhã madrugada e vou pagar contas na lotérica. A fila da manhã é melhor do que a da tarde e o danado do ar-condicionado não está ligado. Corria o risco de despertar a sinusite e aí é que a coisa teria tudo para desandar.

Cubro-me igual a um explorador antártico (São Shakleton, rezai por nós), com tudo a que tenho direito: blusas em dobro, gorro, um cachecol do tempo de criança, calças de moleton e pantufas. Não, melhor deixar esse negócio de pantufas só para dentro de casa. Vou de coturno. Por educação ao meu semelhante, caio na besteira de usar uma máscara clínica, daquelas de médico. Sou o último de uma fila de tamanho médio, recheada de velhinhos e aposentados. A senhora à minha frente fica me olhando meio de esgueira, meio assustada. Meu andar frankesteiniano e o tom apocalíptico dos telejornais podem ter alguma coisa com isso, deduzo. Tentando fazer uma brincadeira para animar o ambiente e diminuir seus receios, solto a máxima:

Rigidez cadavérica post mortem.

O resto da fila se abre em bandas dignas do Mar Vermelho. Sem graça com a graça que não deu certo, pago minhas obrigações e ainda faço uma fezinha. Vai que hoje é o dia?

Retorno ao meu espaço virtual, obstinado. No caminho pela cozinha, faço todas as receitas de chá que a família recolheu nos últimos trezentos anos. Enquanto as chaleiras apitam e o microondas solta faíscas, adentro o ciberespaço. Vou aproveitar que estou infectado para espalhar isso aos quatro cantos. Quero inocular este vírus em todos, lançar uma pandemia (que bem podia se iniciar aqui, em tupiquimlândia), atingir você do Msn, do Skype, do Orkut, do Facebook, dos três tipos de e-mail, dos sites e blogs afins, você que navega porque é preciso.    

 I have a dream! Na verdade, mais de um, mas é que a citação cai bem. Um deles é disseminar a novíssima (ok, nem tão nova assim) gripe literária. Aquela que não se trata com comprimidos ou drágeas, chazinhos da vovó ou infusões; mas com escritos reais, virtuais, ideias (com ou sem acento), incutir nos outros a vontade de ler, se informar, tornar-se crítico diante dos fatos que o cercam, que o fascinam, que o afligem.

Eu quero um País com “p” maiúsculo e que leia bastante, seja criterioso o suficiente, cidadão em suma, antenado com o mundo e cumpridor daquela velha promessa que citava o futuro.

E para isso precisamos de você. E de mim, das velhinhas das lotéricas, dos adolescentes irados, dos cidadãos desiludidos e daqueles sonhadores que ainda não jogaram a toalha, dos jogadores de futebol e das personalidades da tevê; das empregadas, dos varredores de rua, mecânicos e professores, independente da fé que professem, das...

Agora vou tomar um chá com oito mil comprimidos que minha mãe mandou avisar que estou tendo alucinações... Ou será que estou mais sóbrio que nunca?

 

P.S – Se alguém souber como arrumar textos em .pdf, a ajuda seria bem vinda... 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

sol de janeiro e ano inteiro

no acalanto de sua chegada
descobriu-me mulher
giro em sua órbita
provoca em mim estações
e desconhece-me esfera

causou-me amanheceres meridianos
as belas horas brilharam aqui
vogaram tanto e como que declinaram
no desespero de seu poente
ah, meu amor, minhas dúvidas!

seus lábios queimaram os meus
fizeram juras que não podem cumprir
não sou júpiter ou urano
nem sou saturno e em segredo
trago seu anel no polegar esquerdo

meus olhos devotei aos dias
que choram durante a noite
é madrugada agora
sinto a frieza da solidão
um medo tão meu

obedeço a ordem que impôs
apertam-me suas margens
privam-me do seu calor
tento esquecer o que foi
todas as manhãs.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Possuído


Eu quero um homem complexo
e cheio de marcas,
com erros sem volta nas linhas do rosto,
no corpo, na alma.

Eu quero um homem que pense
que ele não tem cura,
nem paz, nenhum porto
e que eu lhe seja uma nova aventura,
mudança de rumo, refresh na tela.

Em suma:
eu quero alguém
que ao sentir o meu cheiro,
meu beijo, meu sexo
se esqueça um pouco da vida
tão dura.

domingo, 1 de janeiro de 2012

início de ano


gastei as horas inúteis desses últimos dias relendo mulheres, do bukowski, e conhecendo dentes negros, do andré de leones. tb passei as vistas por “Douze preuves de l'inexistência de Dieu” ("Doze provas da inexistência deDeus"), este virtual, de Sébastien Faure, um anarquista francês da virada do séc. XIX. recomendo. 

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

BdE - Terceira Dose - lançamento em breve.


A antologia Bar do Escritor - Terceira Dose - está sendo distribuída aos autores de todo o Brasil (Manaus, Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador, Curitiba, Porto Alegre, entre outras cidades) para o lançamento nacional, que ocorrerá em breve. A edição desta obra alcançou 2000 exemplares, possui 37 escritores, foi publicada pela Netebooks e determina a maturidade da comunidade de literatura barnasiana, em sua função precípua de incentivar a leitura e divulgar novos autores nacionais.
Aguarde informações sobre o lançamento, que ocorrerá simultaneamente nas diversas cidades dos escritores participantes. Com a facilidade da tecnologia atual, as festas estarão conectadas pela internet e as imagens ficarão disponíveis online no site do Bde e aqui neste Blog.
Conheça. Participe. Divulgue.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Culpa

Quando Ele apareceu, perguntando quem é que havia comido do fruto proibido, todos ficaram desesperados. Adão, que não havia sequer se aproximado da árvore, não pensou duas vezes, apontou o dedo acusador para Eva e disse que havia sido ela.

Os pássaros até hoje assobiam, fazendo-se de desentendidos.







Texto presente no http://livrocolchaderetalhos.blogspot.com

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Convidado Elton SDL

COMPUTADOIDO

Seria bom se com um CTRL+Z eu pudesse desfazer
Os erros da minha vida
Formatar o drive, deletar os vírus, alternar entre as janelas
Com um ALT+TAB
Dar um Enter nas coisas sabe?
Com o F1 obter a ajuda necessária (o que seria o F1?)
Ter uma precisão exata nas buscas, não errar
Nunca
Se eu quisesse aprender a dançar, matemática, escalar montanhas, ser infalível no amor, mil tarefas executar, seria fácil: era só um programa correspondente instalar
Em mim
Sem rumo digitaria o endereço
Pra (me) encontrar
Fazer um Logoff se eu não estivesse bem...
Mas um dia me desligarei e com um CRTL+Z me desfarei.



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Elton SDL


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sábado, 17 de dezembro de 2011

Trânsito Intenso



não importam as horas,
se é sol
ou se é chuva.

há sempre
engarrafamento
de saudade

entre a minha estrada
e a tua.

André Espínola

Vaga Lux


Vagalumes constituem
uma serenata visual
para poetas.

Decerto que para alguns lagartos
as mesmas lamparinas voadoras
constituem, cocomitantemente
um jantar-jantar à luz de velas.

mas, o fundamental
é que à noite
quando saem para um passeio de bicicleta
os poetas costumam perder o ritmo.

e não conseguem permanecer
no
um-dois-feijão-com-arroz.

Normalmente eles vão pedalando
e olhando para o inabitável escuro
lá de trás.

É como se de repente
todos os matagais noturnos
pudessem espelhadamente
refletir estrelas cadentes
e inquietas.

No chão do mundo dos poetas.



(Jessiely Soares)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Impressão boêmia e entorpecida sobre a rua, postes e afins


o vinho bate vermelho em minha ideia anoitecida
a madrugada flui seu sereno em telhados embriagados
palavras flutuam consignadas no silêncio da bruma
a sombra conforta o sono das cores adormecidas
e meus olhos
mentindo-se impassíveis
registram o reinado das mariposas

(Celso Mendes)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O GRITO


O GRITO

Agachado em cima da pia da cozinha
Grito
Maconheiros
Maconheiros
Eu vou ligar pra policia
Os vizinhos
Violões
Bafafá
Não vão me deixar relaxar
Acordo cedo
Todo dia
Eu trabalho
Eu também fumo maconha
Agachado em cima da pia da cozinha
Grito
Maconheiros
Maconheiros

(somos todos egoiguais)

Pablo Treuffar
Licença Creative Commons
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A VERDADE É QUE EU MINTO

A VERDADE É QUE EU MINTO

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

querido





¸¸.*♡*.¸¸.*☆*¸.*♡*.¸¸.*☆*.¸¸.*♡*.¸¸.*☆*

sei bem que não te amo,
mesmo quando te chamo assim
guardo teu olhar e meu susto
num frasco

o vidro reflete essa coisa nua e estranha

repetes no escuro o que já sei. Não te amo, amor

recitas cantilenas febris e obedeço à calma
traças amarras rendadas nos meus lábios
mas são teus olhos, honey.
não te amo.

agendamos ao acaso esse desencontro, essa fome
nisso concordamos. Carne, alguma alma e tuas mãos
esparramadas no prato minhas novenas cifradas

é libertador não te amar, Love. Confesso.
pode comer essa menina fosca, essa ninfa
essa estranha que entrevejo e amo

e só aparece nos teus olhos.


¸¸.*♡*.¸¸.*☆*¸.*♡*.¸¸.*☆*.¸¸.*♡*.¸¸.*☆*

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


micropoeta


o poeta é um prostituto
finge quase sempre

mente

de quando em quando,
goza

sente,
sempre

o poeta é um puto.

Carlos Cruz - 20/10/2011
* Gravura: Crying Girl, de Roy Lichtenstein.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dos perdões nunca pedidos


“I know someday you'll have a beautiful life
I know you'll be a star
In somebody else's sky, but why, why, why
Can't it be, can't it be mine”
[1]

            Eu só queria pedir perdão. Por haver cometido com minhas novas ações, velhos erros, falhas grotescas que sempre juro não mais fazer, mas que acabo sempre repetindo, nessa rotina de desconfianças infundadas e ciúmes estúpidos. 

Eu te amo. E havia vindo lhe dizer isso, que não era isso da boca para fora, que era verdadeiro e pulsante. Mas desconfio que comecei a te perder no dia em que te disse isso e agora você já não me ouve mais. Sua frieza e seu aspecto marmóreo me dão a certeza que não terei a redenção que vim buscar. Não atendes nem aos meus gritos que ecoam pela noite, soltos como corvos, fazendo revoadas sobre minha casa, nossa um dia...

Então isso é um adeus.

Parto em pedaços, enquanto me vou, mas parto com uma parte tua, levo teu olhar e teu coração comigo, pois é onde sempre deveriam estar. Vou tratá-los com o amor e carinho que merecem, os mesmos que sempre devotei a ti.

E se houver uma eternidade depois desta vida, espero te encontrar lá por acaso, em um desses dias claros, num céu de brigadeiros sem nuvens...

- É isso, doutor. O cara nem assinou a tal carta.
- Tem certeza que era o ex mesmo?
- Absoluta, o porteiro do prédio em frente o reconheceu. Veio de madrugada, encontrou a mulher com o novo namorado, meteu três tiros em cada um deles, depois escreveu isso aí na parede, com o sangue das vítimas. 
- Vinte anos na polícia e nunca tinha visto algo igual.
- Pois é doutor, nem eu. O meliante ainda levou o coração e os olhos da moça!
- Já sabem alguma coisa do safado?
- Pelo que levantamos até agora, ele era metido a escritor, poeta, algo assim...
- Por isso é que eu nunca gostei desses tipinhos.
- Nem eu doutor. Fulano que fica com a fuça muito tempo enfiada em livro um dia endoida... E faz uma merda dessas.
- Indivíduos perigosos, perigosíssimos! Nunca fiquei tão enojado na vida... Agora vá na padaria do lado e me compra dois sanduíches. Final de plantão sempre me dá uma fome do cão.


[1]Eu sei que um dia você terá uma vida maravilhosa
  Eu sei que você será como uma estrela
  No céu de um outro alguém
  Mas por que?
  Por quê?
  Por que não poderia?
  Por que não poderia ser no meu?

Black – Pearl Jam

sábado, 3 de dezembro de 2011

a dobra do origami

vi então suas asas
nascendo sobre seus braços
tomando suas mãos
enquanto outras criaturas
de papel voavam

esses seres alados se reuniam
sobre seus glúteos
sobre sua vulva
erguiam-se em dobras

enfim eram saias que ocultavam
um corpo marcado
um coração desfeito
dois pés dilacerados

a musa rubra descansa
sobre os mesmos olhos
que passivamente fere
e cega

não entende os males
que prolifera e paira
quase meiga e só
sobre a terra devastada.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



Essa mulher nem sabe
o que é frigidez:

com ela o orgasmo
é múltiplo de três.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Gerente de bacanal



O filho de um amigo lançava seu primeiro livro na feira. Encontrei o pai do moleque, todo orgulhoso, ao lado da Isabela, amiga mútua, conversando.
- e você, quantos têm?
- ah, Isa, só um. mas organizei três, lancei outros tantos e ajudo a quem quiser fazer o seu próprio.
Ela me olhou entre atordoada e confusa.
- o que você faz, gerencia bacanal?
Meus cabelos rebeldes andam escassos; meu bigode é singular, eu sei, mas não ofende; ainda falo palavrões, mas agora na norma culta; as tatuagens ficam escondidas pelas roupas... minha aparência é comportada, eu estava sóbrio e com colírio. Por que cargas d´água ela achou que eu gerenciava bacanal?
- o quê?
- te perguntei quantos filhos tem. você respondeu que já organizou alguns, ajuda os outros a ter...
Sorri, adoro confusões. Pensei que ela falava sobre livros.
O pai me olhava sorridente.
- hehehe, sim, imagine meu filho se apresentando no colégio: papai é gerente de bacanal. Onze tios e treze tias trabalham pelados lá em casa toda semana.